segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Pode ser evitada uma recessão mundial ?






 A Organização para a cooperação e desenvolvimento económicos (OCDE) lançou um verdadeiro “alerta ao crescimento” aos estados. Segundo esta organização internacional, uma recessão pode ocorrer, como em 2009. Análise com o economista Dominique Plihon.

Enquanto 65 marionetas políticas (a quem os meios de comunicação chamam de chefes de estado) e um papagaio sueco manipulado,se pavoneiam na casa nova-iorquina das ilusões (sede da ONU), um verdadeiro cataclismo sísmico cresce a alguns passos dali, em Wall Street. Para tranquilizar a plebe, a comunicação social envia seus sacerdotes da economia para nos iludirem sobre essa recessão que eles sabem que é inevitável. Nada sairá da cortina de fumo climática ONUsiana nem do matagal cerrado de Wall Street,  nem dos gritos de alarme das autoridades da OCDE. Boa leitura Robert Bibeau (editor) .


O último relatório da OCDE sobre "as perspectivas económicas intermediárias" é muito pessimista. A instituição está alarmada com a ampla falta de confiança e um declínio contínuo no crescimento económico global. O economista-chefe da OCDE também alertou, durante a conferência de imprensa sobre as previsões de crescimento global de quinta-feira, 19 de Setembro de 2019: "Todos os riscos que observamos levam-nos a um terreno perigoso para o crescimento, mas também para o trabalho ". A economia global pode aproximar-se de um abismo, 11 anos após a crise que quase atingiu o sistema financeiro, os bancos e os orçamentos estaduais ... (sic)

De novo à beira do abismo?
A seguir à crise dos subprimes iniciada em 2007, seguida da falência do banco Lehman Brothers a 15 de Setembro de 2008, o crescimento do PIB mundial nesse ano terminou abaixo dos 3% - 2,9% - enquanto era, nos anos precedentes, de pelo menos 4%.


É essa tendência de queda que parece preocupar a OCDE: o crescimento económico global para 2019 é estimado em 2,9%, a mesma taxa ... que em 2008. No ano seguinte, em 2009, a recessão foi global. , mergulhando economias inteiras no desconhecido, com o seu lote de falências bancárias, a explosão da dívida estatal, encerramento de empresas e aumentos massivo do desemprego. Mas para tal, a conjuntura económica não é a mesma em 2019 da que existia em 2008. Então, por que é que esse famoso crescimento económico mundial está a cair? E como evitar uma recessão que finalmente poderia ocorrer? Entrevista com Dominique Plihon, professor emérito da Universidade Paris 13 e membro do conselho científico da ATTAC.

TV5MONDE: Porque é que, se a situação não é igual à de 2008, o crescimento do PIB mundial é também tão fraco hoje?

(Dominique Plihon é professor da Universidade Paris XIII. Ligado à corrente teórica da escola de regulamentação, ele dirige o Centro de Economia da Universidade de Paris Norte (CEPN), o pólo especializado em economia financeira, e publica regularmente artigos no semanário Politis.)

Dominique Plihon: É difícil acreditar que a situação seja a mesma de 2008, apesar dos níveis de crescimento equivalentes. A situação é muito diferente e os motivos de preocupação estão relacionados com factores cíclicos e estruturais. Existem factores políticos e económicos que estão a impulsionar uma desaceleração da actividade económica no mundo. Existe a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, que cria um clima muito forte de incerteza. Na Europa, existe o Brexit, com uma probabilidade significativa de que não haja acordo, que é a situação mais perigosa. Os economistas não concordam entre si sobre os efeitos do Brexit, mas também isso cria incerteza. E depois há a crise do petróleo que acaba de se estrear com a  Arábia Saudita e que cria um clima de instabilidade, mesmo que os líderes sauditas estejam a tentar amenizar a questão.

(Devem ter notado, caros leitores, que o economista está a usar alegremente o pleonasmo ... Há uma crise financeira por causa da instabilidade financeira, disse ele (sic), como em 2008, digam o que disserem. E por que essa instabilidade - essas incertezas - por que a crise do PIB que se está a forjar há anos? (nota do editor-Robert Bibeau))

Depois, há as políticas económicas que são levadas a cabo. A Europa é um bom exemplo, embora outros possam ser considerados, como o da Argentina. O problema é que essas políticas económicas são absolutamente inconsistentes. Por um lado, há autoridades monetárias - o Banco Central Europeu da União Europeia - que calcam sobre o acelerador fazendo ajustes (taxas muito baixas, até negativas, nota do editor) para lutar contra a perspectiva de recessão, a desaceleração do crescimento; e do outro lado, governos totalmente irresponsáveis, que eles apoiam com um travão (o que é totalmente falso senhor economista ... os Estados calcam no acelerador- nota do editor). Esses governos continuam a adoptar políticas orçamentais e fiscais austeras e, do lado das empresas, são políticas salariais muito rigorosas, por assim dizer,  para manter a competitividade. Portanto, os motores de crescimento que são a procura e os salários - procura privada - por um lado, mais a procura pública, orçamental e fiscal, estão a caminha na direcção errada.

(É que o objectivo da actividade económica não é aumentar a produção de bens e serviços, senhor economista, mas aumentar os lucros, o que exige reduzir o custo dos salários para aumentar a parcela da mais-valia – nota do editor.)

TV5MONDE : É portanto o que exige hoje a OCDE : que políticas de relançamento (económico – NT) sejam levadas a cabo pelos estados que possuam margem orçamental...

D.P: Sim, mas a OCDE é parcialmente responsável pela situação. Pela minha parte, denuncio os economistas desta organização - ou de outros lugares - que são economistas da chamada economia da oferta. Esses economistas ainda são a favor do emagrecimento dos gastos públicos, que se aposte a fundo na competitividade mantendo os salários no mais baixo nível possível, que se ofereçam deduções fiscais que pioram as finanças públicas, com o argumento de que será isso que permitirá que a actividade seja relançada. Há anos que se praticam essas políticas e elas não funcionam! A OCDE  retoma a sua fatiota, mas o FMI também, com o ex-economista-chefe Olivier Blanchard, que pouco antes de deixar seu cargo - e hoje aposentado - disse: "Basta, nós enganámos-nos”-.
Apesar de nos dizerem que não existe um tesouro escondido, sabemos que a evasão fiscal se estimada em um trilião de euros apenas para a União Europeia, e se todos os países começassem a lutar de maneira vigorosa para recuperar grande parte dessa soma, muitas coisas seriam possíveis. Isso tornaria possível resgatar os países que têm dificuldades financeiras nacionais e permitiria estabelecer um orçamento europeu que não existe hoje, fazer o renascimento concertado, nomeadamente com investimentos públicos. Investimentos para transições ecológicas e energéticas, habitação, infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento, etc. Estamos novamente no precipício, na borda do cume. Hoje, na Europa, não nos são dados os meios para levar a cabo esse relançamento. Se amanhã houver um colapso, que poderia, por exemplo, vir dos mercados e pesar na actividade, não vemos como os governos poderiam alterar a situação.

 (Eis-nos aqui atraídos pela chicana dos intelectuais-economistas-pequenos-burgueses. O grande capital alimenta duas escolas de economistas burgueses. A escola da oferta contra a escola da procura. Como se oferta e procura não fossem as duas faces de Janus. O processo de produção exige que exista PRODUÇÃO = OFERTA para que exista OFERTA = CONSUMO. Esse consumo destrói a mercadoria (a oferta) e exige a sua substituição. Mas o que fazer senhor economista quando a oferta é superabundante e excede mesmo as capacidades da procura?  Aumentar ainda mais a produção (investir), ou seja, aumentar a oferta, que já é excedente, não é contraproducente? (Nota do Editor).)

 TV5MONDE : A Alemanha é normalmente a locomotiva económica da Europa, mas no entanto o seu crescimento é de 0,5% este ano e só será melhor em 2020. Como explicar  esta falta de crescimento?
 DP: O que demonstra esta fase da conjuntura internacional, com a Alemanha a sofrer a desaceleração das importações chinesas, é que os modelos de crescimento assentes nas exportações, como a Alemanha e China, são modelos perigosos que devem ser postos em causa. Até a França deve colocar menos o acento sobre as questões de competitividade externa e preocupar-se mais com a reconquista do mercado interno por meio de investimentos. Existe uma necessidade de repensar a dinâmica do crescimento, voltando-a mais para os mercados domésticos e menos para o comércio internacional.
Se a França se sair melhor este ano, com um crescimento um pouco maior que o da zona do euro, é porque o presidente Macron teve que libertar entre 10 e 17 biliões de euros - isto são estimativas - de poder de compra adicional. Sem esse maná, estaríamos abaixo do crescimento da zona do euro na minha opinião. Isso prova que há um problema de poder de compra, um problema de procura, e constatamos que, quando aliviamos - desta vez sob constrangimento  - e bem, estamos muito felizes por constatar que estamos um pouco melhor que noutros lugares. Mas, na minha opinião, é acima de tudo a lógica económica da oferta pura que é obsoleta e que deve ser questionada. Então, é verdade, a OCDE está em vias de disso se dar conta, até o Financial Times ou o The Economist estão a começar a dizer que talvez precisemos mudar de programa, pois o perigo está a aproximar-se, mas daí a admitir que é preciso repensar a fiscalidade para aumentar fortemente certos impostos sobre o capital ou sobre as fortunas,, como propõe o economista Thomas Piketti, para reduzir as desigualdades, é ainda outra coisa. Mas, mesmo assim, há cinco anos, a mesma OCDE publicava um estudo que explicava  que as desigualdades são um factor de abrandamento da actividade. É para levar em conta, ainda assim.

(É necessário relembrar que o economista é consultor da ONG ATTAC, que está na esteira da polémica ilusionista da fiscalidade-reguladora (sic). 1) Primeiro, digamos que não existe um modelo de crescimento liderado pelas exportações em OPOSIÇÃO a um modelo de crescimento impulsionado pelo consumo nacional interno. Esses dois, por assim dizer,  "modelos" não passam de apenas um. O modo de produção capitalista, que exige que o capital, para se valorizar - acumular, engula o salário nacional (a procura), depois parte à conquista do salário - a procura externa - via exportação. 2) Em seguida, a propósito das ameaças de aumentar os impostos dos ricos para, por assim dizer,  acumular dinheiro para que o estado dos ricos capitalistas aumente os investimentos - ou seja, a oferta ... Mas, precisamente o economista algumas linhas acima denuncia o MODELO BASEADO NA  OFERTA (sic). A oferta e a procura estão ligadas uma às outra como dois irmãos siameses e o banqueiro não saberia relançar uma sem relançar a outra (Nota do Editor)

TV5MONDE : O sistema financeiro internacional e as dívidas continuam a inquietar : elas podem colocar de novo problemas?

D.P: Existem muitos estudos que mostram com precisão que houve um aumento geral da dívida. Esse aumento da dívida afecta todas as zonas geográficas e todos os actores, sejam eles os Estados, os actores privados ou o mundo bancário e financeiro. Portanto, temos uma dívida global enorme, em parte impulsionada por taxas de juros muito baixas. Um dos mercados de dívida que mais me preocupa é o “corporate” (empresarial – NT). É da dívida obrigatória que se transformou numa bolha e que está a alarmar há mais ou menos dois anos a BRI, o Banco dos regulamentos  internacionais. Se por uma razão ou outra essa bolha explodir, o crash que se lhe seguiria colocaria em dificuldade muitas empresas. Aí, os efeitos sobre o crescimento e a actividade seriam terríveis (uma nova tautologia do nosso amigo, o economista – nota do Editor).

 TV5MONDE : O que é que poderia impedir a recessão que a OCDE teme poder vir a ocorrer ?
 D.P:  Hoje, existe uma ideia importante, que compartilho, que é a de que nós voltámos a entrar num regime de crescimento lento e inflação baixa. Este não é um ciclo conjuntural  que vá ter retorno num ano para voltar a ser como era antes. Não acredito , portanto, que estejamos a caminhar para um crescimento zero, mas devemos acreditar que iremos crescer a níveis mais baixos e com menor inflação do que antes. Porque há uma desaceleração na produtividade geral dos factores de produção, e porque o factor demográfico está de volta. Há uma desaceleração demográfica, e a Alemanha e a China são bons exemplos disso.

(Acima, o economista acabou por nada dizer em muitas palavras. Um ponto que refutamos contudo, - não há desaceleração da produtividade, MAS, de facto, há uma estagnação do aumento da produtividade do trabalho assalariado - noutras palavras - uma estagnação da valorização do capital, via mais-valia relativa, porque todas as empresas têm acesso à tecnologia de ponta, donde a necessidade para o capital de concentrar os seus esforços de rentabilidade para a mais-valia absoluta (a exploração selvagem da mão de obra). O economista tem aqui a resposta para suas perguntas sobre os cortes salariais relativos que o capital em COMPETIÇÃO deve impor para sobreviver (Nota do Editor))

Na minha opinião, não vislumbraremos um crescimento de 3% na Europa, mas não sou favorável, no entanto, a que o crescimento seja muito baixo, já que tal causaria sérios problemas sociais. São necessários, portanto, investimentos públicos de longo prazo, com grandes "Green New Deal" (Nova Acordo Verde - NT), como começa a ser discutido nos Estados Unidos (planos de investimento nas energias descarbonizadas que visam interromper o aquecimento global, ao mesmo tempo que promovem a justiça social ). Na minha opinião, é necessário repensar o conteúdo do crescimento, reorientar as políticas públicas, levando em consideração os imperativos da transição energética e ecológica.
 “Ficaríamos surpreendidos se não tivéssemos ouvido a frase sobre a, por assim dizer, “emergência climática” e o plano de resgate do capital internacional por meio de programas de subvenções governamentais que a pequena burguesia pauperizada e em vias de ser proletarizada adora. Desolado pelos bobos loucos mas, o "Green New Deal" (“Novo Acordo Verde” – NT) não evitará a recessão. Antes pelo contrário, esses programas irão precipitar a recessão. (Nota do Editor)”.



quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O povo tem de levantar-se contra a regionalização!



O processo de regionalização agora retomado pelo governo de Costa, com o execrável silêncio – senão apoio – das muletas do PCP, BE e Verdes, foi sendo preparado ao longo de mais de uma década com as famigeradas fusões de freguesias.

Todos se recordarão da acção do governo de coligação da direita com a extrema-direita, do PSD como CDS/PP, que designou Miguel Relvas como ministro encarregue de levar à prática aquele processo. Manobra que António Costa prosseguiu – diga-se que com maior sucesso – depois de ter assumido o poder, graças a uma coligação da direita com os partidos da auto-intitulada “esquerda parlamentar”.

Mapa da Regionalização agora proposto
Todos se recordarão que em 2012, quando Passos e Portas impunham esta fusão, registou-se, sobretudo nas freguesias suburbanas e rurais, um pouco por todo o país, um clamor e uma firme oposição contra este processo, traduzida num rechaçar, em sede de Assembleias Municipais e de Freguesia, de tais manobras.

Resistência e oposição traídas por Costa e seus apêndices, que entretanto e no âmbito das últimas eleições autárquicas, conseguiram impor uma redução de cerca de 30% das cerca de 4.260 freguesias então existentes! Ou seja, a hecatombe levou a que nos dias de hoje existam apenas 3092 freguesias!

O PCTP/MRPP foi o único partido que defendeu – e continua a defender – que qualquer solução específica de natureza organizativa autárquica, quando se trata de grandes concentrações urbanas, devem ser encontradas no âmbito das chamadas Regiões Metropolitanas de Lisboa e do Porto, pelo que defendemos a criação de Regiões Especiais.

Os social-fascistas do PCP, bem pelo contrário, servindo os interesses da burguesia, apoiaram em 1998 o referendo sobre a regionalização, que foi liminarmente chumbado pela esmagadora maioria do povo. Não satisfeitos, reagem a esta nova tentativa referendária, com a exigência da repetição daquele referendo, exactamente com base nos mesmos pressupostos que defendeu em 1998, isto é, a criação de 8 regiões administrativas.

As fusões de freguesias e, agora, esta nova tentativa de impor a regionalização – ou de repetir o referendo de 1998 -,  devem merecer das populações trabalhadoras  de todo o país uma firme e unida oposição, seja nas áreas de maior concentração populacional, seja nas áreas de maior dispersão, pois ao contrário de resolver qualquer dos problemas com que essas populações se deparam, antes os agravam. À medida que o PS for avançando, de forma insidiosa, enganadora e manipulatória no processo de regionalização, é de crer que recorrerá à mais básica intimação fascista, à qual o povo deve saber responder sem medo!

A liquidação das freguesias que acima se denuncia preparava, pois, um processo de reorganização administrativa do território que iria desaguar no famigerado processo de regionalização. O objectivo, quer do PSD e do CDS, quer agora do PS, com a ajuda ou o silêncio das suas muletas do PCP, BE e Verdes, foi sempre o de concentrar recursos e  populações nos grandes centros urbanos, de forma a tornar mais rentável a exploração, em termos capitalistas, dos serviços fornecidos, seja na área da saúde, da educação, da cultura, da assistência a idosos, seja nos sectores dos correios e comunicações, do abastecimento de água, do saneamento básico, etc, privando de uma forma criminosa as populações das aldeias, das vilas e mesmo das cidades de média dimensão de condições de proximidade no acesso a tais serviços.

Mapa da Regionalização - 8 regiões - proposto
no referendo de 1998,
e chumbado pela maioria do povo
Mas, o que se pretende não é apenas a extinção de 30 ou 40% das freguesias. O objectivo é a extinção de todas elas, passando o nível inferior da organização autárquica a ser o dos municípios. O passo seguinte será o do esvaziamento ou eliminação de competências e de uma parte importante dos serviços assegurados pelos municípios de pequena e média dimensão, concentrando tais competências e serviços em novas entidades regionais.

Para além de exponenciar a corrupção, o compadrio e o nepotismo que já grassa em toda a administração pública – governo, autarquias, serviços, etc. -, a regionalização,  que se integra no projecto de reorganização administrativa do território e é agora retomado por Costa, com o cúmplice silêncio das suas muletas no governo, revestir-se-á de uma violência sem precedentes já que terá lugar num contexto em que a reposição do roubo dos salários e do trabalho ainda não foi levada a cabo e se registou a maior carga fiscal de sempre em 2018, tendo o custo de vida sofrido brutais aumentos- sobretudo nos grandes e médios centros urbanos devido à escalada da especulação imobiliária e à explosão do turismo – e a precariedade laboral não ter sido, sequer, beliscada, apesar das inúmeras declarações de intenção do governo e suas muletas.

O que a burguesia pretende com esta alegada reorganização administrativa do território – designada por regionalização – é eliminar ou tornar ainda mais caros e dificilmente acessíveis os serviços básicos, votando-se assim ao abandono, à miséria e a todo o tipo de privações os sectores mais vulneráveis e desprotegidos da população trabalhadora.

A luta contra a regionalização deve ser prosseguida. E deve ter expressão imediata já no próximo dia 6 de Outubro,  com a derrota eleitoral do PS e suas muletas. Derrota de um autêntico partido de direita, que tem governado contra os interesses da maioria da população – constituída por operários e trabalhadores -,  e ao serviço de directórios internacionais que sequestraram a independência e soberania do nosso país.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Plágio de programas eleitorais? Ou unidade na acção reaccionária?


A escassos dois meses das eleições legislativas, agendadas por Marcelo Rebelo de Sousa para o próximo dia 6 de Outubro, instalou-se a mais pura e dura das comédias bufas nas hostes dos partidos do chamado “arco parlamentar”.

À medida que, a conta gotas, vão apresentando as suas propostas eleitorais, acusam-se mutuamente de plágio e de copy/paste, como se já não fosse uma evidência para os elementos mais conscientes da classe operário, da juventude, dos intelectuais e dos trabalhadores, a inexistência de qualquer tipo de divergências entre todos eles.

Nem Catarina, nem Jerónimo, nem Eloísa, se podem arrogar da diferença. Os últimos quatro anos de governo Costa/Centeno, comprova que, alegando o respeito pelos compromissos europeus do PS, PCP, BE e Verdes caucionaram todas as medidas reaccionárias e anti-populares que Costa e Centeno impuseram, consubstanciadas em quatro Leis do Orçamento, votadas por esta auto-intitulada maioria de esquerda.
 
E tudo isto mascarado de garantia para o amenizar das políticas de direita levadas a cabo pelo PS. Medidas que, a avaliar pela troca de acusações de plágio agora protagonizadas por Rio e Cristas, são as mesmíssimas que PSD e CDS – e direita e a extrema-direita – têm para propor nas próximas eleições.

À medida que se torna cada vez mais difícil – senão impossível – o exercício de diferenciação política entre as propostas eleitorais feitas pelos partidos do “arco parlamentar”, também se torna mais evidente a vacuidade do chamado voto útil. Útil para quem?

Claro que para a burguesia especuladora e parasitária, para a banca, para os pato-bravos e os especuladores imobiliários, para a manutenção de uma situação em que Portugal perdeu totalmente a sua soberania orçamental, política, cambial, bancária, aduaneira, económica e financeira, para aceitar os ditames de Bruxelas, Berlim e Paris.

Esta é a razão pela qual nenhum partido do chamado “arco parlamentar” – e outros satélites que, apesar de ainda não terem lugar na estrebaria de S. Bento,  se colocam em bicos dos pés para os assessorar – respondeu a qualquer destas perguntas que povoam a consciência de operários e trabalhadores e que o PCTP/MRPP sintetizou no artigo “Em que Estado está a Nação”, publicado na edição do órgão central do Partido, o Luta Popular online, no passado dia 11 de Julho do corrente:

· Vamos poder dispor da nossa zona económica exclusiva (ZEE) e Plataforma Continental?
· Podemos voltar a ter marinha mercante?
· Vamos voltar a ter indústria?
· Vamos voltar a ter agricultura?
· Vamos voltar a ter política externa?
· Vamos voltar a ter politica de defesa não submissa ao imperialismo americano e europeu?
· Vamos voltar a ter moeda?
· Vamos voltar a ter Língua?
· Vamos voltar a ter bancos públicos?
· Vamos continuar a ter água?
· A Escola vai passar a servir para alguma coisa?
· Vamos ter política de cultura?
· A Medicina vai funcionar no SNS sem matar as pessoas por falta de assistência?
· Podemos ter contratos de trabalho menos injustos, ou vamos continuar a assentar a política de emprego na precariedade e na ausência de confiança?
· Podemos não ir combater para a Ucrânia e para a Venezuela? Para o Irão, para o Mali e para a República



Centro-africana?
· Pode-se recuperar as verbas sumidas na corrupção?
· O pessoal das organizações (teórica ou praticamente) secretas pode ser posto nos eixos?
· E quanto aos tribunais, vão passar a ter os seus titulares eleitos democraticamente?
· Vamos recuperar a soberania cambial, monetária e orçamental?

Como afirmávamos no supracitado artigo, “ é tempo...de o povo português ponderar sobre para onde tem ido o seu voto útil”! Ou melhor dito, como tem sido fútil, após mais de 40 anos de poder democrático, votando sempre nos mesmos partidos  que os têm sujeito à miséria, à exploração, ao desemprego e precariedade, poder esperar um resultado diferente?! Poder esperar que a corrupção, o compadrio e o nepotismo não sejam a cartilha pela qual todos eles, a sós ou coligados, não continue a pautar a sua acção política?!




sábado, 13 de julho de 2019

DTS (DES) = SDR: a aproximação iminente do leviatã monetário


 Por que razão é que a revista on-line Les7duQuébec.com publica este artigo conspirativo sobre a moeda - direitos especiais de emissão (SDR) e a iminente crise financeira? Porque este artigo é uma excelente ilustração de como os economistas burgueses escondem as evidências e mistificam os problemas da economia política capitalista. Devemos reter apenas uma coisa desta algaraviada pseudo científica mística. O dinheiro é apenas um reflexo (um pouco como o livro de contabilidade de uma trust multinacional) dos desenvolvimentos no modo de produção capitalista. O modo de produção capitalista, na fase imperialista, está emaranhado nas suas contradições insolúveis e iniciou a sua fase final - daí as suas repetidas crises financeira e monetária, a guerra comercial mundial, e assim por diante. Não há cura milagrosa, nem leviatã (o monstro bíblico), nem fénix que possa salvar este modo moribundo de produção. O artigo tem o mérito de fornecer dados estatísticos interessantes sobre a crise monetária e bancária em preparação.

Robert Bibeau. Editor.



Uma cesta de moedas

Por Valentin Katasonov

O nascimento de algo importante na história da humanidade geralmente ocorre de forma imperceptível. Somente quando esse "algo" amadurece e começa a tocar a vida de muitas pessoas, elas começam a falar sobre isso, a temê-lo ou, pelo contrário, a cumprimentá-lo com alegria. Há meio século, em 1969, uma estranha criatura nasceu sob uma misteriosa abreviação inglesa SDR (Special Drawing Rights). Como a maioria das pessoas na URSS (e ao redor do mundo), eu provavelmente não teria notado esse evento. Mas o destino, na época, queria que eu estudasse no Instituto de Relações Internacionais do Ministério das Relações Exteriores da URSS, onde participei em conferências sobre "Relações Monetárias e de Crédito Internacionais". Aos alunos, então, o professor ensinava o que era a misteriosa "besta" que acabara de aparecer no mundo monetário e financeiro. Ele até acreditava que esta poderia salvar o sistema monetário mundial do colapso.

DTS significa Direitos Especiais de Emissões. Por trás deste delicado nome, como o professor nos explicou, estava o nome de uma nova moeda. Mas, para que tal aconteça,  alguém tem que emitir uma  moeda, seja ela qual for. O emissor do SDR foi o iniciador da sua criação: o Fundo Monetário Internacional (FMI). Gostaria de lembrar que o Fundo foi criado por decisão da Conferência Monetária e Financeira Internacional de Bretton Woods (EUA) em 1944. A Conferência definiu os principais contornos da ordem financeira internacional do pós-guerra. - o padrão do dólar de ouro. Todas as outras moedas foram indexadas ao dólar e ao ouro, enquanto as taxas de câmbio foram fixadas. E o FMI foi projectado para garantir a estabilidade da taxa de câmbio.

No início de 1960, surgiram os pontos fracos do sistema de Bretton Woods. Tornava-se cada vez mais difícil manter taxas de câmbio fixas, até mesmo sobre empréstimos do Fundo. Desvalorizações (às vezes reavaliações) de diferentes moedas começaram a ocorrer. Outra desvantagem foi que a oferta de dinheiro no tráfego internacional foi menor do que as necessidades de desenvolvimento de negócios internacionais (falava-se de "falta de liquidez internacional"). Embora os EUA tivessem uma grande quantidade de ouro a um preço fixo de US $ 35 por onça troy de metais preciosos, as possibilidades de aumentar a oferta de dinheiro, no entanto, eram limitadas. Por conseguinte, a emissão de outras moedas indexadas ao dólar americano foi dificultada ao máximo . E o FMI concebeu a ideia de fortalecer o sistema monetário internacional através da emissão de uma nova moeda que teria a função monetária de cesta de moedas e que se destinava, principalmente, a tornar-se um recurso suplementar para reconstituir as reservas internacionais dos países membros do Fundo.
 
Em 1944, na Conferência de Bretton Woods, a delegação britânica chefiada pelo famoso economista e chefe do Tesouro britânico, John Maynard Keynes, propôs a criação de um sistema financeiro internacional baseado numa moeda supranacional. Keynes deu-lhe a designação de "Bancor". A emissão do Bancor deveria ser implementada por uma câmara de compensação internacional - o protótipo de um futuro Banco Central Mundial. Com o tempo, o Bancor foi projectado para se expurgar de todas as moedas emitidas pelos bancos centrais nacionais. A América rejeitou este projecto e impôs o padrão do dólar de ouro no mundo. O dólar dos EUA, emitido pelo Reserva Federal dos EUA, deveria operar simultaneamente em ambas as formas de uma moeda nacional e de uma moeda internacional. Na década de 1960, os Estados Unidos defenderam o sistema de Bretton Woods, mas foram forçados a aceitar o uso limitado do SDR como um complemento ao dólar americano para apoiar o declínio do sistema de Bretton Woods. O SDR era por vezes era designado "ouro papel", o que significa que a nova moeda deveria ser um complemento ao ouro metálico.
O instituto emissor do SDR seria o FMI. Ao mesmo tempo, os DTS (DES) foram considerados exclusivamente como moedas de reserva não fiduciária, destinadas exclusivamente à liquidação entre o Fundo e os Estados membros do FMI, bem como entre os próprios Estados Membros, como obrigação decorrente da sua filiação no FMI. Fora do círculo de relações do Fundo, os DTS só poderiam ser usados ​​como uma medida de valor: eles poderiam expressar os requisitos e obrigações dos participantes nas relações económicas, a saber, os preços de bens e serviços. Os SDRs não podem ser usados ​​directamente para pagar transacções comerciais comuns. No entanto, com o volume adicional de reservas internacionais criadas em DTS, foi possível emitir uma quantia adicional em moeda comum, para garantir o pagamento de volumes adicionais de mercadorias.


Crónica dos eventos: desde o nascimento à formação de SDRs

Países membros do FMI assinaram um acordo sobre a SDR, que entrou em vigor em meados de 1969. A emissão de SDRs começou em 1 de Janeiro 1970 e continuou por três anos. Durante os anos 1970-1972, 9,3 biliões de SDRs foram emitidos, enquanto o equivalente dólares (1 SDR = 1 dólar americano) e o teor de ouro da nova moeda foi determinado com base na proporção de onça troy 1 de metal = 35 DTS. Dentro desse montante, o FMI aloca os DTS nos países que participam do Acordo SDR na proporção do seu capital no Fundo. Tal distribuição deu a cada membro do Fundo um activo de reserva internacional que não requer qualquer despesa e não é um problema. Os membros do Fundo podem conceder empréstimos sob a forma de DTS, na forma de SDRs, a outros membros que enfrentam uma séria escassez de reservas internacionais. Para empréstimos em DTS, são cobrados juros.


De notar que deste volume de SDRs emitidos (9,3 biliões de unidades), quase 7 biliões foram distribuídos entre os países economicamente desenvolvidos do Ocidente. Pouco menos de 400 milhões de DTS foram recebidos por 12 países em desenvolvimento exportadores de petróleo. Os outros 100 países em desenvolvimento receberam menos de 2 biliões de SDR.

Na medida em que o sistema monetário jamaicano (depois de 1976) significou a rejeição das taxas de câmbio fixas, a taxa de câmbio dos DTS em relação a outras moedas começou a flutuar. O FMI começou a estimar o preço SDR com base numa "cesta de moedas de reserva" (a composição da "cesta" e os pesos das moedas individuais são revistos ​​a cada cinco anos).


A crise financeira dos anos 2007-2009 e o ressuscitar do DTS

 Durante quase duas décadas, o Fundo não emitiu nenhum SDR: parecia que a necessidade de "papel de ouro" havia desaparecido. Por que precisamos de uma moeda supranacional quando a Conferência da Jamaica permitiu a remoção do "travão de ouro" do "outdoor" da Reserva Federal dos EUA? A partir de agora, a Reserva Federal poderia inundar o mundo com "greenbacks" sem restrições. O dólar em papel padrão agora poderia trazer muito dinheiro ex nihilo (surgido do nada). Mas foi uma ilusão. Na segunda metade dos anos 2000, estourou a crise financeira global (2007-2009). O "outdoor" do Fed não conseguiu tirar os EUA ou a economia global da crise. E novamente, eles se lembraram da "varinha mágica" chamada DTS.

A 28 de Agosto de 2009, o Fundo concluiu a terceira distribuição de DTS, numa única etapa, para 161,2 biliões de unidades. Num dia, a massa total de SDRs foi multiplicada por oito! Um pouco depois (9 de setembro de 2009), a quarta distribuição ocorreu, de uma só vez, por um montante de 21,5 biliões de SDR. Como resultado, o total de moedas emitidas em DTS alcançou 204,1 biliões de unidades.

Desde a primeira edição, o uso do DTS cresceu um pouco. Em particular, não só os países membros do FMI podem deter DTS, mas também certas organizações internacionais, em particular o Banco de Compensações Internacionais, o Banco Central Europeu e os Bancos Regionais de Desenvolvimento. De acordo com o Fundo, a participação dos SDRs em relação à massa total de todas as reservas cambiais (exceptuadas) dos países membros do FMI agora excede ligeiramente em 2,5% (para comparação: a participação da libra esterlina é cerca de 4%, o iene japonês é de 5%, RMB - menos de 2%).

Como é do conhecimento geral, a Rússia tornou-se membro do FMI em 1992. Em proporção à sua participação no capital do Fundo (2,7%), a Federação Russa recebeu uma parte do SDR. De acordo com os dados mais recentes do Banco da Rússia, em 1 de maio de 2019, a Rússia detinha DTSs no valor de 6,724 biliões de dólares. É contabilizado nas Reservas Internacionais da Federação Russa. A participação dos SDRs nas reservas da Federação Russa em 1 de maio deste ano foi de 1,4%.

 Planos para transformar SDR em moeda "Phoenix" (Fénix)

Assim, ao longo da última década, nenhuma nova distribuição (broadcast) de SDRs ocorreu. Hoje, o valor total da taxa SDR (SDR 1 = $ 1,38) é um pouco mais de 280 biliões, o que sugere que os países do FMI e membros do Fundo terão esquecido o "ouro papel" e que nas demonstrações financeiras do Fundo e seus membros, DTS pareça um rudimento arcaico. Mas esse não é o caso. Os defensores da reforma do sistema monetário internacional de transformar as SDRs numa moeda internacional supranacional, e gradualmente eliminar as moedas nacionais, não desapareceram. Eles estão à espera do momento mais favorável para eles. E o tempo deles pode vir na esteira de outra crise financeira global. A moeda do SDR não é um rudimento. Pelo contrário, ela seria de facto a espingarda do escritor russo A. P. Chekhov "Se no início do jogo, é uma espingarda pendurada na parede, o que é um facto é que ela deveria estar a disparar fogo".

É necessário lembrar o que aconteceu nos bastidores da crise financeira de 2007-2009? Pessoas como "George Soros" expressaram em mais do que uma ocasião a inconveniência da acção dos "donos do dinheiro" nos bastidores. No início do ano de 2009, este protegido dos Rothschilds declarou que o mundo só poderia ser salvo por uma transição para uma moeda supranacional que, com o tempo, expulsaria as moedas nacionais. A Rússia então apoiou a ideia de uma emissão em larga escala de SDRs. A ideia de Soros e seus mestres era dar à China um apoio ainda mais enérgico. Como acima se refere, em Agosto-Setembro de 2009, dois SDRs foram emitidos. Mas então, as nuvens escuras da crise financeira começaram a dissipar-se gradualmente e não houve mais problema  com o "ouro papel".

Mencionei a China, que apoiou Soros há uma década na questão do SDR. Até recentemente, Zhou Xiaochuan, chefe do Banco do Povo da China (de Dezembro de 2002 a Março de 2018), era um dos principais ideólogos da reforma do sistema financeiro internacional usando SDRs, não apenas na China, mas no mundo. A propósito, seus esforços conseguiram garantir que, em 2015, o FMI incluísse o Yuan Chinês na cesta de DTS. Zhou Xiaochuan também procurou incluir ouro metálico (ou físico) na "cesta SDR", mas sem sucesso. Soros, assim como Zhou Xiaochuan, acreditam num sistema monetário tão ideal, baseado numa combinação de "ouro papel" (DTS) e ouro metálico. Essa ideia emana dos Rothschilds, que se esforçam para se vingar da derrota na Conferência da Jamaica em 1976.

Os Rothschilds até têm um substituto para a obscura abreviação de DTS: o nome eufónico de "Phoenix" (Fénix). Já escrevi sobre este assunto a propósito da publicação histórica da edição de 1988 da revista britânica 'The Economist' (publicada sob o controle dos Rothschilds). Ele previu o nascimento dentro de trinta anos da moeda supranacional "Phoenix".

A "Fénix": o último acto do drama da história humana

Uma nova vaga da crise financeira global não está longe. Algumas pessoas necessitam desesperadamente desta crise. Entre elas, os defensores da reforma do sistema monetário internacional, que consiste em substituir as moedas nacionais por uma moeda supranacional global, o SDR / Phoenix. A Rússia precisa de tal reforma? Claro que não. Eu comparei o DTS com a espingarda de Chekhov. O DTS deve "disparar". E o tiro terá lugar no último acto deste drama, intitulado "história da humanidade".

No entanto, a moeda supranacional global também pode ser comparada ao Leviatã - o monstro marinho do Antigo Testamento. Num determinado ponto, o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) sugeriu usar a imagem do Leviatã como uma metáfora. Ele comparou a máquina de estado ao monstro, pois, na sua opinião, deprecia a natureza humana e destrói a liberdade. O inglês estava errado. A natureza humana e a liberdade são chamadas a humilhar e a destruir o governo mundial com sua moeda supranacional.


Valentin Katasonov

sábado, 29 de junho de 2019

A preservação da natureza ou da vida passam longe da dinâmica do sistema capitalista!

Dada a sua actualidade, reedito o artigo cuja leitura e análise vos propus em 29 de Junho de 2019


Por todo o mundo se agita e engrandece um movimento contra a poluição e por uma política de ambiente que respeite a humanidade e o meio. São sobretudo os jovens a protagonizar esta onda de contestação e exigência de um mundo sustentável, onde a vida – para a humanidade, para os animais e as plantas – possa desenvolver-se de forma construtiva e sem que o caos e a destruição tenham lugar.

O papel dos marxistas nesta justa luta por um ambiente melhor e uma sustentabilidade ecológica é a de se inserir neste movimento, explicando aos jovens que a sua luta só sairá vitoriosa quando eles compreenderem que a poluição e os ataques demolidores ao ambiente e à sustentabilidade ecológica do planeta estão directamente relacionados com o sistema capitalista.

Situação que se agravou na razão directa do estadio imperialista a que o sistema capitalista se elevou. Aos jovens tem de ser explicado que é a desenfreada e ilimitada acumulação do capital que coloca em risco a vida no planeta.

O desastre climático, bem como a poluição maciça em marcha, que já eram denunciadas por Marx e Engels em várias das suas obras, não se compadecem com a utopia de imaginar que é possível sobreviver a uma política agressora do ambiente e geradora da actual  poluição caótica e crescente, coexistindo com o capital, o mercado capitalista e a exploração capitalista.

Marx considerava que existe uma interdependência entre as relações de trabalho, as relações de produção e o modo de produção capitalista e a relação com a natureza. Em várias das suas obras se manifestava a sua preocupação com a ecologia e o ambiente. Problema que ganha, nos nossos tempos, contornos absolutamente catastróficos. Para além de outros factores, como o da exploração do homem pelo homem, torna-se insustentável a continuidade do capitalismo, considerando, até, os seus custos sócio-ambientais e humanos.

Desde os seus Manuscritos económico-filosóficos, de 1844, que Karl Marx entendia que o sistema de propriedade privada opunha o homem à natureza de duas formas: a propriedade usada para explorar o outro e a capacidade desta deteriorar a relação da sociedade com a natureza. Nos supracitados Manuscritos, Marx chegou mesmo a falar na “poluição universal das grandes cidades”.

Poluição que só pode ser entendida no quadro de um sistema que assenta no princípio da sacrossanta propriedade e cujo fim último é o lucro. Marx entendeu que as contradições do processo produtivo, das relações de produção capitalistas, só poderiam redundar na destruição das condições naturais da vida humana, incluindo o empobrecimento dos solos pela agricultura capitalista.

Sistema capitalista que exponenciou a separação campo-cidade e concentrou a indústria em torno de grandes pólos urbanos. Essa concentração e uma planificação industrial baseada apenas e tão só no lucro, são a génese e a razão da poluição e dos crescentes ataques e degradação do meio ambiente que ocorrem por todo o planeta.

Não perceber esta relação de interdependência directa entre a poluição e o ataque ao ambiente e as relações de produção capitalistas, levarão à derrota – ainda que temporária – destes movimentos contra a poluição e por um ambiente melhor. A generosidade, o dinamismo, o empenho desta juventude sairá frustrado porque, não tendo logrado obter qualquer vitória no quadro do capitalismo, correrá o sério risco de cair numa profunda desmotivação, desilusão e desmobilização.

Para combater este risco, os marxistas têm, pois, de se empenhar mais nesta luta pelo ambiente e contra a poluição, contextualizando esta luta na luta mais geral contra o capitalismo.  

Têm de fazer ver a estes jovens – e não só – que, como dizia Marx, quanto mais um país aposta no seu desenvolvimento a partir da grande indústria, tanto mais rápido será o processo de destruição. Isto porque a produção capitalista somente desenvolve a técnica e a combinação do processo de produção social à custa da destruição das fontes de toda a riqueza – a terra e os trabalhadores.
 
Em O Capital, Marx explicava com muito rigor como é que a agricultura capitalista rompe a relação orgânica do trabalhador com a terra, sendo o trabalho o pai e a mãe a terra. Explicava como, sendo a relação capitalista com o solo puramente mercantilista e predatória, a terra não está conectada com as necessidades das gerações futuras.

Era pois simultaneamente social e, digamos, ecológico, o pensamento de Marx, já que assentava na premissa de que a indústria capitalista somente produz valor de uso na condição de mercadorias, logo, na condição de proporcionarem acumulação do capital. Ora, nesta perspectiva, a preservação da natureza ou da vida passam ao lado da dinâmica do sistema capitalista.


Pelo caminho, os marxistas terão de desmascarar todos aqueles partidos e movimentos que, afirmando-se verdes e ecologistas,  lhes tentam passar a ideia de que a solução para o fim da poluição e por uma política ambiental respeitadora da natureza , da raça humana, dos animais e do mundo vegetal, pode passar por reformas assentes na boa vontade  e boa consciência de políticos que mais não são do que gestores dos interesses do grande capital.




terça-feira, 25 de junho de 2019

Dia D - "O dia mais longo" da invasão da Europa


12.6.2019
De: Robert Bibeau. Editor http://www.les7duquebec.com

http://www.les7duquebec.com/wp-content/uploads/2019/05/bibeau3.jpg


O ARTIGO ORIGINAL ESTÁ DISPONÍVEL NO WEBMAGAZINE:



D-Day - 06 de Junho de 1944 - uma enorme armada composta de milhares de navios de guerra navegava na costa da Inglaterra para conquistar a costa da Normandia na direcção oposta de Guilherme o Conquistador (1066) chegado alguns séculos atrás, para impor a sua hegemonia ao campesinato e à aristocracia britânica. Nove séculos mais tarde, é o capital imperialista do Atlântico que está em busca do capital alemão nas terras francesa e europeia para impor a sua hegemonia. Este choque entre o capital "liberal" atlântico - associado ao Oriente com o capital "dirigista" soviético – em guerra contra o capital alemão "totalitário" - custou a vida de dezenas de milhões de proletários ocidentais, africanos e asiáticos, carne para canhão deste confronto globalizado. (1)

Em preparação para a próxima guerra mundial - para a qual tende este modo decadente de produção - parece importante para o grande capital internacional comemorar este desembarque e repetir à saciedade a mentira da chamada "Libertação" (sic) das populações europeias, escravizadas pelo capital alemão.

Que proletário foi libertado da escravidão assalariada nas praias de Omaha Beach em 6 de Junho de 1944? Nenhum é claro! Com o preço de suas vidas, os proletários enganados simplesmente mudaram de patrões. Do capital alemão, antes dominante, eles mudaram sua lealdade e fizeram um juramento, que a oeste da "Cortina de Ferro", para os seus novos senhores americanos-britânicos; que a leste da "Cortina de Ferro”, aos seus novos senhores soviéticos ... e o mundo capitalista globalizado estava pronto para um novo confronto geral (quente e frio). "O  imperialismo é a guerra, disse um famoso revolucionário.

Não importa quão ridícula seja a polémica sobre qual campo imperialista - soviético ou americano - sacrificou a maioria das vidas humanas nesta reconquista inumana, não importa qual lado fornecesse o maior esforço de guerra para assegurar a invasão da Europa sitiada por todos os lados (leste, sul, oeste), e não importa qual lado suportasse o maior fardo para a subjugação dos povos ocupados, e qualquer lado oferecesse a maior contribuição para a derrota do imperialismo alemão decadente, o resultado permanece o mesmo. (2) Após a marcha sangrenta através do canal - iniciado no oeste por  "O desembarque da Normandia” depois de uma antologia de ataques genocidas às cidades francesas - de estupros em série - de massacres mecanizados - inúmeros sacrifícios - em toda a Europa (leste e oeste, depois do norte da África), o período triunfante do capital espalhou seu manto de opróbrio nesta terra de miséria. Posteriormente, cada povo do mundo "civilizado" foi forçado a juntar-se a um ou ambos os campos imperialistas - americanos ou soviéticos - incluindo o povo nuclear (6 de Agosto

de 1945 - Hiroshima), o povo chinês paralisado e todos os povos foram "libertados" pelos seus novos carcereiros ... Cinquenta anos mais tarde (1990) a Segunda Guerra Mundial terminou definitivamente com o colapso de um dos dois campos imperialistas e o início de um novo embate entre o campo imperialista do Atlântico e o capital dos países "emergentes" de um terceiro mundo "liberalizado" e globalizado (3).
Segunda Guerra Mundial foi uma guerra imperialista para a conquista de novos mercados e estabelecer a hegemonia de um campo imperialista sobre os outros. Cada uma das grandes carnificinas que marcou esta saga sangrenta faz parte desta estratégia de conquista e subjugação por um ou outro campo imperialista onde o proletariado foi o pretexto e carne para canhão para justificar as piores atrocidades e não para ganhar a nossa "liberdade" de escravo assalariado.

O esforço de propaganda de guerra que o capital internacional dedica à comemoração deste drama histórico está à medida da mistificação implementada. Para o proletariado mundial, o "dever de memória" é lembrar que eles levaram-nos ao matadouro do mundo duas vezes ... e que eles estão preparando uma terceira guerra para resolver os seus mais variados negócios ... Dizer não à guerra  é primeiro dizer não ao capital e é pôr fim ao capitalismo em todas as suas formas (de esquerda e direita).

                                                                              Notas

 

Robert Bibeau é um jornalista, especialista em economia política marxista e ativista de proletário durante 40 anos.  robertbibeau@hotmail.com
Editor do webmagazine  http://www.les7duquebec.com  Tradução de Claudio Buttinelli.  Roma