«O fracasso de uma utopia, Jerusalém, capital eterna e indivisível de
Israel»
Maurice
Buttin / 24 DE novembrO DE 2025 / NOS MEdias
«O fracasso de uma utopia,
Jerusalém, capital eterna e indivisível de Israel» A História da Palestina e do
Sionismo por Maurice Buttin – Edições Karthala.
Rumo ao fim da ideologia nacional sionista?
Por René Naba
O tema, até então, constituía um tabu absoluto. Observadores perspicazes,
uma minúscula minoria, pensavam nisso secretamente; outros, igualmente raros,
murmuravam-no às escondidas. Ele, por sua vez, escreve-o preto no branco num
livro de grande impacto, que abala os preconceitos e sacode o torpor letárgico
da fauna político-mediática ocidental.
Trata-se de Maurice Buttin, o homem do caso Ben Barka, o escândalo
político-judicial retumbante que abalou a França na década de 1960, durante o
mandato do presidente Charles De Gaulle, autor do livro «O fracasso de uma
utopia: Jerusalém, capital eterna e indivisível de Israel», Edições Karthala.
Uma enorme pedra atirada para a água por um homem nada tímido, que repugna
à dissimulação e às tortuosidades da linguagem e do pensamento, levando a
pensar num possível fim da ideologia nacional sionista.
Maurice
Buttin é colaborador do site https://www.madaniya.info/, onde apresenta esta obra a 29 de Novembro
de 2025, por ocasião do 78.º aniversário da resolução de 29 de Novembro de 1947
sobre o plano de partilha da Palestina, que coincide com o Dia Internacional de
Solidariedade com o Povo Palestiniano.
Como figura
habitual nos fóruns públicos — como atestam os seus antecedentes — e em
consonância com a sua fé cristã, os seus compromissos humanistas e a sua
prática como jurista, Maurice Buttin repreende uma opinião pública ocidental
traumatizada por tantas covardias. «Será que os cristãos têm de sentir vergonha
duas vezes: pelo anti-semitismo europeu secular [que permitiu o Holocausto] e
pelo abandono dos palestinianos [que permite um novo genocídio]?», exclamou ele
um dia.
Como
reincidente impenitente, sem receio do anátema nem da litania de acusações que
se abate sobre quem quer que desafie a doutrina oficial ocidental — anti-semitismo,
revisionismo, negacionismo e até mesmo teorias da conspiração —, Maurice Buttin
aborda sem rodeios este tema altamente tabu.
De carácter
pedagógico, o filme questiona as razões que desencadearam o «dilúvio de
Al-Aqsa», o ataque do Hamas contra Israel, a 7 de Outubro de 2024, evocando os
56 anos de ocupação, repressão e humilhação sofridos pelo povo palestiniano; as
centenas de milhares de vítimas das guerras de 2008-09, 2012, 2014, 2021 e
2023/25; o genocídio dos habitantes de Gaza, com a destruição de 70 % da
cidade; a nova «limpeza étnica» prevista para as populações.
Daí deduz,
logicamente, o fim da ideologia nacional sionista, tal como aconteceu com o
fascismo, o franquismo e o nacional-socialismo.
A ler sobre
este ponto, o capítulo 13 da obra «O fim do nacional-sionismo: os doze tributos
que Israel terá de pagar para sobreviver»
Trechos
selecionados
• 1. Que
Israel reconheça e aplique finalmente o Direito Internacional
• 2. Que
Israel ponha fim a 76 anos de impunidade
• 3. Que Israel
acabe com a equação «anti-sionismo» = «anti-semitismo»!
• 4. Que
Israel reconheça o papel fundamental da resistência palestiniana, violenta e
não violenta, o papel da campanha «Boicote, Desinvestimento e Sanções» e a
resiliência do povo palestiniano no fim da ocupação.
• 5. Que
Israel abandone a sua obsessão pela «segurança» e recupere a sua alma.
• 6. Que
Israel admita o fim do regime de apartheid em vigor.
• 7. Que
Israel reconheça o desprezo e a humilhação sofridos pelos palestinianos desde a
sua criação, em 1948.
• 8.º Que
Israel aceite finalmente fazer a paz
• 9.º Que Israel tenha a coragem de destruir os
muros que cercam as cidades e aldeias palestinianas, incluindo em Jerusalém; de
abandonar os colonatos, de controlar os colonos; e de reconhecer o direito ao
regresso dos refugiados.
• 10. Que
Israel deixe de ser um Estado europeu implantado no Médio Oriente.
• 11. Que
Israel tome consciência da questão demográfica
• 12. Que
Israel evite uma guerra civil
Conclusão geral
No prólogo, escreve o autor, pretendo recordar a notável declaração de
Pierre Mendès-France, antigo presidente do Conselho de Ministros em 1954/55, de
Nahum Goldmann, presidente do Congresso Judaico Mundial, e de Philip Klutznick,
importante personalidade judaica nos Estados Unidos, publicada no *Le Monde* de
3 de Julho de 1982 «A paz não se concebe entre amigos, mas entre inimigos que
lutaram e sofreram. O nosso sentido da história judaica e os imperativos do
momento levam-nos a afirmar que chegou a hora do reconhecimento recíproco de
Israel e do povo palestiniano. (…) O que se impõe agora é chegar a um acordo
entre os nacionalismos israelita e palestiniano.
É como se as 12 recomendações deste roteiro corressem o risco de ressoar na
mentalidade israelita como uma nova versão dos 12 trabalhos de Israel.
A análise dos capítulos conduz a uma constatação esmagadora: a evolução
política de Israel trazia em si os germes da própria decomposição do projecto
sionista inicial.
Através das represálias indiscriminadas ordenadas pelo poder israelita
contra a população civil palestiniana de Gaza, o «Dilúvio de Al-Aqsa» fez
desmoronar os mitos fundadores do Estado hebraico, sobre os quais prosperou
durante 70 anos o projecto sionista inicial: – Do kibutz socialista «que
fertiliza o deserto sob a protecção do exército mais moral do mundo, movido
pela pureza das armas»… O supremacismo racialista da extrema-direita governamental de Benyamin Netanyahu
pôs fim à imunidade mediática israelita e, consequentemente, à paralisia do
debate público ocidental sobre a questão judaica no contexto do genocídio
hitleriano.
Não é irrelevante
notar, a este respeito, que todos aqueles que incutiram no imaginário ocidental
o leitmotiv segundo o qual «Israel, a única democracia do Médio Oriente,
constitui a vanguarda do Mundo Livre face à barbárie árabe-muçulmana», terão
contribuído grandemente para esta deriva e são por isso responsáveis, ignorando
que, desde a adopção da Lei de Israel, Estado-nação do povo judeu, aprovada a
19 de Julho de 2018 pelo Knesset como uma das leis fundamentais de Israel, o
Estado hebraico é agora uma etnocracia.
Para se
convencer do fim da imunidade mediática de Israel, basta observar a evolução do
presidente Emmanuel Macron, que, no início do seu primeiro mandato
presidencial, demonstrou um entusiasmo pró-israelita, desrespeitoso para com os
palestinianos, visitando à meia-noite o presidente da Autoridade Palestiniana
em Ramallah, Mahmoud Abbas, à meia-noite, como se apertar a mão de um líder
palestiniano fosse uma doença vergonhosa, chegando mesmo a preconizar a
constituição de uma coligação internacional contra o Hamas, antes de liderar um
movimento internacional destinado a conduzir ao reconhecimento de um Estado
palestiniano independente, como se, com o seu zelo tardio, quisesse apagar da
memória colectiva a adopção, por iniciativa do seu partido, de uma lei que equipara
a crítica a Israel ao anti-semitismo, a Lei IRHA.
·
https://www.renenaba.com/macron-en-israel-les-palestiniens-en-catimini-la-honte-de-la-france/
Na mesma
linha, Rony Brauman, antigo presidente da Médicos Sem Fronteiras, afirmará, sem
rodeios: «Israel é apresentado como uma democracia, mas é um regime que
tortura, coloniza, pratica o apartheid e o genocídio», contestando veementemente
o estatuto democrático de um Estado cujas práticas, segundo ele, lembram os
tempos sombrios do apartheid sul-africano.
A declaração
de Rony Brauman encontra-se neste link .
O que pensa
de tudo isto François Hollande, ele, o socialista, que entoa uma canção de amor
a Israel na cozinha do ultra-direitista Benyamin Netanyahu? Tanta inversão de
valores expõe o seu autor a uma decadência moral.
Sobre este
tema, consulte estes dois links
- https://www.bfmtv.com/politique/elysee/francois-hollande-et-son-chant-d-amour-pour-israel_AN-201311260109.html
- https://www.madaniya.info/2016/12/01/francois-hollande-capitulation-rase-campagne-foudre-de-guerre-de-syrie/
Sobre o
tropismo pró-israelita dos socialistas franceses, vê este link
- https://www.renenaba.com/linauguration-de-lesplanade-david-ben-gourion-a-paris/
- Para ir mais longe sobre este
tema, cf artigo do Monde diplomatique de Junho de 2025 “Gaza ou la
faillité de l’Occident”
- https://www.monde-diplomatique.fr/2025/06/ACHCAR/68472
O receio de cumplicidade
em genocídio abala o apoio europeu a Telavive
Foram
necessários dezoito meses de massacres de civis e uma banalização dos discursos
genocidas ao mais alto nível do Estado israelita para que Londres, Ottawa e
Bruxelas considerassem a possibilidade de exercer pressões económicas sobre
Telavive. Enquanto o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu confirma a sua
intenção de assumir o controlo total de Gaza, a reacção tardia e tímida destas
potências ocidentais coloca a «diplomacia dos valores» perante as suas
contradições, como se lê nesta revista mensal.
Em
conclusão, Maurice Buttin defende a solução de dois Estados com base no direito
internacional. Ele acredita, no futuro, na reconciliação dos dois povos,
israelita e palestiniano, tal como os ingleses e os franceses se reconciliaram
após cem anos de hostilidade, ou como os franceses e os alemães após as três
guerras sangrentas de 1870, 1914, 1939 e um novo genocídio?», exclamou ele um
dia perante uma audiência estupefacta.
O advogado,
natural de Marrocos, destacou-se na defesa dos nacionalistas marroquinos que
lutavam pela independência contra o protectorado francês, nomeadamente da USFP
(União Socialista das Forças Populares), antes de assumir o caso de Mehdi Ben
Barka, o líder da esquerda marroquina e figura de proa da Tricontinental,
raptado em Paris pelos serviços secretos marroquinos com a cumplicidade de
agentes franceses e israelitas, e que morreu sob tortura.
Figura
mítica da oposição democrática marroquina, o antigo professor de matemática de
Hassan II foi raptado em Outubro de 1965, em Paris, com a cumplicidade do
Mossad, e queimado vivo por capangas marroquinos, um mês após a realização da
cimeira árabe de Casablanca. Principal opositor socialista ao rei Hassan II e
líder do movimento do Terceiro Mundo e pan-africanista, Mehdi Ben Barka foi
raptado enquanto tentava, na sua qualidade de «representante itinerante da
revolução», federar os movimentos revolucionários do Terceiro Mundo com vista à
Conferência Tricontinental que se realizaria em Janeiro de 1966, em Havana, com
o objectivo de fazer convergir «as duas correntes da revolução mundial: a
corrente surgida com a Revolução de Outubro e a da revolução nacional
libertadora». Para o historiador René Galissot, «é neste ímpeto revolucionário
da Tricontinental que reside a causa profunda do rapto e do assassinato de Ben
Barka».
Sobre este
caso, consulte estes dois links:
https://www.renenaba.com/mehdi-ben-barka/
Consciente
da sua enorme responsabilidade neste caso, o advogado, com um tom premonitório,
dirá: «No dia em que atravessar o Rubicão, ou seja, quando me deslocar a Paris
para o primeiro julgamento do caso Ben Barka, em Setembro de 1966, não serei eu
a deixar Marrocos… mas sim Marrocos a deixar-me! Estar-me-á proibido regressar
ao país após a minha alegação.». De facto, só regressará a Marrocos 17 anos
mais tarde, na companhia do presidente François Mitterrand, por ocasião da
visita oficial do presidente francês.
Maurice
Buttin é vice-presidente da Associação de Solidariedade Franco-Árabe (ASFA),
fundada pelo ministro Louis Terrenoire em 1974, membro da Associação
França-Palestina Solidariedade, vice-presidente do Comité de Vigilância para
uma Paz Real no Médio Oriente e administrador das associações «Pour Jérusalem»
e «Amis de Sabeel-France».
Maurice
Buttin é autor das seguintes obras:
Ben Barka,
Hassan II, De Gaulle. O que sei sobre eles (Karthala)
O
confinamento do povo palestiniano, edição do CVPR-PO
Table des matières
Prefácio por
Henri Marchal
Cap. 1 O sionismo
Cap. 2 O sionismo religioso ao longo da história e na
actualidade.
Cap. 3 Os avanços políticos dos sionistas (1896-1947)
Cap. 4 O sionismo político laico (1947-1977)
Cap. 5 O sionismo de direita no poder (1977-1984)
Cap. 6 O sionismo político de coligação (1984-1992)
Cap. 7 Os trabalhistas no poder (1992-1996)
Cap. 8 O sionismo de direita no poder (1996-2009)
Cap. 9 O regresso de Benjamin Netanyahu (2009-2020)
Cap. 10 A extrema-direita no poder (2020-2023)
Cap. 11 7 de Outubro de 2023: o ponto de viragem da
História
Cap. 12 As consequências de 7 de Outubro
Cap. 13 O fim do sionismo nacional
Os doze tributos que Israel terá de pagar para
sobreviver
Conclusão
geral
Sobre o
mesmo tema, leia «O sonho de Israel acabou»! Editorial de Ben Dahan (Haaretz),
26 de Setembro de 2025
Em anexo, a
tradução do editorial.
Entre as
mais belas manifestações da consciência viva, dos frutos da liberdade
intelectual e da força da convicção.
Durante a
guerra contra Gaza e os ataques com foguetes da resistência, as nossas perdas
ultrapassavam os 912 milhões de dólares a cada três dias, em custos com aviões
de guerra, mísseis Patriot e combustível para os nossos veículos, sem contar
com o uso massivo de munições e projécteis de todos os tipos.
E isto sem
contar com a paralisação do comércio, o colapso da bolsa, a paralisia das
instituições e dos estaleiros, a paralisação da agricultura e da indústria, a
morte de milhões de aves nas explorações agrícolas, a suspensão de alguns
aeroportos e comboios, ou ainda os custos associados ao acolhimento de
refugiados nos abrigos.
Sem esquecer
as destruições causadas pelos foguetes da resistência em casas, lojas, carros e
fábricas.
Fomos nós
que iniciámos esta guerra e avivámos as suas chamas, mas não a controlamos, e
certamente não seremos nós a pôr-lhe fim.
O desfecho
não será a nosso favor, sobretudo depois de as cidades árabes no interior de
Israel se terem revoltado contra nós, quando pensávamos que tinham perdido a
sua identidade palestiniana.
É um sinal
nefasto para um Estado cujos políticos descobrem que os seus cálculos estavam
errados e que as suas estratégias são incapazes de ver além dos seus planos
imediatos.
O texto
completo neste link
https://ancommunistes.fr/spip.php?article7388
O fracasso de uma utopia. «Jerusalém, capital eterna e indivisível» de Israel. A História da Palestina e do sionismo – Autor(es): Maurice BUTTIN
Resumo: O dia 7 de Outubro de 2023 marca um ponto de
viragem na História do Médio Oriente. O autor relembra a história da Palestina
e a do sionismo. Os anos de ocupação, repressão e humilhação sofridos pelo povo
palestiniano; as centenas de milhares de vítimas das guerras; o genocídio dos
habitantes de Gaza; a nova «limpeza étnica» prevista. Como consequência, prevê
o fim da ideologia nacional-sionista, tal como aconteceu com o fascismo, o
franquismo e o nacional-socialismo.
Maurice Buttin
Maurice Buttin,
nascido a 10 de Dezembro de 1928[1] em Meknès, no Marrocos, é um advogado e
escritor francês. Foi, nomeadamente, o advogado da USFP e da família Ben Barka,
encarregado de investigar o rapto, o desaparecimento e o assassinato do
opositor marroquino e líder do Terceiro Mundo Mehdi Ben Barka. Maurice Buttin
frequentou durante muito tempo os militantes de esquerda marroquinos. Além
disso, apoia a causa palestiniana. É vice-presidente da Associação de
Solidariedade Franco-Árabe (ASFA) de Louis Terrenoire desde 1974[6] e fundador
da Associação França-Palestina, vice-presidente do Comité de Vigilância para
uma Paz Real no Médio Oriente e vice-presidente das Amizades
Franco-Iraquianas[7].
TODOS OS ARTIGOS de Maurice Buttin
Fonte: "L'échec
d'une utopie, Jérusalem, capitale éternelle et indivisible d’Israël" -
Madaniya
Este
artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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