França: a noção de
«comunidade muçulmana» posta em causa
15 de Maio de 2026 Robert Bibeau
Por Khider Mesloub .
Existem expressões que, pela repetição
constante, acabam por adquirir a aparência de verdades inegáveis. " Comunidade muçulmana " é uma
delas. Nas últimas duas décadas, aproximadamente, essa noção impôs-se ao debate
público francês e, de forma mais ampla, europeu, com uma facilidade
desconcertante. Jornalistas, políticos, colunistas, representantes religiosos e
activistas utilizam-na como se fosse um dado sociológico. Fala-se da
"comunidade muçulmana" como se fosse um corpo social constituído,
dotado de interesses comuns, sensibilidade colectiva e voz unificada. No
entanto, essa entidade não existe. Não se baseia em fundamentos legais, não
corresponde a nenhuma realidade institucional coerente e não encontra respaldo
sólido na análise sociológica. Essa noção deriva de uma construção discursiva
que, pela repetição constante e pela cobertura mediática, acaba por produzir
artificialmente as tensões que pretende descrever. Ao ser invocada com tanta
frequência, a noção naturaliza-se. Ao ser nomeada com tanta frequência, parece tornar-se
real. É, portanto, a própria noção de "comunidade muçulmana" que
precisa ser questionada.
A França não é um país de comunidades.
O primeiro esclarecimento deve ser
jurídico e histórico. A República Francesa foi construída em oposição à lógica
de pertença comunitária herdada do Antigo Regime. Foi fundada no desejo de
transcender afiliações religiosas, regionais ou corporativas, a fim de
estabelecer uma cidadania abstracta, universal e indivisível. A República
Francesa não se fragmenta em grupos comunitários reconhecidos, mas em
categorias sociais, sendo as duas principais o proletariado e a burguesia. Além
disso, a República é laica: não reconhece nem privilegia nenhuma religião.
Garante a liberdade de consciência e a igualdade dos cidadãos, sem distinção de
crença. O Estado protege a liberdade individual de crer ou não crer, mas
recusa-se a reconhecer comunidades religiosas como entidades políticas. A
França reconhece apenas cidadãos. Juridicamente, não existem minorias
religiosas reconhecidas nem grupos religiosos constituídos como entidades
políticas. Introduzir a noção de uma "comunidade muçulmana" no
discurso público equivale, portanto, a importar uma lógica estranha à tradição
republicana.
Cidadãos em primeiro lugar, crentes em
segundo.
Desse princípio decorre uma distinção
fundamental: existem cidadãos franceses de fé muçulmana em França, mas não
existem "muçulmanos franceses" no sentido de um bloco separado do
resto da nação. A nuance não é retórica; é política. Falar de "muçulmanos
franceses" é fazer da religião uma identidade primária, colectiva e
estruturante. Falar de "cidadãos franceses de fé muçulmana" é
reiterar que a cidadania precede a crença. Na ordem republicana, o indivíduo é,
antes de tudo, um cidadão (proletário ou burguês) e, secundariamente, portador
de convicções pessoais. Inverter essa ordem é substituir o universalismo cívico
por uma lógica de pertença; é sair do quadro republicano ou da determinação de
classe e entrar numa lógica comunitária estranha à tradição política francesa.
É aceitar que a identidade religiosa se torne um princípio de organização
política, mesmo que a República tenha sido fundada para neutralizar esse tipo
de segmentação.
Na nossa era moderna, os indivíduos não
devem definir-se pela sua afiliação étnica ou religiosa. Essas dimensões
pertencem à esfera privada e às crenças pessoais. O que fundamenta publicamente
a sua existência é, primordialmente, a sua identidade nacional, a única
categoria legalmente reconhecida pelo Estado, bem como a sua posição social e
profissional, enraizada na realidade concreta das relações económicas e do
trabalho. Por outras palavras, não é a fé nem a origem que estruturam a
cidadania, mas sim o estatuto social e o sentimento de pertença cívica
partilhada.
As únicas categorias sociais que
estruturam a sociedade capitalista continuam a ser o proletariado e a
burguesia. Substituir a filiação religiosa pelo estatuto de classe constitui
uma regressão política e social.
Uma ficção sociológica
Mesmo que passemos do quadro legal para o
dos factos sociais, a expressão "comunidade muçulmana" não resiste ao
escrutínio sociológico. A sociologia mais básica demonstra que não há
homogeneidade entre as pessoas agrupadas sob esse rótulo. A população abrangida
por essa designação é caracterizada por diferenças consideráveis: origens
nacionais diversas, classes sociais variadas, níveis heterogéneos de prática
religiosa e, por vezes, opiniões políticas opostas. Podemos falar seriamente em
unidade entre um executivo parisiense secular de origem argelina, um estudante
não praticante, um comerciante conservador, um operário malinês, um francês
convertido ou um engenheiro de origem iraniana? As suas trajectórias sociais,
origens culturais e referências políticas diferem profundamente. Eles não
compartilham a mesma história familiar, cultura, práticas religiosas, visões
políticas ou, muitas vezes, sequer o mesmo idioma. Agrupar esses indivíduos sob
um único rótulo equivale a obliterar essa diversidade. A "comunidade
muçulmana" não é um grupo objectivamente definível: é uma categoria abstracta
fabricada por empreendedores da identidade em busca de sinecuras e mais
sinecuras. Isso inclui figuras notáveis muçulmanas, activistas e membros de
associações que encontram nessa ficção uma fonte de reconhecimento
institucional.
Nesse sentido, o guia publicado pela
Grande Mesquita de Paris sob o título "Muçulmanos no Ocidente" ilustra
essa contradição. Já no título, a obra adopta uma abordagem comunitária. Ao referir-se
aos "muçulmanos" como um grupo homogéneo que vive no
"Ocidente", a própria escolha das palavras sugere uma alteridade
implícita. Uma abordagem plenamente republicana teria abordado a prática do
Islão dentro da estrutura do laicismo francês ou os direitos e deveres dos
cidadãos de fé muçulmana. O vocabulário nunca é neutro: ele estrutura a
representação da realidade. Ao falar de "muçulmanos no Ocidente",
esses auto-proclamados líderes religiosos sugerem, ao contrário, que esses
cidadãos são antes de tudo muçulmanos, depois ocidentais e, portanto,
parcialmente externos à nação. Essas autoridades afirmam promover a integração.
Na realidade, raciocinam como se existisse um grupo separado. Essa é a essência
da ambiguidade no discurso desses auto-proclamados representantes da fé
muçulmana: eles querem provar a sua compatibilidade com a República, mas
continuam a falar a linguagem do comunitarismo. Alguns chamariam a isso separatismo.
Uma analogia que expõe o absurdo da
noção de comunidade: o futebol.
Para ilustrar a artificialidade dessa
noção, basta uma comparação: a do futebol. Em França, milhões de pessoas
compartilham uma intensa paixão por esse desporto, que se tornou um verdadeiro
culto. Semanalmente, centenas de milhares vão aos estádios, milhares associam-se
a clubes, milhões assistem a partidas, compram produtos oficiais, discutem
futebol o dia todo e torcem colectivamente pelas suas equipas. Todos os
supostos ingredientes de uma "comunidade" estão presentes: rituais
(cânticos, jogos, encontros), símbolos (camisas, cores), modernos locais de
culto (estádios) e emoções partilhadas. No entanto, ninguém fala numa
"comunidade do futebol". Porquê? Porque todos entendem intuitivamente
que uma paixão compartilhada, mesmo que massiva e ritualizada, não cria uma
entidade cívica distinta. O apoiante do PSG ou do OM continua a ser, antes de
tudo, um cidadão francês, não membro de uma comunidade à parte.
O mesmo se aplica à religião. O facto de
indivíduos partilharem uma crença, frequentarem os mesmos locais de culto e
praticarem ritos semelhantes não cria automaticamente um corpo social
unificado. A religião, assim como o futebol, dissolve o indivíduo num colectivo
homogéneo. Portanto, falar de uma "comunidade muçulmana" é tão
absurdo quanto falar de uma "comunidade de amantes do jazz" ou de uma
"comunidade de entusiastas da gastronomia". Estamos a transformar uma
afinidade espiritual numa nacionalidade quase paralela.
Quem tem interesse em fabricar esta ilusão comunitária?
Toda a ficção colectiva tem os seus
arquitectos. No caso da chamada "comunidade muçulmana", eles são
facilmente identificáveis. Certas organizações religiosas têm interesse directo
na existência de tal grupo: para exercer influência sobre o Estado, obter
financiamento ou atrair a atenção da media, precisam poder alegar representar
um colectivo. O mecanismo é simples: postula-se uma comunidade, proclama-se seu
porta-voz e, em seguida, exige-se ser reconhecido como um interlocutor
legítimo. Sem uma comunidade, essas estruturas são meras associações entre
outras; com uma comunidade idealizada, elas adquirem poder simbólico,
institucional e, às vezes, material através do financiamento, subsídios e
benefícios associados ao seu estatuto de interlocutores privilegiados.
A media também contribui para essa
construção. O jornalismo contemporâneo privilegia categorias simples e
narrativas facilmente assimiláveis. Falar da "comunidade muçulmana"
permite que uma realidade complexa seja transformada numa única entidade colectiva.
Por ser repetida — "O que é que pensa a comunidade?", "Como é
que ela reage?" — a expressão acaba por criar a ilusão daquilo que
descreve. Por trás dessa simplificação reside a preguiça intelectual ou, melhor
dizendo, o desejo de diluir a questão social: falar de comunidade evita
analisar as diferenças de classe social, trajectórias profissionais ou
divergências ideológicas. A realidade social concreta dissolve-se numa
identidade abstracta.
Atribuição de identidade
Esse vocabulário produz um efeito
poderoso: a imposição de identidade. Milhões de cidadãos veem-se reduzidos a
uma suposta filiação religiosa. Ao atribuir constantemente indivíduos a uma
chamada "comunidade muçulmana", não os confinamos, em última análise,
a identidades impostas? Não estamos mais a falar com indivíduos proletários ou
burgueses, mas com representantes imaginários. A ficção torna-se performativa:
fabrica a realidade que apenas pretende nomear. A politização contínua da
religião reforça essa dinâmica. Questões administrativas — escolas, desportos,
refeitórios — são apresentadas como conflitos entre a República e uma
"comunidade muçulmana", transformando incidentes menores em conflitos
civilizacionais. Essas tensões fabricadas alimentam a narrativa de vitimização
de certos auto-proclamados representantes muçulmanos, uma narrativa que, por
sua vez, dá credibilidade à ideia da existência de uma comunidade muçulmana e,
além disso, de uma comunidade discriminada.
A isso soma-se uma persistente confusão
entre religião e as pessoas que a seguem. Criticar práticas ou debater
doutrinas enquadra-se no âmbito do debate democrático; não diz respeito a um
grupo homogéneo de pessoas. Contudo, a noção de uma "comunidade muçulmana"
constantemente confunde esses dois níveis, alimentando tensões. Todos esses
mecanismos reforçam-se mutuamente: organizações religiosas, autoridades
públicas e a media contribuem para manter a ideia de um bloco homogéneo. Quanto
mais falamos de uma "comunidade muçulmana", mais ela parece existir.
De qualquer forma, assim que aceitamos a ideia de comunidade, implicitamente
aceitamos a ideia de um confronto entre grupos. Passamos de uma lógica
republicana — cidadãos iguais perante a lei — para uma lógica baseada na
identidade, ou seja, blocos identitários compelidos a negociar, competir ou
entrar em conflito uns com os outros.
As primeiras vítimas: proletários
franceses de fé muçulmana
As primeiras vítimas são os próprios
cidadãos. A maioria dos muçulmanos franceses não se vê como membro de um único
bloco, mas como indivíduos com múltiplas identidades. Confiná-los a uma
comunidade equivale a negar-lhes essa pluralidade e reduzi-los a uma única
dimensão de sua existência: sua suposta filiação religiosa.
É preciso, portanto, afirmar com clareza:
a "comunidade muçulmana" em França não existe como uma entidade
política ou sociológica unificada. Existem cidadãos franceses, diversos e com
múltiplas crenças, alguns dos quais são muçulmanos. A França não é um mosaico
de comunidades religiosas, mas uma nação de cidadãos pertencentes às duas
categorias sociais que caracterizam a sociedade capitalista: o proletariado e a
burguesia. Rejeitar o vocabulário de comunidade significa rejeitar uma lógica
que divide para reafirmar aquela que une: para a classe operária, a de
pertencer ao proletariado.
O comunalismo alimenta a
extrema-direita.
É preciso agora levar este raciocínio até
ao fim, sem rodeios nem complacência. A ficção da «comunidade muçulmana» não é
apenas um erro intelectual ou uma contradição jurídica; não é apenas estranha
ao espírito da República. É também, e talvez sobretudo, politicamente perigosa.
Pois, ao falar incessantemente de «comunidade muçulmana», criamos
involuntariamente o quadro mental de que a extrema-direita necessita para
prosperar.
Toda a retórica islamofóbica assenta, de facto, numa ideia simples: que existiria em França um grupo homogéneo, distinto do resto da nação, portador de valores próprios e potencialmente incompatíveis com a República. O discurso identitário alimenta-se desta oposição entre um «eles» e um «nós». Ora, o que fazem aqueles que invocam incessantemente «a comunidade muçulmana» nos debates? Validam precisamente esta narrativa. Afirmam implicitamente que existiria um grupo chamado «os muçulmanos», capaz de falar a uma só voz e portador de interesses específicos.
A partir desse momento, a extrema-direita
só tem de tirar a conclusão que esperava: se tal grupo religioso existe, então
constitui um problema. O paradoxo é impressionante: os empreendedores
comunitários e os ideólogos identitários parecem opor-se frontalmente, mas, na
realidade, partilham o mesmo pressuposto. Uns dizem: «Respeitemos a comunidade
muçulmana. » Os outros retorquem: «Desconfiem da comunidade muçulmana.» Todos,
no entanto, concordam com a ideia inicial: a existência de um bloco homogéneo.
Este mecanismo
torna-se, assim, politicamente explosivo. Quando um líder religioso se auto-proclama
«representante da comunidade muçulmana», quando um jornalista questiona «as
expectativas da comunidade» ou quando um responsável político afirma «dialogar
com a comunidade», reforça-se uma imagem de divisão da qual a extrema-direita
se alimenta posteriormente. Aqueles que acreditam defender os franceses de
confissão muçulmana ao falar em seu nome contribuem, sem querer, para os
designar como um corpo separado.
É, portanto, necessário dizê-lo claramente: a noção de «comunidade muçulmana» é um dos melhores aliados do discurso islamófobo. A luta contra o racismo e as discriminações não passa pelo reconhecimento das comunidades, mas pela sua superação. Consiste em recordar que os franceses de confissão muçulmana não formam um bloco, mas uma multidão de indivíduos livres, diversos, que não se reduzem a uma identidade única. Em última análise, a ficção comunitária fornece à extrema-direita exactamente aquilo de que ela precisa: a imagem de um grupo homogéneo, distinto e potencialmente hostil.
Sair da armadilha comunitária
Sair deste beco sem saída implica um esforço intelectual simples mas
exigente: recusar as categorias que transformam convicções individuais em
entidades políticas colectivas. A religião pertence à esfera privada; a lei
pertence à esfera pública.
Recusar esta categorização comunitária não é negar a diversidade real da sociedade francesa; é recusar que ela seja transformada em separação política. Defender os cidadãos de confissão muçulmana não é falar em seu nome como se formassem um povo à parte, mas afirmar que eles pertencem plenamente ao mesmo corpo cívico que todos os outros.
Khider MESLOUB
Fonte: France : la notion de «communauté musulmane» remise en question – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

