sexta-feira, 6 de março de 2026

Médio Oriente em Chamas: Próximo Passo Rumo à Guerra Capitalista Mundial


Médio Oriente em Chamas: Próximo Passo Rumo à Guerra Capitalista Mundial

 

Declaração da Tendência Comunista Internacionalista

A nossa aversão à guerra não se deve apenas a razões humanitárias e sentimentais, mas ao facto de ela ser, em última análise, conduzida contra o proletariado.

Onorato Damen na primeira conferência do PCInt, 29 Dezembro de 1945

Há mais de quatro anos levantámos o espectro de uma crise capitalista insolúvel que levaria o mundo a uma guerra imperialista generalizada. Dois meses depois, a Rússia invadiu a Ucrânia. Desde então, a campanha de guerra aprofundou-se.

E agora os EUA estão novamente a travar guerra no Médio Oriente. Trump e Netanyahu atacaram o Irão, novamente – pouco mais de seis meses depois da 'Guerra dos Doze Dias' ter sido declarada por Trump como tendo acabado com a ameaça nuclear do Irão,(1) pouco mais de seis anos depois de termos escrito sobre mais uma ronda de debates dos EUA sobre o Irão. (2) Há seis anos, embora o Irão estivesse numa posição inferior – nunca teve o poder militar dos EUA, os EUA têm, de longe, a máquina militar mais poderosa do mundo – os EUA estavam atolados em problemas no Afeganistão, e o Irão podia contar com aliados no Iraque, Síria, Líbano, Iémen e Palestina.

Agora, os EUA estão livres do Afeganistão (tendo sofrido um sério revés que os obrigou a devolver o país aos seus aliados que se tornaram inimigos, os talibãs, claro), e a maioria dos aliados do Irão foi severamente enfraquecida ou destruída; Hamas e Hezbollah por Israel, o regime de Assad pelos fantasmas do ISIS e da Al Qa'eda no HTS. (3) O Irão ainda pode contar com algum apoio de grupos de milícias no Iraque e do governo de facto do Iémen (a milícia xiita dos senhores da guerra 'Houthis' que controla a maioria do país), mas, para já, os aliados regionais do Irão estão muito mais limitados do que antes.

Há um ano, avisávamos que os 'cessar-fogos' eram uma pausa para reagrupar e rearmar para uma nova ronda de conflito. (4) Desde então, Israel e os EUA lançaram o seu grande ataque ao Irão em Junho de 2025, e agora esta última ronda que nos leva realmente à beira de um conflito desastroso.

Cada vez mais, a anarquia das nações que tentam obter vantagem está a arriscar uma guerra mundial em grande escala. Existem muitas guerras limitadas em curso – as guerras civis no Sudão e no Congo, a guerra na Ucrânia, entre muitas outras – que ameaçam constantemente ultrapassar as suas limitações regionais. A guerra no Médio Oriente está a fazer exactamente isso. Após o ataque a Israel pelo Hamas e outros grupos militantes aliados em Gaza a 7 de Outubro de 2023, alertámos que isso poderia alargar o conflito. (5) Desde então, Israel atacou o Irão, o Líbano, o Qatar, a Síria; os EUA atacaram o Irão; O Irão atacou Israel, Síria, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita; e o Iémen atacou Israel. Todos estes ataques aumentam o risco de alargar e intensificar o conflito.

Este é o resultado inevitável de um sistema capitalista que não tem solução para as suas próprias contradições, que se vêm acumulando desde o fim do 'boom do pós-guerra', o período de reconstrução após a Segunda Guerra Mundial. Este período terminou definitivamente no início da década de 1970. Cada vez mais incapazes de gerar lucros suficientes, os Estados têm de recorrer à guerra tanto para destruir concorrentes como para controlar recursos vitais (petróleo, metais raros e, cada vez mais, água). A necessidade da guerra torna-se uma profecia auto-realizável; as guerras são necessárias para controlar recursos que são necessários para fins militares; e internamente, a austeridade e a repressão são necessárias para disciplinar a classe operária que, de outra forma, se revoltaria contra as condições necessárias para ir para a guerra. Como vimos tanto no Irão como nos EUA, a militarização da polícia é um precursor de uma acção militar no estrangeiro. Nos EUA, isto tem sido sob o pretexto de 'aplicação da política de imigração' do ICE, bem como da vigilância dos protestos do BLM há cinco anos ou dos programas 'Cop Cities' sob Biden & Harris; no Irão, a brutal repressão à recente vaga de protestos deixou milhares de mortos – um padrão que se tem repetido vezes sem conta na história da República Islâmica. As palavras de Damen em 1945, após o massacre da Segunda Guerra Mundial, lembram-nos que, em última análise, é a classe operária que paga o preço mais alto e, assim, os efeitos catastróficos das guerras do capitalismo recair mais fortemente sobre a classe que tem menos a ganhar com elas e, também, a única solução para a insanidade, ao apresentar a sua própria perspectiva da revolução comunista.

A 'esquerda' no ocidente opõe-se a esta última escalada do conflito, mas apenas na medida em que se opõe aos governos dos EUA e de Israel. Alguns grupos já apelaram à defesa do Irão e do seu governo – o mesmo governo que há um mês massacrou milhares dos seus próprios cidadãos, afogando os seus protestos contra o colapso económico e a repressão em sangue.

Esta é sempre a resposta da esquerda capitalista. Apoiar regimes brutais em todo o mundo porque as suas políticas estão em desacordo com os EUA é apenas negócios como de costume. E se um governo for contrário aos EUA ou estiver aliado a eles? E se este patrão ou aquele patrão, este presidente ou aquele presidente, este ditador ou aquele ditador estiver no poder? A luta de classes não tem nada a ver com os operários apoiarem esta ou aquela aliança ou bloco capitalista a nível internacional, nada a ver com a bandeira que um governo hasteia enquanto oprime os seus próprios operários e faz guerra aos operários dos seus rivais.

Em todo o mundo, os gastos com apoio social estão a ser cortados e os estados estão a aumentar o gasto em armamento, a rearmar e a militarizar. As manobras dos EUA sobre a Gronelândia e a sua interferência na Venezuela são passos para garantir a segurança das Américas em preparação para a guerra. (6) A beligerância chinesa no Mar do Sul da China, bem como o seu cortejo a nações de África e América do Sul, fazem parte dos seus preparativos. A própria invasão russa da Ucrânia é também uma operação algo desesperada para obter vantagem para quando a guerra generalizada chegar. Este é o caminho que estamos a seguir.

Nesta situação, é tarefa dos internacionalistas em todo o lado dizer a todos os operários 'isto é o que está a acontecer: o Estado está a militarizar-se, os seus vizinhos estão a militarizar-se, a crescente opressão e austeridade em casa são a preparação para a guerra no estrangeiro; e não há outra saída senão o derrube revolucionário do sistema capitalista que cria este mundo insano'. De certeza que não existe um 'caminho real' – apenas uma tarefa difícil e ingrata de fazer o que pudermos, onde pudermos, para espalhar a percepção de que o capitalismo é literalmente um sistema sem saída e que não temos nada a ganhar em deixá-lo continuar.

Estamos conscientes de diferentes declarações de muitos grupos diferentes que adoptam posições internacionalistas. Mas declarações e proclamações não são suficientes nesta situação. A perspectiva que apresentamos é a mesma agora como era na sequência dos ataques do Hamas a Israel em Outubro de 2023 – que todos os revolucionários precisam de pôr de lado as diferenças sectárias e levar a sério a tarefa de se organizar contra este sistema brutal e desumano.(7)

Neste período histórico é indispensável que revolucionários de todo o mundo se unam para começar a trabalhar pela formação de um partido comunista mundial, a ferramenta necessária para o derrube bem-sucedido do sistema capitalista.

Nenhuma guerra senão a guerra de classes para acabar com a barbárie imperialista, antes que seja tarde demais.

Internationalist Communist Tendency

Notas:

Imagem: Agência de Notícias Mehr (CC BY 4.0), commons.wikimedia.org

(1) O Ataque de Israel ao Irão: Algumas Reflexões Iniciais

(2) Rivalidade EUA/Irão: O Que Significa Realmente Nenhuma Guerra Senão a Guerra de Classes e o Irão e os EUA em Guerra?

(3) Mudança de regime na Síria: Mais uma reviravolta no caleidoscópio imperialista, mais um passo no caminho para uma Terceira Guerra Mundial

(4) À medida que os regimes caem e começam os "cessar-fogos", a crise capitalista continua

(5) A Última Carnificina no Médio Oriente faz parte da Marcha para a Guerra Generalizada

(6) Para Além da Venezuela: O Caminho para a Guerra Generalizada

(7) As Tarefas dos Revolucionários perante o impulso do capitalismo para a guerra

Quinta-feira, 5 de março de 2026

 

Fonte: Middle East in Flames: Next Step Toward Global Capitalist War | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice



Irão: Comunismo ou Bárbarie

 


Irão: Comunismo ou Bárbarie 

Como um disco riscado, os EUA estão a bombardear um país devido a preocupações humanitárias ou a supostas "Armas de Destruição Maciça". Onde é que já ouvimos isto antes? Estão confirmados que os bombardeamentos dos EUA e de Israel mataram cerca de 50 crianças numa escola primária, alguns manifestantes e mais de 500 até agora. Os EUA apelam à mudança de regime no Irão devido à repressão sangrenta deste último, mas a mudança de regime apenas muda qual grupo de abutres reaccionários está a abater operários. Os EUA afirmam que as pessoas no Irão precisam de democracia. Uma democracia que rapta operários das ruas enquanto bombardeia e deixa os operários morrer de fome em todo o mundo. É claro para os operários nos EUA que não temos interesse numa guerra com o Irão; Quando não temos cuidados de saúde, os salários estão a diminuir e a inflação continua a disparar.

Esta guerra actual cria um impasse que só pode conduzir a uma guerra mundial imperialista. Os ataques dos EUA e de Israel ao Irão representam mais um confronto entre blocos imperialistas em consolidação. De um lado estão os EUA, a NATO e Israel, do outro estão a China, a Rússia e o Irão. As pressões da profunda crise de rentabilidade do capitalismo empurraram todos os Estados para a guerra para controlar mais território e lucros, à custa de massacrar operários em todo o lado. O sistema capitalista é empurrado para uma estagnação constante ou para a guerra, e esta última torna-se preferível para a classe capitalista, como se viu no passado na Primeira e Segunda Guerra Mundial.

O interesse de cada estado é o do capital e dos lucros, não importa a fachada que se dê. Esta é a base das crises actuais. Todos os operários têm experiência directa com isto quando o seu salário estagna e diminui, quando a carga de trabalho aumenta, quando o Medicaid é cortado, alimentos e bens essenciais tornam-se inacessíveis, ou quando é despejado. O sistema capitalista exige uma acumulação constante que conduz todo o sistema para a guerra. Não há escapatória a este destino esperando que bons capitalistas ou bons países vençam ou tentando forçar qualquer governo capitalista a ir contra a sua razão de existir. Os operários nos EUA viram isto com a nossa própria classe dominante, que está unida, sejam eles democratas ou republicanos, no aumento da polícia, no terror e na guerra do ICE. No Irão, a classe operária tem uma longa história de militância e de formação de shuras (conselhos) durante as greves. Operários em greve e em protesto enfrentam os aiatolás reaccionários Basij e Pasadaran, mas também os separatistas regionais sedentos de sangue, gangues islamistas e monárquicos, que a maioria no Irão é demasiado jovem para se lembrar da SAVAK. A classe operária não pode voltar a ser enganada; A situação é muito mais grave hoje do que em 2003. Não há nada neste mundo que possa parar esta guerra ou a marcha para outra guerra mundial, excepto nós próprios, a classe operária. Não temos interesse neste jogo sangrento dos imperialistas, da classe capitalista. Não nos importamos com os seus lucros ou com as suas "nações". Criamos tudo e não recebemos nada com isso.

A classe operária terá de lutar antes que este comboio descontrolado fique sem carris. Terá de lutar contra os capitalistas no local de trabalho e fora dele, travando uma guerra política e económica. Terá de lutar usando a sua própria força, nunca relegando a luta aos sindicatos ou ao governo. E a apontar o caminho a seguir nesta luta terá de ser um partido político com um único objectivo: a revolução. Quando a classe operária tomar o poder e transformar a sociedade, conheceremos a paz. É por isso que as TIC vão sempre clamar: Não à Guerra, Senão a Guerra de Classes.

Internationalist Workers’ Group
Março de 2026

Terça-feira, 3 de Março de 2026

 

Fonte: Iran: Communism or Barbarism | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Enfermeiros do hospital NY Presbyterian Lutam nos Seus Próprios Termos!

 


Enfermeiros do hospital NY Presbyterian

Lutam nos Seus Próprios Termos!

 

Documento escrito para a greve dos enfermeiros presbiterianos de Nova Iorque em Fevereiro de 2026.

Apesar de a NYSNA e os hospitais parecerem prontos para encerrar, as enfermeiras do NY Presbyterian continuam corajosamente a greve. Depois de o comité negocial de enfermeiros presbiterianos rejeitar um acordo por não cobrir exigências-chave, a NYSNA forçou uma votação para acabar com a greve, juntamente com as enfermeiras de Montefiore e Mt. Sinai. Esta oferta da administração hospitalar recusou-se a abordar as questões da segurança do pessoal e da segurança no emprego, e o facto de o sindicato impor uma votação representa um ataque activo aos trabalhadores. Apesar do sindicato ter pedido aos trabalhadores que cancelassem o piquete antes da votação, as enfermeiras do Presbyterian continuaram a aparecer na linha de piquete e, no fim, rejeitaram o acordo.

Esta experiência deixa claro que o sindicato e o governo são falsos amigos dos enfermeiros e da classe operária em geral. A NYSNA demonstrou ser capaz de sabotar activamente a greve, minando as exigências dos enfermeiros por uma dotação segura, ao forçar uma votação sobre o acordo provisório, tentando acabar com a linha de piquete que só levaria à desmobilização da greve, e mantendo a divisão sectorial dos trabalhadores. De facto, o papel dos sindicatos hoje é impor um acordo “menos mau” aos trabalhadores em nome dos patrões. Cada derrota infligida aos trabalhadores, os sindicatos reclamam como uma vitória histórica, como quando o acordo provisório da NYSNA garantiu um aumento de 11% ao longo de três anos (provavelmente abaixo da inflação) em vez do aumento de mais de 30% inicialmente exigido.

Da mesma forma, o governo é bipartidário quando chega a hora de reprimir as exigências dos trabalhadores. Hochul não é a excepção, mas a regra, quando colude com o hospital para continuar o estado de emergência, permitindo que enfermeiros de fora do estado entrem nos hospitais durante a greve. Mesmo políticos "pró-trabalhadores" como Mamdani dão o seu apoio à supressão dos enfermeiros, ao endossar Hochul durante a sua oitava extensão do estado de emergência. O papel do nosso governo é proteger os interesses dos patrões, especialmente quando a classe operária afirma o seu direito de defender o seu padrão de vida.

A solução para os enfermeiros e a classe operária em geral, que nunca podem contar com o sindicato ou o governo para os representar, é tomar a luta nas suas próprias mãos. As enfermeiras do Presbyterian já fizeram isto quando rejeitaram a exigência da NYSNA para parar os piquetes, expulsaram o sindicato do grupo de chat e depois organizaram a greve até o acordo ser rejeitado, chegando mesmo a criar a sua própria rede de ajuda mútua para os colegas em dificuldades. As enfermeiras conseguiram renovar as suas exigências por um melhor contrato através da auto-organização da luta. Em vez de devolver a tarefa de terminar as negociações ao sindicato, que se mostrou incapaz de lutar por uma equipa segura, as enfermeiras presbiterianas de Nova Iorque deveriam usar a sua auto-organização e força para assumir a liderança real da greve, formando um comité de greve fora do sindicato.

No entanto, não basta que apenas uma parte dos trabalhadores assuma esta luta por si própria. O ataque capitalista às condições de trabalho e de vida é universalmente sentido pela classe operária. As coisas pelas quais as enfermeiras em greve lutam – melhores salários, falta de pessoal – são todas reivindicações partilhadas pela classe operária como um todo, por todos os seus sectores. Os operários já não podem lutar por estas exigências de forma isolada e separada quando os patrões estão unidos. Se estes sectores separados da classe operária se unissem nas suas actividades, teriam muito mais hipóteses de sucesso em garantir as suas reivindicações para TODOS os sectores. Assim, a classe operária unida poderá lutar não só por um padrão de vida digno, mas por uma nova sociedade que já não se baseie naqueles que possuem capital versus aqueles que têm de vender o seu trabalho por um salário. Esta luta terá de ser política, e a maior arma da classe operária será o seu partido político, capaz de direccionar cada luta individual para o objectivo mais amplo da revolução.

Internationalist Workers’ Group
Fevereiro de 2026

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2026

 

Fonte: NY Presbyterian Nurses Fight on their Own Terms! | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




M. N. Roy e a Questão Nacional

 


M. N. Roy e a Questão Nacional

 

Um grande homem é grande não porque as suas qualidades pessoais deem características individuais a grandes acontecimentos históricos, mas porque possui qualidades que o tornam mais capaz de servir às grandes necessidades sociais do seu tempo, necessidades que surgiram como resultado de causas gerais e particulares.

Assim escreveu Plekhanov em 1898. Roy certamente não era um “grande homem”, nem mesmo pelos padrões de esquerda. É certamente algo digno de nota quando os esquerdistas, que conseguiram criar um culto de personalidade em torno de pessoas medianas como Estaline e Mao, não o fazem em torno de Roy. As posições de Roy eram tão perigosas para a esquerda que era necessário silenciá-lo e ao seu trabalho? Não foram os escritos de Roy em si que eram prejudiciais para os esquerdistas, mas o que ele representava: um movimento laboral em ascensão na Índia. Em que sentido queremos dizer que Roy “não era um grande homem”? Precisamente que não foi Roy especificamente quem era “grande”, mas sim o movimento social que ele representava e defendia até ter ele próprio regredido à medida que o movimento laboral perdia força. As posições de Roy não podem ser compreendidas isoladamente, mas apenas no contexto do movimento social em todo o mundo naquela altura. Se alguma coisa, a vida de Roy permite-nos tirar algumas lições importantes para a actividade política no nosso próprio tempo. Portanto, embora Roy seja o sujeito, é o movimento social que escreverá a sua própria vida.

§

Quando Roy fez a viragem do nacionalismo para o comunismo, a Índia já tinha um movimento laboral nascente. Os senhores feudais sofreram um golpe sério em 1857 e perderam o poder efectivo no país. No final do século, a Índia já tinha tido um desenvolvimento capitalista substancial e, consequentemente, um movimento laboral emergente.

Foram registadas vinte e cinco greves importantes em Bombaim e Madrasta entre 1882 e 1890, várias grandes greves em Bombaim em 1892–93 e 1901, e um novo sinal de militância era evidente entre os trabalhadores de juta de Calcutá em meados da década de 1890, levando a Associação das Fábricas de Juta da Índia a pedir ao Governo de Bengala 'supervisão policial adicional' para conter 'combinações revoltantes' dos operários das fábricas em Abril de 1895.

Em 1908, os operários têxteis de Bombaim (aproximadamente 65.000) fizeram greve contra a prisão do líder nacionalista Tilak. Embora certamente houvesse agressão da classe operária e um aumento da militância entre os operários, esta estava a ser direccionada para o movimento burguês-democrático em vez do movimento de classe independente dos operários. A Segunda Internacional não tinha prestado atenção suficiente à luta de massas na Ásia, o que, por sua vez, sinalizava a sua falta de internacionalismo, criticada por Luxemburgo e Lenine.

Mas foi em 1918 que ocorreu o ponto de viragem decisivo. A revolução de Outubro sinalizou aos operários explorados do mundo que o capitalismo tinha de ser derrubado e que era precisamente a classe operária capaz de liderar o movimento para derrubar o capitalismo. Várias greves importantes eclodiram na Índia após a Revolução de Outubro nas presidências de Madras e Bombaim. Ambas as cidades tinham uma presença substancial da classe operária e uma longa tradição de greves laborais. Já em 1917, o agravamento das condições dos operários tinha levado a surtos espontâneos de lockouts e piquetes em Ahmedabad, Bombaim e Madras. Em 1918, greves ameaçavam eclodir nas fábricas (propriedade indiana e britânica) à medida que as condições se agravavam nas fábricas. Tal como em França e na Suíça, os operários da Índia tendiam muito para o obreirismo e mostraram-se susceptíveis às suas próprias limitações. As greves eram muito frequentemente arbitradas entre os governadores e as delegações dos operários. Disputas entre proprietários e operários foram resolvidas na mesa e os operários ainda não tinham forjado uma identidade de classe distinta. Isto tornou os operários susceptíveis a intervenções dos nacionalistas. Em 1918, B.P. Wadia liderou a formação do Sindicato em Madras. O Congresso, na presidência de Bombaim, começou a assimilar uniões sindicalistas no seu círculo (sindicato ferroviário, sindicato da imprensa e impressores, sindicato dos carteiros, etc.) e houve tentativas reais por parte dos operários para espalhar a greve, pelo menos do seu ofício, por todo o país. Mas as greves eram geralmente limitadas não a um único comércio em particular, mas, muito frequentemente, a uma região específica. Delegações operárias eram enviadas unicamente com a tarefa de negociar e, se as negociações falhassem, seguia-se violência. Isto travou o movimento laboral, que cresceu para incluir várias centenas de milhares de operários em todo o país. Mas o ataque não veio da frente, mas sim da rectaguarda. O Congresso interveio em todas as greves para mediar os conflitos e canalizar a militância dos operários, especificamente contra as fábricas britânicas, apesar de as fábricas indianas terem piores salários e condições. A jovem solidariedade de classe formada pelos operários europeus e indianos nas greves em Jamshedpur deveria ser enterrada. A atitude mais descarada dos sindicalistas foi em Madras, em 1918. Vendo Outubro como sinal para canalizar a sua militância contra os capitalistas, os operários das fábricas Buckingham & Carnatic em Madras organizaram um encerramento e enviaram delegações não para a casa do governador, mas para os operários dos caminhos-de-ferro que também estavam em greve. Mas Wadia não quis saber disso. Em vez disso, disse aos trabalhadores:

Se, ao fazer greve, estivesse a afectar os bolsos dos senhores Binny & Cia., eu não me importaria, pois eles estão a ganhar muito dinheiro; mas com tal medida prejudicará a causa dos Aliados. Os nossos soldados, que precisam de roupas, serão colocados em incómodo, e não temos o direito de incomodar aqueles que estão a lutar pelas batalhas do nosso Rei, porque alguns europeus ligados às fábricas e a este Governo estão a agir de forma má. Portanto, não devemos ter greves.

Desde o início, o Congresso e os nacionalistas não tolerariam qualquer generalização da luta de classes. O Congresso decidiu extinguir o movimento laboral o mais rapidamente possível e não teve qualquer remorso em fazê-lo. Limitados por esta restricção, os operários das fábricas em Madras, que tinham mostrado os primeiros sinais de consciência política, tornaram-se presas de abutres burgueses que dividiram e esmagaram os operários com base nas linhas de casta em 1921. Mas o breve interlúdio de 1918-1921 forneceu “carne suficiente no osso” para aqueles como Roy mostrarem que os operários nas colónias já começavam a expressar solidariedade de classe.

§

Roy tinha inicialmente sido o fundador do Partido Comunista do México. Foi através disso que a Internacional Comunista (Comintern) chegou a conhecer Roy e o convidou a participar no Segundo Congresso, bem como a estabelecer um partido comunista. O Partido Comunista da Índia (CPI) foi formado em 1920 em Tashkent. Mas isto permaneceu apenas uma parte menor da sua vida. Roy estava muito mais focado no Comintern e nas actividades do seu Comité Executivo (CE). Foi em 1920 que Roy “fez-se notar”. Até 1920, a “emancipação das colónias” tinha sido sagrada entre todos os comunistas. Até Luxemburgo apoiava a libertação nacional da Arménia. Mas em 1920 Lenine foi desafiado sobre esta questão por alguém que vinha ele próprio de uma colónia. No Segundo Congresso, Roy desafiou o apoio de Lenine à libertação nacional nas colónias. Em vez disso, Roy (que foi convidado por Lenine a redigir as suas teses suplementares) rejeitou tanto uma frente unida nas colónias como a libertação nacional. a libertação era uma tarefa que deveria ser apoiada. Roy explicava de forma clara a oposição a qualquer colaboração com a burguesia:

Podem distinguir-se dois movimentos que se estão a distanciar cada vez mais a cada dia que passa. Um deles é o movimento nacionalista burguês-democrático, que persegue o programa de libertação política com a conservação da ordem capitalista; o outro é a luta dos camponeses sem propriedade pela sua libertação de todo o tipo de exploração. O primeiro movimento tenta, muitas vezes com sucesso, controlar o segundo; no entanto, a Internacional Comunista deve lutar contra qualquer tipo de controlo deste género, e o desenvolvimento da consciência de classe das massas trabalhadoras das colónias deve, consequentemente, ser dirigido para o derrube do capitalismo estrangeiro.

Roy deixou explicitamente claro que a revolução no leste só ocorrerá com o proletariado da Europa, com uma tradição mais longa de socialismo, ao leme:

Embora, indubitavelmente, seja o proletariado dos países industriais da Europa e da América que se encontra na vanguarda dos exércitos da revolução mundial

O desafio de Roy a Lenine forçou o abandono da expressão «democrático burguês» em favor de «nacional-revolucionário», mas nem Lenine, nem Roy, nem sequer a totalidade do Comintern tinham clareza sobre o que este movimento «nacional-revolucionário» deveria significar. Toda o Comintern estava envolto em ambiguidade quanto ao que eram os movimentos «nacional-revolucionários» e como os comunistas poderiam apoiá-los.

Mas a posição de Roy sobre a questão nacional, embora bem-vinda, era confusa. Roy tirou as lições erradas da derrota do refluxo da vaga revolucionária. Roy via a revolução no Oriente como uma condição prévia necessária para que a revolução na Europa vencesse.

Agora, onde reside a fonte de força da burguesia britânica? A julgar pelas condições industriais existentes nas Ilhas Britânicas no momento presente, pareceria que, se os seus recursos se limitassem à produtividade dessas ilhas e ao poder de consumo da Europa continental, a ordem capitalista na Grã-Bretanha certamente estaria prestes a colapsar. Mas, apesar de todas as suas contradições crónicas e das dificuldades que enfrenta na reconstrução do tecido industrial do país natal com base na situação pré-guerra, a classe capitalista da Grã-Bretanha revela-se bastante firme no seu poder. Continua a conseguir enganar uma parte e coagir outra parte do proletariado. A posse do vasto império não europeu, e o controlo sobre a dependência económica recentemente criada à qual a Europa continental foi reduzida, proporcionam ao capital britânico um âmbito de acção muito amplo, permitindo-lhe assim manter a sua posição no país e, incidentalmente, assegurar o seu poder internacional. O desenvolvimento económico e industrial dos países ricos e densamente povoados do Oriente forneceria novo vigor ao capital ocidental. Existem grandes possibilidades nestes países que irão fornecer mão de obra barata e novos mercados que não se esgotarão muito em breve. Portanto, a destruição do seu direito monopolista de exploração no vasto império colonial oriental é um factor vital no derrube final e bem-sucedido da ordem capitalista na Europa.

Além de ser excessivamente economicista, Roy via incorrectamente os mercados, ou seja, os canais de escoamento, como a razão da crise capitalista, sem perceber a contradição entre o trabalho assalariado e o capital e a queda da taxa de lucro no país como a causa raiz da crise. Mas Roy também negligenciou as razões políticas. Ele via o “calcanhar de Aquiles” da derrota na Europa como sendo a força da burguesia, em vez de levar em conta as razões históricas. Parafraseando Luxemburgo, os operários tinham grande fé na Segunda Internacional e nos seus partidos, e a sua traição teve um efeito profundo sobre a classe operária. A saída tardia dos comunistas do Partido Social-Democrata Independente da Alemanha (USPD) confundiu ainda mais os operários, e o abandono da linha revolucionária dentro do Partido Comunista da Alemanha (KPD), o oportunismo de Zinoviev, que usou o seu poder como presidente do EC para impedir que a fracção de esquerda no Partido Socialista Italiano (PSI) rompesse com o PSI, e constituisse uma secção do Comintern foram perdidas para Roy.

Outra grande fraqueza do texto de Roy residia na ambiguidade da revolução no Oriente. Roy ainda via que as revoluções democráticas burguesas, embora não devendo ser apoiadas, eram ainda 'revolucionárias', ou seja, ele ainda não tinha percebido o carácter contra-revolucionário destes movimentos. Mesmo na sua intervenção sobre a questão nacional e colonial, Roy disse,

Na primeira fase do seu desenvolvimento, a revolução nas colónias deve ser realizada de acordo com o programa de exigências puramente pequeno-burguesas, como a distribuição da terra e assim por diante.

Enquanto argumentava contra a suposição de que a burguesia deve ser autorizada a liderar, Roy ainda via as coisas em termos “estadiários” e nacionais, ou seja, embora a revolução mundial fosse a pré-condição para o socialismo, as revoluções podiam ocorrer em momentos diferentes e em regiões diferentes de forma diversa. Revolução mundial não significava o surgimento simultâneo da luta de classes. Em termos marxistas, perdia-se a generalização da luta de classes. O internacionalismo de Roy tinha um pouco mais em comum com o de Trotsky, mas esta era uma questão que afectava todo o meio da época. Houve outros que apontaram as falhas de Roy nas suas teses sobre a questão nacional. Sultanzade, o delegado da Pérsia, salientou que Roy, ao enfatizar excessivamente as revoluções no oriente, tendia a sobrestimar a força do proletariado contra o ataque do capital mundial.

Será que os operários desse país conseguirão resistir ao ataque da burguesia de todo o mundo sem a ajuda de um grande movimento revolucionário em Inglaterra e na Europa? Claro que não. A repressão da revolução na Pérsia e na China é uma prova clara desse facto.

Mas o que todo o meio ainda não tinha percebido era que a vaga revolucionária tinha começado a esmorecer e que o oportunismo gradual do Comintern reflectia este facto. A própria confusão de Roy sobre a libertação nacional pode ser melhor resumida nas suas próprias palavras,

Nos países atrasados, a revolução nacional é um passo em frente. […] A população dos países explorados, cuja evolução económica e política não pode prosseguir, tem de passar por diferentes fases revolucionárias das que os povos europeus atravessaram. Quem pensa que é reaccionário ajudar estes povos na sua luta nacional é ele próprio reaccionário e fala a linguagem do imperialismo.

Estas pessoas são apenas os operários e pequenos camponeses sem terra ou são “todos os povos”? Tais questões não foram discutidas.

Apesar das falhas nas teses de Roy discutidas acima, estas expressavam um firme desafio à necessidade da libertação nacional, mas apresentavam de forma confusa graves defeitos. Incentivados por Lenine, Roy e Abani Mukherjee expandiram as suas teses para suprimir a noção de "semi-feudalismo" e prepararam um livro, Índia em Transição (1922). As ambiguidades da questão nacional voltariam a assombrar Roy. Zinoviev presidiu ao Congresso dos Povos do Oriente realizado em Baku em 1920 e começou a fazer apelos abertos ao pan-islamismo contra a Grã-Bretanha e instigou as tribos afegãs (como os alemães tentaram em 1914) a envolverem-se numa jihad contra o Império Britânico. Roy distanciou-se do congresso que descreveu como o "Circo de Zinoviev".

Um dos últimos artigos pertinentes sobre a questão nacional escritos por Roy foi em 1924 (A Segunda Internacional & a Doutrina da Autodeterminação). Aqui ele mais uma vez castigou a auto-determinação, escrevendo:

A auto-determinação exigida pela burguesia indiana é apenas o direito a uma pequena parte na exploração económica e na administração política

Ele atacou o “movimento de não-cooperação” de Gandhi, mas não tinha conseguido ver, como apontou no seu artigo, como os próprios operários estavam agora a levantar exigências totalmente burguesas. As confusões políticas causadas pelos seus escritos anteriores sobre a libertação nacional levaram à linha oportunista no seu panfleto,

Os povos das colónias não podem ter o direito à auto-determinação a menos que seja declarada guerra ao Imperialismo.

Havia sinais do que estava para vir.

Por volta da mesma altura em que escreveu o seu artigo de 1924, Roy começou a mover-se mais para o estalinismo. Para além de ter votado pela expulsão de Trotsky, foi enviado para a China para mediar um conflito entre Borodin e o Kuomintang. Por esta altura, Roy tinha começado a aceitar a “frente unida”. Em 1927, no Quinto Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC), o relatório de Roy dizia,

Estamos a regressar à situação que levou à Guerra Mundial de 1914. A corrida pelos mercados é uma característica da situação internacional contemporânea. Como resultado da crescente concorrência, o mundo enfrenta a ameaça de uma nova guerra, ainda mais onerosa e mais destrutiva do que a última guerra. Por outro lado, a revolta dos povos coloniais diminuiu a possibilidade de criar mercados ultramarinos. De facto, os mercados em vários países coloniais já encolheram de forma considerável.

Aqui reside o problema da capitulação de Roy ao estalinismo. Roy passou assim a apoiar plenamente a libertação nacional como uma “guerra contra o imperialismo”. Em vez de considerar a libertação nacional como contra-revolucionária, Roy e a Internacional Comunista passaram a considerá-la completamente como “baluartes contra o imperialismo”, fosse conduzida pelos operários ou pelos próprios capitalistas. Claro que Roy nunca foi tolo o suficiente para fazer as mesmas afirmações que Mao, mas o oportunismo e a falta de clareza sobre a questão nacional desviam-nos do caminho da revolução e conduzem-nos à contra-revolução.

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Uma coisa que tem sido notoriamente omitida é Roy e o PCI. Embora Roy tenha desempenhado um papel mais dominante – antes da sua expulsão por contribuir para a KPD-Opposition (KPO) na Alemanha – como membro do CE, ele teve também um papel na formação do PCI. Mesmo dentro do PCI, Roy, no início da década de 1920, combateu as mesmas posições que viria a defender em 1927. Já havia aqueles dentro do PCI que apoiavam uma aliança de frente ampla de nacionalistas contra o imperialismo britânico. Esta facção tinha-se reorganizado em Berlim e era chamada de “Grupo de Berlim”, liderado por Virendranath Chattopadhyay. Em 1921, Virendranath, juntamente com G. A. K. Lohani, Panduram Khankhoje e outros, apresentaram um documento intitulado Teses sobre a Índia e a Revolução Mundial, que sustentava que a Índia era de natureza “semi-feudal” e se opunha à posição de Roy no Segundo Congresso. As opiniões de Roy acerca das actividades de outros grupos revolucionários indianos tinham um peso enorme e ele era considerado o porta-voz mais eficaz no que dizia respeito à questão indiana, mas na realidade, o CPI já tinha começado a afastar-se de Roy à medida que este se afastava da sua posição de 1920. Mas, no início da década de 1920, Roy liderou uma forte oposição contra todas estas correntes. Opondo-se ao nacionalismo de frente ampla defendido por Barkatullah, preferia que o CPI se distanciasse do Congresso. Em última análise, o que o Comintern EC utilizou para obter controlo directo sobre o CPI (em 1924) foi o Partido Comunista da Grã-Bretanha (CPGB). O EC tinha ordenado que o CPGB e o CPI trabalhassem em estreita colaboração por razões óbvias. Para assumir o controlo do CPI, o EC criou o “Bureau Indiano no Estrangeiro” com membros britânicos e indianos. O Bureau desmoronou-se quase de imediato. Numa carta a Petrov, Roy escreveu,

O nosso Bureau não está a funcionar bem. Particularmente, a parte britânica do trabalho é muito insatisfatória. Contrariamente à carta recebida de si, fomos informados pela parte britânica de que o representante lá regressou de Moscovo com novas instruções que rejeitam completamente a nova linha que temos seguido até agora. De acordo com estas novas instruções, a Comissão Colonial da Parte Britânica assume a responsabilidade política suprema pelo trabalho na Índia, no Egipto e noutras colónias. Isto já deu origem a duplicação de esforços e a trabalho no sentido errado. A parte britânica parte do pressuposto de que, uma vez que não fizeram nada na Índia, nada existe lá, e que têm de começar tudo de novo. Não querendo provocar um conflito, entreguei à parte britânica a quantia total autorizada para o trabalho do nosso Bureau nas Colónias Britânicas.

Até ao 9.º plenário da Comissão Europeia do Comintern em 1928, Roy manteve-se à frente dos assuntos indígenas. Mas em 1928, Roy foi removido e substituído por S. V. Ghate e D. A. Naoroji, ambos apoiantes do nacionalismo indiano e do estalinismo. Benn Bradley e o CPGB ganharam controlo total do IPC pouco depois. Em 1929, Roy foi expulso do Comintern. Renunciando ao comunismo, passou a apoiar a Segunda Guerra Mundial antes de pregar sobre o "Humanismo Radical".

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Apesar da regressão da sua vida, Roy oferece-nos uma perspectiva interessante do que pode acontecer se não tivermos claridade sobre questões-chave como a questão nacional. A abertura da porta ao oportunismo é o que apodrece qualquer indivíduo e partido por dentro. Será que as confusões de Roy poderiam ter sido ultrapassadas? Claro. O exemplo brilhante é a esquerda italiana, que retirou lições precisas das experiências do proletariado, incluindo a rejeição da libertação nacional após o massacre na China. Mas a condição prévia para essa clareza é a organização política dos comunistas. O que a vida de Roy ensina é precisamente que a militância individual é impossível e só como organização podemos trabalhar pelo comunismo, pela generalização da luta de classes e pela prevenção da regressão das dolorosas lições que comunistas e operários aprenderam ao longo dos séculos.

Betov
Class War (South Asia)
Fevereiro de 2026

Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2026

 

Fonte: M. N. Roy and the National Question | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




O Your Party e o Partido Verde: Mais Dois Becos Sem Saída

 


O Your Party e o Partido Verde: Mais Dois Becos Sem Saída

 

Desde o fracasso do projeto Corbyn em 2019, a esquerda capitalista no Reino Unido tem estado politicamente sem-abrigo. Foi preciso um Partido Trabalhista sem rumo a presidir à estagnação económica e ao colapso dos serviços públicos, bem como a actuar em segundo plano face ao falso populista Partido da Reforma, copiando a sua retórica anti-imigração e autoritária, para forçar grupos de esquerda a agir. Tal como os proverbiais autocarros, surgiram subitamente dois projectos de esquerda distintos ao mesmo tempo: o Your Party e um Partido Verde rebaptizado. Ambos fazem afirmações radicais mas, mesmo que de alguma forma sejam eleitos, quaisquer mudanças que provoquem estão condenadas a ser temporárias e ineficazes.

Isto não se deve apenas ao facto de escolherem operar dentro do quadro legal e eleitoral capitalista, mas também porque estão a bater contra os limites objectivos de uma economia mundial marcada por taxas de lucro em declínio e imperialismo voraz, onde os governos têm de extrair o máximo possível da classe operária para competir. A situação é tal que nações "desenvolvidas" como a Grã-Bretanha têm de competir com nações "em desenvolvimento" por investimento. Estas nações "em desenvolvimento" têm custos laborais mais baixos e são mais lucrativas. Para competir contra isto, a Grã-Bretanha tem de cortar impostos aos ricos. Durante o século passado, a criação de um estado social ajudou a atenuar os antagonismos de classe, mas isso já não é acessível e governos consecutivos têm emprestado e levado a dívida nacional a alturas vertiginosas. Isto provoca taxas de reembolso mais elevadas da dívida, o que, em última análise, obriga os governos a impor austeridade. Embora estes partidos de esquerda possam trazer algumas concessões temporárias, a situação exige austeridade. Políticos de destaque, como o chanceler alemão Merz, admitem agora abertamente que "o Estado social, tal como o conhecemos hoje, já não é economicamente sustentável". A escolha entre o populismo de extrema-direita e o populismo de esquerda é simplesmente uma escolha entre declínio imediato e declínio controlado, sendo a nossa miséria o resultado inescapável.

O Your Party

O primeiro dos dois partidos é o Your Party (o Teu Partido – NdT), que é uma tentativa de reviver o Corbynismo a partir dos restos da sua base no Partido Trabalhista. No entanto, devido à sua reivindicação de ser um "novo tipo de partido político" onde tudo, incluindo o nome, seria decidido pelos seus membros, não está claro exactamente o que o partido representa. De um lado estão os fiéis crentes de Corbyn que querem fazer de um Partido Trabalhista o Mark 2 completo com a sua burocracia, centrada na figura de Corbyn. Presumivelmente, representam mais ou menos aquilo que o Partido Trabalhista defendia quando ele era líder. Nomeadamente, aumentar o financiamento para o NHS e outros serviços públicos, nacionalizações estratégicas e aumentar os impostos sobre os ricos. Em vez de ser "um novo tipo de política", isto é apenas o Velho Trabalhismo, que também foi a política que supervisionou o recuo e a desmoralização da classe operária organizada durante o período pós-guerra. Do outro lado está uma coligação instável de trotskistas e sociais-democratas que se unem em torno da antiga deputada trabalhista Zarah Sultana, que querem maior democracia interna e uma retórica mais agressiva. Sultana teve as palavras mais ardentes de todas, chegando a apelar a "nacionalizar toda a economia". Embora não esteja claro exactamente o que ela quis dizer com isto, o apelo à nacionalização generalizada não é tão radical quanto pode parecer. A nacionalização e o capitalismo podem coexistir perfeitamente bem, e podem até ser benéficos, pois a nacionalização pode sustentar indústrias essenciais com margens de lucro baixas usando impostos sobre as indústrias de maior lucro. Independentemente de quem acabe no controlo do Your Party, conflitos internos amargos e artimanhas de ambos os lados podem já ter afundado o navio antes de este ser lançado, com milhares de apoiantes desiludidos a partirem em busca de melhores oportunidades.

O Partido Verde

Muitas pessoas estão a juntar-se ao Partido Verde porque parece ser uma organização muito menos disfuncional. E tem um líder muito mais carismático no jovem Zack Polanski. Polanski desviou a retórica dos Verdes do seu habitual foco ambiental para questões de acessibilidade financeira e da crise do custo de vida. A sua grande ideia é um imposto sobre a riqueza de 1% a 2% para os habitantes mais ricos do Reino Unido, de modo a reduzir a desigualdade. Baseando-se nas ideias do popular YouTuber e antigo trader de mercado Gary Stevenson, ele culpa a crise de acessibilidade na distribuição cada vez mais desigual da riqueza. Embora Polanski se identifique como socialista e anti-capitalista, a sua solução é essencialmente tecnocrática e acredita que o governo, através de leis e políticas inteligentes (admitiu que a função pública teria de definir os detalhes dos seus planos) pode inclinar fundamentalmente o equilíbrio de poder na sociedade a favor dos trabalhadores. Embora a distribuição da riqueza possa ser grotescamente desigual, e esta desigualdade possa ser fonte de problemas temporários para a classe capitalista, quaisquer reformas que implementem serão restringidas para garantir que o equilíbrio de poder existente se mantenha como está. A prova disto é o historial dos Verdes no governo local, onde, para não infringirem a lei, tiveram de impor cortes orçamentais draconianos aos seus eleitores. Uma experiência do Partido Verde como potencial partido júnior num governo de coligação seria então apenas uma repetição, numa escala muito maior, da mesma traição.

Reformas nunca serão suficientes. Precisamos do comunismo!

Seja qual for o veículo que a esquerda na Grã-Bretanha use para os seus objectivos eleitorais e reformistas, terá o mesmo efeito. Podem apelar à solidariedade com os trabalhadores migrantes, mas ao canalizar a raiva popular para o pântano parlamentar, privam à classe operária da capacidade de criar activamente solidariedade com todos os trabalhadores através da nossa própria luta. Defendem impostos sobre a riqueza, mas não questionam o sistema que rouba essa riqueza aos operários em primeiro lugar. Pior ainda, tiram-nos as próprias palavras para descrever a nossa situação e os meios pelos quais nos podemos libertar, descrevendo o "capitalismo" como apenas algumas das injustiças mais óbvias do sistema, e o "socialismo" como apenas alguns ajustes superficiais a um sistema fundamentalmente opressivo. O capitalismo não é apenas algumas maçãs podres, mas a base de toda a nossa sociedade. É o facto de sermos fundamentalmente não livres. Temos de vender a nossa vida aos patrões para obter os seus lucros, e em troca obtemos guerra, pobreza e destruição ambiental. Isto é o capitalismo, e as tentativas de o reformar ao longo do último século falharam todas. A crise de rentabilidade significa que qualquer espaço de respiração que o sistema ganhe através das reformas será de curta duração e rapidamente colocar-nos-á de volta no caminho da guerra. Outra vez. E outra vez. Neste processo, o sistema está a destruir o nosso planeta e a apagar o nosso futuro. As injustiças e tendências fundamentais do sistema são inerentes e não podem ser reformadas. O sistema precisa de ser derrubado. O socialismo só pode ser construído após o derrube revolucionário do capitalismo porque socialismo significa o fim do sistema de trabalho assalariado, produção para lucro, classes sociais, dinheiro e Estados-nação. Isto só pode ser alcançado através da organização política dos operários, destruindo a produção capitalista e implementando a produção comunista para as necessidades humanas. O sistema capitalista é agora uma ameaça para a própria humanidade. A escolha que enfrentamos é ou a destruição da humanidade sob o capitalismo ou a reconstrução revolucionária da sociedade como comunismo. Se este sistema não for derrubado, talvez nem sequer tenhamos um mundo para viver.

O artigo acima é retirado da edição actual (n.º 74) do Aurora, boletim da Organização dos Trabalhadores Comunistas.

Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2026

Aurora é o jornal principal das TIC para as intervenções entre a classe operária. É publicado e distribuído em vários países e línguas. Até agora, tem sido distribuído no Reino Unido, França, Itália, Canadá, EUA e Colômbia.

 

Fonte: Your Party and the Green Party: Two More Dead Ends | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice