Os 40 triliões de dólares de dívida dos EUA: o ponto de não retorno?
30 de Setembro de 2026 Robert Bibeau
por Adrian Korczynski. Sobre os 40 triliões de dólares de dívida dos EUA: o ponto de
não retorno foi atingido – International Network
A 19 de Agosto de
2026, a dívida nacional dos EUA ultrapassou oficialmente o limiar dos 40 triliões
de dólares. Este número tornou-se tão impressionante que corre o risco de
perder todo o significado concreto. É precisamente por isso que é importante.
Quarenta triliões de dólares já não são uma projecção nem um aviso para o
futuro. Esta é agora a realidade contabilística actual do Tesouro dos EUA.
Isto não é apenas um problema abstracto que Washington deveria gerir. Esta
é uma realidade estrutural com consequências directas para o sistema financeiro
mundial. Também não é abstracto para governos estrangeiros, bancos centrais e
investidores que detêm uma parte significativa dos títulos do Tesouro emitidos
ao público. Estão a acompanhar estes números tão de perto quanto o próprio
Departamento do Tesouro.
O aviso foi ignorado
Durante a sua primeira campanha
presidencial, Donald Trump alertou que uma dívida nacional próxima dos 24 triliões de dólares representaria
"o ponto sem retorno" para a América. "É aí que nos tornamos a Grécia", disse ele. "É aí que nos tornamos um país que já não pode ser salvo." Desde o aviso de
Trump, a dívida federal total aumentou mais de 16 triliões de dólares.
Trump não foi o primeiro a alertar sobre a trajectória da dívida dos EUA, e
não será o último. Os seus sucessores, republicanos e democratas, continuaram o
mesmo padrão de gastos que ele criticou como candidato, antes de o perpetuar
ele próprio como presidente. A dívida aumentou sob cada administração, em
tempos bons e maus, em tempos de guerra e de paz, com consistência bi-partidária.
A mecânica do gasto deficitário não é uma falha do sistema. É o próprio
sistema.
Quando o interesse se torna o problema
A dimensão do problema é difícil de
compreender, pois estes números perderam toda a ligação com a experiência
vivida. A relação dívida/PIB situa-se agora em torno dos 123%, um
nível outrora visto como um alerta para as economias desenvolvidas, mas agora quase
normalizado nos EUA. Os défices anuais mantêm-se na ordem dos 2 mil milhões de dólares, mesmo quando o
desemprego é baixo e a economia não está em recessão. A diferença estrutural
entre o que o Estado recolhe e o que gasta não é um fenómeno temporário devido
a medidas de emergência. Está incluído no próprio orçamento.
Uma das mudanças mais significativas no
orçamento federal é o aumento dos pagamentos de juros. Com mais de mil milhões de dólares por ano, os pagamentos
de juros rivalizam agora com os gastos em defesa e absorvem mais recursos
federais do que muitas das principais funções governamentais juntas. Quanto
mais o governo contrai empréstimos, maior se torna o peso dos juros, reduzindo
o espaço orçamental disponível para tudo o resto e tornando cada vez mais
difícil escapar a dívida adicional. Este mecanismo não implica malícia ou
incompetência. Basta que as políticas actuais continuem.
Os Estados Unidos não são a Grécia, e os seus activos são infinitamente
maiores. Mas o mecanismo do adiamento político é familiar: endividar-se
continua a ser mais fácil do que enfrentar as escolhas fiscais e orçamentais
necessárias para mudar de rumo.
O dilema do dólar
A consequência central de grande parte do debate ocidental sobre a
desdolarização é assumir que o dólar deve primeiro ser substituído por outra
moeda única.
Não é o caso.
Um sistema financeiro multipolar não exige que o renminbi se torne um novo
dólar. O desenvolvimento mais significativo é a fragmentação gradual de um
sistema em que uma quota crescente do comércio internacional, das reservas e
das transações financeiras já não necessita do dólar.
Este processo já está em andamento.
A China e a Rússia desenvolveram o uso de moedas nacionais no seu comércio
bilateral. A Índia tem favorecido o acordo de moeda local com parceiros seleccionados.
Os bancos centrais aumentaram as suas reservas de ouro enquanto diversificavam
as suas carteiras de activos e moedas. Sistemas regionais de pagamento, acordos
bilaterais de swaps e mecanismos alternativos de liquidação estão a
desenvolver-se em paralelo com a arquitectura financeira ocidental.
Nenhum destes desenvolvimentos, tomados isoladamente, acabará com o papel mundial
do dólar. No entanto, tomados em conjunto, mudam a questão colocada.
Já não se trata apenas de saber qual moeda poderia substituir o dólar.
A questão mais importante é quantas transacções podem ser realizadas
gradualmente sem isso.
O papel da China é particularmente importante neste processo. O renminbi
não precisa de se tornar a moeda de reserva dominante no mundo para ganhar
importância. A dimensão da economia chinesa, as suas relações comerciais e a
sua posição central nas redes económicas eurasiáticas e do Sul Global
permitem-lhe expandir gradualmente o seu papel, especialmente no comércio e nos
pagamentos bilaterais.
Para muitos governos, o atractivo não é ideológico.
É prático.
Um governo não precisa de acreditar que Pequim representa um modelo
político melhor do que Washington para preferir um sistema financeiro em que o
acesso ao comércio e aos pagamentos dependa menos de uma única potência
externa.
Este é o significado profundo da desdolarização.
Não o colapso súbito do dólar.
A construção gradual de um mundo em que o dólar já não é o ponto de partida
automático.
O deslizamento silencioso das reservas globais
Esta erosão já é
visível no comportamento dos bancos centrais estrangeiros. Ao longo da última
década, a composição das reservas oficiais diversificou-se progressivamente. As
reservas de ouro aumentaram, algumas grandes economias reduziram a sua
exposição aos títulos do Tesouro americano, e os bancos centrais mostraram um
interesse crescente na distribuição das suas reservas por uma gama mais ampla
de activos e moedas. O processo é desigual e não equivale a uma desistência
iminente do dólar. Mas a direcção é suficientemente clara.
O ritmo desta diversificação acelerou-se após o congelamento dos activos russos em 2022, que demonstrou que activos detidos no sistema financeiro ocidental poderiam ser transformados numa arma contra Estados soberanos. Para muitos governos, a lição não foi que os títulos do Tesouro americano se tornaram de repente arriscados em termos de crédito. Foi que as reservas detidas no seio de instituições financeiras ocidentais podia comportar riscos políticos e jurisdicionais que antes era mais fácil ignorar.
Cálculo multipolar
De Pequim e Moscovo até a certas partes do Golfo, o cálculo cada vez mais
integra a mesma questão: que parte da riqueza nacional deve permanecer
concentrada dentro de um sistema financeiro finalmente regulado pelas escolhas
orçamentais, política monetária, regime de sanções e jurisdição legal de
Washington? A Índia seguiu a sua própria versão, mais cautelosa, dessa
diversificação, com pagamentos em moeda local e uma gestão alargada das suas
reservas. Esta mudança não é ideológica. É actuarial.
O mundo multipolar que
surgiu ao longo das duas últimas décadas não é simplesmente uma recomposição
geo-política. É também uma recomposição financeira. Os países dos BRICS, os
Estados do Golfo e outras grandes economias estão a desenvolver sistemas de
pagamento alternativos, acordos de swap bilaterais e mecanismos de liquidação
que contornam o dólar. Estes esforços são frequentemente descritos, no
Ocidente, como tentativas de minar o dólar, mas esta interpretação é
enganadora. Tratam-se de tentativas de reduzir a vulnerabilidade a um sistema
em que as decisões orçamentais e monetárias, a política de sanções e a
jurisdição financeira de um único país podem ter consequências
desproporcionadas para todos os outros. Esta distinção importa. É a diferença
entre um ataque e um seguro.
O ponto sem retorno
Com 40 000 mil milhões de dólares, a dívida nacional americana já não é
simplesmente um problema interno para os Estados Unidos. Tornou-se um
componente central do sistema financeiro mundial e um passivo do governo
americano detido, directa ou indirectamente, em todo o mundo. Esses detentores
não estão prestes a livrar-se em pânico dos seus títulos do Tesouro. Mas cada
vez mais se perguntam se o rendimento que recebem compensa adequadamente os
riscos que assumem. Para muitos deles, a resposta torna-se cada vez menos clara.
O limite que Trump descrevia como o ponto de não retorno da América foi
ultrapassado, e de forma decisiva. Os Estados Unidos não se tornaram a Grécia,
mas a semelhança estrutural torna-se cada vez mais difícil de ignorar: um
sistema político que adia constantemente escolhas orçamentais difíceis enquanto
o peso da dívida continua a crescer. A diferença, por enquanto, é que os
Estados Unidos emitem a moeda de reserva mundial, o que lhes dá uma margem de
manobra mais longa do que a qualquer outro país.
O período durante o qual esta margem de
manobra continuará a ser utilizável já não depende apenas da política
orçamental americana. Depende também da parte do fardo crescente que os
investidores nacionais ainda conseguirão suportar, e da rapidez com que o resto
do mundo considerar que a dependência de um sistema financeiro fortemente
endividado e instrumentalizado para fins políticos se tornou um risco que vale
a pena reduzir.
fonte: New Eastern Outlook
Fonte: Les 40 000 milliards de dollars de dette américaine: le point de non-retour ? – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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