Aleida, a filha de Che Guevara, defende Cuba…
A luta internacional contra o vil ataque lançado pelo imperialismo americano contra Cuba, com o qual a esquerda da Turquia sempre foi solidária.
Doğan Özgüden,
(Artı Gerçek, 11 de Outubro de 2026)
Perante as tentativas do presidente norte-americano Trump de submeter Cuba, tal como outros países da América Latina, ao imperialismo ianque através de diversas ameaças e pressões, estão a ser organizadas manifestações de solidariedade com o povo de Cuba em vários países europeus e na Turquia.
A figura mais marcante destas manifestações é a Dra. Aleida Guevara, de 66 anos, filha de Ernesto Che Guevara, um dos líderes lendários da revolução cubana.
Aleida, a mais velha dos quatro filhos de Ernesto Che Guevara e da sua segunda esposa, Aleida March, é pediatra no Hospital Infantil William Soler, em Havana, e também exerceu medicina em Angola, no Brasil e na Nicarágua.
Tinha apenas quatro anos e meio quando o seu pai deixou Cuba para iniciar uma revolução no Congo, e cerca de sete anos quando teve de enfrentar a dor do seu assassinato na Bolívia. Para além da sua actividade profissional, Aleida milita incansavelmente na cena internacional pela protecção dos direitos humanos e pela anulação da dívida dos países em desenvolvimento.
Há duas semanas, em Bruxelas, por ocasião de uma conferência organizada pelo Grupo da Esquerda no Parlamento Europeu sob o lema «Cuba não é uma ameaça, o bloqueio, sim», e na qual participaram eurodeputados, advogados, investigadores e activistas de toda a Europa, Aleida lançou um apelo à luta contra as tentativas da administração Trump de sufocar económica e politicamente o povo de Cuba.
Também na Turquia foram organizadas várias manifestações pela Associação dos Amigos de Cuba José Martí, pela União das Câmaras de Engenheiros e Arquitectos da Turquia e pelos partidos de esquerda, a fim de manifestar a sua solidariedade com Cuba.
Em Heusden-Zolder, na Bélgica, realizou-se no sábado, 10 de Outubro, uma manifestação de solidariedade organizada pelo Centro Cultural Alevi do Limburgo, com a participação de Jorge Cano, da Embaixada de Cuba, e do músico chileno César Guzman.
Durante esta noite, foram apresentados vários cartazes e documentos, bem como artigos e entrevistas que tínhamos publicado na década de 1960 na revista «Ant» sobre a revolução cubana.
A pedido dos organizadores, transmiti também a mensagem abaixo relativa aos ecos e repercussões da revolução cubana na Turquia e no exílio durante as décadas de 1950, 1960 e 1970.
O movimento de esquerda na Turquia tem sempre sido solidário com Cuba
Comecei a minha carreira de jornalista há 74 anos no Sabah Postası [A Edição do Dia], o único jornal da oposição de Izmir. Na Turquia, na década de 1950, enquanto o governo do Partido Democrático intensificava o terror de Estado, um dos acontecimentos internacionais mais importantes que me interessava profundamente e me dava coragem, enquanto jornalista da oposição e sindicalista, foi a ascensão da luta revolucionária em Cuba.
Durante esse período sombrio, marcado por detenções em
massa de comunistas na Turquia, pelo envio de uma brigada de 4 500 homens para
a Coreia, pela retirada da nacionalidade turca a Nazım Hikmet e pelo
estabelecimento do quartel-general da OTAN para o sudeste em Izmir, o ataque ao
Quartel de Moncada, a 26 de Julho de 1953, pelo grupo de guerrilheiros liderado
por Fidel Castro, apesar de ter terminado sem sucesso e com pesadas perdas,
suscitou grande entusiasmo entre a nossa juventude, que se opunha ao
imperialismo norte-americano. Relatei com grande entusiasmo, no jornal onde
trabalhava em Izmir, a reorganização da guerrilha liderada por Fidel Castro,
Ernesto «Che» Guevara e os seus camaradas, a sua entrada em Havana a 1 de Janeiro
de 1959 e a sua tomada do poder. Dois anos após a revolução cubana, dois
acontecimentos abalaram-nos profundamente: o assassinato de Patrice Lumumba,
líder do movimento de libertação nacional congolês, a 17 de Janeiro de 1961,
durante uma conspiração urdida pela CIA com a cumplicidade dos dirigentes
belgas, e, três meses mais tarde, o lançamento do ataque do imperialismo
norte-americano na Baía dos Porcos, em Cuba.
No entanto, a corajosa resistência do povo cubano e a sua vitória esmagadora face a essa agressão, em 17 de Abril de 1961, representaram um duro golpe para o imperialismo e reforçaram a nossa determinação na luta.
Quando parti para Inglaterra em 1962 para ganhar a vida como trabalhador migrante, depois de ter sido forçado ao desemprego por todos os proprietários de jornais de Izmir devido às minhas actividades sindicais, a leitura de várias publicações sobre a revolução cubana, bem como de muitas outras obras fundamentais indisponíveis na Turquia, alargou ainda mais os meus horizontes.
Nesse mesmo ano, quando o Partido Operário da Turquia começou a organizar-se por todo o país sob a liderança de Mehmet Ali Aybar, regressei imediatamente ao país e assumi as minhas funções no partido, primeiro em Izmir e, a partir de 1963, na sede central em Istambul. Nas reuniões do partido, um dos principais temas abordados em matéria de política externa era a evolução da revolução cubana e os problemas com que esta se deparava.
Na sequência do desembarque na Baía dos Porcos, Cuba viu-se obrigada a celebrar acordos de segurança com a União Soviética face às novas ameaças potenciais do imperialismo norte-americano. Em resposta à implantação, pelos EUA, de mísseis Jupiter na Turquia — destinados a atingir a União Soviética, se necessário —, esta última instalou mísseis nucleares de médio alcance em Cuba, o que provocou uma grave crise internacional entre 14 e 27 de Outubro de 1962. Após a retirada dos mísseis da ilha, os esforços para isolar ainda mais Cuba nos planos político e económico intensificaram-se fortemente. Um dos temas mais frequentemente discutidos nas reuniões do partido era o reforço da solidariedade com Cuba.
A partir de 1964 e durante dois anos, na qualidade de redactor-chefe, transformei o jornal Akşam [A Noite] na voz diária da esquerda, dando ampla cobertura às notícias e aos comentários sobre os movimentos revolucionários de todo o mundo. Naturalmente, tanto o Vietname como Cuba figuravam entre os principais temas abordados.
Após a nossa expulsão, da İnci e minha, do jornal Akşam no Verão de 1966, sob pressão dos meios capitalistas e governamentais, uma das nossas principais missões foi a tradução para turco da obra de Wright Mills intitulada «Ecoute Yankee», sobre a revolução cubana.
Desde o início de 1967, nas páginas dedicadas à política externa da revista socialista «Ant», que tínhamos lançado, abordámos amplamente a resistência vietnamita contra o imperialismo norte-americano, bem como o desenvolvimento da revolução cubana e o seu impacto nos outros países da América Latina.
Após o covarde assassinato de Ernesto Che Guevara na Bolívia, publicámos na edição da Ant de 24 de Outubro de 1967 um artigo detalhado sobre este tema, com o título de capa: «Como foi morto o revolucionário Che?»
Na edição da revista Ant de 2 de Abril de 1968, que publicámos no âmbito da campanha «Não à OTAN» organizada pelas organizações revolucionárias da Turquia, figurava uma série de artigos sobre Ernesto Che Guevara, recém-assassinado na Bolívia, bem como um cartaz com a sua efígie.
O Che era acusado de aventurismo pela China e pela União Soviética, pois recusava-se a submeter-se a quem quer que fosse e criticava a indiferença das superpotências perante os problemas dos povos oprimidos dos três continentes.
Dado que éramos uma revista de esquerda, os adidos de imprensa e os jornalistas soviéticos, que nos visitavam frequentemente, começaram a distanciar-se de nós devido à grande cobertura que dedicávamos ao Che nas nossas publicações.
Nunca me esquecerei: um dia, Popof, um dos adidos de imprensa soviéticos, chegou enquanto preparávamos a revista. Comunista fervoroso, tinha demonstrado grande heroísmo como coronel durante a Segunda Guerra Mundial. Era um excelente jogador de xadrez e, apesar da atitude negativa da União Soviética em relação ao Che, mantínhamos relações extremamente amigáveis. Tinha vindo despedir-se de nós, pois ia ser transferido para Moscovo.
Após uma longa conversa, despedimo-nos com tristeza. Ele tinha acabado de sair da sala e começava a descer as escadas, mas, após um momento de hesitação, virou-se e dirigiu-se para a parede atrás da minha secretária. Nessa parede, estava pendurado o cartaz do Che Guevara que tínhamos oferecido como suplemento à revista Ant. Apontando-o com o dedo, disse: «Independentemente do que se diga oficialmente, sei que o Che era um grande homem e um grande revolucionário, e tenho por ele um profundo respeito e um grande carinho. Era um verdadeiro comunista». Os seus olhos estavam cheios de lágrimas. Depois de me abraçar com força, acrescentou: «Queria que soubesses disso. Adeus, camarada, mais uma vez…»
Em 1968, quando começámos a publicar, para além da revista, os livros da Ant, com Yaşar Kemal e a sua esposa Tilda Kemal, duas das primeiras obras publicadas foram: «Os Fundamentos do Marxismo», de Emile Burns, e «Memórias de Guerra», de Ernesto Che Guevara. Posteriormente, publicámos «Black Power», de Stokley Carmichael, sobre a história da resistência negra nos EUA, e «O Diário da Guerrilha», de Che Guevara, sobre a sua luta na Bolívia.
Há alguns anos, quando a İnci e eu estávamos desempregados, traduzimos o livro de Wright Mills, «Ecoute Yankee», sobre a revolução cubana, publicado em Junho de 1969 pela editora Ant. Este livro incluía também a histórica alegação de Fidel Castro, «A história absolver-me-á», proferida anos antes durante um julgamento perante um tribunal que o deveria condenar.
Outra obra importante que publicámos em Outubro de 1970 foi «O Julgamento de Havana», de Hans Magnus Enzensberger… Pouco depois da publicação deste livro, o Teatro dos Amigos, sob a direcção de Genco Erkal, encenou «O Julgamento de Havana» em Istambul. Um dia, o tradutor do livro, Sezer Duru, ligou-me todo entusiasmado: «Tenho uma notícia fantástica. Gregorio Ortega, um dos juízes do Processo de Havana, está na Turquia. Apresentei-o aos nossos amigos do Teatro dos Amigos. Ele vai até subir ao palco para interpretar o seu próprio papel durante uma representação. Mas também quero que o conheça.»
Durante a sua viagem, Ortega fazia reportagens para o jornal Gramma e outras publicações cubanas. Na sua visita a Ant, conversou longamente connosco sobre as perspectivas e os problemas da luta revolucionária na Turquia, tomando notas. Já tínhamos publicado inúmeros artigos sobre Cuba, mas foi incrivelmente estimulante conhecer, pela primeira vez, uma das figuras que liderou a revolução e julgou os contra-revolucionários.
Por volta da mesma altura, o nosso especialista em política externa, Hüseyin Baş, regressou de uma viagem a Paris com vários livros, bem como um disco de 45 rotações com duas canções em espanhol sobre o Che. Um dos lados do disco continha uma canção em homenagem ao famoso guerrilheiro: «Hasta Siempre Comandante». O nosso querido amigo Can Yücel, colaborador regular da Ant, encarregou-se da tradução dessa canção para turco.
Após o golpe de Estado de 12 de Março de 1971, quando deixámos ilegalmente a Turquia para prosseguir a luta no exílio, devido aos processos judiciais que nos ameaçavam com centenas de anos de prisão e às constantes ameaças do exército, recebemos um grande apoio, especialmente em Paris, por parte de revolucionários de todos os cantos do mundo, incluindo amigos cubanos.
Por exemplo, houve Wifredo Lam, um dos maiores pintores cubanos que viviam em Paris, Alberto Sendic, sindicalista uruguaio e irmão do lendário líder dos Tupamaros, Raoul Sendic, e Ornaldo Val, o correspondente francês da agência de notícias cubana Prensa Latina…
Nunca esqueceremos o apoio de Wifredo Lam quando lutávamos em condições difíceis com passaportes falsos em Paris e, posteriormente, depois de termos regularizado a nossa permanência em 1973, ao acolher-nos na cidade de Albisola, em Itália, e ao ajudar-nos nas nossas relações internacionais.
Com base nas informações que lhe forneci, em nome do Movimento de Resistência Democrática que ajudámos a fundar no exílio, sobre a opressão e as torturas fascistas na Turquia, foi publicado um artigo de Ornaldo Val na edição de Novembro de 1971 da revista cubana Tricontinental, com o título: «Turquia: o dia dos militaristas».
Nos primeiros anos do nosso exílio, além da Turquia, outros três países europeus — Portugal, Espanha e Grécia — estavam sob o jugo de uma ditadura fascista. Mantínhamos uma solidariedade constante e uma unidade de luta com as organizações do exílio político desses países. O Chile juntou-se à lista de países sob ditadura fascista em 1973.
No entanto, dois anos antes do golpe de Estado, em 1971, o líder cubano Fidel Castro, que tinha realizado uma longa visita de amizade e solidariedade ao Chile, aconselhou Allende a nunca confiar no exército e a armar directamente o povo.
Infelizmente, este aviso foi ignorado. Os oficiais chilenos, tal como os oficiais turcos, continuaram a receber formação contra-insurreccional em escolas militares norte-americanas na zona do Canal do Panamá. O número de oficiais chilenos em formação nessas escolas passou de 107 em 1969 para 197 em 1972. Durante o mesmo período, as vendas de armas e equipamento militar norte-americano ao Chile também aumentaram, passando de 1,6 milhões de dólares para 14 milhões de dólares.
Na Turquia, apesar de ser conhecido como responsável pela contra-guerrilha, o general Kenan Evren, futuro líder do golpe de Estado de 12 de Setembro, foi nomeado chefe do Estado-Maior pelo primeiro-ministro Bülent Ecevit a 7 de Março de 1978, tal como o general Pinochet, instigador do golpe de Estado de 1973 no Chile, apesar das suas notórias simpatias pró-americanas e fascistas, foi nomeado comandante-chefe do exército chileno por Allende a 23 de Agosto de 1973, ou seja, apenas vinte dias antes do golpe de Estado.
O golpe de Estado chileno confirmou, mais uma vez, a veracidade histórica do líder cubano Fidel Castro, tal como ele havia afirmado na sua defesa intitulada «A história absolver-me-á», durante o seu julgamento em 1953 perante o tribunal de Baptista.
Hoje, Cuba está ameaçada pelo imperialismo norte-americano e pelos seus lacaios… No seu discurso no Parlamento Europeu, Aleida Guevara sublinhou que, apesar destas ameaças, Cuba nunca abandonará o seu sistema, insistindo no facto de que a solução para a crise não é «abandonar o socialismo», mas sim «aperfeiçoar o socialismo».
Além disso, depois de ter apelado à solidariedade com todos os povos oprimidos do mundo, concluiu o seu discurso cantando a plenos pulmões a canção folclórica «Rosa Blanca», inspirada num poema de José Martí, herói nacional e poeta cubano, a partir da tribuna do Parlamento Europeu.
A İnci e eu prestamos homenagem a Fidel Castro e a
Ernesto Che Guevara, cujas obras tivemos a honra de publicar durante os nossos
anos de luta na Turquia, e felicitamos os nossos amigos exilados na Bélgica
pela noite de solidariedade com Cuba que organizaram em Heusden-Zolder.
Tradução: Mazyar
KHOOJINIAN
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http://www.ateliersdusoleil.be
Fonte: texto
enviado por mail por René Naba
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por
Luis
Júdice









