Quando a polícia se proclama "a última linha de
defesa": o Estado capitalista francês admite a sua falência.
4
de Fevereiro de 2026 Robert Bibeau
Convidado pela BFMTV, um representante de
um sindicato nacional da polícia proferiu, sem hesitar, esta declaração
carregada de significado: "a polícia é a última linha de defesa da
sociedade francesa".
Longe de ser um erro lexical ou uma
demonstração de corporativismo, esta declaração constitui uma admissão política
crua. Revela tudo o que o Estado já não pode ocultar: a ordem social francesa já não se sustenta pelo consenso ou pela adesão
ideológica, mas sim pela coerção armada.
Quando a polícia francesa se define como
um "baluarte", reconhece implicitamente que tudo o mais cedeu. Admite
que a sociedade que afirma proteger já entrou num estado de cerco social
latente, um produto directo da crise estrutural do capitalismo francês.
O que este agente policial admite involuntariamente é o esgotamento da hegemonia institucional do poder "democrático" (sic), da dominação pacífica. A classe dominante francesa já não governa através de promessas, compromissos ou integração social; agora administra a desintegração social pela força.
Na França, sob Macron, o Estado deixou de
governar: apenas sobrevive. E sobrevive através da violência institucional, que
se tornou o princípio central da ordem social. A polícia deixou de ser apenas
mais um instrumento entre outros: tornou-se a pedra angular de um sistema
incapaz de garantir a sua própria reprodução social.
Porque o “último bastião” não é uma metáfora: é o reconhecimento de que o capitalismo francês já não garante a reprodução material mínima de grandes segmentos da população ; que as mediações tradicionais — escolas, partidos políticos burgueses, sindicatos, meritocracia republicana — estão desacreditadas; que o conflito social agora transborda as estruturas institucionais concebidas para neutralizá-lo. O que a polícia francesa protege não é a sociedade dos dominados, mas uma ordem social injusta fundada na exploração, na precariedade em massa e na desigualdade estrutural.
Esta é a ordem que a polícia escolheu —
deliberadamente — defender a todo custo, cassetete em punho, mesmo ao preço de
esmagar o corpo socialmente martirizado. Pois é preciso dizer sem rodeios: esta
ordem tornou-se incapaz de garantir a coesão social. Ela agora mantém-se apenas
pela força, ou seja, pela polícia, o último bastião de uma sociedade francesa
em plena decadência, como reconhece o líder sindical.
A polícia francesa: o último bastião de uma ordem em extinção
Durante a entrevista, o representante
sindical fez um forte apelo ao público para que se juntasse às marchas
policiais planeadas para sábado, 31 de Janeiro. Diversos sindicatos de polícia
estão a convocar manifestações em todo o país para denunciar a alegada
"falta de recursos humanos, materiais e orçamentários".
Noutras palavras, o aparelho responsável
pelo exercício da violência legal, segundo a terminologia burguesa, necessita
do apoio popular para fortalecer as suas capacidades repressivas, justamente no
momento em que a crise social que ele ajuda a conter se agrava, no momento em
que a raiva popular ameaça explodir.
Na verdade, a polícia não está a pedir recursos
para proteger a população, mas sim recursos adicionais para sustentar (pela
força) uma sociedade francesa que o Estado não consegue mais governar, excepto através
da repressão.
Em todo caso, o apelo feito pelas forças
de segurança à população francesa para que se junte às suas marchas constitui
uma inversão ideológica, para não dizer uma provocação. As mesmas forças de
segurança que, ainda ontem, cercaram, mutilaram, reprimiram e criminalizaram a
classe operária e os grevistas, agora exigem o seu apoio. Noutras palavras, a
polícia francesa está cinicamente a convidar os oprimidos a manifestarem-se em
defesa do aumento da repressão que será usada… contra eles, assim que ousarem revoltar-se
contra a deterioração das suas condições de vida e a erosão dos seus direitos
sociais, da liberdade de expressão e da liberdade de opinião.
Aqui deparamo-nos com uma lógica
perfeitamente coerente do ponto de vista do Estado burguês: a crise económica
produz tensões sociais explosivas; essas tensões exigem um fortalecimento do aparelho
coercitivo; e esse fortalecimento deve ser legitimado por uma encenação
vitimizadora da polícia, apresentada como o último escudo de uma sociedade em
decadência.
A polícia francesa deixou de ser um mero
instrumento da ordem: tornou-se o discurso da ordem, seu álibi moral, sua
justificativa última. Como o regime de Macron já não promete progresso social,
redistribuição ou um futuro colectivo, resta-lhe apenas uma linguagem: mais
armas de defesa menos letais, mais prisões, mais leis excepcionais. A polícia
francesa não protege a sociedade do caos: protege uma ordem social que produz
esse caos e cujos efeitos políticos e agitação social ela tem a missão de
conter.
Coerção: o único horizonte político na
França
Essa mudança não é insignificante. Segundo a análise marxista, a polícia é um aparelho estatal repressivo encarregado de manter as relações sociais existentes. No entanto, estamos a testemunhar um salto qualitativo: a polícia francesa não se contenta mais em simplesmente executar ordens; ela fala, questiona, mobiliza. Está a tornar-se um actor político corporativista, movido pelos seus próprios interesses materiais e ideológicos.
Historicamente, tal
transformação sempre acompanha uma profunda crise do Estado . A polícia
exige então mais verbas, mais armas, mais impunidade, mais legitimidade
simbólica, enquanto simultaneamente procura estabelecer-se como um ponto focal
de identificação popular, apresentando-se como "próxima do povo",
"abandonada", "sacrificada". Trata-se de uma operação
ideológica de raro cinismo: fazer com que os dominados consintam
com o aumento dos meios da sua própria repressão, da sua regressão social, da sua
subjugação política .
O raciocínio implícito é cristalino: se
você sofre, é lamentável; se você se revolta, torna-se perigoso; e se você é
perigoso, deve haver mais polícia, mais meios repressivos, mais coerção e
restricções em todas as direcções.
Estamos no centro de um mecanismo de culpabilização das classes populares, característico de períodos de crise económica sistémica. Quando o capitalismo não consegue mais integrar, ele segmenta (orquestrando divisões étnicas ou religiosas, designando bodes expiatórios), reprime (movimentos sociais em luta) e aprisiona (dissidentes e revolucionários).
Historicamente, quando o aparelho
repressivo começa a perceber-se como o último bastião da ordem social, aproximamo-nos
de uma configuração bonapartista, até mesmo pré-fascista. Ainda não é fascismo,
mas é o seu terreno fértil: a naturalização da violência estatal como um
horizonte intransponível, como se vê nos Estados Unidos com a milícia estatal
ICE.
Quando
a polícia convoca a população a fortalecer os seus meios de repressão, não está
a procurar a unidade nacional: está a procurar desarmar politicamente os explorados,
fazê-los aceitar a ideia de que a sua raiva é o problema – e não o sistema de
exploração que a produz.
A polícia deixou de ser uma barreira entre
a sociedade e o caos. Ela tornou-se a barreira que nos impede de ver que o caos
já está aqui – produzido pelo capitalismo em crise – e que a repressão não é a
solução, mas o sintoma terminal.
Arezki Belkacimi
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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