Da
guerra do petróleo à guerra da água?
Dois artigos que
lançam luz sobre as consequências potencialmente graves da guerra contra o Irão.
Além de centenas de mortes de civis e centenas de milhares de deslocados, a
fome avizinha-se nos países mais ricos do mundo, confirmando que existe uma
mercadoria mais essencial e vital do que o petróleo: a água!
Eu acrescentaria que
na Europa, e particularmente na França, a água também está a tornar-se um
recurso escasso; data centers e centrais nucleares são grandes consumidores de
água. Será a França o novo Eldorado para data centers?
Golfo Pérsico: da
guerra do petróleo à guerra da água? [center
026/03/12 às 11:45
por Béchir Lakani]
Uma central de
dessalinização no Bahrein foi danificada no domingo por um ataque de drone
iraniano. Um ataque também atingiu uma fábrica no Irão. Numa região onde o
abastecimento de água potável depende em grande parte da dessalinização, tais
ataques aumentam a ameaça de uma grande crise humanitária para as populações do
Golfo, bem como para as do Irão.
Será a água a próxima
arma estratégica no conflito armado cada vez mais intenso no Médio Oriente? Incidentes recentes a envolver centrais de
dessalinização no Golfo Pérsico sugerem um cenário preocupante: uma guerra na
qual o recurso mais vital da região está directamente ameaçado. Noutras
palavras, numa região onde a água é ainda mais vital que o petróleo, essas
instalações constituem alvos militares de suma importância.
Vejamos os factos. Em
8 de Março, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi,
acusou os Estados Unidos de bombardear uma central de dessalinização na ilha de
Qeshm, localizada perto do porto estratégico de Bandar Abbas. Segundo Teerão,
esse ataque interrompeu o abastecimento de água para cerca de trinta aldeias.
Em retaliação a esse acto hostil, um drone iraniano danificou uma central de
dessalinização no Bahrein no dia seguinte. Essa central fornece água potável
para uma base militar americana localizada na ilha. Esses ataques sem
precedentes marcam um desenvolvimento com consequências imprevisíveis. A água —
um recurso escasso e vital para essa região, uma das mais áridas do planeta —
pode agora ser usada como ferramenta estratégica e militar.
Dependência e vulnerabilidade:
De facto, com a água doce a ser um recurso praticamente inexistente, a maioria dos países da região depende principalmente de centrais de dessalinização para abastecer as suas populações e economias. O Médio Oriente, com milhares de instalações ao longo da costa do Golfo, responde por quase 40% da capacidade mundial de dessalinização.
Os números ilustram
essa extrema dependência. No Kuwait, quase 90% da água potável provém da
dessalinização. A proporção chega a 86% em Omã e a cerca de 70% na Arábia
Saudita. Nos Emirados Árabes Unidos, mais de 40% da água consumida é produzida
por essas instalações. Essas infraestruturas possibilitaram o surgimento das principais
metrópoles do Golfo, do Dubai a Doha, incluindo Abu Dhabi. Sem a água potável
produzida por essas infraestruturas, essas cidades em expansão, construídas no
coração de desertos áridos, seriam simplesmente inabitáveis.
Um calcanhar de Aquiles estratégico.
Essa dependência da tecnologia de dessalinização é o verdadeiro calcanhar de Aquiles dos Estados do Golfo. E se, no contexto da guerra que actualmente opõe o Irão à coligação israelo-americana, essas centrais fossem atacadas por drones ou mísseis iranianos, como ocorreu no Bahrein?
Esse é o pior cenário
possível para as monarquias do Golfo. Especialistas em segurança hídrica há
muito alertam para esse perigo. Já em 2010, uma análise da CIA estimou que a
destruição de várias grandes centrais de dessalinização no Golfo Pérsico
poderia ter consequências mais graves do que a perda de qualquer outra
indústria estratégica. Isso é especialmente verdadeiro considerando que a
localização dessas centrais, geralmente construídas na superfície ao longo da
costa, dificulta a sua protecção eficaz contra drones, mísseis ou ataques
cibernéticos. Assim, um simples ataque cibernético poderia ser suficiente para
interromper os processos químicos essenciais ao tratamento da água. Além disso,
essas instalações geralmente estão intimamente ligadas a centrais de energia.
Portanto, um ataque à infraestrutura energética pode interromper indirectamente
a produção de água potável.
Uma catástrofe humanitária.
Para muitos especialistas, atacar a infraestrutura hídrica é uma linha vermelha perigosa. Porque, ao contrário das instalações militares ou industriais, essa infraestrutura está directamente ligada à sobrevivência das populações civis.
Um exemplo concreto?
Se a enorme central de dessalinização de Jubail, que abastece Riad e os seus
oito milhões de habitantes, fosse gravemente danificada, a capital saudita
poderia ficar sem água em menos de uma semana. E isso não é ficção científica.
Dito isso, o Irão
também não está imune a uma crise semelhante. O país tem vindo a sofrer com uma
seca severa há vários anos, o que reduziu drasticamente as suas reservas
hídricas. Como resultado, as barragens que abastecem a capital, Teerão,
atingiram níveis alarmantes. Alguns reservatórios estão com menos de 5% da sua
capacidade, aumentando as preocupações com uma possível escassez de água para
os mais de dez milhões de habitantes da metrópole.
Em última análise,
depois do petróleo e das rotas marítimas, a água poderá tornar-se o próximo
campo de batalha estratégico no Médio Oriente. E neste conflito não declarado,
o recurso mais precioso da região provavelmente será a primeira vítima.
Irão: Guerra ameaça o abastecimento de
água e alimentos para as monarquias do Golfo
Por Oussama Nadjib
Maghreb Emergent |
Fonte de notícias económicas do Magreb
Enquanto o mundo se
preocupa com um choque mundial do petróleo, as monarquias do Golfo enfrentam
uma ameaça mais imediata: a interrupção do abastecimento de água e alimentos. A
guerra contra o Irão e a paralisação do Estreito de Ormuz expõem brutalmente a
vulnerabilidade logística das economias desérticas que dependem de importações
para a sua sobrevivência diária.
Ao atingir a infraestrutura civil e interromper as rotas marítimas, o conflito revela a fragilidade de um modelo económico que depende de importações para mais de 80% das suas necessidades básicas. A gigante dinamarquesa de transporte marítimo Maersk suspendeu as suas viagens para vários terminais importantes do Golfo, incluindo Jebel Ali e Dammam, alegando uma situação de segurança insustentável. Essa decisão atinge o coração do porto de Jebel Ali, no Dubai, um centro logístico que atende quase cinquenta milhões de consumidores na região. Segundo diversos analistas, a paralisia desse centro está a transformar países como o Catar e o Kuwait em economias praticamente sem litoral, forçadas a depender quase exclusivamente das rotas terrestres da Arábia Saudita, já congestionadas por um fluxo excepcional de camiões.
O efeito nos mercados
locais é imediato. Produtos perecíveis — bananas, frutas frescas e laticínios —
estão sujeitos à especulação, que por vezes triplicou os seus preços em menos
de quarenta e oito horas. Embora as autoridades garantam que as reservas
estratégicas cubram entre quatro e seis meses de consumo, a psicologia da
escassez já desencadeou compras por pânico nos supermercados. No Dubai, as
autoridades tiveram que flexibilizar temporariamente algumas restricções de
tráfego para manter o abastecimento de bens essenciais.
Tecnologias de tratamento de água:
Água potável, um alvo estratégico.
A crise atingiu um novo patamar com o ataque de drones a uma central de dessalinização no Bahrein. Esse episódio ressalta a extrema fragilidade de uma região onde a água potável não é um recurso natural, mas um produto industrial derivado da dessalinização da água do mar. A infraestrutura hídrica do Golfo está agora exposta a uma dupla ameaça: ataques directos às instalações e poluição marinha ligada a ataques a petroleiros.
De facto, os derramamentos de petróleo podem obstruir os filtros das centrais de osmose reversa, causando grandes paralisações técnicas. Sem essas instalações, as grandes cidades do deserto têm reservas de água potável suficientes para apenas alguns dias.
As limitações das estratégias pós-2008:
A situação actual também está a testar as políticas adoptadas após a crise alimentar mundial de 2008. Na época, países como a Arábia Saudita abandonaram os seus dispendiosos programas de cultivo de trigo para preservar as suas águas subterrâneas, preferindo investir pesadamente em terras agrícolas no exterior. Essa estratégia, no entanto, baseava-se numa premissa simples: a segurança das rotas marítimas. Agora, o quase encerramento do Estreito de Ormuz coloca essa premissa fundamental em xeque, tornando incerto o transporte dessas colheitas. Algumas infraestruturas alternativas existem. Os silos de grãos em Fujairah, localizados fora do estreito, por exemplo, oferecem capacidade estratégica de armazenamento para cereais. Mas o seu volume continua insuficiente para compensar a paralisação dos principais portos na costa oeste do Golfo. Nesse contexto, a coordenação entre os membros do Conselho de Cooperação do Golfo surge como uma das últimas alavancas para evitar uma grande interrupção nas cadeias de suprimentos. Contudo, a ausência de redes ferroviárias transfronteiriças totalmente operacionais limita ainda mais a capacidade de solidariedade logística entre as seis monarquias.
O fim do refúgio:
A crise actual demonstra que a riqueza financeira dos Estados do Golfo já não constitui um baluarte suficiente contra o isolamento geográfico e as novas formas de guerra assimétrica. Ao terceirizar a sua agricultura para preservar os seus recursos hídricos, estes países ganharam em eficiência económica, mas à custa de uma extrema dependência estratégica. A estabilidade das monarquias do Golfo depende da sua capacidade de proteger as suas infraestruturas civis e manter abertas as rotas marítimas vitais. Porque, sem livre acesso ao Estreito de Ormuz, o modelo de desenvolvimento ultra-moderno de cidades no deserto entra em conflito brutal com as realidades da geografia.
Fonte: De la guerre du pétrole à la
guerre de l’eau ? – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua
Portuguesa por Luis Júdice

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