Sobre uma nova publicação revolucionária: Communist Prometheus
24 de Setembro de 2026 Robert Bibeau
Pelo Grupo Internacional da Esquerda Comunista (GIGC). Em Révolution ou Guerre – Révolution ou Guerre; https://igcl.org/-Revolution-ou-Guerre- No. 34, Setembro de 2026.
La revue Révolution ou Guerre, No 34 est disponible
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A leitura do primeiro número da revista Communist Prometheus[1] (CP) veio confirmar as nossas primeiras impressões após as correspondências e discussões que pudemos ter com os camaradas deste novo grupo. O facto marcante “positivo” é que a revista e o grupo de militantes que a anima defendem claramente, sem ambiguidade, que a situação histórica actual só apresenta uma única alternativa, sem qualquer outra terceira via: revolução proletária mundial ou guerra imperialista generalizada – uma terceira guerra mundial. E perante a guerra imperialista, eles «estendem» o internacionalismo proletário até ao «derrotismo revolucionário»[2]. »
O Manifesto[3] que os
camaradas adoptaram como «documento programático» não apresenta de forma
sistemática as posições de princípio do grupo, como faria uma plataforma
política. No entanto, grande parte das fronteiras de classe defendidas
pela Esquerda comunista são mencionadas… excepto as relativas aos sindicatos e à natureza de classe burguesa do trotskismo [4]. Nada é dito
sobre os sindicatos. Obviamente, os
camaradas não poderão permanecer em silêncio sobre a natureza de classe dos
sindicatos hoje, nem que seja porque querem intervir com um mínimo de coerência
nas lutas operárias.
Na verdade, a dificuldade e o objectivo de qualquer
novo agrupamento de revolucionários – o mesmo se aplica aos militantes
individuais – é reapossar-se do legado histórico da Esquerda Comunista
Internacional e, se possível, inserir-se na tradição da Esquerda Comunista de
Itália. Para isso, é importante romper da forma mais clara possível com todas
as formas políticas e ideológicas do esquerdismo. Essa é a orientação que, da nossa
parte, temos defendido junto dos camaradas desde o início dos nossos contactos.
«Não pode haver atalhos e a adopção das posições revolucionárias não pode
ocorrer, depois de toda uma experiência esquerdista (...) sem que se tenha feito
um balanço crítico e uma ruptura política clara e profunda. É precisamente
durante este balanço e este processo de ruptura que poderão adoptar com total
clareza política as posições revolucionárias e fazer vosso o legado da Esquerda
Comunista», escrevíamos-lhes em Janeiro de 2026.
Ora, deste ponto
de vista, parece-nos que o primeiro número da revista não responde totalmente a
esta exigência. A ruptura com o esquerdismo é, no mínimo, insuficiente, como
vamos tentar demonstrar. Uma das consequências políticas imediatas é que os
membros do grupo, em ruptura organizacional com o grupo esquerdista
italiano Lotta Comunista, não consideraram útil pronunciar-se primeiro sobre as plataformas e
programas defendidos pelos grupos actuais da Esquerda Comunista antes de
adoptarem o seu próprio Manifesto e as suas próprias posições e de constituírem
mais um grupo revolucionário. Ora, mesmo que o CP defenda um grande número de
posições, ou fronteiras, de classe, a sua reivindicação assumida de
uma continuidade organizacional – que passa por esta experiência de duas
décadas com a Lotta – e do percurso do seu grupo de militantes
desde 1998 não pode deixar de enfraquecer a base política e a coerência
programática do CP, tal como a sua homogeneidade política interna. É o que
ilustra a ausência de tomada de posição sobre a questão sindical.
O editorial da revista [5] que não podemos reproduzir aqui,
apresenta-nos o CP como «o resultado natural de quase trinta anos de
trabalho levado a cabo pelo nosso grupo [o Grupo Marxista de Kirov].
(…) A primeira etapa foi a publicação do jornal Komsa, lançado
em Junho de 1998 no contexto de uma profunda crise económica na Rússia. Ao
contrário de muitos grupos ‘de esquerda’, não
considerávamos 1991 como uma ‘contra-revolução burguesa’; para nós, esta já
tinha ocorrido em 1925, quando o estalinismo, depois de triunfar na URSS,
abandonou o caminho da revolução mundial. (…) Os princípios do
internacionalismo proletário faziam parte integrante da nossa organização desde
o início. É por isso que, quando o conflito inter-imperialista se intensificou
em 2014 e a Ucrânia se tornou uma das suasfrentes militares, não precisámos de
rever as nossas posições. (…) No momento em que uma parte importante da chamada
‘esquerda’ se afundava no chauvinismo social, defendemos
incansavelmente a tese marxista clássica: o
proletariado não tem pátria, e qualquer nação moderna não é senão uma casca
política e económica ao serviço do capital. A tarefa da classe operária em
qualquer conflito imperialista resume-se a um único princípio: o principal
inimigo está em casa. (…) Hoje, a situação exige que avancemos para a próxima
etapa. Como indica o Manifesto [6] publicado, a era das revoluções
democráticas burguesas e dos movimentos de libertação nacional terminou
definitivamente. O capitalismo encadeou definitivamente o planeta às correntes
do mercado mundial, mantendo ao mesmo tempo a classe dos trabalhadores
assalariados dividida.
A publicação Communist Prometheus é ditada
pela necessidade de nos empenharmos num trabalho concreto com vista à formação
de um partido comunista mundial. Avaliamos as nossas forças com lucidez, não
nos consideramos um partido plenamente constituído e reconhecemos que somos
apenas um componente do movimento concreto que tende para isso. Nesse caminho,
mantemos-nos abertos à colaboração com todas as organizações da Esquerda
comunista que defendem de forma coerente as posições do marxismo e do
internacionalismo proletário.
Portanto, parece
acima de tudo que o novo grupo não é "novo", já que se reivindica de
uma continuidade organizacional e política com o grupo russo Kirov Marxist Group
[KMG], constituído em 1998. Outro artigo da revista, Searching for a Way [7] [À procura de um caminho] fornece-nos mais informações
sobre o percurso do KMP até ao Communist Prometheus hoje, o
que pode esclarecer a natureza e a realidade desta continuidade orgânica
reivindicada. Há três momentos da história que devem ser destacados:
- citando o editorial do primeiro número da Komsa, Searching for a Way parece situar a origem do grupo na organização juvenil do partido comunista russo estalinista da altura, o Komsomol: «No final da era soviética [da URSS?], o termo ‘Komsa’ designava a ala rebelde e incontrolável da organização de massas do Komsomol, ou seja, aqueles que não suportavam ter de assistir a reuniões enfadonhas e todas iguais»;
- « Em Agosto de 2000, o KMG participou na segunda conferência do Movimento por um Partido Operário (DzRP). Durante esta conferência, ocorreu uma cisão: os delegados do Partido Marxista dos Trabalhadores e da Fracção Operária do DzRP saíram do movimento; pouco depois, o KMG também se retirou da organização.. » O artigo do CP não indica que o Workers’ Party e os outros participantes nesta conferência eram na sua maioria grupos trotskistas e nada é dito sobre as razões políticas da sua « retirada »;
- por fim, « ao longo do inverno de 2000, a organização italiana Lotta Comunista entrou em contacto connosco. (…) Esta escolha permitiu-nos: alargar os nossos horizontes marxistas e aprofundar a nossa experiência; aceder à análise estratégica aprofundada e de longo prazo das relações internacionais conduzida pela Lotta Comunista há décadas, bem como a documentos científicos mais específicos, mas igualmente valiosos, abrangendo uma ampla variedade de questões; adoptar um modelo de trabalho organizacional sério, responsável, disciplinado e sistemático, baseado numa planificação a longo prazo[8]. »
Portanto, ao ler
textos publicados, percebe-se que todo o percurso de Komsa até Communist
Prometheus está ligado a organizações de esquerda e esquerdistas, ou
seja, a organizações e correntes contra-revolucionárias e burguesas. Isto
apresenta um problema político para qualquer agrupamento, formal ou informal,
de indivíduos e militantes revolucionários. Sejamos claros, não estamos aqui a
julgar as circunstâncias particulares pelas quais os indivíduos e membros
atuais do CP possam ter passado ao longo da sua vida militante. Pelo que os
camaradas nos disseram, não temos dúvidas sobre a honestidade e a sinceridade
do seu compromisso militante. Mas o percurso pessoal e o percurso das
organizações políticas devem ser distinguidos. A ruptura política e de
princípio com o esquerdismo não pode acontecer sem descontinuidade e ruptura
organizacional para qualquer agrupamento de militantes.
Ora, os artigos da revista não nos fornecem
explicações claras, ou seja, programáticas e de princípio, sobre as motivações
da sua ruptura com o estalinismo do Komsomol, os trotskistas do Workers Party
ou mesmo com o Lotta Comunista. A sua ruptura com o estalinismo
parece ter incidido mais sobre questões secundárias do que sobre questões de
princípio, se formos pelo que apresenta o CP. Apresentada como o «período
romântico da [sua] formação revolucionária» – confundindo
aqui também trajectórias individuais, por um lado, e continuidade
organizacional e descontinuidade de classe, por outro – o CP indica-nos quais
teriam sido os supostos «princípios leninistas reconstruídos» então: a rejeição
do militante de carreira (os burocratas estalinistas?); « num período
não revolucionário, a política é apanágio de minorias restrictas e organizadas
– as vanguardas das classes »; « o
reconhecimento da necessidade de um órgão de imprensa que nos seja próprio (…)
enquanto organizador » colectivo; « o facto de se posicionar
como organização da classe operária mundial »; e « uma
estratégia elaborada com base numa análise marxista ». Só « o
Estado enquanto aparelho de violência de classe da classe dominante »
pode remeter para uma questão de princípio de classe. Não é preciso dizer que
muitos militantes de esquerda, incluindo estalinistas, podem fazer todos esses
supostos “princípios”. Para Lotta, acontece o mesmo. Só se menciona
uma única questão de princípio: « a atitude em relação ao suposto
‘Movimento de Resistência’ durante a Segunda Guerra Mundial [9]. »
Mais perigoso ainda, como vimos na citação anterior,
os camaradas veem os seus vinte anos na Lotta Comunista como
um momento positivo da sua evolução. « Aprendemos muito ao longo
deste quarto de século, e ganhámos e formámos novos camaradas.
(…) Este quarto de século não foi tempo perdido. Tornámo-nos
incontestavelmente mais fortes do que éramos quando conhecemos a Lotta
Comunista. É precisamente por isso que não se pode dizer que demos dois
passos atrás. Continuamos a avançar. Tendo percebido que permanecer mais tempo
na Lotta Comunista era incompatível com as conclusões a que
chegámos (expostas no nosso ‘Manifesto’), tomámos a única decisão possível:
romper as nossas relações com esta organização. » (destacamos)
A ruptura com a Lotta Comunista –
assim como com o estalinismo e o trotskismo – não está feita ao nível dos
princípios, pelo menos não entendida como tal. Não pode incidir apenas sobre o
militância, a necessidade de uma revista «organizadora colectiva» ou outra
coisa semelhante; mas sobre o facto de estes movimentos terem traído o
internacionalismo proletário, com a teoria estalinista do «socialismo num só país» e a participação do
trotskismo e dos antepassados da Lotta Comunista nos
movimentos de resistência anti-fascista durante a 2.ª Guerra Mundial.
Consequentemente, eles são total e definitivamente, enquanto correntes e
organizações, passados para o campo da contra-revolução. A partir deste facto
histórico, os comunistas não discutem ou debatem com eles, não «reconstroem
princípios ditos leninistas» que teriam sido abandonados por estes; eles
denunciam-nos e combatem-nos e apelam aos seus militantes sinceros para romper
politicamente com estas organizações burguesas.
Talvez os camaradas estejam mais ou menos conscientes
da fraqueza da sua ruptura tal como a apresentam: «As divergências mais
profundas [com a Lotta Comunista] encontrarão expressão nas
páginas da nossa revista. A polémica aberta sempre foi uma arma do marxismo, e
continuaremos a utilizá-la na nossa luta.», afirma a revista. Só podemos
encorajá-los a seguirem por este caminho de forma decidida, abandonando
qualquer hesitação ou timidez. A ausência de um balanço crítico da sua
experiência passada e de uma ruptura clara com toda forma de esquerdismo,
inclusive o desta organização [10], só pode prejudicar o trabalho de
reapropriação histórica que o CP e os seus membros têm de levar a cabo. A longo
prazo, é toda a coerência de princípio e de programa e, com ela, a
homogeneidade do grupo como tal, que ficaria prejudicada, precisamente no
momento em que se anuncia o furacão histórico.
A orientação que definimos em relação aos camaradas
desde o início da nossa relação não mudou. As nossas observações críticas podem
parecer severas. Elas visam participar na clarificação e no agrupamento mais
completo dos membros do CP dentro da Esquerda Comunista. É também por isso que,
apesar das nossas críticas, saudamos e apoiamos a vontade dos camaradas de
participar nos debates que atravessam o campo proletário. Não duvidamos que é
também nos debates e confrontos políticos com os grupos da Esquerda Comunista
que os membros do CP tomarão consciência da necessidade de uma ruptura clara e
nítida com toda forma de esquerdismo. [11].
GIGC/IGCL, Julho de 2026
Aviso
Enviámos este artigo
ao Communist Prometheus antes da sua publicação para informação. Recebemos uma
carta de 5 páginas a criticar fortemente a nossa posição. Apesar do pedido
deles, não podemos reproduzi-la nesta edição. Tivemos em conta algumas observações
específicas e mudámos algumas partes. Reservamo-nos o direito de publicar
excertos na nossa próxima edição.
[1]. 100 páginas em russo, italiano, espanhol e inglês! (https://comprom.org/)
[2] . https://comprom.org/en/about/
[3] . https://comprom.org/en/manifest/
[4]. «
O mais conhecido destes movimentos é o trotskismo, que atualmente nem sequer
dispõe de uma teoria unificada e que degenerou ao nível de ideologias
pequeno-burguesas que não vão além de certas reivindicações nacionais ou de
alianças interclassistas. » Este trecho do
Manifesto do Communist Prometheus não denuncia o trotskismo como
corrente política burguesa e contra-revolucionária. Ele o « critica » pelos
seus défices teóricos e pela sua ideologia pequeno-burguesa. Para o
proletariado, os chamados « défices teóricos » do trotskismo são a marca da sua
natureza hoje burguesa, portanto impossível de superar. Se se tratasse de
défices teóricos, então poderiam ser ultrapassados e o trotskismo como corrente
e as suas organizações ainda poderiam voltar e pertencer ao campo
revolucionário.
[5] . https://comprom.org/en/blog/editorial-note/
[6] . https://comprom.org/en/manifest/
[7] . https://comprom.org/en/blog/in-search-of-the-way/
[8]. Isso significa que os membros do CP fazem um balanço positivo da sua
experiência e actividade militante na Lotta Comunista.
[9]. Os desacordos apresentados pelos camaradas não dizem respeito a questões
de princípio nem ao carácter burguês da Lotta Comunista: «No entanto,
depois de quase um quarto de século, fomos forçados a romper as nossas relações
com esta organização, porque, durante todo esse tempo, ela não conseguiu
colocar uma série de questões-chave, estreitamente ligadas entre si, sobre as
causas da passividade actual da nossa classe; as condições em que esta superará
essa passividade; e o que deveria ser, precisamente nessas condições de classe,
o modelo do próprio partido, os seus métodos de trabalho e o próprio tipo de
revolucionário proletário.»
[10]. Esta organização, pouco conhecida fora de Itália – tem um grupo em França
que publica o jornal L’internationaliste – «vive» do seu
controlo sobre todo um aparelho sindical italiano. Ela aproveita as finanças
assim obtidas para desenvolver o seu aparelho organizacional com «permanentes»,
ou ainda atrair militantes em exílio, fornecendo-lhes trabalho e salário, pagos
graças aos fundos retirados do aparelho sindical. Um pouco como os lambertistas
em França. O seu funcionamento interno e a «gestão» dos seus militantes são de
caráter sectário e até «violento», se necessário. Ao mesmo tempo que se
reivindica da resistência anti-fascista italiana, também se afirma como uma
componente da Esquerda de Itália, o que todos as correntes e grupos
provenientes do PC de Itália e da sua fracção de esquerda dos anos 1920 e 1930
rejeitam e denunciam com razão.
[11]. É por isso que publicamos a seguir uma carta crítica da parte deles sobre
o nosso artigo Ou como o conselhismo, expulso pela porta, volta pela janela no
nosso número anterior (cf. Révolution ou guerre #34: https://igcl.org/Les-conseils-ouvriers-et-le-parti e
em Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: "Os conselhos
operários e o partido de classe": ou como o conselhismo, expulso pela
porta, volta pela janela). Fazemo-lo seguir da resposta que enviámos
ao CP e que vai muito além, era essa a nossa intenção, do desacordo particular
que os camaradas expressam sobre a «auto-organização»
Fonte: www.igcl.org
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa
por Luis Júdice

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