quinta-feira, 24 de setembro de 2026

"Distopia" capitalista: Sob o impacto da crise, até a democracia se transforma num obstáculo


"Distopia" capitalista: Sob o impacto da crise, até a democracia se transforma num obstáculo 

Dentro dos círculos liberais, o regresso de Trump à presidência dos EUA reacendeu perguntas inquietantes sobre a saúde da "democracia". Para eles, a palavra surge sem adjectivos, mas precisamos qualificá-la com "burguesa". O seu gesto de despedida da primeira administração, em Janeiro de 2021 — incitando uma horda reaccionária a invadir o Capitólio, resultando em saques e assassinatos — deixou claro, se ainda fosse preciso, que o líder do movimento MAGA tinha uma interpretação "flexível" do respeito formal devido às instituições burguesas. Com a sua reeleição ao cargo mais alto do Estado, o bilionário promotor imobiliário não só não fez nada para afastar acusações do seu próprio "iliberalismo", como também aumentou os receios no mundo democrático-reformista, que vê a sua administração como um passo decisivo e brutal rumo ao desmantelamento da Constituição, ou pelo menos do seu espírito. Noutras palavras, o estabelecimento de um tipo de fascismo do século XXI. Além disso, se não estivermos enganados, ao contrário de qualquer administração anterior, o ramo executivo está cheio de bilionários(1) tanto de sectores tradicionais do grande capital como de recém-chegados do sector de tecnologia digital, os chamados Big Tech. Para além da sua evidente filiação de classe, ambos estão unidos por uma visão do mundo particularmente reaccionária, até obscurantista. Esta é a re-proposta, adaptada aos dias de hoje, de ideologias que acompanharam e reflectiram a transformação do capitalismo do livre-comércio para os monopólios e o imperialismo entre os séculos XIX e XX, e que constituíram os fundamentos “teóricos” para o desenvolvimento do fascismo em todas as suas variantes.

Assim, o mundo MAGA — tal como todo o movimento populista e nacionalista de direita em geral — recupera o darwinismo social das caves ideológicas mais pútridas da burguesia, ou seja, a teoria de que só os mais dotados (essencialmente, a burguesia) se afirmam "correctamente" na sociedade. Evoca os mitos tecnológicos do Futurismo italiano — que exaltava a tecnologia e a guerra imperialista — prevendo a fusão do homem e da máquina, enquanto despreza as mulheres e o socialismo. Reaviva o seu ódio, expresso com distanciamento aristocrático, contra as massas proletárias, que consideram literalmente feias, sujas e más: prontas a tomar o poder explorando os mecanismos da democracia capitalista, em detrimento dos espíritos escolhidos, das mentes superiores, da prerrogativa exclusiva da classe dominante, ou melhor, dos seus círculos restritos: Para ser preciso, as elites. (2) Um "sub-mundo de inteligência" onde uma aparente idolatria científica da máquina se combina com um obscurantismo anti-racionalista, que vai tão longe que nega as origens filosóficas e políticas da sua própria classe — o Iluminismo — ao abraçar as concepções místico-esotéricas mais opacas para profetizar uma luta entre o "Bem" e o "Mal". Este último incorpora tudo o que se opõe a essas ilusões: antes de mais, claro, o comunismo, seja lá o que isso possa significar para os teóricos fanáticos dessas visões alucinatórias. Este é o terreno de cultivo irracionalista que gerou o fanatismo anti-vacinas, naturalmente aproveitado pela chamada direita "soberanista", mas que não poupou sectores significativos de uma "esquerda antagónica" que, por sua vez, já não distinguem a investigação científica do seu uso para lucro, a única razão de ser do capital. Desde os Protocolos dos Sábios Eruditos de Sião(3) aos sombrios rituais pagãos da SS, passando pela luta contra o Armagedão orquestrada por um governo mundial ocultista fantasma — teorizado pelo bilionário das grandes tecnológicas Peter Thiel — o irracionalismo obscurantista é o tema ideológico recorrente revertido das tampas de esgoto da capital, entupidas pela crise no ciclo de acumulação.

No entanto, não estamos interessados num exame "erudito" desses miasmas ideológicos e deixamos essa actividade para revolucionários de poltrona. A nossa preocupação é a ligação entre tudo isto e a luta de classes. Assim, temos de começar pelo facto de que estes miasmas servem cada vez mais como bússola política para o capital dirigir o seu ataque frontal ao proletariado, com poder de fogo cada vez maior. A classe capitalista está cada vez mais consciente de que a única saída para a crise histórica é livrar-se de todos os obstáculos à extorsão do valor excedente — seja social, económico ou político — e à crescente subjugação da força de trabalho ao capital. As migalhas celebradas que caem do banquete da burguesia para beneficiar a classe operária estão a tornar-se cada vez mais escassas. Por outras palavras, a crise reduziu severamente a margem de manobra. Os recursos para o bem-estar social já não estão disponíveis. De facto, aquela parte dos salários indirectos e diferidos, o chamado "estado social" produzido na fase ascendente do ciclo de acumulação, está agora a ser saqueada pelos capitalistas, não tanto para apoiar investimentos na "economia real", mas sim para a especulação financeira anormal que sustenta e dirige a economia mundial. As taxas de lucro na "economia real" são inadequadas em relação ao nível da composição orgânica do capital (c:v)(4) e, como é muito mais difícil para os capitalistas influenciarem os custos de c, torna-se uma prioridade focar-se na redução do chamado custo do trabalho, fortalecendo o eco-sistema capitalista — isto é, o quadro global dentro do qual, repetimos, o valor excedente é extorquido (exploração) e a sociedade que alimenta é governada. O declínio da democracia capitalista, a disseminação do autoritarismo e a forma como se manifesta politicamente, em certos aspectos assemelhando-se ao fascismo, tudo isto está enraizado na merda produzida por uma crise que se agrava há décadas e que está a conduzir o mundo inteiro para uma catástrofe climática e para a perspectiva de uma guerra generalizada.

Aqueles que abriram caminho para este declínio não foram os "trolls" de Trump, Milei e os seus semelhantes obscuros, mas os "salões educados" da burguesia que, com os primeiros sinais do fim do boom económico do pós-guerra nas últimas décadas do século passado, começaram a atacar a classe operária (entendida no sentido mais amplo, isto é, assalariados): uma classe drogada pelo controlo ideológico e político da esquerda capitalista e dos sindicatos, cuja preocupação era (e ainda é) conter a luta proletária dentro dos limites do capitalismo (o infame "bem do país"), até que esta seja extinta. De facto, ofereceram-se para colaborar nas medidas anti-operárias adoptadas pelas administrações desses anos: um exemplo, entre muitos, são os governos de unidade nacional em Itália no final dos anos 70. E se não participavam ou apoiavam directamente os governos, a sua oposição às primeiras medidas contra a nossa classe era, para dizer o mínimo, muito insípida e, portanto, ineficaz. Reagan, e Thatcher, que provocou a luta de um ano dos mineiros do Reino Unido, destinada à derrota por ser dominada pela esquerda política e sindical, são prova disso.

A ofensiva total contra a classe operária "ocidental" envolveu o desmantelamento de grandes concentrações de trabalhadores assalariados, redutos da insubordinação dos operários ao despotismo patronal,(5) e o seu ressurgimento nas regiões de deslocalização, da América Latina à Ásia, de África, Norte e Sul – para as regiões do antigo império soviético, onde os salários eram – e são – mais baixos, muitas vezes muito mais baixos. Onde, além disso, o "autoritarismo anti-democrático" dos empregadores, garantido pelos seus governos, praticamente não conhece limites. Como referimos há alguns anos,(6) aqui a classe operária, estritamente falando, cresceu significativamente, mais do que compensando o declínio relativo das "metrópoles" capitalistas. O capital moveu-se em massa para que a democracia parlamentar não seja tanto um embelezamento inútil, mas sim um obstáculo à extorsão do valor excedente a um grau que possa contrariar eficazmente a queda da taxa de lucro, garantindo assim uma massa de mais-valia capaz de remunerar adequadamente o capital investido.

Para isso, não basta pagar meros salários de sobrevivência, impor horas de trabalho intermináveis e horários exaustivos em condições de saúde e segurança praticamente inexistentes. Estas "sentenças de prisão perpétua industriais" devem ser garantidas. Ou seja, deve existir um aparelho estatal disposto a reprimir, se possível desde o nascimento, qualquer surto de luta proletária, qualquer desafio ao poder excessivo dos empregadores: em suma, "mantendo a força de trabalho no seu lugar". Além disso, em muitos destes países, o proletariado migrante constitui metade, se não mais, da população. Escusado será dizer que esta classe operária, esmagada pelo calcanhar de ferro de condições quase esclavagistas, obviamente não tem direito a voto (para o que vale), nem o "direito" de fazer greve e lutar para aliviar as duras condições da exploração. (7)

Embora a realocação de sectores produtivos inteiros para diferentes regiões do globo, nomeadamente para a China, tenha proporcionado um enorme sopro de ar fresco aos pulmões debilitados do capitalismo, a massa de mais-valia extorquida não consegue desencadear um novo ciclo de acumulação à escala mundial: demasiado capital excedente (excesso de acumulação) está à procura de remuneração. Assim, algumas margens do capital internacional começam a considerar que, juntamente com o próprio boom do pós-guerra, as teorias económicas e políticas que o acompanharam foram, por assim dizer, colocadas em reserva. Não são mais do que sobrevivências ideológicas de eras definitivamente passadas. Personagens como Barry Goldwater — candidato presidencial dos EUA em meados dos anos 60 — ou Milton Friedman — um economista que pregava o regresso ao capitalismo "liberal" da primeira revolução industrial — passaram de figuras de nicho a tornaram-se os "pais fundadores" de novas tendências que gradualmente ganharam terreno entre segmentos significativos, senão dominantes, da burguesia mundial. Por outras palavras, Friedman e a sua escola deram apoio teórico ao que os capitais internacionais e "locais" em várias partes do mundo já faziam e cada vez mais fariam, pois eram impulsionados pela crise estrutural. O regresso, por assim dizer, do que há trinta anos chamávamos de "Manchesterismo"(8): um rejuvenescimento impossível de um capitalismo que tem mais de dois séculos de vida atrás de si e que agora entrou numa fase de declínio, devido às suas contradições intransponíveis, principalmente à queda da taxa de lucro. Não é por acaso que Friedman se tornou o "maître à penser" dos generais chilenos que, em 1973, por instigação dos EUA, esmagaram ferozmente o governo reformista de Allende. O esgotamento do boom do pós-guerra abriu caminho para a agonia do reformismo. No Chile, esta nova fase foi inaugurada por uma repressão sangrenta. Além disso, Friedman foi claro: "embora a liberdade económica seja uma condição necessária para a liberdade civil e política, a liberdade política, por desejável que seja, não é uma condição necessária para a liberdade económica e civil". (9)

Anos mais tarde, o grande banco de investimento, JP Morgan, clarificou ainda mais o conceito ao "repreender" os governos do Sul da Europa, culpados, na sua opinião, de terem reagido mal à turbulência económica após a crise financeira de 2008, devido às constituições "socialistas" nascidas após a derrota militar do nazi-fascismo:

[estas] constituições tendem a mostrar uma forte influência socialista ... executivos fracos; estados centrais fracos em relação às regiões; protecção constitucional dos direitos laborais ... e o direito de protestar caso sejam feitas alterações indesejadas ao status quo político. (10)

É claro que por "socialista" JP Morgan entende o reformismo, o reformismo que foi possível graças à "prosperidade" capitalista do pós-guerra. E embora, como já foi referido, desde meados da década de 1970 os governos de todas as tendências já tivessem promovido austeridade para a classe operária — um período que nunca terminou — as "reformas" (ou melhor, a guerra social contra o proletariado) avançavam demasiado lentamente para um banco de investimento enredado nos espinhosos ramos das constituições "socialistas".

Se não fosse pelo facto de estarmos a falar da raiva, das lágrimas e até do sangue do proletariado europeu, esta análise poderia ser descartada como uma piada barata. Em 2013, na altura do relatório do JP Morgan, o capitalismo mundial, incluindo o do Velho Continente, já tinha começado o trabalho de convergir, pelo menos em princípio, o habitat político das chamadas democracias liberais com os "novos" paraísos do capital: precisamente, aqueles países onde a democracia liberal não existe ou existe apenas como um pálido simulacro. Este processo tem-se desenrolado de forma ininterrupta ao longo dos anos porque a única força capaz de o contrariar, a classe operária, tem sido silenciada, desorientada e confundida pela "traição" da "esquerda". Uma esquerda que tem traído há mais de um século e que, hoje em dia, abraçou completamente os interesses da classe inimiga. Assim, por sua vez, o proletariado abandonou a "esquerda", mas, muitas vezes, acabou em fatalismo impotente ou nas garras dos sectores mais reaccionários da burguesia. A evidência disto é fornecida pelos sindicatos e pelos institutos de investigação burguês-democráticos, "instituições" que, repetimos, têm contribuído — e continuam a contribuir — para esta tendência global de várias formas.

Assim, o relatório de 2025 compilado pela Confederação Internacional de Sindicatos (ITUC) sobre o Índice Global de Direitos regista uma deterioração em todos os índices examinados (o direito à greve, à negociação, à reunião, etc.), numa progressão contínua desde 2014, o ano em que o inquérito começou. Para citar alguns dados, apenas 7 dos 151 países receberam a pontuação máxima de 1 (a escala decrescente vai de 1 a 5).

O direito de greve foi violado em 87% dos países – inalterado em relação ao máximo do Índice de 131 países em 2024... Os operários não tiveram ou tiveram acesso reduzido à justiça em 72% dos países, um aumento acentuado face aos 65% em 2024... Foram reportados ataques aos direitos à liberdade de expressão e reunião em 45% dos países – um recorde para o Índice e um aumento face aos 43% em 2024. … O direito à negociação colectiva foi restringido em 80% dos países (121), um aumento face aos 79% em 2024. (11)

Apesar de uma ligeira melhoria resultante do progresso em Omã (de 4 para 3), as piores classificações são confirmadas para os estados do Norte de África e do Médio Oriente — regiões, aliás, que muitos dos nossos esquerdistas consideram bastiões da luta anti-imperialista e, portanto, a serem apoiadas, apesar de pisarem a sua própria classe operária.

Mas a “surpresa”, por assim dizer, é que em dois continentes o clima para os operários piorou, ou seja, nas Américas e na Europa. No primeiro, o índice passou de 3,56 para 3,68, enquanto no segundo “continua, em média, a ser a região menos repressiva para os operários, [mas] tem havido uma deterioração constante nos últimos quatro anos. A classificação média caiu para 2,78, a pior desde que o Índice começou e comparado com 2,73 em 2024”. Surpresa dentro da surpresa (novamente, por assim dizer), a pior deterioração ocorre na Itália, cuja classificação caiu de 1 para 2 “devido a acções draconianas [tomadas pelo governo] para minar os direitos laborais e de protesto.” Não sabemos se esta avaliação já leva em conta os “Decretos de Segurança” (provavelmente sim), certamente, o Ministro dos Atrasos nos Transportes, sendo o trabalhador incansável que sempre foi, deu a sua contribuição pessoal para aumentar as correntes que pesam sobre a classe operária.

Não são apenas os sindicatos que condenam a restricção progressiva dos “direitos laborais”, outros estudos burgueses-democráticos também registam a repressão implementada por governos em todo o mundo. Segundo a Freedom House, uma organização com tendência liberal, 2024 foi o décimo nono ano consecutivo de declínio mundial nas liberdades políticas, com mais de 60 países a registarem perdas em direitos políticos e liberdades civis. Quase três quartos da população mundial vivem agora sob regimes autocráticos, e menos de 3% vivem em países com um espaço civil aberto. E a tendência descendente continua: 42 países estão a passar por um processo de autocratização. Entre 2018 e 2024, o número de pessoas a viver em países com um espaço cívico fechado ou reprimido aumentou 67%.(12)

Até o jornal da Confindustria [equivalente italiano da CBI, trans.] , citando um instituto sueco, reporta dados semelhantes, que ilustram o retrocesso feito pelos EUA em apenas um ano — caindo do 20.º para o 51.º lugar entre 179 países, ou seja, voltando a 1965, 'quando as leis dos direitos civis efectivamente introduziram o sufrágio universal.”(13) Os EUA foram rebaixados de “democracia liberal” para “democracia eleitoral” devido à prática generalizada de emitir decretos executivos presidenciais e à tendência para o desaparecimento da separação de poderes — executivo, legislativo, judicial — um elemento típico das ditaduras políticas abertas. Mas se a democracia americana está “em lágrimas”, não é por isso que na Europa estamos “a rir”. Aqui, os governos cada vez mais procedem através de votos de confiança, demonstrando o que de facto são: cascas vazias, meros executores de decisões já tomadas fora das assembleias oficiais por aqueles que realmente detêm o poder e que, assim, tendem a exercê-lo pessoalmente sem confiar a sua administração a políticos de classe média baixa. Cada vez mais, se alguma vez houve necessidade, as instituições parlamentares mostram-se pelo que são, meros executores de decisões tomadas fora das assembleias institucionais, por aqueles que, em resumo, detêm o poder e, de facto, tendem a exercê-lo pessoalmente, sem confiar a sua administração a um aparelho político burguês de pequena ou média dimensão. Parece que estamos a voltar ao século XIX, quando a grande burguesia se sentava nos governos — como a Direita Histórica em Itália (1861-76) — eleita por uma pequena fracção da burguesia. Hoje, a grande burguesia — frequentemente chamada de oligarcas — é convidada a integrar governos (Musk, acima de tudo) ou eleita por uma parte do proletariado que, tendo perdido todo o carácter de classe, se reduz a plebe; poder-se-ia dizer, imitando uma linguagem da moda, à la Vendée e aos Sanfedistas.(14) que apoiavam as secções mais reaccionárias da classe que os exploravam e oprimiam. (15) Estas massas — incluindo proletários, mas também pequenos-burgueses desclassificados ou proletarizados — essencialmente gostariam de um regresso ao capitalismo de há sessenta anos, ao mundo do boom económico, quando, além disso, uma parte substancial deles era composta por emigrantes dos quatro cantos da Europa e do mundo, esmagados, oprimidos e desprezados tal como os imigrantes da nossa época.

Mas para voltar à discussão anterior, o processo de anular a democracia burguesa não se deve apenas aos “ogres” soberanistas, que estão a acelerar brutalmente políticas já adoptadas pelos dirigentes políticos anteriores. Se pessoas como Trump, Milei ou Salvini chegaram ao poder — sem falar dos outros que podem lá chegar — é porque a crise foi restringindo progressivamente a margem de manobra. Ela esgotou muitos dos partidos políticos tradicionais, que perderam apoio eleitoral devido às políticas de austeridade que têm vindo a implementar nas suas tentativas de travar uma crise histórica do capital que se agrava década após década.

Há anos, uma das mentes mais lúcidas e aguçadas do pensamento reformista, o sociólogo Luciano Gallino, descreveu as medidas aprovadas pelo FMI e tomadas pela UE em resposta ao grave tumulto económico causado pela crise das hipotecas subprime nos EUA entre 2007 e 2008 como um “golpe de Estado”. “Austeridade” significa cortes na saúde, educação e pensões — o saque de salários indirectos e diferidos; para ser preciso, cortes nos salários do sector público e (novas) regras que incentivam e facilitam a propagação do sub-emprego (precariedade) e baixos salários. O auge, por assim dizer, do “golpe de Estado” foi a imposição do memorando pela UE à Grécia(16) seguida pela covarde reviravolta do governo “de esquerda”, que o aceitou apesar da oposição expressa num referendo convocado pelo próprio governo (2015). O memorando significou realmente um tempo de sangue, suor e lágrimas para o proletariado grego (e sectores da pequena burguesia). Antecipou em uma década as medidas anti-proletárias de Milei na Argentina: um “estilo” político diferente, mas o mesmo conteúdo de classe.

Mas porquê um "golpe"? Porque, argumentou Gallino, as decisões de impor austeridade, enquanto socorriam os bancos, foram tomadas pela infame troika — a Comissão Europeia, o BCE e o FMI — enquanto os parlamentos eram chamados a ratificar as medidas, sem qualquer debate real. Para ser justo, o próprio Gallino apontou que a oposição às medidas por parte das assembleias nacionais era fraca, ou seja, à parte os soberanistas quando estavam na oposição, e a esquerda, mas por razões eleitorais. Acrescentemos: o Syriza na Grécia e os soberanistas no governo fizeram, e estão a fazer, as mesmas coisas, se não pior. O sociólogo enfatizou correctamente que os governos estavam a levar a cabo "a tarefa que lhes foi confiada pela classe dominante, da qual são uma fracção representativa."(17) Isto, na verdade, é uma das diferenças entre nós e o reformismo: este último acredita — engana-se a si próprio — que a democracia capitalista pode estabelecer governos que representem os interesses de todas as classes, mantendo as classes superiores sob controlo. Nós, por outro lado, acreditamos que nesta sociedade cada governo representa os interesses de apenas uma classe: a classe dominante.

Uma sociedade dividida em classes opostas e irreconciliáveis não pode ser outra coisa senão anti-democrática (se quisermos usar esta expressão), fundada no poder de uma pequena minoria que explora e oprime a vasta maioria. Em 2013, Gallino calculou que a classe dominante mundial, estritamente falando — os escalões superiores da burguesia — contava com 29 milhões de adultos, ou 0,6% da população mundial, e detinha 39% da riqueza total. (18) Desde então, as coisas não mudaram, excepto para pior: "A metade mais pobre da humanidade detém apenas 0,52% da riqueza mundial, enquanto o 1% mais rico detém 43,8%"(19) Para elaborar, hoje "só os 0,001% mais ricos, menos de 60.000 multimilionários, controlam três vezes mais riqueza do que metade da humanidade combinada. A sua quota cresceu de forma constante de quase 4% em 1995 para mais de 6% actualmente, o que sublinha a persistência da desigualdade." (20)

Discutimos anteriormente a inclinação do Ocidente para regressar às condições gerais da época em que a Grã-Bretanha nasceu, nas primeiras décadas do século XIX, e não é coincidência que este processo se manifeste particularmente na área que personifica a alta tecnologia: o Silicon Valley. Por trás das vitrines reluzentes das start-ups, da chamada inteligência artificial e do 'destino magnífico e progressivo' da humanidade, existe um nível de exploração que faria pouca inveja a alguém da época de Dickens. Segundo uma investigação jornalística, 'Várias empresas americanas estão a adoptar o horário de trabalho 996, que envolve um turno das 9h às 21h, seis dias por semana.'(21) De acordo com capitalistas de risco locais, um dia de trabalho tão extenuante é essencial para derrotar o inimigo número um: a China, onde essas horas de trabalho, ou até piores, são a norma.

Como de costume, aqueles “visionários” — os chefes de alta tecnologia — acreditam que os jovens devem aceitar entusiasticamente o seu despotismo particularmente opressor, em troca da experiência que supostamente ganham; tanto que muitas vezes não pagam horas extra (é só experiência...) e exigem submissão total da força de trabalho. Não é surpresa que o representante mais conhecido do mundo Big Tech, Musk, o recentemente nomeado chefe do DOGE (Departamento de Eficiência Governamental), tenha despedido dezenas de milhares de funcionários e agentes públicos, aplicando os mesmos sistemas usados quando comprou o Twitter. Na altura, tratava-se de 'uma sucessão de despedimentos sumários, despedimentos comunicados por email, chefes de departamento chamados inesperadamente e obrigados a justificar a utilidade do seu emprego em 60 segundos, compensações retidas. Uma 'reestruturação' económica que transformou o cenário de crueldade, baseada em rituais e humilhações punitivas.'(22) Esta abordagem — ou seja, ver e tratar a força de trabalho como nada mais do que papel higiénico — não é, de facto, exclusiva do “bizarro” Musk; é típica, se não uma necessidade premente, dos chefes ferozes das grandes empresas de tecnologia (e não apenas deles, para sermos honestos). A Oracle “está a apostar fortemente na IA [e iniciou] uma mudança massiva de capital para construir centros de dados e desenvolver soluções de IA para empresas. No início de Abril, aproximadamente 30.000 funcionários … foram despedidos sem aviso, informados com um e-mail seco enviado às seis da manhã.”(23)

Isto é ainda mais verdade para as suposições sobre as quais a inteligência artificial — sempre “assim chamada” — é desenvolvida. É bem conhecido que, para “treinar” os infames algoritmos, as empresas empregam milhões — alguns dizem 420 milhões — de pessoas espalhadas pelo planeta, pagas por tarefa, alguns cêntimos por operação, que juntam apenas um salário de sobrevivência, quando as coisas correm “bem”. Alguns chamam-lhes “trabalhadores fantasmas, os espectros invisíveis, os escravos do século XXI que trabalham para os faraós das grandes multinacionais de tecnologia, literalmente a construir as pirâmides da inteligência artificial... Em comparação, os milhões de operários que montam smartphones em armazéns chineses parecem operários superprotegidos.(24) As empresas do sector estão a investir um capital enorme, “segundo as últimas estimativas, custará às grandes tecnológicas americanas mais de 700 mil milhões de dólares em 2026”, mas até agora, “o retorno económico ainda está por provar”. Não é surpresa que se fale muito de uma bolha financeira que alimenta um crescimento económico em grande parte fictício, como é a natureza do capital fictício, cujo aumento anormal é impulsionado pela crise do ciclo de acumulação. A Tesla “tem uma capitalização de mercado igual a 372 vezes os lucros da empresa [4,46 mil milhões de dólares, se calculámos bem]” e a avaliação da SpaceX é de 2 mil milhões de dólares, equivalente a “250 vezes os lucros [8 mil milhões: o mesmo de antes]”.(26)

Em resumo, "a bolha da IA representou aproximadamente 40% do crescimento do PIB dos EUA em 2025 e até 80% do aumento nos preços das acções do país ..."(27)

A dificuldade de capitalizar com um capital enorme e em constante expansão, este é o problema que prende o capitalismo mundial, e talvez especialmente o da Big Tech. Eles não suportam qualquer regulação e, através da Casa Branca, estão a atacar a UE, que gostaria de impor — e em parte até impõe — regras suaves ao poder excessivo das plataformas, para não ceder soberania ao imperialismo, o seu aliado nominal, mas, por isso mesmo, o seu pior inimigo de facto. O caso sensacional dos juízes europeus do Tribunal Penal Internacional, privados de cartões de crédito, emails e outros serviços importantes — tudo “coisas” geridas por empresas dos EUA — porque declararam Netanyahu criminoso de guerra, demonstra que o controlo sobre a gestão de serviços essenciais é uma faca no pescoço do capitalismo com cartão de cidadão europeu.

Através da mercantilização e subsequente comercialização dos dados saqueados da internet, as grandes empresas de tecnologia fazem lucros estratosféricos: "Todos os dias, pessoas de todo o mundo passam 11,8 mil milhões de horas (mais de um milhão de anos combinados) a consumir conteúdo em plataformas de redes sociais fundadas por bilionários."(28)

Pilhagem, depredação, especulação: continuamos, no entanto, ainda no domínio da redistribuição da riqueza que circula na sociedade — uma redistribuição que beneficia exclusivamente os monopólios tecnológicos, claro. Isto não é a criação de riqueza adicional, de novo valor excedente primário, mas sim um escoamento turbo-alimentado da riqueza existente. Assim, até as brilhantes empresas de Big Tech sofrem — obviamente — do problema fundamental que afecta o capitalismo mundial, ou seja, a falta de valor excedente, porque, como dizemos muitas vezes, o nível de exploração, paradoxalmente, embora tenha vindo a aumentar durante décadas, não é suficientemente elevado em comparação com a composição orgânica actual. Consequentemente, eles evadem impostos,(29) atribuiem aos seus Governos a tarefa de reduzir drasticamente os impostos para os poucos que pagam, enquanto cortam os subsídios alimentares para crianças pobres, a saúde e os serviços sociais em geral para as secções mais pobres do proletariado (o Big Beautiful Bill...).

Esta feroz redistribuição de baixo para cima é acompanhada, e deve ser acompanhada, pelo esmagamento da classe operária, começando pelo ataque aos salários directos, tanto nos EUA como no resto do mundo. Falámos várias vezes, obviamente citando fontes capitalistas, sobre o declínio da parcela dos salários no PIB que tem vindo a ocorrer há várias décadas, e que a Covid-19 e as crises geo-políticas — ou seja, o conflito inter-imperialista — aceleraram. Um documento compilado pela Oxfam e pela ITUC, que analisou 1.500 grandes empresas em 33 países, confirma mais uma vez este cenário:

Os salários reais mundiais dos trabalhadores caíram 12 por cento desde 2019. Isto significa que, na prática, trabalharam 108 dias gratuitamente entre 2019 e 2025 (31 dias gratuitamente só no ano passado). Entretanto, o salário dos CEOs disparou... um aumento de 54 por cento em termos reais. (30)

O ataque aos salários em todas as formas, às condições de trabalho da classe operária, é o caminho obrigatório que a burguesia mundial seguiu para tentar impedir o colapso (económico) do capitalismo. Quando Peter Thiel se apresenta como um "teólogo do capitalismo"(31) reiterando, como disse Friedman, que a democracia é agora incompatível com a liberdade, está essencialmente a repetir que o capitalismo, para sobreviver, deve abandonar cada vez mais os elementos burgueses-democráticos que caracterizaram a ascensão do capital no pós-guerra. Este foi o caso, podemos acrescentar, entre as duas guerras mundiais, quando a democracia burguesa tradicional se tornou um entrave intolerável para os capitalismos "nacionais" mais em dificuldade, devido à luta de classes particularmente aguda e à crise. Isto não significa que estejamos necessariamente prestes a assistir ao regresso do fascismo em grande escala, como o do século passado, mas que as possibilidades de gerir a crise estão a diminuir e que a burguesia está cada vez mais a considerar formas mais autoritárias de gerir o Estado, ou seja, de controlar o conflito de classes. De facto, apesar das idiotices, boas apenas para debates entre intelectuais da classe média, o chamado anarco-capitalismo, ou seja, um capitalismo sem Estado, não passa de flatulência. Sem o Estado, a economia colapsaria; (32) sem investigação massivamente financiada pelo Estado, por exemplo, não haveria internet nem muitas outras inovações tecnológicas e científicas, das quais o capital privado retira enormes benefícios. Sem o Estado, em suma, a classe dominante não pode dominar e manter o proletariado submisso. O "Estado fraco" dos anarco-capitalistas — como são frequentemente chamados os "barões" capitalistas tecnológicos — significa um Estado ainda mais alinhado com os interesses do capital — como é da sua natureza — e com mão de ferro, sem a luva aveludada da democracia burguesa, contra o proletariado. As equipas do ICE, uma articulação do Estado, e não grupos armados "extra-legais" como os Camisas Negras e Camisas Pardas (certamente apoiados e protegidos pelo Estado), estão lá para o provar.

Há cem anos, Fritz Lang fez o filme Metrópolis (lançado em 1927), no qual um punhado de capitalistas reinava impiedosamente sobre uma classe operária reduzida a um rebanho passivo, forçado a viver na clandestinidade. Um "cientista louco" usou ondas electromagnéticas para criar um robô que capturou Maria, uma professora que se rebelava contra a ordem despótica da cidade. É quase como um prenúncio dos sonhos (ou pesadelos) de Musk, que, com a Neuralink — "um produtor de chips implantáveis no cérebro para permitir a comunicação directa com computadores"(33) — gostaria de fundir máquina e seres humanos, que obviamente seriam controlados por quem controla a máquina.

Quem conhece o filme sabe que ele termina com a dissolução da distopia: patrões e operários reconciliam-se, e uma nova vida começa. Mas para nós, esta é precisamente a "distopia" em que estamos imersos: uma classe operária que "aceita" a ordem social em que todos estamos no mesmo barco, uma classe que não luta, ou luta de forma demasiado fraca, contra o seu inimigo: o capital. Uma classe que, assim, está a negligenciar a criação da ferramenta vital de que precisa para pôr fim ao pesadelo distópico, mas muito real, que enfrentamos de guerra universal e catástrofe ambiental. Essa ferramenta é o partido revolucionário.

Cb
Battaglia Comunista
Junho de 2026

Notas:

(1) Elena Tebano, Il governo dei miliardari: come Trump ha trasformato la Casa Bianca in una super-plutocrazia (O Governo dos Bilionários: Como Trump Transformou a Casa Branca numa Super-Plutocracia), Corriere della Sera, 30 de Junho de 2025

(2) Estes são os miasmas ideológicos que permeiam, por exemplo, o romance de Gabriele D'Annunzio de 1895, As Donzelas das Rochas. Em 1958, Ludwig von Mises escreveu uma carta a Ayn Rand, uma ideóloga fanática do "libertarianismo" capitalista – ou seja, do poder absoluto que os capitalistas deveriam desfrutar, pois são naturalmente superiores à "multidão" proletária – com palavras que lembravam Cantelmo, o protagonista do romance de D'Annunzio que desprezava as massas. Na carta elogiosa, o economista austríaco escreveu: "Tu [Rand] tens a coragem de dizer às massas o que nenhum político lhes disse: és inferior e todas as melhorias nas tuas condições que simplesmente tomas como garantidas devem-se ao esforço de homens que são melhores do que tu." cdn.mises.org

(3) Este documento anti-semita foi uma falsificação da polícia secreta czarista, a Okhrana, para justificar os pogroms contra judeus e viria a fazer parte da mentira nazi de que mostrava uma conspiração judaica para dominar o mundo, justificando assim o Holocausto.

(4) Ou seja, a razão entre o capital empregado em maquinaria, matérias-primas, energia, etc. = c e força de trabalho = v.

(5) Uma expressão de oposição aos patrões adoptada apenas por aquela variante radical da social-democracia e do gramscismo que era o obreirismo (operarismo).

(6) Trilussa, teorico della borghesia (Trilussa, Teórico da Burguesia), em Prometeo, n.º 28, 2022.

(7) Para um levantamento dos "Edens" do capitalismo contemporâneo, veja Quinn Slobodian, Crack-Up Capitalism: Market Radicals and the Dream of a World Without Democracy (2024)

(8) "Manchesterismo" aqui é uma referência ao liberalismo económico capitalista promovido pelos comerciantes livres Cobden e Bright quando a economia britânica era a mais dinâmica do mundo, não deve ser confundido com o uso actual em apoio a Andy Burnham como líder trabalhista.

(9) Milton Friedman no seu prefácio de 2002 a Capitalismo e Liberdade (1962).

(10) JP Morgan, O ajuste à zona do euro: cerca de meio caminho (2013), europe-solidarity.eu

(11) Confederação Sindical Internacional, Índice Global de Direitos 2025, ituc-csi.org

(12) quotidianosanita.it Figuras semelhantes sobre o espaço cívico podem ser encontradas em: business-humanrights.org

(13) Riccardo Barlaam, La democrazia USA (e mundial) in declino (US and Global Democracy in Decline), Il Sole 24 ore+, 17 de março de 2026. O artigo comenta o décimo relatório anual do V-Dem (Instituto de Variedades da Democracia, Universidade de Gotemburgo).

(14) "La Vendée" foi um movimento reaccionário contra a Revolução Francesa liderado pela nobreza no oeste de França, mas envolvendo muitos camponeses. O movimento Sanfedismo na Calábria e na Puglia, no sul de Itália, foi também um movimento reaccionário, maioritariamente camponese, liderado pelo clero contra o derrube da dinastia Bourbon em Nápoles e Sicília por Napoleão e o estabelecimento da República Partenopea aí.

(15) Estas palavras de Damen captam a condição de sectores significativos do proletariado actual e levantam a questão perene sobre o desenvolvimento e o papel do partido revolucionário:

O proletariado reduzir-se-ia a meros plebeus se perdesse o seu carácter de classe como antagonista do capitalismo; e a sua possibilidade como classe explorada que luta pela sua própria defesa e libertação seria frustrada e anulada se a motivação e as forças físicas para uma liderança revolucionária não fossem produzidas dentro dela através das suas próprias lutas.

Onorato Damen, Overturning Praxis, in Bordiga: Beyond the Myth, pp.34-5

(16) Luciano Gallino, Il colpo di stato di banche e governi. L'attacco alla democrazia in Europa (O Golpe de Estado dos Bancos e Governos – o Ataque à Democracia na Europa), Einaudi, 2013, Gallino refere-se aos dois memorandos – 2010 e 2012, seguidos por um terceiro em 2015 – que causaram um empobrecimento drástico e dramático do proletariado grego e de alguns sectores da pequena burguesia.

(17) Gallino, op. cit. p.16

(18) Gallino, op. cit. p.12

(19) Oxfam, Resistindo ao Domínio dos Ricos (2026), oxfam.org

(20) Relatório Mundial sobre a Desigualdade 2026, wir2026.wid.world

(21) Kate Knibbs, Altro che settimana corta, nella Silicon Valley il nuovo mantra sono le 72 ore lavorative (Esqueça a semana de trabalho mais curta, no Silicon Valley o novo mantra é a semana de 72 horas), Wired Italia, 24 de Julho de 2025

(22) Luca Celada, Il piano di Silicon Valley per impadronirsi dello stato (O Plano do Silicon Valley para tomar o Estado), il Manifesto, 17 de Dezembro de 2024

(23) Andrea Nepori, Ma non è (tutta) colpa dell'algoritmo (Não é (tudo) culpa do algoritmo), la Repubblica, (suplemento) 22 de Abril de 2025, p.39

(24) Antonio Dini, I nuovi schiavi che nutrono le machines (Os Novos Escravos que Alimentam as Máquinas), la Repubblica, (suplemento) loc cit., p.35

(25) A. Nepori, loc. cit.

(26) Fazer uma Boa e Longa Análise de Elon Musk e "Muskismo" (Entrevista com Ben Tarnoff e Quinn Slobodian) jacobin.com ou, para citar outra fonte, "Para uma empresa como a Open AI ser avaliada em 800 mil milhões de dólares quando ainda não ganhou um cêntimo, e em 2025 registou prejuízos de 8 mil milhões (contra um volume de negócios de 20 mil milhões de dólares...), Esperando gerar lucros apenas em 2030 e considerando gastar mais 600 mil milhões de dólares entretanto, é preciso admitir que a hipótese do delírio não é assim tão delirante." (Tradução CWO) Frédéric Lordon, Vi sono piaciuti i "subprime"? La crisi anomala (Gostaste da crise Subprime? Uma Crise Anormal"), Le Monde Diplomatique – il Manifesto, Maio de 2026.

(27) Luigi Pandolfi, Gli alieni del capitale (Os Alienígenas do Capital), il Manifesto, 27 de Fevereiro de 2026

(28) Oxfam, loc. cit.

(29) Veja-se, por exemplo, Antonio De Lellis, Non è comunismo, ma giustizia sociale (Não é Comunismo, mas Justiça Social), il Manifesto, 16 de Maio de 2026: "Basta considerar o sistema fiscal de Trump para os ricos, onde o 1% mais rico da população vai poupar cerca de 1 milhar de milhões de dólares ao longo de dez anos graças aos cortes fiscais concedidos pelo presidente dos EUA. A Altreconomia diz-nos que as quatro empresas — Amazon, Alphabet, Meta e Tesla — pagaram uma taxa média de imposto de 4,9% em 2025, com a Tesla e a Palantir, em particular, a evitarem 100% dos seus impostos". Ver também Elena Tebano (ver nota 1 acima), "A Tesla não pagou um dólar em impostos americanos há mais de vinte anos e a SpaceX também não", Corriere della Sera, 20 de Abril de 2026. (ambos citam traduções CWO)

(30) Dia do Trabalhador 2026: Os salários dos principais CEOs aumentaram 20 vezes mais rápido do que os dos operários em 2025, ituc-csi.org

(31) Luca Celada, Peter Thiel, il nuovo mondo degli oligarchi "oltre" la democrazia (Peter Thiel, o novo mundo dos oligarcas "para lá" da democracia), il Manifesto, 15 de Março de 2026.

(32) Curiosamente, as grandes empresas tecnológicas receberam e continuam a receber contratos governamentais de mil milhões de dólares, desde a Palantir à SpaceX, para citar apenas os casos mais famosos ou infames.

(33) Fazer uma boa e longa análise de Elon Musk e do "Muskismo" (ver nota 21 acima).

Quarta-feira, 23 de Setembro de 2026

 

Fonte: Capitalist "Dystopia": Under the Lash of the Crisis, Even Democracy Turns Into A Handicap | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

Greve da Airbus: A classe operária só pode vencer libertando-se de uma vez por todas da camisa de força sindical!

 


Greve da Airbus: A classe operária só pode vencer libertando-se de uma vez por todas da camisa de força sindical!

 

Desde 25 de Agosto, os funcionários da Airbus em Espanha estão em greve "sem prazo definido" devido à deterioração das condições de vida e de trabalho, após rejeitarem — num referendo — um acordo inicial negociado entre os sindicatos e a gestão da empresa.

Esta greve contrasta fortemente com mobilizações anteriores. Primeiro, desenrola-se num contexto de intensificação da luta de classes em Espanha, impulsionada principalmente por baixos salários, insegurança no emprego, aumento do custo de vida e deterioração das condições de trabalho. Só nos primeiros sete meses de 2026, o número de greves já ultrapassou o total de 2025 — apesar dos esforços inconfessáveis dos sindicatos, que preferem negociar acordos vergonhosos de racionalização salarial com a burguesia, como se viu na Zara ou na Primark. É preciso recuar até 2012 para encontrar um nível semelhante de agitação industrial — um período marcado por uma grave crise económica e pelas drásticas medidas de austeridade que afectaram duramente a classe operária. (1) Naquela altura, a burguesia espanhola (PSOE socialista e PP conservador), encurralada, procurou reactivar a economia comprimindo os salários dos operários ao limite: reformas laborais destinadas a facilitar os despedimentos e a priorizar acordos ao nível das empresas em detrimento dos sectoriais; a natureza "flexível-precária" do trabalho (proliferação de contratos de curta duração); cortes nos salários e pensões; uma idade de reforma aumentada; e aumentos de impostos indirectos, juntamente com uma redução da segurança social. Algumas consequências dessa crise persistem hoje, nomeadamente sob a forma de salários mais baixos e uma explosão de emprego precário. (2) Para o operário espanhol, a vida diária continua a ser uma provação, e os operários da Airbus não são excepção.

Esta greve eclodiu devido a exigências económicas, como refere o jornal espanhol Público:

A disputa entre a Airbus e a sua força de trabalho começou com negociações salariais mas, em poucas semanas, expandiu-se para abranger outros aspectos das condições de trabalho. Os operários exigem um aumento salarial para restaurar o poder de compra perdido nos últimos anos (...) O trabalho remoto é outro grande ponto de discórdia. A empresa planeia reduzir este acordo de dois dias por semana para um — uma medida que a equipa rejeita, argumentando que altera os termos previamente acordados. Os assalariados também exigem maior flexibilidade no agendamento dos tempos de folga, a reintegração dos bónus retidos durante a baixa médica e uma revisão dos mecanismos de monitorização do absentismo (...) A estas exigências juntam-se os apelos por melhorias nas cantinas, transportes públicos, rotas e horários, bem como questões relativas à carga de trabalho nas instalações de Cádiz e à actualização das classificações de emprego. Os sindicatos também procuram garantias relativamente ao 'Projeto Bromo' — uma iniciativa para integrar actividades específicas relacionadas as instalações da Airbus, Leonardo e Thales— para garantir que qualquer reorganização salvaguarde os salários, a antiguidade, as condições de trabalho e os direitos de representação dos operários afectados. (3)

O que torna este conflito único é que a greve selvagem rapidamente saiu do controlo das principais lideranças sindicais. A 23 de Julho, numa tentativa de apertar o controlo de gestão sobre a força de trabalho e pôr fim às greves iniciadas a 1 de Julho, a direcção da Airbus e os principais sindicatos colaboracionistas (CCOO, SIPA e ATP)(4) negociaram um acordo que equivalia à capitulação; Isto foi rejeitado pela grande maioria dos operários, pois não respondia a nenhuma das suas reivindicações iniciais. Para defender a sua causa junto da empresa, os operários começaram a realizar assembleias gerais regulares no final de Agosto — independentemente dos sindicatos tradicionais, a maioria dos quais se opunha à continuação da greve e apelava ao regresso imediato ao trabalho. Foi posteriormente eleito um comité de greve, composto por membros sindicais da UGT (socialista) e CGT (sindicalista revolucionário), bem como operários não sindicalizados — que lideraram o protesto através dos canais do Telegram. (5)

O movimento de greve espalhou-se rapidamente por várias instalações da empresa, e alguns sindicatos ameaçaram estendê-lo a instalações em França. Perante esta perda de controlo por parte da burguesia e dos seus principais sindicatos — à medida que os operários nas assembleias gerais(6) rejeitavam sucessivamente todas as suas propostas — o governo socialista procurou quebrar a greve actuando como "mediador". No jargão capitalista, que visa obscurecer o antagonismo de classes, "mediador"(7) implica posicionar-se acima dos interesses de ambos os grupos para alcançar um acordo ao serviço do interesse "geral". Na realidade, isto não significa mais do que servir os interesses da burguesia ao enganar o proletariado. Foi precisamente isto que o governo de esquerda de Pedro Sánchez fez: a gestão da empresa propôs um novo acordo — apresentado como mais alinhado com as reivindicações dos operários do que as anteriores — mas mesmo assim não respondeu às exigências centrais dos grevistas. Consequentemente, o acordo foi novamente rejeitado pela maioria dos operários. (8)

Perante estes reveses sucessivos, os capitalistas empregaram uma táctica diferente: após o período de negociações, procuraram desgastar o movimento. Deixaram de negociar, recusaram-se a fazer quaisquer concessões aos grevistas e assinaram o acordo apesar da forte oposição — apenas para fragmentar o movimento ao aproveitar o apoio dos sindicatos "dissidentes". E, naturalmente, resultou: a UGT, inicialmente parte da greve, rapidamente pediu o regresso ao trabalho(9); a CGT seguiu o exemplo, considerando necessário "suspender" a greve com o argumento de que não poderiam ser extraídos mais ganhos da empresa. (10) Embora a força de trabalho tenha votado por uma margem estreita para continuar a greve, as operações foram agora retomadas na maioria das instalações (Tablada em Sevilha, Illescas em Toledo, El Puerto de Santa María em Cádiz e Albacete). No entanto, a "extrema-esquerda do capital" — os trotskistas na linha da frente — prometeu-nos que as coisas mudariam com o sindicalismo de base, que supostamente era "orientado para o protesto" e "democrático". Como sempre, a história dá o veredicto final, e assim foi aqui.

Independentemente da corrente política de qualquer liderança sindical — quer se apresentem como defensores apolíticos da negociação e do diálogo social, quer como revolucionários convictos — o sindicalismo tornou-se um instrumento reaccionário encarregado de negociar o preço da força de trabalho, em detrimento de qualquer acção colectiva genuína. Quando os sindicatos apelam ao regresso ao trabalho, não estão a trair a sua função; pelo contrário, estão a cumpri-lo plenamente: actuando como cães de guarda da burguesia e gerindo a força de trabalho ao serviço dos interesses capitalistas.

Já em Dezembro de 1918, durante a vaga revolucionária na Alemanha, Rosa Luxemburgo denunciou o papel claramente contra-revolucionário dos sindicatos social-democratas:

(...) Os sindicatos oficiais mostraram-se uma organização estatal burguesa e uma organização da classe dominante capitalista. É por isso que é óbvio que a luta (...) tem de priorizar as considerações sobre a liquidação destes obstáculos(11)

A Esquerda Italiana, na tradição do Partido Comunista Internacionalista (PCInt) fundado em 1943, desenvolveu ainda mais esta posição: não é esta ou aquela organização sindical específica que é contra-revolucionária, mas sim o próprio sindicalismo, devido à sua progressiva integração no aparelho estatal na era do monopólio e do capitalismo imperialista. Assim, declarámos na nossa Plataforma de 1952:

O partido afirma categoricamente que, na fase actual da dominação totalitária do imperialismo, os sindicatos são uma ferramenta indispensável dessa dominação, na medida em que até perseguem objectivos que correspondem aos interesses da burguesia para a sua própria preservação e guerra. Portanto, o partido rejeita a perspectiva falsa de que estas organizações poderiam, no futuro, cumprir uma função proletária, de modo que o partido teria de mudar de posição e adoptar uma postura de conquistar posições dentro da sua liderança.(12)

Já não é possível reconquistar os sindicatos; A revolução não será alcançada com estas organizações, mas contra elas: esta é a lição da história que todo revolucionário deve ter em mente durante a luta.

Esta greve marca um ressurgimento — ainda que incerto e confinado a um único sector — da luta proletária em Espanha; uma luta que, mais cedo ou mais tarde, voltará a surgir como uma fénix, impulsionada pela crise do capital, pela marcha rumo à guerra e pelas condições de vida e trabalho deterioradas do proletariado. Embora isto possa actualmente parecer uma esperança distante, estamos a trabalhar — dentro dos limites das nossas capacidades — para torná-la realidade.

Acima de tudo, no entanto, este conflito ilustra até que ponto a Esquerda e os sindicatos representam um perigo para a classe operária. Sabotar a luta é apenas uma das muitas malfeitorias cometidas por estes lacaios da burguesia. Desde que assumiu o governo, o governo espanhol — apoiado por um segmento da extrema-esquerda e aclamado como modelo por toda a Esquerda Europeia (incluindo as suas fracções supostamente radicais) — tem seguido uma política ferozmente anti-proletária que rivaliza com a dos seus predecessores. Julguem vocês próprios.:

·         No primeiro trimestre de 2025, os salários reais mantiveram-se 4,2% abaixo do nível do primeiro trimestre de 2021. Em 2022, o salário mediano real era aproximadamente o mesmo de 2008, tendo caído cerca de 0,5% nesse período. (13)

·         A reforma laboral de 2012, adoptada pelo governo conservador, foi em grande parte mantida, assim como a reforma das pensões de 2011, que elevou a idade de reforma para 67 anos. (14)

·         Os empregos precários continuam a ser generalizados no mercado de trabalho. (15)

·         Centenas de milhares de operários fazem horas extra não remuneradas. (16)

·         Durante a greve dos metalúrgicos em Cádis em 2021, o governo mobilizou a polícia de choque para reprimir os protestos, detendo vários grevistas. (17)

·         Um quarto da população espanhola continua em risco de pobreza ou exclusão social. (18)

Isto resulta da política seguida pelas duas principais confederações sindicais, CCOO e UGT, que têm consistentemente procurado negociar com o governo e substituir a acção colectiva por "diálogo social", "concertação" e outros disparates semelhantes. Estas organizações são marcadas por uma longa história de colaboração de classes, tendo apoiado todas as piores políticas anti-operárias desde o regresso à democracia em 1975. (19) O governo e os sindicatos estão de guarda, prontos para fazer tudo o que for preciso para evitar qualquer ressurgimento da luta de classes.

Esta política de consulta foi abalada pela greve selvagem na Airbus, embora apenas parcialmente. De facto, esta luta enfrenta limitações significativas: um segmento da classe operária ainda deposita a sua fé nas organizações sindicais quando estas afirmam representar os operários e professam oposição ao capitalismo; a luta espalhou-se por linhas corporativistas — estendendo-se a outras instalações da empresa — em vez de se generalizar por diferentes sectores económicos ou a empresas sub-contratadas. Uma luta isolada de outros sectores da classe operária, centrada em reivindicações puramente sectoriais, está condenada ao fracasso; a força do proletariado reside, pelo contrário, em afirmar a sua unidade e independência de classe. O fracasso da greve na Airbus — com o regresso ao trabalho imposto pelos sindicatos de base — demonstra a futilidade da estratégia de greve sectorial.

Tal como durante os "anos selvagens" das décadas de 1960 e 70, os operários devem regressar aos métodos de luta baseada em classes: a formação de comités de greve independentes e autónomos e assembleias gerais; e luta aberta contra os sindicatos e partidos burgueses — tanto de esquerda como de direita — que procurarão canalizar e conter o movimento e impedir a sua extensão geográfica da greve a outras empresas e a generalização da luta a todos os sectores. Só por estes meios o proletariado poderá finalmente libertar-se das correntes da opressão e da exploração capitalista. Para garantir que estes episódios de luta não sejam apenas efémeros e que comece uma nova fase revolucionária, é essencial que todos os que compreendem a trajectória do capitalismo, e a sua crise insolúvel, se unam para demonstrar que este sistema não tem futuro e que a classe operária deve organizar-se no seu partido de classe – o partido internacional do futuro.

Xav
Grupo Revolucionário Internacionalista
15 de Setembro de 2026

Notas:

Imagem: Samu (CC BY 2.0), commons.wikimedia.org

(1) diariosocialista.net e diariosocialista.net

(2) pmc.ncbi.nlm.nih.gov

(3) publico.es

(4) A CCOO é um sindicato estalinista próximo do Partido Comunista Espanhol (PCE); os outros dois sindicatos são entidades corporativistas.

(5) elplural.com e france3-regions.franceinfo.fr

(6) diariosocialista.net ; insurgente.org e 20minutos.es

(7) elcorreo.com

(8) larazon.es e lavozdelsur.es

(9) cadenaser.com

(10) infodefensa.com e eleconomista.es

(11) Rosa Luxemburgo no Congresso fundador do KPD. Ver: rosalux.de

(12) leftcom.org

(13) oecd.org

(14) oecd.org

(15) oecd.org

(16) rtve.es

(17) europapress.es

(18) ine.es

(19) tandfonline.com e revistas.ucm.es

Terça-feira, 22 de Setembro de 2026

 

Fonte: Airbus Strike: The Working Class Can Only Win by Freeing Itself Once and For All From the Union Straitjacket! | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice