sábado, 14 de março de 2026

A França gesticuladora: diplomacia de abutre

 


A França gesticuladora: diplomacia de abutre

14 de Março de 2026 Robert Bibeau


Por Khider Mesloub .

Na natureza, os necrófagos não provocam a morte. Esperam que ela faça o seu trabalho. Depois, acorrem para se banquetear com os restos.

No panorama geo-político contemporâneo, a diplomacia francesa parece seguir um mecanismo bem conhecido na natureza: o do necrófago. Alimenta-se de tensões internacionais que lhe escapam e de conflitos militares que também não controla, limitando-se a deslizar na sua esteira para exibir um poder militar fantasioso.

Uma postura que se enquadra menos numa estratégia coerente do que numa diplomacia gesticulatória, em que a exibição de poder visa sobretudo impressionar, por não conseguir realmente influenciar os acontecimentos que a ultrapassam.

França, o abutre do campo de batalha

No imaginário estratégico francês, a França gosta de se representar como uma águia, uma potência militar capaz de pairar acima dos conflitos e de impor a sua vontade. Mas, para uma parte da opinião pública internacional, a imagem é bem diferente: a de um abutre. Pois, tal como um abutre atraído pelo cheiro de sangue, Paris parece estar à espreita de crises e guerras para se banquetear com as carnificinas que alega querer prevenir.

O que salta à vista na trajectória recente da política externa francesa não é a obstinação diplomática em prevenir guerras, nem a arte paciente de apagar os incêndios do mundo. É, pelo contrário, a rapidez com que Paris se insere no dispositivo estratégico ocidental assim que os conflitos eclodem. Como se cada crise internacional constituísse menos uma tragédia a conjurar do que uma ocasião para encenar a sua presença militar fantasmagórica e para recordar, através de uma demonstração muitas vezes gesticulante, as suas pretensões de poder no jogo brutal das relações de força que não domina.

Gaza, Ucrânia, Irão: a França a reboque das guerras imperiais

Esta postura manifestou-se com uma clareza impressionante na sequência dos ataques de 7 de Outubro de 2023. Enquanto o Médio Oriente mergulhava novamente na violência, Emmanuel Macron deslocava-se a Israel e apelava à mobilização contra o Hamas da coligação internacional inicialmente constituída para combater o Estado Islâmico. Com esta iniciativa oportunista, o presidente francês parecia, acima de tudo, procurar elevar a França ao estatuto de líder de uma coligação cuja existência continuava a ser, em grande medida, retórica. Ao fazer esta assimilação, procedia a uma importante mudança política: um conflito colonial foi subitamente absorvido pela retórica mundial da «guerra contra o terrorismo». Esta mudança não foi insignificante. Transformou a questão colonial palestiniana num confronto civilizacional, abrindo assim caminho para uma lógica de erradicação militar, em vez da procura de uma solução baseada na independência da Palestina.

Ora, esta interpretação está longe de ser neutra. Ao equiparar o Hamas ao jihadismo mundial, ela reclassifica um conflito colonial como uma guerra de erradicação. O adversário deixa de ser um combatente palestiniano com quem se poderia negociar uma solução política; torna-se um inimigo absoluto cuja destruição constitui o único horizonte. A partir daí, a diplomacia francesa, mais sionista do que Israel, adopta uma linguagem de brutalidade assumida: a França macroniana fala agora de «destruição» do Hamas e compromete-se com a lógica de um confronto militar sem compromissos. Ora, na visão sionista israelita, a população palestiniana de Gaza é amplamente equiparada ao movimento Hamas. O apelo à «destruição» do Hamas equivale, portanto, a legitimar uma guerra total contra um território e a sua população. Foi precisamente isso que aconteceu na sequência da cruzada lançada por Macron em Outubro de 2023: uma guerra de extermínio cujos estragos Gaza ainda sofre.

Alguns meses depois, a guerra na Ucrânia revela mais uma vez a propensão da França macroniana para levar a escalada militar cada vez mais longe, fiel à sua diplomacia canhoneira de abutre. Em Fevereiro de 2024, Emmanuel Macron evoca publicamente a possibilidade de enviar tropas ocidentais para combater ao lado do exército ucraniano contra a Rússia, para se banquetear com a carne russa. A formulação pode chocar.

Mas para que serve a guerra senão para se banquetear com a carne de canhão do inimigo? A guerra não é mais do que o banquete macabro das potências capitalistas, cujos proletários constituem o menu.

Mas perante a perspectiva de um confronto directo com a Rússia, várias capitais europeias mostram-se subitamente muito mais cautelosas. O episódio é revelador: ao evocar abertamente um confronto terrestre com Moscovo, o presidente francês ultrapassa um limiar que poucos líderes ocidentais se atrevem sequer a formular publicamente. Mais uma vez, a diplomacia belicista de Macron empenha-se em levar mais longe a escalada militar, fiel a essa gesticulação estratégica que serve de política externa.

O mesmo instinto de abutre parece hoje repetir-se no Médio Oriente. Num contexto de escalada militar em torno do Irão e de crescente mobilização das forças americano-israelitas no Golfo, a recente decisão de enviar um importante contingente naval francês decorre desse mesmo instinto de intervenção. Emmanuel Macron anunciou assim o envio de uma força naval francesa para a região, articulada em torno do porta-aviões Charles-de-Gaulle. Oficialmente, o Palácio do Eliseu apresenta esta operação como uma missão defensiva destinada a proteger os cidadãos franceses e a garantir a segurança das rotas marítimas numa região abalada pela guerra contra o Irão. Na realidade, esta mobilização naval insere sobretudo a França no dispositivo militar ocidental que se estende do Mediterrâneo Oriental ao Mar Vermelho, até às margens do Estreito de Ormuz. Uma demonstração militar destinada menos a influenciar efectivamente o curso do conflito do que a exibir, mais uma vez, as pretensões de poder da França macroniana, demasiado frequentemente reduzida a acompanhar as guerras que pretende orientar.

A cruzada retórica da França chauvinista

A julgar pela retórica do Palácio do Eliseu, esta sucessão de intervenções militares seria uma verdadeira missão moral. Cada crise internacional é apresentada como uma luta pela civilização, pela segurança do mundo livre ou pela defesa da ordem internacional. Sob este verniz virtuoso, o vocabulário mobilizado pelo Palácio do Eliseu confere à postura francesa um tom quase messiânico, como se cada novo conflito chamasse a França a assumir o papel de guardiã armada dos valores ocidentais. Um discurso que serve sobretudo para revestir de um manto moral iniciativas militares cujo alcance estratégico se revela, muitas vezes, irrisório.

Torna-se então difícil não discernir, por trás desta encenação moral do poder militar, um imaginário muito mais antigo. É certo que a palavra nunca é pronunciada. Mas a lógica do relato evoca estranhamente a das antigas cruzadas. Algures no mundo surgiria uma ameaça erigida em encarnação do mal absoluto; caberia então às potências ocidentais – com a França a colocar-se de bom grado na primeira linha – organizar a expedição destinada a restaurar a ordem e a defender a civilização. Sob os trajes modernos da segurança internacional ressurge assim uma velha dramaturgia histórica: a das guerras travadas em nome do Bem.

Nesta narrativa, o Estado francês atribui-se de bom grado o papel de cavaleiro de vanguarda do bloco ocidental. O cenário muda – ontem Gaza, depois a Ucrânia, hoje o Irão –, mas o enredo permanece o mesmo. A cada nova crise, o Eliseu redescobre a necessidade de uma mobilização militar em nome de princípios proclamados como universais, erigindo-se em defensor da civilização, ao mesmo tempo que reveste de um verniz moral iniciativas militares cujo alcance estratégico se revela, muitas vezes, ilusório.

Há nesta postura de abutre uma ironia histórica difícil de ignorar. Por trás da linguagem contemporânea da segurança internacional reaparece um imaginário estratégico que se pensava enterrado com as antigas expedições civilizadoras. As armadas substituíram as galeras, os porta-aviões as bandeiras, mas o espírito de cruzada manifestamente nunca abandonou o imaginário da França chauvinista.

Como se, a cada conflito mundial, Paris reactivasse o seu velho reflexo de cruzada. Uma cruzada moderna, claro, revestida do vocabulário discreto da segurança internacional e dos valores democráticos, mas que, no fundo, reproduz a mesma lógica: a das guerras imperialistas travadas em nome do Bem.

É aqui que a metáfora inicial recupera toda a sua força. Na natureza, o necrófago não provoca a batalha: espera que esta tenha feito as suas vítimas antes de aparecer para se banquetear com os restos. No panorama geo-político contemporâneo, a diplomacia macroniana parece seguir um mecanismo semelhante: esperar que as crises eclodam para surgir na sua esteira e exibir, através de gestos militares, as pretensões de uma potência que mal consegue encarnar

No fundo, a diplomacia macroniana parece seguir o método mais simples que existe: esperar que os conflitos armados eclodam para vir exibir as suas pretensões de poder. Uma diplomacia de necrófago que tenta intrometer-se nas guerras alheias. 

Khider MESLOUB

 

Fonte: La France gesticulatoire : diplomatie de charognard – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




 

Guerra no Irão: O Capitalismo é a guerra! O capitalismo precisa de ser derrubado!

 


Guerra no Irão: O Capitalismo é a guerra! O capitalismo precisa de ser derrubado!

14 de Março de 2026 Robert Bibeau


Por  EG , 1 de Março de 2026.

"  Este regime rapidamente aprenderá que ninguém deve desafiar o poder e as forças armadas dos Estados Unidos  ."  Essas foram as palavras de Trump minutos após os primeiros bombardeamentos massivos do Irão por aeronaves israelitas e americanas.

O comunicado de imprensa está disponível em formato PDF: 

Comunicado de Imprensa Irão-Líbano

Isso foi seguido por um contra-ataque em grande escala da Guarda Revolucionária, que, por sua vez, lançou salvas de mísseis contra Israel e bases americanas em toda a região. Escolas, hospitais, portos e aeroportos, áreas residenciais e turísticas — mísseis choveram de todos os lados sobre populações aterrorizadas. Todo o Médio Oriente estava em chamas! Enquanto escrevemos estas linhas, o número de mortos ainda é desconhecido, mas os corpos se acumulam em diversas cidades iranianas, e várias baixas foram relatadas nas áreas alvejadas pela Guarda Revolucionária, incluindo os primeiros soldados americanos.

Uma vertiginosa imersão na barbárie e no caos.

Para justificar este último massacre, Trump alega estar a tentar destruir um regime sanguinário que "  está a travar uma campanha ininterrupta de derramamento de sangue e assassinatos em massa, visando os Estados Unidos, os nossos soldados e pessoas inocentes em muitos países  ". Já o seu cúmplice, Netanyahu, afirma que quer proteger a "  humanidade  " deste "  regime terrorista e assassino  ". Seria até mesmo uma "  intervenção humanitária  ", segundo o filho do Xá, Reza Pahlavi!

Por sua vez, as autoridades iranianas apresentam-se como vítimas: "  Chegou a hora de defender a pátria e enfrentar a agressão militar do inimigo. Assim como estávamos prontos para negociar, estamos mais prontos do que nunca para defender o nosso país  ."

A julgar pelo que esses manipuladores de opinião dizem, o bombardeamento indiscriminado é motivado pela segurança mundial e pela defesa dos oprimidos! Essa propaganda de guerra não passa de uma abominável teia de mentiras! A realidade é que o Médio Oriente está a mergulhar num caos de guerra sem precedentes. E isso, apenas oito meses após a Operação  Martelo da Meia-Noite  , que supostamente deveria "  aniquilar  " o programa nuclear iraniano e impor "paz" e estabilidade à região pela força.

Mas esta nova operação militar, apelidada de aterrorizante Fúria Épica , tem uma escala completamente diferente daquela planeada para Junho de 2025. Os Estados Unidos reuniram uma verdadeira armada ao redor do Irão: navios de guerra, submarinos, centenas de aeronaves e milhares de soldados. Um verdadeiro massacre está prestes a começar. Trump e Netanyahu sabem disso perfeitamente bem e deixaram as suas intenções claras imediatamente: a sua operação será massiva e particularmente mortal. Para o presidente americano, “  destruiremos os seus mísseis e aniquilaremos a sua indústria de mísseis. Ela será totalmente destruída. Aniquilaremos a sua marinha.  [...]  E garantiremos que o Irão não obtenha uma arma nuclear  ”. Antes de convocar o “  grande e orgulhoso povo do Irão  ” a “  tomar  o seu  destino nas suas próprias mãos  ”. Noutras palavras: pegar em armas contra o regime e ser massacrado nas ruas!

Diante disso, o Estado iraniano ameaça os Estados Unidos e Israel com uma "  resposta  esmagadora  ". Milhares de mísseis caem do céu, mas a ditadura de Teerão luta para conter o poderio americano. O regime foi consideravelmente enfraquecido pelos bombardeamentos de Junho de 2025 e pela destruição dos seus aliados, Hezbollah e Hamas. A única resposta de Teerão à crise desencadeada pela Operação  Martelo da Meia-Noite  tem sido uma repressão feroz contra a oposição. Mas, independentemente de o regime ruir ou conseguir, apesar da morte do seu "líder" Khamenei, manter-se no poder, ele derramará sangue sem pudor para sobreviver e não hesitará em exportar a guerra. Incapaz de retaliar directamente, o Estado iraniano já mobilizou as suas milícias e grupos armados, prontos para semear o caos onde quer que seja possível, inclusive através do terrorismo.

Consequências internacionais catastróficas

Nos próximos dias, Trump vangloriar-se-á certamente e exaltará a omnipotência do Exército dos EUA. Mundialmente, este novo conflito certamente enfraquecerá os principais adversários dos Estados Unidos. O principal deles é a China, que, dependente do petróleo iraniano e do acesso aos portos do Médio Oriente para desenvolver a sua Iniciativa Cinturão e Rota, aumentou  significativamente o arsenal de mísseis da Guarda Revolucionária Islâmica. A escala da Operação  Epic Fury  é, nesse sentido, mais uma mensagem aos inimigos dos Estados Unidos: "  Ninguém deve desafiar o poder e as forças armadas dos Estados Unidos  !"

Mas, assim como após a operação de 2025, assim como após a da Venezuela, essa nova demonstração de força é apenas um grande gesto, uma vitória enganosa que não estabilizará a região nem resolverá qualquer conflito. Pelo contrário, a desordem mundial atingirá um novo nível de barbárie! Pois, ao contrário do que Trump afirma, o hipotético colapso do regime, longe de trazer estabilidade, será apenas o prelúdio para uma nova descida ao horror: um Irão instável, fragmentado por facções rivais e fortemente armadas, o surgimento de grupos terroristas incontroláveis, uma espiral interminável de vinganças clânicas, religiosas ou étnicas, populações aterrorizadas à procura de fugir a qualquer custo… Seja como for, o caos aumentará consideravelmente!

Ao ameaçar o Estreito de Ormuz, ponto estratégico para o comércio de petróleo e a economia, o Irão também ameaça a economia mundial com uma crise ainda mais profunda. Por isso, Teerão direccionou os seus esforços imediatamente para a região. Não há dúvidas de que os seus aliados houthis farão todo o possível para manter o Mar Vermelho e o Golfo de Aden em alerta máximo.

Todos os estados, grandes e pequenos, já estão a tentar explorar o caos circundante para os seus próprios interesses imperialistas sórdidos. A Arábia Saudita declarou-se pronta para intervir, assim como o Hezbollah e as milícias pró-Irão no Iraque. A China, cuja influência também é alvo desta operação, mais cedo ou mais tarde demonstrará a sua força, em Taiwan ou noutro lugar, arriscando um conflito militar com os Estados Unidos.

Uma expressão da barbárie do capitalismo

Esta não é de forma alguma uma visão catastrofista da situação, mas a conclusão lógica que nos é imposta por todos os conflitos armados dos últimos vinte anos: a invasão do Afeganistão em 2001, a guerra no Iraque em 2003, o colapso da Síria em 2011, a guerra no Iémen em 2014, Gaza em 2023… cada uma dessas aventuras militares levou apenas a situações catastróficas e fracassos, inclusive para os Estados Unidos, apesar do poder do seu exército!

Por trás desses conflitos intermináveis, pontuados por promessas incessantes e enganosas de paz, opera a mesma dinâmica: a de um capitalismo que inevitavelmente mergulha a humanidade num caos generalizado, semelhante à guerra. Da Mauritânia à Birmânia, um arco mundial ininterrupto de conflitos armados criou raízes profundas. Na Europa, com o conflito na Ucrânia, na América Latina, na África, na Oceania, a guerra espalha-se de forma incontrolável e anárquica por toda parte. Em todos os lugares, reina o caos, e nem os Estados Unidos, nem os países europeus, nem a China, nem as instituições internacionais, nenhum Estado, nem qualquer facção burguesa é capaz de pôr fim a ele. Os "cessar-fogos" e as "negociações" provam ser nada mais do que interrupções temporárias e precárias, concluídas para melhor preparar os próximos confrontos!

Diante da barbárie do capitalismo, só há uma saída: o internacionalismo proletário!

"Desde o seu primeiro discurso, Trump conclamou os iranianos a "  tomarem o poder  ". Em Londres, Berlim e Geórgia, alguns manifestantes chegaram a reunir-se para apoiar a operação americana e a "  democracia  ". Esses gritos belicosos são armadilhas desprezíveis! Incitamentos ao massacre em nome do Xá ou de qualquer outra facção da burguesia iraniana! Com o possível fim do regime dos aiatolás, não haverá um amanhã feliz. Será sempre o mesmo sistema, o mesmo capitalismo, a mesma barbárie!

Por outro lado, os aiatolás e seus apoiantes, a começar pelos partidos de esquerda no Ocidente, convocam o "  povo iraniano  " e a classe operária a mobilizarem-se em todos os lugares contra a "  agressão imperialista  " dos Estados Unidos. Manifestações pró-Irão ocorreram no dia seguinte ao primeiro ataque, na própria Teerão, mas também no Iraque e no Paquistão, com várias vítimas em frente à embaixada americana. Lá também, não passam de apelos para apoiar um campo imperialista e para serem massacrados em nome de uma camarilha de bárbaros sedentos de sangue!

A classe operária não precisa de escolher um lado!

"Os proletários do mundo não devem sucumbir ao canto de sereia do nacionalismo nem tomar partido, seja no Médio Oriente ou em qualquer outro lugar. Todas as nações, todas as burguesias, sejam democráticas ou autoritárias, de esquerda ou de direita, populistas ou "progressistas", são todas belicistas!

Apesar da retórica pomposa de uma moralidade hipócrita, que opõe "civilização" a "barbárie", "bem" a "mal", "agressores" a "vítimas", as guerras nada mais são do que confrontos entre burguesias rivais. Nesses conflitos cada vez mais intensos, são sempre os explorados que são feitos reféns e sacrificados pelos interesses daqueles que os oprimem e matam!

Para acabar com as guerras, o capitalismo precisa de ser derrubado!

A história demonstra que a classe operária é a única força capaz de pôr fim à guerra capitalista. Foi a força do proletariado revolucionário que pôs fim à Primeira Guerra Mundial em 1917 na Rússia e em 1918 na Alemanha! Esses movimentos revolucionários conseguiram forçar armistícios dos governos. Para acabar definitivamente com as guerras em todo o mundo, a classe operária deve alcançar esse objectivo derrubando o capitalismo à escala mundial!

Mas ainda há um longo caminho a percorrer, repleto de obstáculos. Perante a barbárie da guerra, muitos sentem vontade de resistir, de expressar a sua indignação. E, de facto, se não reagirmos, o capitalismo arrastar-nos-á para o caos e a destruição generalizada. Mas aqueles que hoje se encontram nas ruas, fazem-no muitas vezes sob as palavras de ordem da esquerda do capital: «No Kings», «Stop génocide», «Free Palestine»tantas palavras de ordem que incutem a ideia de que as causas da guerra residem neste ou naquele dirigente, na loucura de um Trump, no colonialismo de Israel, nos delírios religiosos dos judeus fundamentalistas, no imperialismo americano… Por trás de uma aparente radicalidade, por trás de discursos «pela paz», pelos «direitos dos povos», «pela defesa dos agredidos», trata-se sempre de escolher um campo burguês contra outro e de apelar à defesa do Estado «democrático». Nos Estados Unidos, manifestações anti-Trump denunciaram assim a ausência de consulta ao Congresso e de respeito pelo «direito internacional», como se uma guerra «legal» fosse menos bárbara!

Embora a classe operária ainda não tenha forças para se opor directamente às guerras da burguesia, e a perspectiva revolucionária ainda pareça distante, este caminho conduz-nos, ainda assim, por uma resistência feroz contra os ataques de um capitalismo esmagado pelo crescente peso da crise e do militarismo. Ao recusarmo-nos a sacrificar as nossas vidas e os nossos salários no altar da "competitividade" ou do "esforço de guerra", começamos a insurgir-nos contra o próprio cerne do capitalismo: a exploração do homem pelo homem.

Como demonstramos em inúmeros artigos, desde 2022 temos testemunhado um verdadeiro ressurgimento da militância da classe operária em todo o mundo . Ao recusarem os sacrifícios impostos pela economia de guerra, os operários demonstram solidariedade concreta com os seus companheiros presos sob as bombas. E essa determinação de não serem passivos é acompanhada por uma maturação da consciência política: em todos os lugares, pequenas minorias questionam a organização das lutas e o futuro do sistema, a ligação entre a crise e a proliferação de guerras. Para as minorias revolucionárias, chegou a hora de debater e agir para transformar essas reflexões clandestinas numa força organizada, capaz de preparar as lutas revolucionárias de amanhã.

EG , 1º de março de 2026. Sobre a  guerra no Irão: O Capitalismo é a guerra! O capitalismo precisa de ser derrubado! | Corrente Comunista Internacional

 

Fonte: Guerre en Iran: Le capitalisme, c’est la guerre! Il faut renverser le capitalisme! – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




sexta-feira, 13 de março de 2026

Rumo à recessão: o império americano perdeu a guerra comercial pelo controle do petróleo.

 


Rumo à recessão: o império americano perdeu a guerra comercial pelo controle do petróleo.

13 de Março de 2026 Robert Bibeau


"
Por Robert Bibeau .

Uma simples análise de um mapa energético da região do Médio Oriente revelou que o Estreito de Ormuz — o gargalo — era, e ainda é, a chave da guerra do petróleo nesta área ferozmente disputada entre as duas alianças imperialistas (o império americano hegemónico e o império emergente China/Rússia). O vídeo abaixo detalha as consequências da crise económica mundial que se desenrola após o bloqueio do Golfo Pérsico.


 


Fonte: Vers la récession: L’Empire américain a perdu la guerre commerciale pour le contrôle du pétrole – les 7 du quebec

Introdução ao vídeo traduzida para Língua Portuguesa por Luis Júdice





As alianças que se confrontam no Grande Tabuleiro de Xadrez Mundial (2026)

 


As alianças que se confrontam no Grande Tabuleiro de Xadrez Mundial (2026)

13 de Março de 2026 Robert Bibeau


Por Robert Bibeau .

Muitos especialistas e analistas de geo-política mundial afirmam que o novo mundo emergente, a Nova Ordem Mundial (NOM), numa "  REINICIALIZAÇÃO  " estrutural, seria dividido em três eixos – três blocos opostos – antagónicos – três alianças imperiais em guerra perpétua nos níveis económico, financeiro, comercial, político, diplomático e ideológico.

Eles citam como prova a sucessão de guerras que o Império Americano – o eixo hegemónico Ocidental – impõe ao eixo Oriental ascendente (China/Rússia/Irão/Coreia do Norte) e ao eixo do chamado “  Movimento dos Não Alinhados ”... (sic). A realidade geopolítica mundial em constante transformação confronta esses especialistas e fá-los duvidar das alegações de “  neutralidade  ” das “  potências não alinhadas  ” ( BRICS ). É o caso do analista Pepe Escobar, que, num artigo recente, confessou: “  Os BRICS estão em coma profundo. Foram destruídos, pelo menos temporariamente, pela Índia, que sediará a cimeira dos BRICS... A Índia traiu, sucessivamente, os dois membros plenos dos BRICS, Rússia e Irão”. Ao selar a sua aliança com o sindicato Epstein (o Império Americano em declínio), Nova Deli provou, sem sombra de dúvida, não apenas que não é confiável, mas também que toda a sua nobre retórica sobre “ liderança do Sul Global ” desmoronou.  (ver texto no apêndice abaixo).

Na nossa visão, desde o surgimento do modo de produção capitalista (MPC), duas forças têm se confrontado em todo o mundo.  A primeira é a aliança industrial, comercial e financeira do grande capital transnacional — dividido em três blocos de poder flutuante — alternando entre diferentes círculos de acordo com os seus interesses nacionais chauvinistas e sectários. A Índia acaba de actuar como um pivô na sua oposição ao Irão, seguindo  o pivô do Brasil (não alinhado) em resposta à agressão imperialista contra a Venezuela (também não alinhada). A segunda força antagónica que estrutura o mundo contemporâneo é a aliança do vasto proletariado internacional , uma massa de assalariados que sustenta cerca de duzentas nações chauvinistas, sectárias e atrasadas com o seu trabalho mal remunerado. O proletariado é mantido sob o jugo de burguesias nacionalistas, racistas e reaccionárias, das quais nada se pode esperar.  Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: O nacionalismo face à mundialização (Parte 3)

Mesmo que essa aliança do trabalho permaneça dividida e fraca, não deixa de ser verdade que somente a Aliança Proletária Internacional será capaz de derrubar este velho mundo decadente e criar um novo... ou então a raça humana desaparecerá da face da Terra.

O Volume da Insurreição Popular:
Da Insurreição Popular à Revolução Proletária – Robert Bibeau, Khider Mesloub

 

Versão em Língua Portuguesa:

 

Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: Da Insurreição popular à revolução proletária


APÊNDICE

Por Pepe Escobar

O bloqueio de Ormuz pode destruir o Ocidente. Mas não destruirá a China.

Vamos directo ao ponto: os BRICS estão em coma profundo. Foram destruídos, pelo menos temporariamente, pela Índia, que sediará a cimeira dos BRICS ainda este ano. Que timing desastroso!

A Índia traiu, sucessivamente, os dois membros plenos do BRICS, Rússia e Irão. Ao selar a sua aliança com o grupo de Epstein, Nova Deli provou, sem sombra de dúvida, não apenas que não é confiável, mas também que toda a sua nobre retórica sobre a "liderança do Sul Global" desmoronou de vez.

Os BRICS terão que ser completamente reestruturados: até mesmo o grande mestre Sergey Lavrov terá que encarar essa conclusão inevitável. O triângulo original de Primakov, "RIC", está a morrer mais uma vez. Mesmo que a Índia não seja expulsa dos BRICS — podendo até mesmo ser suspensa —, "RIC" terá que ser traduzido como Rússia-Irão-China, ou até mesmo "RIIC" (Rússia-Irão-Indonésia-China).

Em relação à nossa posição no Grande Tabuleiro de Xadrez, o Professor Michael Hudson resume a situação: " A grande ficção que tornava tudo possível desapareceu. Os Estados Unidos não estão a proteger o mundo de ataques da Rússia, China e Irão. O seu objectivo de longo prazo de controlar o comércio mundial de petróleo exige terrorismo contínuo e uma guerra permanente no Médio Oriente ."

Aconteça o que acontecer a seguir, o terrorismo contínuo no Médio Oriente persistirá – como no caso do grupo Epstein, que, através de perversa impotência e pura fúria, desencadeou uma chuva negra sobre a  população civil  (ênfase minha) de Teerão porque os iranianos se recusaram a mudar o regime.

Além disso, o cerne do problema, pelo menos até meados do século, está mais claro do que nunca. Ou o sistema excepcionalista de caos internacional prevalece, ou será substituído pela igualdade impulsionada pelo Sul Global, com a China na vanguarda.

Esta análise em duas partes aborda a interacção crucial entre os BRICS em relação à guerra contra o Irão. Nesta parte, focaremos na China. Em seguida, analisaremos a Rússia e a Índia.

Não atirem! Eu pertenço à China!

As especulações ignorantes do MICIMATT (complexo militar-industrial-congressual-inteligência-media-universidades-think tanks) sobre as informações americanas que «sugerem» que a China está a preparar-se para ajudar o Irão são, mais uma vez, a prova de que a sofisticação chinesa escapa totalmente às «análises» insignificantes provenientes da Barbaria.

Em primeiro lugar: a energia. A China e o Irão celebraram um acordo de 400 mil milhões de dólares, mutuamente vantajoso, com uma duração de 25 anos, que vincula essencialmente os investimentos em energia e infraestruturas.

Para todos os efeitos práticos, o estreito de Ormuz está bloqueado devido à retirada em pânico das seguradoras ocidentais. Não é porque Teerão o bloqueou.

A China recebe 90% das exportações totais de petróleo bruto iraniano, o que representa 12% das importações totais chinesas. O ponto essencial é que a China continua a ter acesso às exportações iranianas, bem como às exportações sauditas, emiradenses, kuwaitianas, qatarianas e iraquianas: isto explica-se pela parceria estratégica inabalável entre Teerão e Pequim, que permite aos petroleiros com destino à China atravessarem o estreito de Ormuz em ambos os sentidos.

Pequim e Teerão negociaram uma passagem bilateral segura, operacional desde a última sexta-feira, através do que é, para todos os efeitos práticos, um corredor marítimo crucial fechado multilateralmente. Não é de admirar que cada vez mais petroleiros estejam a ostentar as palavras mágicas "Propriedade Chinesa" (itálico acrescentado). É o seu passaporte diplomático naval.

Isso muda completamente o jogo, pois marca o fim da hegemonia talassocrática do Império do Caos.

A " liberdade de navegação " em certos corredores de conectividade marítima agora significa "um acordo com a China". Propriedade chinesa, tudo bem; mas não europeia, japonesa ou mesmo sul-coreana.

O que Teerão está a receber em abundância é assistência de alta tecnologia da China para a guerra contra o sindicato Epstein. E isso começou mesmo antes da guerra.


O Liaowang-1
 , um navio chinês de inteligência de sinais (SIGINT) e rastreamento espacial de última geração, está a navegar há semanas perto da costa de Omã, fornecendo ao Irão informações electromagnéticas em tempo real sobre os movimentos navais e aéreos do grupo Epstein.

Isso explica, em grande parte, a extrema precisão da maioria dos ataques iranianos.

O Liaowang-1, escoltado pelos destroieres Tipo 055 e 052D, está equipado com pelo menos cinco radares de cúpula e antenas de alto ganho, permitindo-lhe rastrear com precisão pelo menos 1.200 alvos aéreos e mísseis simultaneamente, utilizando algoritmos de redes neurais profundas. Os seus sensores têm um alcance de aproximadamente 6.000 quilómetros.

A vantagem é que esses sensores conseguem rastrear tanto um satélite chinês quanto um porta-aviões americano.

Tradução: A China está a ajudar o seu parceiro estratégico sem disparar um único tiro, simplesmente navegando em águas internacionais com uma plataforma de vigilância equipada com uma rede neural.

Sim, então: a China está a transmitir a guerra ao vivo, 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Além do Liaowang-1, mais de 300 satélites Jilin-1 registam literalmente tudo, constituindo um enorme banco de dados ISR do Império do Caos em acção.

Não haverá confirmação oficial de Teerão ou Pequim. Mas a inteligência chinesa em tempo real, retransmitida pela Beidou, foi certamente crucial para permitir que Teerão destruísse completamente a infraestrutura da 5ª Frota dos EUA no Bahrein – um centro abrangente de radares, inteligência e bancos de dados, a própria espinha dorsal da hegemonia americana no Médio Oriente.

Este capítulo da guerra, abordado desde o início, revela como Teerão desferiu um golpe decisivo ao destruir o jogo de poder arquitectado pelo império para controlar pontos de estrangulamento estratégicos e o trânsito de energia, impedindo assim o acesso da China a eles.

Por mais surpreendente que pareça, estamos a testemunhar em tempo real a decisão do Irão de negar ao Império do Caos o acesso a pontos de estrangulamento marítimos cruciais, portos e corredores de conectividade naval. Por ora, isso inclui o Golfo Pérsico e o Estreito de Ormuz. Em breve, com a ajuda dos houthis iemenitas, poderá incluir também o Estreito de Bab el-Mandeb.

Essa é uma mudança radical que beneficia não apenas a China, mas também a Rússia, que precisa manter abertas as suas rotas de exportação marítima.

Se tiver dinheiro, vá para o Leste

Vamos agora falar de dinheiro. A China detém 760 mil milhões de dólares em títulos do Tesouro dos EUA. Pequim ordenou que todo o seu sistema bancário vendesse esses títulos como se não houvesse amanhã e, simultaneamente, acumulasse ouro.

China e Irão já realizam transações comerciais em yuan. A partir de agora, o laboratório dos BRICS, que está a experimentar sistemas de pagamento alternativos, deve atingir o seu potencial máximo. Isso envolve testar todos os mecanismos, do BRICS Pay ao The Unit.

Em seguida, vem o iminente êxodo monetário. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e Kuwait já estão a "rever" todos os acordos, duvidosos ou não, que firmaram com Washington. Juntos, controlam nada menos que 2 triliões de dólares em investimentos americanos: títulos do Tesouro, participações em empresas de tecnologia do Silicon Valley, imóveis e assim por diante.

Um tsunami de dinheiro está a começar a inundar o Leste Asiático. O destino preferido agora é a Tailândia, não Hong Kong. Isso vai mudar e, mais uma vez, a China colherá imensos benefícios, já que Hong Kong é um dos principais centros da Grande Baía, juntamente com Shenzhen e Guangzhou.

As reservas estratégicas e comerciais de petróleo bruto da China  são suficientes para quatro meses. Além disso, as importações de petróleo bruto e gás natural podem ser aumentadas, por via marítima e por oleoduto, provenientes da Rússia, do Cazaquistão e de Myanmar.

Assim, a combinação de reservas estratégicas suficientes, múltiplas fontes de abastecimento e uma mudança na procura do petróleo para a electricidade demonstra, mais uma vez, a resiliência da China. O bloqueio de Ormuz pode abalar o Ocidente, mas não abalará a China.

Pepe Escobar

Fonte:  Strategic Culture Foundation

 

Fonte: Les Alliances qui s’affrontent sur le Grand Échiquier Mondial (2026) – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice