sábado, 5 de setembro de 2026

As manobras multinodais (multipolares) das multinacionais da SCO, segundo Pepe Escobar


As manigâncias multinodais (multipolares) das multinacionais da SCO, segundo Pepe Escobar

5 de Setembro de 2026 Robert Bibeau


O jornalista Pepe Escobar apresenta abaixo uma avaliação exaustiva das actividades do bloco eurasiático agrupado em torno da emergente China, presumível herdeira da hegemonia mundial, na sua participação na armadilha de Tucídides, em que o decadente hegemon americano se envolve na companhia dos seus húsardos europeus paralisados perante o atavismo das populações ocidentais que se recusam a envolver-se massivamente numa guerra nuclear assassina. Ao
ler este compêndio, verá os múltiplos fatores, incluindo vectores financeiros, da contra-ofensiva das economias capitalistas emergentes contra as antigas economias
decadentes do petrodólar. O mundo do capital está a mudar, tanto no Oriente como no Ocidente, mas será para o bem do proletariado internacional? Les7duquebec.net



por Pepe Escobar. Em https://reseauinternational.net/ce-a-quoi-locs-est-reellement-confrontee/

A 25.ª cimeira anual da Organização de Cooperação de Xangai (OCS) em Bishkek, Quirguistão, pode não ter sido tão espectacular como a cimeira do ano passado em Tianjin, China, mas é, ainda assim, notável em vários aspectos fundamentais.

A Declaração Final de Bishkek foi certamente extremamente diplomática. Mas os seus pontos principais não poderiam ter sido mais claros.

Os membros da OCS condenam por unanimidade o ataque dos EUA ao Irão; apoiam a reforma do sistema financeiro internacional; comprometem-se a tornar a SCO um interveniente-chave nos debates sobre questões globais; refutam os dois pesos e duas medidas no terrorismo; opõem-se a qualquer interferência na soberania dos Estados; e reafirmam a indivisibilidade da segurança.

Pode ser visto como um manifesto eurasiático conciso — em nítido contraste com um "Império do Caos" em desordem.

Entre a vintena de documentos assinados em Bishkek, um deles destaca-se particularmente: regula o Centro Universal de Luta contra os Desafios e Ameaças à Segurança enfrentados pelos Estados-membros da SCO. Noutras palavras: um mecanismo destinado a combater guerras híbridas — e abertas — conduzidas pelo império.


Além disso, o Irão, membro pleno da OCS, sublinhou a necessidade urgente de criar tanto um banco de desenvolvimento como um consórcio energético.

É muito instrutivo recordar mais uma vez como as duas principais superpotências da OCS, a Rússia e a China, anteviam a construção complexa mas inexorável do que equivale a um novo sistema de relações internacionais (multinodal, multipolar ou multinacional. Nota do editor).

O Presidente Putin afirmou que hoje, "a SCO é, na prática, a maior associação regional não só do nosso continente eurasiático comum, mas também de todo o mundo. Os seus Estados-membros abrigam quase metade da população mundial e representam mais de um terço do PIB mundial."

À medida que o comércio e o investimento mútuos continuam a crescer por toda a Eurásia, Putin salientou que "o comércio da Rússia com os países da OCS ultrapassou os 400 mil milhões de dólares em 2025, enquanto os nossos estados dependem cada vez mais de moedas nacionais para o acordo mútuo. Nas transações da Rússia com membros da OCS, a sua quota ultrapassa agora 98%."

Este é um nível muito mais avançado do que o dos BRICS — a outra grande organização multilateral que impulsiona a multipolaridade — cuja cimeira anual terá lugar em menos de duas semanas em Nova Deli. (Veja o nosso artigo: Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: Multipolar, Multinodal ou Multinacional? As forças que estruturam as potências imperialistas numa chamada "Nova Ordem Mundial"! ).

UMA QUESTÃO DE CRÉDITOS E BANCOS: Ecoando o apoio iraniano, Putin sublinhou que o proposto Banco de Desenvolvimento da OCS está "em processo de criação": deve ser "o mais independente possível dos sistemas financeiros dos Estados que usam instrumentos económicos como armas para obter vantagens unilaterais nos assuntos internacionais."

 


Isto significa que o Banco de Desenvolvimento da OCS deveria ser muito mais independente do que o BND, o banco dos BRICS, cujos estatutos estão ligados ao dólar norte-americano. Já estamos numa fase avançada de consultas multilaterais sobre o estatuto, capital e estrutura de governação do banco.

Depois há o campo da energia: Putin destacou a Estratégia de Cooperação Energética da OCS, que se espera que seja implementada em grande detalhe até 2030.

O tripé que ancora a geo-economia chinesa

Agora compare isto com o Presidente Xi Jinping, que desde o início afirmou o seu desejo de desenvolvimento económico e "prosperidade partilhada": "Devemos defender uma mundialização económica universalmente benéfica e inclusiva, consolidar a cooperação em áreas tradicionais como comércio, investimento, conectividade, energia e recursos, e expandir a cooperação para áreas emergentes como a inteligência artificial, a economia digital, a indústria verde e a mineração verde".

Xi detalhou o que foi anunciado no ano passado em Tianjin, definindo a OCS como "uma área prioritária para promover uma cooperação de alta qualidade no âmbito da Iniciativa do Cinturão e Rota e para implementar a Iniciativa de Desenvolvimento Mundial."

Portanto, este é o tripé que sustenta a política geo-económica da China: a OCS, as Novas Rotas da Seda e a Iniciativa Mundial de Desenvolvimento. Na prática, é também o modelo para um novo sistema de relações internacionais.

Como parte da iniciativa, Xi mencionou o Fórum de Economia Digital da OCS, a Exposição Agrícola da OCS, um "centro internacional de cooperação em aplicações de IA com outros países da SCO", bem como o aumento da "capacidade instalada da energia fotovoltaica e eólica em 10 milhões de quilowatts cada" e a implementação de "100 projectos de cooperação tecnológica com outros países da OCS nos próximos três anos."


O Ocidente, colectivo mas fragmentado, simplesmente não consegue aceitar um novo sistema que condena resolutamente as sanções unilaterais, o proteccionismo comercial e o que equivale a fragmentação em blocos. Pelo contrário, a OCS, juntamente com os BRICS e a Iniciativa Belt and Road (BRI), são fortes defensores da conectividade.

Estes vão desde o Corredor Internacional de Transportes Norte-Sul (INSTC), que liga três países SCO e BRICS (Rússia, Irão e Índia), à construção da linha ferroviária China-Quirguistão-Uzbequistão, passando por gasodutos transfronteiriços como o "Power of Siberia", bem como um conjunto de centros logísticos e bases de energia verde à escala da Eurásia.

 


Construcção de uma ponte ao longo da linha ferroviária China-Quirguistão-Uzbequistão em Jalalabad, Quirguistão, Agosto de 2026

Os pontos altos de Bishkek foram novamente as reuniões bilaterais, em particular aquelas envolvendo a nova RIC (Rússia, Irão, China). A interligação dentro da SCO não poderia ser mais evidente do que através do INSTC, que transporta mercadorias russas — petróleo, gás, carga — através do Mar Cáspio, Irão e Golfo Pérsico até à Índia, um dos maiores mercados da Rússia.

A beleza do INSTC reside no facto de que três países membros dos BRICS e da OCS podem realizar todo o seu comércio sem passar por um único ponto de estrangulamento que poderia ser fechado por Washington. Neste sentido, o Irão está a desempenhar o papel de "porta de entrada do sul" da Rússia como parte de uma estratégia para contrariar a contenção ocidental.

 


Como esperado, não houve fugas de informação; mas a guerra contra o Irão — membro pleno da OCS — tem sido o principal tema da maioria das reuniões bilaterais. Putin confirmou directamente que a Rússia estava a ajudar o Irão a lidar com o bloqueio naval imposto por Trump: "Admiramos a coragem dos iranianos nesta guerra. Procuramos fornecer-lhe a assistência necessária. Discutimos isto e forneceremos os bens necessários."

Seguir o Dinheiro: Um Roteiro para a SCO

Sergei Glaziev, provavelmente o economista mais proeminente da Rússia e actualmente responsável pela gestão das relações entre o Estado da União da Rússia e a Bielorrússia, apontou o dedo para o objectivo que a SCO deve definir para si a partir de agora: "A ameaça de Washington de cortar os parceiros do Irão do dólar é uma oportunidade. A solução reside numa moeda de liquidação digital soberana — garantida primeiro por ouro e depois por uma cesta de mercadorias — para que o comércio da SCO já não flua através do sistema de pagamentos da NATO."


Sergey Glazyev intervem numa sessão sobre um sistema monetário e financeiro internacional alternativo no Fórum Económico do Leste em 2023.

Glazyev salienta que, para a Rússia, "a ligação com o sistema do dólar é mantida apenas pela liderança do Banco Central, que, por alguma razão, continua a cotar esta moeda e a denominar a taxa de câmbio do rublo nela; para os outros Estados da OCS, tal "desconexão" paralisaria uma parte significativa das suas operações económicas externas. Este é o momento perfeito para apresentar uma proposta de introdução de uma moeda digital de regulação mundial, que os especialistas russos têm defendido há muito tempo."

Glazyev refere-se diretamente ao projecto UNIT, que revelei há mais de dois anos: é essencialmente uma "stablecoin garantida por ouro". A UNIT "foi apresentada à margem da cimeira dos chefes de Estado dos BRICS do ano passado, cuja próxima reunião terá lugar dentro de duas semanas."

O próprio Glazyev propôs "uma moeda digital de liquidação atrelada a duas cestas: mercadorias negociadas em bolsa (cesta dupla) e as moedas dos países participantes neste sistema de pagamento." Isto seria "a resposta óbvia à ameaça americana de 'desligar do sistema do dólar' países que negociam com um dos membros da SCO."

 


E o tempo está a esgotar-se: "Qualquer atraso adicional [...] corre o risco de causar perdas económicas graves a todos os países que comercializam com o Irão, com excepção da Rússia. A China, a Índia e outros Estados da SCO também têm agora interesse nesta questão. A arma do dólar é o último instrumento do império. O acordo pela SCO fora deste sistema é a resposta."

O Professor Michael Hudson, por sua vez, foca-se naquilo que é, provavelmente, a questão mais importante: a dívida. O "stock existente de dívidas denominadas em dólares", disse ele, deve ser eliminado. E a resposta, mais uma vez, tem de vir da Rússia e da China:

"Se a Rússia e a China forem fornecer o crédito necessário aos seus parceiros comerciais e de investimento, incluindo os da Iniciativa do Cinturão e Rota, seria irrazoável que o seu apoio fosse desviado para reembolsar os detentores de obrigações estrangeiros pelo enorme atraso de empréstimos que tem travado o crescimento dos países mais gravemente afectados pela guerra petrolífera liderada pelos EUA, o que está na raiz da actual instabilidade comercial internacional e financeira".

O Professor Hudson imagina nada menos do que uma nova ordem económica financiada em grande parte pelos membros da SCO e dos BRICS: China, Rússia... e o Irão: "Isto pode ser alcançado se os credores tomarem uma participação nas economias dos países cuja infraestrutura pública irão financiar através de programas como a Iniciativa da Fronteira e Rota da China."


O economista norte-americano Michael Hudson argumenta que um novo sistema financeiro eurasiático deve resolver o actual atraso da dívida denominada em dólares. (Ver os artigos do Professor Hudson: https://les7duquebec.net/?s=hudson)

Estes são, antes de mais, empréstimos para fins produtivos — não esquemas que obriguem os países a permanecerem prisioneiros da dependência da dívida. Os países mais vulneráveis são "países que dependem do petróleo e têm défice alimentar. Ásia e o Sul Global. Terão de contar com o crédito da Rússia e da China, e contrair dívidas com o Irão que possam ser garantidas pela China."

Isto é realista, diz o Professor Hudson, porque "o sistema de ajuda destinado ao benefício mútuo produtivo compensará a China e a Rússia."

Tanto Glazyev como Hudson oferecem soluções concretas. Ainda não chegámos lá. Mas a SCO — e sem dúvida os BRICS — estão a trabalhar nisso.

Pepe Escobar

fonte: Geopolitics Prime

 

Fonte: Les manigances multinodales (multipolaires) des multinationales de l’OCS selon Pepe Escobar – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice



Multipolar, Multinodal ou Multinacional? As forças que estruturam as potências imperialistas numa chamada "Nova Ordem Mundial"!


Multipolar, Multinodal ou Multinacional? As forças que estruturam as potências imperialistas numa chamada "Nova Ordem Mundial"!

5 de Setembro de 2026 Robert Bibeau

Por Larry C Johnson – 27 de Agosto de 2026 – Fonte: Son of the new American revolution

 



É por isso que a nova ordem geo-económica não é multipolar, mas multinodal, afirma Larry Johnson. Uma "guerra" semântica muito fútil sobre as poderosas multinacionais que estruturam o modo de produção capitalista (MPC) no seu declínio. Um caos mundial que nos arraste para uma guerra total ou uma revolução internacional. A nossa discussão virá em breve (Les7duquebec.net).


Hoje em dia, todos os comentadores chegam à mesma conclusão. O século americano está a terminar, o domínio do dólar está a afrouxar, novos blocos estão a formar-se e, dizem-nos, o mundo está a tornar-se "multipolar". A palavra parece precisa. Mas não é. "Multipolar" leva-nos de volta a um conjunto de pressupostos do século XX que descrevem mal o que emerge da economia mundial actual, e porque a palavra que escolhemos determina o que procuramos e o que medimos, uma palavra má produz uma má análise. Há uma mais adequada, e não é apenas uma questão de semântica. A ordem que está a tomar forma é verdadeiramente "multinodal".

A distinção é mais importante na área onde a mudança é mais rápida; o campo geo-económico, o mundo das redes de pagamento, corredores comerciais, moedas, rotas energéticas e cadeias de abastecimento. É um mundo em rede, e as redes são compostas por nós, não por polos.

O que «pôle» omite

Um pólo é um conceito emprestado da física e estratégia da Guerra Fria, e tem peso. Começa pela geometria: os pólos vêm em pares. São, por definição, opostos e equivalentes; o Pólo Norte implica o Sul, o Polo Soviético envolvia o americano. Se usares a palavra "multipolar", já implicaste a ideia de um pequeno número de centros aproximadamente correspondidos e organizados em oposição. Como um analista observou secamente, os pólos são pares opostos de peso comparável — e, neste momento, não estamos a observar um conjunto de centros equivalentes e opostos.

A metáfora esconde mais do que geometria. Um pólo é um centro de gravidade; corpos inferiores gravitam à sua volta. A hierarquia está incorporada na palavra – grandes potências no centro, países clientes a gravitar à sua volta – e exclusividade, porque um corpo só pode cair num poço gravitacional de cada vez. Uma medida particular de poder também está envolvida neste conceito: a massa. A polaridade conta os pólos em peso agregado – PIB, despesas militares, população – quanto mais pesado o corpo, maior é a sua atracção. E por baixo de tudo isto está a imagem realista de uma ordem mundial verticalmente estruturada, com uma hegemonia ou hegemonias concorrentes, no topo, onde o poder significa a capacidade de coagir e a segurança significa evitar a derrota.

É um vocabulário útil para descrever exércitos e alianças. É mau a descrever o sistema económico mundial.

O que "nódulo" implica em vez disso

Um nódulo é um tipo diferente de objecto. É um ponto numa rede, e não é definido pela sua massa, mas pelas suas ligações – pelo número de ligações e pela quantidade de fluxos que a atravessam. Um ensaio de 2024 na China International Strategy Review resume bem: um mundo multinodal é uma matriz assimétrica de actores, cada um integrado numa rede de relações, na qual a actividade horizontal da interacção conta mais do que a actividade vertical de uma potência que se impõe a outra. Investigadores do Instituto Real Espanhol Elcano, que acompanham a mesma mudança nos assuntos de segurança, descrevem um sistema de nódulos, modos e fluxos em que, acima de tudo, os fluxos simplesmente contornam nódulos relutantes ou hesitantes para continuar a avançar.

Juntando estas duas imagens lado a lado, a diferença torna-se concreta. Os nódulos são numerosos e variam muito em tamanho. Estão ligados por múltiplas ligações redundantes em vez de dispostos em torno de um único centro. Eles não são hierárquicos; Formam uma malha, não uma pirâmide. São medidos pelo caudal e não pela tonelagem. E não são exclusivos: um nódulo pode ser ligado a uma dúzia de outros nódulos ao mesmo tempo, o que nenhum corpo a orbitar um pólo consegue. Esta última propriedade não é uma nota de rodapé. Este é o comportamento determinante do momento presente, mas a metáfora do pólo torna-o invisível.

A potência vem do fluxo, não da massa

Considere como o poder realmente opera no mundo que esta série documentou. O domínio do dólar nunca foi apenas uma questão da massa económica americana; Isto deveu-se à sua posição numa rede. Quase toda a gente teve de fazer pagamentos através de nódulos controlados pelos EUA, e foi esta propriedade obrigatória de passagem, e não o tamanho da economia americana, que tornou as sanções eficazes. Os cientistas políticos Henry Farrell e Abraham Newman deram-lhe um nome apropriado: "interdependência como arma", o poder que pertence a quem se senta sobre gargalos que outros têm de atravessar. O Estreito de Ormuz, o sistema de compensação de dólares, a rede CIPS, um punhado de refinarias chinesas, uma frota de petroleiros fantasma; Estes são os factores do poder contemporâneo, e cada um deles é um nódulo, avaliado pelo que passa por ele.

É por isso que o "multipolar" continua a produzir más previsões. Ele pressiona o analista a avaliar as grandes potências de acordo com a sua massa, e assim lista os Estados Unidos, a China, talvez a Rússia, a Índia e a UE, e fica por aqui. Isto esconde o facto de que um pequeno Estado pode ser um enorme nódulo – que os Emirados Árabes Unidos, Singapura, Qatar ou um porto como Gwadar podem comandar fluxos desproporcionais ao seu peso. A polaridade não nos permite ver este fenómeno. O nodalismo permite-o.

As redes redireccionam, não os pólos

A característica mais importante de uma rede é que pode contornar problemas. Bloqueia um caminho e o fluxo encontrará outro; Quanto mais redundantes forem as ligações, mais resiliente é o conjunto. Esta é toda a história da desdolarização resumida numa frase; Uma frase que a palavra "multipolar" não consegue formar.

Quando Washington usa o nódulo do dólar como arma, a resposta não é o mundo se juntar à volta de um pólo rival. Trata-se de construir nódulos alternativos — com o CIPS a compensar o yuan fora do sistema do dólar, o mBridge a estabilizar-se em moeda digital para além do banco correspondente, ouro e linhas de troca e swap — até que nenhum nódulo único seja obrigatório e o gargalo perca o controlo. A formulação de Elcano é correcta: os fluxos contornam o nódulo relutante para manter a sua fluidez. Cada sanção é, portanto, uma instrução à rede para desenvolver uma forma de a contornar, e cada contorno enfraquece a sanção seguinte. Esta dinâmica – a história geo-económica central da década – é perfeitamente legível em termos nodais e literalmente ilegível em termos polares, porque os pólos não contornam. Só atraem.

Os Estados protegem-se criando nódulos, não escolhendo um pólo

Olhe para o que os Estados estão realmente a fazer, e o conceito do pólo colapsa completamente. O Japão está a discutir com a Rússia sobre as Ilhas Curilas enquanto luta para continuar a comprar gás russo a Sacalina. A Turquia está na NATO enquanto depende do Irão para um oitavo do seu gás natural. O Paquistão é um importante aliado não pertencente à NATO dos Estados Unidos, aprofundando o seu comércio com o Irão, com o apoio da China. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos operam com o dólar, juntando-se à rede de compensação do yuan e à plataforma de moeda digital concebida para contornar o dólar. Os estados do Pacto de Meca são países clientes dos EUA que estão a construir um bloco de defesa mútua que pode admitir o Irão.

Pergunta a ti próprio "a que pólo cada um deles está próximo?" e não tens resposta, porque a pergunta assume uma exclusividade que já não existe. Em vez disso, pergunte a si próprio "a quantos nóduloss cada um está ligado e como funciona para reduzir a sua dependência de um deles?" e cada um destes comportamentos torna-se óbvio. Isto é um multi-alinhamento; o cultivo deliberado de muitas ligações e a recusa da pertença exclusiva. Esta é a estratégia racional de um nódulo numa malha, não o comportamento desviante de um corpo que não consegue decidir em torno de qual sol orbitar. As composições sobrepostas do nosso tempo – BRICS, SCO, GCC, NATO, CIPS e SWIFT, todos cruzados – não são uma confusão impossível de esclarecer. É a estrutura nascente de um mundo nodal.

O limite honesto

Nada disto torna a palavra "multipolar" inútil, e a precisão é válida em ambas as direcções. Existe um fenómeno real de concentração neste sistema: os Estados Unidos e a China são super-nódulos com verdadeiras atracções gravitacionais, e a rivalidade entre grandes potências não foi abolida pelo conceito de redes. Para a dimensão militar-estratégica – dissuasão, alianças, a geometria dura da força – o antigo vocabulário de poderes e esferas ainda faz sentido, e um analista sério mantém-no à mão. Multinodalidade não é uma afirmação de que todos os nódulos são iguais; é uma reivindicação sobre a forma do todo, que é uma malha de nódulos radicalmente desiguais em vez de um intervalo de pólos pareados e opostos. O argumento não é que a concentração tenha desaparecido. Isto porque a topologia é uma rede, e uma rede é descrita pelos seus nódulos.

As palavras são lentes, e a lente determina os dados. Use a palavra "multipolar" e contará as grandes potências, dividirá o mundo em campos e esperará que os blocos endureçam — e continuará surpreendido quando o dólar cair, quando um Estado de média dimensão atacar com uma força dez vezes maior do seu peso, quando um aliado do tratado continuar a negociar com o adversário, Quando uma sanção acelera a própria fuga que deveria impedir. Usa a palavra "multinodal" e vais mapear ligações e medir fluxos, e tudo se tornará um fenómeno coerente: um mundo a passar de um sistema estelar com um centro obrigatório e planetas à sua volta para um mundo a reprogramar-se numa malha densa com o maior número possível de outros nódulos. Portanto, não é um mundo multipolar que está a emergir. É um mundo multinodal; E compreender bem este conceito é o primeiro requisito para ver este novo mundo claramente.

Larry C Johnson

Traduzido por Wayan, revisto por Hervé, para o Saker Francophone. em: Nódulos, não pólos. Eis porque é que a nova ordem geo-económica é multinodal, não multipolar | O Saker francófono

 

Fonte: Multipolaire, Multinodal ou Multinational? Les forces qui structurent les puissances impérialistes dans un soi-disant « Nouvel Ordre Mondial »! – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice



LENINISMO OU ANTI-LENINISMO: UMA POLÉMICA ESTÉRIL

 


LENINISMO OU ANTI-LENINISMO: UMA POLÉMICA ESTÉRIL

Quando Lénine morre a 21 de Janeiro de 1924, a situação histórica deteriora-se fortemente: isolamento da Rússia, cerco militar, inversão mundial da relação de forças entre as classes… e sobretudo, internamente, degeneração do poder político proletário e restauração de todos os estigmas burgueses. É neste contexto que nasce a ideologia do leninismo, um dogma que cristaliza todas as tácticas e estratégias oportunistas e contra-revolucionárias, apresentado como «o marxismo da época do imperialismo e da revolução proletária.»1. Esta codificação oficializava já em 1925 o «socialismo num só país», o abandono da revolução mundial e do internacionalismo proletário em favor da defesa do «imperialismo» russo e da pátria «socialista», expressão visível do triunfo da restauração da ditadura capitalista. Desde então, o leninismo afirmou-se como o dogma dominante nas «democracias populares» onde existiria o                  « socialismo ».


Perante esta completa inversão da perspectiva da revolução comunista mundial, formou-se um conjunto diversificado de reacções políticas operárias saudáveis que mais tarde constituirão a ideologia anti-leninista. Mas, uma vez fossilizada, esta acabará por denunciar os bolcheviques como a principal causa da degeneração contra-revolucionária. Em vez de tirar um balanço político global indispensável da experiência da vaga revolucionária mundial dos anos de 1917 a 1924, o anti-leninismo preferiu negá-la, considerando a revolução na Rússia como um golpe de essência burguesa. Originalmente, a maior parte dos militantes comunistas de esquerda considerava a revolução na Rússia como proletária. Só mudaram de opinião porque não perceberam a degeneração da revolução proletária em território russo. A origem do que viria a ser uma controvérsia histórica pode já ser encontrada na reacção dos comunistas de esquerda (esquerda germano-holandesa, esquerda comunista de Itália…) contra a falta de ruptura com a social-democracia e o oportunismo crescente nos primeiros anos da Internacional Comunista. Isso traduziu-se, entre outras coisas, em 1920, no ataque muito mau e unilateral que Lenine lhes dirigiu com a sua brochura «A doença infantil do comunismo, o ‘Esquerdismo’». 2

Lenine contra o leninismo

Cette polémique a constitué et constitue encore l’expression la plus visible des limites de la compréhension de la contre- révolution par les minorités révolutionnaires face à la défaite de la révolution en Russie et la chape mensongère imposée mondialement par le stalinisme et ses complices idéologiques. « L’analyse de la contre-révolution en Russie et sa réduction en formules n’est pas un problème central pour la stratégie du mouvement prolétarien au cours de la reprise que nous attendons, puisqu’il ne s’agit pas de la première contre-révolution et que le marxisme en a connu et étudié toute une série ». A. Bordiga, Réunion de Naples, 1951, Invariance, N°3, 1969.

A este respeito, a oposição entre o leninismo e o anti-leninismo não se resume de modo algum a um confronto entre revolução e contra-revolução. Quer se trate do leninismo (« marxismo-leninismo ») ou da reacção antitética do anti-leninismo (o « conselhismo »), estamos antes perante uma continuação esclerotizada, simétrica e complementar, de todas as posições, tácticas e estratégias constitutivas e pro-activas que levaram à derrota operária. A sua cristalização em doutrinas rígidas e numa liturgia de receitas repetitivas (estatais ou soviéticas, « ditatorial ou democrática ») visa perpetuar, ao mesmo tempo que as disfarça, a vitória da contra-revolução, seja na sua forma estalinista, seja na forma « libertária », denunciando ou glorificando a natureza que seria irremediavelmente burguesa da luta de Lenine e dos bolcheviques. Assim reduzida e congelada, a polémica entre leninismo e anti-leninismo tornou-se completamente estéril e acompanhará os limites e desviantes dos «esquerdismos» do final do século XX. No entanto, foi o próprio Lenine quem iniciou preventivamente a crítica do leninismo, salientando o perigo de considerar as posições (e oscilações) dos bolcheviques como receitas infalíveis a aplicar de forma acrítica em todos os países capitalistas, incluindo os mais desenvolvidos. Ele chega mesmo a considerar, com clareza, a recuperação espectacular dos velhos revolucionários transformados em múmias religiosas para enganar as massas de adoradores iludidos.

« Durante a vida dos grandes revolucionários, as classes de opressores recompensam-nos com perseguições incessantes, acolhem a sua doutrina com a fúria mais selvagem, com o ódio mais feroz e com as campanhas mais desenfreadas de mentiras e calúnias. Após a sua morte, tenta-se torná-los ícones inofensivos, canonizá-los, por assim dizer, e rodear o seu nome com uma certa auréola para consolar as classes oprimidas e enganá-las; ao fazer isto, esvazia-se a doutrina revolucionária do seu conteúdo, degrada-se e embota-se o corte revolucionário. É nesta forma de acomodar o marxismo que hoje se encontram a burguesia e os oportunistas do movimento operário. Esquece-se, reprime-se, altera-se o lado revolucionário da doutrina, a sua alma revolucionária. Dá-se relevo, exalta-se o que é ou parece ser aceitável para a burguesia. Todos os social-chauvinistas são hoje «marxistas» - não rias! » Lenine, O Estado e a Revolução, p.9/10, éditions sociales, Paris, 1972.

Até ao seu « último combate »4, Lenine tentou, em consonância com a tomada revolucionária do poder, ganhar tempo, fazer compromissos, recuos, mas também cometer erros tácticos e estratégicos para manter a qualquer custo a ditadura revolucionária mesmo contra o proletariado e os seus melhores elementos. Mas, essa atitude de resistência transformou-se, no contexto da derrota operária internacional, e dentro do próprio poder, num culto ao indivíduo genial e omnisciente, base da formação do leninismo enquanto teorização de todos os erros políticos que conduziram, no fim, à criação de uma nova religião da contra-revolução (« o socialismo num só país »), com o seu messias Lenine e o seu representante na Terra, Estaline 5. O que teria sido necessário fazer com o « leninismo » era, como defendia K. Korsch, aplicar « a concepção materialista da história a esta concepção em si mesma. » K. Korsch, Marxismo e filosofia, p.23, éditions de Minuit, Paris, 1964. Só este método nos permitiria finalmente restaurar a teoria de Lenine no seu contexto: a actualidade da revolução e na sua perspectiva revolucionária internacional, mas com a compreensão crítica das suas limitações inerentes, das suas faltas de rupturas e dos seus erros políticos (táctica das frentes unidas, sindicalismo, 21 condições, parlamentarismo, tolerância duvidosa com o «centro», «bolchevisação» dos partidos, apoio às revoluções burguesas nos países coloniais…). Além disso, essas limitações e faltas de rupturas são compreensíveis porque são fundamentalmente devidas às análises comuns de toda a social-democracia russa, todas as tendências incluídas, sobre as possibilidades revolucionárias num país como a Rússia com múltimos vestígios feudais.

Para alguns, só a revolução burguesa é viável, para outros o proletariado deve liderar a futura revolução realizando em primeiro lugar as tarefas democráticas burguesas que a burguesia foi incapaz de assumir; em primeiro lugar, fazer crescer as forças produtivas. As medidas directamente "socialistas" dependem essencialmente da internacionalização da revolução proletária. Infelizmente, Lenine vai extrapolar aquilo que poderia ser compreensível, embora já criticável, para a situação especificamente russa, para o resto do mundo (defesa do parlamentarismo, do sindicalismo etc.), daí a excelente resposta de Gorter à Doença Infantil. Finalmente, é necessário sublinhar que, no início da Primeira grande chacina mundial, Lenine defendeu a ÚNICA posição autenticamente revolucionária e proletária (portanto anti-burguesa), a do derrotismo revolucionário, a da transformação da guerra imperialista em guerra civil revolucionária. Se ele tivesse sido um revolucionário burguês ou pelo menos se tivesse defendido a necessidade de uma revolução burguesa como primeiro passo da futura revolução proletária, teria defendido "a sua pátria" na guerra imperialista mundial de 1914. Isto não passou pela cabeça, ou foi voluntariamente esquecido pelos anti-leninistas actuais, que assim se situaram a anos-luz das posições revolucionárias do K.A.P.D. dos anos 20.

Violência e terror operário para que sociedade?

Outra forma de expressão desta polémica errada seria estabelecer uma sinonímia entre a oposição leninismo e anti-leninismo e aquela entre ditadura do proletariado e "democracia soviética". Ora, não é isso. O conceito de ditadura do proletariado é um elemento central da teoria revolucionária e do marxismo vivo 6. Esta ditadura impõe-se necessariamente como uma ferramenta indispensável para ter a força organizada para destruir todos os vestígios e estigmas do regime capitalista e para satisfazer o mais rapidamente possível as necessidades da condição proletária no sentido da abolição do trabalho, das classes e do Estado. A questão não está, portanto, no uso ou não da violência concentrada, do terror ou do terrorismo, mas sim contra quem, com que objectivo e com que programa esses métodos são utilizados. Sabendo ainda que tais métodos repressivos nunca podem entrar impunemente em contradição com a transformação revolucionária da sociedade. É precisamente para essa transformação radical, consciente e determinada, embora gradual, que a ditadura deve agir com princípios de classe e sem nunca trair as necessidades fundamentais do proletariado revolucionário. Nesse sentido, e como Bilan (órgão da fracção de esquerda do P.C. d’I.) já dizia, é melhor perder “militarmente” do que trair a essência do programa da sociedade futura. Pelo contrário, foi a vitória militar na guerra civil na Rússia que selou a derrota política e social da revolução.

A lição fundamental é que os meios devem sempre ser adaptados ao fim que servem e não o contrário.

Esta questão central vai surgir, nomeadamente, através das polémicas que o livro de Trotsky «Terrorismo e comunismo», publicado em 1920, vai provocar. De facto, neste livro, Trotsky faz brilhantemente elogio da necessária utilização da violência, mas aplicada, já nessa altura, não apenas contra as forças contra-revolucionárias da burguesia, mas também contra o próprio proletariado revolucionário e as suas vanguardas mais esclarecidas.

«Quem renuncia por princípio ao terrorismo, ou seja, às medidas de intimidação e repressão em relação à contra-revolução feroz e armada, deve também renunciar ao domínio político da classe operária, à sua ditadura revolucionária. Quem renuncia à ditadura do proletariado renuncia à revolução social e abdica do socialismo.» L. Trotsky, Terrorismo e comunismo, p.33, edições Prométhée, Paris, 1980.

No entanto, esta afirmação vigorosa não resolve a questão do sentido e da direcção sobre quem é alvo desta violência. É separar a necessária utilização da violência na luta de classes do seu portador e do seu objectivo emancipador. Mesmo que o ódio e a violência de classe sejam imposições do inimigo, os seus conteúdos e formas particulares não são indiferentes ao projecto da classe que os porta. É o caso das piores barbaridades do militarismo burguês e dos seus métodos desumanos e degradantes, que não podem ser reproduzidos nem utilizados pelo proletariado revolucionário. Este terá cuidado, mesmo na aplicação implacável do seu terrorismo, de sempre manter o seu ponto de vista internacionalista e em conformidade com a sua natureza de última classe explorada da história. Trata-se de uma questão vital do programa político da revolução e das lições pertinentes que se puderam, previamente, tirar das experiências revolucionárias do passado. Em relação a essas lições a tirar, não há qualquer garantia formal ou «constitucional», apenas o pleno

desenvolvimento da consciência de classe e da vontade operária, cristalizados pelo Partido de classe, pode servir para centralizar e planear o processo ascensional da transformação revolucionária e emancipadora. Mais uma vez, aqui também, mas de forma negativa, o livro de Trotsky dá-nos indicações valiosas. De facto, é na segunda parte desta obra que ele nos indica que estas «medidas de intimidação e repressão» são implementadas para tornar o «trabalho obrigatório», passando pela sua «militarização» e apoiando todas as medidas técnicas para aumentar a produtividade, a intensidade e a duração da exploração. Tratava-se de medidas que degradavam inexoravelmente a condição dos operários e, portanto, aquilo por que a revolução tinha sido desencadeada e iniciada. Isto, tal como os terríveis erros políticos que vão gerar, deve-se obviamente à situação desastrosa concreta de uma revolução que está a caminho de se transformar, internamente, numa contra-revolução; um fenómeno histórico nunca visto antes.

Trotsky, depois de reconhecer que « o velho Antonio Labriola, o marxista italiano, até representou o homem do futuro como « um preguiçoso feliz e genial » p.142, passa muito rapidamente para « O próprio princípio do trabalho obrigatório é para os comunistas indiscutível » p.144. E, continuando muito claramente a lógica capitalista, nunca desaparecida: « Só agora, perante os problemas que coloca o renascimento económico do país, é que a necessidade do trabalho obrigatório se coloca diante de nós da forma mais concreta » p. 144. Aqui, nenhuma tentativa de transformar este trabalho obrigatório e militarizado no sentido de uma diminuição da exploração, pelo contrário, constata-se a sua exaltação pura e simples na linha antecipada do stakhanovismo de Estaline. Em vez de transformar, gradualmente, a economia no sentido da abolição do salário, do trabalho alienado e da satisfação prioritária das necessidades dos operários, as concessões à lógica capitalista e as medidas tomadas foram no sentido contrário, sob o pretexto de lidar com o mais urgente (sempre do ponto de vista imediato do militarismo). Esta involução tornou impossíveis as medidas indispensáveis que deveriam ir no sentido de uma diminuição visível da exploração e de outras opressões sociais.

O livro de S. Pirani, La révolution bat en retraite (A revolução bate em retirada), faz a este respeito uma descrição preciosa e meticulosa da degradação da condição operária e das violentas reacções que isso provocou, sem, no entanto, poder propor qualquer outra alternativa política.

« (A vaga de greves…) atinge o seu ponto máximo em Moscovo entre 23 e 24 de Fevereiro (1921). Houve também paralisações em Petrogrado a partir do dia 24, e noutras cidades. A 28 de Fevereiro, a primeira resolução anti-bolchevique foi adoptada no couraçado Petropavlovsk na base naval de Kronstadt, precipitando a revolta armada dos marinheiros (…). Os grevistas também estavam politicamente divididos: enquanto os S.R., os mencheviques e outros haviam reconquistado algum apoio entre a população, e o programa político dos kronstadianos para uma renovação da democracia soviética tal como se praticava em 1917 recebia aqui e ali demonstrações de apoio, essas manifestações nunca chegaram a formar um movimento de massas». S. Pirani, A revolução bate em retirada, p.107/108, Les Nuits Rouges, Paris, 2020.

Era, no entanto, indispensável demonstrar de forma concreta e permanente que a transformação qualitativa da vida proletária devia ser a realidade inegociável da práxis revolucionária. De maneira alguma, as medidas típicas do capitalismo (troca comercial, dinheiro, salário, taylorismo, preferência nacional, « imperialismo »…) podem servir, pois elas degradam irremediavelmente a confiança do proletariado no seu poder e na sua força emancipadora. Estas medidas marcam, na verdade, o início do fim do próprio poder proletário. A ditadura do proletariado transformou-se, na prática, numa ditadura do capital através do Partido, que usará e abusará da mais-valia ao seu bel-prazer, deixando assim de ser revolucionário. A organização capitalista do trabalho com a ajuda obrigatória dos sindicatos, glorificada e amplificada pelos bolcheviques, serviu assim como principal repelente para os proletários mais conscientes que reagiram de maneira clássica para a sua classe, através da greve, da rebelião e da insurreição (Kronstadt). É bem evidente que Lénine e a maioria dos bolcheviques (com excepção de algumas oposições operárias tanto dentro como fora do Partido) apoiaram e endossaram tais medidas capitalistas, assim como a repressão que as acompanhava, no contexto particular da Rússia do início do século XX e, mais uma vez, na esperança desesperada e desapontada da revolução mundial.

« Porque, ao tentar salvar a Rússia, a revolução russa, vocês reúnem com esta táctica elementos que não são comunistas. (…) E é com este amontoado de sindicatos mumificados, com uma massa de gente que é comunista apenas a metade, um quarto, um oitavo ou mesmo nada, a que falta um núcleo válido, que vocês querem combater o capitalismo mais altamente organizado do mundo, e que conseguiu reunir todas as classes não proletárias!! Nada de surpreendente se este amontoado se desfaz e se a grande massa escolhe cada um por si assim que chegam os confrontos ». H. Gorter, Resposta a Lénine, p.93, Spartacus Paris 1979.

A contra-revolução veio de dentro do próprio «sistema soviético», e o leninismo foi a sua teorização para manter, camuflada, a restauração política do capitalismo na Rússia, que apenas prolongava a sua estrutura económica, por outro lado, inalterada.

Pannekoek e o seu « Lénine filósofo »

Ao cristalizar-se cada vez mais numa doutrina anti-leninista, a esquerda comunista germano-holandesa dos anos trinta completou a sua evolução política rompendo com a pseudo continuação formal, afirmada pela doutrina leninista, entre Marx-Engels, ... Lenine, … Estaline e, posteriormente, os seus «continuadores» burgueses e fascistóides: Mao, Castro, Hoxha… Para isso, tiveram de impor uma ruptura filosófico-política com Lenine não tirando um balanço ao aplicar a análise crítica à tomada do poder pelos operários na Rússia, mas refutando-a com um simples traço de pena. Já não se tratava senão de um golpe burguês conduzido por intelectuais sociais-democratas radicalizados. Esta afirmação ideológica remetia, de facto, para a antiga posição dos mencheviques antes de Outubro de 17, para os quais apenas uma revolução burguesa com a sua «Constituinte» teria sido conforme com a evolução natural e progressiva do capitalismo na Rússia. Para eles, portanto, tal como para os «conselhistas», uma revolução proletária na Rússia era impossível e suicida. O único horizonte possível era uma revolução burguesa, para continuar o desenvolvimento moderno do MPC. É isso que Pannekoek vai tentar demonstrar no seu livro Lenine filósofo (publicado sob o pseudónimo de J. Harper em 1938), para criticar Lenine e tentar estabelecer um continuum burguês na Rússia através da assimilação da reivindicação materialista de Lenine a um materialismo burguês. Assim, se o materialismo de Lenine fosse o da burguesia, Lenine, ele próprio, tornava-se o representante radical dessa burguesia nas condições da Rússia czarista. A revolução de 1917, com Lenine à sua frente, não seria então senão um golpe burguês. O jogo estava ganho. É para fazer esta «demonstração» que Pannekoek vai rejeitar a explicação de que «o materialismo é a base comum do marxismo e do materialismo burguês.» Lénine filósofo, éditions Spartacus, p.93, Paris, 1970.

Além disso, ao contrário do que diz Pannekoek, o materialismo de Lenine não é nem redutível, nem identificável, por razões de reescrita da história, com o dos materialistas do século XVIII, nem com o de Demócrito. Lenine combate, do ponto de vista do materialismo prático, as derivações idealistas de alguns dos seus camaradas de partido, revelando, para além da sua linguagem confusa, os seus fundamentos idealistas e agnósticos. Lenine vai assim retomar algumas questões-chave e fundamentais da concepção materialista do mundo, como: a matéria, o espaço e o tempo, a causalidade e a necessidade na natureza, a liberdade e a necessidade... E faz isso para corrigir o rumo das coisas, mesmo que isso signifique bater várias vezes no mesmo prego, pois essa era a maneira de Lenine de polemizar. Por outro lado, a crítica conselhista vai acusar Lenine de fazer do materialismo um simples reflexo da realidade. Esta realidade objectiva seria vista como reduzida à matéria física.

« ...O mundo físico é a única realidade objectiva, é em poucas palavras a filosofia materialista », Lenine: Materialismo e Empiriocriticismo p.302, edições do Progresso, Moscovo, 1970. Tornou-se então fácil para Pannekoek identificar esta posição com um materialismo estático e burguês, duplicado do que existe: « Para Lenine, natureza e matéria física são idênticas; a palavra matéria tem para ele o mesmo sentido que "mundo objectivo". Neste ponto, concorda com o materialismo burguês que, da mesma forma, considera que a matéria é a verdadeira substância do mundo. » Pannekoek, p.82. Lenine responde antecipadamente algumas páginas mais à frente: « O mundo físico existia antes que o psíquico pudesse aparecer como o produto superior das formas superiores da matéria orgânica. (…) 2º o psíquico, a consciência, etc., é o produto superior da matéria (ou seja, do físico, uma função dessa parcela particularmente complexa da matéria que leva o nome de cérebro humano humano." » Lenine, p.314.

Seguindo o exemplo de Engels no seu «Ludwig Feuerbach», Lenine vai começar por redefinir as duas correntes essenciais da filosofia, para situar, em termos anteriores à polémica de 1908, o verdadeiro sentido das divergências. «A grande questão fundamental de toda a filosofia e especialmente da filosofia moderna é a da relação do pensamento com o ser.» F. Engels, Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã, p.24, edições Sociale, Paris. Para atacar os revisionistas de 1908, Lenine vai previamente realizar um imenso trabalho de leitura e pesquisa teórica, lendo não só os «empiriocriticistas», Mach, Avenarius e Petzoldt, mas também relendo os idealistas Aristóteles, Berkeley até Hegel… e, os materialistas Demócrito, Epicuro, Diderot assim como Feuerbach, J. Dietzgen para se apoiar em Plekhanov, e obviamente, Marx e Engels. Este trabalho preparatório encontra-se parcialmente em cadernos (chamados «cadernos filosóficos») de leitura e de notas. Isso para insistir no facto de que a obra « Materialismo e Empiriocriticismo » não pode ser simplesmente limitada a uma polémica que usa as « questões filosóficas » para resolver um problema organizacional. Ao contrário da lenda anti-leninista (oposta à dos defensores leninistas), Lenine não se reduz a « um mau filósofo », e a um « génio da táctica », com um toque de maquiavelismo. O que Lenine quer dizer é que existe de facto uma verdade objectiva e que a capacidade de a conhecer, de a pensar, não é uma questão de teoria, mas de provas práticas. A teoria da luta de classes demonstra-se praticamente na luta operária revolucionária, e essa luta é reflectida na teoria. É isto que se tornará a « teoria do reflexo » atribuída a Lenine.

« Lénine traz de volta para o mundo exterior (acessado através da prática social, conhecida como uma 'mediação' que não funciona ao estilo kantiano como uma espécie de barreira entre o homem e a natureza, mas que estabelece um vínculo vivo entre ambos) a teoria marxista do reflexo. » H. Lefebvre, Para conhecer o pensamento de Lénine, edições Bordas, p. 133. Basicamente, trata-se da constatação de que « O materialismo é o reconhecimento das leis objectivas da natureza e do reflexo aproximadamente exacto dessas leis na mente do homem. »Lenine, p.207.

Além disso, limitar-se a esta única afirmação unilateral pode facilmente cair numa visão mecânica e simplista. O reflexo na cabeça do homem, de facto, não é imediato, nem directo, nem automático, nem puro… pode ser distorcido, parcial, misterioso. Cabe então à consciência crítica e mediada expressar a realidade não imediata como uma totalidade concreta.

« O pensamento e o ser, portanto, não são idênticos no sentido de que «correspondem» um ao outro, que se «reflectem» mutuamente, que caminham «paralelamente» ou que «coincidem» (todas essas expressões não passam de formas ocultas de uma dualidade rígida); a sua identidade consiste em que são momentos de um único e mesmo processo dialéctico, real e histórico. O que a consciência do proletariado «reflecte», portanto, é o elemento positivo e novo que surge da contradição dialéctica da evolução capitalista. Não é algo que o proletariado inventa ou «cria» a partir do nada, mas sim a consequência necessária do processo na sua totalidade (…)». G. Lukacs, Histoire et conscience de classe, p.251/252, éditions de Minuit, Paris, 1984.

A demonstração política de Pannekoek, sobre o carácter burguês de Lenine e dos bolcheviques, sob uma envoltura filosófica, era, na verdade, um apriorismo ideológico. Isso constituiu uma das bases da religião anti-leninista. O leninismo constitui, neste sentido, a imagem da ortodoxia do catolicismo, enquanto o anti-leninismo constitui o seu lado “protestante”.

Leninismo e anti-leninismo: duas respostas erradas para uma falsa questão

Foi em 1969 que um grupo de camaradas publicou uma brochura antecipatória e muito pertinente: «Contribuição para a crítica da ideologia ultra-esquerdista (Leninismo e ultra-esquerdismo)» por ocasião de uma reunião internacional do grupo I.C.O.

Desde o início deste folheto, eles colocavam a questão central: «(...) a corrente ultra-esquerdista fundou-se nos anos 1920 a partir de uma crítica ao leninismo. Podemos perguntar-nos se essa crítica não foi, tal como aquilo que criticava, produto de uma época; e se não trouxe em si os limites dessa época. Será que a corrente ultra-esquerdista analisou o leninismo em profundidade? Ou apenas tomou o seu oposto sem realmente atingir as suas raízes?» p.145.

O principal limite político da questão mencionada acima está na oposição absoluta entre duas formas de organização consideradas ambas como o «Deus Ex Machina»: a forma Partido versus a dos sovietes.

« Marx insiste sobretudo no conteúdo deste movimento (o socialismo). Lenine e a corrente ultra-esquerda insistiram sobretudo na forma: forma de organização, forma de gestão da sociedade socialista, esquecendo o conteúdo do movimento revolucionário. Este "esquecimento" era ele mesmo um produto histórico. A situação da sua época, e sobretudo o desenvolvimento limitado das forças produtivas, não permitia que as lutas revolucionárias tivessem um conteúdo comunista (no sentido que definimos). » p.173/174. « Nessas condições, os ultra-esquerdistas não podiam fazer uma crítica real ao leninismo. Só podiam sistematicamente tomar o seu oposto, sem ir ao fundo das coisas, sem ver o conteúdo do movimento revolucionário, simplesmente porque este movimento não surgia à vista de todos. (...) Substituíram assim o fetichismo do partido leninista pelo dos conselhos operários. »p.175.

Já tivemos a oportunidade de discutir o carácter heterogéneo dos sovietes e de outras formas de organização supostamente « finalmente encontradas »: « A forma de organização soviética, portanto, não pode ser entendida independentemente do seu conteúdo político, que por sua vez é determinado pelo contexto histórico e pela relação de forças entre as classes presentes.(…)11 É função da contra-revolução ter separado do partido os organismos produzidos pelo processo de associativismo operário, quando na realidade trata-se de um mesmo e único processo: o da organização do proletariado enquanto classe e, portanto, enquanto Partido12.

« Sem um Partido revolucionário, não pode existir uma verdadeira classe, sujeito da história e, amanhã, da ditadura revolucionária. » A « doença infantil », condenação dos futuros renegados. Sobre o brochura de Lenine, A doença infantil do comunismo (o « esquerdismo »), edições Programa Comunista, Paris, 1972.

 

Junho de 2024 : Fj, Pb & Mm.

 

 Bibliografia

Livross :

 AUTHIER, Denis & BARROT, Jean, La gauche communiste en Allemagne, 1918-1921, Payot, Paris, 1976.

 BAYNAC, J., La terreur sous Lénine, Le Sagittaire, Paris, 1975.

 BARROT, J., Communisme et question russe, éditions la tète de feuilles, Paris, 1972.

 BOUKHARINE, N., Lénine Marxiste, Librairie de l’humanité, Paris, 1925.

 COLAS, D., Lénine Politique, Fayard, Paris, 2017.

 GORTER, H., Réponse à Lénine, Spartacus, Paris, 1979.

 KORSCH, K., Marxisme et philosophie, éditions de Minuit, Paris, 1964.

 LEFEBVRE, H., Pour connaitre la pensée de Lénine, Bordas, Paris, 1977.

 LENINE, L’État et la révolution, éditions sociales, Paris, 1972.

 LENINE, La maladie infantile du communisme, le « Gauchisme », éditions du Progrès, Moscou, 1969.

 LENINE, Matérialisme et empiriocriticisme, éditions du Progrès, Moscou, 1970.

 LEWIN, M., Le dernier combat de Lénine, éditions de Minuit, Paris, 1978.

 LIEBMAN, M., Le Léninisme sous Lénine T.1 & 2, éditions du Seuil, Paris, 1973.

 LUKACS, G., La pensée de Lénine, Denoël/Gonthier, Paris, 1972.

 LUKACS, G., Histoire et conscience de classe, éditions de Minuit, Paris, 1984.

 NAÏR, S., Lénine face au léninisme, le Sycomore, Paris, 1979.

 PANNEKOEK, A., Lénine philosophe, éditions Spartacus, Paris, 1970.

 PIRANI, S., La révolution bat en retraite, Les Nuits Rouges, Paris, 2020.

 SEIDMAN, M., Ouvriers contre le travail, éditions Senonevero, Marseille, 2010.

 SOUVARINE, B., Staline, Aperçu Historique du Bolchévisme, Champ Libre, Paris, 1977.

 TROTSKY, L., Terrorisme et communisme, éditions Prométhée, Paris, 1980.

 

Artigos :

 A. Bordiga : Réunion de Naples, 1951, Invariance N°3, 1969.

 « Qu’est-ce que l’ultragauche » dans notre revue Matériaux Critiques N°7 assim como no nosso site : https://materiauxcritiques.wixsite.com/monsite/textes  

 « La dictature du prolétariat » na nossa revista Matériaux Critiques N°7 assim como no nosso site : https://materiaux=critiques.wixsite.com/monsite/textes  - https://www.sinistra. net/lib/bas/progco/ren/ renegatsaf.html     

 « Lénine au pays des soviet » na nossa revista Matériaux Critiques N°4 assim como no nosso site : https://materiauxcritiques.wixsite.com/monsite/textes  

 « Parti…pris » na nossa revista Matériaux Critiques N°3 assim como no nosso site : https://materiaux critiques.wixsite.com/monsite/textes    

 La « maladie infantile », condenação dos futuros renegados. Na Brochura de Lenine « A doença infantil do comunismo(o ‹ esquerdismo ›) : éditions Programme Communiste, Paris, 1972.

 

Notas:

1 Estaline, Os princípios do leninismo, Éditions Sociales, p.10, Paris, 1946.

2 Já abordámos esta questão no texto: «O que é a ultra-direita» na nossa revista Matériaux Critiques nº7, assim como no nosso site: https://materiauxcritiques.wixsite.com/monsite/textes

3 O « conselhismo » corresponde, nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, à ossificação da corrente « Comunismo de Conselhos », proveniente da desagregação do K.A.P.D. É uma corrente marxista « anti-leninista », para quem os conselhos de operários são a única forma adequada de organização revolucionária do poder. Os conselhos deveriam também gerir e dirigir a sociedade de forma « democrática ». Para uma análise mais detalhada das origens desta corrente, leia: Denis Authier & Jean Barrot, A esquerda comunista na Alemanha, 1918-1921, Payot, Paris, 1976 

4 Em referência à obra de Moshé Lewin: A última batalha de Lenine, edições de Minuit, Paris, 1978.

5 Nesta divisão de papéis, Trotski assumirá o do «profeta desarmado» (Isaac Deutscher) perante a involução definitiva da revolução na qual participou através das suas oscilações e hesitações 

6 Já abordámos esta questão central no texto: «A ditadura do proletariado» na nossa revista Matériaux Critiques N.º 7, assim como no nosso site: https://materiauxcritiques.wixsite.com/monsite/textes

7 Esta obra de L. Trotsky, Terrorismo e comunismo, edições Prométhée, Paris, 1980, é muito estranhamente, raramente mencionada ou comentada pela vulgata trotskista, provavelmente incomodada pela proximidade das medidas económicas e sociais já típicas de medidas anti-trabalhistas que o estalinismo vitorioso não desaprovaria. 

8 Este livro: A revolução recua, Les Nuits Rouges, Paris, 2020, tem como sub-título: «A nova aristocracia comunista e os operários (Moscovo, 1920-1924)» e prolonga o trabalho de Stephen A. Smith na sua análise das lutas operárias nas fábricas em 1917/18, em Petrogrado Vermelha (Les Nuits Rouges). Da mesma forma, no que diz respeito à revolução em Espanha, recomendamos o excelente livro de Michael Seidman: Operários contra o trabalho, edições Senonevero, Marselha, 2010.

9 Assim, o livro de J. Baynac: La terreur sous Lénine, Le Sagittaire, Paris, 1975 (reeditado em 2024), não é de forma alguma uma revelação libertária que expõe as “torpezas” de Lenine e dos bolcheviques, mas sim uma descrição interessante da implementação gradual de uma repressão inicialmente selectiva daquilo que mais tarde se tornaria o terror de massa do estalinismo.

10 O grupo « Informação e correspondência operária » provém de uma cisão com « Socialismo ou Barbárie », liderada por Henri Simon. Após os acontecimentos de Maio de 68, esse grupo amalgamou grande parte da vaga « conselhista », incluindo os camaradas que iriam produzir a revista Le mouvement communiste (1972/74).https://archivesautonomies.org/spip. php?rubrique46    Diferentes textos, incluindo o citado, encontram-se no livro: Jean Barrot, Comunismo e questão russa, p.136, edições la tête de feuilles, Paris, 1972.

11 Lenine no país dos sovietes, Matériaux critiques N° 4 e no site https://materiauxcritiques.wixsite.com/monsite/textes  

12 Sobre esta questão ver o nosso texto : « Parti…pris » na nossa revista Matériaux Critiques N°3 assim como no nosso site : https://materiauxcritiques.wixsite.com/monsite/textes

 

Fonte:   https://81b6bb22-93ff-445e-9132-db9118c0c19f.filesusr.com/ugd/ca292a_d8a91654ad1c45f1a653d2ca1486c90a.pdf

Este documento foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice