sábado, 14 de março de 2026

A França gesticuladora: diplomacia de abutre

 


A França gesticuladora: diplomacia de abutre

14 de Março de 2026 Robert Bibeau


Por Khider Mesloub .

Na natureza, os necrófagos não provocam a morte. Esperam que ela faça o seu trabalho. Depois, acorrem para se banquetear com os restos.

No panorama geo-político contemporâneo, a diplomacia francesa parece seguir um mecanismo bem conhecido na natureza: o do necrófago. Alimenta-se de tensões internacionais que lhe escapam e de conflitos militares que também não controla, limitando-se a deslizar na sua esteira para exibir um poder militar fantasioso.

Uma postura que se enquadra menos numa estratégia coerente do que numa diplomacia gesticulatória, em que a exibição de poder visa sobretudo impressionar, por não conseguir realmente influenciar os acontecimentos que a ultrapassam.

França, o abutre do campo de batalha

No imaginário estratégico francês, a França gosta de se representar como uma águia, uma potência militar capaz de pairar acima dos conflitos e de impor a sua vontade. Mas, para uma parte da opinião pública internacional, a imagem é bem diferente: a de um abutre. Pois, tal como um abutre atraído pelo cheiro de sangue, Paris parece estar à espreita de crises e guerras para se banquetear com as carnificinas que alega querer prevenir.

O que salta à vista na trajectória recente da política externa francesa não é a obstinação diplomática em prevenir guerras, nem a arte paciente de apagar os incêndios do mundo. É, pelo contrário, a rapidez com que Paris se insere no dispositivo estratégico ocidental assim que os conflitos eclodem. Como se cada crise internacional constituísse menos uma tragédia a conjurar do que uma ocasião para encenar a sua presença militar fantasmagórica e para recordar, através de uma demonstração muitas vezes gesticulante, as suas pretensões de poder no jogo brutal das relações de força que não domina.

Gaza, Ucrânia, Irão: a França a reboque das guerras imperiais

Esta postura manifestou-se com uma clareza impressionante na sequência dos ataques de 7 de Outubro de 2023. Enquanto o Médio Oriente mergulhava novamente na violência, Emmanuel Macron deslocava-se a Israel e apelava à mobilização contra o Hamas da coligação internacional inicialmente constituída para combater o Estado Islâmico. Com esta iniciativa oportunista, o presidente francês parecia, acima de tudo, procurar elevar a França ao estatuto de líder de uma coligação cuja existência continuava a ser, em grande medida, retórica. Ao fazer esta assimilação, procedia a uma importante mudança política: um conflito colonial foi subitamente absorvido pela retórica mundial da «guerra contra o terrorismo». Esta mudança não foi insignificante. Transformou a questão colonial palestiniana num confronto civilizacional, abrindo assim caminho para uma lógica de erradicação militar, em vez da procura de uma solução baseada na independência da Palestina.

Ora, esta interpretação está longe de ser neutra. Ao equiparar o Hamas ao jihadismo mundial, ela reclassifica um conflito colonial como uma guerra de erradicação. O adversário deixa de ser um combatente palestiniano com quem se poderia negociar uma solução política; torna-se um inimigo absoluto cuja destruição constitui o único horizonte. A partir daí, a diplomacia francesa, mais sionista do que Israel, adopta uma linguagem de brutalidade assumida: a França macroniana fala agora de «destruição» do Hamas e compromete-se com a lógica de um confronto militar sem compromissos. Ora, na visão sionista israelita, a população palestiniana de Gaza é amplamente equiparada ao movimento Hamas. O apelo à «destruição» do Hamas equivale, portanto, a legitimar uma guerra total contra um território e a sua população. Foi precisamente isso que aconteceu na sequência da cruzada lançada por Macron em Outubro de 2023: uma guerra de extermínio cujos estragos Gaza ainda sofre.

Alguns meses depois, a guerra na Ucrânia revela mais uma vez a propensão da França macroniana para levar a escalada militar cada vez mais longe, fiel à sua diplomacia canhoneira de abutre. Em Fevereiro de 2024, Emmanuel Macron evoca publicamente a possibilidade de enviar tropas ocidentais para combater ao lado do exército ucraniano contra a Rússia, para se banquetear com a carne russa. A formulação pode chocar.

Mas para que serve a guerra senão para se banquetear com a carne de canhão do inimigo? A guerra não é mais do que o banquete macabro das potências capitalistas, cujos proletários constituem o menu.

Mas perante a perspectiva de um confronto directo com a Rússia, várias capitais europeias mostram-se subitamente muito mais cautelosas. O episódio é revelador: ao evocar abertamente um confronto terrestre com Moscovo, o presidente francês ultrapassa um limiar que poucos líderes ocidentais se atrevem sequer a formular publicamente. Mais uma vez, a diplomacia belicista de Macron empenha-se em levar mais longe a escalada militar, fiel a essa gesticulação estratégica que serve de política externa.

O mesmo instinto de abutre parece hoje repetir-se no Médio Oriente. Num contexto de escalada militar em torno do Irão e de crescente mobilização das forças americano-israelitas no Golfo, a recente decisão de enviar um importante contingente naval francês decorre desse mesmo instinto de intervenção. Emmanuel Macron anunciou assim o envio de uma força naval francesa para a região, articulada em torno do porta-aviões Charles-de-Gaulle. Oficialmente, o Palácio do Eliseu apresenta esta operação como uma missão defensiva destinada a proteger os cidadãos franceses e a garantir a segurança das rotas marítimas numa região abalada pela guerra contra o Irão. Na realidade, esta mobilização naval insere sobretudo a França no dispositivo militar ocidental que se estende do Mediterrâneo Oriental ao Mar Vermelho, até às margens do Estreito de Ormuz. Uma demonstração militar destinada menos a influenciar efectivamente o curso do conflito do que a exibir, mais uma vez, as pretensões de poder da França macroniana, demasiado frequentemente reduzida a acompanhar as guerras que pretende orientar.

A cruzada retórica da França chauvinista

A julgar pela retórica do Palácio do Eliseu, esta sucessão de intervenções militares seria uma verdadeira missão moral. Cada crise internacional é apresentada como uma luta pela civilização, pela segurança do mundo livre ou pela defesa da ordem internacional. Sob este verniz virtuoso, o vocabulário mobilizado pelo Palácio do Eliseu confere à postura francesa um tom quase messiânico, como se cada novo conflito chamasse a França a assumir o papel de guardiã armada dos valores ocidentais. Um discurso que serve sobretudo para revestir de um manto moral iniciativas militares cujo alcance estratégico se revela, muitas vezes, irrisório.

Torna-se então difícil não discernir, por trás desta encenação moral do poder militar, um imaginário muito mais antigo. É certo que a palavra nunca é pronunciada. Mas a lógica do relato evoca estranhamente a das antigas cruzadas. Algures no mundo surgiria uma ameaça erigida em encarnação do mal absoluto; caberia então às potências ocidentais – com a França a colocar-se de bom grado na primeira linha – organizar a expedição destinada a restaurar a ordem e a defender a civilização. Sob os trajes modernos da segurança internacional ressurge assim uma velha dramaturgia histórica: a das guerras travadas em nome do Bem.

Nesta narrativa, o Estado francês atribui-se de bom grado o papel de cavaleiro de vanguarda do bloco ocidental. O cenário muda – ontem Gaza, depois a Ucrânia, hoje o Irão –, mas o enredo permanece o mesmo. A cada nova crise, o Eliseu redescobre a necessidade de uma mobilização militar em nome de princípios proclamados como universais, erigindo-se em defensor da civilização, ao mesmo tempo que reveste de um verniz moral iniciativas militares cujo alcance estratégico se revela, muitas vezes, ilusório.

Há nesta postura de abutre uma ironia histórica difícil de ignorar. Por trás da linguagem contemporânea da segurança internacional reaparece um imaginário estratégico que se pensava enterrado com as antigas expedições civilizadoras. As armadas substituíram as galeras, os porta-aviões as bandeiras, mas o espírito de cruzada manifestamente nunca abandonou o imaginário da França chauvinista.

Como se, a cada conflito mundial, Paris reactivasse o seu velho reflexo de cruzada. Uma cruzada moderna, claro, revestida do vocabulário discreto da segurança internacional e dos valores democráticos, mas que, no fundo, reproduz a mesma lógica: a das guerras imperialistas travadas em nome do Bem.

É aqui que a metáfora inicial recupera toda a sua força. Na natureza, o necrófago não provoca a batalha: espera que esta tenha feito as suas vítimas antes de aparecer para se banquetear com os restos. No panorama geo-político contemporâneo, a diplomacia macroniana parece seguir um mecanismo semelhante: esperar que as crises eclodam para surgir na sua esteira e exibir, através de gestos militares, as pretensões de uma potência que mal consegue encarnar

No fundo, a diplomacia macroniana parece seguir o método mais simples que existe: esperar que os conflitos armados eclodam para vir exibir as suas pretensões de poder. Uma diplomacia de necrófago que tenta intrometer-se nas guerras alheias. 

Khider MESLOUB

 

Fonte: La France gesticulatoire : diplomatie de charognard – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




 

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