Cinco Anos de Nacionalismo Talibã Reacionário na Era
do Imperialismo Mundializado
20 de Agosto de 2026 Robert Bibeau
Por Radical
de Esquerda do Afeganistão (LRA).
Passaram
cinco anos desde a queda de Cabul e a restauração do regime talibã a 15 de Agosto
de 2021. Este evento, ao contrário das narrativas superficiais que o apresentam
como uma "vitória de um grupo anti-colonial" ou um
"regresso às tradições islâmicas",
é, no quadro do materialismo histórico, uma forma de capitalismo local e
dependente integrada no sistema capitalista mundial.
O
regime talibã é um claro símbolo da crise sistémica do capitalismo mundial e
das políticas imperialistas na região. Por outras palavras, este regime é
produto directo das contradições internas do sistema mundial de dominação
capitalista e do fracasso dos projectos neo-liberais de "construcção
de nações". O que está a acontecer no
Afeganistão hoje é um palco para o conflito de interesses entre a burguesia
internacional, rivalidades geo-políticas e a flagrante violação dos direitos
humanos — apartheid de género organizado — e o desrespeito pelos valores
democráticos que o mundo ocidental afirma defender.
1. A Continuação da Dominação Imperialista sob a Cobertura do "Acordo de Paz" de Doha
Ao
contrário das narrativas comuns, a retirada militar dos Estados Unidos e
da NATO em
Agosto de 2021 não significou o fim da intervenção imperialista no
Afeganistão. O
acordo de Doha, assinado em Fevereiro de 2020
entre os Estados Unidos e os talibãs, não foi um tratado de paz, mas uma "mudança
táctica" por parte de Washington para gerir a crise. De acordo com este acordo, os Estados Unidos
comprometeram-se a injectar pacotes de dinheiro em Cabul todas as semanas sob o
pretexto de "ajuda humanitária". A publicação Revolution (Chicago, Edição 792, Março de 2026) descreve
correctamente este fluxo de dólares como um "tributo imperialista"
destinado a estabilizar a taxa de câmbio afegã e a evitar o colapso completo da
burocracia tribal talibã.
Estes
milhares de milhões de dólares em ajuda anual não são para o bem-estar do povo,
mas para manter a estabilidade de um regime que desempenha o papel de
"polícia regional" para conter rivais como a Rússia, a China e o Irão. O controlo dos EUA sobre o espaço aéreo afegão,
bem como as ameaças de Trump de retomar a base militar de Bagram e recuperar
equipamento militar no valor de 80 mil milhões de dólares, são provas claras da
continuação da ocupação civil e da vigilância imperialista.
Por
outro lado, a presença económica da China e dos países da Ásia Central
alinhados com a Rússia no sector mineiro e de recursos subterrâneos,
infraestruturas e projectos de trânsito, bem como na agricultura, bem como os laços estreitos dos talibãs com o
Irão e o apoio do Corpo da Guarda
Revolucionária Islâmica (IRGC) ao círculo de Mullah Haibatullah em Kandahar,
inevitavelmente levantam preocupações em Washington. A verdade é que as grandes
potências estão preocupadas com os seus próprios interesses estratégicos e
travam rivalidades destrutivas no Afeganistão e na região, cujas únicas vítimas
são o povo empobrecido do Afeganistão.
2. Os talibãs: medievalismo reaccionário
e fascista ao serviço da modernidade capitalista
O regime talibã não pode ser descrito simplesmente como um fenómeno de "fascismo religioso-étnico" ou "medievalismo"; Antes, este regime tem uma função orgânica dentro do sistema capitalista viciado. Ao reprimir brutalmente os movimentos de protesto de trabalhadores, mulheres e jovens por "trabalho, pão, liberdade, educação", os talibãs estão a preparar o terreno para a exploração ilimitada da mão de obra barata e dos recursos naturais. Embora as receitas fiscais internas dos talibãs tenham atingido cerca de quatro mil milhões de dólares por ano, metade deste orçamento é destinada à "segurança" e repressão, enquanto a quota da saúde pública e do bem-estar social diminuiu drasticamente.
A carta deste regime não é uma
constituição moderna, mas um conjunto de decretos reaccionários emitidos por
Mullah Haibatullah, o líder extremista sediado em Kandahar. Mais de 100
decretos, maioritariamente emitidos contra mulheres e raparigas,
institucionalizaram o "apartheid de género". Segundo relatórios da
ONU, 52 por cento das mulheres afegãs saem de casa apenas uma ou duas vezes por
mês, e 75 por cento sentem-se inseguras sem um guardião masculino. Estas restricções
excluem efectivamente as mulheres da participação social significativa,
transformando-as em seres dependentes confinados às suas casas.
Em
particular, o Decreto n.º 12 (2026), que anula o princípio da igualdade
jurídica e criminaliza a violência doméstica apenas em casos de "dano
físico grave", e o Decreto n.º 18, que restringe o direito das mulheres ao
divórcio e promove efectivamente o casamento infantil, demonstram o objectivo
do regime de reproduzir um sistema patriarcal ligado aos interesses da nova classe dominante (a burguesia viciada).
3. Crise humanitária e a "geração
perdida"
As
políticas dos talibãs transformaram o Afeganistão num "cemitério de
sonhos." O Afeganistão é o único país no mundo que proibiu raparigas de
frequentar o ensino secundário e universitário. Actualmente, 2,4 milhões de
raparigas estão privadas de educação. Em contraste, milhares de madrassas que
oferecem educação estritamente religiosa foram abertas às raparigas para
substituir as escolas por currículos modernos; O objectivo é formar uma geração
anti-ciência, extremista e oposta ao modernismo, para servir no futuro
como mão-de-obra
barata e potenciais soldados para conflitos futuros. A UNESCO alertou que continuar esta tendência levará
a uma escassez de mais de 25.000 professoras e enfermeiras até 2030,
paralisando o sistema de saúde do país.
A crise de saúde mental entre as
mulheres também reflecte esta violência estrutural. Sete em cada dez mulheres
descrevem a sua saúde mental como "má" ou "muito má". A
taxa de mortalidade materna atingiu 638 por 100.000 nascimentos vivos, uma das
mais elevadas do mundo. (Relatório da ONU)
Quase
dois terços da população actual do Afeganistão nasceram após 2001 e agora não
veem "nenhum caminho claro para a prosperidade" pela frente. Esta
população jovem e desempregada, forçada a fugir ilegalmente para o Irão ou Paquistão,
é um claro exemplo do "exército de reserva do trabalho" no sistema
capitalista mundial.
Em Julho de 2026, dezanove trabalhadores
afegãos que tinham viajado ilegalmente para o Irão em busca de trabalho e de
"um pedaço de pão" para as suas famílias morreram de calor sufocante
e de falta de água. Esta tragédia não foi apenas um incidente amargo; Isto é
uma indicação sistemática da crise estrutural da economia afegã. A maioria dos
que fogem do Afeganistão devido ao terror e à pobreza dos talibãs são membros
jovens e instruídos, empregados em empregos humildes e não qualificados a
salário mínimo em países vizinhos e ocidentais, desempenhando assim efectivamente
o papel de mão-de-obra barata para o capitalismo mundial.
4. A oposição armada e a ilusão de uma alternativa
Nessas
circunstâncias, alguns círculos ocidentais e até algumas correntes de esquerda,
movidos pelos seus interesses nacionalistas, consideram a oposição armada aos
talibãs no norte do país, especialmente no Badakhshan, como uma "frente de
resistência". No entanto, uma análise de classe mostra que estes grupos,
como os talibãs, carecem de um programa progressista e democrático em favor das
classes pobres da sociedade. A
guerra civil em Badakhshan é principalmente
sobre o controlo das minas de ouro e dos recursos naturais, e o apoio do
Paquistão a opositores corruptos dos Talibãs, ou mesmo aos remanescentes do
regime fantoche de Ashraf Ghani, devido a disputas com os talibãs sobre o
"Tehrik-i-Taliban Pakistan" (TTP) e o movimento independentista do
Baluchistão, é evidente.
Esta oposição, que tem um historial de corrupção e abusos dos direitos humanos e uma ideologia semelhante à dos talibãs e do ISIS, não pode representar os interesses das massas. O povo afegão, especialmente trabalhadores, mulheres e jovens, não quer os Talibãs nem os senhores da guerra corruptos do passado. O que é necessário é uma alternativa radical baseada no secularismo, na democracia e na justiça social.
5. Crimes de guerra sem julgamento
Um ponto que não deve ser esquecido é que, durante os 20 anos de presença das forças da coligação internacional e da NATO no Afeganistão, militares de vários países membros e parceiros da NATO foram acusados de crimes de guerra, assassinatos de civis e violações dos direitos humanos. Grandes países como os Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Países Baixos viram as suas forças incluídas em casos de violações dos direitos humanos e crimes de guerra. Além disso, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha estabeleceram especificamente bases em áreas estratégicas e ricas em recursos e participaram no saque das reservas subterrâneas do Afeganistão, especialmente minas de urânio e lítio. Também estavam envolvidos no tráfico de droga, especialmente ópio, ganhando centenas de milhões de dólares por ano com este comércio.
No entanto, nenhum destes criminosos
estrangeiros ou nacionais foi levado à justiça, e não foi paga qualquer
compensação às vítimas. Esta falta de responsabilização significa que os mesmos
criminosos domésticos de ontem ainda estão à espera hoje, mantidos como uma
"força de reserva do imperialismo" nos países ocidentais, para serem
usados como "alternativa" contra os talibãs caso desobedeçam às
ordens de Washington.
6. Deportação de requerentes de asilo e normalização das relações da Europa com os Talibãs
A União Europeia, embora ostensivamente
defenda os direitos humanos (sic), está na prática a fazer negócios com os
talibãs. A expulsão de migrantes afegãos dos países europeus, a confiança dos
consulados e embaixadas nos representantes talibãs, bem como a normalização
gradual das relações políticas, indicam a aceitação pragmática do Ocidente
deste regime fascista misógino. Embora a maioria dos altos funcionários do
regime talibã esteja na lista negra da ONU, por "conveniência
política", estes funcionários beneficiam de isenções temporárias das
sanções sempre que desejam viajar para fora do Afeganistão. Esta abordagem
hipócrita revela a realidade de que o capitalismo mundial aceitou os talibãs
como um "parceiro viável" na gestão da crise migratória e na garantia
da estabilidade regional.
7. O dever histórico da esquerda e das
forças progressistas
As forças de esquerda e progressistas no
Afeganistão, tanto na diáspora como dentro do país, carregam a missão histórica
de despertar e organizar as massas. A luta contra o regime talibã é inseparável
da luta contra o imperialismo e o capitalismo mundial. Estas forças devem
unir-se em torno de um programa socialista e democrático no qual:
· Os direitos plenos das mulheres e a igualdade de género estão no centro da transformação social.
· A verdadeira independência do Afeganistão face à dominação económica e política das grandes potências é alcançada.
· Os recursos naturais do país são utilizados para o bem-estar público e para o desenvolvimento industrial.
· A educação secular e gratuita está garantida para todas as crianças e adultos.
A tarefa de hoje não é defender a "democracia" falhada de ontem,
mas construir um futuro em que os trabalhadores, mulheres e jovens do
Afeganistão tenham as rédeas do seu próprio destino nas suas mãos. A
solidariedade internacional da classe operária e dos movimentos anti-guerra e
anti-exploração é a chave para a vitória sobre este regime talibã de
mentalidade sombria e para a dominação do capitalismo mundial selvagem.
Radical de Esquerda do Afeganistão (LRA)
14
de Agosto de 2026. Afeganistão. lr_afg@yahoo.com
Este artigo foi traduzido
para Língua Portuguesa por Luis Júdice


