Tantas coincidências e certezas como dúvidas
Hondurasgate e a arquitetura opaca da dominação
hemisférica
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de Maio de 2026, 14h33.
A 30 de novembro de 2025, poucos dias antes das eleições presidenciais nas Honduras, Donald Trump anunciou o perdão de Juan Orlando Hernández (JOH), um ex-presidente condenado em Junho de 2024 a 45 anos de prisão por um tribunal federal em Nova Iorque por conspiração para importar cocaína e crimes relacionados com armas de fogo.
Os procuradores mostraram que, durante o seu mandato, Hernández usou o
aparelho estatal para proteger o tráfico de mais de 400 toneladas de cocaína
para os Estados Unidos, transformando as Honduras no que os procuradores
chamaram de narcoestado. O perdão é o ponto de partida de uma conspiração de
interferência política de proporções continentais, chamada Hondurasgate.
Hondurasgate: Detalhes da Trama
É uma investigação publicada pelo Diario
Red América Latina e pela plataforma Hondurasgate, baseada em 37 áudios vazados
de conversas no WhatsApp, Signal e Telegram, cuja autenticidade foi verificada
através de análise forense com o software Phonexia Voice Inspector.
Revela como o perdão teria sido financiado por sectores ligados a Israel.
Num dos áudios, atribuído à JOH, o ex-presidente afirma que o dinheiro para a
sua libertação "veio de um conselho de rabinos" e que o
primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu teve "tudo a ver" com
a operação.
A trama revela uma diplomacia paralela operada a partir do ambiente
trumpista, com Roger Stone como um lobista chave. Além disso, os áudios
descrevem um plano para devolver Hernández à presidência das Honduras, com o actual
presidente, Nasry Asfura, como figura de transição.
As gravações revelam aspectos que transcendem as fronteiras hondurenhas; no
enredo, JOH aparece como um articulador de agendas que entrelaçam oligarquias tecnológicas do Silicon
Valley, confrontos contra a China e estruturas criminosas. Entre os
elementos negociados estão a expansão das Zonas de Emprego e Desenvolvimento
Económico (ZEDEs) – também conhecidas como "Cidades-Modelo" e denunciadas como cedências
de soberania – a construção de uma nova base militar dos EUA ao estilo de
Palmerola, um canal inter-oceânico e legislação de inteligência artificial
adaptada aos interesses das empresas norte-americanas e israelitas.
Ao mesmo tempo, os áudios documentam o alegado uso de fundos públicos
hondurenhos e contribuições do
governo argentino de Javier Milei — estimadas em 350.000 dólares — para
financiar uma "célula mediática" destinada a desacreditar governos
progressistas na região, particularmente os de Claudia Sheinbaum no México e
Gustavo Petro na Colômbia. No material ouve-se dizer que Milei contribuiu com
recursos para "criar um escritório aqui, vindo dos Estados Unidos, para
atacar e eliminar o cancro da esquerda."
O silêncio dos grandes media corporativos perante estas revelações é
eloquente. Embora a fuga tenha nomes, montantes, ameaças e planos, tem
sido sistematicamente ignorada pelas
principais redes de notícias latino-americanas. A explicação não reside na
falta de provas, mas na estrutura de poder que regula a circulação da informação.
Quando os intervenientes envolvidos são o governo dos EUA, sectores de Israel e
grandes empresas tecnológicas, o escândalo político transforma-se em silêncio
mediático.
Dominação hemisférica, coincidências e certezas
A Estratégia de Segurança Nacional (NSS), publicada pela administração
Trump em 2025, articula uma visão geo-política onde a segurança hemisférica se
funde com interesses económicos e tecnológicos. O chamado "Escudo das
Américas" promete integrar
recursos militares, de inteligência e económicos sob uma lógica de dissuasão
selectiva que condiciona a cooperação ao alinhamento ideológico com Washington.
No entanto, como documentam os áudios do Hondurasgate, esta estratégia tem um
componente opaco onde a linha entre segurança pública, intervenção política e
negócios privados se torna difusa.
Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA, surge como o pivô desta arquitectura.
O cubano-americano construiu uma carreira
política promovendo líderes latino-americanos com percursos questionáveis —
desde JOH a Daniel Noboa no Equador e Javier Milei na Argentina — sob a
retórica de combate ao "narco-terrorismo", enquanto ignora ou
legitima os seus laços com estruturas criminosas. Fica na memória como elogiou publicamente Hernández
em 2018 por combater o tráfico de droga, apenas sete meses antes do irmão ser
acusado de tráfico de 158 toneladas de cocaína.
Embora a retórica oficial de Rubio condene a corrupção, na prática foi
perdoada e está a tentar-se reintegrar um actor ligado ao crime organizado para
garantir o controlo territorial e os interesses das "Big Tech" no
metabolismo dos dados e recursos.
A opacidade funciona como uma ferramenta estratégica e é evidente nos
áudios. Estas revelam que Hernández opera a partir dos Estados Unidos e
coordena ações judiciais contra opositores hondurenhos,
incluindo a demissão de magistrados
eleitorais e ameaças de "prisão ou morte" contra o conselheiro
eleitoral Marlon Ochoa.
Tudo isto, segundo as gravações, com o apoio de "pessoas de
Israel" e fundos enviados directamente por Hernández. Esta modalidade —
intervenção política através de operadores locais, financiamento opaco e
desinformação mediática — replica padrões históricos documentados por
investigadores como Peter Dale Scott e Greg Grandin, que apontam
que a "guerra contra as drogas" serviu repetidamente como cobertura
para operações de inteligência e mudanças de regime.
A legislação sobre IA mencionada nos áudios, por exemplo, facilitaria o
acesso de empresas dos EUA e de Israel a dados sensíveis e mercados emergentes,
em linha com a concorrência tecnológica mundial contra a China. Neste esquema,
em vez de objectivos a combater, as estruturas criminosas serviriam como
instrumentos de negociação de pressão e controlo territorial.
A porta das dúvidas abre-se
O escândalo levanta questões sobre rivalidades internas dentro do aparelho
dos EUA, à medida que a comunidade de inteligência norte-americana atravessa uma crise sem precedentes, com purgas de
funcionários, despedimentos na NSA, DIA e FBI, restricções a relatórios que
contradizem a linha oficial e uma crescente politização das agências. Neste
contexto, a fuga de áudios que implicam directamente Trump, Netanyahu e
operativos regionais poderia responder a disputas entre facções dos serviços
secretos dos EUA. Alguns podem ver uma linha vermelha na aliança com actores
questionados como Hernández, contra aqueles que priorizam o confronto geo-político
com a China e a influência progressista na América Latina.
A questão central é quem divulgou e com que propósito. Se os áudios forem
autênticos – como sugerem os peritos forenses – a sua publicação poderia tentar
desmontar o plano antes da sua consolidação ou, alternativamente, expor as
contradições de uma política externa que combate publicamente o tráfico de
droga enquanto perdoa privadamente os seus principais beneficiários.
Por outro lado, a rivalidade entre Rubio e o vice-presidente
dos EUA, J.D. Vance, pela sucessão da liderança republicana até 2028,
acrescenta uma dimensão adicional, dado que a disputa pelo controlo da política
latino-americana dentro da administração Trump pode estar a gerar fugas de
informação que enfraquecem o rival.
Hondurasgate também mostra que o confronto contra a China na região é
económico ou militar, mas inclui também a eliminação dos governos que mantêm
relações com Pequim. Nos áudios, Asfura comenta que "os chineses estavam a
licitar, mas não vamos ceder", revelando como a restauração do JOH faz
parte de uma estratégia mais ampla de controlo geopolítico.
Outra questão que permanece é se as agências norte-americanas, que
tradicionalmente monitorizam o crime organizado, irão tolerar que as suas
próprias operações sejam confundidas com os interesses de oligarcas
tecnológicos e operativos políticos cujo único capital é a violência e a
corrupção.
Em todo o caso, o
escândalo mostra como o sistema de poder em Washington, em aliança com actores
internacionais como Israel e governos satélites da região, opera através de
mecanismos extra-legais para sustentar a sua hegemonia.
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dedicados a analisar o processo de guerra contra a Venezuela e as suas
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Fonte: Hondurasgate
e a arquitetura opaca da dominação hemisférica | Missão Verdade
Este artigo foi traduzido para Língua
Portuguesa por Luis Júdice


