quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O trauma psiquiátrico argelino em Marselha

 


O trauma psiquiátrico argelino em Marselha

René NABA / 16 de março de 2018 / em  Culture,Société

Última atualização em 16 de Março de 2018

«Se continuarmos a matar-nos uns aos outros, acabaremos por falar apenas com os mortos». Palavras de Ammy Simane, cujo retrato ilustra a capa do livro de Kamar Idir sobre o trauma psiquiátrico argelino em Marselha.

Este artigo foi publicado por ocasião do 56º aniversário dos Acordos de Evian, em 18 de Março de 1962, que encerraram sete anos de guerra colonial francesa na Argélia e levaram à independência deste país, após 130 anos de colonização. Vamos dar uma vista de olhos num aspecto pouco conhecido desse drama.

1 a 80% dos pacientes em instituições psiquiátricas em Marselha são argelinos

Um número só resume o trauma psiquiátrico dos argelinos em Marselha e dispensa qualquer comentário: Oitenta por cento (80%) dos pacientes que frequentam os estabelecimentos psiquiátricos da cidade foceia são argelinos, consequência das convulsões da história, da conquista colonial, da agitação pós-independência, da aculturação, da despersonalização, das repercussões da vida, da fragilidade humana e da lei de ferro do capitalismo selvagem.

Em dezassete retratos, Kamar Idir, autor da obra «D’une vie à l’autre: Des vies fragiles» (De uma vida para outra: Vidas frágeis) (Edição La FRACHI) (1), oferece-nos um panorama impressionante da miséria desses «condenados ao exílio», «que vieram parar às calçadas, aos dormitórios ou aos hospícios da cidade de Marselha; homens que têm como lar apenas a rua, o abrigo para sem-abrigo, o squat ou, na melhor das hipóteses, um hotel miserável», para retomar a expressão de Fathi Bouaroua, director regional PACA da Fundação Abbé Pierre, co-editor da obra.

Da fumigação das cavernas durante a conquista colonial ao massacre de 40.000 argelinos em Sétif, cem anos depois, em 8 de Maio de 1945, dia da vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial; Da «carne para canhão» ao «suar o burnous», da deportação para a Nova Caledónia às deportações durante a guerra da Argélia, da ordem de dois milhões de pessoas (2), às agressões e torturas, raros são os argelinos que saíram ilesos deste processo centenário de aculturação e despersonalização.

Um toque adicional a este quadro sombrio: a discriminação étnico-religiosa devida ao Decreto Crémieux, que concedeu a cidadania francesa aos indígenas judeus da Argélia e a recusou aos indígenas muçulmanos, bem como o terrorismo da OAS como broche final à independência, o que explica indirectamente o forte êxodo dos franceses da Argélia.

O terrorismo da Organização do Exército Secreto, então comandada pelo general Raoul Salan, antigo comandante-chefe na Argélia, provocou a morte de mais de 2.200 civis e militares. As «noites azuis», operações com múltiplas explosões nos quatro cantos de Argel, atingiram o seu auge em Janeiro e Fevereiro de 1962, visando principalmente personalidades ou jornais comunistas.

Na Argélia, a partir de Maio de 1961, até 350 explosões mensais abalaram a capital argelina. O assassinato, em 15 de Março de 1962, poucos dias antes do cessar-fogo, de seis líderes de centros de educação social, permanecerá como um dos exemplos desse terrorismo cego, cuja acção foi aprovada pela maioria da população europeia da Argélia.

Esse comportamento aumentará o fluxo de repatriados para o sul da França a ponto de constituir um forte "lobby pieds-noirs", o único país do mundo entre as ex-potências coloniais europeias a ter um grupo de pressão de ex-colonos, o terreno fértil da extrema-direita francesa.

A elevada taxa psiquiátrica argelina – quatro vezes superior à taxa de pacientes de outras nacionalidades, particularmente pacientes originários do Magrebe – explica-se facilmente pela duração da colonização francesa da Argélia (130 anos) e pela dureza dessa colonização com o código indígena, aliada a uma guerra de libertação de seis anos; com a sobreposição do ostracismo suave que atinge a comunidade argelina de Marselha, - cerca de 250 000 pessoas, ou seja, um quarto da população da metrópole foceia -, mas cuja presença massiva permanece, no entanto, invisível, apesar de um importante grupo de académicos, empresários, artistas e actores da sociedade civil.

Sobrepondo-se à sua sobre-exploração, num destino comparável ao dos Chibanis, -esses velhos trabalhadores imigrantes mal pagos, sem protecção social, sem abrigo-, essa perda de referências foi fatal para muitos emigrantes argelinos da França. Um fenómeno amplificado pela sua precariedade e exclusão social, levando-os finalmente à sua desestruturação e alienação.

Poucas pessoas no mundo terão vivido provações semelhantes com serenidade e bonomia. Raros serão aqueles que conseguirão «manter a razão» neste percurso caótico, repleto de rumores de fúria.

Um factor agravante é a precariedade da situação psiquiátrica em Marselha. Parente pobre da saúde em França, esta especialidade paga há anos um pesado tributo às reduções nas despesas de saúde.

«Simplesmente porque a psiquiatria é o sector onde é mais fácil fazer economias», analisa o Prof. Christophe Lançon, chefe do polo de psiquiatria Sul em Marselha, que aponta, além disso, a ausência de escolha política.

Pois, embora desde a década de 1960, para romper com o confinamento e a psiquiatria «asilária», as alternativas à hospitalização devam ser incentivadas, faltam os meios para tal. Muitas vezes, são necessários vários meses para conseguir uma consulta num centro de acolhimento diurno.

·         http://www.laprovence.com/article/edition-marseille/4605018/labandon-insense-des.html

 

Curiosa é a relação que liga Marselha à imigração argelina, funcionando segundo o princípio de atracção-repulsa, acreditando por vezes na ideia de Marselha como sendo a 49ª Wilayas da Argélia.

Para se convencer disso, basta contar o número de candidatos a cargos políticos. Com excepção de Samia Hallali, senadora do PS de Marselha, todos os concorrentes ao sufrágio universal neste departamento desempenhavam, até às eleições legislativas de 2017, um papel de suplentes, angariando votos do eleitorado magrebino numa função auxiliar, uma vaga reminiscência dos auxiliares harkis do exército francês na Argélia.

Não uma função decisiva, uma função de tomada de decisão, mas uma função subordinada, figurativa. Como se um tecto de vidro atingisse todos os candidatos a cargos electivos originários da emigração multicolorida (árabes, africanos, antilhanos), apesar da vitalidade e criatividade da população de pele escura.

2 – As vítimas do colonialismo tratadas por profissionais neo-colonialistas.

No caso da psiquiatria, agravando ainda mais a situação, a grande maioria dos clínicos das instituições psiquiátricas de Marselha eram, inicialmente, profissionais originários da Argélia Francesa, os «pieds noirs» transplantados para Marselha devido ao êxodo pós-independência argelina, dedicados à terapia dos argelinos.

Muitos deles já trabalhavam em Blida, a maior clínica psiquiátrica da Argélia, imortalizada pelo psiquiatra martinicano Frantz Fanon, companheiro de viagem da Revolução Argelina e autor da memorável obra «Os Condenados da Terra».

Uma situação surrealista que levaria um observador perspicaz a destacar essa incongruência com a seguinte frase desencantada: «as vítimas do colonialismo tratadas por médicos neo-colonialistas».

Os médicos aproveitaram esse afluxo para aprofundar os seus conhecimentos sobre traumatologia mental, a ponto de a experiência terapêutica adquirida nessa área ter servido de atractivo para muitos pacientes do Magrebe, que não hesitaram em enfrentar o mar para tentar aliviar o seu sofrimento ou, mais simplesmente, para amenizar as suas angústias reais ou supostas.

Um motivo de orgulho para os nostálgicos do Império Francês, um motivo de desolação para muitos argelinos obrigados a confiar a sua psique aos seus antigos colonizadores. Uma perversão absoluta.

3- «Palavras para curar os males» ou o lento caminho do exílio à psiquiatria

A obra apresenta-se como uma descrição do lento caminho que conduz do exílio à psiquiatria. Em 17 quadros e outros tantos testemunhos, num total de cerca de uma centena, o autor propõe-se «curar os males com palavras», articulando a sua obra em torno de três períodos cruciais da história da Argélia: a Guerra da Independência (1954-1962), a década negra (1989-2000) e a época contemporânea.

O autor desta resenha seleccionou três casos emblemáticos dessa deriva. O restante dos testemunhos constará do documentário que complementará o lançamento do livro, no Outono de 2017.

A – Ammy Slimane (Tio Slimane).

Membro do grupo do General Bellounis (3), vigoroso partidário de Messali Hadj, pioneiro da reivindicação independentista argelina, hostil tanto à FNL (Frente de Libertação Nacional) como ao exército francês, Ammy Slimane recusou a independência, tanto a nacionalidade francesa, «a nacionalidade do colonizador», como a nacionalidade argelina, «a nacionalidade do Estado FLN».

Apátrida, ele rompeu os laços com o seu país natal e acabou por chegar a Marselha, porta de entrada para a Europa, mas também, para muitos, local de encalhe dos naufrágios da vida. De errante a desviante, este homem piedoso, mas psicologicamente rígido e intransigente, sem recursos, vai dar por si, em 2010, na UHE de Marselha (Unidade de Alojamento de Emergência), uma antena encarregada de alojar pessoas em grande dificuldade. O alojamento é garantido das 18h00 às 8h00 do dia seguinte. Durante o dia, Ammy Slimane acampa na zona ensolarada do Vieux Port e do Mucem.

Uma bênção nos dias ensolarados; uma maldição nos dias de forte mistral. Agora octogenário, o homem não tem mais como única companhia senão as suas memórias, que ele relembra incessantemente, e seu eterno solilóquio. Com o uso excessivo de drogas pesadas e bebidas alcoólicas fortes, consumidas e absorvidas durante quarenta anos de vida nómada na metrópole de Marselha,

B- Ammy Ahmad

Ex-combatente da zona de Oujda, operando sob o comando de Abdel Aziz Bouteflika, actual presidente argelino, na época comandante Si Abdel Kader, Ammy Ahmad também rompeu os laços após uma disputa com a sua hierarquia. Ele foi designado para um cargo diplomático no norte da França antes de se encontrar nas docas do Porto Velho de Marselha e enfrentar os rigores da vida nas ruas.

C- H’Mida.

Um «grande alcoólatra», segundo o jargão médico, que procurará afogar no álcool e no esquecimento as feridas da sua alma e do seu corpo.

Ao fim do dia, com grandes goles de álcool, intercalados com baforadas suaves de ervas de todos os tipos, este antigo executivo de uma empresa argelina, habituado a ciclos de formação profissional em França, vai acabar por receber acompanhamento médico em Marselha, beneficiário do Cotorep, o subsídio para adultos com deficiência, com obrigação de cuidados semanais. No valor de 810,89 euros por mês, o subsídio não está sujeito ao imposto sobre o rendimento. Um viático que lhe permite aguentar entre duas consultas psiquiátricas e encontrar clemência na lei da selva ditada nas ruelas de Marselha. À mercê dos grandes barões da droga.

4 – Kamar Idir

Em Marselha desde 1993, para onde foi levado pela violência da «década negra» argelina, trabalhando desde então na Radio Galère, que transformou num posto de observação privilegiado do mal-estar argelino, Kamar Idir, fotógrafo e também animador de rádio, é um homem de campo e de escuta.

Para a realização da sua quarta obra, «D'une rive à l'autre : Des vies fragiles» (De uma margem à outra: vidas frágeis), o autor passou um ano com «Les entendeurs de voix» (Os ouvintes de vozes), na companhia do psiquiatra Thomas Bossetti. As sessões decorreram todos os quartas-feiras, das 14h às 16h, onde o animador iniciou os «pacientes psiquiátricos no Slam, com passagem na rádio uma vez por mês, na última quinta-feira. Às sextas-feiras, ele anima um workshop com as «mulheres alcoólicas e toxicodependentes», que procura responsabilizar, iniciando-as em várias profissões.

Às quintas-feiras, ele apresenta o programa «Harragas» sobre candidatos ao exílio, na Radio Galère; um programa no qual o signatário deste texto apresenta uma revista de imprensa de trinta minutos intitulada «Revista de imprensa Halal sobre assuntos Haram», dedicada a tratar dos ângulos mortos da actualidade internacional.

Reincidente, Kamar Idir é autor de duas obras editadas pela ART Tribales e realizadas a quatro mãos: Kamar Idir, pela fotografia, e Dominique Carpentier, pelo texto:

«Présence invisible : Une histoire de l’émigration algérienne à Marseille dans la période post-coloniale» (Presença invisível: Uma história da emigração argelina em Marselha no período pós-colonial).
-«Queimem-me, para que eu possa cantar» Fantasias e realidades em torno de uma imigração como as outras» (uma antologia sobre os ciganos).

«As senhoras do exílio», editora La Franchi.

Para ir mais longe neste assunto

·         https://www.madaniya.info/2017/05/22/idir-kamar-laboureur-des-mers-a-la-recherche-des-naufrages-de-la-vie/

 

5- Negando os princípios fundadores da República Francesa, o colonialismo é um crime contra a humanidade.

Os factos lamentáveis acima mencionados não devem obscurecer o debate. Longe de ser um exercício de auto-flagelação, o discurso não se insere numa apetência pela polémica, mas responde a um dever de verdade histórica.

Ousemos afirmar: a colonização constituiu um caso perfeito de «crime contra a humanidade», particularmente a colonização francesa em África, mais especificamente a colonização francesa na Argélia, cujos estragos ainda hoje se fazem sentir pelos efeitos corrosivos a longo prazo do Código Indígena e pelo fenómeno de aculturação que gerou na população argelina.

O exercício não se enquadra nem na demagogia, nem num populismo de boa índole, de boa guerra, é verdade, neste tipo de demonstração. Visa contribuir para a clarificação semântica e psicológica do debate pós-colonial, através da investigação do que não é dito pela consciência nacional, numa viagem pelos meandros do imaginário francês. Não se trata de populismo, demagogia ou denegrimento.

Mas a aplicação da análise de conteúdo a constatações que, embora sucintas, não são de forma alguma sumárias nem rudimentares. Uma terapia por electro-choques, em suma. Uma viagem reveladora dos pressupostos de um povo, dos mecanismos psicológicos de uma nação e da constituição mental dos seus dirigentes.

– O tríptico republicano (Liberdade, Igualdade, Fraternidade), o mito fundador da excepção francesa à prova da colonização.

A) – A liberdade:

A colonização é a negação da liberdade. A colonização não é, longe disso, «a valorização das riquezas de um país transformado em colónia», segundo a definição mais recente do diccionário «Le Petit Robert», edição de 2007.

A liberdade e a colonização são propriamente antinómicas. Pois a colonização é a exploração de um país, a espoliação das suas riquezas, a escravização da sua população em benefício de uma metrópole da qual é, na verdade, um mercado cativo, o reservatório das suas matérias-primas e o destino do seu excedente demográfico, da sua mão-de-obra e da sua sobre-população, o regulador do seu desemprego.

Contrária aos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade — os princípios fundadores da Revolução Francesa —, a colonização é a destruidora do ideal republicano. Ela o foi, mesmo quando figuras ilustres francesas, como Léon Blum, a consciência moral do socialismo, já queriam celebrar os seus benefícios como um dever de levar a civilização aos povos primitivos. A famosa «responsabilidade de primogenitura» da França em relação aos povos que ela havia decretado «menores».

Por transposição para o debate contemporâneo, a retórica de Léon Blum é comparável à da antiga consciência da nova esquerda francesa, o filósofo André Glucksman, apresentando a invasão americana do Iraque em 2003 como uma contribuição ocidental para a instauração da democracia em terras árabes e não como o domínio americano sobre os campos petrolíferos desse país. Uma postura retomada pelo seu filho e sucessor na impostura, Raphaël Glucksman, em relação à Síria.

O «fardo do homem branco», teorizado pelo inglês Kipling, é um álibi conveniente, tema recorrente em todas as aventuras predatórias do mundo ocidental.

B) – A Igualdade :

A excepção francesa é uma singularidade: primeiro país a institucionalizar o terror como forma de governo, com Maximilien de Robespierre, durante a Revolução Francesa (1794), a França também será o primeiro país a inaugurar a pirataria aérea, em 1955, com o desvio do avião dos líderes históricos do movimento independentista argelino Ahmad Ben Bella, Mohamad Khider, Mohamad Boudiaf e Krim Belkacem, dando assim o exemplo aos militantes do terceiro mundo em luta pela sua independência.

A reincidência na singularidade também é uma característica da excepção francesa: de facto, este país jacobino, equalizador e igualitário também se destacará por ser o único país do mundo a ter oficializado o «gobino-darwinismo jurídico», a ter codificado no Direito «a teoria da desigualdade das raças», uma codificação realizada sem discernimento, para promover não a igualdade, mas a segregação.

A «Pátria dos Direitos Humanos» e das compilações jurídicas modernas — o código civil e o código penal — é também o país da codificação discriminatória, o país da codificação da abominação: o país do «Código Negro» da escravatura, sob a monarquia, do «Código Indígena» na Argélia, sob a república, que ele colocará em prática com as «exposições etnológicas», esses «zoológicos humanos» criados para enraizar no imaginário colectivo dos povos do terceiro mundo a ideia de uma inferioridade duradoura dos «povos de cor» e, por contrapartida, a superioridade da raça branca, como se o branco não fosse uma cor, mesmo que imaculada, o que está longe de ser o caso.

Este princípio de igualdade é, no entanto, um dos princípios fundadores da República, consagrado como bem comum da nação há dois séculos. Por que não se pensou em implementá-lo antes? Parece que a laicidade, um conceito único no mundo, foi forjada apenas para servir de máscara para um chauvinismo recorrente da sociedade francesa.

Os chocalhos oferecidos episódicamente não aos mais merecedores, mas aos mais dóceis, como prémio de consolação, longe de mitigar essa política discriminatória, sublinham a sua perfeita contradição com a mensagem universalista da França. Eles expõem-no a uma reacção dolorosa.

C) – Fraternidade:

O Bougnoule, a marca da estigmatização absoluta, o símbolo da ingratidão absoluta. A fraternização nos campos de batalha realmente aconteceu, mas a fraternidade nunca. Nenhum país no mundo deve tanto a sua liberdade aos povos de pele escura e, no entanto, nenhum país no mundo reprimu tão compulsivamente os seus aliados coloniais, dos quais dependeu fortemente para sobreviver como grande nação. De fraternidade, nada; como substituto, a estigmatização, a discriminação, a repressão em abundância, e finalmente, por último mas não menos importante, a « cristalização das pensões dos antigos combatentes », que constitui, propriamente dito, não obstante as voltas e reviravoltas da linguagem, um salário étnico, injusto e cínico.

Duas vezes no mesmo século, um fenómeno extremamente raro na história, esses soldados da frente, vanguardas da morte e da vitória, foram recrutados para conflitos que lhes eram, etimologicamente, totalmente estranhos, numa "disputa de brancos", antes de serem lançados de volta, numa espécie de catarse, à escuridão da inferioridade, enviados de volta à sua condição subordinada, seriamente reprimidos assim que o seu dever foi cumprido, como ocorreu de forma suficientemente repetitiva para não ser coincidência, em Setif (Argélia), em 1945, cruelmente no dia da vitória aliada na Segunda Guerra Mundial, no campo de Thiaroye (Senegal) em 1946 e, em Madagascar, em 1947, sem dúvida como recompensa pela sua contribuição no esforço de guerra francês.

Para aprofundar esse tema:

·         https://www.madaniya.info/2016/05/12/de-repentance-a-minima-pour-solde-de-tout-compte/

A notar que, no Reino Unido, ao contrário de França, a contribuição ultramarina para o esforço de guerra inglês foi de natureza paritária; o grupo de países anglo-saxónicos pertencentes à população Wasp (White Anglo Saxon Protestant) — Canadá, Austrália, Nova Zelândia — forneceu efectivos aproximadamente iguais aos povos de pele escura do império britânico (índios, paquistaneses, etc.).
Seguiu-se a proclamação da Independência da Índia e do Paquistão em 1948, no final da guerra, ao contrário, também aqui, de França, que se envolverá em dez anos de onerosas guerras coloniais (Indochina, Argélia).

A afirmação pode parecer categórica, não a vejamos com malícia, mas corresponde, no entanto, à realidade histórica: a clivagem comunitária pre-existia em França no espírito das autoridades e dos cidadãos do país de acolhimento muito antes de se concretizar no espírito dos migrantes.
Pela transposição do esquema colonial para o espaço metropolitano, o imigrante em França tem sido há muito tempo visto como indígena, o que paradoxalmente fez do imigrante, o indígena daquele que é etimologicamente indígena, uma força de trabalho de conveniência doméstica, cuja expatriação garantiu a sua subsistência e, consequentemente, o obrigou a um dever de gratidão para com o país anfitrião.

6- França, a "Parte da Declaração dos Direitos do Homem" e não "a Pátria dos Direitos do Homem".

Longe de ser a "Pátria dos Direitos do Homem", a França é, no máximo, a "Pátria da Declaração dos Direitos do Homem", segundo a expressão do ex-Ministro da Justiça socialista, Robert Badinter, arquitecto da abolição da pena de morte.
O título de "Pátria dos Direitos do Homem" seria atribuído a países que merecem mais essa área, como a Suécia, por exemplo.
Quanto à França, ela carrega as cicatrizes dos abusos de direitos humanos que cometeu em nome dos direitos do homem. Os residentes dos estabelecimentos psiquiátricos da região de Marselha têm um testemunho silencioso e doloroso disso.
"A França não gosta de ser apresentada com o projecto de lei pela sua história. Prefere apresentar-se como a inocente galinha das neves que nunca foi. Não é assim que uma grande nação resiste, mas sim respeitando os seus valores. Dizer isso é servir o próprio país. Negá-lo é ofendê-lo." Noël Mamère, antigo deputado verde. Cf. "Não para um paradoxo, a França reconhece o genocídio do . CF blogs.rue89.nouvelobs.com› Rue89 › Natal durante todo o ano.

Referências

1 - "De uma margem à outra, vidas frágeis" Fotografias e colecção de palavras. Publicado pela La Frachi. Trabalho produzido com o apoio financeiro da Direcção Regional e Departamental de Juventude, Desportos e Coesão Social e da Fundação Abbé Pierre, bem como da AMPIL, acção mediterrânica para integração através da habitação. ISBN 978-2-9546-761 1, Preço 18,00 euros

2- Deportados da Argélia para a Nova Caledônia: Quase dois mil argelinos foram deportados para a Nova Caledônia. Para ser exacto, 1822 deportados, condenados da lei comum, uma parte significativa dos quais eram condenados por actos de rebelião reprimidos pelo Código Indígena ou pela sua participação nas sucessivas insurreições vividas pela Argélia quando foi conquistada pela França. Os mais famosos, incluindo 76 notáveis, são os deportados que lideraram e participaram nas insurreições de 1870 e 1871 na Argélia, que começaram em Souk Ahras e se espalharam para Borj Bou Arreridj, terminando assim com a revolta Mokrani na Cabilia. Essa revolta levou à deportação de todos os instigadores da revolta, incluindo as famílias Rezgui e Mokrani.

Para aqueles deportados durante a Guerra da Argélia, veja neste link
http://www.les-crises.fr/quand-la-france-deportait-2-millions-d-algeriens/

3- Bellounis, militante messalista desde o início, esse líder de um grupo do MNA fez, entre Abril de 1957 e Março de 1958, um acordo com o exército francês para "pacificar" a Argélia, ou seja, livrar o país do ALN. Diante uma ofensiva do FLN e repetidas acções do exército francês, ele estava encostado à parede. Na época, havia apenas duas saídas disponíveis: juntar-se ao exército francês ou ingressar no FLN. Hostil – para muitos militantes e maquisards messalistas isso é um eufemismo – aos "frentistas" e seus planos hegemónicos, ele propôs às autoridades militares que não era uma concentração, mas uma espécie de trégua. E assim está Bellounis e o seu exército, o ANPA, que recebe das autoridades francesas armas, munição, dinheiro, remédios. Em troca, o auto-proclamado general comprometeu-se a lutar contra o FLN, mas também a não depor as armas "até à solução do problema argelino".
Na sua estratégia de estabelecer contra-maquis ao MAQUIS do ALN, o exército francês teve muito melhor sucesso com Bellounis do que no episódio cabila dos Iflissens, que terminou em desastre para as autoridades coloniais em 1956 (ver Camille Lacoste-Dujardin, Opération oiseau bleu, La Découverte, 1997).
De facto, de uma centena de homens em Maio de 1957, o exército de Bellounis contará, no início de 1958, com cerca de 8 000 homens, armados, organizados e, se acreditarmos no redactor deste documento, convencidos de que, mais cedo ou mais tarde, será necessário «subir ao djebel» e retomar a luta pela independência, ou seja, pôr fim a este acordo que não é senão uma «suspensão temporária» da luta contra a França.

O exército de Bellounis respeitará – apenas em parte – os termos do acordo. As suas relações com as autoridades militares serão marcadas pela desconfiança e tensão, perceptíveis já em Setembro de 1957. As pressões do exército francês serão contínuas e crescentes, a ponto de, em Março de 1958, Bellounis ordenar aos seus homens que retomassem a guerrilha.
Parece que o fracasso de Bellounis – que encontraria a morte em Julho de 1958 durante um confronto com uma unidade francesa – está menos ligado à reacção francesa, que passa à ofensiva a 21 de Maio de 1958 contra um grupo de Bellounis, do que à incapacidade do “general” messalista em gerir politicamente os frutos de uma manobra militar que, num primeiro momento e no terreno, serve os seus interesses. Nunca conseguiria fazer valer o interesse do seu “farol” perante a direção do MNA e Messali Hadj.

Informações sobre a editora

Marca editorial

FRACHI

Tipo de empresa

Autopublicação

ISBN

978-2-9546761

Nacionalidade

França

Endereço

Sede
, 14 RUE des Dominicaines
, 13001,
Marselha, França
Telefone: 04.96.17.63.40
Fax: 04.96.17.63.41 Celular
: 06.80.92.73.35
E-mail: frachi.paca@yahoo.fr

 

Onde encontrar o livro

·         Livraria "L'Odeur du Temps" – 35, Rue Pavillon 13001, Marselha. Telefone: 04 91 54 81 56

·         Transit Librairie – 45, Bd De la Libération 13001 Marselha. Telefone: 04 13 04 02 60

·         ISBN do livro 978 2 9546 7611 1

 

René Naba

Jornalista-escritor, ex-chefe do Mundo Árabe e Muçulmano no serviço diplomático da AFP, depois conselheiro do director-geral do RMC Médio Oriente, chefe de  informação, membro do grupo consultivo do Instituto Escandinavo de Direitos Humanos e da Associação Euro-Árabe de Amizade. De 1969 a 1979, foi correspondente rotativo no gabinete regional da Agence France-Presse (AFP) em Beirute, onde cobriu a guerra civil jordano-palestiniana, o "Setembro Negro" de 1970, a nacionalização de instalações petrolíferas no Iraque e na Líbia (1972), uma dúzia de golpes de Estado e sequestros de aviões, bem como a Guerra do Líbano (1975-1990) a terceira guerra árabe-israelita de Outubro de 1973, as primeiras negociações de paz egípcio-israelitas na Mena House, Cairo (1979). De 1979 a 1989, esteve à frente do mundo árabe-muçulmano no serviço diplomático da AFP, depois conselheiro do director-geral do RMC Médio Oriente, responsável pela informação, de 1989 a 1995. Autor de "Arábia  Saudita, um reino das trevas" (Golias), "De Bougnoule a selvagem, uma jornada pela imaginação francesa" (Harmattan), "Hariri, de pai a filho, empresários, primeiros-ministros" (Harmattan), "As revoluções árabes e a maldição de Camp David" (Bachari), "Media e Democracia, a captura do imaginário um desafio do século XXI" (Golias). Desde 2013, é membro do grupo consultivo do Instituto Escandinavo de Direitos do Homem (SIHR), sediado em Genebra. Ele também é Vice-Presidente do Centro Internacional Contra o Terrorismo (ICALT), Genebra; Presidente da instituição de caridade LINA, que actua nos bairros do norte de Marselha, e Presidente Honorário do 'Car tu y es libre' (Bairro Livre), que actua na promoção social e política das áreas periurbanas do departamento de Bouches du Rhône, no sul da França. Desde 2014, é consultor no Instituto Internacional para a Paz, Justiça e Direitos do Homem (IIPJDH), sediado em Genebra. Desde 1 de Setembro de 2014, ele é responsável pela coordenação editorial do site https://www.madaniya.info  e apresenta uma coluna semanal na Rádio Galère (Marselha), às quintas-feiras das 16h às 18h.

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Fonte: Le traumatisme psychiatrique algérien à Marseille - Madaniya

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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