Líbano, Irão, Israel
: O clã Sehnaoui
René
Naba / 19 DE SETEMBRO DE 2026 / EM Actualités
Além de Jeremy Chaabane, Antoine Sehnaoui assume um papel frenético na normalização libanesa-israelita.
1-O clã Sihanoui
A dinastia Sihanoui é uma família greco-melquita católica, originária da aldeia de Sihnâya, nos subúrbios próximos de Damasco, de onde deriva o sobrenome.
Afortunados, os Sihnâwi deram à Síria um deputado (Georges, eleito quatro vezes a partir de 1928), um deputado e ministro (Hunayn, 1903-1975, a partir de 1941) e vários financiadores de ponta.
O antepassado Mîkhâïl (18??-1930) deixou uma família numerosa para a
posteridade, incluindo sete filhos: Mitri (cuja filha Layla casou com o
deputado Kamîl Ziyâda), Hunayn, Antoun, Nicolas I, Tawfîq, Albert e Khalîl (pai
de Joseph).
Citemos também Wadih, mecenas e membro-fundador da Cruz Vermelha Síria
(1942).
Em 1929,
Mitri e Antoun mudam-se para Beirute para se dedicarem às actividades
comerciais e bancárias e, acessoriamente, à política.
O irmão mais
novo, Hunayn, fica em Damasco e destaca-se entre os grandes actores da política
e das finanças, antes de se juntar ao clã em Beirute.
Três membros
da família alcançam responsabilidades políticas no Líbano — deputados e
ministros — depois de serem naturalizados: Antoun, Mikhaïl (1899-1989), Simon
Ilyâs (1919-1998) e Maurice (1943-20..), filho de Nicolas I.
Com a sua
naturalização libanesa, os Sihnâwi tornam-se Sehnaoui.
A sucessão é
assegurada pela chegada à arena política da terceira geração na pessoa do
financeiro Nicolas II (1967-20..), filho de Maurice, candidato falhado às
eleições legislativas de 2009, mas um fracasso compensado pelo cargo no
ministério das Telecomunicações, em 2011.
Finalmente,
Antoine, filho de Nabîl, nascido em 1972. Banqueiro internacional e produtor de
filmes, uma personagem polémica que dá que falar na crónica político-judicial.
Não se deve
esquecer de um primo de Antoine, chamado Khalîl (nascido em 1975), um
especialista internacional em informática e pirataria informática a nível mundial.
Uma actividade bastante actual.
Os Sehnaoui
estabeleceram alianças matrimoniais com as grandes famílias patrícias de
Damasco e Beirute, provando, se fosse necessário, que os dois países,
baptizados pelo general francês manco Henri Gouraud, são verdadeiros irmãos
gémeos.
2- Nabil, o pai de Antoine, o precursor.
A relação da
família de Antoine Sehnaoui com Israel é antiga. Remonta a 1983, sob a
presidência do falangista Amine Gemayel, o partido que iniciou a relação com o
Estado hebraico na época da guerra civil inter-libanesa.
No
seguimento da invasão israelita do Líbano, o nome de Nabil Sehnaoui, o pai de
Antoine, é mencionado numa correspondência do ministério israelita dos Negócios
Estrangeiros. 40 anos depois, o nome do filho surge numa rede que persegue os
mesmos objetivos.
A 8 de Julho
de 1983, o director-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel
encontra-se, na verdade, na casa de Nabil, com cerca de quarenta personalidades
libanesas. Maurice e Nabil Sehnaoui estavam entre os principais convidados, ao
lado de banqueiros e juristas.
O encontro
aconteceu mesmo em Beirute, menos de um ano após o massacre dos campos
palestinianos de Sabra e Chatila. Durante este encontro, os libaneses
expressaram o desejo de que estes contactos continuassem e se reforçassem.
A 18 de
julho de 1983, uma mensagem de David Kimhi, director-geral do Ministério dos
Negócios Estrangeiros de Israel, menciona que, durante esta reunião, os
israelitas fizeram um pedido para instalar uma sede permanente em Beirute para
uma missão israelita.
Um pedido
algo surrealista, que demonstra a determinação deste clã em normalizar a todo
custo as suas relações com Israel, apesar de o Estado hebraico ocupar grandes
áreas do sul do Líbano.
No final de
1983, após tediosas pesquisas, Israel opta pelo estabelecimento de uma missão
permanente em Dbayeh, após peripécias entre Baabda e Yarzé, os bairros
residenciais do sector cristão.
3- Daniel Glaser, o antigo alto
funcionário do Tesouro americano, Conselheiro nº 1 do presidente Antoine
Sehnaoui
Trinta anos
depois das conversas em Beirute, os contactos libano-israelitas deslocaram-se
para Washington, sede da AIPAC, a principal organização de lobbying
pró-israelita.
Por acaso ou
coincidência? Daniel Glaser, antigo alto funcionário do Tesouro dos EUA, é
cooptado como membro do Conselho de Administração da “Financial Integrity
Institution”, um organismo libanês responsável por verificar a conformidade das
operações bancárias. Parece um sonho: um organismo encarregado de verificar a
integridade num país governado por uma mafiocracia político-bancária.
Sobre este
tema, ver estes links:
- https://www.madaniya.info/2023/10/02/riad-salame-le-mozart-libanais-de-la-finance-un-bernard-madoff-bas-de-gamme-1-2/
- https://www.madaniya.info/2022/04/22/liban-les-revelations-nauseabondes-sur-la-classe-politique-libanaise-1-2/
A escolha não é inocente. Daniel Glaser passou 20 anos na administração do Tesouro, o organismo responsável por sancionar instituições e pessoas hostis aos interesses americanos no mundo.
Em 2017,
Antoine Sehnaoui, na sua qualidade de CEO do “Société Générale – Banque Liban
(SGBL)”, nomeia Daniel Glaser como conselheiro nº 1 do CEO da SGBL, ou seja,
seu próprio conselheiro.
Coincidência
ou acaso também aqui? A nomeação de Daniel Glaser para o cargo de Conselheiro
nº 1 do CEO da SGBL acontece enquanto o Hezbollah libanês, o bicho-papão de
Antoine Sehnaoui, dos Estados Unidos e de Israel, enfrenta sanções financeiras
por parte dos Estados Unidos, ao abrigo do “Hezbollah Accountability Act”
(HATA).
Ou seja, uma
forma discreta de instrumentalizar uma função para atingir objectivos
inconfessáveis.
No final deste panorama, é forçoso mencionar, para ser
completo, que um dos membros da família Sehnaoui, Nada Sehnaoui, uma artista
plástica e digitalista frenética, teve um filho chamado Abdallah com o atual
primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, o homem de confiança por excelência dos
sauditas e dos americanos. Uma cereja no topo do bolo, enfim.
Para o leitor de língua árabe, cf este link.
4- L’Orient Le Jour e as
revelações sobre Antoine Sehnaoui: um arrependimento tardio.
Antoine Sehnaoui tem protagonizado manchetes nos últimos anos no Líbano com
a sua própria milícia no sector cristão de Achrafieh, no Este de Beirute,
suposto reduto de Samir Geagea, o líder das “Forças Libanesas”, a formação
cristã radical, com quem está em rivalidade. Este banqueiro e homem de negócios
com interesses por toda a parte envolveu-se activamente contra o Hezbollah e os
seus meios de comunicação aliados. As revelações do L’Orient Le Jour sobre
Antoine Sehnaoui.
A foto do
jantar do banqueiro na companhia do primeiro-ministro israelita Benyamin
Netanyahu, em Washington, no final de Julho de 2026 – enquanto o Estado
hebraico procedia à aniquilação do sul do Líbano a golpes de fósforo branco –,
provocou tal alvoroço no Líbano que o “L’Orient le Jour” teve de, contra a sua
vontade, distanciar-se desta pessoa polémica que, no entanto, foi durante muito
tempo um dos principais financiadores do diário francófono, através dos seus
numerosos anúncios publicitários.
Ao publicar
este dossier, o L’Orient-Le Jour, que se gabava de ter titulado “o Hezbollah
suicida o Líbano a mando do Irão”, com a retoma das hostilidades entre Israel e
a formação xiita, em Fevereiro de 2026, pareceu assim proceder a uma operação
de branqueamento a posteriori das torpezas passadas de um diário que se viu
durante muito tempo como o órgão não oficial do establishment político-clânico
gangrenado do Líbano, sob o pretexto de se considerar como o jornal de
referência intelectual do Líbano e do Mundo francófono do Médio Oriente.
Uma publicação
tardia - demasiado tardia - para um arrependimento tardio da sua longa
conivência com o banqueiro libanês oportunista. Um acerto de contas, em suma.
Por
transposição para o plano francês, num contexto de pré-campanha presidencial
francesa, as revelações de L’Orient le Jour puderam ser interpretadas como um
torpedo de Emmanuel Macron, tutor de Rima Abdel Malak, a nova directora de
L’Orient le Jour, contra o campo de Hollande, de forma a retirar qualquer
vontade ao socialista-motorista de suceder a “Júpiter da França” na
magistratura francesa.
Para memória
futura, Antoine Sehnaoui financia, através da empresa Ezekiel, os filmes de
Julie Gayet, a companheira do presidente “Flamby” da França, François Hollande
– o homem que se destacou ao entoar “uma canção de amor por Israel” – não na
companhia de um pacifista israelita -, mas na cozinha do primeiro-ministro
israelita ultra-direitista Benjamin Netanyahu e, como tal, o sepultador do
socialismo francês.
Sobre
François Hollande, cf este link:
“O processo
mais sensível mencionado no dossier do Orient Le Jour diz respeito a Nada
Hamadé Mouawad, embaixadora do Líbano em Washington e actualmente em destaque
devido às negociações israelo-libanesas mediadas pelos Estados Unidos”, observa
François Bacha, director do site libanês francófono Libnanews.
Segundo a investigação do jornal libanês,
Antoine Sehnaoui teria “trabalhado muito nos bastidores” para apoiar a sua
candidatura frente a Nijad Fares e Paul Salem. O texto descreve também um
empresário muito à vontade na embaixada, recebendo por vezes convidados ao lado
da embaixadora durante alguns jantares. Nada Hamadé Mouawad é ainda apresentada
como próxima do presidente Joseph Aoun e na linha da frente nas negociações
entre o Líbano e Israel”, continua Bacha.
Isso não
significa que ela actue por ordem de Antoun Sehnaoui. Mas já é suficiente para
criar um problema político importante no actual contexto das discussões que vão
continuar em Roma… Uma embaixadora envolvida em discussões tão sensíveis deve
ser vista como a representante de uma linha estrictamente institucional. A sua
credibilidade depende tanto do seu mandato oficial como da imagem de
independência que transmite em Beirute, conclui ele.
Antoine
Sehnaoui participou do lançamento de uma iniciativa que juntou o Washington
National Opera e a Ópera israelita de Telavive. Ele apareceu com um laço
amarelo em apoio aos reféns israelitas. O seu nome foi inscrito juntamente com
o de Morgan Ortagus no mural de doadores do Museu Memorial do Holocausto em
Washington. Alguns em Washington chegaram mesmo a chamá-lo de o “Lebanese AIPAC
guy”.
A
investigação do L’Orient-Le Jour também relata que Antoine Sehnaoui terá
declarado que, quando regressasse a Beirute, seria «pelo aeroporto Ben
Gurion».
Aliás,
teme-se que o zelo pró-sionista de Antoine Sehnaoui tente esconder o seu
provável fracasso financeiro.
Para memória
futura, o banqueiro é também próximo do filho do antigo presidente assassinado
René Moawad, Michel Moawad, que fala ao ouvido dos grandes da NED (National
Endowment for Democracy), uma ONG americana ultra conservadora. Este
funcionamento em rede poderia explicar, sem justificar, este enredo escaldante.
Sobre as ONG
no Liban cf este link:
Ela ignora a
nova directora do quotidiano, Rima Abdel Malak, antiga ministra francesa da
Cultura –deslocada para Beirute pelo presidente Emmanuel Macron– de que o
Líbano é o único país árabe a ter obtido a retirada israelita do sul do Líbano,
no ano 2000, sem negociação nem tratado de paz, graças ao Hezbollah, e que,
nesse sentido, a formação paramilitar xiita é vista por largas franjas da
opinião do terceiro mundo como a sentinela da independência libanesa.
Repetindo:
ignora ela, além disso, esta novata, que o Hezbollah combateu Israel mais tempo
e de forma mais duradoura do que os quatro países árabes do campo de batalha,
causando mais perdas materiais e humanas ao Estado hebraico do que a totalidade
desses países juntos (Egipto, Síria, Jordânia, Líbano, além da OLP) durante os
seus numerosos confrontos com o Estado hebraico (1982-2000, 2006, 2024-25 e
2026).
Que Hassan
Nasrallah, segundo o próprio reconhecimento de um académico israelita, é o
primeiro líder árabe desde Nasser a ter capacidade de influência sobre a
opinião israelita.
Que o
Hezbollah é a principal formação paramilitar da comunidade libanesa mais
importante em termos numéricos, os xiitas (40 por cento da população), e que
tanto ao nível da democracia digital como da democracia patriótica, o seu lugar
no tabuleiro político libanês é de destaque, apesar das vociferações dessa
conjura de bicho-do-mato.
Que,
finalmente, do magma libanês surgiu o Hezbollah, aproveitando a ascensão da
comunidade xiita no jogo político libanês, na sequência da invasão israelita do
Líbano em 1982, sobre os escombros da OLP, cujo santuário libanês tinha sido
erradicado nessa ocasião com o incentivo dos Estados Unidos e da Arábia
Saudita, os novos tutores do Líbano.
Que o
Hezbollah, –pesadelo do Ocidente, bête noire para os sauditas e israelitas–,
tem sido constantemente alvo de uma manobra de estrangulamento destinada a
neutralizar a única estrutura árabe capaz de enfrentar simultaneamente os
Estados Unidos, Israel e a dinastia wahhabita.
Ah, os
estragos do narcisismo... E da ignorância, pois é verdade que a ignorância não
se aprende (Pascal) e que o ignorante ignora a sua própria ignorância.
5- O julgamento de M. Abdallah
Naaman, antigo adido cultural do Líbano em Paris, sobre o Líbano e o Médio
Oriente
À luz do que
foi exposto, é forçoso constatar que não haverá "salvação para o país do
Cedro, enquanto os libaneses estiverem mergulhados nas suas cinco fossas
sépticas incorrigíveis: O confessionalismo, o feudalismo, a corrupção, a
cobiça, a colaboração com o estrangeiro –e por fim, última mas não menos grave
falha– o racismo interno.
“Verdadeiros
cancros sobre os quais prolifera o ADN dos libaneses ad vitam aeternam”,
considerou o Sr. Abdallah Naaman, antigo adido cultural na embaixada do Líbano
em Paris.
“O L’Orient
Le Jour (OLJ) tornou-se, há muito tempo, um boletim paroquial de uma aldeia de
província que só sobrevive graças aos subsídios do Quai d’Orsay, que tenta, em
vão, manter uma presença francesa num país que foi levado aos baptismos por um
general manco mal inspirado” (ndlr: o general Henri Gouraud), prosseguiu o
diplomata libanês que esteve muito tempo destacado na capital francesa e bem
informado sobre os assuntos franco-libaneses.
“Sabemos bem
que a França se tornou, agora, completamente eliminada da cena levantina,
apesar das palavras dos últimos falantes de francês de Achrafieh, o sector
cristão de Beirute, que continuam a resmungar que Paris ainda é a mãe nutridora
do Líbano”, concluiu o Sr. Naaman numa declaração ao site madaniya.info.
Sobre Hassan
Nasrallah
·
https://www.renenaba.com/verbatim-hassan-nasrallah/
Para ir mais longe sobre Antoine Sehnaoui, cf este link:
·
https://www.ojim.fr/antoun-sehnaoui-magnat-iconoclaste-de-la-presse-libanaise/
Para o leitor árabe, a narrativa de Al Akhbar neste link
René Naba
Jornalista-escritor, antigo responsável
pelo Mundo árabe-muçulmano no serviço diplomático da AFP, depois conselheiro do
director-geral da RMC Médio Oriente, responsável pela informação, membro do
grupo consultivo do Instituto Escandinavo dos Direitos Humanos e da Associação
de Amizade Euro-Árabe. De 1969 a 1979, foi correspondente itinerante no
escritório regional da Agência France-Presse (AFP) em Beirute, onde cobriu,
nomeadamente, a guerra civil jordaniano-palestiniana, o «Setembro Negro» de
1970, a nacionalização das instalações petrolíferas do Iraque e da Líbia
(1972), cerca de uma dezena de golpes de Estado e sequestros de aviões, assim
como a guerra do Líbano (1975-1990), a 3.ª guerra israelo-árabe de Outubro de
1973, as primeiras negociações de paz egípcio-israelitas no Mena House, no
Cairo (1979). De 1979 a 1989, foi responsável pelo mundo árabe-muçulmano no
serviço diplomático da AFP, depois conselheiro do director-geral da RMC Médio
Oriente, encarregue da informação, de 1989 a 1995. Autor de "A Arábia
Saudita, um reino das trevas" (Golias), "Do Bougnoule ao selvagem,
viagem no imaginário francês" (Harmattan), "Hariri, de pai para
filho, empresários, primeiros-ministros" (Harmattan), "As revoluções
árabes e a maldição de Camp David" (Bachari), "Média e Democracia, a
captura do imaginário, um desafio do século XXI" (Golias). Desde 2013, é
membro do grupo consultivo do Instituto Escandinavo de Direitos Humanos (SIHR),
sediado em Genebra. Além disso, é vice-presidente do International Center
Against Terrorism (ICALT), em Genebra; Presidente da associação de caridade
LINA, que actua nos bairros Norte de Marselha, e Presidente honorário de 'Car
tu y es libre' (Quartier libre), trabalhando para a promoção social e política
das zonas periurbanas do departamento das Bocas do Ródano, no sul de França.
Desde 2014, é consultor do Instituto Internacional para a Paz, a Justiça e os
Direitos Humanos (IIPJDH), com sede em Genebra. Desde 1 de setembro de 2014, é
responsável pela coordenação editorial do site https://www.madaniya.info e apresentador
de uma rubrica semanal na Radio Galère (Marselha), às quintas-feiras das 16h às
18h.
Fonte: Liban,
Iran, Israël : Le clan Sehnaoui - Madaniya
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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