LENINISMO OU
ANTI-LENINISMO: UMA POLÉMICA ESTÉRIL
Quando Lénine morre a 21 de Janeiro de 1924, a situação
histórica deteriora-se fortemente: isolamento da Rússia, cerco militar,
inversão mundial da relação de forças entre as classes… e sobretudo,
internamente, degeneração do poder político proletário e restauração de todos
os estigmas burgueses. É neste contexto que nasce a ideologia do leninismo, um
dogma que cristaliza todas as tácticas e estratégias oportunistas e contra-revolucionárias,
apresentado como «o marxismo da época do imperialismo e da revolução
proletária.»1. Esta codificação oficializava já em 1925 o «socialismo num só país», o abandono da
revolução mundial e do internacionalismo proletário em favor da defesa do «imperialismo» russo e da pátria «socialista», expressão visível do
triunfo da restauração da ditadura capitalista. Desde então, o leninismo
afirmou-se como o dogma dominante nas «democracias
populares» onde existiria o
« socialismo ».
Perante esta completa inversão da perspectiva da revolução
comunista mundial, formou-se um conjunto diversificado de reacções políticas
operárias saudáveis que mais tarde constituirão a ideologia anti-leninista.
Mas, uma vez fossilizada, esta acabará por denunciar os bolcheviques como a
principal causa da degeneração contra-revolucionária. Em vez de tirar um
balanço político global indispensável da experiência da vaga revolucionária
mundial dos anos de 1917 a 1924, o anti-leninismo preferiu negá-la, considerando
a revolução na Rússia como um golpe de essência burguesa. Originalmente, a
maior parte dos militantes comunistas de esquerda considerava a revolução na
Rússia como proletária. Só mudaram de opinião porque não perceberam a
degeneração da revolução proletária em território russo. A origem do que viria
a ser uma controvérsia histórica pode já ser encontrada na reacção dos
comunistas de esquerda (esquerda germano-holandesa, esquerda comunista de
Itália…) contra a falta de ruptura com a social-democracia e o oportunismo
crescente nos primeiros anos da Internacional Comunista. Isso traduziu-se,
entre outras coisas, em 1920, no ataque muito mau e unilateral que Lenine lhes
dirigiu com a sua brochura «A doença infantil do comunismo, o ‘Esquerdismo’». 2
Lenine
contra o leninismo
Cette
polémique a constitué et constitue encore l’expression la plus visible des
limites de la compréhension de la contre- révolution par les minorités
révolutionnaires face à la défaite de la révolution en Russie et la chape
mensongère imposée mondialement par le stalinisme et ses complices
idéologiques. « L’analyse de la contre-révolution en Russie et sa réduction
en formules n’est pas un problème central pour la stratégie du mouvement
prolétarien au cours de la reprise que nous attendons, puisqu’il ne s’agit pas
de la première contre-révolution et que le marxisme en a connu et étudié toute
une série ». A. Bordiga, Réunion de Naples, 1951, Invariance, N°3,
1969.
A este respeito, a oposição entre o leninismo e o
anti-leninismo não se resume de modo algum a um confronto entre revolução e
contra-revolução. Quer se trate do leninismo (« marxismo-leninismo ») ou da reacção
antitética do anti-leninismo (o « conselhismo
»), estamos antes perante uma continuação esclerotizada, simétrica e
complementar, de todas as posições, tácticas e estratégias constitutivas e pro-activas
que levaram à derrota operária. A sua cristalização em doutrinas rígidas e numa
liturgia de receitas repetitivas (estatais ou soviéticas, « ditatorial ou democrática ») visa
perpetuar, ao mesmo tempo que as disfarça, a vitória da contra-revolução, seja
na sua forma estalinista, seja na forma « libertária
», denunciando ou glorificando a natureza que seria irremediavelmente burguesa
da luta de Lenine e dos bolcheviques. Assim reduzida e congelada, a polémica
entre leninismo e anti-leninismo tornou-se completamente estéril e acompanhará
os limites e desviantes dos «esquerdismos» do final do século XX. No entanto,
foi o próprio Lenine quem iniciou preventivamente a crítica do leninismo,
salientando o perigo de considerar as posições (e oscilações) dos bolcheviques
como receitas infalíveis a aplicar de forma acrítica em todos os países
capitalistas, incluindo os mais desenvolvidos. Ele chega mesmo a considerar,
com clareza, a recuperação espectacular dos velhos revolucionários
transformados em múmias religiosas para enganar as massas de adoradores
iludidos.
« Durante a vida dos grandes revolucionários, as classes de
opressores recompensam-nos com perseguições incessantes, acolhem a sua doutrina
com a fúria mais selvagem, com o ódio mais feroz e com as campanhas mais
desenfreadas de mentiras e calúnias. Após a sua morte, tenta-se torná-los
ícones inofensivos, canonizá-los, por assim dizer, e rodear o seu nome com uma
certa auréola para consolar as classes oprimidas e enganá-las; ao fazer isto,
esvazia-se a doutrina revolucionária do seu conteúdo, degrada-se e embota-se o
corte revolucionário. É nesta forma de acomodar o marxismo que hoje se
encontram a burguesia e os oportunistas do movimento operário. Esquece-se, reprime-se,
altera-se o lado revolucionário da doutrina, a sua alma revolucionária. Dá-se
relevo, exalta-se o que é ou parece ser aceitável para a burguesia. Todos os
social-chauvinistas são hoje «marxistas» - não rias! » Lenine,
O Estado e a Revolução, p.9/10, éditions sociales, Paris, 1972.
Até ao seu « último combate »4,
Lenine tentou, em consonância com a tomada revolucionária do poder, ganhar tempo, fazer compromissos,
recuos, mas também cometer erros tácticos e estratégicos para manter a qualquer
custo a ditadura revolucionária mesmo contra o proletariado e os seus melhores
elementos. Mas, essa atitude
de resistência transformou-se, no contexto da derrota operária internacional, e
dentro do próprio poder, num culto ao indivíduo genial e omnisciente, base da
formação do leninismo enquanto teorização de todos os erros políticos que conduziram,
no fim, à criação de uma nova religião da contra-revolução (« o socialismo num só país »), com o seu
messias Lenine e o seu representante na Terra, Estaline 5. O que teria sido necessário fazer
com o « leninismo » era, como defendia K. Korsch, aplicar « a concepção materialista da história a esta
concepção em si mesma. » K. Korsch, Marxismo
e filosofia, p.23, éditions de Minuit, Paris, 1964.
Só este método nos permitiria finalmente restaurar a teoria de Lenine no seu
contexto: a actualidade da revolução e na sua perspectiva revolucionária
internacional, mas com a compreensão crítica das suas limitações inerentes, das
suas faltas de rupturas e dos seus erros políticos (táctica das frentes unidas,
sindicalismo, 21 condições, parlamentarismo, tolerância duvidosa com o «centro», «bolchevisação» dos partidos, apoio às revoluções burguesas nos
países coloniais…). Além disso, essas limitações e faltas de rupturas são
compreensíveis porque são fundamentalmente devidas às análises comuns de toda a
social-democracia russa, todas as tendências incluídas, sobre as possibilidades
revolucionárias num país como a Rússia com múltimos vestígios feudais.
Para alguns, só a revolução burguesa é viável, para outros o
proletariado deve liderar a futura revolução realizando em primeiro lugar as
tarefas democráticas burguesas que a burguesia foi incapaz de assumir; em
primeiro lugar, fazer crescer as forças produtivas. As medidas directamente
"socialistas" dependem
essencialmente da internacionalização da revolução proletária. Infelizmente, Lenine
vai extrapolar aquilo que poderia ser compreensível, embora já criticável, para
a situação especificamente russa, para o resto do mundo (defesa do
parlamentarismo, do sindicalismo etc.), daí a excelente resposta de Gorter à
Doença Infantil. Finalmente,
é necessário sublinhar que, no início da Primeira grande chacina mundial,
Lenine defendeu a ÚNICA posição
autenticamente revolucionária e proletária (portanto anti-burguesa), a do derrotismo revolucionário, a da
transformação da guerra imperialista em guerra civil revolucionária. Se ele
tivesse sido um revolucionário burguês ou pelo menos se tivesse defendido a
necessidade de uma revolução burguesa como primeiro passo da futura revolução
proletária, teria defendido "a sua
pátria" na guerra imperialista mundial de 1914. Isto não passou pela
cabeça, ou foi voluntariamente esquecido pelos anti-leninistas actuais, que
assim se situaram a anos-luz das posições revolucionárias do K.A.P.D. dos anos
20.
Violência
e terror operário para que sociedade?
Outra
forma de expressão desta polémica errada seria estabelecer uma sinonímia entre
a oposição leninismo e anti-leninismo e aquela entre ditadura do proletariado e
"democracia soviética".
Ora, não é isso. O conceito de ditadura do proletariado é um elemento central
da teoria revolucionária e do marxismo vivo 6. Esta ditadura
impõe-se necessariamente como uma ferramenta indispensável para ter a força organizada para destruir todos os
vestígios e estigmas do regime capitalista e para satisfazer o mais rapidamente
possível as necessidades da condição proletária no sentido da abolição do
trabalho, das classes e do Estado. A
questão não está, portanto, no uso ou não da violência concentrada, do terror
ou do terrorismo, mas sim contra quem, com que objectivo e com que programa
esses métodos são utilizados. Sabendo ainda que tais métodos repressivos nunca
podem entrar impunemente em contradição com a transformação revolucionária da
sociedade. É precisamente para essa transformação radical,
consciente e determinada, embora gradual, que a ditadura deve agir com
princípios de classe e sem nunca trair as necessidades fundamentais do
proletariado revolucionário. Nesse sentido, e como Bilan (órgão da fracção de esquerda do P.C. d’I.) já dizia, é
melhor perder “militarmente” do que
trair a essência do programa da sociedade futura. Pelo contrário, foi a vitória
militar na guerra civil na Rússia que selou a derrota política e social da
revolução.
A lição fundamental é que os meios devem sempre ser
adaptados ao fim que servem e não o contrário.
Esta questão central vai surgir, nomeadamente, através das
polémicas que o livro de Trotsky «Terrorismo
e comunismo», publicado em 1920, vai provocar. De facto, neste livro,
Trotsky faz brilhantemente elogio da necessária utilização da violência, mas
aplicada, já nessa altura, não apenas contra as forças contra-revolucionárias
da burguesia, mas também contra o próprio proletariado revolucionário e as suas
vanguardas mais esclarecidas.
«Quem renuncia por
princípio ao terrorismo, ou seja, às medidas de intimidação e repressão em
relação à contra-revolução feroz e armada, deve também renunciar ao domínio
político da classe operária, à sua ditadura revolucionária. Quem renuncia à
ditadura do proletariado renuncia à revolução social e abdica do socialismo.»
L. Trotsky, Terrorismo e comunismo,
p.33, edições Prométhée, Paris, 1980.
No entanto, esta afirmação vigorosa não resolve a questão do
sentido e da direcção sobre quem é alvo desta violência. É separar a necessária
utilização da violência na luta de classes do seu portador e do seu objectivo
emancipador. Mesmo que o ódio e a violência de classe sejam imposições do
inimigo, os seus conteúdos e formas particulares não são indiferentes ao projecto
da classe que os porta. É o caso das piores barbaridades do militarismo burguês
e dos seus métodos desumanos e degradantes, que não podem ser reproduzidos nem
utilizados pelo proletariado revolucionário. Este terá cuidado, mesmo na
aplicação implacável do seu terrorismo, de sempre manter o seu ponto de vista
internacionalista e em conformidade com a sua natureza de última classe
explorada da história. Trata-se de uma questão vital do programa político da
revolução e das lições pertinentes que se puderam, previamente, tirar das
experiências revolucionárias do passado. Em relação a essas lições a tirar, não
há qualquer garantia formal ou «constitucional»,
apenas o pleno
desenvolvimento da consciência de classe e da vontade
operária, cristalizados pelo Partido de classe, pode servir para centralizar e
planear o processo ascensional da transformação revolucionária e emancipadora.
Mais uma vez, aqui também, mas de forma negativa,
o livro de Trotsky dá-nos indicações valiosas. De facto, é na segunda parte
desta obra que ele nos indica que estas «medidas
de intimidação e repressão» são implementadas para tornar o «trabalho obrigatório», passando pela
sua «militarização» e apoiando todas
as medidas técnicas para aumentar a produtividade, a intensidade e a duração da
exploração. Tratava-se de medidas que degradavam inexoravelmente a condição dos
operários e, portanto, aquilo por que a revolução tinha sido desencadeada e
iniciada. Isto, tal como os terríveis erros políticos que vão gerar, deve-se
obviamente à situação desastrosa concreta de uma revolução que está a caminho de se transformar, internamente, numa
contra-revolução; um fenómeno histórico nunca visto antes.
Trotsky, depois de reconhecer que « o velho Antonio Labriola, o marxista italiano, até representou o
homem do futuro como « um preguiçoso feliz e genial » p.142, passa muito
rapidamente para « O próprio princípio do
trabalho obrigatório é para os comunistas indiscutível » p.144. E,
continuando muito claramente a lógica capitalista, nunca desaparecida: « Só agora, perante os problemas que coloca
o renascimento económico do país, é que a necessidade do trabalho obrigatório
se coloca diante de nós da forma mais concreta » p. 144. Aqui, nenhuma tentativa
de transformar este trabalho obrigatório e militarizado no sentido de uma
diminuição da exploração, pelo contrário, constata-se a sua exaltação pura e
simples na linha antecipada do stakhanovismo de Estaline. Em vez de
transformar, gradualmente, a economia no sentido da abolição do salário, do
trabalho alienado e da satisfação prioritária das necessidades dos operários,
as concessões à lógica capitalista e as medidas tomadas foram no sentido
contrário, sob o pretexto de lidar com o mais urgente (sempre do ponto de vista
imediato do militarismo). Esta involução tornou impossíveis as medidas
indispensáveis que deveriam ir no sentido de uma diminuição visível da exploração e de outras opressões sociais.
O livro de S. Pirani, La
révolution bat en retraite (A
revolução bate em retirada), faz a este respeito uma descrição preciosa e
meticulosa da degradação da condição operária e das violentas reacções que isso
provocou, sem, no entanto, poder propor qualquer outra alternativa política.
« (A vaga de greves…) atinge o seu ponto máximo em Moscovo
entre 23 e 24 de Fevereiro (1921). Houve também paralisações em Petrogrado a
partir do dia 24, e noutras cidades. A 28 de Fevereiro, a primeira resolução
anti-bolchevique foi adoptada no couraçado Petropavlovsk na base naval de Kronstadt,
precipitando a revolta armada dos marinheiros (…). Os grevistas também estavam
politicamente divididos: enquanto os S.R., os mencheviques e outros haviam
reconquistado algum apoio entre a população, e o programa político dos kronstadianos
para uma renovação da democracia soviética tal como se praticava em 1917
recebia aqui e ali demonstrações de apoio, essas manifestações nunca chegaram a
formar um movimento de massas». S.
Pirani, A revolução bate em retirada, p.107/108, Les Nuits Rouges,
Paris, 2020.
Era, no entanto, indispensável demonstrar de forma concreta e
permanente que a transformação qualitativa da vida proletária devia ser a
realidade inegociável da práxis revolucionária. De maneira alguma, as medidas
típicas do capitalismo (troca comercial, dinheiro, salário, taylorismo,
preferência nacional, « imperialismo
»…) podem servir, pois elas degradam irremediavelmente a confiança do
proletariado no seu poder e na sua força emancipadora. Estas medidas marcam, na
verdade, o início do fim do próprio poder proletário. A ditadura do
proletariado transformou-se, na prática, numa ditadura do capital através do
Partido, que usará e abusará da mais-valia ao seu bel-prazer, deixando assim de
ser revolucionário. A organização capitalista do trabalho com a ajuda
obrigatória dos sindicatos, glorificada e amplificada pelos bolcheviques,
serviu assim como principal repelente para os proletários mais conscientes que
reagiram de maneira clássica para a sua classe, através da greve, da rebelião e
da insurreição (Kronstadt). É bem evidente que Lénine e a maioria dos
bolcheviques (com excepção de algumas oposições operárias tanto dentro como
fora do Partido) apoiaram e endossaram tais medidas capitalistas, assim como a
repressão que as acompanhava, no contexto particular da Rússia do início do
século XX e, mais uma vez, na esperança desesperada e desapontada da revolução
mundial.
« Porque, ao tentar salvar a Rússia, a revolução russa, vocês
reúnem com esta táctica elementos que não são comunistas. (…) E é com este
amontoado de sindicatos mumificados, com uma massa de gente que é comunista
apenas a metade, um quarto, um oitavo ou mesmo nada, a que falta um núcleo
válido, que vocês querem combater o capitalismo mais altamente organizado do
mundo, e que conseguiu reunir todas as classes não proletárias!! Nada de
surpreendente se este amontoado se desfaz e se a grande massa escolhe cada um
por si assim que chegam os confrontos ». H. Gorter, Resposta a Lénine, p.93, Spartacus Paris 1979.
A contra-revolução veio de dentro do próprio «sistema soviético», e o leninismo foi a
sua teorização para manter, camuflada, a restauração política do capitalismo na
Rússia, que apenas prolongava a sua estrutura económica, por outro lado,
inalterada.
Pannekoek e o seu « Lénine
filósofo »
Ao cristalizar-se cada vez mais numa doutrina anti-leninista,
a esquerda comunista germano-holandesa dos anos trinta completou a sua evolução
política rompendo com a pseudo continuação formal, afirmada pela doutrina leninista,
entre Marx-Engels, ... Lenine, … Estaline e, posteriormente, os seus «continuadores» burgueses e fascistóides:
Mao, Castro, Hoxha… Para isso, tiveram de impor uma ruptura filosófico-política
com Lenine não tirando um balanço ao aplicar a análise crítica à tomada do
poder pelos operários na Rússia, mas refutando-a com um simples traço de pena.
Já não se tratava senão de um golpe burguês conduzido por intelectuais
sociais-democratas radicalizados. Esta afirmação ideológica remetia, de facto,
para a antiga posição dos mencheviques antes de Outubro de 17, para os quais
apenas uma revolução burguesa com a sua «Constituinte»
teria sido conforme com a evolução natural e progressiva do capitalismo na
Rússia. Para eles, portanto, tal como para os «conselhistas», uma
revolução proletária na Rússia era impossível e suicida. O único horizonte
possível era uma revolução burguesa, para continuar o desenvolvimento moderno
do MPC. É isso que Pannekoek vai tentar demonstrar no seu livro Lenine filósofo (publicado sob o
pseudónimo de J. Harper em 1938), para criticar Lenine e tentar estabelecer um
continuum burguês na Rússia através da assimilação da reivindicação
materialista de Lenine a um materialismo burguês. Assim, se o materialismo de
Lenine fosse o da burguesia, Lenine, ele próprio, tornava-se o representante
radical dessa burguesia nas condições da Rússia czarista. A revolução de 1917,
com Lenine à sua frente, não seria então senão um golpe burguês. O jogo estava
ganho. É para fazer esta «demonstração»
que Pannekoek vai rejeitar a explicação de que «o materialismo é a base comum do marxismo e do materialismo burguês.»
Lénine filósofo, éditions Spartacus,
p.93, Paris, 1970.
Além disso, ao contrário do que diz Pannekoek, o materialismo de
Lenine não é nem redutível, nem identificável, por razões de reescrita da
história, com o dos materialistas do século XVIII, nem com o de Demócrito.
Lenine combate, do ponto de vista do materialismo prático, as derivações
idealistas de alguns dos seus camaradas de partido, revelando, para além da sua
linguagem confusa, os seus fundamentos idealistas e agnósticos. Lenine vai
assim retomar algumas questões-chave e fundamentais da concepção materialista
do mundo, como: a matéria, o espaço e o tempo, a causalidade e a necessidade na
natureza, a liberdade e a necessidade... E faz isso para corrigir o rumo das
coisas, mesmo que isso signifique bater várias vezes no mesmo prego, pois essa
era a maneira de Lenine de polemizar. Por outro lado, a crítica conselhista vai
acusar Lenine de fazer do materialismo um simples reflexo da realidade. Esta
realidade objectiva seria vista como reduzida à matéria física.
« ...O mundo físico é a única realidade objectiva,
é em poucas palavras a filosofia materialista », Lenine: Materialismo e Empiriocriticismo p.302, edições
do Progresso, Moscovo, 1970. Tornou-se então fácil para Pannekoek identificar
esta posição com um materialismo estático e burguês, duplicado do que existe:
« Para Lenine, natureza e matéria física são idênticas; a palavra matéria tem
para ele o mesmo sentido que "mundo objectivo". Neste ponto, concorda
com o materialismo burguês que, da mesma forma, considera que a matéria é a
verdadeira substância do mundo. » Pannekoek, p.82. Lenine responde
antecipadamente algumas páginas mais à frente: « O mundo físico existia
antes que o psíquico pudesse aparecer como o produto superior das formas
superiores da matéria orgânica. (…) 2º o psíquico, a consciência, etc., é o
produto superior da matéria (ou seja, do físico, uma função dessa parcela
particularmente complexa da matéria que leva o nome de cérebro humano humano."
» Lenine, p.314.
Seguindo o exemplo de Engels no seu «Ludwig Feuerbach», Lenine
vai começar por redefinir as duas correntes essenciais da filosofia, para situar,
em termos anteriores à polémica de 1908, o verdadeiro sentido das divergências.
«A grande questão fundamental de toda a
filosofia e especialmente da filosofia moderna é a da relação do pensamento com
o ser.» F. Engels, Ludwig Feuerbach
e o fim da filosofia clássica alemã,
p.24, edições Sociale, Paris. Para atacar os revisionistas de 1908, Lenine vai
previamente realizar um imenso trabalho de leitura e pesquisa teórica, lendo
não só os «empiriocriticistas», Mach,
Avenarius e Petzoldt, mas também relendo os idealistas Aristóteles, Berkeley
até Hegel… e, os materialistas Demócrito, Epicuro, Diderot assim como
Feuerbach, J. Dietzgen para se apoiar em Plekhanov, e obviamente, Marx e
Engels. Este trabalho preparatório encontra-se parcialmente em cadernos
(chamados «cadernos filosóficos») de
leitura e de notas. Isso para insistir no facto de que a obra « Materialismo e Empiriocriticismo » não
pode ser simplesmente limitada a uma polémica que usa as « questões filosóficas » para resolver um problema organizacional. Ao
contrário da lenda anti-leninista (oposta à dos defensores leninistas), Lenine
não se reduz a « um mau filósofo », e
a um « génio da táctica », com um
toque de maquiavelismo. O que Lenine quer dizer é que existe de facto uma
verdade objectiva e que a capacidade de a conhecer, de a pensar, não é uma
questão de teoria, mas de provas práticas. A teoria da luta de classes
demonstra-se praticamente na luta operária revolucionária, e essa luta é reflectida
na teoria. É isto que se tornará a « teoria do reflexo » atribuída a Lenine.
« Lénine traz de volta para o mundo exterior
(acessado através da prática social, conhecida como uma 'mediação' que não
funciona ao estilo kantiano como uma espécie de barreira entre o homem e a
natureza, mas que estabelece um vínculo vivo entre ambos) a teoria marxista do
reflexo. » H. Lefebvre, Para
conhecer o pensamento de Lénine, edições Bordas, p. 133. Basicamente,
trata-se da constatação de que « O materialismo é o reconhecimento das leis
objectivas da natureza e do reflexo aproximadamente exacto dessas leis na mente
do homem. »Lenine, p.207.
Além disso, limitar-se a esta única afirmação unilateral pode
facilmente cair numa visão mecânica e simplista. O reflexo na cabeça do homem,
de facto, não é imediato, nem directo, nem automático, nem puro… pode ser
distorcido, parcial, misterioso. Cabe então à consciência crítica e mediada
expressar a realidade não imediata como uma totalidade concreta.
« O pensamento e o ser, portanto, não são
idênticos no sentido de que «correspondem» um ao outro, que se «reflectem»
mutuamente, que caminham «paralelamente» ou que «coincidem» (todas essas
expressões não passam de formas ocultas de uma dualidade rígida); a sua
identidade consiste em que são momentos de um único e mesmo processo dialéctico,
real e histórico. O que a consciência do proletariado «reflecte», portanto, é o
elemento positivo e novo que surge da contradição dialéctica da evolução
capitalista. Não é algo que o proletariado inventa ou «cria» a partir do nada,
mas sim a consequência necessária do processo na sua totalidade (…)». G.
Lukacs, Histoire et conscience de classe, p.251/252, éditions de Minuit,
Paris, 1984.
A demonstração política de Pannekoek, sobre o carácter burguês de Lenine
e dos bolcheviques, sob uma envoltura filosófica, era, na verdade, um
apriorismo ideológico. Isso constituiu uma das bases da religião
anti-leninista. O leninismo constitui, neste sentido, a imagem da ortodoxia do
catolicismo, enquanto o anti-leninismo constitui o seu lado “protestante”.
Leninismo e anti-leninismo: duas respostas
erradas para uma falsa questão
Foi em 1969 que um grupo de camaradas publicou uma brochura antecipatória e muito pertinente: «Contribuição para a crítica da ideologia ultra-esquerdista (Leninismo e ultra-esquerdismo)» por ocasião de uma reunião internacional do grupo I.C.O.
Desde o início
deste folheto, eles colocavam a questão central: «(...) a corrente
ultra-esquerdista fundou-se nos anos 1920 a partir de uma crítica ao leninismo.
Podemos perguntar-nos se essa crítica não foi, tal como aquilo que criticava,
produto de uma época; e se não trouxe em si os limites dessa época. Será que a
corrente ultra-esquerdista analisou o leninismo em profundidade? Ou apenas
tomou o seu oposto sem realmente atingir as suas raízes?» p.145.
O principal limite político da questão mencionada acima está
na oposição absoluta entre duas formas de organização consideradas ambas como o
«Deus Ex Machina»: a forma Partido
versus a dos sovietes.
« Marx insiste sobretudo no conteúdo deste movimento (o socialismo). Lenine e a corrente
ultra-esquerda insistiram sobretudo na forma: forma de organização, forma de
gestão da sociedade socialista, esquecendo o conteúdo do movimento
revolucionário. Este "esquecimento" era ele mesmo um produto
histórico. A situação da sua época, e sobretudo o desenvolvimento limitado das
forças produtivas, não permitia que as lutas revolucionárias tivessem um
conteúdo comunista (no sentido que definimos). » p.173/174. « Nessas condições,
os ultra-esquerdistas não podiam fazer uma crítica real ao leninismo. Só podiam
sistematicamente tomar o seu oposto, sem ir ao fundo das coisas, sem ver o
conteúdo do movimento revolucionário, simplesmente porque este movimento não
surgia à vista de todos. (...) Substituíram assim o fetichismo do partido
leninista pelo dos conselhos operários. »p.175.
Já tivemos a oportunidade de discutir o carácter heterogéneo
dos sovietes e de outras formas de organização supostamente « finalmente encontradas »: « A forma de organização soviética,
portanto, não pode ser entendida independentemente do seu conteúdo político,
que por sua vez é determinado pelo contexto histórico e pela relação de forças
entre as classes presentes.(…)11
É função da contra-revolução ter separado do partido os organismos produzidos
pelo processo de associativismo operário, quando na realidade trata-se de um
mesmo e único processo: o da organização do proletariado enquanto classe e,
portanto, enquanto Partido12.
« Sem um Partido
revolucionário, não pode existir uma verdadeira classe, sujeito da história e,
amanhã, da ditadura revolucionária. » A « doença infantil »,
condenação dos futuros renegados. Sobre o brochura de Lenine, A doença infantil do comunismo (o «
esquerdismo »), edições Programa Comunista, Paris, 1972.
Junho de 2024 : Fj, Pb & Mm.
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Artigos :
A. Bordiga : Réunion de Naples, 1951, Invariance N°3, 1969.
« Qu’est-ce que l’ultragauche » dans notre revue Matériaux
Critiques N°7 assim como no nosso site : https://materiauxcritiques.wixsite.com/monsite/textes
« La dictature du prolétariat » na nossa revista Matériaux
Critiques N°7 assim como no nosso site : https://materiaux=critiques.wixsite.com/monsite/textes
- https://www.sinistra.
net/lib/bas/progco/ren/ renegatsaf.html
« Lénine au pays des soviet » na nossa revista Matériaux
Critiques N°4 assim como no nosso site : https://materiauxcritiques.wixsite.com/monsite/textes
« Parti…pris » na nossa revista Matériaux Critiques N°3 assim
como no nosso site : https://materiaux critiques.wixsite.com/monsite/textes
La « maladie infantile », condenação dos futuros renegados. Na
Brochura de Lenine « A doença infantil do comunismo(o ‹ esquerdismo ›) :
éditions Programme Communiste, Paris, 1972.
Notas:
1 Estaline, Os
princípios do leninismo, Éditions Sociales, p.10, Paris, 1946.
2 Já abordámos esta questão no texto: «O que é a ultra-direita»
na nossa revista Matériaux Critiques nº7,
assim como no nosso site: https://materiauxcritiques.wixsite.com/monsite/textes
3 O « conselhismo »
corresponde, nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, à ossificação
da corrente « Comunismo de Conselhos
», proveniente da desagregação do K.A.P.D. É uma corrente marxista « anti-leninista », para quem os conselhos
de operários são a única forma adequada de organização revolucionária do poder.
Os conselhos deveriam também gerir e dirigir a sociedade de forma « democrática ». Para uma análise mais
detalhada das origens desta corrente, leia: Denis Authier & Jean Barrot, A esquerda comunista na Alemanha,
1918-1921, Payot, Paris, 1976
4 Em referência à obra de Moshé Lewin: A última batalha de Lenine, edições de Minuit, Paris, 1978.
5 Nesta divisão de papéis, Trotski assumirá o do «profeta desarmado» (Isaac Deutscher)
perante a involução definitiva da revolução na qual participou através das suas
oscilações e hesitações
6 Já abordámos esta questão central no texto: «A ditadura do
proletariado» na nossa revista Matériaux
Critiques N.º 7, assim como no nosso site: https://materiauxcritiques.wixsite.com/monsite/textes
7 Esta obra de L. Trotsky, Terrorismo
e comunismo, edições Prométhée, Paris, 1980, é muito estranhamente,
raramente mencionada ou comentada pela vulgata trotskista, provavelmente
incomodada pela proximidade das medidas económicas e sociais já típicas de
medidas anti-trabalhistas que o estalinismo vitorioso não desaprovaria.
8 Este livro: A revolução recua, Les Nuits Rouges, Paris,
2020, tem como sub-título: «A nova
aristocracia comunista e os operários (Moscovo, 1920-1924)» e prolonga o
trabalho de Stephen A. Smith na sua análise das lutas operárias nas fábricas em
1917/18, em Petrogrado Vermelha (Les
Nuits Rouges). Da mesma forma, no que diz respeito à revolução em Espanha,
recomendamos o excelente livro de Michael Seidman: Operários contra o trabalho, edições Senonevero, Marselha, 2010.
9 Assim, o livro de J. Baynac: La terreur sous Lénine, Le Sagittaire, Paris, 1975 (reeditado em
2024), não é de forma alguma uma revelação libertária que expõe as “torpezas” de Lenine e dos bolcheviques,
mas sim uma descrição interessante da implementação gradual de uma repressão
inicialmente selectiva daquilo que mais tarde se tornaria o terror de massa do estalinismo.
10 O grupo « Informação
e correspondência operária » provém de uma cisão com « Socialismo ou Barbárie », liderada por Henri Simon. Após os
acontecimentos de Maio de 68, esse grupo amalgamou grande parte da vaga « conselhista », incluindo os camaradas
que iriam produzir a revista Le mouvement communiste (1972/74).https://archivesautonomies.org/spip.
php?rubrique46 Diferentes
textos, incluindo o citado, encontram-se no livro: Jean Barrot, Comunismo e questão russa, p.136,
edições la tête de feuilles, Paris, 1972.
11 Lenine no país dos sovietes, Matériaux critiques N° 4 e no
site https://materiauxcritiques.wixsite.com/monsite/textes
12 Sobre esta questão ver o nosso texto : « Parti…pris » na
nossa revista Matériaux Critiques N°3 assim como no nosso site : https://materiauxcritiques.wixsite.com/monsite/textes
Fonte: https://81b6bb22-93ff-445e-9132-db9118c0c19f.filesusr.com/ugd/ca292a_d8a91654ad1c45f1a653d2ca1486c90a.pdf
Este documento foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice