sexta-feira, 6 de março de 2026

Médio Oriente em Chamas: Próximo Passo Rumo à Guerra Capitalista Mundial


Médio Oriente em Chamas: Próximo Passo Rumo à Guerra Capitalista Mundial

 

Declaração da Tendência Comunista Internacionalista

A nossa aversão à guerra não se deve apenas a razões humanitárias e sentimentais, mas ao facto de ela ser, em última análise, conduzida contra o proletariado.

Onorato Damen na primeira conferência do PCInt, 29 Dezembro de 1945

Há mais de quatro anos levantámos o espectro de uma crise capitalista insolúvel que levaria o mundo a uma guerra imperialista generalizada. Dois meses depois, a Rússia invadiu a Ucrânia. Desde então, a campanha de guerra aprofundou-se.

E agora os EUA estão novamente a travar guerra no Médio Oriente. Trump e Netanyahu atacaram o Irão, novamente – pouco mais de seis meses depois da 'Guerra dos Doze Dias' ter sido declarada por Trump como tendo acabado com a ameaça nuclear do Irão,(1) pouco mais de seis anos depois de termos escrito sobre mais uma ronda de debates dos EUA sobre o Irão. (2) Há seis anos, embora o Irão estivesse numa posição inferior – nunca teve o poder militar dos EUA, os EUA têm, de longe, a máquina militar mais poderosa do mundo – os EUA estavam atolados em problemas no Afeganistão, e o Irão podia contar com aliados no Iraque, Síria, Líbano, Iémen e Palestina.

Agora, os EUA estão livres do Afeganistão (tendo sofrido um sério revés que os obrigou a devolver o país aos seus aliados que se tornaram inimigos, os talibãs, claro), e a maioria dos aliados do Irão foi severamente enfraquecida ou destruída; Hamas e Hezbollah por Israel, o regime de Assad pelos fantasmas do ISIS e da Al Qa'eda no HTS. (3) O Irão ainda pode contar com algum apoio de grupos de milícias no Iraque e do governo de facto do Iémen (a milícia xiita dos senhores da guerra 'Houthis' que controla a maioria do país), mas, para já, os aliados regionais do Irão estão muito mais limitados do que antes.

Há um ano, avisávamos que os 'cessar-fogos' eram uma pausa para reagrupar e rearmar para uma nova ronda de conflito. (4) Desde então, Israel e os EUA lançaram o seu grande ataque ao Irão em Junho de 2025, e agora esta última ronda que nos leva realmente à beira de um conflito desastroso.

Cada vez mais, a anarquia das nações que tentam obter vantagem está a arriscar uma guerra mundial em grande escala. Existem muitas guerras limitadas em curso – as guerras civis no Sudão e no Congo, a guerra na Ucrânia, entre muitas outras – que ameaçam constantemente ultrapassar as suas limitações regionais. A guerra no Médio Oriente está a fazer exactamente isso. Após o ataque a Israel pelo Hamas e outros grupos militantes aliados em Gaza a 7 de Outubro de 2023, alertámos que isso poderia alargar o conflito. (5) Desde então, Israel atacou o Irão, o Líbano, o Qatar, a Síria; os EUA atacaram o Irão; O Irão atacou Israel, Síria, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita; e o Iémen atacou Israel. Todos estes ataques aumentam o risco de alargar e intensificar o conflito.

Este é o resultado inevitável de um sistema capitalista que não tem solução para as suas próprias contradições, que se vêm acumulando desde o fim do 'boom do pós-guerra', o período de reconstrução após a Segunda Guerra Mundial. Este período terminou definitivamente no início da década de 1970. Cada vez mais incapazes de gerar lucros suficientes, os Estados têm de recorrer à guerra tanto para destruir concorrentes como para controlar recursos vitais (petróleo, metais raros e, cada vez mais, água). A necessidade da guerra torna-se uma profecia auto-realizável; as guerras são necessárias para controlar recursos que são necessários para fins militares; e internamente, a austeridade e a repressão são necessárias para disciplinar a classe operária que, de outra forma, se revoltaria contra as condições necessárias para ir para a guerra. Como vimos tanto no Irão como nos EUA, a militarização da polícia é um precursor de uma acção militar no estrangeiro. Nos EUA, isto tem sido sob o pretexto de 'aplicação da política de imigração' do ICE, bem como da vigilância dos protestos do BLM há cinco anos ou dos programas 'Cop Cities' sob Biden & Harris; no Irão, a brutal repressão à recente vaga de protestos deixou milhares de mortos – um padrão que se tem repetido vezes sem conta na história da República Islâmica. As palavras de Damen em 1945, após o massacre da Segunda Guerra Mundial, lembram-nos que, em última análise, é a classe operária que paga o preço mais alto e, assim, os efeitos catastróficos das guerras do capitalismo recair mais fortemente sobre a classe que tem menos a ganhar com elas e, também, a única solução para a insanidade, ao apresentar a sua própria perspectiva da revolução comunista.

A 'esquerda' no ocidente opõe-se a esta última escalada do conflito, mas apenas na medida em que se opõe aos governos dos EUA e de Israel. Alguns grupos já apelaram à defesa do Irão e do seu governo – o mesmo governo que há um mês massacrou milhares dos seus próprios cidadãos, afogando os seus protestos contra o colapso económico e a repressão em sangue.

Esta é sempre a resposta da esquerda capitalista. Apoiar regimes brutais em todo o mundo porque as suas políticas estão em desacordo com os EUA é apenas negócios como de costume. E se um governo for contrário aos EUA ou estiver aliado a eles? E se este patrão ou aquele patrão, este presidente ou aquele presidente, este ditador ou aquele ditador estiver no poder? A luta de classes não tem nada a ver com os operários apoiarem esta ou aquela aliança ou bloco capitalista a nível internacional, nada a ver com a bandeira que um governo hasteia enquanto oprime os seus próprios operários e faz guerra aos operários dos seus rivais.

Em todo o mundo, os gastos com apoio social estão a ser cortados e os estados estão a aumentar o gasto em armamento, a rearmar e a militarizar. As manobras dos EUA sobre a Gronelândia e a sua interferência na Venezuela são passos para garantir a segurança das Américas em preparação para a guerra. (6) A beligerância chinesa no Mar do Sul da China, bem como o seu cortejo a nações de África e América do Sul, fazem parte dos seus preparativos. A própria invasão russa da Ucrânia é também uma operação algo desesperada para obter vantagem para quando a guerra generalizada chegar. Este é o caminho que estamos a seguir.

Nesta situação, é tarefa dos internacionalistas em todo o lado dizer a todos os operários 'isto é o que está a acontecer: o Estado está a militarizar-se, os seus vizinhos estão a militarizar-se, a crescente opressão e austeridade em casa são a preparação para a guerra no estrangeiro; e não há outra saída senão o derrube revolucionário do sistema capitalista que cria este mundo insano'. De certeza que não existe um 'caminho real' – apenas uma tarefa difícil e ingrata de fazer o que pudermos, onde pudermos, para espalhar a percepção de que o capitalismo é literalmente um sistema sem saída e que não temos nada a ganhar em deixá-lo continuar.

Estamos conscientes de diferentes declarações de muitos grupos diferentes que adoptam posições internacionalistas. Mas declarações e proclamações não são suficientes nesta situação. A perspectiva que apresentamos é a mesma agora como era na sequência dos ataques do Hamas a Israel em Outubro de 2023 – que todos os revolucionários precisam de pôr de lado as diferenças sectárias e levar a sério a tarefa de se organizar contra este sistema brutal e desumano.(7)

Neste período histórico é indispensável que revolucionários de todo o mundo se unam para começar a trabalhar pela formação de um partido comunista mundial, a ferramenta necessária para o derrube bem-sucedido do sistema capitalista.

Nenhuma guerra senão a guerra de classes para acabar com a barbárie imperialista, antes que seja tarde demais.

Internationalist Communist Tendency

Notas:

Imagem: Agência de Notícias Mehr (CC BY 4.0), commons.wikimedia.org

(1) O Ataque de Israel ao Irão: Algumas Reflexões Iniciais

(2) Rivalidade EUA/Irão: O Que Significa Realmente Nenhuma Guerra Senão a Guerra de Classes e o Irão e os EUA em Guerra?

(3) Mudança de regime na Síria: Mais uma reviravolta no caleidoscópio imperialista, mais um passo no caminho para uma Terceira Guerra Mundial

(4) À medida que os regimes caem e começam os "cessar-fogos", a crise capitalista continua

(5) A Última Carnificina no Médio Oriente faz parte da Marcha para a Guerra Generalizada

(6) Para Além da Venezuela: O Caminho para a Guerra Generalizada

(7) As Tarefas dos Revolucionários perante o impulso do capitalismo para a guerra

Quinta-feira, 5 de março de 2026

 

Fonte: Middle East in Flames: Next Step Toward Global Capitalist War | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice



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