quinta-feira, 12 de março de 2026

Com a multiplicação dos caixões, a América choramingas cava a sua própria sepultura


Com a multiplicação dos caixões, a América choramingas cava a sua própria sepultura

12 de Março de 2026 Robert Bibeau


Por Khider Mesloub e Robert Bibeau .

 

No Médio Oriente em guerra, cerca de dez israelitas e vários americanos foram mortos em poucos dias, sem contar milhares de iranianos enterrados nos escombros das suas residências. Se esta dinâmica continuar, não será Teerão a vacilar primeiro, mas os alicerces políticos instáveis dos criminosos de guerra Donald Trump e Benjamin Netanyahu.

Não se trata de uma especulação ideológica. É uma realidade política, que decorre de uma constatação simples: entre

as potências capitalistas ocidentais, a guerra não se joga apenas no plano militar exterior, joga-se também na arena política interna e na economia com cadeias de produção interligadas e mundializadas.

Trump pensava abrir uma frente contra o Irão atacando-o como os seus predecessores o fizeram nos últimos 75 anos. Na realidade, abriu três. A primeira é militar e já está a incendiar todo o Médio Oriente. A segunda é política/diplomática e já está a inflamar o mundo inteiro. A terceira frente é económica e financeira e será mais devastadora, através das suas repercussões sobre a energia e as cadeias de fornecimento, do que as duas anteriores.

A guerra externa serve de fachada para uma guerra interna.

Em Washington, os democratas americanos denunciam a ilegalidade dos ataques sob as leis internacionais e internas dos Estados Unidos. A Constituição americana é explícita: o Congresso autoriza a guerra . Figuras como Kamala Harris, Alexandria Ocasio-Cortez e Nancy Pelosi lembram a todos que o Poder Executivo não pode levar o país a um conflito sem a aprovação do Congresso .

 

Mas o problema de Trump não vem apenas dos Democratas . O desafio agora surge de dentro do seu próprio partido. Os slogans " América Primeiro " e "  MAGA  " deram a impressão do fim de guerras distantes... foi um engano, uma traição. As guerras de pilhagem de recursos e de exploração da força de trabalho não são opções para o Grande Capital Mundial, mas sim obrigações, constrangimentos imutáveis que desaparecerão com o modo de produção capitalista, não antes. Não são os líderes (Presidente, Primeiro-ministro, Líder Supremo, Emir ou Príncipe), por mais estúpidos que sejam, que traçam o destino do capital e o seu modus operandi. É o sistema, sujeito às leis e aos organismos de gestão internacional, que identifica um fantoche político apto a liderar a carga contra a população local – regional – nacional e transnacional… o Império americano não é excepção à regra, a entidade fascista israelita e o Irão não são excepção.

Trump tinha construído grande parte do seu capital político denunciando as intervenções no Iraque, na Líbia e no Afeganistão, qualificadas como erros estratégicos maiores. No entanto, a agressão contra o Irão aparece como uma traição a essa promessa.

As críticas caem agora do próprio coração da esfera republicana. Figuras influentes deste campo atacam agora abertamente a pérfida guerra contra o Irão: Tucker Carlson qualificou esta intervenção como um acto «repugnante e diabólico». A apresentadora Megyn Kelly perguntou hipócritamente sobre a morte de soldados americanos: «Ninguém deveria morrer por um país estrangeiro»… proclama a evangelista. Vocês e eu sabemos que todas as guerras imperialistas alimentam-se do sangue dos nossos filhos inocentes. Estas críticas não são marginais. Elas revelam uma tensão estrutural dentro da coligação de negócios que levou o senil bilionário Trump ao poder. E elas já não vêm apenas das margens do campo republicano. Nos últimos dias, os aristocratas feudais do Golfo Pérsico, cujas catedrais de vidro estão ameaçadas, queixam-se de que o Império Americano já não garante a sua segurança tão caro resgatada.


A fractura no topo do estado americano decadente

O secretário de Estado Rubio explicou que Washington decidiu atacar porque Israel estava prestes a lançar uma agressão que teria provocado uma represália iraniana contra as forças americanas. Noutras palavras, os Estados Unidos teriam desencadeado a guerra para prevenir as consequências de uma agressão israelita durante as negociações em Omã (!!!) Ridículo, quando se sabe que os Estados Unidos fazem guerra pelo petróleo iraniano desde que a CIA derrubou o presidente Mossadegh para impor o torturador Reza Shah Pahlavi em 1953.

« A chegada de Dwight Eisenhower à Casa Branca leva, contudo, Washington a considerar o controlo do Irão

como um enjeu estratégico. Em Agosto de 1953, Mohammad Mossadegh é derrubado na sequência de uma conspiração orquestrada pelos serviços secretos britânicos e americanos, a operação Ajax. Após a sua queda, Mohammad Reza Shah Pahlavi implementa um regime político autocrático e ditatorial baseado no apoio americano. Em 1955, o Irão integra o pacto de Bagdade e encontra-se então no campo americano durante a guerra fria. Mossadegh é condenado à morte em Dezembro de 1953, mas a sua pena é reduzida para três anos de prisão e ele será mantido em residência vigiada até à sua morte, em Março de 1967. A vitória é total para os Estados Unidos, que se asseguram assim de um ancoramento duradouro na região. As forças laicas e nacionalistas enfrentam uma repressão sangrenta. » https://fr.wikipedia.org/wiki/Iran 

A declaração de Rubio revela uma tensão evidente dentro da própria administração Trump e dos seus cúmplices: para explicar a entrada dos Estados Unidos na guerra, Rubio acaba por designar Israel como o elemento desencadeador do conflito. Por detrás do argumento da prevenção surge assim uma acusação mal disfarçada: a de um aliado que teria levado Washington a um confronto que não tinha escolhido conduzir… (sic) é assim que o Império credencia o mito do vassalo, do campo militar sionista israelita, dirigindo o mestre do Império americano em declínio. Quando a agressão imperialista americana contra o Irão começou – em 1953 – a pérfida entidade sionista israelita tinha acabado de obter o seu salvo-conduto da Organização mundialista das Nações Capitalistas Unidas (ONU).

Os sinais de alerta não vêm apenas dos Estados Unidos. Eles agora propagam-se em alguns círculos políticos e mediáticos israelitas. Em Telavive, vários meios de comunicação expressam com preocupação o aumento das críticas americanas contra Israel… o que já anunciávamos há vinte anos. « Quando os interesses do Império dos EUA não coincidirem mais com os da entidade vassala israelita, os Estados Unidos abandonarão a entidade pária israelita. »

O Chanel 12 fala de uma «escalada preocupante da hostilidade contra Israel» no debate público americano, alimentada pela ideia de que o Estado israelita, responsável pelo genocídio dos palestinianos, teria arrastado Washington para um confronto directo com o Irão. Esta evolução preocupa alguns analistas israelitas e americanos. Na imprensa israelita, editorialistas alertam para um cenário paradoxal: uma vitória militar contra Teerão poderia transformar-se numa derrota estratégica se levar à erosão do apoio americano. Pois, para Israel, a aliança com os Estados Unidos constitui o pilar central da sua segurança militar, económica, política e diplomática. De facto, Israel é um proxy dos Estados Unidos, um posto militar avançado dos Estados Unidos, uma entidade vassala, o polícia do Império no Médio Oriente. A sua importância militar, económica e política está à medida do seu senhorio americano. Veja:  Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: O proletariado iraniano, preso entre a repressão interna e as bombas americanas/israelitas.

Para além do campo militar, a intervenção contra o Irão abre uma frente institucional potencialmente mais perigosa para a Casa Branca. A Constituição americana é explícita: o poder de declarar guerra pertence ao Congresso. A Casa Branca afirma ter simplesmente «notificado» os parlamentares. Mas uma simples notificação não é uma autorização. Se as perdas americanas aumentarem, a pressão parlamentar intensificar-se-á mecanicamente. Mas para além do Congresso, cada caixão alimentará a contestação no coração da sociedade americana.

Quando a guerra começa a fissurar o império

As perdas humanas não são apenas um facto militar. Elas tornam-se também um facto político. Cada soldado americano morto desperta o espectro das «guerras intermináveis». Cada caixão torna-se um argumento contra a escalada. Se as perdas se multiplicarem, a questão mudará de natureza: não será mais «podemos atacar?», mas «porque é que estamos envolvidos neste atoleiro?». A guerra poderia então tornar-se um poderoso vector de contestações políticas radicais, susceptíveis de conduzir a uma revolução social.

No plano estratégico, a lógica do conflito é diferente. O Irão não precisa de vencer militarmente os Estados Unidos ou Israel. Basta-lhe resistir ao longo do tempo. Numa confrontação assimétrica, a questão central torna-se: quem suporta melhor a duração e o custo humano e os imensos sacrifícios? Se a tolerância às perdas for menor em Washington e em Telavive do que em Teerão, a vantagem estratégica desloca-se automaticamente para o Irão. A pressão política, por sua vez, recairá inevitavelmente sobre os dois países agressores: os Estados Unidos e Israel.


A superioridade tecnológica não compensa uma vulnerabilidade interna. Porque numa sociedade americana já fragmentada, a guerra não é apenas externa. Torna-se um revelador interno no meio da crise económica concomitante. Põe à prova a coesão partidária, a legitimidade institucional e a solidez das promessas eleitorais. Se as perdas americanas se multiplicarem, a fractura dentro do campo trumpista alargar-se-á. Se o debate constitucional se intensificar, o Congresso tornar-se-á um campo de batalha paralelo. Se a escalada se arrastar sem vitória clara, a questão política substituirá a questão militar. Pior: a resolução da guerra poderá deslocar-se do âmbito institucional para a rua americana, a qual poderá impor o seu próprio resultado ao conflito através de um levantamento insurreccional.

O Irão não precisa de vencer militarmente os seus adversários. Basta-lhe prolongar a confrontação até que o custo

interno se torne mais pesado do que o benefício estratégico de arrancar um poder à aliança dos países emergentes (Aliança Oriental – Rússia/China/Irão). Nesta configuração, o poder de fogo importa menos do que a capacidade de durar e de infligir sacrifícios económicos (inflação, crise financeira) às empresas ocidentais através do bloqueio do Estreito de Ormuz, lugar de passagem de 20% do petróleo mundial.

A história contemporânea mostrou-o: as grandes potências nem sempre vacilam sob os golpes exteriores. Elas racham-se quando a guerra entra em contradição com o seu próprio contrato social e político. É talvez aí que se joga agora o desfecho do conflito. Ao querer dominar o mundo, o Império americano, em declínio económico e financeiro, acaba por se rachar por dentro.

E o Irão pode muito bem ser o prego final no caixão dos Estados Unidos. Veja:  Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: Uma nova agressão americana contra o Irão   

Khider MESLOUB

Fonte: Avec la multiplication des cercueils, l’Amérique pleurnicheuse creuse sa tombe – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice



quarta-feira, 11 de março de 2026

N+1 – AUMENTO DOS CUSTOS DE PRODUÇÃO

 


n+1 – Aumento dos custos de produção

“Aumentar os custos de produção, para poder dar, enquanto existirem salários, mercados e dinheiro, salários mais altos por menos tempo de trabalho” (Ponto “b” do Programa Revolucionário Imediato no Ocidente Capitalista, Reunião do Partido Comunista Internacional em Forlì, 28 de Dezembro de 1952).

 

HOJE

No nosso vocabulário seria mais preciso dizer preço de custo em vez de custo de produção, mas aqui também utilizaremos o termo contabilístico empregado no texto citado. Marx distingue o preço de custo, que representa a quantia de dinheiro que o capitalista adianta para obter o produto, do preço de produção ("forma de valor transformada"), que é o preço social médio ao qual todos os bens que saem da fábrica para venda são obrigados a se comparar. A soma de todos os preços de produção representa o valor total dos bens produzidos expresso em dinheiro. Mais adiante veremos que este facto é fundamental para compreender como a nova sociedade, nos países mais desenvolvidos, poderá revolucionar as antigas relações com rapidez e sem dificuldade.

No nosso artigo seguiremos o exemplo de um capitalista típico. Suponhamos, para ser “modernos” e oferecer um exemplo claro de sensibilidade aos custos de produção, um fabricante de computadores. Já é, por assim dizer, capitalista, dado que não tem qualquer controlo sobre 99 % do ciclo de produção dos bens que “produz”. De facto, não os produz de todo, pois compra todos os componentes a terceiros. Nem sequer lhe compensa montar as máquinas, já que existem empresas especializadas na montagem. Terá um escritório de representação e não precisará de muito mais, já que a administração estará a cargo de um gabinete de contabilidade, e as operações de armazém, se ainda tiver esse requisito arcaico, serão delegadas a uma empresa de serviços especializada que também poderia encarregar-se dos envios. Fica a rede de vendas que, no entanto, está nas mãos de empresas especializadas. Em última análise, poderia limitar-se a encomendar o design e a serigrafia de uma etiqueta personalizada em qualquer copiadora industrial.

Empresa de contabilidade de partida dupla

Para este capitalista -e não se trata de um caso extremo- o custo de produção é tudo, estando representado não por processos produtivos complicados e abarrotados nos quais se perde o encadeamento dos custos, mas pelo maço de facturas que de vez em quando lhe envia o contabilista, incluídas as suas próprias.

O mundo está cheio de capitalistas deste tipo hoje em dia. Poder-se-ia dizer que alguém, em última instância, tem de produzir os componentes dos computadores, e é verdade: mas algumas indústrias bem organizadas e automatizadas são mais do que suficientes. Hoje em dia, existem quatro grandes fabricantes mundiais de microprocessadores, e quase todos os outros componentes repartem-se entre uma dúzia de gigantes no total.

O capitalista do nosso exemplo terá ainda menos desejo que os seus antepassados, que dirigiam pessoalmente fábricas com milhares de operários, de perder tempo a investigar a origem do valor: bastam-lhe os cálculos do contabilista.

No entanto, para a nossa contabilidade, que é sempre social, é necessário identificar primeiro uma lei que nos permita definir o fenómeno do processo de trabalho tipicamente capitalista. O capitalista individual conforma-se com a contabilidade de partida dupla, método que remonta à contabilidade mercantil, ou seja, à época das Comunas e das Senhorias, método que estabelece simplesmente uma comparação definitiva entre ganhos e perdas; para nós, isso não é assim.

O custo de produção é esse simples número que deve ser subtraído dos rendimentos; portanto, independentemente de como seja definido nos balanços falsificados das empresas, é a bête noir do capitalista, bête que o esmaga com decisões a que não tem outro remédio senão submeter-se. O economista, que, apesar de ter adoptado métodos contabilísticos superiores aos medievais, parte dos mesmos conceitos ao manipular preços e estatísticas de preços, não corre melhor sorte. Nas finanças modernas, até manipula preços de preços de preços… talvez merecendo um Prémio Nobel por descobrir que os problemas associados a estes processos são não lineares e, portanto, insolúveis. Apesar de tudo, consegue conceber modelos brilhantes e complexos que funcionam em computadores potentes e fazem com que o seu salário seja plausível mesmo sem acertar numa única previsão. Na era capitalista, onde tudo é mercadoria, o facto de o economista poder vender-se é quase místico, mais parecido com um milagre do que com uma ciência. Afinal, ele próprio diz que a sua profissão não é uma ciência, mas uma opinião.

Como veremos, a ciência comunista consegue fazer previsões, só que não são as que todos esperam nesta sociedade. O marxismo impossibilita o trading diário, a especulação diária na Bolsa.

O poder da concepção unitária

Para fazer ciência precisamos saber o que realmente acontece por trás dos fenómenos que investigamos. Uma vez que uma lei é descoberta através desta investigação, deve ser possível transformá-la em modelos abstractos compreensíveis e utilizáveis por todos, para depois aplicar esses formalismos e verificar se se podem fazer previsões com base neles. Portanto, se queremos “fazer ciência” relativamente aos custos de produção, não podemos limitar-nos a conhecer o preço dos bens semi-acabados, da energia, dos serviços e da mão de obra utilizados para produzir outros bens: este preço depende de outros produtores em etapas anteriores de uma cadeia que nem sequer termina nas minas, pois aí também são utilizados energia, maquinaria, mão de obra, etc. É cientificamente absurdo olhar para as contas depois de os bens terem sido comercializados, transformados em dinheiro e ter-lhes sido atribuído um preço segundo um ciclo contabilístico. “Para nós, de facto, o valor dos bens produzidos num determinado ramo industrial não pode ser deduzido da procura de médias nas taxas de mercado: deve ser conhecido de antemão” (em “Vulcano della produzione o palude del mercato”? Volcão da produção ou pântano de mercado?). Apenas se estabelecermos a priori os mecanismos que produzirão o preço como uma oscilação média em torno do valor, poderemos realizar trabalho científico operando com uma lei. O valor não é uma “coisa”, nem uma nota, nem um registo numérico; é uma relação social. Portanto, para nós o cálculo, para obter resultados utilizáveis por qualquer pessoa, em qualquer situação e em qualquer país, deve ser abordado como na física: as leis da gravitação são idênticas para todos em qualquer ponto do universo, assim como as leis da troca são idênticas onde quer que a relação social seja a mesma.

Ao nosso capitalista individual não lhe interessa nada disto; ele ocupa-se do capital, quer vender computadores e obter lucros. Deveria interessar-lhe o economista, que entende de economia, mas o economista, ao ouvir falar de sociedade, acredita que é o sociólogo quem deveria estar interessado. Por sua vez, o sociólogo certamente não terá tempo para tratar do capital e da economia; bastar-lhe-á tratar das classes, no sentido de grupos demográficos e estatísticos da população.

Enquanto o mundo capitalista da produção desenvolve uma sociedade altamente integrada, onde todas as partes estão interconectadas, no mundo das ideias prevalece a maior separação entre disciplinas. Mas em todas as sociedades, como na natureza, nada nem nenhum acontecimento está separado de outro: ou seja, acontece “ao mesmo tempo”, na continuidade do tempo e do espaço; por isso os estudiosos de disciplinas separadas ainda não alcançaram o cume do marxismo. Naturalmente, com Marx, tiramos o chapéu perante os feitos técnicos e científicos da burguesia apesar da separação de campos, mas afirmamos que apenas a nova sociedade poderá unificar o conhecimento num todo inseparável, de um nível qualitativamente superior.

Capitulações burguesas

Assim, o capitalista, que com razão não ignora nem economistas nem sociólogos, compra bens, energia, serviços e operários no mercado para gerar produção (ou compra esta já terminada). Não pode fazer nada relativamente ao preço que deve pagar por tudo isto, pelo que, ao seu ver, todo o capital adiantado é, na realidade, o custo real dos bens que produz. Acrescenta o seu lucro, mas deve fazê-lo tendo em conta outra variável que não pode decidir: o preço de mercado desse bem quando é posto à venda juntamente com outros mil.

O custo de produção registado nos livros contabilísticos tem pouco impacto no preço dos bens, que é determinado pelo conjunto do comércio e pelo estado da concorrência mundial; e o capitalista sabe disso bem. Portanto, só pode colocar os seus produtos se o seu custo de produção, mais os seus lucros, lhe permitir obter um preço fixado por uma entidade externa. Tanto é assim que, em qualquer plano de negócios respeitável, primeiro enumeram-se os parâmetros do mercado existente e depois ajustam-se a eles os parâmetros de produção de um determinado bem. Na linguagem do marketing, esta abordagem denomina-se market in, em contraposição ao conceito de product out (ou seja, é o mercado em que a empresa entra que dita as leis, enquanto o produto que sai faz o que pode). Como se pode ver, não é o marxismo que entra na mente das pessoas, o que é difícil devido à ideologia dominante; são as pessoas que se veem obrigadas a capitular perante o marxismo.

Portanto, é compreensível a razão pela qual o nosso capitalista está tão assediado pela concorrência: os seus custos de produção devem sempre ser compatíveis com o estado da produção mundial. Ele está esmagado entre decisões que não dependem dele nem dos seus técnicos contratados, e portanto só pode agir sobre o seu lucro, ou seja, sobre a quantidade de trabalho gratuito que poderia extrair dos seus operários, se os tivesse. Assim como não pode reduzir os custos de produção representados pelos bens que entram no ciclo de produção, também não pode aumentar arbitrariamente os seus lucros; caso contrário, teria de subir o preço e a concorrência eliminá-lo-ia do mercado. Mesmo que tivesse a sua própria fábrica com muitos operários, ainda assim não poderia influenciar arbitrariamente o custo da mão de obra, que é um factor social que tende a variar de acordo com parâmetros que envolvem longos períodos e grandes áreas. Cada capitalista só pode variar aquelas características de todo o ciclo de produção que implicam custos que dependem dele. É completamente impotente em relação ao mercado e às fábricas dos outros.

Mas todos os outros capitalistas também estão nas mesmas condições. Na rede de relações que vertebra a produção mundial, o efeito das acções de qualquer indivíduo far-se-á sentir mais uma vez nos factores que subjazem aos custos de produção do nosso fabricante de computadores. Ele não tem a sua própria fábrica, mas obviamente escolhe no mercado quem lhe oferece componentes da qualidade exigida ao preço mais baixo. Assim, mesmo sem ser um fabricante directo, influencia o ciclo que o precede. Mas então todos os capitalistas, presos no ciclo infernal da concorrência, influenciam-se mutuamente e não podem fazer mais do que inventar tudo para sobreviver na sua guerra mútua. Não são protagonistas como acreditam, mas instrumentos completamente passivos e inúteis do seu próprio sistema, essa imensa revolução que levou o poder produtivo social aos seus limites.

A reorganização obrigatória continua

Em termos assépticos, hoje em dia poderia dizer-se que todo capitalista, preso no beco sem saída das forças do mercado, deve primeiro introduzir informação no sistema de produção. Faz isso começando pelo seu sistema local, mas não pode evitar transmitir a mensagem ao sistema mundial. A informação é gratuita e cria uma nova ordem, como já observou o velho Taylor ao introduzir a organização científica do trabalho. Assim, cada fábrica tende a ser diferente do que era antes (embora os parâmetros externamente dependentes se mantenham fixos), por exemplo, melhorando a sua organização, acelerando as operações, introduzindo os recursos que a ciência oferece; em resumo, produzindo mais mantendo os custos fixos. Tudo isto parece-lhe completamente natural ao capitalista e, de facto, no contexto capitalista é tão natural que em circunstâncias normais ninguém, nem mesmo os operários, o percebe.

Em termos menos assépticos, Marx afirmou que isso aumenta o nível de exploração da força de trabalho. Os proprietários desta mercadoria particular, o proletariado, só o percebem quando a exploração vai acompanhada de penúrias físicas, ou quando, bem organizados e dirigidos, tentam conscientemente transformar uma parte dos lucros em melhores condições de vida. Na maioria dos casos, a simples organização científica do trabalho aumenta a produtividade, mas produz os melhores resultados quando vai acompanhada de inovação tecnológica; portanto, a introdução de novos métodos vai de mãos dadas com a de maquinaria moderna. Isto não reduz os custos de produção em termos absolutos; pelo contrário, a curto prazo eleva-os; a médio prazo, no entanto, os custos diminuem em relação à mais-valia que se pode extrair dos operários através do aumento da escala de produção.

E diminuem não só por causa do entusiasmo frenético do capitalista em alcançar o seu objectivo a qualquer custo. Historicamente, a expansão da fábrica moderna expande a escala de produção de todos os bens que o capitalista deve adquirir com o capital avançado; Assim, o valor do capital adiantado também acaba por diminuir, e o objectivo de reduzir os custos de produção parece ter um resultado favorável.

Na realidade, o pesadelo do capitalista moderno mal começa: o custo de produção diminui em relação à quantidade produzida, mas como todos são obrigados a agir da mesma maneira, o aumento da escala de produção reduz o preço geral de produção, ao qual, mais cedo ou mais tarde, todos os custos de produção devem corresponder. A corrida para reduzir os custos de produção levou a um aumento do que Marx denomina a composição orgânica do capital. Ou seja, cada vez menos operários operam cada vez mais máquinas e instalações, mantendo o mesmo lucro para o capitalista.

O Estado ao Serviço do Capital

A produção tem um potencial imenso, mas o mercado é um campo com limites finitos. Portanto, o número de fábricas não crescerá proporcionalmente ao crescimento da força produtiva geral, já que algumas fábricas altamente mecanizadas serão suficientes para produzir todos os bens assimiláveis. Cada uma obterá lucros extremamente altos, mesmo que tenha de adiantar uma grande quantidade de capital em comparação com o número de operários empregados. No entanto, esta altíssima produtividade provocará desemprego e, sobretudo, um excesso permanente de população em comparação com a necessidade de mão de obra. Nesta situação, a taxa geral de lucro diminuirá.

A corrida, portanto, não tem fim: a fábrica tradicional, depois de se racionalizar e automatizar ao máximo, fragmenta-se em unidades de produção independentes, especializa os seus sectores internos e converte-os na produção em massa, transformando-os em unidades de produção independentes que já não trabalham apenas para o cliente original, mas para o mundo inteiro. Estas unidades são controladas por um único centro, mas cada vez mais, os capitalistas são expropriados deste centro e substituídos por funcionários que nem sequer têm de prestar contas às juntas de accionistas. Apresentam aos mercados não os resultados da produção, que já não interessam a ninguém, mas o desempenho da empresa perante o mercado, e apresentam estes resultados a outros funcionários de fundos de investimento anónimos ou outras formas de arrecadação financeira, que por sua vez captam capital em toda a sociedade, separando-o dos proprietários individuais e da sua vontade pessoal.

Durante a reconstrução do pós-guerra, a grande indústria podia permitir-se certa indiferença em relação aos custos de produção, dado que a economia corporativizada podia distribuir uma massa significativa de mais-valia a toda a sociedade, incluindo um financiamento substancial, directo e indirecto, à própria indústria. Agora, a indústria privada pode ser financiada pelo Estado com base em garantias específicas, mas continua a ser privada, e teria sido difícil para o executivo controlar plenamente a rede de produção na qual tinham investido abundantemente. Por esta razão, formou-se um sistema misto que integrava os planos da grande indústria com os do país em reconstrução através de um sistema bancário controlado pelo executivo (ou pelos partidos que o controlavam). A tarefa de acumulação no sector primário recaía assim sobre a grande indústria e alguns capitalistas, com a ajuda de um sistema bancário que complementava plenamente esta política económica, como demonstrado claramente pelo exemplo da Mediobanca, cujo deus ex machina [1] morreu recentemente.

A Empresa Virtual

Terminada a cucaña (pau de sebo – NdT) da reconstrução, que tinha durado demasiado mesmo para um capitalismo antigo e astuto como o italiano, a procura generalizada de poupanças de custos acabou com a antiga fábrica vertical concentrada. Fábricas quase novas, ainda em funcionamento, construídas com fundos estatais, foram desmontadas com mais fundos estatais. Há muito tempo, a antiga fábrica gerida pelos seus proprietários foi substituída em toda a parte por uma rede de produção controlada, nos casos mais flagrantes, por empresas virtuais centralizadas, empresas que cederam em outsourcing, ou seja a fornecedores externos, todo o processo de produção, mantendo apenas a gestão da marca e, obviamente, os lucros. Em alguns casos, a empresa virtual é mesmo indiferente aos custos e lucros locais, uma vez que estes já não derivam de actividades produtivas específicas, mas de sofisticadas manobras financeiras internacionais que exploram a extrema ramificação, ou melhor dizendo, a rede, dos negócios internacionais. Muitas empresas ligadas às novas tecnologias, como a Amazon, optaram por operar com prejuízos durante anos, endividando-se e investindo todos os lucros sem distribuí-los. Isto permite-lhes aproveitar o preço virtual das acções no mercado, uma pura fantasia, mas que pode ser utilizada para todo tipo de transações financeiras, comumente conhecidas como especulação. Naturalmente, isto não pode durar, e cedo ou tarde desaparecerá. Entretanto, a expansão das empresas virtuais, imersas em intrincadas redes de participações cruzadas, parece imparável.

Tentativas contra a anarquia de mercado

O reflexo ideológico fez-se sentir —e tem implicações práticas— com a divulgação das reivindicações federalistas, que não são mais do que a transposição política do que há muito tempo se tem alcançado no mundo da produção, incluída a tendência à 'des-nacionalização' entre os grandes gigantes capitalistas. Até mesmo a rede de informação representada pela Internet, propícia à redução de custos de produção, foi atacada pela indústria, que há apenas um ou dois anos ainda se mostrava um tanto reticente em confiar o negócio às vias imateriais da Internet. Agora esta última está a demonstrar ser muito útil para poupar custos de produção, pois facilita a resolução de muitos problemas antigos, como a reorganização dos fluxos internos de informação, a nova gestão electrónica de inventários (e-procurement), a optimização dos ciclos de produção e a reengenharia de processos individuais em relação aos grandes sistemas. É por isso que o chamado B2B, ou business to business, se desenvolve de forma tão formidável e silenciosa, mais do que o ruidoso comércio electrónico propagandeado em todos os meios: trata-se nada menos do que de abordar a espinha que sempre esteve cravada no coração do capitalismo, a saber, a poupança na gestão mundial do capital constante, a maior fonte de dores de cabeça para o actual modo de produção depois da luta de classes.

Um estudo da Arthur Andersen, um dos maiores fornecedores mundiais de serviços de gestão e certificação, mostra que a Internet está a eliminar o vazio que existia quando as empresas entravam no mercado, cenário de guerra de todos contra todos. No que diz respeito à gestão de fornecimentos mútuos entre empresas, e por conseguinte do sector primário de meios de produção, está a surgir um novo modelo, denominado virtual private network (VPN), uma rede que transcende os limites de uma única indústria e conecta várias. Estas indústrias, embora não estejam ligadas corporativamente, representam um sistema semelhante ao das indústrias centralizadas sob um único controlo corporativo, conseguindo assim a mesma poupança de custos.

Na prática, um processo cada vez mais semelhante ao que ocorre dentro de cada fábrica está a espalhar-se na sociedade capitalista, onde o operário ou grupo de operários que realizam uma operação parcial não produzem bens, mas partes de um objecto que só se transforma em mercadoria ao sair da fábrica e entrar no mercado. Estes operários, guiados por um plano de produção eficiente, cooperam racionalmente para atingir um objectivo, mas não geram valor algum. Agora, um processo semelhante ao interno projecta-se externamente: cada fábrica do grupo é como o operário parcial, sem produzir valor algum, excepto nos registos contabilísticos. Apenas as fábricas no seu conjunto produzem não tanto uma mercadoria, mas um conjunto de produtos (objectos, serviços, produtos) que a empresa central venderá com lucros.

Estão a trabalhar para nós

Este processo é irreversível. Já não nos enfrentamos a um fluxo de materiais gerido segundo um critério “externo” de fornecedor-cliente; hoje em dia o fluxo é gerido segundo um critério “interno” que a Arthur Andersen denomina business partnership e que com certa temeridade equipara a um modelo cooperativo capaz de substituir a concorrência pura. Os especialistas em organização denominam esta tendência des-organização ou organização espaguete, em referência específica à indústria italiana, que se acredita capaz de alcançar um desempenho extremamente elevado apesar de um ambiente desfavorável e politicamente desastroso. Neste contexto, cada unidade de produção interage com as outras e, ao não esperar instruções superiores, evita trâmites burocráticos ao mesmo tempo que assume uma capacidade de auto-organização cada vez maior.

Apesar da linguagem e dos objectivos do business, completamente triviais, estas observações levantam alguns sinais de alerta clássicos. Se o mundo da produção —que, com Marx, equiparamos a um modelo de actividade social sem a lei do valor— se impuser fora da fábrica numa tentativa desesperada de “poupar custos”, então podemos esfregar as mãos e dizer, como os nossos velhos camaradas: “trabalham para nós”.

AMANHÃ

Se ampliarmos a fábrica para além das suas paredes, teremos um sistema social de produção integrado que já não requer categorias de mercado e, portanto, deixa de ser capitalista. O complexo industrial centralizado, diversificado nos seus componentes (cuja distribuição espacial, ou seja, entre continentes, é irrelevante), já opera segundo planos pre-estabelecidos sob um único centro, ao contrário de quando as empresas não faziam parte de uma única organização.

Esta abordagem também demonstra como o comunismo trabalha para demolir as barreiras que impedem a realização da nova sociedade. Portanto, sob a perspectiva do programa imediato da revolução, mostra como mesmo hoje, ou seja, dentro de um ambiente completamente capitalista, estão a ser alcançadas tarefas que, num passado não muito distante, só poderiam ter sido conseguidas por um poder político através das suas organizações revolucionárias. A única revolução proletária vitoriosa, a russa, enfrentou imensas tarefas de realização capitalista devido ao atraso económico e social do país, mas mesmo que a revolução se tivesse estendido à Alemanha ou à França, a transição para a nova sociedade não teria estado isenta de desafios construtivos. O sistema racional existia dentro das fábricas individuais, mas ainda não tinha conseguido generalizar-se através das fábricas como o faz hoje. O sistema actual pode generalizar-se ainda mais, estendendo a ordem a toda a sociedade, como se existisse uma única grande indústria composta por unidades de produção diversificadas sob controlo central.

O modelo que descrevemos não é de todo arbitrário. Assim como existem modelos económicos e financeiros de “um único banco”, também podemos imaginar um modelo de “uma única fábrica”. Quando as fábricas estavam concentradas e competiam entre si como concentrações separadas, este modelo era difícil de imaginar. Mas hoje, com a fábrica generalizada, como foi descrito anteriormente, tornando-se a norma, qualquer pessoa pode simplesmente observar uma realidade clara e compreender as suas implicações.

Bukharin, no seu livro sobre a economia de transição, já tinha intuído o poder disruptivo da organização produtiva dos grandes monopólios industriais e financeiros da era imperialista. Baseando-se em Marx, argumentou que a sociedade global, como mercado composto por empresas e Estados, era por definição um sistema não organizado (não desorganizado, um termo que implicaria a possibilidade de organização). Esta observação é acertada, pois no mercado não se encontram produtos, mas sim mercadorias; enquanto os primeiros se contabilizam em quantidades físicas, que por isso são facilmente conhecíveis, mensuráveis e programáveis, as segundas trocam-se segundo o seu valor, ou seja, segundo o critério da concorrência, que não admite uma ordem pré-estabelecida.

Modelos para a transição

Bukharin era excessivamente optimista ao afirmar categoricamente que o capital financeiro, ao organizar o mundo da produção em grandes trusts controlados centralmente, eliminaria a anarquia da produção nos grandes países capitalistas, permitindo que a revolução proletária herdasse um sistema já estabelecido (e que a Rússia o alcançasse rapidamente; já se considerava o “socialismo num só país”). Todas as épocas revolucionárias incitam ao optimismo como lubrificante para o motor social, mas a eliminação da anarquia não pode ocorrer dentro do capitalismo: o nascimento dos trusts não dá lugar a entidades isoladas, mas a sistemas interconectados entre si, como fábricas individuais; precisamente, um sistema de trusts, que sem dúvida entram em competição entre si a um nível superior e, portanto, com a consequente guerra impiedosa, incrementa o nível de anarquia social.

O próprio Bukharin recolhe este facto quando enumera os tipos de concorrência existentes nesse sistema, e utiliza um esquema no qual fica clara não só a existência de ilhas “participadas”, ou seja, ilhas possuídas total ou parcialmente por acções, mas também uma multiplicidade de ilhas que competem entre si.

O esquema é totalmente coerente com a época em que foi traçado, a da consolidação do imperialismo segundo as linhas descritas por Lenine, baseando-se em Hobson e Hilferding. Embora continuasse a ser imperialismo, a sua estrutura era diferente da actual. Baseava-se num sólido aparelho industrial interno e numa força financeira quase exclusivamente externa num mundo ainda colonial. Por conseguinte, prestava-se bem a ser descrito com a imagem clássica do rentista puro, com poderosas canhoneiras. Além disso, os países imperialistas tinham um poder equiparável, e embora a Inglaterra se destacasse acima dos outros, cada um tinha a sua própria parte do mundo para explorar. Esta ordem mundial era indispensável como trampolim para o imperialismo moderno, mas já não existe. Na nova ordem eliminaram-se as colónias, e esse novo modelo de produção mundial que tanto comove em Seattle consolidou-se. Ao contrário do sistema rentista, compõe-se de interesses entrelaçados entre imperialismos e, até explodir sob as suas próprias contradições nacionais, é um único grande sistema de rendimento, produção, finanças e poder militar.

Agora bem, na nossa discussão sobre modelos, o elemento “produção” representa um passo em frente do comunismo como movimento real, pois impulsiona a ruptura das barreiras que actualmente o asfixiam. De facto, se o nosso modelo de fábrica única se baseasse num imperialismo puramente financeiro, como na época de Bukharin, não seria possível tratar a troca como um simples fluxo de quantidades físicas de produção (peças produzidas, valores de uso), e ver-nos-íamos obrigados a recorrer à contabilidade habitual em termos de valor (capital, dinheiro, acções, valores de todo o tipo, ou seja, valor de troca).

Mesmo considerando o valor —como numa autêntica fase de transição revolucionária em que ainda existem salários, dinheiro e bancos—, o modelo de fábrica única já elimina o conceito de capitalismo ao eliminar as diferenças de valor (preço de custo) entre diferentes fábricas, diferenças que determinam a existência do mercado e da concorrência. Portanto, esbocemos um esquema que resuma os três modelos, dois relativos à realidade real e o outro abstracto, útil para compreender a transição histórica representada pela realidade em movimento:

1) no modelo real de fábrica única, o valor das peças processadas e o seu movimento dentro de cada fábrica são irrelevantes, enquanto a sua quantidade e função são importantes; o produto final não é uma mercadoria até ser lançado no mercado;

2) No modelo da fábrica centralizada e diversificada, que também é real, entram em jogo cadeias "sinérgicas", de modo que o que antes acontecia na única fábrica agora acontece a um nível mais elevado e extenso, com o objectivo do grupo ser um balanço consolidado, no qual os balanços individuais são meras expressões contabilísticas fictícias que são somadas sem o sinal negativo ou positivo dos resultados parciais que afectam o resultado final (desde que, obviamente, o total seja positivo); existe uma indiferença generalizada ao valor gerado localmente, mesmo que seja apenas interna ao modelo e não entre modelos;

3) No modelo de fábrica única, abstracto mas não arbitrário, o mercado desaparece, deixando para trás uma única cadeia sinérgica — que neste ponto é uma rede — na qual o valor é completamente indiferente, sem diferença entre resultados locais e mundiais. Consequentemente, a indústria mantém-se, e a empresa, juntamente com todo o seu sistema de empresas, desaparece. Lembremo-nos de que neste terceiro ponto não abordamos a questão política, pois assume-se que a solução de classe já foi produzida e que operamos nesse contexto de transição onde o programa revolucionário imediato está a ser implementado. Lembremos, portanto, que o nosso argumento implica uma revolução vitoriosa nos países capitalisticamente avançados: não apenas num deles, mas pelo menos nos mais importantes.

Os balanços das empresas como papel molhado

Voltando aos pontos anteriores, observamos que na fábrica única experimentamos internamente uma indiferença total ao valor devido ao movimento de quantidades puramente físicas, enquanto na fábrica distribuída essa indiferença baseia-se num movimento contabilístico que ainda se refere a valores, mesmo que seja manipulado segundo o balanço consolidado. Onde reside o progresso para o comunismo neste caso, se ainda contabilizamos em valor?

A resposta a esta pergunta é particularmente importante porque nos remete ao que dissemos no início: que o custo de produção mundial mais a mais-valia representa o preço de produção mundial, ou seja, o valor mundial (como a soma dos preços de produção locais). Dado que a procura de uma lei do valor pretendia fornecer uma medida para escapar da névoa ideológica da economia política (uma vez que apenas critérios quantitativos podem ser utilizados para criar ciência), ao reduzir tudo a valor, podemos reconectar-nos com o tempo médio de trabalho social. E dado que, mesmo numa sociedade em transição, as únicas medidas úteis para compreender o seu ciclo de produção serão o tempo médio de trabalho e as quantidades físicas, o modelo tripartido destaca precisamente o que, do sistema actual, será útil para a sociedade futura.

O nosso “fabricante” inicial de computadores que por acaso teve sucesso e se tornou chefe da empresa multinacional de produção e finanças descrita no ponto dois, trataria os balanços das fábricas individuais como papel molhado e ao olhar o balanço geral em primeiro lugar confirmaria a lei do valor descoberta por Marx; em segundo lugar e ao mesmo tempo, negaria a lei do valor através da lei do valor, que é precisamente o processo mediante o qual Marx descreve que o comunismo se torna real: se a lei do valor revela o carácter dual e antagónico do trabalho e das mercadorias (produção social e apropriação privada), e se o modo de produção actual já demonstra a inutilidade do capitalista e da sua classe, a produção social permanecerá e a propriedade será eliminada.

O fabricante de computadores mais do que supérfluo do nosso exemplo, ao tratar o seu novo conjunto de fábricas como tratou o inicial, ou seja, concentrando-se no custo de produção através de um montante final que para ele já não tem ligação com os custos individuais, não só nega ainda mais a sua própria função, que de qualquer forma já está negada nos níveis anteriores, como também nega a função do capitalismo em geral, uma vez que já está a actuar de forma potencial na sociedade futura.

Portanto, o enfoque imediato do programa em aumentar os custos de produção revela uma implicação política muito mais significativa do que poderia parecer à primeira vista. De facto, não se trata de aumentar os custos por decreto ou algo semelhante: trata-se de libertar dentro da nova sociedade todo o potencial que o comunismo já preparou na antiga, para permitir o próximo grande salto. A indiferença em relação ao valor traduz-se automaticamente em indiferença em relação aos custos, e, por conseguinte, estes podem ser manipulados arbitrariamente no contexto das necessidades humanas. O facto de existir um período em que as trocas expressas em dinheiro ainda existam não tem importância porque o sinal do valor, impresso em papel ou gravado numa memória electrónica, já terá perdido toda a sua função histórica.

O que o capitalismo não pode alcançar

Na Rússia, antes da vitória definitiva da contra-revolução, ocorreram acalorados debates sobre a acumulação capitalista, que deveria ser dirigida pelo regime comunista. As terríveis condições da sociedade russa impediram os revolucionários da época de abordar o problema com serenidade, reconhecendo que se tratava de construir o capitalismo moderno e que era necessário não renunciar à integridade do partido, à teoria e ao poder. Assim, as primeiras concessões ocorreram precisamente na questão do valor, em relação à chamada acumulação socialista, o que é um oxímoro flagrante, uma contradição nos termos, dado que apenas o valor pode ser acumulado, e no socialismo, o valor desaparece.

Nesta situação, nem Bukharin tinha claro o destino das categorias capitalistas na fase de transição: alterna uma negação drástica da sua função com explicações insatisfatórias da sua sobrevivência. Significativamente, por exemplo, não equipara a sobrevivência do dinheiro ao mero tempo de trabalho ou às quantidades físicas como unidades de conta. Se o dinheiro ainda é considerado um signo de valor, então não faz sentido dizer que já não tem importância social; é simplesmente dinheiro. Se, como Marx demonstrou contra Gray, o bónus de trabalho, que supostamente contabiliza as horas efectivamente trabalhadas, embora não se acumule privadamente, se se acumulasse num banco, então apenas mudaria o nome: continuaríamos, inexoravelmente, perante uma forma de dinheiro e, portanto, perante o capitalismo. A diferença não reside no símbolo, mas na substância, e isso já nos é oferecido em bandeja de prata pelo próprio capitalismo, quando tenta estender o sistema fabril a toda a sociedade. O que o capitalismo jamais poderá conseguir é criar uma sociedade que funcione com a racionalidade e o plano próprios de uma fábrica, porque não pode eliminar valor sem se eliminar a si mesmo. Também não poderá reduzir drasticamente o tempo de trabalho, concentrado em cada vez menos pessoas e negado a essa sobrepopulação negativa, obrigadas a viver de trabalhos marginais ou da assistência pública.

A conquista do poder político nos países capitalistas avançados permitirá imediatamente ao proletariado e ao seu partido elevar os custos de produção, estendendo o trabalho a toda a população e reduzindo drasticamente a sua duração. Enquanto os burgueses, incapazes de fazer previsões sociais, criticam os comunistas por terem errado algumas, a mais importante de todas desenrola-se diante dos nossos olhos com toda a clareza: o capitalismo é uma casca que já não corresponde ao seu conteúdo.

Leitura recomendada:

·         Partito Comunista Internazionale, Per l'organica sistemazione dei principii comunisti, Réunion de Forlì, "Il programma rivoluzionario immediato", Quaderni Internazionalisti.

·         Partito Comunista Internazionale, Vulcano della produzione o palude del mercato? Quaderni Internazionalisti.

·         K. Marx, Il Capitale, Livro III cap. I: "Prezzo di costo e profitto", UTET, Editori Riuniti, Newton Compton.

·         Nikolai Bucharin, Teoria Económica do Período de Transição.

·         K. Marx, Per la critique dell'economia política, cap. II-B: "Teorie sull'unità di misura del denaro", Editori Riuniti.

[1] Leonardo del Vecchio, que através da sua holding entrou no capital da Mediobanca, tornando-se o maior accionista. (Nota do editor)

 

Fonte: n+1 – Elevar los costes de producción – Barbaria

Este texto foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice