terça-feira, 1 de setembro de 2026

"Ratcliffe, chefe da CIA, sai do seu buraco para recuperar o seu queijo"... que perdeu definitivamente

 


"Ratcliffe, chefe da CIA, sai do seu buraco para recuperar o seu queijo"... que perdeu definitivamente

1 de Setembro de 2026 Robert Bibeau



Por Normand Bibeau.

A desesperada "visita" do verdadeiro "líder" do LEBENSRAUM 2.0 YANKEE U$/ OTANAZI/ EURONAZI/UKRONAZI BANDERISTA KIEVENISTA, o imundo diretor terrorista tr0mpista da CIA/MO$$AD, John RATcliffe, é a prova convincente da falência do híbrido LEBENSRAUM 2.0 contra a Federação Russa para a "balcanizar" à maneira da URSS, Jugoslávia, Palestina, Síria, Iémen, Sudão e Irão em conformidade com o plano de "dividir para reinar" do imperialismo-capitalismo mundial para o "roubo, pilhagem, rapina e exploração" dos povos (Lenine).

Assim, esta visita desprezível e desprezada do principal terrorista do Ocidente colectivo a 25 de Agosto de 2026 "coincide" com a publicação, a 23 de Agosto de 2026, da mais recente sondagem sobre as intenções de voto dos eleitores russos convocados para eleger os 450 deputados da Duma, nos dias 18, 19 e 20 de Setembro de 2026, uma votação da qual sairá um grande vencedor, o partido Rússia Unida do Presidente Putin e do seu alter ego Medvedev, num programa de "escalar a guerra na Ucrânia para negociar, a partir de uma posição de força", a partição deste estado remanescente ucraniano que será "cortado" de Odessa e dos seus portos marítimos para ser "deixado aos seus vizinhos", como a Checoslováquia foi em 1938. (re:wcion.ru, 25/08/2026).

O partido Rússia Unida passou de 32,5%, a 2 de Agosto, para 34%, a 9 de Agosto, para 36% a 16, atingindo 39,2% a 23 de Agosto de 2026, num aumento espectacular constante de +7,1%, o que, juntamente com metade das circunscrições pró-Rússia Unida, que lhe garante entre 205 e 340 deputados (re:ura.news25/08/2026), uma maioria mais do que suficiente para levar a cabo o programa de neutralização do Estado ucraniano como "cabeça de ponte" do LEBENSRAUM 2.0.

No mesmo período, os partidos "pró-escalada": a KPRF com 11,7%; o LDPR a 9,7%; o Partido da Verdade-Rússia, com 4,1 membros, unirá-se-á à Rússia Unida para isolar e pôr fora de perigo: o partido "Novos Povos" com 9,7%, a versão "pró-Ocidente renovada" da IABLOKO, excluindo eleições por "financiamento estrangeiro" e "conluio com o inimigo" na mais pura tradição ditatorial czarista e os agentes "estrangeiros" da CIA/MO$$AD/MI6/DGSE/CSRS/etc., infiltraram-se na Rússia através de embaixadas, jornalistas, "empresários", "exilados ucranianos e todos os membros da "5.ª coluna" mobilizados para um "golpe de Estado eleitoral" com o objectivo de estabelecer um "novo regime" pró-Ocidente.

O que o "Ocidente colectivo" e o seu "líder" terrorista RATcliffe tinham planeado como ponto central da sua campanha para "fazer o povo russo sofrer" (segundo Bruno Lemaire) até ao "golpe de Estado eleitoral" e à queda do regime pró-BRICS Pouliniano (referência ao estilo do escritor quebequense Jacques Poulin – NdT):

- infligindo-lhe uma guerra de propaganda goebeliana sem limites

+ provocando deliberadamente uma guerra na Ucrânia

+ roubando os seus activos soberanos russos no valor de 300 mil milhões de dólares

+ 100.000 sanções económicas

+ destruição terrorista da Nordstream

+ Cortar os seus mercados de exportação

+ tentativa de golpe de Estado por Progine e pelos seus músicos wagnerianos Kalashnikov

+ "Bombardeamento profundo para "fazer o povo russo sofrer"

+ "golpe eleitoral"

+derrube do regime de Putin

+ "revolução colorida"

= a Federação Russa é balcanizada em "6 ou 7 estados étnicos e religiosos fracos" (segundo Kaja Kallas), que voltam a tornar-se o "posto de gasolina da Europa" em vez do dos BRICS + ou -.

CQFD.

Confrontado com a força total da falência do seu programa NEBENSRAUM 2.0, o "líder", criminoso de guerra, anti-humanidade e genocida, John RATcliffe, foi à Rússia para "salvar a sua 5.ª coluna" com "promessas embriagadas" às autoridades russas que, como "um gato queimado teme a água fria", nem sequer se dignaram a encontrá-lo pessoalmente, reforçados pela sua experiência do crime grave e perfídia daqueles representados por este indivíduo desprezível e desumano cuja agência de subversão e terrorismo foi o cérebro do golpe de Estado, da revolução "laranja" de 2004 + do Euromaidan de 2014 + da guerra no Donbass para a limpeza étnica dos falantes de russo ucraniano + os falsos acordos de Minsk de 2015 + a guerra actual + os acordos traídos de Istambul, de Ancara e Anchorage, em suma, mesmo para os renegados russos, não seria possível "negociar" com tal escumalha na véspera de uma eleição que TODAS as sondagens dão a Putin e à sua claque burguesa vitoriosa sobre o "programa de escalada do conflito para negociar a partir de uma posição de força".

Esta desprezada e desprezível "visita" também "coincide" com o "Dia D Económico" de 24 de Agosto de 2026, do imperialismo-capitalismo YANKEE U$/EURONAZI/OTANAZI/ISRAELI SIONAZI/UKRONAZI BANDERITE KIEVENISTA da "IRON AXLINE 2.0" contra o Irão e que ameaça "estendê-lo" à Federação Russa?

A Rússia desde 2014, tal como o Irão desde 1979 e a Coreia do Norte desde 1956, tem sofrido com a "guerra económica" do Ocidente colectivo e parece estar a sair do controlo ainda mais, para desespero deste mesmo "Ocidente colectivo" e para benefício do "Sul colectivo" que beneficia dos recursos naturais da Rússia, do Irão e da Coreia do Norte a um preço mais baixo: aquilo que o imperialismo mundial chama escandalosamente de fórmula: "Ganha-ganha".

Tomemos como exemplo a República “Popular” da China, dos renegados “socialistas à moda de soja” do imperador e “filho do céu” XI e da sua claque de bilionários que beneficia de descontos de cerca de 3 $ US por barril de petróleo russo e de cerca de 5 $ US por barril iraniano, depois de terem condenado de forma apenas simbólica as «sanções unilaterais e as sanções secundárias extra-territoriais YANKEE$ contra o Irão», não como ILEGAIS, mas apenas como «ILEGÍTIMAS», o que reduz o efeito jurídico a nada, e levaram a vil covardia ao ponto de concluir que tomariam «todas as medidas necessárias para defender os interesses chineses legítimos», em desrespeito dos interesses iranianos e possivelmente russos, face ao direito internacional que estes renegados dizem defender, o que é considerado como «um acto de coerção» puro e simples, condenável nos termos da resolução 2131 (XX), de 21 de Dezembro de 1965, da Assembleia Geral da ONU, que no seu artigo 2.º prescreve::

"Nenhum Estado deve usar ou incentivar medidas económicas, políticas ou quaisquer outras para OBRIGAR outro Estado a subordinar o exercício dos seus direitos soberanos ou a obter vantagens dele." (re:the guardian.com, 25/08/2026; aljazeera.com, 24/08/2026).


A Índia do marajá Narendra Modi, que beneficia de descontos de ~ 2 $ US por barril russo e de ~ 4 $ US por barril iraniano; do rei-negro Cyril Ramaphosa com descontos “escondidos” e do tribuno Lula também a beneficiar de descontos “escondidos”, para não mencionar apenas os principais “aliados” do Irão dentro dos BRICS + ou -, em “falsos amigos sem limites” e em verdadeiros renegados, recusam desafiar esta “declaração de guerra” ianque US contra o Irão e eventualmente contra a Rússia, e desonram-se apelando à “diplomacia” e às “negociações” da “soberania” do Irão com os seus coveiros genocidas ianques$/ sionazis israelitas, como os medrosos e cobardes que são TODOS sem excepção, Chamberlain e Laval 2.0, face a um “führer” 2.0, de pele alaranjada e cabeleira oxigenada de degenerado, “pegador de mulheres pela pussy (genitália feminina – NdT)” confessado, fraudador eleitoral e violador condenado, genocida comprovado.

 

"TÊM A ESCOLHA ENTRE GUERRA E DESONRA;
SE ESCOLHEREM A DESONRA, TERÃO GUERRA."


Fonte: «Ratcliffe chef de la CIA sort de son trou pour récupérer son fromage»… qu’il a définitivement perdu – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




O "Escudo de Aquiles" da entidade fascista israelita (Scott Ritter)

 


O "Escudo de Aquiles" da entidade fascista israelita (Scott Ritter)

1 de Setembro de 2026 Robert Bibeau


Por Scott Ritter a 1 de Setembro de 2026

Israel está a tentar encurralar a Turquia sob ameaça militar. Mas não terá sucesso.

O "Escudo de Aquiles" complica uma situação já muito complexa. Longe de conter Ancara, irá desencadear uma resposta turca e aumentar o risco de conflito directo entre a Turquia, a Grécia e Israel.


O "Escudo de Aquiles" (Ασπίδα του Αχιλλέα) é o nome dado pela Grécia a um sistema de defesa nacional multicamada, resultado de um acordo assinado em Telavive a 31 de Agosto de 2026. É um sistema de defesa aérea, anti-mísseis e anti-drones fabricado em Israel, com um custo de cerca de 3,5 mil milhões de dólares, o que representa uma das maiores exportações de equipamento de defesa alguma vez produzidas por Israel.

Mas este "escudo" é muito mais do que um simples projecto de defesa grego.

É uma extensão das actuais hostilidades entre Israel e a Turquia, uma estratégia israelita destinada a integrar a Grécia na sua estratégia global de contenção em relação à Turquia.

"Escudo de Aquiles" não satisfaz as necessidades de segurança da Grécia no Mar Egeu.

Faz parte da abordagem multifacetada de Israel para desestabilizar a Turquia perante o projecto de renascimento pan-otomano do presidente turco Recep Erdogan.

O projecto deve o seu nome à Ilíada: depois de Heitor assumir a armadura de Aquiles, Hefesto forja um novo escudo composto por cinco placas sobrepostas.

"Cinco grandes placas compõem este escudo, e obras divinas florescem na sua superfície. A imagem do génio criativo brilhava ali com a terra, o céu e o oceano que ele desenhara, o sol incansável, a lua perfeitamente redonda e os brilhos estrelados que coroam a alta abóbada celestial."

 


Reconstituição por Quatremère de Quincy

O Ministro da Defesa grego, Nikos Dendias, afirma ter escolhido esta ilustração específica para descrever uma arquitectura de cinco domínios — mar, terra, ar, ciberespaço e espaço — composta não por uma única arma, mas sim por um "sistema de dissuasão holístico" em rede que funde sensores e meios de fogo, libertando a Marinha e a Força Aérea gregas da sua actual vigilância estática do Mar Egeu. e permitindo que novas fragatas e aeronaves de quinta geração como o F-35 projectassem o seu poder mais para o Mediterrâneo oriental.

Onde podem desafiar a Turquia.

Este tem sido, desde o início, o projecto e objectivo de Israel.

O dispositivo israelita combina cinco elementos (novamente, pense na imagem de Hefesto e compreenda que é uma construcção israelita), incluindo o seguinte:

·         A funda de David (Rafael / Organização de Defesa de Mísseis de Israel) para mísseis balísticos tácticos, mísseis de cruzeiro e foguetes de maior alcance (cerca de 40 a 300 km);

·         Barak MX (Israel Aerospace Industries) para ameaças de médio alcance, incluindo aeronaves, mísseis de cruzeiro e balísticos, bem como drones (cerca de 35 a 150 km, vários tipos de interceptores);

·         SPYDER (Rafael) para ameaças de curto alcance e baixa altitude: aeronaves, helicópteros, drones e munições guiadas;

·         Radares multi-missão ELTA (IAI) e

·         um novo sistema nacional de comando e controlo, também liderado por Rafael, destinava-se a usar inteligência artificial para classificar ameaças e atribuir o melhor interceptor.

Um contrato adicional menor é adicionar a chamada cobertura "Drone Dome" de Rafael para locais críticos, substituindo as agora obsoletas baterias anti-mísseis de curto alcance da era soviética.

"Escudo de Aquiles" foi concebido para estar totalmente alinhado com a "Agenda 2030" da Grécia, um vasto projecto de modernização de 30 mil milhões de dólares previsto para ser concluído em 2036 e que inclui também F-35, novas fragatas, drones e activos espaciais (micro-satélites e um satélite geo-estacionário planeado). O objectivo é conseguir contrariar um ataque aéreo intensivo da Turquia — misturando mísseis balísticos e de cruzeiro, bem como drones baratos. Os sistemas multicamadas de Israel, que se mostraram eficazes em combate em recentes trocas com mísseis iranianos, visam aumentar o custo de um ataque massivo e libertar a Grécia da sua actual estratégia de defesa pontual ilha a ilha.

"Escudo de Aquiles" reforça um triângulo de segurança já bem estabelecido entre a Grécia, Israel e Chipre. Críticos na Grécia e na Turquia veem-no mais como um alinhamento político do que como uma simples aquisição de equipamento militar. A Turquia há muito que se opõe à presença de sistemas israelitas semelhantes em Chipre.

Como todas as iniciativas de segurança regional israelitas, o "Escudo de Aquiles" só complica uma situação já muito complexa. Longe de conter a Turquia, esta compra grega desencadeará uma resposta turca e poderá, na verdade, aumentar o risco de um conflito directo entre a Turquia e a Grécia ou Israel (ou ambos), tentando atacar antes que o escudo esteja operacional.


Traduzido por Spirit of Free Speech

 

Fonte: Le “Bouclier d’Achille” de l’entité fasciste israélienne (Scott Ritter) – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




O Operário Comunista nº 1 (Agosto de 1929)

 


Colectivo Comunista dos Operários

 

Parte superior do formulário

O Operário O Operário Comunista nº 1 (Agosto de 1929)

Publicado a 24 de Agosto de 2026

 


1.º Ano – Nº 1 | Agosto de 1929

O Operário Comunista

Órgão dos Grupos Operários Comunistas

(Grupos Comunistas de Operários)

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RESUMO:

Sair do pântano
– Porque Somos Anti-Parlamentares
– Teses sobre o Regime Anti-Parlamentar (A. Bordiga)
– Progresso Recente da Dialéctica Materialista em Trotsky e os seus Epígonos
– As Condições Históricas da Revolução Russa ( H. Gorter)
Deveriam os sindicatos ser conquistados ou destruídos? (Parte Um)
– Anarquistas, Social-Democratas e a Greve Geral (R. Luxemburgo)


PARA SAIR DO PÂNTANO

As grandes lutas e derrotas da classe operária durante os períodos de guerra e pós-guerra criaram a base para um novo ressurgimento das forças proletárias, para um aumento da consciência ideológica e da capacidade de luta do proletariado. Mas esta ascensão da ideologia operária só tem o custo da desintegração das organizações nas quais a classe operária não conseguiu encontrar meios para alcançar a vitória sobre o capitalismo — organizações representadas pela social-democracia e pelo bolchevismo.

A nossa origem, enquanto grupo em que a arma da crítica revolucionária não teme nem líderes nem ídolos, deriva deste processo de decomposição que rapidamente subjugou a Internacional Comunista após a NEP. Mas o nosso desenvolvimento, a nossa libertação do atoleiro, não foi obra de um único dia. Foram necessárias muitas provações e tribulações para atingirmos o nosso actual nível ideológico. E se a nossa posição hoje está livre de qualquer oportunismo, deve-se a uma dupla divisão.

Na arena revolucionária, a clareza só pode ser alcançada a este preço; Não há outra forma de manter e disseminar as posições conquistadas a um custo tão elevado. É necessário permanecer um grupo pequeno, uma minoria, por vezes até sozinho. Caso contrário, a única opção é esconder a posição sob uma avalanche de concessões e disciplina mecânica.

A primeira cisão libertou-nos da rigidez disciplinar quase bigode em que os radicais da Comintern ainda se afundam como centristas patéticos. Mas esta primeira cisão, à qual muito devemos aos elementos de Prometeu e que nos permitiu vislumbrar um horizonte mais amplo, não foi suficiente.

Entre nós estavam hereges vacilantes, assustados pelas nossas tendências iconoclastas, que escondiam imagens religiosas desbotadas nos bolsos, esperando que um dia pudessem ser a fonte de um milagre. Houve também aqueles que se deixaram levar por uma corrente de aristocracia operária, definitivamente estranha à revolução. Livrámo-nos de todos eles sem arrependimentos, porque as nossas ideias e posições revolucionárias valiam muito mais do que a sua empresa recalcitrante.

Além disso, a homogeneidade ideológica perfeita, que num período de desintegração só pode ser alcançada à custa da quantidade, é muito preferível a uma combinação maior de elementos heterogéneos. Hoje, o crescimento da qualidade resulta da diminuição da quantidade. Aqueles que, perante esta dura realidade, se agarram ao mito da unidade para defender as suas posições falsas, não compreenderam a necessidade deste processo. Assustados pelo isolamento actual, deixam-se levar pela corrente, esquecendo que a realidade histórica não se limita ao momento presente, mas constitui um todo complexo do qual a contingência é, em última análise, eliminada como elemento insignificante.

Mas o que importa a sua perda em comparação com a nossa libertação ideológica? Não deveríamos, em vez disso, alegrar-nos por termos cortado um laço que poderia ter-nos arrastado de volta para o pântano?

Começámos o nosso desenvolvimento rejeitando o mito da unidade formal, porque sabíamos perfeitamente que esta é uma força que contribui para a preservação das organizações contra-revolucionárias. A história, os factos, já tinham provado esta verdade antes mesmo de nós. Só nos apercebemos disso, infelizmente, um pouco tarde demais.

Tarde demais? Não. Além disso, como poderia esta descoberta ter sido feita mais cedo? Os elementos do subjectivo, do consciente (as expressões de Lenine), não representam um avanço na história. Não se pode construir em areia. O subjectivo é apenas um reflexo da continuidade, até mesmo um aspecto do próprio objectivo. É a experiência da história que desenvolve novas posições ideológicas, que forma, à custa das antigas organizações obsoletas, novas formações de combate.

O erro formidável de Lenine, que residia nele inconscientemente — reflexo de uma situação em que o elemento proletário não era o único a desempenhar um papel importante — foi precisamente esta tendência para construcções artificiais, para uma estratégia que, querendo antecipar os limites da realidade através de um plano pré-estabelecido, acaba por mutilar os rebentos da espontaneidade.

Bordiga, na sua carta a Korsch publicada pela Prometeu, apontou este erro de Lenine. O que se esqueceu de referir é que é erro de todos os que seguiram Lenine na experiência da Comintern, Bordiga incluído, nós próprios incluídos. Esta falta de objectividade leva a esquecer o mérito daqueles que não seguiram Lenine na sua tentativa. E a responsabilidade aumenta se elementos como Bordiga e tantos outros, sabendo que a linha leninista levaria à falência da Terceira Internacional, não o disseram com toda a clareza necessária.

Hoje ainda é doloroso notar que os representantes da linha de Bordiga fingem considerar esta linha como uma tendência original e específica da esquerda na Internacional, quando na verdade é um ramo atrasado da verdadeira esquerda marxista, aquela cujos representantes em 1919 e 1920 foram Pankhurst em Inglaterra e na Holanda, os tribunos Gorter e Pannekoek.

O Soviete, órgão da fracção abstencionista do Partido Socialista Italiano, publicou, no entanto, um panfleto de Pannekoek. Aquilo que finalmente encontrou expressão na Alemanha no Partido Comunista dos Trabalhadores, contra o qual se dirigem quase todos os ataques do comunismo comunista de Lenine.

Não deveria ser escondido, apenas os tribunistas e extremistas alemães recusaram seguir a linha de Lenine. Foi Herman Gorter, na sua carta aberta a Lenine, escrita para ele e para o Partido Comunista Alemão, quem denunciou a falsa linha de Lenine.

A "velha topo" já executou o seu julgamento. Gorter tinha razão e Lenine estava errado. A linha leninista conduziu às piores derrotas; A constituição dos partidos de massas também constituiu um novo baluarte oportunista e contra-revolucionário no campo do proletariado. A revolução mundial encontrou nestes partidos sabotadores e não guias.

A linha de Lenine era a da unidade; A linha de Gorter, a da divisão. E qual foi o resultado da táctica de unidade? Derrota e, mais tarde, decomposição.

Hoje, com a experiência adquirida, já não se trata de salvar a Comintern agarrando-se desesperadamente ao leninismo, como quase toda a oposição faz; Trata-se de condenar, à luz da experiência histórica, esse mesmo leninismo. E com isto entendemos oportunismo táctico, que não pode criar artificialmente unidade, mas atrasa o processo espontâneo de unificação revolucionária. E, ao mesmo tempo, devemos virar-nos para a linha de esquerda, para o "radicalismo infantil" que já tinha condenado Lenine em 1920.

Pode parecer um paradoxo, mas o "velho infiltrado"1 assumiu para si a tarefa de demonstrar que o extremismo não era a doença infantil do comunismo. Era, pelo contrário, leninismo. As relações das forças sociais na Rússia, que eram muito menos avançadas do que na Europa Ocidental e na América, formaram a base do infantilismo leninista. Assim, Lenine e os leninistas acreditavam que podiam aplicar a mesma estratégia da Rússia a outros países, que já não tinham uma revolução burguesa para fazer. O leninismo, que não conseguiu extrair da experiência ocidental os elementos de maturação, transformou-se em despotismo e reacção, tanto na Rússia como no terreno internacional. E assim o proletariado viu o número dos seus inimigos aumentar. Já não se confronta apenas com a democracia e a social-democracia burguesa; é também confrontado com essa falsificação do comunismo que é o bolchevismo.

O aspecto fundamental da doença infantil leninista era o compromisso. O compromisso foi assim aplicado na formação dos partidos da Terceira Internacional. Em 1919 e 1920, os elementos extremistas ou ultra-esquerdistas tenderam todos para o anti-parlamentarismo total; O leninismo travou uma luta contra estes elementos, que ou se deixaram subjugar ou foram expulsos das fileiras do comunismo oficial. O anti-parlamentarismo, no seu aspecto radical, era uma manifestação geral do grau de consciência que o proletariado tinha alcançado através da experiência da guerra nos países capitalistas avançados. Por esta mesma razão, tal como Lenine, esta manifestação do desenvolvimento revolucionário dos países mais avançados não deve ser confundida com o otzovismo russo. Mas o sistema de analogia é um dos procedimentos (nem sempre dialécticos) da ideologia leninista. Demagogos parlamentares, que se juntavam ao Partido Socialista Independente, à esquerda da SFIO em França, ao Partido Socialista em Itália, foram aceites nas fileiras da Internacional. Foi assim que as massas da Comintern receberam "líderes".

Por um lado, o extremismo foi combatido e expulso; por outro, o oportunismo parlamentar foi autorizado a enraizar-se nas fileiras da vanguarda proletária. Assim, o anti-parlamentarismo dos extremistas, historicamente justificado pelo conflito entre o parlamento, órgão político do capitalismo, e os conselhos, órgãos políticos do proletariado, foi condenado pelo leninismo e não teve lugar na Comintern.

É claro que o primeiro passo do bolchevismo rumo ao compromisso teve de o separar dos melhores elementos revolucionários e, portanto, da própria realidade revolucionária. À luz da experiência histórica, podemos dizer hoje que a questão parlamentar não foi de modo algum uma questão secundária, pois manifestou-se, na sua interpretação diferente das tácticas comunistas, a diferença fundamental entre a revolução russa e a revolução ocidental. Hoje, quando a estratégia leninista se desfez e trouxe a Comintern para as fileiras da contra-revolução, é claro que, se a Terceira Internacional tivesse tido na sua base ideológica a força do anti-parlamentarismo radical, esse espantalho dos oportunistas, o processo de degeneração da Terceira Internacional não teria sido tão fácil e esse organismo teria pelo menos mantido o proletariado internacional nas suas posições revolucionárias.

Não se contentaram em aplicar o compromisso no terreno dos partidos de massas e do parlamentarismo. Após a introdução da NEP, foi na teoria e prática da frente unida que se manifestou o compromisso com a social-democracia internacional. Foi feita uma tentativa, através de uma formulação diplomática, de ocultar o verdadeiro significado oportunista desta táctica, que reflectia no terreno internacional a degeneração inicial da ditadura proletária na Rússia.

Miasnikov, polemizando com Lenine em 1922, apontou precisamente que houve uma tentativa vã de ocultar a natureza claramente social-democrata desta táctica sob novas fórmulas (a corda e o carrasco, etc.). Esta táctica, aplicada ao mesmo tempo que o lançamento do slogan do governo dos operários e camponeses (um slogan sem sentido nos países capitalistas avançados), revelou em poucos anos a natureza oportunista da nova Internacional. Além disso, colocou a Comintern pouco tempo nas mesmas posições onde a Social-Democracia se tinha desintegrado em 1914.

Em 1923, o Partido Comunista Alemão (KPD), sob a liderança do Executivo de Moscovo, não só aplicou a táctica da frente unida com a Social-Democracia: tentou aplicá-la até com os elementos fascistas na Alemanha. Para tal, exaltou a nação e defendeu, ao mesmo tempo, que só o proletariado, afiliado a todos os elementos saudáveis do povo, poderia defender e salvar a pátria em perigo. Foi uma traição aberta aos princípios internacionalistas.

Há pessoas que quiseram justificar a traição de 1923 na Alemanha como um simples erro. São, de facto, as mesmas pessoas que hoje querem endireitar a Comintern. Mas ninguém deve ignorar o discurso de Radek sobre Schlageter, os discursos de Bukharin e Zetkin sobre a posição da Comintern em relação à Alemanha em 1923; ninguém deve ignorar que, nessa altura, se contemplava uma colaboração entre o Exército Vermelho e a Reichswehr2. Ninguém nas fileiras revolucionárias deve esconder o facto, que nunca foi negado: em 1922 e 1923, a Rússia Soviética armou a Reichswehr, contra a qual o proletariado alemão lutava heroicamente.

A aplicação do compromisso levada ao ponto da traição encontra as suas bases teóricas em A Doença Infantil do Comunismo, o Esquerdismo,  de Lenine, e até em Contra a Maré de Lenine e Zinoviev. Foi dito: Lenine não teria chegado a esse ponto. Mas quando fazemos uma crítica ao leninismo, não podemos ter em conta este argumento (cuja condenação será encontrada, além disso, no primeiro capítulo de O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx). O que importa é que o leninismo chegou a esse ponto. Em Contra a Corrente, Lenine adopta posições contraditórias sobre a questão nacional. O seu pensamento oscila entre uma posição internacionalista muito correcta e reservas de tácticas falsas (assim, procurará "forças revolucionárias" historicamente mortas em guerras nacionais, na autonomia dos povos, etc.) que oferecem uma base teórica ampla para a traição de 1923.

Talheimer, espírito afim de Brandler (para quem Souvarine se tornou apologista em França), fez bom uso da posição ambígua de Lenine para justificar, num artigo publicado na Rote Fahne de 1923, o nacional-bolchevismo do KPD.

Aqui também, a natureza da ideologia de Lenine revela-se sob a forma de um compromisso, no antigo estilo social-democrata, em total contraste com a ideologia da esquerda marxista.

Foi isto que Rosa Luxemburgo apontou tão acertadamente, que manifestou com a esquerda holandesa e polaca as tendências objectivas da revolução ocidental, e conseguiu discernir nos desvios leninistas de Contra a Corrente as primeiras manifestações do Bolchevismo Nacional em 1923.

O compromisso apressado que a Terceira Internacional criou, num momento de entusiasmo, escondeu essas diferenças sob o alqueire, cuja importância foi mais tarde revelada. E é com um sentimento de admiração que se lê a crítica de Rosa Luxemburgo à Revolução Bolchevique e à sua falsa estratégia nacional, uma crítica apenas esboçada antes da morte do grande teórico marxista. O entusiasmo, e depois a cumplicidade, que silenciaram a profusão de líderes da Comintern, não perturbaram a objectividade da heroína proletária; felizmente para ela, não encontrou nem apologistas nem fiéis na Escola Lenino-Bukhariana.

Mas aqui também, o compromisso leninista sofreu mais uma derrota, e aqui também deve ser condenado.

No entanto, a lição mais profunda infligida ao leninismo pelos factos continua a ser o fracasso da conquista dos sindicatos. Neste campo, o Bordigismo, o Brandlerismo, todas as nuances e tendências da Terceira Internacional seguiram a mesma linha. E, para esse fim, todos mantinham a necessidade de permanecer nos sindicatos, mesmo os reformistas, para combater o reformismo e substituir os líderes reformistas por líderes comunistas, de modo a revolucionar os sindicatos. Até ontem éramos os "conquistadores", acreditávamos na utopia da conquista da união. Tivemos de reflectir muito, para ver o triunfo da arbitragem, tivemos de investigar a experiência alemã, italiana, até russa, para perceber que mesmo aí o Leninismo foi infantil. Esquecera-se, como mau dialéctico, que as formas da luta de classes nem sempre são as mesmas, que os órgãos originalmente naturais podem ser distorcidos e tornar-se obsoletos e reaccionários. Hoje, os "conquistadores" falham perante a armadilha da arbitragem obrigatória. Que frutos amargos este erro não produziu para o proletariado!

O conflito histórico entre os conselhos de fábrica e os sindicatos, entre revolução e contra-revolução, tem sido oculto sob o alqueire da teoria da conquista. O espírito dos operários foi abalado pela ilusão de que, ao substituir homens por homens, oficiais por oficiais, era possível revolucionar órgãos que a história condenara durante a guerra e no avanço revolucionário. O leninismo, que lutou precisamente contra o reformismo que defendia a necessidade de fragmentar o Estado, não compreendia que os sindicatos, que tinham sido integrados com o Estado, também deviam ser destruídos. Na Alemanha tentaram conquistar e deixaram-se conquistar; na Rússia os sindicatos são, tal como em Itália, corporações, formam o parafuso que aperta a classe operária nas suas mordaças.

E os órgãos sindicais que, fora da Internacional de Amesterdão, afirmam preservar a tradição da luta de classes, são fatalmente empurrados na mesma direcção que as organizações amarelas. A sua natureza reformista irá impor-se e até impor-se-á sobre a sua fraseologia revolucionária. Por um lado, a influência anti-proletária do Estado russo, que os torna brinquedos de uma política contra-revolucionária; por outro, a sua essência, que os enquadra nos limites restrictos das reivindicações parciais, desenvolvendo nelas órgãos de vassalagem3 da classe, obstáculos ao desenvolvimento da consciência revolucionária do proletariado. Por estas razões, recusamo-nos a continuar a ver nelas formas revolucionárias da luta de classes. Quanto às organizações que, fora da Secção Internacional de Amesterdão e da Internacional Sindical Vermelha de Moscovo, procuram a solução da luta de classes no mesmo terreno, ou seja, na mesma forma em que as outras já revelaram ou estão a revelar a sua impotência, estão destinadas a ter o mesmo fim. Quer na Alemanha, onde escolheram o terreno da divisão, quer em França, onde se agarram à teoria da conquista (basta olhar para a acção e a teoria da Ligue Syndicaliste para perceber que já está no caminho da colaboração de classes), só demonstram esta realidade de forma mais completa.

Não se podem ganhar sindicatos para a revolução, não se podem criar sindicatos revolucionários. A contradição entre a luta por um pedaço de pão e a luta pela revolução foi historicamente resolvida nos conselhos de fábrica, nos conselhos revolucionários, que irão quebrar o aparelho estatal da burguesia e, com estes últimos, os próprios sindicatos.

Não conseguimos desenvolver totalmente a nossa crítica nas nossas considerações. Tivemos de nos contentar em esboçar apenas o lado crítico do nosso pensamento. Para dar uma base sólida à nossa crítica, é necessária uma análise aprofundada do desenvolvimento da luta de classes nos anos do pós-guerra. O que é certo é que os elementos desta análise, que tentaremos desenvolver na nossa actividade futura, existem. Podemos, portanto, tirar as conclusões gerais a partir de agora. Estas conclusões não nos levam simplesmente a condenar o leninismo, como ideologia e acção. Conduziram-nos a posições que terão de ser consolidadas, mas que, sendo um facto da base objectiva da luta proletária no terreno internacional, têm um valor duradouro. Não se referem a mera contingência, mas a todo o período de preparação e desenvolvimento da revolução proletária.

Além disso, o conteúdo destas posições terá de ser disseminado entre os proletários, e isso não será feito pelos métodos da agitação bolchevique, mas por uma propaganda comunista que não tem objectivos imediatos, mas apenas um objectivo: a revolução proletária.

Para preparar, a partir de uma base muito restrita, a partir de uma elite consciente, o espírito das massas operárias para a revolução, ou, para ser mais preciso, através da nossa propaganda, a experiência histórica da qual o proletariado recebe a sua máxima educação, a sua consciência de classe para desempenhar o seu papel de convulsão e transformação económica e social: Essa é a nossa posição fundamental.

Não se pode manter esta posição mediante uma estratégia de chefe. Ao contrário, só se pode consolidar condenando a política dos chefes (convém notar que não se poderia chamar assim aos representantes da classe proletária controlados antes e durante a acção revolucionária, ou seja, aos membros dos conselhos e dos outros órgãos revolucionários, que são simples instrumentos da acção proletária) que encontraram e ainda hoje encontram o seu refúgio em organizações onde a massa de base não tem qualquer consciência dos problemas revolucionários. Por isso, não temos pressa em fundar um novo partido, nem em expandir precipitadamente a nossa base de organização. Não queremos repetir os erros cometidos, não queremos connosco quem ainda não nos compreendeu. Adoptando este sistema, estaremos protegidos contra a restauração da política dos chefes nas nossas fileiras. Temos como objectivo formar um partido verdadeiramente revolucionário e é para esse fim que preferimos permanecer durante muito tempo, se necessário, uma seita.

E ainda para manter esta posição, para conservar o seu baluarte à revolução, não bastará desenvolver a consciência proletária através da propaganda, separando-a da política dos chefes. Para arrancá-la da influência secular da cultura, do meio burguês, será necessário romper com toda a tradição burguesa. Será necessário entrar em luta aberta contra as formas que tendem a conservar e difundir as raízes da influência burguesa entre a classe operária. Será necessário romper com as formas parlamentares e sindicais, será necessário preparar a sua destruição. Será necessário convidar a classe operária a boicotar o parlamento e a preparar a destruição deste último. Será necessário dizer ao proletariado que a luta por reivindicações parciais não pode ter como resultado a melhoria da classe operária, que só pode ter valor como um elemento de preparação para a luta revolucionária, que deverá conduzir-nos à instauração da ditadura do proletariado; que os sindicatos não podem ser a expressão desta luta revolucionária, que conduz à colaboração de classes, ou seja, a uma maior escravatura da classe operária.

Não é preciso dizer que a experiência, a propaganda deste facto tem um valor enorme e fundamental no desenvolvimento da consciência proletária. Mas quando a nossa propaganda, em vez de apoiar essa propaganda de facto, em vez de apoiar as «lições da história», se coloca acima da realidade histórica, a nossa actividade torna-se contra-revolucionária; quando o leninismo nega a existência de um grau superior de consciência proletária e faz passar isso por uma doença infantil, coloca-se acima da história, torna-se contra-revolucionário. Não queremos o punhado de heróis que com os seus gestos despertam revoluções e criam novas bases sociais.

Só conservando as posições que durante o período revolucionário do pós-guerra o proletariado conquistou mesmo à custa de mil derrotas, cumprimos o nosso papel modesto mas necessário.

E para manter e expandir essas posições, vamos lutar com afinco contra todos os inimigos da revolução, contra a burguesia e seus afiliados, contra a Social-Democracia Ocidental e contra a Social-Democracia de Moscovo.


PORQUE SOMOS ANTI-PARLAMENTARES

As teses que publicamos a seguir reproduzem perfeitamente o nosso pensamento actual sobre a questão parlamentar, ou seja, sobre a atitude que as elites revolucionárias deveriam manter em relação ao Parlamento. Foram apresentadas na Comintern em 1920, mas já estavam incluídas no programa da fracção abstencionista dentro do Partido Socialista Italiano, o qual foi aprovado no Congresso de Bolonha (1919) desse mesmo partido por 4.000 inscritos. Esta fracção contava com os seus aderentes em todas as regiões de Itália. O Partido Comunista de Itália, que foi fundado em Livorno em Janeiro de 1921 sobretudo pela actividade da fracção abstencionista, não adoptou no seu programa o boicote ao parlamento, que é recomendado nas teses em questão. Ou seja, esta fracção e o seu líder, Bordiga, renunciaram à sua posição sobre o parlamentarismo para não ir contra os 21 pontos da Internacional Comunista, pontos que regulavam, a priori, a formação dos partidos comunistas. Estes pontos não admitiam, entre outras coisas, a presença na Comintern de elementos que defendiam o boicote aos parlamentos burgueses.

A apresentação das teses em questão foi acompanhada, no Segundo Congresso da Comintern, por um discurso de Bordiga que apareceu recentemente em Prometeu em língua italiana. O conteúdo deste discurso do camarada Bordiga reproduz as mesmas ideias das quais Herman Gorter deu uma exposição muito simples na sua Carta Aberta ao Camarada Lenine, também escrita no Outono de 1920, pelo menos no que diz respeito à questão parlamentar.

Deve notar-se que já no seu discurso de 1920, Bordiga atenua bastante a importância do boicote aos parlamentos burgueses. "As teses do relator", diz ele, "declaram, por outro lado, que a questão parlamentar é secundária ao movimento comunista; o mesmo não se aplica à questão sindical (onde Bordiga defendia a opinião dos leninistas). Acredito que, a partir desta oposição, não seria possível tirar um juízo decisivo sobre os camaradas e os partidos comunistas." Esta clara atenuação do desacordo sobre a questão parlamentar contradiz o conteúdo das teses reproduzidas abaixo, escritas pelo próprio Bordiga, onde atribuiu precisamente grande importância à questão parlamentar, como o leitor poderá perceber por si próprio.

Por outro lado, o abandono desta posição contribuiu imenso para enfraquecer a base dos partidos da Internacional. Em Itália, eliminou do movimento comunista a tendência abstencionista durante muitos anos. Nas teses, destaca-se precisamente a dispersão das forças revolucionárias na actividade eleitoralista e parlamentar (que os de Prometeu se lembrem bem! eles ridicularizaram em nós este argumento, que apresentávamos em 1927 defendendo o boicote aos parlamentos burgueses), forças que poderiam ser aplicadas de outra forma no campo da acção revolucionária. Além disso, contempla-se a necessidade de dar toda a informação ao proletariado neste terreno. 

Só através do boicote ao parlamento se pode dar à classe operária a plena consciência de que este órgão de dominação da burguesia deve ser quebrado e substituído pelos conselhos. E se tivermos presente o papel secular desempenhado em alguns países capitalistas pelas instituições parlamentares se perceberá a enorme importância desta questão para as elites proletárias. Percebe-se o enorme dano que o abandono desta posição causou à causa proletária em Itália.

Também não deve ser escondido que, em 1924, na véspera das eleições parlamentares em Itália, Bordiga teve de escrever um artigo, que foi publicado na imprensa oficial do Partido Italiano. Este artigo está em perfeita contradição com o conteúdo das teses que só conseguimos encontrar hoje no Le Phare, o órgão comunista de Genebra, ao qual em 1921 todos os teóricos da filosofia da ofensiva, incluindo Bukharin (hoje são todos direitistas consumados).

O artigo de 1924 tenta justificar o abandono da posição de boicote, substituindo o conteúdo das teses por uma concepção muito elástica das tácticas parlamentares. Apoiou também a tendência no Partido Comunista Italiano de defender a participação nas eleições contra a tendência a favor da abstenção. Esta última tendência era favorável à abstenção por razões que, além disso, nada têm a ver com a posição do boicote aos parlamentos burgueses. Mas isso não justifica Bordiga e os seus apoiantes. Nem o pretexto para a mudança de situação.

Nas teses reproduzidas abaixo, afirma-se que a táctica de boicotar parlamentos deve ser aplicada ao longo de todo o presente período histórico, e é mesmo declarado algures que esta táctica é indispensável em qualquer situação. Além disso, se é verdade que em 1924 os elementos mais oportunistas (incluindo os reformistas) eram relutantes em acções eleitorais, que se tornaram perigosas desde o advento do fascismo, não é menos verdade que uma posição de boicote muito clara não era menos perigosa. Além disso, a proposta do artigo de 1924 valorizava de certa forma, aos olhos do proletariado, o papel do parlamento.

Pelo contrário, era tempo de mostrar aos operários, através de uma acção de boicote, que o parlamentarismo tem sempre a mesma substância, tanto sob a ditadura democrática como sob a do fascismo. E é importante salientar que foi precisamente a esquerda bordigista que se esforçou por mostrar (e estava certa) a identidade de substância entre democracia e fascismo. Esta premissa teórica, que tem raízes na realidade histórica da luta de classes em Itália, não contribuiu para a tese da mudança de método na questão parlamentar de 1924.

Esta última posição – a do boicote ou participação em actividades eleitorais condicionada à situação política – está contida numa nota na Carta Aberta ao Camarada Lenine de Herman Gorter. Em Gorter, cuja análise muito simples e muito clara da situação objectiva nos países capitalistas avançados conduz a uma conclusão fundamental a favor da necessidade de boicote aos parlamentos burgueses, a reserva totalmente pessoal contida na nota acima mencionada representa uma incoerência que não é justificada por toda a análise anterior.

O conteúdo das teses que extraímos de Le Phare de 1921 é completamente satisfatório e completo. A análise contida no capítulo "A Questão Parlamentar" da Carta Aberta de Gorter pode servir como ilustração do conteúdo muito breve do documento de Bordiga, que já não é Bordigista.

Antes de concluir esta apresentação indispensável do documento sobre o parlamentarismo da esquerda italiana de 1920, devemos salientar que os de Prometeu, no título que antecede o discurso de Bordiga no Segundo Congresso da Comintern, declaram que o anti-parlamentarismo de Bordiga (que não lhe era exclusivo) não era de origem sindicalista. e, para ser sincero, só os anarco-sindicalistas, em acção devido à sua ideologia anarquista, são a favor do boicote aos parlamentos burgueses. O sindicalismo puro de Sorel não teve qualquer aplicação prática na sua tendência claramente anti-parlamentar. Além disso, o próprio Sorel favorecia sem reservas a actividade dos seus discípulos italianos (Labriola, Leone), conduzindo-os, pelo caminho do parlamento, para o terreno da democracia burguesa. Nem mesmo os actuais sindicalistas de La Révolution Prolétarienne alguma vez defenderam um boicote aos parlamentos burgueses. O sindicalismo nada tem a ver com as tendências radicais do anti-parlamentarismo comunista e marxista que, em 1919, se manifestaram tão claramente no terreno internacional. Prometheus não é inteiramente "marxista" quando, no seu título (vazio, aliás) ignora ou finge ignorar vários factos que poderiam destacar o lado marxista da tese do boicote ao Parlamento.

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Tese

Sobre o parlamentarismo

apresentado pelo camarada Bordiga em nome da fracção comunista abstencionista do Partido Socialista Italiano no Segundo Congresso da Internacional Comunista

1. O Parlamento é a forma de representação política própria do regime capitalista. A crítica de princípio que os comunistas marxistas fazem do parlamentarismo e da democracia burguesa em geral mostra que o direito de voto não pode impedir que todo o aparelho governamental do Estado constitua o comité de defesa dos interesses da classe capitalista dominante. Além disso, mesmo que este direito seja concedido a todos os cidadãos de todas as classes sociais nas eleições para os órgãos representativos do Estado, este último não se organiza por isso menos como instrumento histórico da luta burguesa contra a revolução proletária.

2. Os comunistas negam veementemente que a classe operária possa conquistar o poder obtendo a maioria parlamentar. Só a luta revolucionária armada permitirá atingir os seus objectivos. A conquista do poder pelo proletariado, ponto de partida da obra de construção económica comunista, implica a supressão violenta e imediata dos órgãos democráticos, que serão substituídos pelos órgãos do poder proletário: os Conselhos Operários. Despojada assim a classe dos exploradores de todo direito político, poderá implementar-se o sistema de governo e de representação de classe, a ditadura do proletariado. A supressão do parlamentarismo é, pois, um objectivo histórico do movimento comunista. Dizemos mais: a primeira forma da sociedade burguesa que deve ser derrubada, antes da propriedade capitalista e antes da própria máquina burocrática e governamental, é precisamente a democracia representativa.

3. Isto também se aplica às instituições municipais e comunais da burguesia, às quais é falso, do ponto de vista teórico, opor aos órgãos de governo, já que o seu aparelho é de facto idêntico ao mecanismo governamental da burguesia. O proletariado revolucionário deve também destruí-las e substituí-las pelos sovietes locais de deputados operários.

4. Enquanto que o aparelho executivo militar e político do Estado burguês organiza a acção directa contra a revolução proletária, a democracia constitui um meio de defesa indirecta ao difundir entre as massas a ilusão de que podem realizar a sua emancipação através de um processo pacífico e de que o Estado proletário também pode adoptar a forma parlamentar, com direito de representação para a minoria burguesa. O resultado desta influência democrática sobre as massas proletárias tem sido a corrupção do movimento socialista da Segunda Internacional, tanto no campo da teoria como no da acção.

5. Atualmente, a tarefa dos comunistas na sua obra de preparação ideológica e material da revolução é, antes de mais, libertar o proletariado dessas ilusões e desses preconceitos difundidos nas suas fileiras com a cumplicidade dos antigos líderes social-democratas, que os desviam do seu caminho histórico. Nos países onde o regime existe há muito tempo e se enraizou profundamente nos hábitos das massas e na sua mentalidade, assim como na dos partidos social-democratas tradicionais, esta tarefa reveste uma importância particular e ocupa o primeiro lugar entre os problemas da preparação revolucionária.

6. No período em que a conquista do poder não se apresentava como uma possibilidade próxima para o movimento internacional do proletariado e em que também não se colocava o problema da sua preparação directa para a ditadura, a participação nas eleições e a actividade parlamentar ainda podiam oferecer possibilidades de propaganda, agitação e crítica. Por outro lado, nos países onde a revolução burguesa ainda está em curso e cria novas instituições, a intervenção dos comunistas nos órgãos representativos em formação pode oferecer a possibilidade de influenciar o desenvolvimento dos acontecimentos para que a revolução chegue até à vitória do proletariado.

7. No período histórico actual (aberto com o fim da guerra mundial e suas consequências sobre a organização social burguesa; pela revolução russa, primeira realização da conquista do poder pelo proletariado, e pela constituição da nova Internacional em oposição à social-democracia dos traidores) e nos países onde o regime democrático já completou há muito tempo a sua formação, não existe, pelo contrário, nenhuma possibilidade de usar o parlamento para a obra revolucionária dos comunistas, e a clareza da propaganda, assim como a preparação eficaz da luta final pela ditadura, exigem que os comunistas façam uma agitação pelo boicote das eleições por parte dos operários.

8. Nestas condições históricas, sendo o problema central a conquista revolucionária do poder pelo proletariado, toda a actividade política do partido de classe deve dedicar-se a este objectivo directo. É necessário quebrar a mentira burguesa de que todo o choque entre partidos políticos adversários, toda a luta pelo poder, se desenvolve no âmbito do mecanismo democrático, através das eleições e dos debates parlamentares. Isto não se poderá alcançar sem romper com o método tradicional que consiste em chamar os operários a votar — juntamente com os membros da classe adversária — sem pôr fim ao espectáculo de delegados do proletariado a trabalhar no mesmo terreno parlamentar que os seus exploradores.

9. A perigosa concepção que reduz toda acção política a lutas eleitorais e à actividade parlamentar tem sido demasiado difundida pela prática ultra-parlamentar dos partidos socialistas tradicionais. Por outro lado, a aversão do proletariado por esta prática de traição preparou um terreno favorável para os erros dos sindicalistas e dos anarquistas que negam todo valor à acção política e às funções do partido. Por isso, os partidos comunistas nunca alcançarão um grande sucesso na propaganda pelo método revolucionário marxista se não apoiarem o seu trabalho directo pela ditadura do proletariado e pelos conselhos operários, abandonando todo o contacto com o mecanismo da democracia burguesa.

10. A grande importância atribuída na prática à campanha eleitoral e aos seus resultados, o facto de durante um período muito longo o partido dedicar todas as suas forças e todos os seus recursos (pessoas, imprensa, meios económicos) contribui, por um lado, apesar de todos os discursos públicos e de todas as declarações teóricas, para reforçar a sensação de que é precisamente essa a acção central para os fins comunistas e, por outro lado, provoca o abandono quase completo do trabalho de organização e de preparação revolucionária, dando à organização do partido um carácter técnico totalmente contrário às exigências do trabalho revolucionário, seja ele legal ou ilegal.

11. Para os partidos que, por decisão da maioria, aderiram à Terceira Internacional, o facto de continuar a acção eleitoral impede a selecção necessária; pois bem, sem a eliminação dos elementos social-democratas, a Terceira Internacional falhará na sua tarefa histórica e não será o exército disciplinado e homogéneo da revolução mundial.

12. A própria natureza dos debates no parlamento e noutros órgãos democráticos exclui qualquer possibilidade de passar à crítica da política dos partidos adversários, a uma propaganda contra o próprio princípio do parlamentarismo, a uma acção que ultrapasse os limites do regulamento parlamentar. Da mesma forma, é impossível obter o mandato que dá direito à palavra se se recusar a submeter-se a todas as formalidades estabelecidas pelo procedimento eleitoral. O sucesso da esgrima parlamentar será apenas função da habilidade para manusear a arma comum dos princípios sobre os quais se funda a própria instituição e das artimanhas do regulamento; do mesmo modo, o sucesso da campanha eleitoral será sempre julgado única e exclusivamente pelo número de votos ou de mandatos obtidos. Todos os esforços dos partidos comunistas para dar um carácter completamente diferente à prática do parlamentarismo não poderão deixar de conduzir ao fracasso das energias gastas neste trabalho de Sísifo. A causa da revolução comunista exige imperativamente que sejam gastas, pelo contrário, no terreno do ataque directo ao regime de exploração capitalista.


AVANÇOS RECENTES DA DIALÉCTICA MATERIALISTA EM TROTSKY E OS SEUS EPÍGONOS

É bem sabido que Leon Davidovich se orgulha de ser um dialéctico irrepreensível, e que os seus discípulos, como os de Contre le CourantRedressement CommunistePrometheusLeninbund, etc., conseguem gerir mais ou menos felizmente recorrendo à dialéctica materialista.

Basta ler a resposta de León Trotsky a um decista (ou seja, um camarada da oposição do Centralismo Democrático do grupo dos 15: Sapronov, Smirnov, etc.) para ver como o ex-chefe do Exército Vermelho evita as perguntas precisas do camarada decista, opondo a cada passo a palavra dialéctica. Parece que esta expressão, no grande chefe que descobriu em 1929 na imprensa e na edição burguesa um meio equivalente ao «vagão fechado» de Lenine (¡), assume um significado esotérico incompreensível.

 

Em menos de um ano, León Trotsky renovou-nos periodicamente as provas de uma incoerência que não consideramos de todo dialéctica. Oferece-nos análises da situação russa que são cada uma contraditória com a outra. Dela tira conclusões que são a distorção de todo o método materialista e dialéctico. Evidentemente, para Trotsky e os seus seguidores, a palavra dialéctica tornou-se sinónimo de inconsequência.

 

Para aqueles que leram todos os diferentes documentos que Trotsky escreveu (cartas e artigos que apareceram maioritariamente no Contre le Courant, o órgão da Oposição de Esquerda (!) no PCF), não será difícil seguir-nos no exame e na crítica que vamos tentar à actividade ideológica do líder dos Endereitores do Comintern.

Num desses documentos, publicado na Redressement Communiste sob o título de "Nova Etapa", Leon Trotsky, no decurso de uma análise extremamente contraditória às conclusões que dela retira, diz-nos que a degeneração da ditadura proletária está numa fase de "pré-kerenskyismo inverso..." Conclusão: a ditadura do proletariado ainda existe.

Algum tempo depois, num artigo referido ao mesmo período e publicado no Contre le Courant, o próprio Trotsky anuncia que na Rússia estamos numa fase de "kerenskyismo invertido." Mas ele diz-nos ao mesmo tempo que o kerenskyismo ao contrário não é bonapartismo, mas sim "pré-bonapartismo." E numa carta aos operários da Rússia e de outros países, que também apareceu no Contre le Courant, nega ter afirmado que a ditadura do proletariado tivesse desaparecido na Rússia. Conclusão: O kerenskyismo ao contrário, o pré-bonapartismo é "ainda" a ditadura do proletariado.

É muito claro que o nosso grande teórico enriqueceu o materialismo histórico com duas descobertas sensacionais: o pré-kerenskyismo e o pré-bonapartismo. Quanto à base analítica destas revelações, encontra-se noutro artigo interminável de Trotsky em Contre le Courant, onde a natureza original destes dois fenómenos políticos é justificada como produto de um período de vários anos de reacção dentro da ditadura proletária.

Aqui é claro que o opositor de Estaline está num terreno puramente lógico e anti-dialéctico. Esquece a diferença de qualidade que separa a ditadura proletária da ditadura burguesa. Um deles é definido pelo seu processo de extensão ao domínio directo de todos os operários e, através da supressão das classes não proletárias, à abolição do Estado. A outra caracteriza-se pela concentração do poder directo nas mãos de um aparelho especial, guardião do equilíbrio de classes e do ambiente social actual.

Se considerarmos a profunda diferença admitida por Marx entre as ditaduras operária e burguesa, a premissa trotskista de uma natureza proletária de pré-kerenskyismo e pré-bonapartismo colapsa completamente. Se a ditadura do proletariado já não é a classe operária organizada como Estado, se o proletariado não se expressa através dos seus órgãos como força revolucionária em relação às outras forças de classe, o que resta dela? Quando uma minoria ou uma grande fracção composta por "advenedizos - palavra em espanhol que significa pessoas recém-chegadas a um lugar, a uma posição ou a uma atividade, muitas vezes com pretensões exageradas, NdT - da classe operária" (a palavra não nos pertence, pertence ao próprio Trotsky) reage ao resto, quando provoca modificações políticas e económicas reaccionárias, quando se organiza como uma camada social dominante em relação à outra parte, isto é, em relação ao verdadeiro proletariado, àqueles que permaneceram proletários, quando permanece na liderança política, reforçando a opressão destes proletários e fazendo compromissos com os seus exploradores, pode assumir-se que a ditadura está nas mãos do proletariado, ou está concentrada nas mãos de um aparelho estatal conservador, segundo o sistema burguês?4

O passo decisivo que separa a ditadura proletária do Estado burguês ainda não foi dado. Foi franqueado. A determinação da actual degeneração pode ser rastreada até à NEP, ao compromisso inicial entre os elementos proletários e burgueses da revolução russa, que criou um abismo entre a revolução russa e a revolução no Ocidente, que ofereceu uma base económica para o emburguesamento do aparelho proletário, de funcionários, empregados, etc., e que finalmente regressou e fixou a revolução russa numa fase infantil e burguesa. Foi a NEP que marcou o fim da hegemonia proletária.

É claro que, para o próprio Trotsky, não se trata de "uma reacção dentro da ditadura proletária", mas de um processo de diferenciação económica e social dentro da classe operária. O mérito de ter previsto plenamente este processo de diferenciação vai para Miasnikov, que em 1922, criticando a forma como o próprio Lenine aplicou a NEP (Myasnikov não condenou completamente a NEP como nós fazemos hoje e como os camaradas do Partido Comunista dos Trabalhadores da Alemanha fizeram muito antes de nós), não deixou de sublinhar o perigo da divisão da classe operária russa em duas partes.

Como apontámos acima, esta diferenciação, que leva uma parte da classe operária a sair de posições económicas e sociais verdadeiramente proletárias, provocou uma mudança na qualidade do aparelho governamental. Há o salto da quantidade para a qualidade com que Trotsky, Treint e outros "dialécticos" nos enchem. Apenas que os opositores do "Austro-Marxismo ao contrário" se recusam a vê-lo na realidade, sob o pretexto de que deve manifestar-se como uma reviravolta de uma peça, para um Outubro invertido, um "Termidor", uma "semana sangrenta", um "dois de Dezembro" (vê-se que as falsas analogias históricas não faltam e deixam o embaraço da escolha).

Neste terreno, opômo-nos a Prometeu (e isto porque se gabava de ser a imagem fiel do pensamento bordigista) a algumas das linhas de Bordiga contidas na Plataforma da Esquerda, onde apresentou a dupla hipótese de um "golpe" dentro da Rússia e de uma absorção "progressista" da vida social e política por elementos burgueses. É impossível enganar-se quanto a esta alternativa, que contém duas proposições em contraste óbvio. No entanto, Prometeu finge ver ali uma única hipótese, e depois toma a liberdade de nos aconselhar a não tentar interpretar Bordiga e Trotsky, que não têm melhores intérpretes do que eles próprios.

Quanto a Trotsky, devemos, entre tantas interpretações incoerentes, tentar pôr um pouco de ordem nós próprios.

Já aconteceu o salto dialéctico? Poderíamos afirmar isto segundo o próprio Trotsky, já que ele fala do kerenskyismo ao contrário e, ao mesmo tempo, cita (Carta ao Instituto Histórico de Moscovo) uma expressão de Lenine onde define o kerenskyismo como um bonapartismo podre. Agora, o bonapartismo, para Trotsky, só pode ser produzido por um salto, por um golpe de Estado, e para tal ele procura mesmo na trupe Voroshilov um embrião do Bonaparte russo.

Mas Trotsky oscila perpetuamente entre duas imagens da crise russa, entre duas definições – tão anti-dialécticas quanto possível – do kerenskyismo ao contrário. Num deles, as posições invertem-se relativamente ao kerenskyismo de 1917, ou seja, que a neo-burguesia e o seu Bonaparte ocupam em 1929, sob Estaline, a posição ascendente ocupada pelo proletariado e pelo partido de Lenine sob Kerensky e vice-versa. Mas assimilar as formas de governo que resultam em cada caso equivale a afirmar uma identidade de qualidade entre a classe burguesa e o proletariado, entre o poder dos burgueses e o dos operários, a fazer das duas classes em luta como as duas cabeças de uma figura de cartas. Na outra, trata-se do filme de Outubro projetando-se ao contrário, ou seja, que os atores não mudam de papéis, mantêm os seus atributos e a sua própria lógica, salvo que esta lógica procede como os caranguejos, que a pedra volta à mão que a lançou e que os papéis se recitam da última sílaba para a primeira. Não teremos a crueldade de insistir mais tempo sobre os méritos deste determinismo histórico aperfeiçoado em marcha atrás, cuja patente pertence sem dúvida ao fabuloso autor da máquina de Chicago, que, no caso de má venda de salsichas, devolvia o porco vivo.

Encostado à parede pelo operário Borodaï, que pede para tocar com o dedo o que resta da ditadura proletária, Trotsky fala de dialéctica, da heterogeneidade do partido e da dualidade do poder. Não é preciso ser dialéctico para notar a heterogeneidade de um partido onde os operários co-existem com uma maioria imponente de funcionários públicos e trabalhadores rurais, e onde o número de células podres ultrapassa largamente o das partes saudáveis. Mas a dialéctica torna-se necessária para sintetizar os aspectos contraditórios da realidade, para a reconstituir na sua unidade. O operário Borodaï, por outro lado, percebe as características fundamentais desta realidade: uma classe operária numericamente fraca, hierarquizada por consideráveis diferenças de salários e privilégios políticos, um partido e um Estado cujo funcionamento burocrático escapa ao controlo dos proletários através da interposição de um enorme aparelho burguês, células e sindicatos cujo papel principal é impor, em nome da fraseologia dos operários, a aceleração do trabalho e a punição dos "cabeças duras"; Tudo isto constitui um estado de coisas que não tem vários nomes. No entanto, o dialéctico Trotsky recusa-se a ver para além da bi-popularidade, da heterogeneidade do Partido, uma dualidade de princípios da qual ele retira arbitrariamente a noção de dualidade de poder. Recusa-se a ver que o polo "burguês" americano-soviético e o polo "proletário" trotskista estão ambos, de facto, integrados no aparelho governamental, no neo-bonapartismo de Estaline que oscila entre classes.5

Aqui encontramos novamente as gozações de Prometeu, que pretende rir-se de nós à custa de Marx e de Engels em pessoa: «Um Estado que oscila entre as classes, um Estado burguês!», exclama. Ora bem, para Engels, o bonapartismo tem um carácter «aparente entre as classes» (Origem da família, da propriedade privada e do Estado). Intermediário aparente, porque todo o governo que se apresenta como intermediário entre a burguesia e o proletariado na realidade joga para a burguesia. «Só o chefe da sociedade de 10 de Dezembro —observa K. Marx em O 18 Brumário— pode salvar a sociedade burguesa.» Este é o grito da burguesia francesa em 1851. Mas isso não é tudo. Marx chega mesmo a chamar Luís Bonaparte «o homem que personifica a burguesia». E no entanto, é o próprio Marx, e não só Engels, quem nos afirma na mesma obra que só sob Napoleão III «o Estado se nos apresenta pela primeira vez em plena posse da sua independência»." O mesmo se aplica, segundo Engels, ao governo de Bismarck; também oscila entre classes, mas também é um governo burguês. Quando Prometeu pensa que está a gozar connosco ao atribuir-nos a opinião de que o governo de Nitti oscilava entre classes, atribui-nos os bens dos outros. Esta é uma afirmação de Bordiga que, acreditamos, se encontra num artigo que teve de escrever sobre O 18 de Brumário de Karl Marx.

Em suma, nos grandes mestres do materialismo histórico, o Estado bonapartista é, no fundo, um Estado burguês do tipo mais completo, "ainda em potencial." A história confirmou o pensamento de Marx e Engels: foi através dos governos de Luís Bonaparte e Bismarck que a burguesia atingiu a sua plenitude económica e, a partir daí, a sua hegemonia total.

Quanto à ditadura proletária, a teoria ensina que não pode desenvolver socialismo nem preservar-se se não desenvolver a revolução proletária no terreno internacional. Isto é particularmente verdade para um país industrialmente sub-desenvolvido. No entanto, a revolução proletária não se desenvolveu em 1919-1920 nos países ocidentais na mesma extensão que na Rússia, e o seu fracasso levou o Partido Bolchevique a recuar no campo económico e político. O que restava para os bolcheviques de 1921 fazerem perante uma situação interna difícil? Em 1920, com a marcha sobre Varsóvia, fizeram uma tentativa suprema de acelerar o desenvolvimento revolucionário no Ocidente, embora não soubessem como tirar pleno proveito desta acção, o que Trotsky aparentemente considera um erro. Em 1921, havia apenas duas saídas para os comunistas russos: ou a luta desesperada e heroica contra as forças internas e externas da reacção e a "mais provavelmente" esmagamento e morte na luta, ou o compromisso com as forças burguesas, o abandono irresistível das posições revolucionárias, a suave absorção das forças comunistas nas novas relações burguesas de produção introduzidas pela NEP.

A NEP veio demonstrar esta verdade: que se o Estado burguês e a classe burguesa devem ser aniquilados para que a política dos operários se desenvolva, ou seja, a expropriação dos exploradores e a supressão da exploração, se por isso é impossível que a revolução proletária co-exista com formas burguesas de vida e governo, não é de modo algum impossível que um governo operário, sob certas condições, se alie pacificamente a uma política burguesa e, assim, abandone uma revolução proletária que começou, fixando-a na fase burguesa.

Enquanto não tiver modificado profundamente as condições sociais herdadas do capitalismo, enquanto se limitar à esperança, à possibilidade concedida ao proletariado para cumprir a sua missão histórica, a revolução e a ditadura do proletariado podem ser lentamente extintas; A burguesia pode retomar as rédeas através do intermediário dos homens de confiança da classe operária e, sob a máscara da acumulação socialista, pode reintroduzir a exploração que é a sua base para o desenvolvimento social.

Se se admite que a NEP era a única saída em 1921, reconhece-se a hegemonia das forças burguesas na revolução russa, reconhece-se que o proletariado ainda não tinha a consciência internacionalista revolucionária do seu papel de classe, reconhece-se que a hegemonia do PCR não expressava a da classe operária, antes era uma formação política onde se manifestavam as contradições de várias classes.

Esta abordagem ao problema merece uma crítica baseada numa análise muito profunda de todo o desenvolvimento histórico russo e internacional. É uma concepção que tem aspetos fortes e fracos; mas que não podem ser refutadas por considerações a priori.

Assim, esta concepção não conduz às posições social-democratas e mencheviques que eram as de Zinoviev e Kamenev em 1917. Estes últimos eram contra-revolucionários porque se opunham ao desenvolvimento futuro da revolução, um desenvolvimento no qual o proletariado tinha de participar, mesmo que fosse apenas um caminho para o estágio genuinamente proletário. Um marxista e um comunista têm o direito de considerar o conteúdo da Revolução Russa de 1917-1921 como burguês; Se este camarada tem os interesses da revolução em vista, não deve ser chamado de menchevique e contra-revolucionário. Também não se pode condenar como tal certos movimentos dirigidos contra a hegemonia revolucionária dos bolcheviques, que podem muito bem ter as fontes de classe mais genuinamente proletárias.

A revolta dos marinheiros de Kronstadt merece hoje uma análise mais objectiva e profunda do que as observações superficiais que Lenine lhe dedicou no seu Imposto em Espécie. A questão é se não foi um movimento mais revolucionário do que o dos bolcheviques. Em todo o caso, os bolcheviques nunca conseguiram provar que este movimento estava ligado às forças reaccionárias da burguesia internacional, e nunca conseguirão convencer revolucionários consistentes de que esses mesmos marinheiros e proletários vermelhos, a vanguarda do movimento de classes em 1905 e 1917, de repente se tornaram, em 1921, filhos de camponeses e até de kulaks...

O recuo para as posições da NEP foi legitimado por todos os epígonos do leninismo e até pelos elementos da Oposição Operária. Miasnikov e o Grupo Comunista dos Trabalhadores Russos acreditavam que a posição transitória da NEP poderia, sob certas condições, servir de base para um novo impulso das forças socialistas na Rússia, caso o movimento revolucionário internacional fosse retomado. Mas o compromisso inicial não pôde deixar de arrastar outros; Não havia possível trégua entre revolução e contra-revolução, entre a marcha para o socialismo e a marcha para o capitalismo. A NEP, económica e socialmente, não significava, como afirmavam os leninistas, uma "alternativa" entre socialismo e capitalismo, mas sim uma "ambiguidade": a marcha do capitalismo sob a máscara do socialismo. Politicamente, a NEP constituía a premissa de uma contradição fundamental entre o desenvolvimento da revolução no Ocidente e a reconstrução da economia na Rússia. Na verdade, tornou ilusória desde o início a conjunção entre os bolcheviques russos e as forças revolucionárias emergentes da Europa Central e Ocidental. Miasnikov queria aliviar as consequências da NEP estabelecendo a aliança dos bolcheviques com os ultra-esquerdistas, em vez do compromisso dos bolcheviques com os social-democratas. Esqueceu-se de que a própria NEP impedia os bolcheviques de procurarem aliança com o extremismo.

O caminho da luta proletária desesperada era, portanto, a única saída revolucionária. Implicava os mesmos deveres para os operários russos e para os comunistas dos países ocidentais. Foi com base nessa filosofia da ofensiva que Trotsky (o homem da revolução permanente) encontrou uma forma de condenar no Terceiro Congresso da Internacional Comunista.

Esta filosofia da ofensiva, que nos confere a qualificação de mencheviques do lado de Paz (Maurice Paz -1896–1985 - foi um advogado, jornalista e político francês, conhecido por ser um dos primeiros membros do Partido Comunista Francês  - PCF - e da Oposição Comunista de Esquerda ao lado de Leon Trotsky – NdT), é, no entanto, aquela que até os direitistas Bukharin, Humbert-Droz, Brandler, etc., defenderam durante a revolta revolucionária de 1920-1921; é aquela que Marx admira nas figuras viris da revolução burguesa de 1789-93. É bem ela quem anima os artigos de Lenine e Zinoviev de Contra a Corrente (e não, claro, os de Paz e Delfosse).

Foi esta filosofia da ofensiva que, no terreno da revolução permanente, levou Marx a considerar a guerra revolucionária contra a Europa como a única saída para uma revolução proletária em França em 1848. Foi também ela, sem dúvida, quem o fez ver em Blanqui a personificação daquela "ofensiva" que podia, já no século XIX, abalar a Europa burguesa e semi-capitalista num sentido proletário, tal como a Europa feudal já tinha sido derrubada pelos exércitos de Napoleão.

Mas a filosofia da ofensiva, da Revolução permanente, da guerra revolucionária, aquela bandeira vermelha que os bolcheviques em 1917 agitaram diante dos olhos da Europa aterrorizada, a NEP prudentemente enrolou. Os comunistas esqueceram-se do parágrafo final de Marx em A Pobreza da Filosofia: "Só numa ordem de coisas em que já não existam classes ou antagonismos de classe é que as revoluções sociais deixarão de ser revoluções políticas. Até lá, na véspera de cada remodelação geral da sociedade, a última palavra das ciências sociais será sempre: 'Combate ou morte: luta sangrenta ou nada. É assim que a questão é colocada invencivelmente' (George Sand)".

É possível dizer hoje que esta opção não foi colocada à Internacional Comunista em 1921? Pode dizer-se que apenas a morte aguardava os batalhões da revolução na luta suprema? Quem sabe se a furiosa ofensiva da revolução russa (o que Leon Trotsky hoje chamaria de política da aventura) não teria despertado as energias que existiam em potencial nas massas proletárias da Europa e de todo o mundo?

E sobretudo, como é que Trotsky e os outros endireitadores e dom Quixotes do leninismo não veem nesse momento histórico decisivo, naquele momento em que duas saídas decidiam a hegemonia proletária na Rússia, o salto dialéctico, aquela famosa mudança da quantidade na qualidade que ainda esperam hoje, como os homens da Idade Média esperavam o Apocalipse? Não será porque nesse salto dialéctico foram aquilo que continuaram a ser desde então, os reformistas hesitantes que as forças económicas e sociais trituraram no seu mecanismo?

É por isso que hoje não veem que é falso chamar um governo de ditadura do proletariado que, pelo seu próprio reconhecimento, desenvolve as forças da burguesia; que é falso, após tal erro, fingir ser marxistas e dialécticos.

A análise de Marx em 1871, baseada na experiência da Comuna de Paris, é um avanço em relação à intuição histórica contida no Manifesto Comunista. As conclusões que Marx retirou da Comuna, conclusões de grande valor para a luta de classes no Ocidente, foram, é verdade, distorcidas pela Social-Democracia. Lenine ajudou a restaurá-los à sua verdadeira aparência. Mas deve salientar-se que as conclusões que retirou da análise marxista e da experiência russa não ultrapassam as conclusões de Marx e até marcam uma certa regressão em relação à concepção marxista e engelsiana da ditadura do proletariado, uma regressão igualmente notória na teoria e na acção.

O leninismo não é, portanto, aqui um complemento moderno ao marxismo, assim como a revolução russa não é, nos seus resultados, uma superação da Comuna de Paris. O leninismo marca uma regressão em relação ao marxismo. Em Marx, a democracia operária não está identificada com a ditadura do partido. O que se pode retirar da concepção marxista é a necessidade da elite proletária, que não domina a classe operária, mas é apenas uma expressão ideológica e organizacional dela, que tende ao desenvolvimento pelo qual a revolução, o socialismo, será identificada com a própria classe na sua totalidade. O papel do Partido não é um papel de supremacia que tende a perpetuar-se, é um papel de educação, que completa a consciência política da classe operária.

Se a acção do partido não contribuir para o desenvolvimento do Estado-classe, a ditadura do proletariado, a democracia operária, etc., permanecem como expressões puramente teóricas. Na prática, o leninismo deu um golpe mortal à ditadura de classes ao subestimar e negar o papel dos conselhos de fábrica, que eram a base viva da democracia operária. Entorpeceu essa base, cuja passividade é surpreendente hoje. Ao mesmo tempo, o leninismo tende para uma justificação alargada do burocratismo. Em Marx, reina a mais rigorosa intransigência relativamente a esta manifestação que ele gostaria de suprimir completamente. Porque é que a preocupação com o perigo burocrático ocupa um lugar tão importante na análise de Marx? Porque é que ele marca a diferença entre o Estado burguês e o Estado dos operários nesse ponto exacto? Evidentemente, porque Marx via neste perigo o regresso das forças burguesas ao poder. É um elemento de grande importância teórica, porque prova que Marx não descartou a hipótese de um regresso do poder burguês, mesmo sem o "salto dialéctico". Se a pureza da democracia operária não atingir um máximo possível, pode facilmente degenerar. Acreditamos que esta diferença, aparentemente obliterada, uma diferença que só uma crítica objectiva ao leninismo e ao marxismo pode destacar, explica a atitude dos actuais dialécticos da escola leninista, Trotsky e os seus semelhantes. E até parece que os epígonos leninistas, Trotsky, etc., exageram o defeito fundamental do leninismo quando identificam o kerenskyismo ao contrário com a ditadura proletária. Pois, embora admitisse a burocracia, Lenine não identificava a sua existência com a da ditadura proletária, não identificava o Estado operário com o Estado burocrático da burguesia...

E, no entanto, é a esta horrível caricatura do marxismo revolucionário que agora chegaram, Leon Davidovich. Isto é o abandono, a traição doutrinária que tão alegremente repreendes outros, à maneira do primeiro filisteu bolchevique que veio. Trotsky acredita que o marxismo deve morrer com ele e com aquela deformidade repugnante da ditadura proletária que é o "kerenskyismo ao contrário"?... Não, a dialéctica inexorável da história não precisa das contradições de Trotsky consigo próprio para provar que o proletariado é a única força capaz de destruir a ordem burguesa e substituí-la pela economia socialista, já que o homem que, perante o kerenskyismo em 1917, adoptou os meios da violência revolucionária, hoje trata como aventureiros da política os elementos que querem adoptar os mesmos meios contra o kerenskyismo em 1928-29, e porque defende fortemente a reforma perante a opressão estalinista.

A história deixará Trotsky no seu reformismo, pois é aí que o espírito do líder do Exército Vermelho finalmente encalhou, pois tais são os últimos resultados, os últimos avanços da dialéctica em Leão Trotsky e nos seus epígonos.


AS CONDIÇÕES HISTÓRICAS DA REVOLUÇÃO RUSSA

Na Rússia, antes da revolução de 1917, existia um proletariado industrial de 6 milhões de operários realmente envolvidos no processo de produção. Multiplique este valor por 2,5 para obter o número exacto do proletariado industrial como um todo, e obtemos 15 milhões. Isto representava 8% da população russa na altura (180 milhões). Este pequeno grupo, em 1917, derrubou o czarismo e o capitalismo, despojou o capital e os latifundiários, e introduziu o comunismo na indústria, transportes e comércio. Como foi possível? Como poderia uma força tão pequena manifestar-se com efeitos tão grandes? Apenas por causa das condições particulares de produção e das relações de classe da Rússia.

O capitalismo estava sub-desenvolvido e, além disso, quase exclusivamente detido por capital estrangeiro. O czarismo, a classe dos latifundiários e a burocracia foram (tal como o capitalismo fraco) completamente destruídos pela guerra. Mas, acima de tudo, havia uma classe que veio em auxílio do proletariado: os camponeses pobres. Esta classe, extremamente numerosa na Rússia (refere-se o número de 20 a 25 milhões de homens), era a herança da servidão. Queria despojar os proprietários e distribuir as suas terras entre os seus membros. Apenas um partido tinha vontade de os ajudar: os bolcheviques. Foi por isso que os apoiaram. Só com a ajuda dos camponeses pobres é que os operários industriais, em pequenos números, conseguiram pôr em prática aquilo que parecia impossível: a construcção do comunismo. A Revolução de Outubro foi até fácil e rápida.

Se, então, as relações de classe explicam a própria revolução, não menos explicam a forma da revolução.

Na Rússia, os operários ainda estavam intelectualmente pouco desenvolvidos, o analfabetismo era quase generalizado. Os camponeses pobres estavam intelectualmente ainda mais baixos do que os operários. Por causa disto, desta situação particular de classe, não podia ser uma ditadura de classe dos operários e camponeses pobres. Só a ditadura de um partido (os bolcheviques) poderia liderar a revolução, conter a contra-revolução, tomar o comando dos operários e camponeses pobres, desempenhar o seu papel face aos estrangeiros, construir o comunismo.

Não poderia ter sido de outra forma. As relações de classe na Rússia tornaram a ditadura do partido absolutamente necessária e, com ela, em grande medida, a ditadura dos líderes.

A ditadura do partido e dos líderes e o arrastar de grandes massas pouco desenvolvidas eram consideradas algo natural no pensamento dos russos, algo que ocorre naturalmente.

Mas as relações de classe rapidamente tiveram mais uma consequência.

Quando rebentou a contra-revolução, enquanto a revolução na Europa ainda estava atrasada e a miséria crescia nas terríveis guerras contra a reacção e no estrangeiro (apesar das vitórias conquistadas sobre essas potências), então surgiu este facto: que o comunismo, construído por uma pequena classe operária e por uma ditadura partidária com a ajuda das grandes massas camponesas, era sobretudo nada mais do que aparência. A massa dos camponeses, a quem os bolcheviques tinham dado a terra, e que por isso se tinham tornado proprietários privados e não comunistas, exigia então liberdade de comércio. Os comunistas tiveram de a conceder, fazer concessões ao capital estrangeiro, aproveitar as minas, os poços de petróleo, as florestas, reintroduzir parcialmente o capitalismo. Estas mesmas relações de classe (em primeiro lugar, a preponderância do pequeno campesinato) que permitiram a um pequeno proletariado construir o comunismo, forçaram-no em breve a abandoná-lo parcialmente. Não só as relações de classe russas, mas também as relações de classe mundial, obrigaram-no a fazê-lo. Como o proletariado mundial não veio em socorro por insurreição, a Rússia ficou sozinha. E foi demonstrado que o comunismo não pode subsistir num único país.

Relações russas e de classe mundial foram assim impostas ao comunismo russo. O apoio de uma pequena classe, a ditadura do partido e dos líderes já não eram suficientes.

Se o proletariado mundial não vier agora em auxílio do proletariado russo fazendo a revolução, se a revolução mundial não acontecer, a revolução russa perecerá.

Assim, a influência, o poder das forças produtivas, seria demonstrado novamente de forma formidável e sem paralelo.

A revolução proletária de 1917 (foi em grande parte comunista, apesar do papel desempenhado pelos camponeses) seria vista como apenas para empurrar a burguesia russa e a sua democracia para o poder. Seria, portanto, no fundo, uma revolução burguesa. Sem dúvida, os frutos que teria trazido ao proletariado seriam inestimáveis. Porque mostrou ao proletariado mundial os caminhos e meios para a tomada do poder: os conselhos operários e a ditadura do proletariado.

Mas são as condições de produção e as forças produtivas: a escassez do proletariado, as grandes empresas industriais em número reduzido, a predominância da agricultura, o enorme número de camponeses pobres e não comunistas, que se teriam imposto na economia russa, apesar das enormes tentativas do proletariado russo, e que a teriam levado a seguir o caminho habitual do feudalismo ao capitalismo moderno e à democracia burguesa, para só chegar ao comunismo depois dessa etapa.

Enquanto no passado o proletariado era usado como auxiliar pela burguesia nas revoluções burguesas para derrubar o feudalismo e construir o Estado burguês, desta vez teria sido o próprio proletariado, pelo seu próprio movimento, que teria construído o Estado burguês.

Isso aconteceria se o proletariado mundial não viesse em auxílio do proletariado russo enquanto ainda houvesse tempo. Mas o poder das forças produtivas e das condições de produção, que dominam tudo, seria então provado de uma forma sem precedentes.

E com isto seria verificada a correcção incontestável do materialismo histórico.

Herman Gorter

Dezembro de 1921.


DEVEMOS CONQUISTAR OS SINDICATOS OU DESTRUÍ-LOS?

No século passado, no início do movimento da classe operária, Karl Marx inclinou-se a considerar, nos órgãos sindicais, as formas pelas quais a luta de classes conduzira a uma luta política e revolucionária. As experiências do cartismo, em particular, contribuíram para sustentar historicamente a visão de Marx de que os sindicatos, a escola do socialismo, seriam a arena da Revolução. Este acórdão não pode ser condenado se considerarmos o período histórico em que foi formulado.

Mas se nos referirmos à época presente, deve notar-se que os sindicalistas especularam indignamente sobre a antiga opinião de Karl Marx, para atribuir às formas sindicais a exclusividade do papel revolucionário. É um facto geralmente ignorado em França e Itália que Marx, como observador escrupuloso do desenvolvimento da luta de classes e como incansável opositor de todas as conclusões dogmáticas, não deixou de rever o seu ponto de vista à luz da experiência histórica. Percebeu que os sindicatos, presos nas arenas da resistência económica, já não eram os órgãos naturais da luta de classes, como os epígonos da escola leninista (trotskistas, bordigistas, brandleristas, etc.) ainda afirmam, mas que a sua função se limitava a resistir à tendência dos capitalistas para reduzir ao mínimo os custos da existência do capitalismo.

É um facto comprovado que esta resistência dos sindicatos não pode trazer qualquer melhoria real e geral à situação dos operários. A luta económica dentro dos limites da sociedade capitalista só permitiria ao operário perpetuar a sua vida de escravatura, mesmo quando as crises de desemprego não privassem grandes massas dos seus meios de subsistência.

Por outro lado, Marx observou que os sindicatos não tinham o papel de educadores revolucionários do proletariado. E esse era, para ele, o elemento essencial no desenvolvimento da luta de classes rumo à vitória do socialismo. É óbvio que nenhum revolucionário poderia perder de vista o ponto de vista fundamental que a libertação do proletariado e da sociedade como um todo contém em si.

O que Marx ainda não conseguia ver era o fim das organizações sindicais no pântano da colaboração de classes. Foi isso que vimos durante e após a guerra.

Após a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa, duas tendências confrontaram-se no movimento comunista, duas tendências que deram soluções completamente diferentes para o problema sindical. Alguns, os leninistas, defendiam a necessidade de conquistar os sindicatos, ou seja, substituir os líderes reformistas por líderes comunistas, ou revolucionar os sindicatos reformistas. Os outros, os extremistas da Alemanha, os tribunos da Holanda, defendiam a destruição dos sindicatos. Os sindicatos, como instrumentos de luta directa da classe proletária, foram contestados pelos conselhos revolucionários que surgiram espontaneamente na Alemanha durante os movimentos insurreccionários de 1918-1919.

Escusado será dizer que estas duas tendências não se manifestaram sem graus intermédios. Ainda havia elementos, fossem comunistas ou sindicalistas, que defendiam a saída dos sindicatos reformistas para formar sindicatos revolucionários.

Deve notar-se que o leninismo já tinha percebido, especialmente durante a guerra, a natureza contra-revolucionária dos sindicatos e a natureza burguesa do seu burocratismo. É muito estranho que este estudo não o tenha impulsionado para posições radicais. Em 1920, a escola leninista sentiu a necessidade de conquistar a simpatia das massas e assim conduziu o movimento revolucionário para o círculo vicioso da conquista dos sindicatos. Na realidade, a teoria de que os sindicatos eram os órgãos naturais do proletariado não tinha justificação histórica. Embora estes órgãos tivessem sido tais na sua origem, já tinham dado evidências da sua degeneração durante e após a guerra. Já não eram apenas órgãos não revolucionários, como Marx os definira, mas também órgãos que conduziram à colaboração de classes, à vitória das forças contra-revolucionárias. E não é sem desagrado que lemos no discurso de Bordiga no Segundo Congresso da Comintern sobre a questão parlamentar que "o sindicato, mesmo quando é corrupto, permanece sempre um centro operário". Esta afirmação é tão infantil que qualquer um consegue perceber a sua óbvia inconsistência. Bordiga, que quer legitimar a teoria leninista da conquista, legitima a possibilidade dessa conquista mesmo por órgãos sindicais reaccionários, até por corporações fascistas. Esta forma de abordar o problema sindical é, além disso, abstracta e anti-histórica. Se os sindicatos são corruptos, certamente não é por causa da existência do reformismo. O reformismo é, pelo contrário, um produto da evolução dos sindicatos numa direcção contra-revolucionária. O revisionismo na Alemanha desenvolve-se na Social-Democracia e domina-a, mas tem as suas raízes, a sua força, nos sindicatos. A teoria da conquista, que admite a regeneração sindical, parte obviamente do ponto de vista de que forças externas corromperam os órgãos de resistência proletária e que estas devem ser expulsas para colocar as forças revolucionárias no seu lugar. Se partirmos deste ponto de vista – que a corrupção sindical como fenómeno histórico encontra a sua razão de ser na natureza do sindicato – não se trata de querer reconciliar as novas formas revolucionárias com as antigas, ultrapassadas e corruptas formas da luta de classes. No entanto, as elites políticas revolucionárias, cujo embrião já se encontrava na Social-Democracia internacional antes e durante a guerra e que se manifestaram nos núcleos e partidos comunistas do período imediatamente pós-guerra, são, segundo a teoria da conquista, os órgãos que surgiram para revolucionar as massas na antiga organização sindical. Mas vai mais longe! Os conselhos de fábrica, que não são produto de uma acção de conquista das massas, os conselhos de fábrica que foram formados sobretudo na Alemanha após a guerra e que entram na sua forma e actividade revolucionária em conflito com os sindicatos, não têm importância para os teóricos da teoria da conquista. Na prática, a teoria da conquista, cegando-se para o conflito entre os sindicatos e os conselhos, rebaixou estes últimos ao nível de órgãos legalizados, subordinados à linha contra-revolucionária da CGT alemã.

Assim, a natureza anti-dialéctica da conquista emerge da experiência histórica do movimento alemão. Nega o conflito entre os conselhos revolucionários e os sindicatos, ou seja, entre as forças proletárias na fábrica e a burocracia sindical. Pretende usar as novas forças políticas para regenerar os sindicatos; Mas toda a actividade dos conquistadores não impede que estas formas sejam regeneradas de se corromperem cada vez mais. Não impede a aplicação da arbitragem compulsória; além disso, as forças da conquista são forçadas a manobrar no meio da colaboração de classes. O leninismo, que sempre se vangloriou de estar acima de tudo no campo da destruição do Estado, não compreendeu que os órgãos corruptos também devem ser destruídos. Contra os sindicatos, mostrou-se totalmente reformista, se não reaccionário. A actividade revolucionária das elites políticas do proletariado nunca deve submetê-las ao processo histórico, nunca deve consistir em ocultar conflitos e fingir resolvê-los por um sistema de estratégia inversa.

A falência desta estratégia leninista parece-nos hoje incontestável. Ninguém poderia negar isto se considerarmos os resultados que acabámos de notar. E é o auge da inconsistência que os conquistadores ainda se agarrem como uma tábua de salvação a esta teoria que a experiência histórica condenou definitivamente. Organizações corruptas não são conquistadas, são destruídas.

O extremismo infantil, contra o qual o leninismo, encorajado por estes sucessos temporários, dirige os dardos da sua ironia em 1920, não foi abalado na sua teoria da destruição pela onda de entusiasmo que, naquele momento, cegou o espírito de muitos revolucionários. Não era uma teoria abstracta e anti-dialéctica que quisesse aplicar sistemas anódinos à história. O leninismo, através da grande difusão das suas teorias e concepções, conseguiu espalhar uma caricatura do extremismo. E o próprio Bordiga contribui para desfigurar o extremismo quando, no seu discurso no Segundo Congresso da Comintern, o assimila ao sindicalismo. No entanto, a teoria "destrutiva" do extremismo é precisamente anti-sindicalista. O sindicalismo idealiza as formas sindicais, vê nelas eternamente a renovação das forças revolucionárias. No sindicato, o socialismo alcança o seu objectivo, as suas formas perfeitas.

Em suma, para esta teoria a união é a única forma, a forma eterna, que está sempre rejuvenescida na luta de classes. O sindicalismo identifica assim a luta de classes com o sindicato. E nisso, não estaria longe do leninismo, se a questão do partido não existisse para os separar.

O radicalismo ou extremismo realizou as modificações que o processo histórico trouxe às formas da luta de classes. Ele vê bem que o que é corrupto nunca pode ser curado. É o produto das experiências da história da luta de classes na Alemanha; é uma força viva que surge do desenvolvimento da revolução. Não é uma teoria abstracta, como o sindicalismo, não é um anacronismo na revolução proletária da Europa Ocidental, como o leninismo.

Na Alemanha, o revisionismo defendia a colaboração de classes e, tendo raízes nas organizações sindicais, invadiu todos os círculos social-democratas. Após o início da guerra, o revisionismo triunfa. A burocracia sindical, a aristocracia laboral, já tinham infectado a Social-Democracia e os sindicatos. Eram produto do desenvolvimento capitalista e, ao mesmo tempo, das formas puramente económicas que a luta de classes tinha assumido. Estas formas puramente económicas de luta por reivindicações parciais tinham alimentado o social-chauvinismo dentro da classe operária, a crença de que as melhorias do proletariado eram possíveis sob o domínio capitalista. É evidente que este preconceito levou os operários a acreditar que o seu bem-estar dependia sobretudo da supremacia da sua pátria capitalista (este preconceito ainda é generalizado entre os operários franceses hoje). Assim, a luta pelos meios de subsistência levou, nas suas formas sindicais, ao limiar da colaboração de classes. A guerra integrou o aparelho burocrático dos sindicatos no aparelho governamental da burguesia (o que aconteceu até em França para a CGT). A colaboração de classes foi oficialmente proclamada pelos órgãos sindicais, que negaram a possibilidade de luta de classes durante a guerra, que empurrou os operários para a guerra capitalista, como fiéis servos do imperialismo.

A classe operária alemã viu-se assim confrontada com um fenómeno histórico que transformou órgãos originalmente classistas em armas dóceis nas mãos do capitalismo. Certamente, os sindicatos lutaram pela jornada de oito horas, pelos aumentos salariais, conseguiram aproveitar a situação económica para extrair concessões do capitalismo que eram respeitadas mesmo em períodos de crise. Mas essas concessões foram apenas relativas, se considerarmos o gigantesco desenvolvimento do capitalismo e os seus lucros. Eram, como os acontecimentos subsequentes demonstraram, extremamente precários. Os resultados da luta pelos meios de subsistência levaram à formação de sindicatos que incluíam milhões de operários. No topo destes órgãos forma-se um aparelho burocrático centralizado e numeroso. Este estrato burocrático, que retirava a sua força sobretudo da parte mais privilegiada da classe operária, a aristocracia operária, que nunca compreendeu as aspirações das camadas mais baixas do proletariado, não conseguiu manter o espírito revolucionário e de classe. Pelo contrário, desligou-se completamente dos seus hábitos e ideias da classe de onde vinha. A sua ideologia tornou-se assim capitalista e conservadora. Na verdade, a preservação deste estrato social não era, nem é ainda possível, excepto pela perpetuação do regime capitalista. A revolução proletária visa suprimir tudo o que é parasitário na sociedade. Agora, o burocratismo não passa de um fenómeno parasitário que a ascensão do capitalismo desenvolveu, que as classes exploradoras favoreceram e sustentaram em seu interesse. O burocratismo estatal cresceu imenso sob a dominação burguesa, mesmo em países onde, inicialmente, era apenas um elemento desprezível. No seu desenvolvimento, o burocratismo sindical andou de mãos dadas com o burocratismo estatal. Na Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, estes dois elementos sociais não têm diferença entre si. Não é extraordinário que a burocracia sindical tenha absorvido a ideologia burguesa; que tentou, por vezes com sucesso, a mistificação da ideologia proletária e a corrupção da própria classe operária.

Ao distanciar-se da classe operária enquanto força histórica revolucionária, na sua colaboração com o capitalismo, a burocracia sindical idealizou a sua condição social numa teoria de colaboração inter-classes. Era natural que estendesse esta teoria a toda a classe operária.

Há pessoas que explicam o fenómeno da colaboração entre sindicatos e Estados como um fenómeno transitório, como consequência de uma calma na luta de classes. Estes elementos idealizam a união; Fazer da União uma forma eterna da luta de classes. Falham em compreender a diferença entre todo o processo da luta de classes e as suas formas, que nem sempre são as mesmas. Estas pessoas estão até inclinadas a acreditar que, uma vez que negamos a idealização das formas (que lhes é própria), negamos mesmo a luta de classes.

O próprio Trotsky não percebeu há algum tempo que as formas naturais da luta de classes já não são os sindicatos. Afirma no seu documento de 1917 que, em países que não a Rússia, os órgãos da revolução serão provavelmente os comités de fábrica e até os sindicatos. Há confusão óbvia aí. Em Trotsky, o ecletismo chega ao ponto de admitir que estas duas formas de luta de classes são idênticas. Nesta concepção, o sindicalismo puro mistura-se com radicalismo; A antítese histórica destas duas formas desaparece, e a ideologia burocrática é assimilada à ideologia puramente proletária. O reformismo forma uma frente unida com a revolução. É, além disso, surpreendente que os elementos de La Révolution Prolétarienne ainda não tenham abraçado este argumento que Leon Trotsky lhes empresta tão levianamente. Estes elementos, através do canal da idealização dos sindicatos, chegaram hoje à idealização do Labour. Louzon, o líder teórico da Liga Sindicalista, chegou, com base num determinismo geográfico (que nada tem a ver com o determinismo histórico e materialista), a encontrar o ponto de encontro do económico e do político no Trabalhismo inglês e belga. Resolveu de forma prática e consistente, no terreno ideológico da Liga Sindicalista, os problemas da revolução que Loriot teoricamente colocara no seu panfleto. Deu uma forma viva ao fantasma ideológico de Loriot. Chambeland já fez mais. Praticamente aproximou a Liga Sindical do Labour. Fez um pedido de desculpas muito diplomático pela conciliação obrigatória, a posteriori. Pierre Naville, que ainda não encontrou uma forma precisa para o seu surrealismo revolucionário, acrescenta uma nota apologética a este quadro trabalhista: honestidade revolucionária!

Nada mais grotesco poderia ser imaginado do que este papel de liderança na revolução atribuído ao sindicato. O sindicato que destruiu todos os movimentos revolucionários, com o seu burocratismo colossal e infectado! O sindicato que, na Rússia, é hoje a arma do Estado bonapartista para manter o regime triangular nas fábricas soviéticas! O sindicato que, em Itália, já não ocorre excepto sob a forma da pura opressão do proletariado, nas corporações!

As pessoas que idealizaram o sindicato ao ponto de o tornarem o órgão mais sensível, até o mais revolucionário durante a ditadura do proletariado, não consideraram os resultados de um século de luta de classes. Não viram, e ainda não veem hoje, que a luta de classes, se por um lado criou o sindicato, hoje, para alcançar formas superiores e revolucionárias, já não pode encontrar a sua expressão nas organizações sindicais. Eles não compreendem que, se o ponto de partida da luta de classes for puramente económico, o desenvolvimento da consciência proletária historicamente excede o impulso puramente económico. A concepção destas pessoas rebaixa a dialéctica materialista ao nível de uma teoria puramente utilitarista. Ele não compreendeu que as formas económicas da luta de classes contrastam com as formas revolucionárias, precisamente porque as primeiras tendem a limitar as segundas. Certamente, a luta económica tem oferecido e ainda oferece um campo de experiência que, de outra forma, se torna cada vez mais restrito. As convulsões económicas são até muito frequentemente o ponto de partida de convulsões revolucionárias (nem sempre). Esta tendência dos movimentos económicos para se tornarem movimentos políticos é um fenómeno que encontra a sua razão na natureza das classes. Mas esta tendência espontânea, por si só, não podia servir para a realização da revolução. Sem isso, a revolução teria sido realizada há muito tempo. O elemento da espontaneidade revolucionária encontrou limites na falta de experiência da classe operária. E esses limites devolveram as massas às suas posições económicas iniciais. Os sindicatos têm sido e são a expressão organizada destes limites. Certamente, a espontaneidade da luta de classes, os seus movimentos, tendem a generalizar-se, os seus graus de poder estão, em certos períodos, num crescendo cada vez mais acentuado. E essa espontaneidade levou, na Alemanha e em Itália (no momento da efervescência revolucionária mais intensa), à formação mais ou menos incompleta dos conselhos de fábrica. Em Itália, a espontaneidade do movimento revolucionário assumiu uma forma original do ponto de vista histórico. Na ocupação das fábricas, a espontaneidade do movimento empurrou a classe operária para a expropriação directa das fábricas, efectuada não por decreto de um governo constituído, mas pela acção das massas operárias mais avançadas. Além disso, esta acção revolucionária não deve ser confundida com a acção puramente sindical, que nunca ultrapassou a escala deslizante e uma política de tarifas, que era absurda do ponto de vista revolucionário. O movimento dos metalurgistas italianos ultrapassa os limites do que se acorda ser chamado económico. Aqui poderíamos ser apontados que não existe uma economia pura do ponto de vista marxista, que todo movimento económico é um movimento político embrionário. Já apontámos que existe uma tendência em todo movimento económico do proletariado para se tornar um movimento político, mas observámos que existem forças que levam esses movimentos de volta aos limites do económico. Por outras palavras, o elemento económico tem um duplo aspecto. Desenvolve-se com base num dilema: a luta pelos meios de existência ou a luta pela revolução. Até agora, há apenas muito poucos exemplos disto, o dilema encontrou uma solução histórica revolucionária, e isso sempre aconteceu fora das formas de organização sindical. O exemplo da ocupação das fábricas mostra-nos o caminho que a revolução seguirá num futuro próximo em Itália. Supera na sua espontaneidade todos os métodos anteriores de luta. Além disso, é apresentado como um fenómeno de verdadeira unidade: deve notar-se que este movimento, inicialmente, foi uma iniciativa da categoria dos metalúrgicos, espalhou-se entre as outras categorias. E se este movimento não tivesse sido travado, teria alcançado toda a classe operária. Muitas pessoas acreditam que foi produto da acção sindical da federação metalúrgica. Angelica Balabanoff, nas suas memórias, tenta diminuir a importância deste movimento quando alude a um movimento análogo que teria sido provocado na realidade pelos fascistas antes da ocupação das fábricas em Setembro de 1920. Não atribui qualquer importância ao grande movimento de Setembro e não procura de forma alguma analisar as suas causas e desenvolvimento. É claro que, para ela, como para tantos outros, é uma acção puramente sindical. Deve notar-se primeiro que a ocupação de Setembro foi precedida por dois movimentos muito significativos. O movimento dos conselhos de fábrica em Turim e a ocupação dos Fliani e Silvestri em Nápoles. A primeira foi empurrada para um terreno puramente reformista pelos elementos comunistas do L'Ordine Nuovo, para o terreno do controlo da produção. A ocupação dos Fliani e Silvestri, no seu isolamento, se considerarmos que ocorreu em Nápoles, um pouco mais distante do verdadeiro centro industrial, foi um sintoma muito significativo das tendências revolucionárias que agitavam as massas italianas. Foi resolvida pela resistência dos operários às forças policiais e pelo assassinato de um membro do Soviete que se tinha formado dentro da fábrica ocupada.

A grande ocupação de Setembro de 1920 foi provocada pela ocupação espontânea dos operários de algumas fábricas na Ligúria e em Milão. Foi como resultado destes movimentos espontâneos que a Federação dos Metalúrgicos tomou a iniciativa de ocupar as fábricas, que se teriam desenvolvido, além disso, para além da vontade dos líderes do movimento sindical. E não foram apenas os operários desta organização, mas a totalidade dos metalúrgicos que participaram neste movimento... Os líderes da Federação declararam que o carácter do movimento era puramente económico. O movimento dos conselhos, que se desenvolveu durante a ocupação das fábricas, era de extrema preocupação para os dirigentes sindicais, que lhe propuseram, tal como os ordinovistas em Turim, um papel reformista de controlo sobre a produção. É muito estranho e contraditório que Bordiga tenha levado este argumento não só para condenar o "Ordinovismo", mas para justificar o papel clássico da CGT italiana. Bordiga demonstra, nesta circunstância, que não compreendeu a realidade do conflito que se desenvolveu durante a ocupação das fábricas em Itália. Evidentemente, para ele, a tradição de classe da CGT italiana impõe-se aos conselhos, que até lhe parecem órgãos reformistas. Escusado será dizer que a forma que os ordinovistas e reformistas italianos tentaram dar aos comités de fábrica foi reformista. Mas a sua verdadeira forma não era a que os reformadores tentaram dar-lhes. A sua forma real tendia a ser realizada na hegemonia política e nisso era revolucionária. O desenvolvimento posterior da ocupação das fábricas teria dado aos conselhos de fábrica o papel de liderança política. Mas os limites do económico, representados não só pela Federação Metalúrgica e pela CGT italiana, mas por todas as organizações sindicais (Sindicato Italiano, Federação dos Navios Longos, Sindicato dos Trabalhadores Ferroviários, etc.), todas as organizações políticas impuseram limites económicos ao movimento ou aceitaram-nos sem opor resistência, o que equivale à mesma coisa. Entre eles estavam também os elementos que fundaram o Partido Comunista, quatro meses depois, em Livorno.

O movimento de Setembro de 1920 em Itália mostra mais uma vez que, se o ponto de partida económico pode levar o proletariado a posições espontaneamente revolucionárias, os sindicatos tendem a trazê-lo de volta ao ponto de partida. A vitória dos conselhos em Itália marcou o fim das organizações sindicais. E, no entanto, deve notar-se que o desenvolvimento da aristocracia operária tinha sido extremamente fraco em Itália. E a burocracia sindical era, comparada com a de outros países, relativamente limitada, embora não fosse menos corrupta nem menos astuta.

As organizações sindicais que lideravam socialistas de extrema-esquerda, anarquistas e sindicalistas revolucionários, não eram menos do que os outros órgãos que se opunham ao avanço da revolução, que a devolveu aos limites do económico, provocando a ofensiva reaccionária e a derrota do proletariado. Estas organizações, onde o maximalismo verbal dos líderes expressava geralmente o medo das massas revolucionárias, foram organizações contra-revolucionárias no processo revolucionário da luta de classes em Itália. O caminho da revolução em Itália, como noutros lugares, não é o dos sindicatos. A tentativa de renovar a experiência sindical, após o fim ignominioso deste movimento, é um anacronismo contra-revolucionário. Colaborar na restauração de órgãos onde a revolução já descobriu inimigos significa trabalhar na direcção da contra-revolução.

Prometeu observou correctamente que negamos qualquer forma de organização de massas em Itália. Devemos notar que, desde a nossa saída da facção Bordigista, começámos a pensar, a reflectir com uma mente mais livre. Sem qualquer compromisso disciplinar que nos forçasse a um cretinismo dogmático, tivemos de encarar a realidade de frente. Pareceu-nos um pouco diferente do que nos tinham feito ver. E a realidade que vimos e examinámos não é o sonho do nosso pensamento, é, bem, a história do movimento de classes em Itália. Existem, como sabemos, organizações de massas em Itália: são as corporações fascistas, que são, tanto quanto os sindicatos na Alemanha, Rússia, etc., as prisões da consciência de classe, do espírito proletário. As corporações são para os sindicatos o que o fascismo é para o reformismo. Ou seja, duas coisas perfeitamente análogas e complementares. Estes são os elementos mais recentes da experiência no espontâneo: onde os sindicatos não alcançaram, através da evolução gradual e corrupção devido a uma aristocracia laboral muito forte e burocracia sindical, colaboração progressiva de classes ou fascismo económico, não deixaram de desempenhar um papel contra-revolucionário.

(continua)


ANARQUISTAS, SOCIAIS-DEMOCRATAS E GREVE GERAL

Para o pensamento anarquista, a especulação directa sobre a Revolução é um facto superficial e acessório. O essencial é a forma abstracta e anti-histórica de apresentar a greve geral como um meio que condiciona toda a luta proletária. Para os anarquistas, existem apenas duas premissas materiais para as suas especulações revolucionárias: o sonho utópico e a boa vontade e coragem para tirar a humanidade do vale da miséria onde o capitalismo a mantém. Do sonho destaca-se a razão, já com sessenta anos de vida, de que a greve geral é o meio mais rápido, seguro e fácil de saltar para uma melhor ordem social. É no sonho que a especulação pela qual a luta económica é apresentada como a única verdadeira "acção directa das massas" e, consequentemente, a única luta revolucionária, encontra a sua justificação (aqui está o novo capricho dos "sindicalistas" franceses e italianos). O que se revelou fatal para os anarquistas não foi apenas o aspecto utópico dos seus métodos improvisados de luta no sonho, mas a realidade imprevista que os transferiu do terreno da especulação revolucionária para o da prática, onde se tornaram de facto agentes da reacção.

Aqueles que quiseram fixar na Alemanha, através da deliberação de uma direcção, o dia exacto para desencadear a greve geral, e aqueles que igualmente, nos congressos sindicais de Colónia, tentaram (proibindo a propagação desta solução do problema) fazer desaparecer a greve geral do mundo, colocam-se no mesmo terreno e consideram o problema de forma igualmente abstracta e anti-histórica. Estas duas tendências, retomando a concepção anarquista, pretendem que a greve geral é um simples meio técnico de luta que se pode desencadear ou proibir à vontade. A greve geral é para eles uma espécie de canivete que se guarda e de que se usa quando se quer.

Os opositores da greve geral fingem ter em conta o terreno histórico e as condições materiais da situação actual na Alemanha, em oposição aos "românticos da revolução" que voam nas nuvens e não querem ter em conta a realidade e as suas possibilidades e impossibilidades. "Factos e números, factos e números", gritam como a personagem do romance de Dickens. O que os opositores sindicais da greve geral querem dizer por "terreno histórico" e "condições materiais" é, por um lado, a fraqueza do proletariado, por outro, a força do militarismo germano-prussiano. A inadequação das organizações operárias, a situação do tesouro e a ameaça das baionetas prussianas, estes são os "factos e números" nos quais estes líderes sindicais baseiam a sua política prática num dado momento. Agora, as caixas sindicais e as baionetas prussianas são fenómenos muito materiais e históricos, mas a concepção baseada nestes elementos não é um materialismo histórico no sentido de Marx, mas sim um materialismo policiesco no sentido de Puttkamer. Os representantes da polícia e do Estado capitalista têm em conta a verdadeira força do proletariado organizado e, ao mesmo tempo, da força material das baionetas e, tendo considerado dois conjuntos de cifras, nem sempre tiram a conclusão clara que aqui vemos: o movimento operário revolucionário é sempre provocado pelos instigadores e cabecilhas dos motins, pois temos nas nossas prisões e com as nossas baionetas um meio suficiente de controlar este desagradável "fenómeno passageiro".

A classe operária consciente de classe na Alemanha há muito compreende o papel burlesco da teoria da polícia, uma teoria que afirma que todo o movimento operário moderno é o produto artificial e arbitrário dos actos e acções de um punhado de líderes e agitadores inconscientes.

Mas é precisamente a mesma concepção que se revela quando corajosos camaradas se unem para alertar o proletariado alemão contra a perigosa propaganda de alguns "românticos da revolução" e contra a sua concepção da greve geral; Ou quando, por outro lado, abre caminho a uma campanha emocionada daquelas pessoas que se iludem sobre a possibilidade de uma greve geral resultante de acordos confidenciais entre a liderança do partido e a comissão geral das organizações sindicais.

Se as greves gerais dependessem da "propaganda incendiária" dos românticos da Revolução ou das decisões confidenciais ou públicas dos líderes do partido, não teríamos tido uma única greve geral na Rússia. Em nenhum país houve tão poucos sonhos como na Rússia (como provei já em Março de 1905 no Sachs Arbeiter Zeitung). Na Rússia, não se tratava nem de propagar, nem sequer de "discutir", a greve geral. E os exemplos isolados de decisões e acordos da liderança do partido russo, que deveriam ter provocado a greve geral, falharam, como a última tentativa em Agosto deste ano após a dissolução da Duma.

Se a revolução russa nos ensina algo, é acima de tudo isto: que a greve geral não é um produto artificial, programado e decretado, mas um fenómeno histórico que necessariamente ocorre num dado momento com base nas relações sociais existentes. Este problema não podia ser considerado e discutido através de especulações abstractas sobre a possibilidade e impossibilidade, a utilidade ou a influência prejudicial da greve geral, mas apenas através do exame das condições sociais e históricas, de onde resulta esse fenómeno particular da fase actual da luta de classes. Por outras palavras, não se trata de um juízo subjectivo determinado pelo que é desejável, mas de uma análise das fontes da greve geral do ponto de vista da necessidade histórica.

Na liberdade da análise lógica e abstracta, pode-se também demonstrar a absoluta impossibilidade e o certo desastre ou, pelo contrário, a possibilidade total e a vitória indiscutível da greve geral. O valor da demonstração é, portanto, o mesmo em ambos os casos, ou seja, nulo. Tal como o medo da propagação da greve geral que provoca tantos anátemas contra os alegados culpados desse crime, é o simples resultado de um quid pro quo educado. É tão impossível propagar a greve geral como meio abstracto de luta como propagar a revolução. "Revolução" e "greve geral" são ideias que representam simplesmente uma forma externa da luta de classes e que têm significado e conteúdo apenas em relação à totalidade das situações políticas.

Qualquer pessoa que proponha fazer da greve geral, como forma de acção proletária, o objecto de uma agitação predestinada, e espalhe esta "ideia" para conquistar a classe operária, segundo ele, acabaria gradualmente por desperdiçar o seu tempo numa actividade absurda e sem sentido. Seria o mesmo se alguém quisesse tornar a ideia de revolução e luta de barricadas um objecto de agitação. A greve geral tornou-se hoje o ponto central do interesse vital da classe operária alemã e internacional, pois é uma nova forma de luta e, como tal, o sintoma de uma profunda revolução nas relações e condições da luta de classes. É uma boa prova do saudável instinto revolucionário e da consciência viva das massas operárias alemãs que, apesar da amarga resistência dos seus líderes sindicais, se voltam para este novo problema com tanto interesse. Não é possível responder a esse interesse, a esta nobre sede intelectual e a este entusiasmo revolucionário pela acção, que é produzido entre os operários, por uma ginástica cerebral abstracta sobre a possibilidade e impossibilidade da greve geral. Pelo contrário, deve ser respondida esclarecendo o desenvolvimento da revolução russa, o significado internacional desta revolução, a nitidez dos contrastes de classes na Europa Ocidental, as perspectivas futuras da luta de classes na Alemanha e o papel e as tarefas das massas na luta que se avizinha. Só nesta forma a discussão da greve geral pode contribuir para alargar o horizonte do proletariado, aguçar a sua consciência de classe, aprofundar o seu pensamento e fazer brilhar o seu poder de acção.

Se nos colocarmos neste ponto de vista, veremos todo o ridículo dos métodos usados pelos opositores da greve geral para condenar aqueles que não resolveram o problema seguindo à risca a resolução de Jena. Os "homens políticos de bom senso prático" estão em pleno acordo ao declarar que esta resolução combina a questão da greve geral com a questão do sufrágio universal, o que lhes permite acreditar que, primeiro, a greve geral deve ser assegurada por este meio um carácter defensivo e, em segundo lugar, que está subordinada ao parlamentarismo e que a transforma num mero acessório do parlamentarismo.

A verdadeira substância da resolução de Jena sobre esta questão é que uma tentativa de reacção contra o sufrágio universal marcaria, na situação actual, o início de um período de lutas políticas tempestuosas em que a greve geral seria certamente aplicada pela primeira vez como meio de luta. O campo de acção social e histórica da greve geral não podia ser delimitado ou limitado por um congresso partidário. É um empreendimento tão limitado quanto a proibição de discussão sobre esta questão levantada no congresso sindical em Colónia. Na resolução do Partido de Jena, a Social-Democracia Alemã registou oficialmente a grande mudança que a revolução russa trouxe às condições internacionais da luta de classes, e destacou a sua possibilidade de desenvolvimento e adaptação às novas exigências da próxima fase da luta de classes. Aqui reside a importância do Congresso de Jena. No que diz respeito à implementação da greve geral na Alemanha, será a história que decidirá, como já decidiu na Rússia; na qual a social-democracia é, sem dúvida, um factor importante nas suas decisões, mas apenas um entre outros.

Na discussão actual na Alemanha, a greve geral é considerada algo muito simples, claro e claramente especificado. Fala-se de uma greve geral política. É proposto um único e grandioso desdobramento das forças do proletariado industrial, preparado antecipadamente e libertado num determinado momento. Deveria ser o resultado de um plano bem estabelecido, com base num entendimento entre a liderança do partido e a das organizações sindicais, um plano em que o equilíbrio material da greve geral já estivesse predeterminado.

Se compararmos este esquema teórico com a greve geral na realidade, tal como ocorre na Rússia há cinco anos, teremos de concordar que o plano que forma o substracto da discussão actual na Alemanha quase não corresponde às numerosas greves que ocorreram na Rússia; por outro lado, essas greves têm um aspecto tão variado que é impossível falar «da» greve das massas ou de uma greve das massas esquematizada de forma abstracta.  Todos os momentos da greve geral, bem como o seu carácter, não são diferentes nas várias cidades e regiões do território nacional, mas o seu carácter geral mudou repetidamente durante a revolução. As greves das massas tiveram e ainda têm na Rússia a sua história particular. Quem fala da greve geral na Rússia deve, antes de mais, ter à frente a sua história.

Rosa Luxemburg

17 de Abril de 1912


O Trabalhador Comunista

Órgão de los Grupos Comunistas Operários

Número 1

Agosto de 1929

Tradução e edição:

Colectivo Comunista dos Operários

Fonte original em francês:

https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/gauchescommunistes-av1939/gauchecommuniste-italienne/louvriercommunisme/ouvriercommuniste-n01.pdf


NOTAS:

1O termo "velha toupeira" (francês: "la vieille taupe"/”a velha toupeira”) é uma referência directa a uma expressão usada por Karl Marx. Na tradição marxista, "a velha toupeira" simboliza o trabalho subterrâneo lento mas inexorável da revolução. Marx usa-a em vários textos, sendo o mais famoso O 18 Brumário de Luís Bonaparte (1852), onde escreve:

"Mas a revolução é meticulosa. Passo a passo, ela cruza o caminho do seu desenvolvimento... e a velha toupeira da revolução continua a cavar"

A imagem evoca uma toupeira que se enterra silenciosamente sob a superfície, invisível, mas que acaba por emergir para derrubar a ordem estabelecida. É uma metáfora para o processo revolucionário que avança nas profundezas da sociedade, muitas vezes impercetível para os contemporâneos, mas que acaba por causar uma irrupção.

Neste texto, os autores de L'Ouvrier Communiste usam esta expressão para afirmar que a história já julgou o conflito entre Gorter e Lenine: "a velha toupeira" (a revolução como processo histórico) mostrou que Gorter estava certo e Lenine errado. É uma forma literária e militante de dizer que factos históricos confirmaram a crítica da esquerda comunista ao leninismo. É um termo com forte carga simbólica na linguagem da esquerda revolucionária, e que aparece frequentemente nos textos da tradição conselhista e da esquerda comunista. [nota do tradutor]

2A Reichswehr foi o nome dado ao exército alemão durante o período da República de Weimar, de 1919 a 1935. [nota do tradutor]

3Aqui, "canvassing" não se refere ao seu significado mais literal de vender livros ou merchandising porta a porta. É usado num sentido político e metafórico, muito comum na linguagem da esquerda revolucionária no início do século XX, para descrever uma função de "transmissão", "disseminação" ou "propaganda" de ideias e slogans, mas de forma superficial, mecânica e sem profundidade crítica. A crítica feita no texto é que os sindicatos reformistas, ao focarem-se em pequenas reivindicações económicas, tornam-se meros "vendedores" ou "distribuidores" de pequenas melhorias, em vez de serem órgãos da consciência revolucionária. Em vez de elevar a consciência de classe, limitam-se a "colportar" (distribuir, transmitir e porta em porta - NdT) exigências parciais que não questionam o sistema, actuando assim como um travão ao desenvolvimento revolucionário do proletariado. [nota do tradutor]

4. Gostaríamos de salientar, a este respeito, que a palavra "casta", que usamos para caracterizar esta enorme camada de novatos, estimada em mais de 2 milhões por Sizoff num artigo recente em *The Class Struggle*, foi injustamente criticada pelos epígonos marxistas (trotskistas-bordigistas) de Prometeu . A palavra "casta" é adoptada pelo próprio Marx em O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, quando afirma que Napoleão, o Pequeno, foi forçado a depender, no restante das outras classes, de uma casta artificial. É claro que, na Rússia, esta não é a casta artificialmente criada por Luís Bonaparte. Aqui, existe uma base objectiva para o desenvolvimento desta casta, para que se torne uma classe. Esta base objectiva é o capitalismo de Estado (que a escola bukharin chama de indústria socialista e que Prometeu não hesita em chamar de indústria socializada) e a sua relação com o mercado livre criado pela NEP. Esta base económica confere a esta casta o carácter de uma classe em desenvolvimento, bastante diferente da casta nascida da "ideia napoleónica". Mas a diferença entre a casta de 1851 em França e a casta de 1929 na Rússia não deve obscurecer o que têm em comum: certos privilégios garantidos por uma determinada organização estatal. Notamos que Prometeu se agarra tenazmente ao nosso estilo: também tentou ridicularizar a nossa expressão "capitalismo puro". Ele não percebe que adoptámos esta expressão para parodiar Varga, que a usa com muita frequência nos seus relatos sobre a situação económica.

Aqui estamos a lidar com as duas tendências políticas entre as quais oscila o bonapartismo de Estaline, e não com a pessoa dos camaradas que foram vítimas da sua opinião.

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Este artigo foi publicado no L'Ouvrier Communiste pelo Colectivo Comunista dos Operários. Guarda o link permanente.

 

Fonte: https://colectivoobrerocomunista.wordpress.com/2026/08/24/loc-1/?fbclid=IwY2xjawT6wytwZG9mAWV4dG4DYWVtAjEwAGJyaWQRMDFFcXVOVjJVVENuTkxrdlhzcnRjBmFwcF9pZBAyMjIwMzkxNzg4MjAwODkyAAEec10-pacj7RK0DqBvRCh3wGsSyPmU3z5IFBuxDP3tVOR5GK-_fw2BL6H0rDw_aem_IZwx9D-pzXpqnOWm9l2dDg

Este documento foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice