terça-feira, 26 de maio de 2026

Lições da Guerra do Iraque: Desconfie de Espiões e dos Seus Aliados... O velho traidor Tony Blair

 


Lições da Guerra do Iraque: Desconfie de Espiões e dos Seus Aliados... O velho traidor Tony Blair

26 de Maio de 2026 Robert Bibeau



Por René Naba. Sobre Lições da Guerra do Iraque: Desconfie de Espiões e dos Seus Melhores Aliados – Madaniya

A agressão bi-partida israelo-norte-americana de 2026 contra o Irão traz de volta memórias da agressão bipartida EUA-Reino Unido de 2003 contra o Iraque, há 23 anos. O diário britânico The Guardian retirou as amargas lições que https://www.madaniya.info/  submete aos seus leitores para meditações salutares (muito salutares).


"Cuidado com espiões e com os seus melhores aliados que o podem arrastar para a guerra." Esta é a principal recomendação do jornalista britânico Jonathan Saul Friedland num estudo publicado pelo diário The Guardian, por ocasião do 32.º aniversário da invasão americana do Iraque.


A primeira lição: Cuidado com argumentos falaciosos.

Os argumentos apresentados tanto pelo Presidente dos EUA George Bush Jr. como pelo Primeiro-Ministro britânico Tony Blair são numerosos, mas o tema principal que emergiu do seu argumento foi que "a intervenção foi do interesse exclusivo do povo iraquiano, que será libertado do domínio de um ditador feroz".

Saddam Hussein foi de facto deposto, mas a um preço exorbitante. 300.000 iraquianos, a maioria civis, pagaram o preço, nota o jornalista britânico. A invasão criou um vazio, preenchido por violência e derramamento de sangue, e para muitos iraquianos, a cura era pior do que a doença, disse ele.

Sobre o mesmo tema, veja este link: o desarmamento, uma mentira fundamental de Scott Ritter, antigo chefe da missão de inquérito das Nações Unidas..

https://www.mondialisation.ca/irak-le-desarmement-un-mensonge-fondamental/5676267

Jonathan Saul Friedland (nascido a 25 de Fevereiro de 1967) é um jornalista e cronista britânico do jornal The Guardian e do The Jewish Chronicle. É também colaborador regular do The New York Times e da The New York Review of Books. Apresentou a série "The Long View" na BBC Radio 4. Reconhecido como "Colunista do Ano" em 2002 pelo "What The Papers Say", ganhou o Prémio David Watt de Jornalismo em 2008 pelo seu ensaio Bush's Amazing Achievement.

O colunista britânico passou uma semana a analisar editoriais da imprensa britânica e programas televisivos dedicados à invasão americana. A versão árabe do seu estudo foi publicada no site online Ar Rai al Yom, datada de 17 de Março de 2023, cujo director é Abdel Bari Atwane.

Referindo-se às confidências de um alto oficial dos serviços secretos britânicos, Jonathan Friedland acrescenta: "Certamente, o regime de Saddam Hussein foi revoltante, mas a anarquia é pior."

2.ª lição: Cepticismo em relação aos serviços de informações.

O cepticismo deve estar na ordem do dia quando se trata dos serviços de informações, argumenta o jornalista.

Durante o debate sobre a conveniência da guerra contra o Iraque em 2003, Tony Blair baseou-se em relatórios de inteligência, confirmando que estes atestavam "sem a menor dúvida" a posse de armas de destruição maciça (ADM) por Saddam Hussein. No entanto, argumenta o jornalista, isso revelou-se falso. Não havia ADM. Tony Blair exagerou a ameaça iraquiana para justificar a invasão do Iraque. Este facto por si só já é suficiente para condenar Tony Blair à luz da história.

Lição 3: Sem apoio absoluto e total entre amigos

Mesmo os amigos mais próximos não devem dar apoio absoluto e total uns aos outros em circunstância alguma. Tony Blair justificou o seu apoio aos Estados Unidos argumentando que Londres era o aliado mais forte de Washington e que, por essa razão, o Reino Unido tinha sido arrastado para a invasão americana do Iraque.

Fatais para o seu destino foi a despreocupação com que George Bush tratou Tony Blair na cimeira dos países industrializados em São Petersburgo, em plena guerra de Israel contra o Líbano, em Julho de 2006 – o "Yo Blair" proferido por Bush, com a boca cheia, a mastigar um croissant, ao Primeiro-Ministro britânico que lhe pediu permissão para realizar uma missão diplomática no Médio Oriente, uma imagem amplificada pela televisão transcontinental, completou o descrédito do melhor aliado europeu da América e faz a ingratidão parecer em retrospectiva como um castigo merecido para cortesãos demasiado zelosos.

No final de dez anos no poder (1997-2007, o antigo jovem líder da política britânica deixou a cena pública afectado pelo quolibet (assobio de desaprovação – NdT) condenatório do "poodle inglês do presidente americano" e com um julgamento pouco lisonjeiro da sua acção, "o pior registo trabalhista desde Neville Chamberlain, em 1938, (responsável pelos acordos derrotistas de Munique contra a Alemanha de Hitler), e Anthony Eden, (mentor do fiasco de Suez, a agressão anglo-franco-israelita contra o Egipto nasserista), em 1956", segundo a expressão do jornalista inglês Richard Gott.

O pedido de desculpas de Tony Blair

O antigo primeiro-ministro trabalhista britânico reiterou um pedido parcial de desculpas pela guerra no Iraque, reconhecendo alguma responsabilidade pela ascensão da organização Estado Islâmico (EI), numa entrevista à CNN no domingo, 25 de Outubro de 2015, doze anos após a invasão.

Esta mea culpa surgiu no momento certo para a imprensa britânica, que liga estas declarações às conclusões da Comissão Chilcot, que está a investigar o controverso envolvimento do Reino Unido na guerra.

Epílogo: Iraque-Ucrânia: Duplo Padrão

O mandado de detenção do Tribunal Penal Internacional contra o Presidente russo Vladimir Putin surgiu num momento oportuno. É, entre outras coisas, uma pequena distracção das más acções e crimes de outros líderes actuais e antigos. A Rússia, não sendo um país membro do TPI, não reconhece a jurisdição deste tribunal. Nem os Estados Unidos, aliás, apesar das evidentes gargalhadas do Presidente norte-americano Joe Biden.

Vinte anos depois, o ex-Presidente dos EUA George W. Bush, o antigo Primeiro-Ministro britânico Tony Blair e o australiano John Howard, a troika mais culpada não só pela invasão criminosa de um país estrangeiro, mas também pelo cataclismo regional e mundial que daí resultou, mantêm-se à distância. Desde então, George Bush Jr. dedicou-se à pintura, enquanto Tony Blair e John Howard tornaram-se conferencistas bem pagos, preferindo vender discursos de suposta sabedoria através de palestras.

https://www.lemonde.fr/europe/article/2015/10/26/les-excuses-de-tony-blair-pour-la-guerre-en-irak-une-operation-de-communication_4796990_3214.html

Sobre os resultados da guerra do Iraque

·         https://www.renenaba.com/l-hecatombe-des-faiseurs-de-guerre/

·         https://www.madaniya.info/2018/09/21/le-martyrologe-scientifique-irakien/

O saque dos sítios arqueológicos do Iraque: "um dos maiores desastres culturais na história recente do Médio Oriente".

Quando Bagdade caiu, os tesouros do Iraque perderam-se. As forças dos EUA falharam no seu dever de proteger o património do Iraque após a invasão de 2003, resultando na perda de milhares de artefactos antigos — um dos maiores desastres culturais da história recente do Médio Oriente.

O New York Times classificou o saque do museu e da sua inestimável colecção de artefactos arqueológicos — muitos dos quais datavam dos primeiros dias da cultura e civilização humanas — "um dos maiores desastres culturais da história recente do Médio Oriente."

Embora o pessoal do museu tenha conseguido obter mais de 8.000 artefactos com pouca ajuda externa, mais de 15.000 artefactos históricos desapareceram no espaço de dois dias.

A professora Elizabeth Stone, arqueóloga do Departamento de Antropologia da Universidade Stoney Brook, em Nova Iorque, utilizou imagens de satélite para estimar que mais de 40 por cento dos quase 1.500 sítios monitorizados no sul do Iraque apresentavam evidências de devastação em Dezembro de 2003.

O Estado Islâmico também realizou "saques massivos e metódicos" para afirmar o seu domínio sobre as minorias culturais do Iraque e gerar receitas ilícitas a partir de "antiguidades de sangue", que se estimava representarem 30 por cento dos rendimentos do grupo em determinado momento.

·         https://www.middleeasteye.net/fr/actu-et-enquetes/irak-guerre-invasion-americaine-pillage-antiquites-perte-patrimoine-culturel

·         Para falantes de árabe, veja este link الغارديان: الدرس الحقيققي لغزو العراق؟ احذر من الجواسيس والحلفاء الذين قد يجرونك إلى الحرب – Ar Rai Al Yom 18 de março de 2023

Ilustração

Stefan Rousseau / POOL / AFP

Fonte: Les Leçons de la guerre d’Irak : Méfiez-vous des espions et de vos alliés… Le vieux traitre Tony Blair – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Putin e Xi assinam 40 contratos em Pequim. Encontrei um parágrafo na media: "Eles assinaram acordos"

 


Putin e Xi assinam 40 contratos em Pequim. Encontrei um parágrafo na media: "Eles assinaram acordos"

26 de maio de 2026Robert Bibeau

 


 

Fonte: Poutine et Xi signent 40 contrats à Pékin. J’ai trouvé un paragraphe dans les médias: « Ils ont signé des accords » – les 7 du quebec

Título introdutório ao vídeo traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Contribuição para os conselhos operários e o partido de classe

 


Contribuição para os conselhos operários e o partido de classe

26 de Maio de 2026 Robert Bibeau


Pelo IGGC/IGCL sobre https://igcl.org/Contribution-sur-les-conseils

A revista Revolução ou Guerra nº 33 (Maio de 2026) está aqui: fr_rg33_260424


Contribuição para os conselhos operários e o partido de classe


Reproduzimos abaixo uma contribuição sobre "os conselhos operários e o partido de classe". Foi publicado no site Controvérsias

Os conselhos operários e o partido de classe

A articulação dialéctica entre o Partido Comunista e os conselhos proletários:
o papel dos comunistas revolucionários na luta pela auto-emancipação proletária

A questão da organização revolucionária do proletariado está no cerne do projecto comunista. Desde Marx e Engels, o princípio da auto-emancipação proletária – resumido na fórmula da Primeira Internacional: "a emancipação da classe operária deve ser obra dos próprios operários" [1] – tem sido a base de toda a prática comunista consistente. Esta auto-emancipação não pode ser alcançada sem uma organização colectiva da classe, historicamente incorporada pelos conselhos operários ou sovietes, órgãos unitários de auto-organização proletária. No entanto, a história das lutas revolucionárias mostra que estes conselhos, embora essenciais, não estão imunes à degeneração ou a influências contrárias aos interesses do proletariado internacional. É aqui que o papel do partido revolucionário, emanado da fracção mais consciente e combativa do proletariado, se torna crucial. Este artigo explora a articulação dialéctica entre o partido e os conselhos, destacando o papel dos revolucionários na defesa do projecto comunista, rejeitando qualquer forma de substituicionismo ou fetichismo organizacional.

Os conselhos operários: a expressão da auto-organização proletária

Os conselhos operários, ou sovietes, incorporam a auto-organização da classe operária. Surgindo em momentos de intensa luta, como durante as revoluções russas de 1905 e 1917 ou as revoltas operárias na Alemanha (1918-1923), representam uma forma de organização unitária em que os operários, independentemente das suas filiações políticas ou sindicais, gerem as suas lutas e lançam as bases de uma nova sociedade. Estes conselhos não são meros órgãos de gestão temporária, mas embriões do poder proletário, capazes de questionar a ordem capitalista como um todo. São a expressão concreta da ditadura do proletariado, ou seja, a forma organizacional através da qual a classe operária exerce o seu poder para destruir o Estado burguês e transformar as relações de produção.

No entanto, a história mostra que os conselhos não estão imunes a abusos. Na Alemanha, por exemplo, os conselhos operários de 1918-1919, embora inicialmente carregassem um imenso potencial revolucionário, foram gradualmente cooptados pela social-democracia e pelos sindicatos, o que atrasou a sua dinâmica. Esta degeneração pode também ser explicada pela ausência de uma clara orientação comunista e pela fraqueza da vanguarda revolucionária (já que permaneceu diluída durante muito tempo dentro de partidos burgueses como, por exemplo, o USPD), que não conseguiu contrariar influências reformistas ou burguesas. Esta observação histórica sublinha a necessidade de um partido revolucionário capaz de defender uma linha programática verdadeiramente comunista de forma coerente dentro destes órgãos unitários de auto-organização de classes.

O partido revolucionário: uma ferramenta importante ao serviço do proletariado

O partido revolucionário, tal como concebido por Marx, Engels e certas correntes da esquerda comunista, não é uma entidade externa ou autónoma em relação à classe operária. Como Onorato Damen afirmou correctamente na sua plataforma de 1952: "Nunca, e sob qualquer pretexto, o proletariado deve abandonar o seu papel na luta. Não deve delegar o seu papel histórico a outros – nem sequer ao seu próprio partido político [2]. O Partido, que tem uma vocação para se tornar internacional/mundial, deve emergir das lutas proletárias como a cristalização da fracção mais consciente do proletariado, levando a cabo um programa comunista claro que permita assim uma práxis revolucionária consistente. Deve permanecer ancorado na auto-organização proletária, enquanto luta contra os excessos oportunistas prejudiciais que, historicamente, muitas vezes ameaçaram os interesses do proletariado, mesmo em períodos revolucionários.

Ao contrário das visões substitucionistas, como as dos blanquistas, o partido não pretende substituir os conselhos nem dirigi-los de forma burocrática. Dentro dos conselhos, os membros do partido devem procurar ser eleitos pela base, de forma democrática e revogável, para manter uma linha comunista. Esta abordagem diferia da de certas correntes conselhistas, nomeadamente a esquerda comunista germano-holandesa, que defendia a dissolução imediata do partido após a tomada do poder pelos conselhos proletários. O partido deve, pelo contrário, continuar a desempenhar um papel de clarificação ideológica e orientação estratégica durante a fase de transição revolucionária (a ditadura do proletariado), até que a revolução triunfe mundialmente e a burguesia seja neutralizada. O objectivo final – uma sociedade sem classes, sem propriedade privada, sem exploração (e, portanto, sem salários), sem dinheiro, sem produção de mercadorias, sem uma divisão social fixa e 'especializada' do trabalho, sem alienação competitiva ou produtivista, sem o Estado – exige a destruição do aparelho estatal capitalista, a expropriação da actual classe dominante, ou seja, a burguesia, e uma transformação total das relações sociais de produção. um processo que pode ser iniciado, mas não pode ser concluído enquanto a revolução permanecer geograficamente isolada e não triunfar mundialmente (é muito importante insistir nisso, com todo o respeito por certos idealistas que ainda preferem iludir-se a si próprios falando da "realização imediata do comunismo"). É, de facto, necessário procurar transformar as relações de produção o mais rapidamente possível de forma progressiva, numa lógica não mercantil centrada nas necessidades da sociedade após a tomada do poder pelos operários (será certamente possível usar vales de trabalho, sem dinheiro, por exemplo, embora estes já não sejam necessários sob o comunismo integral). Isto não significa que todos os vestígios do comércio interno e externo possam desaparecer automaticamente.

Marx e Engels já sublinhavam esta necessidade na resolução da Conferência de Londres da IWA (1871): "Considerando que, perante este poder colectivo das classes proprietárias, a classe operária só pode agir, como classe, constituindo-se como um partido político, distinto e oposto a todos os antigos partidos formados pelas classes proprietárias." Esta constituição, enquanto partido, é indispensável para coordenar as lutas económicas e políticas (sendo totalmente complementares e inseparáveis) do proletariado, de modo a dar uma perspectiva revolucionária coerente. Estes últimos tinham a mesma posição relativamente à Comuna de Paris, onde consideravam que a liderança do movimento operário deveria ser exercida pela sua vanguarda organizada, nomeadamente a IWA, em particular, graças à luta travada de baixo e através da propaganda (não se trata de se impor automaticamente de cima, mas que a fracção mais consciente do proletariado procura plena e legitimamente garantir um papel de bússola).

·         "O Conselho Geral orgulha-se do papel eminente que as secções parisienses da Internacional assumiram na gloriosa revolução de Paris. Não, como algumas pessoas de mente fraca imaginam, que a secção de Paris, ou qualquer outro ramo da Internacional, tenha recebido uma palavra de ordem de um centro. Mas, como em todos os países civilizados a flor da classe operária adere à Internacional e está imbuída dos seus princípios, é certo que seguirá a direcção das acções da classe operária em todo o lado. »

Contra o Substitucionismo e o Fetichismo Organizacional

A história do movimento operário é marcada por duas armadilhas: substitucionismo e fetichismo organizacional. O substitucionismo, frequentemente associado a visões blanquistas, conduz a uma autonomia do partido, onde este afirma agir "em nome" do proletariado sem depender da sua auto-organização, ou impondo-se automaticamente de cima sem qualquer legitimidade. Os maoístas e outros estalinistas/bonapartistas contra-revolucionários estão, de facto, a ir além do paroxismo desta caricatura burocrática blanquista, pois defendem claramente os interesses da burguesia. Aqui já nem sequer se trata de um partido que emana da vanguarda de uma classe e a substitui por uma verdadeira procura de a emancipar, mas sim de sabotar puramente qualquer revolução proletária à escala mundial, além de garantir a manutenção do status quo capitalista.

O fetichismo dos conselhos, característico do conselhismo, idealiza a forma do conselho como uma solução universal, ignorando o facto de que os conselhos podem ser influenciados por ideologias reformistas baseadas no "socialismo de mercado", na troca descentralizada pelos mais esclarecidos ou simplesmente em ideias burguesas. O proletariado, devido às suas contradições internas e às suas segmentações geográficas ou sectoriais (para além das poderosas pressões permanentes emanadas da ordem capitalista e imperialista a que este último seria sujeito, em particular, incluindo num período revolucionário), poderia muito bem reproduzir as normas capitalistas se não fosse guiado por uma consciência revolucionária clara, como a experiência alemã de 1918-1920 demonstrou. Portanto, podemos dizer que o conselhismo, ao rejeitar o papel do partido, corre o risco de deixar os conselhos mais vulneráveis a este tipo de abuso, o que implica claramente um risco aumentado de degeneração. Além disso, o partido também não está imune a qualquer risco, daí a necessidade de não se isolar da base, como nos lembra a experiência russa.

O caso dos bolcheviques e da Revolução Russa merece uma análise mais subtil do que aquela que os reduz a substitucionistas burocráticos. A degeneração dos sovietes após a Revolução de Outubro de 1917 não pode ser atribuída apenas a erros organizacionais, tácticos ou ideológicos cometidos pelo Partido Bolchevique, mesmo que a Esquerda Comunista Russa, como os Decistas (centralistas democráticos) ou Miasnikov, Bukharin/Kommunist, por exemplo, tenha razão ao denunciá-los. Além disso, é importante especificar que as críticas à esquerda comunista russa eram bastante subtis e relevantes, por exemplo, em geral não eram contra a necessidade absoluta de usar especialistas burgueses e militares devido à falta de formação e meios ao seu dispor (sob controlo do proletariado e sem que isso lhes conferisse poder de liderança absoluto, por outro lado) e Miasnikov incluía, tinha defendido uma espécie de NEP regulada e controlada de baixo quando necessário, embora com menos concessões. Isto está muito longe das críticas que por vezes se vêem de que os bolcheviques deveriam ter "abolido imediatamente a lei do valor, do dinheiro, do comércio", etc., como se fosse possível dentro do quadro de um único país (ultra-atrasado e devastado por isso) e que bastava "abolir o dinheiro" localmente para se emancipar totalmente das relações capitalistas de produção que condicionam a disposição dos recursos à escala mundial (a menos que se prefira uma espécie de autarquia reaccionária e vulnerável, sempre em concorrência com o mundo capitalista e que, por conseguinte, ainda é determinada por ele de certa forma, o que não é nada desejável na minha opinião). Ainda por cima, mesmo sob o comunismo de guerra, o objectivo declarado era tender para a eliminação da produção mercantil. Apesar de tudo, o fracasso da revolução mundial, o atraso económico da Rússia, as fomes e a imensa raiva camponesa, que já não podia ser gerida nessas condições, levaram à NEP e a um capitalismo de Estado que os bolcheviques inicialmente viam como temporário para modernizar a produção, com a esperança de que um novo surto da revolução mundial pudesse permitir eliminar verdadeiramente as relações de produção capitalistas. Na realidade, esta degeneração da Revolução Russa pode ser explicada sobretudo por condições materiais e sociais extremas: o seu isolamento, guerra civil, cerco imperialista, dependência de recursos e capital externos, uma imensa queda da produtividade que conduziu a ruínas caóticas com fomes, desorganização e atraso económico, bem como o esgotamento da classe operária que gradualmente permitiu uma camada de funcionários alfabetizados (ao contrário da maioria dos camponeses e operários da época, a maioria dos quais era analfabeta) e privilegiado (muitas vezes da antiga administração czarista) para assumir o controlo posteriormente. As fábricas esvaziaram-se, os comités de fábrica ficaram desorganizados, os operários mais conscientes foram para a linha da frente, e os que permaneceram lutaram para sobreviver, por vezes vendendo peças de fábrica, como ilustrado no romance "Cimento" de Fiódor Gladkov. Neste contexto, as medidas particularmente centralizadoras tomadas pelos bolcheviques no início visavam garantir a sobrevivência do poder proletário (e do poder camponês com deformações burocráticas, como disse Lenine) perante uma situação de emergência, e não estabelecer um modelo ideal de democracia soviética num futuro imediato, uma vez que as condições não o permitiam.

O próprio Lenine, em textos como O Estado e a Revolução, vislumbrou claramente a ditadura do proletariado como um "meio-Estado" [5] que supostamente murcha à medida que a revolução se espalha pelo mundo. Estava consciente das limitações do Estado soviético, que criticava pela sua crescente burocratização e pela sua incapacidade de ir totalmente além do antigo aparelho estatal burguês em vários aspectos, como denunciou explicitamente em 1922 e 1923:

·         "Se tomares Moscovo com os seus 4.700 comunistas em cargos de responsabilidade, e se tomares esta enorme máquina burocrática, este monte gigantesco, surge a questão: quem está no comando de quem? Duvido muito que se possa afirmar com verdade que os comunistas estão no comando desta pilha. Para dizer a verdade, eles não lideram, são direccionados. »

·         "O nosso aparelho estatal (...) constitui, em grande parte, uma relíquia do passado e que sofreu o mínimo de quaisquer modificações notáveis. Está apenas ligeiramente embelezada na superfície; Para o resto, é o verdadeiro tipo do nosso antigo aparelho estatal [7]. Longe de lhe faltar lucidez sobre o assunto, considerou, no final da sua vida, que o Estado soviético quase se tinha tornado um Estado czarista pintado de vermelho, como ele próprio dizia, e que era necessário impedir o desenvolvimento de uma burguesia vermelha revitalizando-a através de uma série de medidas destinadas a reviver os sovietes e a combater a sua burocratização [8], pela mais massiva proletarização possível da administração em particular, bem como pela limitação dos salários (que explica, entre outras coisas, a perspectiva da criação do 'partmaksimoum', que foi abolido por Estaline mais tarde, por exemplo), a abolição dos privilégios, a rotação de cargos, revogabilidade, mandatos imperativos (etc.). Chegou mesmo a considerar dissociar o Estado-Partido dos sovietes no congresso de 1921.

No final da guerra civil, também queria o desaparecimento da Cheka [9] como órgão com poder repressivo de decisão e preferia um papel de controlo apenas no que diz respeito a actividades políticas estritamente contra-revolucionárias, bem como o exército permanente [10], onde também se alinhou com a posição de Trotsky quando este defendia a transição para milícias operárias e camponesas e que se opunha a Frunze, mostrando assim o regresso às suas posições de 1917.

De facto, os bolcheviques sabiam que a revolução, isolada na Rússia, estava condenada sem um surto revolucionário do proletariado na Europa, como Lenine esperava. Em 1918, como era habitual, dizia o seguinte:

·         "O poder soviético é um novo tipo de Estado sem burocracia, sem polícia, sem exército regular (...) Na Rússia, mal começou e começou mal (...) Devemos mostrar aos operários europeus exactamente o que empreendemos, como o empreendemos, como o compreender; isto confrontá-los-á com a questão de como o socialismo deve ser realizado. Devem perceber por si mesmos que os russos fizeram algo que vale a pena fazer; Se eles fizerem mal, temos de o fazer melhor (...) Estamos confiantes de que os operários europeus poderão ajudar-nos assim que iniciarem este caminho. Eles farão o que nós fazemos, mas melhor, e o centro de gravidade mudará do ponto de vista formal para as condições concretas. Infelizmente, a tragédia da Revolução Russa foi que essa ajuda nunca chegou. Nestas circunstâncias, o Partido Comunista Russo, a Terceira Internacional e a própria Rússia Soviética começaram a adoptar cada vez mais políticas de emergência e auxiliares (como a NEP, que para Lenine foi uma retirada/concessão necessária e efémera para modernizar ainda mais a produção na Rússia particularmente atrasada, até que pudesse ocorrer um novo surto revolucionário do proletariado mundial). O mesmo se aplica à disciplina de ferro, ao taylorismo e, em particular, à absorção dos comités de fábrica pelos sindicatos, enquanto o seu papel em termos de controlo operário foi precisamente defendido (pelos bolcheviques em particular) nos primeiros meses após a revolução. Assim, as análises interessantes de S. A. Smith no seu livro Red Petrograd ilustram tudo isto, entre outras coisas:

·         "Isto não pode ser visto como o triunfo dos bolcheviques sobre os comités de fábrica. Desde o início, o objectivo dos comités era tanto manter o nível de produção como democratizar a vida fabril, mas a situação da indústria era tal que os dois objectivos acabaram por entrar em conflito [12]. Portanto, negar, como alguns (muitas vezes aqueles que erroneamente descartam Outubro de 1917) como uma mera chamada "revolução burguesa", que tudo isto se deve sobretudo à enorme situação de emergência de atraso económico, à ruína/fome caótica causada pela guerra civil e à ameaça de invasões imperialistas, pelo facto de o proletariado estar a desaparecer cada vez mais, ou mesmo em grande parte, morreria na frente e/ou no deserto (e é preciso ter em mente que esta mudança na composição social teve consequências devastadoras mesmo após a guerra civil), quando já era uma ultra-minoria, não faria absolutamente nenhum sentido. Por outro lado, é importante perceber que fazer esta observação não implica dizer que a esquerda comunista russa não estivesse por vezes certa nas suas críticas para Lenine (mesmo que aqui também teremos de o matizar porque dependerá do sujeito), mas permite, por outro lado, re-contextualizar e compreender melhor o que causou a implementação (restricção) destas medidas.

A burocratização progressista, bem como o resultado final do seu processo, que permitirá à contra-revolução triunfar uma vez que os proletários revolucionários mais valentes já nem estarão lá para a impedir, conduzirão subsequentemente ao estalinismo. Em suma, estes fenómenos não são resultado de simples má vontade, mas do esgotamento do proletariado russo e do fracasso da revolução no Ocidente em particular. Apesar destas limitações, a Revolução Russa continua a ser uma conquista histórica, incorporando, de certa forma, a segunda pedra titânica lançada na luta pela emancipação humana, depois da já gravada da Comuna de Paris, e que nos pode ensinar muitas coisas. Como Rosa Luxemburgo explicou muito bem:

·         "Tudo o que um partido pode trazer à mesa num momento histórico em termos de coragem, energia, compreensão revolucionária e consequências, Lenine, Trotsky e os seus camaradas perceberam plenamente. A honra e a capacidade de acção revolucionária, que tanto têm faltado na Social-Democracia, encontraram-se neles. Neste sentido, a sua insurreição de Outubro salvou não só a Revolução Russa, mas também a honra do socialismo internacional. Além disso, uma parte significativa da esquerda comunista italiana, na tradição de pensadores como Damen, que ele próprio está na continuidade de Marx e Engels, propõe uma síntese dialéctica: o partido deve ser uma ferramenta ao serviço da classe, activo nos conselhos, sem procurar transformá-los em cascas vazias, nem em câmaras de gravação simples. Os seus membros devem manter uma linha comunista clara, participar em debates e decisões em conselhos/assembleias gerais/comités de luta para garantir um papel orientador e o facto de que a sua liderança tende para uma trajectória de superação das relações sociais capitalistas, em vez de um beco sem saída. Tudo isto foi fundamental e correctamente recordado no 8.º Congresso do Partido Bolchevique, em Março de 1919:

·         "O Partido Comunista tem como objectivo exercer uma influência decisiva e uma liderança completa em todas as organizações operárias: sindicatos, cooperativas, comunas agrícolas, etc. O Partido Comunista está a fazer um esforço especial para implementar o seu programa e exercer domínio total sobre as actuais organizações estatais, os Sovietes. O Partido procura orientar as actividades dos Sovietes, mas não substituí-las. »

O Papel dos Comunistas Revolucionários: Vigilância e Esclarecimento Programático

Como Marx indicou numa das suas cartas a Jules Guesde:

·         "A grande questão para os socialistas em França é a organização de um partido operário independente e militante. Esta organização, que não deve limitar-se às cidades, mas deve estender-se ao campo, só pode ser alcançada por meio de propaganda e luta contínua, uma luta diária sempre correspondente às condições dadas do momento, às necessidades presentes. São apenas os jacobinos póstumos que conhecem apenas uma forma de acção revolucionária, a forma explosiva. Os comunistas revolucionários devem, portanto, intervir nos órgãos unitários da classe para defender uma perspectiva internacionalista e comunista.

Isto implica combater tendências reformistas ou nacionalistas, como as que prevaleceram na Alemanha em 1918-1919, e promover uma visão mundial da revolução destinada à abolição do capitalismo. Como Marx notou (numa reunião da autoridade central em 1850):

·         "Sempre enfrentei as opiniões momentâneas do proletariado. Estamos dedicados a um partido que, para o seu próprio bem precisamente, ainda não pode aceder ao poder. Se o proletariado chegasse ao poder, as medidas que introduzisse seriam pequeno-burguesas e não directamente proletárias[16]. Naturalmente, isso entende-se se este não for guiado por uma perspectiva comunista clara e coerente através da sua fracção mais conscientizada (que, como mostra Marx, deve ser organizada em partido com uma responsabilidade colectiva e certa disciplina de modo a exibir o projecto comunista da forma mais clara possível dentro dos movimentos sociais, tudo isso sendo devidamente coordenado) através das lutas colectivas.

Os revolucionários devem, portanto, agir como uma vanguarda consciente, participando na auto-organização da classe e procurando ser democraticamente eleitos nos conselhos proletários ligados entre si (com um plano central e à escala regional envolvendo o planeamento comum da produção pelos próprios operários para evitar a atomização/fragmentação da produção federalista ou localista, que de forma alguma corresponderia a uma perspectiva comunista, mas sim a uma perspectiva pequeno-burguesa) para aplicar colectivamente uma linha comunista, mantendo-se sob mandatos imperativos e revogável se necessário pela base (com distribuição/rotação de encargos/tarefas quando possa ser útil), o mesmo no que diz respeito aos delegados eleitos sem partido, etc.

Em suma, devemos procurar ir além da dicotomia entre centralismo e federalismo. No entanto, acrescentarei um ponto sobre o facto de que, se os partidos revolucionários e independentes devem ser tolerados, isso não é o caso das organizações contra-revolucionárias, e daquelas que traem abertamente o movimento proletário (rompendo com o internacionalismo no meio de uma guerra inter-imperialista, por exemplo), e que é necessário combater o fetichismo burguês-democrático segundo o qual, se os operários elegerem delegados contra-revolucionários, então devemos aceitar isso e não tentar derrubar os chamados sovietes em questão, independentemente do seu conteúdo e linha programática. Assim, é necessário denunciar o formalismo democrático que transforma os sovietes numa espécie de paródia que poderia ser chamada de 'parlamentos operários sem forma' (como Trotsky fez [17], ironia do destino quando se sabe o que poderá propor mais tarde), e reconhecer a necessidade de criar clubes na base para reforçar a pressão sobre os sovietes locais. Pode-se dizer que Trotsky, que continua apesar de tudo a ser uma figura importante da história do movimento proletário, teve, devido ao seu apoio ao anti-fascismo burguês em Espanha em 1936/1939 como os anarquistas da CNT [18] e do seu desagradável «apoio incondicional ao Estado operário degenerado que é a URSS" [19] durante a segunda guerra mundial inter-imperialista, alia-se nestes dois aspectos ao lado da contra-revolução (superando o estágio do oportunismo). Além disso, cometeu também um erro lamentável que convém criticar ao pensar em defender, mesmo que temporariamente, um suposto «governo operário» composto, entre outros, pelo PCF e pela SFIO[20], possa ser minimamente relevante para o proletariado sob o pretexto de se tratar de partidos «populares» (na continuidade das reformas democráticas burguesas que defendeu anteriormente para o Reino Unido e os Estados Unidos, isso também se explica pela sua concepção da revolução permanente, que por vezes pode ser confusa) … Esta manobra oportunista decorre ela própria da táctica preconizada pela 3.ª Internacional em degenerescência chamada «frente-única»" [21], e que os trotskistas continuaram a defender, tal como o programa transitório de Trotsky e da Quarta Internacional [22] posteriormente, mesmo que a maioria deles se oponha efectivamente à «frente popular», às concepções nacionalistas e estatistas dos estalinistas contra-revolucionários, assim como à sua teoria anti-marxista e anti-comunista do «socialismo num só país»"

Lições históricas e perspectivas actuais

Experiências históricas, como a Revolução Russa e os conselhos operários alemães, mostram a complexidade da articulação entre partido e conselhos. Na Rússia, os sovietes de 1917 desempenharam um papel central na tomada do poder, mas o seu enfraquecimento pode ser explicado por condições materiais dramáticas: guerra civil, isolamento e exaustão do proletariado. Os bolcheviques, inicialmente, longe de serem simples substituicionistas burocráticos que supostamente cometeram um golpe de Estado em Outubro de 1917, como alguns dizem (seja a propaganda burguesa hegemónica, os mencheviques, os anarquistas, os divulgadores ou os conselheiros), agiram inicialmente legitimamente com o apoio das massas operárias num contexto de emergência para preservar o poder operário no quadro de uma dupla revolução, reconhecendo as suas próprias limitações, como evidenciado pelas críticas de Lenine à burocratização do Estado soviético. Normalmente, podemos mencionar a sua carta a Miasnikov em 1921 sobre o assunto, que é muito interessante: "Revitalizar os Sovietes, garantir a cooperação dos não-partidos, permitir que controlem o trabalho dos membros do Partido: isto é absolutamente verdade. Este trabalho mal começou [23]. Ainda mais porque já estava nesta linha em 1918: "O socialismo não pode ser implementado por uma minoria, pelo Partido. Isto só pode ser implementado por dezenas de milhões de pessoas, quando aprenderam a fazê-lo sozinhas [24]. Apesar de este último também estar errado quanto à aprovação de uma medida em 1921 (um ano particular em termos do recuo da revolução, incluindo a nível internacional com a política externa da IC, que alternava cada vez mais entre a defesa da revolução mundial e compromissos oportunistas com certas burguesias nacionais de "estados oprimidos pelo imperialismo ocidental" para defender os interesses específicos da estabilização económica e Política de Estado Soviética...) proibir as facções do partido, que mesmo que devesse ser temporária num contexto de crise, teve como consequência marginalizar ainda mais a esquerda comunista russa, em benefício dos coveiros internos da revolução. Este último também não o deixou ileso nesse aspecto, tal como Trotsky, mesmo que mais tarde evoluísse relativamente à dissociação dos conselhos e do partido, à questão do sindicato e da militarização do trabalho, à questão da China e da autonomia do proletariado face ao Kuomintang, ao facto de pôr fim ao modelo de gestão por uma só pessoa com gestores de fábrica sem qualquer poder real de controlo sobre os comités de fábrica na participação na elaboração do plano de produção (e na forma como devem ser aplicados) através dos sovietes locais e centrais, um desenvolvimento que também pode ser visto no que diz respeito ao tema do taylorismo, etc. [25]

No entanto, vale a pena mencionar brevemente o caso da repressão dos operários em greve durante a guerra civil na Rússia, que foi ainda mais denunciada pela esquerda comunista russa porque tudo deveria ter sido feito para negociar com eles, mesmo que as suas exigências fossem frequentemente inalcançáveis nas condições extremamente tensas da fome e da guerra civil. Por vezes, durante certas greves, havia também elementos contra-revolucionários mencheviques ou SR (mesmo à esquerda) que se estabeleceram ali para literalmente tentar derrubar o Estado soviético sem compromissos, o que não ajudou nada [26]. O mesmo se aplica aos golpes cometidos pelos bolcheviques soviéticos nas mãos dos mencheviques ou SRs, já que estes últimos queriam activamente o derrube do Estado soviético. Para os SRs da esquerda mais especificamente, que no início lideravam o Sovnarkom directamente com os bolcheviques, o ponto de viragem decisivo ocorreu desde o Tratado de Brest-Litovsk, considerado temporariamente por Lenine como sobrevivente, e houve também uma repressão dos anarquistas, como foi o caso dos Guardas Negros em 1918, que apelaram ao armamento contra os bolcheviques e o Estado soviético através da sua imprensa [27] bem como os abusos da Cheka neste aspecto. Sem falar das revoltas camponesas contra-revolucionárias, como a de Tambov, por exemplo, houve também a insurreição dos marinheiros de Kronstadt que defenderam certas reivindicações claramente legítimas (algumas das quais foram directamente inspiradas pela constituição soviética de 1918), outros, como o de conceder total liberdade num contexto tão perigoso a «socialistas revolucionários» que na realidade procuravam destruir a revolução, são muito menos aceitáveis, no entanto. Para além da sua confusão política relativamente à questão da pequena burguesia camponesa (como, por exemplo, a sua ligação aos SR), do comércio e do desejo expressado por diversas vezes de ‘sovietes sem comunistas’, que era diferente do seu pedido legítimo de autonomização dos sovietes relativamente ao partido. É contudo necessário lembrar que, apesar de os bolcheviques parecerem ter razões legítimas para reprimir Kronstadt, segundo o historiador Paul Avrich [28] (para além dos casos bastante graves de anti-semitismo/racismo documentados historicamente envolvendo vários marinheiros influentes entre eles, isso está sobretudo relacionado com o contexto internacional, por exemplo, a Polónia, nas proximidades, com o risco iminente de invasão imperialista e a oportunidade ideal para os contra-revolucionários tomarem o controlo da fortaleza), isso não invalida de forma alguma a enorme responsabilidade dos bolcheviques na sua recusa em negociar para evitar esta tragédia que também afectava marinheiros de Kronstadt que inicialmente participaram na Revolução de Outubro de 1917 e que, em grande parte, faziam parte do campo proletário como afirmava com razão Miasnikov e alguns bolcheviques presentes no local (no entanto, uma grande parte deles também vinha do campesinato, nomeadamente em 1921, contudo isso não justifica ainda este grave erro que contribuiu para intensificar ainda mais a substituição do partido sobre os sovietes) [29]). Por outro lado, parece-me que a posição tomada sobre este assunto no seio da esquerda comunista italiana por Bilan, Vercesi e a tendência Battaglia Comunista de Damen e que denuncia os abusos do terror vermelho é pertinente. Pois mesmo que a violência de classe revolucionária seja indispensável (como Rosa Luxemburgo acabará por admitir claramente durante a insurreição espartaquista), esta não pode ocorrer sempre da mesma maneira, independentemente do grupo de indivíduos em questão a que se destina e do contexto. [30]. Poderíamos também falar do conflito entre a Ucrânia makhnovista, que não defendia os mesmos interesses de classe dos bolcheviques, [31] e que levava uma política camponesa pequena-burguesa pró-troca regionalista muito criticável em muitos pontos, além dos saques anti-operários contra os armazéns dos sovietes, tendo mesmo tentado aliar-se com os outros exércitos verdes, o pogromista Petlioura, bem como Grigoriev e as suas tropas também responsáveis por pogroms [32]. Isso não retira o facto de que os bolcheviques também cometeram erros a esse respeito. Em resumo, o fracasso da revolução mundial selou, por sua vez, a degeneração da experiência soviética, o que teve um impacto devastador no proletariado mundial, mas essa experiência (pelos seus contributos benéficos, mas também através dos seus erros a não reproduzir) continua a ser uma lição histórica essencial para os comunistas de hoje.

Na Alemanha, a ausência de um partido revolucionário forte e enraizado nos conselhos (para além da influência enorme da burguesia e dos sindicatos reformistas) permitiu à social-democracia desviar o potencial revolucionário. Estas experiências sublinham a importância de um partido comunista de vanguarda, portador de um programa comunista claro, capaz de militância no seio dos conselhos sem se substituir a eles, como foi infelizmente o caso com o Sovnarkom na Rússia, inicialmente concebido como uma medida temporária e ainda sujeita à aprovação dos conselhos, mas que conduziu a uma autonomia excessiva em relação à base dos sovietes, a partir da Primavera de 1918 em particular, devido a vários factores mencionados anteriormente, apesar da defesa da revolução mundial do proletariado.

No contexto actual de crise do capitalismo, os comunistas revolucionários devem inspirar-se nas lições do passado para construir um partido proletário, capaz de militarem nos órgãos de auto-organização com o objectivo de defender uma perspectiva comunista internacionalista. Para além disso, a linha defendida pelos camaradas da TCI no seu folheto (para as mobilizações de 10 e 18 de Setembro) a este respeito parece-me extremamente pertinente:

·         "Para nos defendermos, não podemos confiar nos sindicatos e nos partidos institucionais, que demonstraram suficientemente ao longo dos anos que eram aliados dóceis do capital. Temos de acabar com as greves dispersas, os dias de acção e as manifestações passeios, acabar com o pacifismo e o legalismo. Devemos retomar os nossos métodos de classe. Organizar-nos de forma independente em assembleia ou em comité, expandir e generalizar a luta. Não existe outro caminho, nenhum atalho para impedir a recaída na barbárie que o capitalismo nos promete[33].»

Conclusão

A articulação dialéctica entre partido e conselhos baseia-se no princípio da auto-emancipação proletária. Os conselhos operários, enquanto órgãos da ditadura do proletariado, são a expressão da auto-organização da classe, mas não podem garantir a vitória revolucionária sem uma orientação comunista clara. O partido revolucionário, emanando da fracção mais consciente do proletariado, deve ser uma ferramenta ao serviço da classe, participando activamente nos conselhos sem nunca procurar substituir-se a eles. Mantendo-se fiel a este princípio, os comunistas revolucionários (pleonasmo) podem contribuir para a construção de uma sociedade sem classes, sem exploração e sem Estado, apoiando-se nas lições históricas das lutas proletárias passadas.

 

Reda


Notas:

[1Estatutos do IAT.

[2Plataforma do PCI de 1952.

[3Resoluções da Conferência de Londres 17-23/09/1871.

[4Segundo Rascunho da Guerra Civil em França, K. Marx

[5O Estado e a Revolução, Lenine.

[6Discurso de Abertura do Congresso, 27 de Março a 2 de Abril de 1922.

[7Como reorganizar a Inspeção dos Trabalhadores e Camponeses?

[8Melhor menos, mas melhor, Lenine, 2 de Março de 1923.

[9. Na resolução da Décima Primeira Conferência Pan-Russa do PCR(b), realizada de 19 a 22 de Dezembro de 1921, foi levantado o problema da limitação de poderes, que serviu de base para o discurso posterior de Lenine sobre a limitação das suas prerrogativas: "A competência e o âmbito da Cheka devem ser reduzidos em conformidade e a própria Cheka deve ser reorganizada.". Declarou que a instituição deveria ser restringida à esfera puramente política (o controlo das chamadas actividades contra-revolucionárias) e deixar de ser repressiva, retirando qualquer poder de decisão a este nível.

[10Como foi armada a Revolução, Trotsky.

[11Discurso ao VII Congresso Extraordinário do Partido Comunista(b)R.

[12PETROGRADO VERMELHO.

[13A Revolução Russa.

[14Consciência de Classe e Organização Revolucionária.

[15Carta de Karl Marx para Jules Guesde recentemente encontrada.

[16Reunião do Conselho Central da Liga, 17-9-1850

[17Terrorismo e Comunismo, Trotsky.

[18A posição de Trotsky sobre a guerra civil em Espanha.

[19. Wikired: Defesa da URSS por Trotsky.

[20Discussão sobre a história da Oposição de Esquerda.

[21A Comintern e a Frente Unida.

[22] Crítica ao Programa de Transição de Trotsky.

[23Uma Carta a G. Myasnikov, Lenine.

[24Sétimo Congresso Extraordinário do PCR(B), Lenine.

[25A URSS e as Tarefas da Época de Transição, Trotsky.

[26Crimes e violência em massa das Guerras Civis Russas (1918-1921).

[27Lev Chorny.

[28Kronstadt 1921 – Paul Avrich.

[291921: Kronstadt, o início da contra-revolução?

[30A Questão do Estado, outubro n.º 2 – Março de 1938.

[31O Movimento Makhno e o Bolchevismo.

[32Kontrrazvedka, A história do serviço de inteligência makhnovista, Vyacheslav Azarov.

[33] Nenhum sacrifício para reabastecer os cofres do Estado! Vamos lutar para nos defendermos e não para salvar a economia nacional!

 

Fonte: Contribution sur les conseils ouvriers et le parti de classe – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice