quarta-feira, 10 de junho de 2026

Quando o bloqueio de Ormuz fortalece o poder energético americano

 


Quando o bloqueio de Ormuz fortalece o poder energético americano

10 de Junho de 2026 Robert Bibeau



Por Khider Mesloub.

Durante anos, os Estados Unidos não dependeram directamente do Estreito de Ormuz para o seu fornecimento ou exportação de petróleo. Esta realidade marca uma grande transformação histórica na sua posição energética mundial.

Durante várias décadas, especialmente após os choques petrolíferos dos anos 70, a segurança do Golfo Pérsico foi um imperativo estratégico vital para Washington: a economia americana continuava fortemente dependente dos hidrocarbonetos do Médio Oriente, e qualquer perturbação do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz ameaçava directamente a sua estabilidade económica interna.

A Revolução Energética Americana e o Declínio Estratégico de Ormuz

Esta configuração mudou profundamente nos últimos quinze anos como resultado da revolução não convencional dos hidrocarbonetos. Graças à exploração massiva do petróleo e gás de xisto, os Estados Unidos tornaram-se uma das principais potências energéticas mundiais, tanto produtores como exportadores. A sua dependência estrutural do petróleo do Golfo foi significativamente reduzida. A maior parte dos seus fornecimentos energéticos provém agora do seu próprio território, do Canadá ou de outros parceiros nas Américas. Quanto às suas exportações de petróleo e gás, transitam principalmente pelos terminais do Golfo do México e não pelas rotas marítimas do Golfo Pérsico.

Nestas condições, um bloqueio ao Estreito de Ormuz não penalizaria directamente os Estados Unidos, cujo abastecimento e exportação de energia já não dependem estruturalmente dos hidrocarbonetos do Golfo Pérsico. Por outro lado, as principais economias asiáticas, que dependem fortemente dos hidrocarbonetos do Médio Oriente, ficariam imediatamente expostas a sérias tensões energéticas e industriais. A China, Índia, Japão e Coreia do Sul importam uma parte considerável do seu petróleo das monarquias do Golfo. Para estas potências industriais, o Estreito de Ormuz continua a ser uma artéria energética vital. A sua interrupção causaria tensões imediatas nas suas cadeias de abastecimento, custos industriais e segurança energética. Por outro lado, os Estados Unidos têm agora uma autonomia energética relativa que os protege em grande parte de uma perturbação material directa dos fluxos de petróleo que atravessam o Golfo.

O choque petrolífero como alavanca do poder geo-económico

No entanto, num sistema económico mundial interligado, os hidrocarbonetos estão sujeitos a dinâmicas de mercado fortemente integradas, pelo que qualquer grande perturbação no Golfo leva automaticamente a um pico nos preços internacionais do petróleo e gás. Este aumento dos preços tem também outra dimensão que é frequentemente subestimada: tende também a fortalecer a posição das principais potências exportadoras de energia. No entanto, os Estados Unidos são agora um dos principais entre eles.

Neste contexto de aumentos sustentados dos preços do petróleo e gás, os produtores americanos de petróleo de xisto e os exportadores de gás natural liquefeito estão a ver as suas margens e a sua competitividade internacional aumentarem acentuadamente. Quanto mais altos os preços mundiais, mais rentável se torna a exploração dos hidrocarbonetos americanos, incluindo em campos anteriormente considerados demasiado caros. Esta dinâmica é particularmente favorável às grandes empresas energéticas dos EUA, bem como à expansão das exportações para a Europa e Ásia.

A crise ucraniana já forneceu uma ilustração deste fenómeno. A ruptura progressiva entre a Europa e os hidrocarbonetos russos levou a um aumento maciço das exportações americanas de gás natural liquefeito para o mercado europeu. As tensões geo-políticas contribuíram assim para reforçar o papel energético internacional dos Estados Unidos. Uma crise prolongada no estreito de Ormuz produziria efeitos comparáveis numa escala ainda maior. Quanto mais os fornecimentos do Golfo se tornarem instáveis, vulneráveis ou caros, mais numerosos serão os países importadores que procurarão diversificar os seus fornecedores para reduzir a sua exposição geo-política. Nesta estratégia de diversificação, os Estados Unidos surgem como um fornecedor relativamente estável, com capacidades de exportação consideráveis e infraestruturas energéticas em expansão contínua.

A instabilidade crónica do Médio Oriente já não constitui para Washington um obstáculo estratégico comparável ao que representava no século XX. Numa altura em que a economia dos EUA dependia directamente do petróleo do Golfo, qualquer perturbação regional ameaçava imediatamente os seus interesses vitais. Hoje, a situação inverteu-se: um choque petrolífero mundial pode agora fortalecer os interesses energéticos e comerciais dos Estados Unidos ao promover um aumento sustentado dos preços dos hidrocarbonetos e a expansão das suas exportações.

A crise de Ormuz e a recomposição do balanço energético mundial de poder

É neste contexto que formulamos a seguinte tese: um bloqueio prolongado ao Estreito de Ormuz fortaleceria objectivamente a posição energética americana na economia mundial. Uma escassez parcial de petróleo do Golfo nos mercados internacionais, combinada com um aumento duradouro dos preços, aumentaria mecanicamente a atractividade dos hidrocarbonetos americanos. Importadores europeus e asiáticos, ansiosos por garantir os seus fornecimentos, seriam incentivados a aumentar as suas compras a produtores americanos, mesmo a custos mais elevados.

Mesmo que o estreito reabrisse sob controlo iraniano com elevados direitos de passagem, os efeitos estruturais continuariam potencialmente favoráveis aos exportadores norte-americanos. A introdução de uma taxa estratégica numa das principais rotas energéticas do mundo ajudaria a manter preços elevados e um clima de incerteza logística a longo prazo. Num mercado mundial extremamente sensível à estabilidade dos fluxos de energia, esta situação pode encorajar uma proporção crescente de compradores internacionais a reduzir a sua dependência do Golfo Pérsico em favor de fornecedores considerados mais seguros ou menos arriscados politicamente, sobretudo os Estados Unidos.

Desde logo, a questão do estreito de Ormuz transcende amplamente o âmbito regional do conflito entre o Irão e os seus adversários. Ela toca numa recomposição muito mais profunda das relações de força energéticas mundiais. O controlo das rotas marítimas, a segurança do abastecimento e a redistribuição dos mercados de petróleo e gás constituem hoje questões centrais da competição geo-económica internacional. Nesta nova configuração, os Estados Unidos aparecem menos como uma potência vulnerável às crises do Golfo do que como um actor susceptível de transformar a instabilidade energética mundial num alavanca adicional de consolidação da sua potência geo-económica.

Em consequência, o bloqueio do estreito de Ormuz, assim como a sua reabertura sob controlo tarifário iraniano, serviriam, em ambos os casos, os interesses energéticos dos Estados Unidos.

A esse respeito, a julgar pelos discursos oficiais, Trump afirma querer negociar com Teerão e restabelecer a livre circulação no estreito de Ormuz. No entanto, cada vez que a hipótese de um acordo parece aproximar-se, ele próprio torpedeia as negociações com novos bombardeamentos contra o Irão, revelando assim que o prolongamento do conflito e a manutenção do bloqueio do estreito de Ormuz servem mais aos interesses geo-estratégicos e económicos do capital americano do que a uma resolução rápida da crise. Vários meios de comunicação internacionais notaram aliás o desfasamento crescente entre as declarações diplomáticas americanas e a continuação das operações militares contra o Irão. Sintomaticamente, os Estados Unidos retomaram os seus ataques ao sul do Irão na terça-feira, 27 de Maio, precisamente no momento em que Washington afirmava prosseguir as negociações com Teerão, alimentando assim as acusações iranianas de violação da trégua.

Hidrocarbonetos, a indústria armamentista e o capitalismo militarizado americano

Em última análise, as tensões em torno do estreito de Ormuz não beneficiarão apenas os exportadores americanos de hidrocarbonetos. Elas também terão contribuído para reforçar todo o aparelho militar-industrial estadunidense. Esta guerra contra o Irão estimulou a expansão das despesas militares, a produção de armamentos, os contratos de segurança e as dependências estratégicas dos aliados regionais de Washington. Ela também favoreceu a expansão espetacular do orçamento militar americano, que deverá passar de menos de 1 000 mil milhões de dólares para mais de 1 500 mil milhões até 2027. Este aumento histórico das despesas de defesa reflectirá menos uma simples resposta conjuntural às crises geo-políticas do que um aprofundamento da militarização estrutural do capitalismo americano e do peso crescente do complexo militar-industrial na economia dos Estados Unidos. Além disso, devido à subida dos riscos geo-políticos, as monarquias do Golfo intensificarão as suas compras de equipamentos militares, de sistemas anti-mísseis, de tecnologias de vigilância e de armamentos sofisticados junto dos industriais americanos.

Nesta configuração, a prolongada crise iraniana tem sido não só um factor na consolidação do poder energético dos Estados Unidos, mas também uma poderosa alavanca de apoio ao complexo militar-industrial americano.

Como resultado, por detrás do discurso oficial sobre segurança regional e estabilidade internacional, a crise de Ormuz terá participado de forma mais profunda numa dinâmica de militarização do capitalismo americano, onde os interesses energéticos, a expansão militar e a lógica da acumulação económica se terão reforçado mutuamente.

Em conclusão

Ao contrário das análises dos "especialistas" dos media ocidentais que anunciam uma derrota americana no Médio Oriente, o capital dos Estados Unidos emergirá, como em guerras anteriores lideradas por Washington, fortalecido por este conflito contra o Irão. É claro que os dois principais pilares do capitalismo militarizado dos EUA – hidrocarbonetos e a indústria armamentista – terão obtido benefícios financeiros significativos desta guerra deliberadamente prolongada.

Trump, como agente zeloso do capital americano, terá cumprido com virtuosismo a missão que lhe foi atribuída pelos seus senhores. Assim, se não fosse o Prémio Nobel da Paz que tanto cobiçava, Trump mereceria pelo menos o prémio pela rentabilidade imperial dos conflitos.

Khider MESLOUB

 

Fonte: Quand le blocus d’Ormuz renforce la puissance énergétique américaine – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Sobre o declínio do capitalismo, a revolução permanente e a dupla revolução

 


Sobre o declínio do capitalismo, a revolução permanente e a dupla revolução

 

I Parte:  Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: TROTSKY E TROTSKISMO

 

As notas que apresentamos a seguir têm um carácter semi-elaborado, pois a expressão teórica da luta proletária tem-se feito, na grande maioria das vezes, através de fragmentos, notas, esboços, debates confusos, reflexões por desenvolver, textos inacabados, materiais semi-elaborados. A actividade militante pouco tem a ver com o salão tranquilo de um intelectual ou com a pena inerte de um académico. O programa comunista é invariante, porque tanto o capital como o seu coveiro histórico são invariantes. Ao mesmo tempo, a nossa classe aprende o seu programa com base em lutas e derrotas, em esperanças e desilusões, em balanços difíceis em tempos de repressão. As notas que publicamos a seguir são a expressão de um debate nosso, enquanto grupo, no qual procuramos desenvolver algumas premissas iniciais para enfrentar um debate fundamental do movimento histórico do proletariado. Por isso, apresentamos estas notas com a intenção de as desenvolver com maior clareza e sistematicidade em futuras elaborações.

Este texto, ainda em fase de elaboração, parte de dois pontos fundamentais do movimento comunista revolucionário:

                 

- O comunismo mundial é possível porque o capitalismo cria as suas condições materiais. E esta é uma premissa básica que tem obscurecido a presença do pós-modernismo nos nossos meios.

- Um elemento central no debate entre camaradas do passado, como Trotsky, Bordiga, Lenine ou Rosa Luxemburgo, consiste em determinar quando podemos falar do capitalismo como um modo de produção plenamente estabelecido, e se se trata de um facto já de natureza mundial ou se tem um desenvolvimento regional, geo-histórico: ou seja, se, na altura em que a revolução comunista é plenamente actual em algumas regiões do mundo, noutras ainda se deve realizar uma transição plenamente capitalista.

Por isso, para este debate é essencial partir de uma noção determinada de revolução burguesa, entendendo-a como o conjunto de transformações políticas e jurídicas que estabelecem as condições em que o capital se reproduz de forma ampliada e auto-sustentável com o automatismo impessoal que o caracteriza. Para tal, é importante ter presente que o capitalismo não se resume apenas às condições imediatas de produção (relação capital-trabalho), mas abrange o conjunto das condições de reprodução social (políticas, jurídicas, ideológicas, etc.). Assim, a revolução burguesa permite eliminar os obstáculos ao pleno desenvolvimento do capitalismo.

Consequentemente, para esta discussão, é importante distinguir entre o capitalismo do século XIX e o que é o capitalismo no século XX. Sem essa distinção, não conseguiremos compreender bem o que os camaradas do nosso partido defendiam no passado.

No século XIX, quando Marx escreve o Manifesto do Partido Comunista e, dias depois, se desenvolve uma vaga revolucionária, a de 1848, o capitalismo é uma relação social ainda muito fraca. Coexiste no continente europeu com uma realidade ainda forte do Antigo Regime e com um proletariado ainda fraco e minoritário a nível social. Partindo do facto de que é necessário que o capitalismo se desenvolva e promova uma determinada expansão do proletariado para que o comunismo seja possível, a questão urgente para Marx e Engels em 1848 é como podemos defender os interesses históricos do proletariado num momento ainda prematuro para a revolução comunista: como defender a sua independência de classe, organizada em partido, e como participar a partir daí na vaga revolucionária europeia de 1848. É a partir daí que surgirá a sua perspectiva da revolução permanente. O objectivo do proletariado é que, uma vez derrubado o Antigo Regime, a revolução prossiga numa perspectiva comunista e proletária.

No século XX, o colonialismo já havia estendido as relações capitalistas a todo o mundo e já estão eliminados os obstáculos para que o capitalismo possa desenvolver-se plenamente. O imperialismo expande as relações capitalistas a nível mundial e, ao fazê-lo, cria as premissas, que são mundiais, para a revolução comunista mundial. É neste contexto que nasce a revolução russa como expressão dessa revolução mundial, e nesse momento também surgirá a ideia de decadência que defenderá a Internacional Comunista, segundo a qual, no início do século XX, o capitalismo já não tinha mais capacidade, encontrava-se historicamente esgotado. A esta perspectiva confrontar-se-ão anos mais tarde camaradas como Bordiga.

O que está claro para o conjunto dos nossos camaradas naquele momento é que o tempo histórico já não é o de Marx: é o momento da revolução comunista. Para alguns, a revolução é já comunista a nível mundial e para outros, como Bordiga, só há uma revolução comunista pura no Ocidente, mas de natureza múltipla (burguesa e proletária, dupla revolução), nos países periféricos do capitalismo. Outra discussão seria se a revolução é puramente comunista, ou se tem traços de revolução burguesa e democrática: essa será, por exemplo, a perspetiva de Trotsky com a sua ideia de revolução permanente.

Esta panorâmica geral ajuda-nos a compreender o contexto geral do debate.

Marx e a revolução em permanência

Para Marx, em 1848, o proletariado conquistou o terreno para lutar pela sua emancipação (independência de classe), mas não as condições da sua própria emancipação. Portanto, deve participar nas revoluções burguesas e democráticas com o objectivo de liderar uma revolução em permanência, um transcrescimento da revolução burguesa em proletária. No entanto, isso só pode ser possível se mantiver a sua premissa básica: a sua independência política e organizativa em relação a qualquer outro programa, a qualquer outra classe social. Nesta perspectiva de Marx, nunca existe uma paz latente entre burguesia e proletariado. A burguesia encontra-se num beco sem saída entre o Antigo Regime e o comunismo (encarnado pelo proletariado). O surgimento do proletariado como classe explorada e revolucionária ameaça já a burguesia. É o espectro que a aterroriza. Marx diferencia, além disso, as tarefas dos comunistas em função do país de que se trate. Não é o mesmo a Alemanha, com um Antigo Regime forte e onde ainda não houve unificação nacional, que a França, onde o proletariado se expressa cada vez mais como força autónoma, a tal ponto que o seu papel nas jornadas de Junho de 1848 terá de sofrer a repressão sangrenta da burguesia pelas mãos do general Cavaignac.

A Comuna de Paris, primeiro experimento triunfante durante algumas semanas de revolução social e ditadura de classe, constituirá uma antecipação da mudança histórica que se desenha claramente desde 1900. 



Os debates entre o proletariado russo: Lenine e Trotsky

Marx e Engels militam num interregno, entre um já não e um ainda não, mas as coisas começam a mudar a partir do novo século, e sobretudo com a Revolução russa de 1905.

Que debates se dão na social-democracia russa? De forma rápida e esquemática, diremos que os mencheviques consideram de uma forma linear e mecânica que a Rússia é um país feudal e, por isso, que é preciso apoiar uma revolução burguesa. Para os mencheviques, só depois de levar a cabo a revolução burguesa poderá o proletariado lutar por uma revolução comunista.

Os bolcheviques têm uma visão distinta. Concordam que a Rússia ainda tem de passar por uma revolução de tipo burguês, mas o agente dessa revolução será o proletariado em aliança com o campesinato, já que a burguesia russa é fraca e, além disso, tem medo da força e da ameaça que o proletariado representa para ela. Nesta perspectiva, é fundamental o panfleto de Lenine Duas tácticas da social-democracia russa. A sua visão da revolução russa é sem dúvida menos etapista do que a perspectiva menchevique, e chama a uma ditadura de operários e camponeses que, no entanto, continuaria dentro de um regime capitalista: ou seja, não avançaria para uma revolução proletária.

Diferente é a perspectiva de Trotsky. De forma sintética, podemos assinalar três aspectos positivos na sua teoria:


- A sua ideia de revolução permanente propõe que o mundo já está maduro para a revolução comunista mundial.

                 

- Isto deve-se ao facto de todo o orbe já estar dominado pelo capitalismo, que implica um desenvolvimento desigual e combinado. Não se pode falar, no início do século XX, de feudalismo ou de pré-capitalismo.

 

- A sua visão eminentemente mundial da revolução e do capitalismo implica uma crítica à ideia contra-revolucionária do socialismo num só país.

                 

                E, no entanto, podemos apontar cinco limites na sua perspectiva:

                 

- Baseia-se numa ideia de decadência. O capitalismo já não desenvolve as forças produtivas, pelo que deixou de crescer e só implica a destruição de forças produtivas. Como veremos mais abaixo, esta perspectiva pressupõe uma incompreensão da natureza do capitalismo.

                 

- Vinculado a esta ideia está o facto de que a revolução permanente seria o único desenvolvimento possível para os países periféricos do capitalismo, pelo que se entende que o capitalismo dos países periféricos ou dos países que chegaram mais tarde ao capitalismo não poderia desenvolver as suas forças produtivas. Esta ideia de decadência e imperialismo pressupõe que não haveria competição real entre capitais nacionais. E, no entanto, é muito evidente que com o desenvolvimento do capitalismo temos visto desenrolar-se um capitalismo orgânico e competitivo em países como a China, a Índia, a Coreia do Sul ou o Brasil, para mencionar apenas alguns exemplos entre outros, mas muito sintomáticos.

 

- A revolução permanente faz passar movimentos e processos burgueses como se fossem comunistas. Isso é evidente no caso da atitude do trotskismo do pós-guerra em relação à China de Mao, à Jugoslávia de Tito ou a Cuba de Castro. Isto tem ainda a ver com a própria noção de Estado operário degenerado burocraticamente em Trotsky e a identificação entre nacionalização e socialismo, entre capitalismo e propriedade privada.

 

- Trotsky, num certo momento, estende a noção de revolução permanente à Europa Ocidental e identifica comunismo e revolução permanente, com o que transfere para o comunismo todo o democratismo que esta noção implica. Trotsky realizará esta extensão de categorias, por exemplo, nos seus textos sobre a Espanha dos anos 30.

- Assim, a noção de revolução comunista seria a de uma revolução permanente que se transforma em socialista tornando-se permanente, com o que o uso de palavras de ordem democráticas se torna algo central da perspectiva comunista.

A noção de decadência e a nossa crítica

Como dizíamos no início, a ideia de decadência tem a sua origem numa perspectiva desenvolvida pela Internacional Comunista no contexto da vaga revolucionária mundial de 1917-1923, e tem em Rosa Luxemburgo a sua principal teórica. No início do século XX, o capitalismo expandiu-se por todo o globo e com isso acabou com os mercados extra-capitalistas. Para Rosa, o capitalismo tem um problema de realização de mais-valia num mundo puramente capitalista, pelo que a sua expansão mundial significa o fim do seu desenvolvimento, a entrada da decadência através de uma crise permanente e sem saída.18

18 Cf. o nosso livro A guerra, o imperialismo e a socialização do capital, disponível em papel e em barbaria.net.

Quem mais vai desenvolver esta perspectiva é a CCI a partir dos anos 70 do século XX, e previamente alguns dos membros da Bilan como Mitchell. Nesta ideia de decadência subjaz sempre a noção de que o capitalismo atingiu os limites do seu desenvolvimento saudável. Ao esgotar os mercados pré-capitalistas, produzem-se crises de sobreprodução que provocam não necessariamente um cessar completo da economia capitalista, mas sim uma série de catástrofes e convulsões crescentes. Além disso, a ideia de decadência pressupõe que aquilo que é positivo na fase de ascensão do capitalismo (parlamentarismo, sindicatos, questão nacional, guerras interburguesas…) por magia se transforma no contrário, tornando-se posições burguesas e interclassistas. Como veremos, a nossa posição é muito diferente.

Podemos resumir em cinco chaves a nossa crítica à ideia de decadência:


- O capital desenvolve sempre as suas forças produtivas, embora o faça de um modo cada vez mais catastrófico. O capital é valor insuflado de valor. A concorrência entre capitais para acumular mais valor empurra-os para o desenvolvimento das forças produtivas. Negar ou subestimar este facto categorial implica não compreender a natureza das categorias do capitalismo, o seu ADN.

                 

- Isso não quer dizer que o capitalismo não tenha cada vez mais dificuldades em valorizar-se. De facto, o próprio valor está a esgotar-se como categoria histórica, porque as forças produtivas que não pode deixar de impulsionar anulam ao mesmo tempo o sentido de medir o produto do trabalho humano em termos de valor, de tempo de trabalho socialmente necessário, em termos mercantis, em definitivo. Mas nada disto implica uma perda gradual da sua essência, pelo contrário, o capitalismo é muito mais puro agora, quando se está a aproximar do seu limite interno, do que o era em 1914.

                 

- A ideia de decadência implica uma separação entre o subjectivo e o objectivo da luta de classes. Para nós é essencial unir o desenvolvimento do capitalismo com o crescimento do proletariado revolucionário, e é então que o comunismo se torna o programa de acção imediato para a nossa época.

- Esse dualismo da noção de decadência entre o objectivo e o subjectivo leva-o a defender um programa durante a fase de ascensão do capitalismo e outro durante a fase de decadência. Pelo contrário, para nós, o programa não muda em função da fase em que se encontra um modo de produção determinado, mas assistimos a uma lenta conformação do proletariado como classe revolucionária, a partir da sua autonomia e independência de classe, e com ele a uma clarificação do seu programa comunista, dos seus interesses históricos. 

- Por último, no caso da CCI esta perspectiva torna-se cada vez mais idealista com a teoria da decomposição. Uma vez que a revolução comunista não libertou a humanidade de um capitalismo em decadência, as relações sociais vão-se decompondo para uma guerra de todos contra todos, uma anomia social generalizada. A consequência disso é evidente: a luta de classes e, portanto, a revolução perdem o seu sentido material, histórico, e vai desvanecendo-se perante uma noção cada vez mais moral e ilustrada da luta do proletariado.

A Nossa perspectiva

A revolução burguesa é um momento específico e imprescindível para que o capitalismo se estabeleça como modo de produção, dado que elimina os obstáculos e restricções ao desenvolvimento capitalista. Assim, a era das revoluções burguesas termina com a subsunção real do planeta a partir de 1885-1900, de mãos dadas com a colonização e o imperialismo.

 Longe de uma noção de revolução burguesa consistente em tarefas burguesas (uma nova classe dominante, revolução agrária, desenvolvimento de um regime democrático e independência nacional), para nós a revolução burguesa é o momento histórico pelo qual se estabelecem as condições necessárias para a acumulação ampliada de capital e que este não pode gerar por si mesmo, na dinâmica da produção imediata de valor e da sua realização no mercado.

 Isto pressupõe da nossa parte uma crítica à ideia de dupla revolução de Bordiga, que implica uma visão geo-histórica da revolução e da dinâmica do capital. Segundo a teoria da dupla revolução, haveria uma revolução puramente comunista no centro do desenvolvimento dos países capitalistas, mas no resto dos países só seria possível uma revolução dupla (com tarefas burguesas e comunistas) que deveria unir-se à revolução proletária mundial. Isto parece-nos perigoso, pois implica uma defesa de alianças, mesmo que desde a independência política e de classe, com forças burguesas anti-imperialistas. Assim, podemos recordar os resultados da aliança com o Kuomintang durante a revolução chinesa de 1927 ou, em geral, os dos movimentos de libertação anti-colonial até aos anos 70, cujos últimos exemplos seriam Angola e Moçambique.

Para nós a perspectiva é outra. Não podemos separar o objectivo do subjectivo. Assistimos, nos inícios do capitalismo, a uma lenta maturação do proletariado como classe, do seu programa como força histórica. Não se trata de apoiarmos a revolução burguesa nesses momentos históricos, nem de procurarmos uma impossível revolução comunista, mas de afirmarmos o terreno da nossa independência de classe. No entanto, a partir do momento em que o mundo entra plenamente na fase da subordinação real ao capital (no final do século XIX e início do século XX), o proletariado é uma força social que já expressa a luta pelos seus interesses imediatos unidos à sua perspectiva histórica. A revolução comunista torna-se o único objectivo possível para o proletariado de acordo com o seu ser social, não pela falta de desenvolvimento do capitalismo, ou pela perda da sua essência, mas precisamente em razão da sua própria maturidade. Revolução comunista, pois, como objectivo mínimo, revolução comunista pura e não misturada com outras tarefas. Desde 1914, a perspectiva da revolução comunista, as suas possibilidades materiais aumentaram enormemente. Hoje em dia a revolução comunista é muito mais firme: uma revolução proletária hoje em dia na China seria muito mais sólida do que em 1927. Outra coisa é que, junto a esta maturidade objectiva, existem obstáculos subjectivos devido ao peso da contra-revolução e ao corte histórico da nossa tradição. Em 1914 era mais difícil do que hoje, por motivos objectivos, que a revolução mundial se desenvolvesse e triunfasse em todo o mundo. Ao mesmo tempo, hoje em dia é mais difícil do que em 1914, pelo peso da contra-revolução estalinista, o surgimento de uma revolução proletária com consciência do seu programa histórico. Este é o nosso dilema: nunca houve condições tão maduras para o comunismo, mas não temos o comunismo como horizonte de expectativa pelo peso que ainda tem (menor do que há algumas décadas, é certo) a contra-revolução que arrasou o movimento revolucionário do proletariado após a derrota da vaga revolucionária no século passado. Nas próximas décadas, jogaremos o futuro da humanidade. Esse futuro está indissoluvelmente ligado à sorte de uma revolução comunista mundial pura, sem mediações. E este debate é parte desse longo caminho que nos pode conduzir à nossa emancipação como espécie.


Fonte: https://barbaria.net/.../cuaderno-trotsky-y-el-trotskismo/

Este texto foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




terça-feira, 9 de junho de 2026

Radio Orient, o navio-almirante do império do clã Hariri, sob controlo de uma holding dos Emirados Árabes Unidos

 


Radio Orient, o navio-almirante do império do clã Hariri, sob controlo de uma holding dos Emirados Árabes Unidos

9 de Junho de 2026 Robert Bibeau



Por René Naba na Radio Orient, a última joia do império mediático do clã Hariri, está a passar para o controlo de uma holding dos Emirados Árabes Unidos.

O fim de um parêntese encantado

A Radio Orient, a última jóia da corôa do que outrora foi o império mediático Hariri, cujo nome deriva do primeiro-ministro e bilionário libanês-saudita Rafic Hariri, foi vendida em 2025 a um grupo empresarial dos Emirados Árabes Unidos, pondo fim a um período áureo de 32 anos, durante o qual a dinastia Hariri dominou a vida política libanesa, e influenciou amplamente a diplomacia francesa em relação ao mundo árabe, nomeadamente na época da dupla Jacques Chirac-Rafic Hariri.

 

·         Sobre o tandem Chirac-Hariri, veja este link: https://www.renenaba.com/la-france-et-le-liban-le-recit-dune-berezina-diplomatique/

·         Sobre o desconforto político de Saad Hariri, cf; Este link: https://www.madaniya.info/2022/01/31/liban-saad-hariri-la-fin-sans-gloire-dun-heritier-problematique-dune-dynastie-ephemere/

O novo proprietário e agora único accionista da Radio Orient é a RO Holding Limited (Emirados Árabes Unidos), localizada no emirado de Ras al Khaimah e registada sob o nome "International Corporate Center ICC 202 40 500.

A Rádio Orient actuou como única accionista da empresa REGROUPEMENT DES RADIOS MUSULMANES DE FRANCE. A Radio-Orient é uma sociedade anónima simplificada com um capital de 175.000 euros, cuja sede registada se encontra na avenida Victor Hugo, nº 98, em Clichy (92110), registada no Registo de Comércio e Empresas de Nanterre com o número 339 765 786;

Não foi possível saber se a venda foi feita para satisfazer uma dívida do herdeiro do clã ou em reconhecimento da hospitalidade que os Emirados Árabes Unidos ofereceram a Saad Hariri, para o ajudar a sair do seu colapso político e financeiro.

Mas o facto é que a venda da Radio Orient a uma holding dos Emirates poderia alterar significativamente a linha editorial desta estação, que anteriormente era sensível ao Líbano e à Arábia Saudita, dada a rivalidade contida entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos e a animosidade que reina entre os líderes das duas petro-monarquias, o saudita Mohamad Bin Salman, e Mohamad bin Zayed, do Abu Dhabi, aliado privilegiado de Israel na região e da direita radical europeia, devido à sua feroz hostilidade aos islamistas.

Para aprofundar este tema, veja estes links:

·         https://www.madaniya.info/2023/03/15/la-sourde-rivalite-entre-larabie-saoudite-et-les-emirats-arabes-unis-1-3/

·         https://www.madaniya.info/2023/03/22/quand-abou-dhabi-espionne-larabie-saoudite-2-3-de-la-politique-etrangere/

·         https://www.madaniya.info/2023/03/28/de-lambivalence-des-relations-entre-les-emirats-arabes-unis-et-larabie-saoudite-a-propos-de-la-guerre-du-yemen/

Sobre as ligações entre Abu Dhabi e a extrema-direita europeia, veja este link

·         https://orientxxi.info/les-emirats-arabes-unis-allies-de-l-extreme-droite-europeenne,8034

E o artigo da Mediapart datado de 19 de Janeiro de 2026, "o plano secreto dos Emirados Árabes Unidos para influenciar o debate público interno em França".

O império mediático do clã Hariri

Instituição lendária, indissociável da história do Líbano, Rafic Hariri, que viria a liderar o governo libanês durante dez anos (1992-1998/2000-2003), começou por tentar apaziguar a imprensa libanesa, disponibilizando do seu próprio bolso a quantia de 250 000 dólares como contribuição para a construção do novo edifício do sindicato da imprensa. No Outono de 1991, menos de um ano antes da sua chegada ao poder, conquistou assim as boas graças do presidente do sindicato dos jornalistas, o Sr. Melhem Karam, um homem sem preocupações financeiras, proprietário de um importante grupo de imprensa que incluía uma conceituada publicação francófona, «La Revue du Liban», e, além disso, patrão inamovível do sindicato há quarenta anos.

Numa operação de relações públicas dirigida directamente aos jornalistas libaneses, não hesitou, também, em fretar um avião especial para a cobertura da primeira visita pós-guerra do presidente libanês à França, Elias Hraoui, no Outono de 1991, oferecendo às suas custas uma festa aos cerca de sessenta correspondentes que acorreram a Paris para a ocasião. Homem de poder e, sobretudo, de plenos poderes, Hariri não tolerava a menor contestação. A discordância era-lhe insuportável ao extremo, tal como as observações duvidosas ou, mais simplesmente, interrogativas.

Quer se goste ou não, através da sedução ou da coação, do dinheiro ou da violência, Hariri construiu assim, ao longo de 15 anos, um verdadeiro império mediático, apoiado por uma plêiade de escribas aduladores, para sua maior glória e a dos seus projectos. Muitos jornalistas sucumbiram às seduções materiais por necessidade de sobrevivência num país exangue, ou mais simplesmente para satisfazer uma vaidosa sede de reconhecimento social que os fastos do poder geram.

Fazer uma peregrinação diária ao City Café de Beirute, ao pé da residência do primeiro-ministro, e exibir-se na companhia do porta-voz e distribuidor da maná haririana, Nihad Machnouk, constituía então um ritual da mais alta elegância, o cúmulo da consagração profissional e da consideração social durante o mandato de Hariri.Na altura da sua morte, Rafik Hariri encontrava-se, após vinte e cinco anos de vida política, à frente de um sistema multimédia composto por seis vectores, incluindo um canal de televisão, uma estação de rádio e ligações a seis grandes publicações libanesas. Como sinal de ecumenismo ou oportunismo, o recrutamento de uma coorte de cerca de uma centena de jornalistas heterogéneos abrange toda a gama de sensibilidades políticas libanesas e árabes, desde antigos militantes comunistas até milicianos das forças libanesas.

Para além da Radio-Orient, que assumiu na véspera da sua chegada ao poder em 1992, Hariri fundou um canal de televisão "Al-Mostaqbal", que significa "O Futuro", um título que anuncia o seu projecto político futurista. Comprou a revista com o mesmo nome "Al-Mostaqbal", publicada durante muito tempo em Paris por nacionalistas árabes que lutavam contra o colonialismo, antes de fundar um partido político com o mesmo nome cuja direcção confiou a um antigo líder comunista, Mohamad Kichleh.

Rádio Orient, uma bandeira de conveniência numa zona sem lei

Primeira rádio comunitária de língua árabe da Europa continental e, devido à sua localização, a primeira rádio de língua árabe da Europa, a Radio-Orient, a transmitir a partir de Paris, meio de comunicação offshore por excelência, constituiu durante muito tempo um pavilhão de conveniência numa zona de impunidade, um resumo da história da comunicação e das relações triangulares de subordinação entre Paris, as monarquias petrolíferas do Golfo e o bilionário libanês-saudita.

A Radio Orient assegurava assim a retransmissão da oração de sexta-feira em directo de Meca, incluindo o sermão do pregador do islamismo rigorista wahabita, destinado ao seu público muçulmano em França; um privilégio exorbitante, incompatível com o princípio da laicidade que rege a vida pública do único país do mundo que se reivindica deste princípio.

Sem se preocuparem com considerações morais, os países ocidentais há muito que tinham cedido aos encantos discretos dos petrodólares e, por uma mão-cheia de dólares, tinham vendido a sua alma.

Sobre este ponto, veja este link: https://www.madaniya.info/2018/02/02/europe-islam-djihad-pour-une-poignee-de-petrodollars-l-europe-a-vendu-son-ame-1-2

No entanto, a batalha no plano simbólico não terminará aqui. Rafic Hariri ocupará as primeiras páginas dos principais jornais libaneses que marcaram gerações de militantes nacionalistas no último quarto do século XX: «Saout Al-Ourouba», a voz do arabismo, órgão do partido Najjadé de Adnane Hakim, jornal mítico da juventude muçulmana de Beirute, cujo lema «o petróleo dos árabes deve voltar para os árabes» soava como uma repulsa à política energética dos amigos de Hariri, os monarcas petrolíferos do Golfo pró-americanos. O bilionário libanês-saudita também se apoderará do jornal «Al-Hoda» e de um diário de língua francesa, «Le Matin».

Estes três títulos não são publicados, mas constituem uma espécie de reserva estratégica. A sua colocação em circulação deveria ser decidida em função das necessidades da sua política, nomeadamente na hipótese de se impor a necessidade de ampliar o seu poder de fogo face aos seus detractores ou ainda para agraciar com uma sinecura um servo zeloso distinguido com o cobiçado título de director de jornal. Para além da satisfação de um clientelismo de boa qualidade, a posse de uma licença de um jornal de língua francesa respondia, no entanto, a um objectivo eminentemente político: fazer pesar o risco de concorrência sobre o «Orient-Le Jour», num mercado exíguo, e levá-lo a transigir.

Este jornal, com uma tiragem modesta que nada tem a ver com a sua notoriedade, considera-se o grande diário francófono do Líbano e de todo o Oriente Árabe. Nessa qualidade, beneficiou durante muito tempo de uma subvenção dissimulada da França, sob a forma de fornecimento gratuito de papel de jornal, a título de apoio à Francofonia. «Le Matin», trunfo secreto de Rafic Hariri, bem como o isco que representava o apoio de Hariri à candidatura presidencial do director do jornal, Michel Eddé, eterno candidato à magistratura suprema, será, na verdade, o seu principal argumento para obrigar a burguesia empresarial cristã francófona e francófila a selar uma parceria política e eleitoral com o bilionário libanês-saudita e a entronizá-lo no círculo político.

Sempre no plano simbólico e, sem dúvida, por inclinação para os seus amores de juventude, o movimento dos nacionalistas árabes de Georges Habbache, de quem foi simpatizante em Saida (Sul do Líbano), contribuirá para a aquisição, por um dos seus próximos, o Sr. Abdel Karim Khalil, da revista «Al-Hadaf», porta-voz da organização marxista da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), durante muito tempo dirigida por um dos líderes palestinianos mais mediáticos, o poeta Ghassane Kanafani. Mesmo o prestigiado jornal «Al-Nahar», há muito porta-voz da intelectualidade árabe liberal, não resistiu à atracção de Hariri.

Artífice da revolução editorial que deu origem ao jornalismo árabe moderno na década de 1960, o proprietário do «Al-Nahar», Ghassane Tuéni, antigo conselheiro diplomático do presidente Amine Gemayel, será sócio de Hariri, assim como o seu cunhado, Marwane Hamadé, um dos membros mais activos dos governos Hariri.

Em 2002, no entanto, Hariri cedeu as suas participações no «Al-Nahar» ao príncipe libanês-saudita Walid Ben Talal, que lhe disputava a liderança sunita de Beirute devido à sua filiação com o antigo primeiro-ministro e pai da independência libanesa, Riad el-Solh.

Outros títulos gloriosos da imprensa libanesa, que foram na sua época porta-vozes da coligação palestino-progressista durante a guerra do Líbano, mostraram-se posteriormente receptivos às suas tentativas de sedução e a subsídios mais ou menos directos, nomeadamente o «Al-Charq» e o «Al-Liwa».

Procurando, sem dúvida, neutralizar as oposições, o antigo primeiro-ministro alargou o seu alcance, como atesta o organograma do seu império mediático.

Os nomes das grandes famílias muçulmanas figuravam ali ao lado de antigos membros das Forças Libanesas (milícias cristãs), como Rima Torbey, ou de antigos militantes marxistas, como Nassir al-Assaad e Tony Francis. No topo da pirâmide encontravam-se, no entanto, os representantes da alta burguesia muçulmana, nomeadamente Assaad Mokaddem, antigo diplomata na Liga Árabe, e Mohamad Al-Samak, veterano do jornalismo pró-saudita, antigo conselheiro político do ex-primeiro-ministro Saëb Salam e membro do diálogo islâmico-cristão, bem como Nihad Al-Machnouk, sobrinho de um antigo líder nacionalista de Beirute, ou ainda Nadim Al-Mounla, presidente da «Future T.V.».

Este canal serve de ponto de chegada para antigos militantes reconvertidos ao realismo político, como Paul Chaoul, e para antigos sindicalistas, como Issam Jurdi, sem falar no cargo de porta-voz da SOLIDERE, que se pretendia a montra do império imobiliário de Hariri, que ele confiará, paradoxalmente, a um jornalista com um percurso conturbado, Rached Fayed, de quem, no entanto, o afastou quando o jornal «Le Monde» denunciou, num artigo estrondoso publicado em Julho de 1998, «as estupidezes forçadas dos visitantes de todos os quadrantes» registadas no boletim trimestral do grupo Solidere, numa altura em que o Líbano enfrentava «uma catástrofe patrimonial num contexto de especulação e de dinheiro branqueado».

Da Télé Liban ao canal «Al-Mostaqbal»: da pilhagem ao mecenato

Num país atingido pela amnésia na sequência de quinze anos de guerra entre facções (1975-1990), cujos arquivos nacionais foram saqueados — quer se trate do Museu Nacional, da Biblioteca da Universidade Libanesa ou mesmo dos arquivos da Segurança Geral —, os centros de documentação dos órgãos de imprensa tornaram-se o local privilegiado para a preservação da memória.

Amputado da sua segunda metade por quinze anos de guerra, o libanês viveu a guerra numa espécie de amnésia parcial, amnésico da outra metade do Líbano, amnésico do passado do Líbano, amputado daquilo que constituía a sua consciência nacional.

Promovidos ao estatuto de memória viva do Líbano, os jornais, nomeadamente os mais antigos e os mais bem estruturados, como o «An-Nahar» da família Tuéni e o grupo «As-Sayyad» de Saîd Freyha, publicaram, no final da guerra, luxuosos álbuns fotográficos, muitas vezes de qualidade, de tom nostálgico, com alcance pedagógico e finalidade mercantil, numa operação que pode resumir-se nesta fórmula: a lacrimalidade memorial ao serviço da caixa registadora de jornais, muitas vezes à beira da apoplexia financeira.

O acervo documental da Télé-Liban, o maior arquivo áudio-visual de um dos meios de comunicação mais antigos do Médio Oriente, constituía, nesse sentido, um verdadeiro tesouro de guerra. Hariri apoderou-se desse espólio, deitando assim a mão a um importante património documental (imagens e som), histórico e afectivo, da nostalgia libanesa do período pré-guerra.

O bilionário adquiriu 49% das acções da Télé-Liban, a televisão oficial libanesa, pelo valor de cinco milhões de dólares.

Dispôs assim, durante três anos, de uma tribuna duplamente oficial, na qualidade de chefe do governo e de empresário, accionista principal da televisão pública. Mas, para além desta infeliz confusão de papéis nos seus aspectos políticos e mediáticos, o caso revelou-se uma lucrativa operação comercial. O chefe do governo manteve, de facto, a sua presa durante o tempo necessário à duplicação dos arquivos da televisão pública libanesa, antes de a devolver, como generoso mecenas, ao Estado, poupando-se, sob o pretexto da beneficência, ao pagamento de substanciais direitos de autor.

Perante a pressão parlamentar, o Sr. Hariri teve de devolver ao Estado a sua participação pelo valor de oito milhões de dólares, embolsando, de passagem, uma mais-valia de três milhões de dólares, com a vantagem adicional de ficar com todo o acervo documental deste canal, que os seus colaboradores duplicaram durante os três anos em que o seu patrão foi o proprietário.

Uma verdadeira arte da dissimulação, a pilhagem disfarçada de mecenato: antes de ser adquirida por Hariri, a Télé Liban detinha o monopólio exclusivo da transmissão até ao ano de 2012. Após a revenda das suas acções, a televisão pública perdeu os dois trunfos que constituíam a sua força: o monopólio da transmissão e o monopólio documental, dos quais está agora privada.

A reprodução gratuita, em nome do seu novo canal privado Future TV, do valioso acervo de arquivos do Médio Oriente constituído por trinta anos de actividades televisivas privou, além disso, a Télé-Liban de receitas substanciais a título de direitos de retransmissão.

Seja como for, a proeminência financeira e mediática do bilionário libanês-saudita, bem como o comportamento evasivo do seu sucessor, o seu filho mais novo Saad, durante a guerra destrutiva de Israel contra o Líbano, em 2006, que lhe valeu a alcunha de «escondido» de Beirute, serão, no entanto, de pouco peso face à contestação dos seus adversários, os meios de comunicação que gravitam na órbita do Hezbollah, cuja credibilidade retira a sua força da fiabilidade do seu líder, Hassan Nasrallah, artífice de duas gloriosas vitórias contra Israel, a retirada militar israelita do sul do Líbano, em 2000, e a sua resposta balística vitoriosa no interior estratégico de Israel durante a guerra de 2006, bem como «Al Mayadeen», o canal fundado por Ghassane Ben Jeddo, um jornalista libanês-tunisino, constituído por dissidentes do canal do Qatar «Al Jazeera».

 

Fonte: Radio Orient, fleuron de l’empire du clan Hariri, sous contrôle d’un holding des Émirats Arabes Unis – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice