quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Guia da Marselha colonial

 


Guia da Marselha colonial

René Naba / 1 DE DEZEMBRO DE 2022 /  EM FranceMédias

 

Guia da Marselha colonial

Éditions Syllepse
Publicação : Setembro de 2022
ISBN : 979-10-399-00-57-7
https://www.syllepse.net/guide-du-marseille-colonial-_r_25_i_909.html
https://guidedumarseillecolonial.org/top


Se Bordéus e Nantes passaram à posteridade por terem sido os mais importantes portos negreiros de França, Marselha, «Porta do Oriente», foi o porto de trânsito por excelência para as possessões francesas ultramarinas: Argel, Tunes, Casablanca, Dacar, Abidjã, Beirute, Alexandria, Djibuti, Haiphong, Pondicherry, etc.), o que explica a presença marcante do facto colonial na cidade fócia, que através das suas ruas glorifica alguns dos mais sinistros personagens, incluindo famosos traficantes de escravos.

Começando por Jean Baptiste Colbert. O autor do tão horrível «Código Negro» da escravatura (1685) beneficia, de facto, não apenas de uma rua com o seu nome, mas também de uma estação de metro e, sobretudo, de uma Escola Secundária Profissional, sem dúvida para educar as gerações futuras sobre os seus feitos.

Para ir mais longe sobre o tema Le Code Noir ou l’Édit sur la Police des Esclaves
#https://www.histoire-pour-tous.fr/histoire-de-france/4117-le-code-noir-ou-edit-sur-la-police-des-esclaves-1685.html  

Adolphe Thiers, o horrível coveiro da Comuna (1871), tem direito a um liceu, situado no nº 5 da Place du Lycée, no 1.º arrondissement de Marselha, bem no coração do Bairro Thiers, não muito longe do Vieux-Port. Reúne um colégio, um liceu e numerosas turmas preparatórias para grandes escolas.

Porém, por outro lado, a antítese de Adolphe Thiers, em suma, Louise Michel, a musa da Comuna, dispõe de um modesto jardim, recatado - relegado? - no perímetro populoso de Belsunce, comumente designado como “bairro árabe”. O seu topónimo, estabelecido mais de cem anos depois da atribuição do liceu a Adolphe Thiers, é uma homenagem tardia à heroína da Comuna, que morreu nas proximidades num hotel do Boulevard Dugommier.

Que uma instituição dotada de turmas preparatórias para as grandes escolas - a elite intelectual da nação francesa - seja agraciada com o nome de um horrível partidário da capitulação – e não da resistência ao ocupante, dá que pensar.

 Este facto dá uma ideia da constituição mental da burocracia francesa….

A crer que Adolphe Thiers interiorizou no psíquico francês a ideia de capitulação. A tal ponto que a capitulação parece ter-se tornado o modo operatório do poder francês. Quatro capitulações em dois séculos: Waterloo (1815), Sedan (1870), Montoire (1940), Dien Bien Phu (1954); sem contar Trafalgar, a expedição do México (1861-1867) e Fachoda (1898), um recorde único entre as grandes democracias ocidentais.

A pátria do canto para a adesão à Revolução francesa, que se tornou o hino nacional francês - La Marseillaise -, é uma terra de paradoxo. Pelo menos, essa é a impressão que se obtém da leitura do «Guide du Marseille Colonial», obra de um colectivo co-editada pelas Edições Syllepse e Courtechel – Livraria Transit (Marselha).

Para memória, a «capital marítima do Império francês», que fez a fortuna de grandes famílias marselhesas, foi palco de duas exposições coloniais, antes de Paris assumir o papel. E isso poderia explicar a preponderância do espírito colonialista, se não colonial, da antiga Massília.

A observação é de grande crueldade: O refluxo do império revela – como uma reprografia de carbono-14 – os estigmas da colonização... como o refluxo da maré baixa que espalha o mar devastado nas margens.


Uma revisão dos detalhes, sem que a lista seja exaustiva:

Assim, a Rua Paul Frédéric Mollet homenageia o «pacificador» de Marrocos, termo eufemístico para designar a submissão do reino xerifiano e a sua servidão aos interesses imperiais de França. Paul Frédéric Mollet, fundador do 1.º REP (Regimento de Paraquedistas da Legião Estrangeira), está contudo enterrado em Aubagne e não em Marselha, e o REP foi dissolvido após o golpe dos generais em Argel, em 1961. Os laços extremamente ténues entre Marselha e o general justificam, no entanto, atribuir-lhe uma rua, se não à sua glória, pelo menos à sua memória em Marselha e não em Aubagne? A função de Marselha será ser um depósito de lixo da História?

A Rua Louis Régis foi, por sua vez, assim baptizada em honra de um opulento negociante da Guiné, ou seja, um explorador das riquezas deste país da África Ocidental Francesa, um explorador glorificado talvez em nome da "missão civilizadora da França" e do "papel positivo da colonização", enquanto a França é vista como um "Fardo de África". A Guiné, reconhecendo este facto, será aliás o primeiro país a conquistar a sua independência da França, em 1958, sob a presidência de Sékou Touré, dois anos antes da descolonização decretada pelo General Charles de Gaulle e do lançamento da "France à Fric".

 

Para ir mais neste tema:
https://www.lemonde.fr/economie/article/2014/05/26/elise-huillery-la-france-a-ete-le-fardeau-de-l-homme-noir-et-non-l-inverse_4425976_3234.html

 

A Rua Alexis Rostand foi atribuída ao titular de um patronímio famoso, não em homenagem a um natural da cidade, fabuloso contador das aventuras do Conde de Monte Cristo que encantou a juventude do Mundo, nem sequer em homenagem a um sábio biólogo, mas mais banalmente a um banqueiro, acumulador, numa reprodução perfeita em miniatura do CAC 40: Vice-presidente da Companhia dos Pesquisadores de Ouro - todo um programa -, Presidente do Banco da África Ocidental, membro do comité de gestão do Banco da Indochina e de uma infinidade de honorários de presença. Tal personagem justifica-se como exemplo?

O Chemin Sainte Marthe, que margeia o 14º arrondissement, não foi baptizado por autarcas movidos por uma religiosidade exacerbada, mas de forma mais prosaica em referência ao nome do quartel que serviu de local de trânsito para os territórios ultramarinos, soldados a caminho da Indochina e da Argélia, duas memórias dolorosas para o subconsciente francês que poluem o debate público francês há meio século, alimentadas, ademais, pelos nostálgicos do Império francês inconsoláveis com a perda da sua antiga glória.

Esta psico-rigidez nostálgica encontra aliás a sua concretização mais patológica e aberrante na presença de um «lobby pied-noir» em França, o único país entre os antigos grandes impérios coloniais ocidentais a dispor de tal grupo de pressão anacrónico, apesar de quase todos os antigos colonos franceses da Argélia já terem falecido, 60 anos após a independência desse país. Ao contrário do Reino Unido, que possuía um império colonial maior do que o da França, onde nunca existiu um lobby de nostálgicos do Império das Índias ou da África anglófona, sendo que o Commonwealth representa ainda, com 52 membros, um terço da população mundial. Ao contrário de Espanha e Portugal, as outras duas potências coloniais europeias.
Parece insalubre, em termos de coerência intelectual, colocar no mesmo plano a exploração, a opressão, a despersonalização pluri-secular dos colonizados, a sua escravização e o tráfico de que foram alvo, e os infortúnios de antigos colonos, iludidos pela política do seu governo. Os Pieds Noirs são as vítimas privilegiadas do Estado colonial e não do Estado colonizado.

Para recordar: A tradição não consiste em conservar cinzas, mas em manter bem uma chama. (Jean Jaurès).
A rua Auguste Vimar homenageia um caricaturista encarregado da ilustração dos catálogos das exposições coloniais de Marselha no início do século XX…, através de caricaturas “racistas”. Com que coerência se reivindica este país que se diz racional à moda cartesiana ao colocar no índice um humorista franco-camaronês, Dieudonné, pelas suas provocações racistas, enquanto glorifica “ao mesmo tempo” um caricaturista gaulês abertamente racista?
O General Michel Mangin, o organizador do massacre do “Chemin des Dames”, durante a 1.ª Guerra Mundial, na qual 1.400 artilheiros senegaleses foram dizimados pelo metralhamento alemão, recolherá pelo caminho o qualificativo infamante de “triturador e carniçeiro de negros” por Blaise Diagne, o primeiro deputado africano a sentar-se na assembleia nacional francesa.

Mangin será demitido, sanção pela sua incompetência. No entanto, em Marselha, beneficia não de uma ruela ou de uma viela, ou sequer de uma rua sem saída, mas de um BOULEVARD. AH Pobre coitadoooo!: Que disparate.

Sem contar com as Baumettes, cujo historial prisional é consternador. Ao lado de bandidos e assassinos, mafiosos e vigaristas, o principal centro prisional de Marselha abrigou resistentes, independentistas, em suma, todos aqueles que não se curvaram perante o arbítrio e a injustiça, dos quais aqui se apresentam, a título de exemplo, alguns dos seus mais ilustres inquilinos: Gérard Avran, sobrevivente do Holocausto, René Hirschler, rabino, Abane Ramdane (FLN argelino), Mohamed Boudia, dramaturgo e militante independentista argelino, Ali Yata, líder do partido comunista marroquino, Mostefa Lacheraf, sociólogo e homem político argelino, Louise Alcan, escritora e resistente francesa, Mélanie Berger Voile, costureira militante trotskista e resistente francesa, Jacques Trolley de Prevaux, almirante e resistente francês, finalmente Bernard Tapie e Roland Courbis, assim como a mítica Gabrielle Russier, professora, agregada de letras, que deu que falar na década de 1970 pelos seus amores proibidos na época com o seu jovem aluno e imortalizada pelo presidente Georges Pompidou.

Uma ressalva, porém: Marselha orgulha-se de ter criado um jardim público com vista para o seu lendário Vieux Port, no perímetro do majestoso Pharo, em memória de Missak Manouchian, líder do grupo de 22 «metecos», resistentes à ocupação alemã, todos executados pelos nazis, cujo sacrifício foi imortalizado por Léo Ferré na sua famosa canção «L’Affiche Rouge».

Outra incongruência, mas esta saudável: a Rue de la Palestine... um nome agora sacrílego no léxico político francês desde a transposição em França da Lei IHRA (Aliança Internacional pela Memória do Holocausto), por macronistas oportunistas paralisados pelo passado colaboracionista de Vichy e com pressa de se isentarem dele, trocando o anti-judaísmo secular em França por um anti-arabismo.

Quem sabe: Que um militante brincalhão de Marselha — nem todos os militantes são antipáticos, muito pelo contrário, e o activismo é compatível com o humor — estabeleça agora nesta rua o ponto de encontro de todas as manifestações pró-palestinianas que tenham Marselha como palco, matará pela ironia a censura encoberta que se abate em França sobre uma das maiores injustiças do século XX.

Ao fim desta caminhada não exaustiva, coloca-se uma questão: Por que é que Marselha se sobrecarrega com tal legado colonial memorial?

Marselha honrar-se-ia em baptizar uma das suas ruas com o nome de Félix Eboué, Governador da Guadalupe, primeiro afro-descendente a ter aderido à França Livre e, por isso, um resistente desde os primeiros instantes da Segunda Guerra Mundial, ou mesmo de Pape Diouf, primeiro africano a ter dirigido um clube europeu, concretamente o Olympique de Marselha; ou ainda com o nome de LAMINE SENGHOR, este senegalês envenenado em Verdun, morto pela França, um dos responsáveis pela tomada de consciência, nos próprios cais do porto de Marselha, dos trabalhadores imigrantes ultramarinos da sua condição operária. Neste sentido, Lamine Senghor, porta-voz do lumpem-proletariado excessivamente explorado devido à sua condição de colonizado, será o primeiro africano convidado oficialmente a participar, pelo próprio LENINE, no Congresso da Internacional Socialista em Bruxelas.

Palavra de Júpiter: «A França tem uma parte de África em si. A nossa gratidão deve ser imperecível. Lançarei um apelo aos presidentes das câmaras de França para que façam viver, através do nome das nossas ruas e praças, a memória dos combatentes africanos», anunciou Emmanuel Macron, a 15 de Agosto de 2019, em Saint-Raphaël (Var), durante as comemorações do 75.º aniversário do desembarque na Provença.

 Sem dúvida, Marselha, a rebelde, Marselha, a indómita, saberá mais uma vez sublimar a História de França através da superação do miasma colonial secular francês. De proceder à limpeza das suas ruas à maneira da renovação cosmética que imprime aos seus antigos edifícios.

Não uma renúncia, mas uma renovação. Uma conformidade com a ética do comando e a exemplaridade de um país que afirma ser a "Pátria dos Direitos do Homem".

 

Sobre o « papel positivo da colonização » :
https://www.renenaba.com/a-propos-du-role-positif-de-la-colonisation/

https://www.renenaba.com/le-bougnoule-sa-signification-etymologique-son-evolution-semantique-sa-portee-symbolique/
https://www.renenaba.com/les-colonies-avant-gout-du-paradis-ou-arriere-gout-denfer/

 

A cristalização das pensões dos antigos combatentes «morenos» do ultramar: um salário étnico, injusto e cínico
https://www.renenaba.com/les-oublies-de-la-republique/

 

Quando os artilheiros senegaleses serviam de cobaia
https://afriquexxi.info/Quand-les-tirailleurs-senegalais-servaient-de-cobayes

 

Para ir mais longe neste tema sobre Marselha
https://www.madaniya.info/2021/06/01/de-quoi-marseille-est-elle-le-nom/
https://www.madaniya.info/2018/03/16/le-traumatisme-psychiatrique-algerien-a-marseille/




Ver no link do artigo original

René Naba

Jornalista-escritor, ex-chefe do Mundo Árabe e Muçulmano no serviço diplomático da AFP, depois conselheiro do director-geral do RMC Médio Oriente, chefe de  informação, membro do grupo consultivo do Instituto Escandinavo de Direitos Humanos e da Associação Euro-Árabe de Amizade. De 1969 a 1979, foi correspondente rotativo no gabinete regional da Agence France-Presse (AFP) em Beirute, onde cobriu a guerra civil jordano-palestiniana, o "Setembro Negro" de 1970, a nacionalização de instalações petrolíferas no Iraque e na Líbia (1972), uma dúzia de golpes de Estado e sequestros de aviões, bem como a Guerra do Líbano (1975-1990) a terceira guerra árabe-israelita de Outubro de 1973, as primeiras negociações de paz egípcio-israelitas na Mena House, Cairo (1979). De 1979 a 1989, esteve à frente do mundo árabe-muçulmano no serviço diplomático da AFP, depois conselheiro do director-geral do RMC Médio Oriente, responsável pela informação, de 1989 a 1995. Autor de "Arábia  Saudita, um reino das trevas" (Golias), "De Bougnoule a selvagem, uma jornada pela imaginação francesa" (Harmattan), "Hariri, de pai a filho, empresários, primeiros-ministros" (Harmattan), "As revoluções árabes e a maldição de Camp David" (Bachari), "Media e Democracia, a captura do imaginário um desafio do século XXI" (Golias). Desde 2013, é membro do grupo consultivo do Instituto Escandinavo de Direitos do Homem (SIHR), sediado em Genebra. Ele também é Vice-Presidente do Centro Internacional Contra o Terrorismo (ICALT), Genebra; Presidente da instituição de caridade LINA, que actua nos bairros do norte de Marselha, e Presidente Honorário do 'Car tu y es libre' (Bairro Livre), que actua na promoção social e política das áreas periurbanas do departamento de Bouches du Rhône, no sul da França. Desde 2014, é consultor no Instituto Internacional para a Paz, Justiça e Direitos do Homem (IIPJDH), sediado em Genebra. Desde 1 de Setembro de 2014, ele é responsável pela coordenação editorial do site https://www.madaniya.info  e apresenta uma coluna semanal na Rádio Galère (Marselha), às quintas-feiras das 16h às 18h.

Todos os artigos de RenÉ NABA

 

Fonte: Guide du Marseille colonial - Madaniya

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Sem comentários:

Enviar um comentário