terça-feira, 27 de outubro de 2026

A guerra económica, financeira e monetária, como matriz de todas as formas de guerra

 


A guerra económica, financeira e monetária, como matriz de todas as formas de guerra

27 de Outubro de 2026 Robert Bibeau

 


 

Fonte: La guerre économique, financière et monétaire, comme matrice de toutes les formes de guerre – les 7 du quebec

Título introdutório ao vídeo traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




OS BASTIDORES DE UMA REVOLTA REPRIMIDA PELO PODER GOVERNAMENTAL FRANCÊS

 


OS BASTIDORES DE UMA REVOLTA REPRIMIDA PELO PODER GOVERNAMENTAL FRANCÊS

27 de Outubro de 2026 Robert Bibeau

 


 

Fonte: LES COULISSES D’UNE RÉVOLTE RÉPRIMÉE PAR LE POUVOIR GOUVERNEMENTAL FRANÇAIS – les 7 du quebec

Título introdutório ao vídeo traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Líbano, Irão, Israel : O clã Sehnaoui

Líbano, Irão, Israel : O clã Sehnaoui

27 de Outubro de 2026 Robert Bibeau



Por René Naba.  Em Liban, Iran, Israël : Le clan Sehnaoui – Madaniya

Além de Jeremy Chaabane, Antoine Sehnaoui assume um papel frenético na normalização libanesa-israelita.


1-O clã Sihanoui

A dinastia Sihanoui é uma família greco-melquita católica, originária da aldeia de Sihnâya, nos subúrbios próximos de Damasco, de onde deriva o sobrenome.

Afortunados, os Sihnâwi deram à Síria um deputado (Georges, eleito quatro vezes a partir de 1928), um deputado e ministro (Hunayn, 1903-1975, a partir de 1941) e vários financiadores de ponta.

O antepassado Mîkhâïl (18??-1930) deixou uma família numerosa para a posteridade, incluindo sete filhos: Mitri (cuja filha Layla casou com o deputado Kamîl Ziyâda), Hunayn, Antoun, Nicolas I, Tawfîq, Albert e Khalîl (pai de Joseph).

Citemos também Wadih, mecenas e membro-fundador da Cruz Vermelha Síria (1942).

Em 1929, Mitri e Antoun mudam-se para Beirute para se dedicarem às actividades comerciais e bancárias e, acessoriamente, à política. 

O irmão mais novo, Hunayn, fica em Damasco e destaca-se entre os grandes actores da política e das finanças, antes de se juntar ao clã em Beirute. 

Três membros da família alcançam responsabilidades políticas no Líbano — deputados e ministros — depois de serem naturalizados: Antoun, Mikhaïl (1899-1989), Simon Ilyâs (1919-1998) e Maurice (1943-20..), filho de Nicolas I. 

Com a sua naturalização libanesa, os Sihnâwi tornam-se Sehnaoui.

A sucessão é assegurada pela chegada à arena política da terceira geração na pessoa do financeiro Nicolas II (1967-20..), filho de Maurice, candidato falhado às eleições legislativas de 2009, mas um fracasso compensado pelo cargo no ministério das Telecomunicações, em 2011.

Finalmente, Antoine, filho de Nabîl, nascido em 1972. Banqueiro internacional e produtor de filmes, uma personagem polémica que dá que falar na crónica político-judicial.

Não se deve esquecer de um primo de Antoine, chamado Khalîl (nascido em 1975), um especialista internacional em informática e pirataria informática a nível mundial. Uma actividade bastante actual.

Os Sehnaoui estabeleceram alianças matrimoniais com as grandes famílias patrícias de Damasco e Beirute, provando, se fosse necessário, que os dois países, baptizados pelo general francês manco Henri Gouraud, são verdadeiros irmãos gémeos.

2- Nabil, o pai de Antoine, o precursor.

A relação da família de Antoine Sehnaoui com Israel é antiga. Remonta a 1983, sob a presidência do falangista Amine Gemayel, o partido que iniciou a relação com o Estado hebraico na época da guerra civil inter-libanesa.

No seguimento da invasão israelita do Líbano, o nome de Nabil Sehnaoui, o pai de Antoine, é mencionado numa correspondência do ministério israelita dos Negócios Estrangeiros. 40 anos depois, o nome do filho surge numa rede que persegue os mesmos objetivos.

A 8 de Julho de 1983, o director-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel encontra-se, na verdade, na casa de Nabil, com cerca de quarenta personalidades libanesas. Maurice e Nabil Sehnaoui estavam entre os principais convidados, ao lado de banqueiros e juristas. 

O encontro aconteceu mesmo em Beirute, menos de um ano após o massacre dos campos palestinianos de Sabra e Chatila. Durante este encontro, os libaneses expressaram o desejo de que estes contactos continuassem e se reforçassem. 

A 18 de julho de 1983, uma mensagem de David Kimhi, director-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel, menciona que, durante esta reunião, os israelitas fizeram um pedido para instalar uma sede permanente em Beirute para uma missão israelita.

Um pedido algo surrealista, que demonstra a determinação deste clã em normalizar a todo custo as suas relações com Israel, apesar de o Estado hebraico ocupar grandes áreas do sul do Líbano.

No final de 1983, após tediosas pesquisas, Israel opta pelo estabelecimento de uma missão permanente em Dbayeh, após peripécias entre Baabda e Yarzé, os bairros residenciais do sector cristão.

3- Daniel Glaser, o antigo alto funcionário do Tesouro americano, Conselheiro nº 1 do presidente Antoine Sehnaoui

Trinta anos depois das conversas em Beirute, os contactos libano-israelitas deslocaram-se para Washington, sede da AIPAC, a principal organização de lobbying pró-israelita.

Por acaso ou coincidência? Daniel Glaser, antigo alto funcionário do Tesouro dos EUA, é cooptado como membro do Conselho de Administração da “Financial Integrity Institution”, um organismo libanês responsável por verificar a conformidade das operações bancárias. Parece um sonho: um organismo encarregado de verificar a integridade num país governado por uma mafiocracia político-bancária.

Sobre este tema, ver estes links:

·                     https://www.madaniya.info/2023/10/02/riad-salame-le-mozart-libanais-de-la-finance-un-bernard-madoff-bas-de-gamme-1-2/

·                     https://www.madaniya.info/2022/04/22/liban-les-revelations-nauseabondes-sur-la-classe-politique-libanaise-1-2/

A escolha não é inocente. Daniel Glaser passou 20 anos na administração do Tesouro, o organismo responsável por sancionar instituições e pessoas hostis aos interesses americanos no mundo.

Em 2017, Antoine Sehnaoui, na sua qualidade de CEO do “Société Générale – Banque Liban (SGBL)”, nomeia Daniel Glaser como conselheiro nº 1 do CEO da SGBL, ou seja, seu próprio conselheiro.

Coincidência ou acaso também aqui? A nomeação de Daniel Glaser para o cargo de Conselheiro nº 1 do CEO da SGBL acontece enquanto o Hezbollah libanês, o bicho-papão de Antoine Sehnaoui, dos Estados Unidos e de Israel, enfrenta sanções financeiras por parte dos Estados Unidos, ao abrigo do “Hezbollah Accountability Act” (HATA).

Ou seja, uma forma discreta de instrumentalizar uma função para atingir objectivos inconfessáveis.

No final deste panorama, é forçoso mencionar, para ser completo, que um dos membros da família Sehnaoui, Nada Sehnaoui, uma artista plástica e digitalista frenética, teve um filho chamado Abdallah com o atual primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, o homem de confiança por excelência dos sauditas e dos americanos. Uma cereja no topo do bolo, enfim.

Para o leitor de língua árabe, cf este link.

4- L’Orient Le Jour e as revelações sobre Antoine Sehnaoui: um arrependimento tardio.

Antoine Sehnaoui tem protagonizado manchetes nos últimos anos no Líbano com a sua própria milícia no sector cristão de Achrafieh, no Este de Beirute, suposto reduto de Samir Geagea, o líder das “Forças Libanesas”, a formação cristã radical, com quem está em rivalidade. Este banqueiro e homem de negócios com interesses por toda a parte envolveu-se activamente contra o Hezbollah e os seus meios de comunicação aliados. As revelações do L’Orient Le Jour sobre Antoine Sehnaoui.

A foto do jantar do banqueiro na companhia do primeiro-ministro israelita Benyamin Netanyahu, em Washington, no final de Julho de 2026 – enquanto o Estado hebraico procedia à aniquilação do sul do Líbano a golpes de fósforo branco –, provocou tal alvoroço no Líbano que o “L’Orient le Jour” teve de, contra a sua vontade, distanciar-se desta pessoa polémica que, no entanto, foi durante muito tempo um dos principais financiadores do diário francófono, através dos seus numerosos anúncios publicitários.

Ao publicar este dossier, o L’Orient-Le Jour, que se gabava de ter titulado “o Hezbollah suicida o Líbano a mando do Irão”, com a retoma das hostilidades entre Israel e a formação xiita, em Fevereiro de 2026, pareceu assim proceder a uma operação de branqueamento a posteriori das torpezas passadas de um diário que se viu durante muito tempo como o órgão não oficial do establishment político-clânico gangrenado do Líbano, sob o pretexto de se considerar como o jornal de referência intelectual do Líbano e do Mundo francófono do Médio Oriente.

Uma publicação tardia - demasiado tardia - para um arrependimento tardio da sua longa conivência com o banqueiro libanês oportunista. Um acerto de contas, em suma.

Por transposição para o plano francês, num contexto de pré-campanha presidencial francesa, as revelações de L’Orient le Jour puderam ser interpretadas como um torpedo de Emmanuel Macron, tutor de Rima Abdel Malak, a nova directora de L’Orient le Jour, contra o campo de Hollande, de forma a retirar qualquer vontade ao socialista-motorista de suceder a “Júpiter da França” na magistratura francesa.

Para memória futura, Antoine Sehnaoui financia, através da empresa Ezekiel, os filmes de Julie Gayet, a companheira do presidente “Flamby” da França, François Hollande – o homem que se destacou ao entoar “uma canção de amor por Israel” – não na companhia de um pacifista israelita -, mas na cozinha do primeiro-ministro israelita ultra-direitista Benjamin Netanyahu e, como tal, o sepultador do socialismo francês.

Sobre François Hollande, cf este link:

·         https://www.madaniya.info/2016/12/01/francois-hollande-capitulation-rase-campagne-foudre-de-guerre-de-syrie/

“O processo mais sensível mencionado no dossier do Orient Le Jour diz respeito a Nada Hamadé Mouawad, embaixadora do Líbano em Washington e actualmente em destaque devido às negociações israelo-libanesas mediadas pelos Estados Unidos”, observa François Bacha, director do site libanês francófono Libnanews.

 Segundo a investigação do jornal libanês, Antoine Sehnaoui teria “trabalhado muito nos bastidores” para apoiar a sua candidatura frente a Nijad Fares e Paul Salem. O texto descreve também um empresário muito à vontade na embaixada, recebendo por vezes convidados ao lado da embaixadora durante alguns jantares. Nada Hamadé Mouawad é ainda apresentada como próxima do presidente Joseph Aoun e na linha da frente nas negociações entre o Líbano e Israel”, continua Bacha.

Isso não significa que ela actue por ordem de Antoun Sehnaoui. Mas já é suficiente para criar um problema político importante no actual contexto das discussões que vão continuar em Roma… Uma embaixadora envolvida em discussões tão sensíveis deve ser vista como a representante de uma linha estrictamente institucional. A sua credibilidade depende tanto do seu mandato oficial como da imagem de independência que transmite em Beirute, conclui ele.

Antoine Sehnaoui participou do lançamento de uma iniciativa que juntou o Washington National Opera e a Ópera israelita de Telavive. Ele apareceu com um laço amarelo em apoio aos reféns israelitas. O seu nome foi inscrito juntamente com o de Morgan Ortagus no mural de doadores do Museu Memorial do Holocausto em Washington. Alguns em Washington chegaram mesmo a chamá-lo de o “Lebanese AIPAC guy”.

A investigação do L’Orient-Le Jour também relata que Antoine Sehnaoui terá declarado que, quando regressasse a Beirute, seria «pelo aeroporto Ben Gurion». 

Aliás, teme-se que o zelo pró-sionista de Antoine Sehnaoui tente esconder o seu provável fracasso financeiro. 

Para memória futura, o banqueiro é também próximo do filho do antigo presidente assassinado René Moawad, Michel Moawad, que fala ao ouvido dos grandes da NED (National Endowment for Democracy), uma ONG americana ultra conservadora. Este funcionamento em rede poderia explicar, sem justificar, este enredo escaldante.

Sobre as ONG no Liban  cf este link:

https://www.madaniya.info/2024/01/22/liban-etats-unis-softwar-4-5-les-principaux-acteurs-de-la-soft-war/

Ela ignora a nova directora do quotidiano, Rima Abdel Malak, antiga ministra francesa da Cultura –deslocada para Beirute pelo presidente Emmanuel Macron– de que o Líbano é o único país árabe a ter obtido a retirada israelita do sul do Líbano, no ano 2000, sem negociação nem tratado de paz, graças ao Hezbollah, e que, nesse sentido, a formação paramilitar xiita é vista por largas franjas da opinião do terceiro mundo como a sentinela da independência libanesa.

Repetindo: ignora ela, além disso, esta novata, que o Hezbollah combateu Israel mais tempo e de forma mais duradoura do que os quatro países árabes do campo de batalha, causando mais perdas materiais e humanas ao Estado hebraico do que a totalidade desses países juntos (Egipto, Síria, Jordânia, Líbano, além da OLP) durante os seus numerosos confrontos com o Estado hebraico (1982-2000, 2006, 2024-25 e 2026).

Que Hassan Nasrallah, segundo o próprio reconhecimento de um académico israelita, é o primeiro líder árabe desde Nasser a ter capacidade de influência sobre a opinião israelita. 

Que o Hezbollah é a principal formação paramilitar da comunidade libanesa mais importante em termos numéricos, os xiitas (40 por cento da população), e que tanto ao nível da democracia digital como da democracia patriótica, o seu lugar no tabuleiro político libanês é de destaque, apesar das vociferações dessa conjura de bicho-do-mato. 

Que, finalmente, do magma libanês surgiu o Hezbollah, aproveitando a ascensão da comunidade xiita no jogo político libanês, na sequência da invasão israelita do Líbano em 1982, sobre os escombros da OLP, cujo santuário libanês tinha sido erradicado nessa ocasião com o incentivo dos Estados Unidos e da Arábia Saudita, os novos tutores do Líbano.

Que o Hezbollah, –pesadelo do Ocidente, bête noire para os sauditas e israelitas–, tem sido constantemente alvo de uma manobra de estrangulamento destinada a neutralizar a única estrutura árabe capaz de enfrentar simultaneamente os Estados Unidos, Israel e a dinastia wahhabita. 

Ah, os estragos do narcisismo... E da ignorância, pois é verdade que a ignorância não se aprende (Pascal) e que o ignorante ignora a sua própria ignorância. 

5- O julgamento de M. Abdallah Naaman, antigo adido cultural do Líbano em Paris, sobre o Líbano e o Médio Oriente 

À luz do que foi exposto, é forçoso constatar que não haverá "salvação para o país do Cedro, enquanto os libaneses estiverem mergulhados nas suas cinco fossas sépticas incorrigíveis: O confessionalismo, o feudalismo, a corrupção, a cobiça, a colaboração com o estrangeiro –e por fim, última mas não menos grave falha– o racismo interno.

“Verdadeiros cancros sobre os quais prolifera o ADN dos libaneses ad vitam aeternam”, considerou o Sr. Abdallah Naaman, antigo adido cultural na embaixada do Líbano em Paris.

“O L’Orient Le Jour (OLJ) tornou-se, há muito tempo, um boletim paroquial de uma aldeia de província que só sobrevive graças aos subsídios do Quai d’Orsay, que tenta, em vão, manter uma presença francesa num país que foi levado aos baptismos por um general manco mal inspirado” (ndlr: o general Henri Gouraud), prosseguiu o diplomata libanês que esteve muito tempo destacado na capital francesa e bem informado sobre os assuntos franco-libaneses.

“Sabemos bem que a França se tornou, agora, completamente eliminada da cena levantina, apesar das palavras dos últimos falantes de francês de Achrafieh, o sector cristão de Beirute, que continuam a resmungar que Paris ainda é a mãe nutridora do Líbano”, concluiu o Sr. Naaman numa declaração ao site madaniya.info.

Sobre Hassan Nasrallah

·         https://www.renenaba.com/verbatim-hassan-nasrallah/

Para ir mais longe sobre Antoine Sehnaoui, cf este link:

·         https://www.ojim.fr/antoun-sehnaoui-magnat-iconoclaste-de-la-presse-libanaise/

Para o leitor árabe, a narrativa de Al Akhbar neste link   

 

Fonte: Liban, Iran, Israël : Le clan Sehnaoui – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Comunicado sobre a situação em França – 26 de Outubro de 2026

 


Comunicado sobre a situação em França – 26 de Outubro de 2026

 

« Cuidado com a raiva das pessoas racionais. Ao longo da manifestação parisiense, aliás, ouvem-se poucas palavras de ordem sobre o poder de compra ou o forte aumento do preço dos combustíveis, mas uma fúria poderosa expressa-se contra o Estado, contra o governo, e sobretudo contra as forças de ordem, com o universal “ACAB” (“All cops are bastards”, ou seja, “todos os polícias são uns bastardos”), mil vezes cantado, seguido de “E toda a gente odeia a polícia”. » (Le Monde, 25 de Outubro de 2026[1], artigo sobre a manifestação parisiense de 24 de Outubro de 2026)

O repórter do jornal Le Monde faz um relato bastante fiel tanto do ponto de vista do desenrolar da manifestação parisiense de 24 de Outubro quanto do seu significado político. Oficialmente, participaram 250 000 manifestantes, apesar das proibições e das mudanças de última hora no percurso feitas pela polícia. De facto, esta política de proibição total ou parcial das manifestações, sob a ameaça de uma repressão cada vez mais violenta, não conseguiu impedir que centenas de milhar de pessoas – quase tantas quanto em 17 de Outubro – se manifestassem por todo o país, incluindo locais como Lyon, onde qualquer manifestação era proibida. É ainda mais notável considerando que, após as violentas manifestações do dia 17 e ao longo da semana que levou ao dia 24, a saturação diária, sistemática e renovada em todos os media, jornais e canais de notícias em directo sobre as violências, os saques e os vândalos não cessou de crescer ao longo dos dias e isso até ao sábado da manifestação.

No entanto, a semana de bombardeamento mediático sobre as violências foi muito mais eficaz em termos ideológicos e políticos. O resultado foi que os lemas das manifestações de sábado já não eram um «todos juntos» contra o custo de vida, condições de trabalho e de estudo escandalosas e miseráveis, e a favor do aumento dos salários ou outros; mas sim em defesa do direito de manifestar, da democracia, no terreno do anti-racismo e contra a repressão policial. Este fenómeno foi acentuado pela organização de uma manifestação em Orleães contra a realização do congresso do Rassemblement national da extrema-direita nessa mesma cidade. Depois, pelo aproveitamento mediático do ataque assassino de um racista[2] contra imigrantes de «cor», que matou uma pessoa e feriu várias num subúrbio parisiense, em Trappes. Qual foi o lema mais repetido nas manifestações de 24? Siamo tutti antifascisti. O anti-fascismo tomou o lugar da luta de classes proletária. A deslocação da confrontação do terreno da defesa das condições de vida e de trabalho de 17 de Outubro para o da ameaça racista, xenófoba e repressiva tornou-se então dominante, com na rectaguarda a perspectiva da vitória de Marine Le Pen nas eleições presidenciais de 2027. Enquanto todos os meios de comunicação burgueses se admiravam na semana anterior ao dia 17 pelo facto de uma mobilização de massas acontecer em plena campanha eleitoral presidencial, a semana de 17 a 24 também conseguiu reverter a mobilização em curso e transformá-la num momento da campanha presidencial.

A grande combatividade e raiva que se manifestaram novamente nas manifestações massivas e determinadas deste sábado, dia 24, deslizaram então do terreno de classe para o terreno burguês da democracia. A linha de polarização já não era contra o Estado, mas em defesa do Estado contra a extrema-direita e a repressão policial. Como diz o jornalista do Monde, «ouvem-se poucas palavras de ordem sobre o poder de compra ou o forte aumento do preço dos combustíveis, mas uma fúria poderosa manifesta-se contra o Estado.»

Muitos, incluindo dentro do campo revolucionário, verão na raiva anti-polícia e contra o Estado um sinal positivo tanto do ponto de vista da mobilização actual como do ponto de vista histórico. Verão nisso um enfraquecimento considerável da mistificação democrática, ou mesmo as primeiras tentativas de disputar à burguesia o seu poder político. Tal como lhes será tentador ver na vontade dos coletes amarelos de se dirigir ao Eliseu e aos locais de poder durante a manifestação do dia 17, ou mesmo nos incêndios nas câmaras municipais, uma vontade e uma consciência crescentes de colocar a questão do poder político. Nós, pelo contrário, pensamos que esta aparente radicalidade marca um retrocesso político da mobilização e o sucesso da manobra ideológica e política conduzida por todo o aparelho de Estado desde 17 de Outubro. Cada um, governo, partidos de direita e extrema-direita, partidos de esquerda, extrema-esquerda, sindicatos e sindicalismo de base, joga o seu papel de prender os trabalhadores e os futuros trabalhadores hoje estudantes ou liceais que estão nas ruas numa falsa alternativa: iliberalismo-democracia, fascismo-anti-fascismo, racismo-anti-racismo, direito de manifestação-proibição e repressão, etc. « A fúria contra o Estado » que o nosso jornalista destaca não é contra o Estado, mas em defesa do Estado democrático burguês, da República, quaisquer que sejam as consciências individuais das “pessoas sensatas” e por muito revoltadas que estejam, ou até por mais radical que seja a sua postura.

Neste sentido, parece-nos que a compreensão da situação e a orientação que defendíamos com outros[3] depois do dia 17 foram globalmente confirmadas: «Para nós, este dia não podia senão marcar uma viragem: ou abria caminho para uma entrada mais ou menos rápida na luta de setores da classe operária, aproveitando a porta que os estudantes tinham aberto, e assim abria uma nova perspetiva para esta mobilização; ou os trabalhadores não iam além de simpatias e apoios individuais – sem dúvida numerosos, mas não coletivos – e esperavam pelo dia de ação dos sindicatos previsto para 5 de novembro, cujo objetivo, toda a gente sabe, não é mais do que controlar a mobilização, deixar escapar o vapor, voltar com todos ao âmbito sindical e assim apagar o incêndio. (...)

No momento em que escrevemos, após o dia 17 e o bombardeamento mediático e governamental sobre as violências e os saqueadores, por um lado, e a substituição de um dia de ação sindical no dia 5 de novembro em vez de uma entrada imediata dos trabalhadores na luta pelas suas reivindicações nas quais todos se reconhecem, parece pouco provável – esperemos que estejamos errados – que setores significativos do proletariado entrem numa luta imediata e massiva. Para isso, seria necessário não só que saíssem da atitude de espera e hesitação mostrada até agora, mas sobretudo que assumissem conscientemente a confrontação política com os sindicatos que se opõem, e se vão opor, a qualquer greve imediata sob o pretexto de preparar o dia 5 de novembro. Para já, resulta que as palavras de ordem e orientações do nosso folheto continuam sempre válidas no momento em que escrevemos.» (comunicado de 18 de outubro)

O dia 17 de facto marcou uma viragem, infelizmente não no sentido do desenvolvimento da luta no terreno proletário. Não houve qualquer entrada em luta por parte de sectores mais ou menos amplos da classe operária, o que teria permitido dar uma perspetiva de classe clara à mobilização[4]. Na sua ausência, o caminho ficou livre para a contra-ofensiva burguesa. Como já referimos, a campanha política dos media e dos partidos sobre as violências e o marco da jornada sindical de 5 de novembro são as duas mandíbulas da armadilha que se estão a fechar, impedindo qualquer alternativa de classe significativa. Não surgiu nenhuma luta operária para assumir o seu lugar, nem sequer entre os professores (certamente de férias) que, no entanto, têm as mesmas reivindicações que os estudantes do secundário, e a direcção da mobilização no terreno económico, ou seja, contra os ataques aos salários e às condições de trabalho. O resultado é que todo o aparelho político estatal da burguesia pôde ocupar todo o terreno durante toda a semana e assim desviar a atenção das reivindicações económicas para o terreno da defesa da ordem republicana de um lado e, do outro, da democracia e do direito de manifestar. A raiva de classe, que tendia a afirmar-se até 17 de outubro – mesmo que ainda muito confusa – desviou-se para o terreno burguês e tornou-se raiva cidadã.

Não há quase dúvidas de que a participação maciça e a raiva existente obrigam as forças burguesas a intercalar outros dias, pelo menos um, de manifestação ou outro para preencher o vazio que separa 24 de Outubro de 5 de Novembro – mais de dez dias. Não há quase dúvidas também, segundo nós, de que a já anunciada para o próximo sábado virá confirmar a mudança de uma linha de confrontação que se polariza em torno das reivindicações económicas, e portanto de confrontação entre classes sociais, para uma que polariza as forças “autoritárias” anti-democráticas contra as forças democráticas. Uma dúvida? “Para o acto III, no sábado, 31 de Outubro, apelamos a concentrações e a sit-in em frente à Assembleia Nacional e em todas as câmaras municipais de França, para a defesa das liberdades públicas. Nesse dia, manifestaremos pela liberdade de manifestar, e por todas as nossas liberdades,” afirma o principal site dos coletes amarelos cuja influência é significativa. (https://www.17octobregiletjaune.net/)

Nessas condições, é claro que as orientações de luta imediata e de agitação que ainda podíamos avançar na semana passada já não são adequadas à nova situação. A perspectiva e as palavras de ordem de extensão e generalização da luta a toda a classe operária, a possibilidade de entrada em luta de sectores operários, acabam por se encontrar de facto assimiladas ou associadas ao dia de acção sindical de 5 de Novembro. A atitude de esperar para ver, de hesitação, que apontávamos na semana passada e contra a qual alertávamos os operários, deixou toda a liberdade à burguesia para ocupar o terreno mediático e enfraquecer assim qualquer potencialidade, não só de emergência de luta operária significativa até ao dia 5, mas também de transformar esta luta num momento de generalização, de uma forma ou de outra, da mobilização operária sobre reivindicações de classe. Uma vez afastada (salvo acidente) a ameaça de uma extensão e  generalização aos sectores da classe operária, como em Maio de 1968, por exemplo, a burguesia intensificou o seu controlo sobre o curso dos acontecimentos. Ela quase os dita directamente. Basta-lhe, sobretudo através dos sindicatos e dos dias de acção, marcar o ritmo das manifestações de acordo com o nível de combatividade e manter-se na prancha para surfar na onda de combatividade e raiva agora direccionada principalmente contra… a polícia.

Vamos evitar um esquema absoluto. Embora nos pareça improvável que uma dinâmica proletária possa impor-se agora a partir desta mobilização, da sua própria dinâmica, não podemos excluir que aconteça um evento “fortuito”, fora da mobilização, que abra a porta a uma inversão do curso actual, num clima geral de raiva e descontentamento que, esse sim, não desapareceu e que só poderia favorecer isso. Pode ser uma greve ou luta operária surgindo aqui ou ali. Pode ser um excesso da repressão ou um acidente. Ou ainda, uma redistribuição das cartas devido a um desenvolvimento de mobilizações idênticas, ou da mesma natureza, que se exprimiram posteriormente na Bélgica, em Itália, em Portugal, em Espanha, na Albânia, mesmo na Alemanha.

Porque não deixa de ser verdade que o descontentamento e a vontade de lutar tendem a generalizar-se um pouco por todo o mundo. As manifestações “contra a vida cara” multiplicam-se na Europa e muitas vezes assumem as mesmas características de massa e de confronto com a repressão policial. O mesmo acontece em muitos outros países, como aconteceu recentemente na Bolívia. Para preparar a guerra imperialista generalizada imposta pelas contradições económicas do capitalismo mundial, todas as classes dominantes são forçadas a atacar a sua população e, em particular, a sua classe operária, o seu proletariado. Manifestações, revoltas, greves em massa, ou seja, confrontos de classes, haverá e já há.

A questão não é tanto se elas acontecem, mas como torná-las eficazes do ponto de vista das reivindicações. Ora, para que sejam «eficazes», ou seja, que façam recuar os ataques da burguesia, ou mesmo apenas os travem, é preciso impor a esta última uma relação de forças. Para que esta seja, no mínimo, favorável, toda luta deve tender a envolver todo o proletariado e as camadas sociais que o rodeiam na luta em massa, o «todos juntos». Para assumir esta orientação política de generalização da luta de classes, o proletariado e as suas minorias mais combativas não podem evitar enfrentar as forças políticas burguesas, e o conjunto do aparelho de Estado capitalista, como nos mostra, mais uma vez, a mobilização actual em França. A defesa das condições de vida e de trabalho e as reivindicações de classe trazem em si a confrontação real com o conjunto do aparelho de Estado capitalista – e não com tal ou qual fracção ou órgão específico deste. O seu esquecimento, provocado pela campanha mediática de 17 a 24, leva à impotência e ao fracasso.

Em vez de reafirmar as reivindicações e a dinâmica de classe iniciais do movimento que partiu dos liceus, a manifestação massiva e combativa de 24 de Outubro veio sancionar e validar a sua relegação para segundo plano, senão mesmo o seu esquecimento. Para os revolucionários, é da maior importância ter em conta esta inversão da dinâmica da luta, a abertura de um curso de recuo e de confusão, a fim de adaptar a sua intervenção em conformidade. Continuar a apelar à extensão desta mobilização, quando agora se situa no terreno burguês da defesa da República e da democracia, equivaleria objectivamente a reforçar a burguesia. De facto e muito provavelmente, o cariz agitador das orientações e palavras de ordem que prevaleciam até então, e que se pode resumir pela extensão e generalização da luta aos sectores operários, vai dar lugar às advertências e à denúncia das mistificações e armadilhas de ordem democrática.

No entanto, os grupos comunistas e os revolucionários devem manter-se atentos a qualquer expressão ou manutenção, mais ou menos ampla, mais ou menos localizada ou limitada, de reivindicações em defesa das condições de vida e de trabalho e apoiá-las ao máximo. Certamente, é pouco provável que tais expressões, se surgirem, consigam inverter a dinâmica actual. Mas podem ajudar a limitar o recuo e a confusão que se instalam e estabelecer uma linha de defesa mínima que permita às minorias mais claras do proletariado agrupar-se e preparar as lutas futuras. Neste caso, a responsabilidade dos revolucionários é precisamente adaptar a sua intervenção e as suas orientações em conformidade.

 

GIGC, 26 octobre 2026

 

 

[1]. Um dia de forte mobilização sem incidentes graves: «O direito de manifestar é tão importante quanto o direito de voto» (https://www.lemonde.fr/politique/article/2026/10/25/une-journee-de-forte-mobilisation-sans-incidents-majeurs-le-droit-de-manifester-est-aussi-important-que-le-droit-de-vote_6799929_823448.html ) .

2. Provavelmente desequilibrado, mas tanto mais influenciado pelo racismo anti-imigrante propagado pelo Rassemblement national e pelos partidos de direita tradicionais.

3. Os camaradas do Grupo revolucionário internacionalista da TCI em França e os simpatizantes próximos das nossas duas organizações, ou mesmo – uma vez não sendo costume – a Corrente comunista internacional.

4. Houve de facto alguns locais de trabalho, o tecnocentro SNCF de Châtillon, o pessoal do hospital Tenon, que se puseram em greve no dia 13 de Outubro. Mas se estas mobilizações muito raras dos sectores mais tradicionalmente combativos do proletariado só podem nos alegrar, também não devem criar ilusões. Na realidade, elas escondem uma situação muito mais apática. Isto é ainda mais importante porque muitas organizações esquerdistas, ao se agarrarem a estas lutas mais do que minoritárias, tendem a pintar um quadro de uma situação que está longe da dinâmica actual - alguns chegando mesmo a falar de situações pré-revolucionárias!…

 

Fonte : Revolução ou Guerra - Révolution ou Guerre

Este comunicado foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice