HENDA AYARI: AS PALAS DE UM PENSAMENTO BINÁRIO
10 de Setembro de 2026
Robert Bibeau
Por Khider Mesloub.
Henda Ayari
revelou-se. Ainda bem para ela. O problema é que, por querer fazer do uso do véu
por outras mulheres muçulmanas o objecto de um julgamento político, ela acaba
por revelar outra coisa: os limites do seu pensamento binário.
Há pessoas que mudam de convicções sem nunca mudar de software intelectual. Saem de uma capela (mesquita) para entrar noutra, queimam o que adoravam ontem e adoram o que outrora teriam queimado, mas guardam precariamente a mesma mecânica mental: o mundo dividido em dois, o Bem contra o Mal, os iluminados contra os obscurantistas, os libertos contra os alienados.
Henda Ayari parece pertencer a esta categoria. Ontem, o rigorismo religioso
explicou-lhe como uma mulher deve vestir-se para ser respeitável. Hoje, esta
auto-proclamada campeã da emancipação afirma explicar às mulheres muçulmanas
como devem vestir-se para serem livres. A ordem foi invertida. A lógica
prescritiva mantém-se.
Do niqab ao julgamento permanente do
lenço
Henda Ayari tornou-se conhecida sobretudo pelo relato da sua ruptura com o
salafismo. Em *J’ai choisi d’être libre*, publicado em 2016, ela conta a sua
imersão nesse universo religioso rigoroso, o seu casamento, o uso do véu
integral, as restricções que afirma ter sofrido e depois a sua ruptura. Ninguém
pode contestar-lhe essa experiência. Se ela viveu o niqab como uma prisão,
obviamente tinha o direito de o tirar. Se considerava o seu ambiente religioso
opressivo, tinha o direito de o deixar. Se queria reconstruir a sua vida de
outra forma, não precisava de pedir permissão a ninguém. Até aqui, nada a
apontar.
Mas Henda Ayari parece
ter tirado desta experiência uma estranha conclusão: uma vez que o seu véu foi
uma opressão, o dos outros torna-se suspeito. É assim que uma experiência
pessoal se transforma em teoria geral. O raciocínio parece funcionar assim: ter
sido salafista permitiria conhecer o Islão; ter usado o véu, saber por que as
outras mulheres o usam; ter vivido sob domínio, reconhecer o domínio numa
desconhecida vista por alguns segundos na televisão.
Magnífico método científico. Nesse caso, o antigo alcoólico torna-se enólogo, o antigo seminarista torna-se teólogo e o antigo membro de um partido político torna-se professor de ciência política.
A experiência dá, no entanto, uma única competência incontestável: a de poder testemunhar a própria experiência. Não concede nenhum doutoramento imaginário que permita dissecar a consciência dos outros.
« Eu experimentei, portanto
sei »: a experiência transformada em expertise
Mas o personagem do antigo iniciado que se tornou procurador possui uma qualidade mediática excepcional. Ele pode pronunciar a frase mágica: «Eu venho de lá». Três palavras que substituem uma bibliografia. Três palavras que por vezes dispensam investigar, demonstrar, contextualizar.
Porque é que esta mulher usa um lenço? Inútil perguntar-lhe. Henda sabe. É
crente? Conservadora? Apolítica? Sob pressão familiar? Militante? Simplesmente
ligada a uma prática religiosa? Não importa. O lenço falou. E Henda Ayari seria
a intérprete juramentada. Eis que se transforma na Champollion do hijab:
aparece um pedaço de tecido e ela pretende decifrar imediatamente o hieróglifo
político.
É precisamente aí que se revela o carácter binário do raciocínio. Não na
crítica ao salafismo, perfeitamente legítima. Não na crítica ao islamismo,
também legítima. Mas nesta formidável redução de milhões de trajectórias
humanas à sua própria auto-biografia.
O caso da advogada Youssra Marzouq é, a este respeito,
um exemplo particularmente revelador. Uma advogada aparece na televisão no
âmbito da sua actividade profissional. Ela usa um lenço. E aí é que a máquina
identitária se põe em funcionamento. De repente, a sua profissão torna-se
secundária. A sua competência profissional desaparece. A pessoa desaparece.
Fica o véu. Alguns centímetros de tecido foram suficientes para transformar uma
aparição profissional num caso político-religioso. Henda Ayari e a advogada
Lara Fatimi reagiram publicamente a esta aparição. Youssra Marzouq acabou por
iniciar um procedimento judicial, em particular por incitação à discriminação,
difamação e insulto público devido à pertença religiosa. Henda Ayari contesta
estas acusações e apresenta, por seu lado, o processo como uma tentativa de a
silenciar. Que a justiça decida o que é uma questão de direito. O que nos
interessa aqui é uma questão política. Porque o episódio revela um reflexo que
se tornou obsessivo numa parte do debate francês: a mulher muçulmana
dificilmente pode aparecer em algum lugar sem que alguém se apresse a comentar
o que ela leva na cabeça. Ela poderia anunciar que descobriu uma vacina contra
o cancro que alguns provavelmente começariam por perguntar por que é que ela
usa um lenço.
Ela removeu o véu, mas mantém o dos outros na cabeça
Eis o paradoxo saboroso. Henda Ayari ficou conhecida por explicar que se
recusava a ser reduzida ao seu véu. E o que faz agora? Contribui para reduzir
outras mulheres ao seu véu.
Ontem, o salafista olhava para uma mulher de cabeça descoberta e só via o
seu cabelo. Hoje, alguns militantes da «libertação» olham para uma mulher de
véu e só veem o seu lenço. As conclusões são invertidas. A pobreza do olhar
mantém-se. Nos dois casos, a mulher real desaparece. As suas ideias?
Acessórios. O seu trabalho? Secundário. A sua história? Desconhecida. As suas
escolhas? Suspeitas. A sua individualidade? Dissolvida. Resta-lhe o seu
vestuário.
Formidável progresso. Passámos da polícia religiosa do vestuário à polícia
ideológica do vestuário. A primeira dizia: cobre-te. A segunda sussurra:
descobre-te. E cada uma, obviamente, finge agir em prol do bem da mulher.
Aqui talvez esteja o
verdadeiro interesse do caso Henda Ayari. Podemos romper com um dogma sem
romper com a mecânica do dogmatismo. Por vezes basta apenas inverter os sinais. Ontem: véu = virtude. Hoje:
véu = opressão. Ontem: revelar-se = depravação. Hoje: revelar-se = emancipação.
Ontem: a mulher respeitável devia estar coberta. Hoje: a boa muçulmana estaria
descoberta. O cenário muda. Os protagonistas mudam. A estrutura mental
sobrevive. Porque a verdadeira emancipação intelectual não consiste em passar
mecanicamente do «sim» para o «não». Consiste em aprender a pensar. E pensar
significa aceitar esta coisa terrivelmente cansativa para mentes binárias: a
complexidade. Uma mulher pode usar véu por força. Outra pode usá-lo
voluntariamente. Uma terceira pode usá-lo aos vinte e deixar aos trinta. Uma
quarta pode fazer exactamente o contrário. Uma quinta pode nem se importar. A
humanidade possui este péssimo hábito de não entrar docilmente nas caixas dos polemistas.
Em certos discursos, o lenço tornou-se um instrumento extraordinário de diagnóstico. Os detractores do véu veem uma mulher de véu, não sabem nada sobre ela, ignoram o que ela lê, em quem vota, a sua relação com a religião, as suas relações familiares, ignoram até o seu nome. Mas milagre: já sabem que ela está alienada, instrumentalizada, comunitarizada ou que tem um projecto político. Porquê? Porque ela usa um lenço.
O pensamento político tornou-se extremamente económico. Já não é preciso ler Marx, Weber, Durkheim ou Bourdieu. Um lenço chega. Alguns centímetros de tecido substituem, vantajosamente, várias milhares de páginas de sociologia.
Combater o islamismo ou perseguir os lenços?
Que as coisas fiquem, no entanto, claras. O islamismo existe. O
fundamentalismo existe. As pressões religiosas existem. Mulheres são obrigadas
a cobrir-se. Organizações de facto instrumentalizam o véu. É preciso combater
politicamente esses movimentos quando procuram impor a sua ordem moral reaccionária.
Mas precisamente: combater o islamismo implica ser capaz de distinguir um
islamista de uma mulher que usa um lenço. Caso contrário, a palavra «islamismo»
deixa de designar uma ideologia política. Passa a designar uma aparência. Uma
mulher de véu torna-se islamista por presunção. Uma estudante de véu: suspeita.
Uma advogada de véu: suspeita. Uma mãe de véu: suspeita. Uma empregada de véu:
suspeita.
Bem-vindo à República do delito têxtil. Já não são necessários actos. Já
não são necessários discursos. Já não é necessária organização política. O
lenço constitui a peça de prova. O mais cómico é que tudo isto acontece em nome
da liberdade das mulheres. A mulher muçulmana é livre. Absolutamente livre. Com
uma pequena condição: que faça a escolha certa. Ela tira o véu? Aplausos. Ela
decide mantê-lo? Atenção: não estará sob influência? Ela afirma tê-lo
escolhido? Prova adicional da sua alienação: nem sequer sabe que é dominada.
Admirável sistema. Cara, tenho razão. Coroa, estás alienada. A mulher muçulmana
adquire assim um privilégio filosófico extraordinário: pode falar, mas há quem
saiba melhor do que ela o que pensa. Ela diz: «Escolhi.» Responde-se-lhe:
«Achas que escolheste.» Ela insiste. Explica-se-lhe o seu inconsciente. A este
nível, já não é emancipação. É ventriloquia.
Entretanto, a vida material continua. Milhões de mulheres trabalham por
salários modestos. Elas enfrentam a precariedade, horários desregulados, rendas
proibitivas, empregos penosos, violência doméstica, discriminação profissional.
Mas felizmente, o debate público está atento. Ele ocupa-se do lenço.
Uma caixa pode passar oito horas em pé por um salário baixo: o problema
civilizacional será o tecido que eventualmente usa na cabeça. Uma empregada
doméstica pode começar o seu trabalho antes do amanhecer: debatamos o seu
hijab. Uma mãe solteira pode contar cada euro no dia 25 do mês: questionemo-nos
sobre o seu grau de integração.
O capitalismo adora estas guerras culturais. Enquanto os proletários se
digladiam sobre o véu, ninguém fala do salário. Enquanto se medem os
centímetros de tecido, já não se medem os lucros. Enquanto se debate a
visibilidade do cabelo, a exploração permanece perfeitamente invisível. O véu
cumpre então uma função ideológica magnífica: ele oculta a questão social.
Uma
emancipação medida ao centímetro capilar
Seria, portanto, necessário relembrar algumas evidências que se tornaram
revolucionárias. Uma mulher de cabeça descoberta não é necessariamente livre.
Uma mulher de véu não é necessariamente submissa. Uma mulher de mini-saia pode
viver sob o domínio de um parceiro violento. Uma mulher com lenço pode dirigir
uma empresa. Uma operária sem véu pode ser explorada. Uma médica de véu pode
ser economicamente independente. Nenhuma dessas situações permite tirar uma
regra universal. Mas é precisamente aí que está o problema. A complexidade não
faz um bom slogan. O lenço, por outro lado, gera imediatamente polémica.
No entanto, Henda Ayari não é a única responsável pelo seu lugar no espaço
público. Existe um mercado mediático do arrependido. O antigo comunista que se
tornou anti-comunista. O antigo esquerdista que se tornou reaccionário. O
antigo crente que se tornou crítico da sua religião. O antigo iniciado tem
sempre um valor de mercado superior ao simples adversário. Porquê? Porque ele
traz a maior garantia: «Eu estive lá dentro.»
O programa de
televisão pode então respirar de alívio. Não somos nós que acusamos. É ela,
Henda Ayari. Ela conhece. Ela viveu isso. Ela sabe. A sua auto-biografia
torna-se expertise. A sua experiência torna-se estatística. A sua percepção
subjectiva torna-se análise política. E a sua trajectória individual serve para
confirmar uma narrativa colectiva já escrita. Henda Ayari cumpre admiravelmente
esta função mediática: a da ex-salafista cuja palavra pode ser usada para
autenticar certos discursos sobre o véu e o islão. Mas o estatuto de testemunha
não confere automaticamente o de pensadora. E é precisamente aqui que se
revelam os limites deste pensamento binário.
Tirar o véu não é suficiente para tirar
as vendas dos olhos
Então, não devemos interpretar mal o sentido desta crítica. Não se trata de
insultar uma mulher. Não se trata de negar a sua história. Também não se trata
de contestar os sofrimentos de que ela dá testemunho. O que aqui é criticado é
intelectual e político: o atalho, a generalização, esta maneira de transformar
uma auto-biografia em sociologia, de pretender conhecer uma mulher pelo seu
lenço, de confundir islamismo, islamismo radical, salafismo, crença, prática
religiosa e sinal vestimentar numa enorme mistura identitária.
Henda Ayari queria ser livre. Perfeito. Mas existe uma prova muito mais
exigente do que reivindicar a própria liberdade: suportar a liberdade dos
outros. Suportar que uma mulher possa fazer exactamente a escolha que você
rejeitou. Suportar que ela possa usar o que você tirou. Suportar, acima de
tudo, que ela não precise da sua aprovação para se considerar livre. Porque a
liberdade que só tolera as escolhas de acordo com as suas próprias preferências
já não é liberdade. É uma disciplina. Uma ditadura.
Henda Ayari tirou o seu véu. Fez disso um livro. Fez disso um relato de
emancipação. Fez disso uma identidade pública. Está bem. Mas tirar um véu não é
suficiente para tirar as vendas dos olhos. E talvez a ironia final esteja aí.
Durante anos, Henda Ayari contou como se havia descoberto para se tornar livre.
Agora, ao insistir em interpretar o véu dos outros, conseguiu um segundo
descobrimento, muito menos glorioso. Revelou os limites do seu pensamento
binário.
Khider MESLOUB
Fonte: HENDA AYARI : LES ŒILLÈRES D’UNE PENSÉE BINAIRE – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice
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