Retrospectiva do 11 de Setembro de 2001 (René Naba)
22 de Setembro de 2026
Robert Bibeau
Par René Naba. Sur Manhattan Transfer: Au cœur du sanctuaire américain – En point de
mire
Retrospectiva do 11 de
Setembro de 2001, dez anos depois
“O Islão não assusta porque é próximo e
essa proximidade desperta fantasmas?
É um « outro » à
parte, nascido da mesma matriz abraâmica, arauto do mesmo monoteísmo revelado
que, ao longo dos séculos, não deixou de pôr absolutistas em concorrência ao
redor do Mediterrâneo e das suas margens. É capaz do mesmo totalitarismo
messiânico de que a cristandade se tornou culpada na sua época e que hoje se
encontra em Israel, e tem uma pretensão – muito familiar aos Ocidentais – de
fornecer às regiões onde é predominante uma espécie de universal de
substituição que tira a sua legitimidade do campo religioso. Após um lento
processo de secularização, a Europa cristã trocou o messianismo evangélico pelo
do progresso. Em terras de Islão, o processo mal começou (…) Os Ocidentais
medem o poder de tais mobilizações messiânicas (…) Não é certo, infelizmente,
que o bombardeamento do Afeganistão as neutralize.”
«As belas palavras do
Ocidente»(«Les belles paroles de l’Occident»), Libération, 24 de Outubro de
2001, Sophie Bessis, autora de uma notável crítica ao modelo ocidental de
civilização (O Ocidente e os outros. História de uma supremacia/ L’Occident et
les autres. Histoire d’une suprématie,, La Découverte, Paris, 2001).
Manhattan Transfer: No
coração do santuário americano
Comparável pelo seu impacto e pelo seu
alcance simbólico ao saque de Jerusalém (1099) e de Constantinopla (1204), do
qual seria, na imaginação do fundamentalismo árabe-muçulmano, a réplica
milenar, a "terça-feira negra" americana de 11 de Setembro de 2001 não
é o detonador da primeira guerra moderna do século XXI, mas o último avatar
colonial do século XX, e as bombas humanas voadoras que atingiram os símbolos
económicos e militares da superpotência americana, -o Pentágono em Washington e
as Torres Gémeas do World Trade Center em Nova Iorque-, não eram propulsionadas
por querosene, mas por quase um século de espoliações, humilhações e
frustrações acumuladas desde a promessa Balfour.
Por mais que desagrade aos especialistas
ocidentais, o terrorismo não resulta de uma criação do nada. Também não
constitui um fenómeno sui generis. Alimenta-se das feridas e das manchas, do
beco sem saída do desespero amplificado por uma exaltação sacrificial. Nunca é
de bom grado que um adolescente no início da sua vida se cinture com dinamite
para se desintegrar numa explosão, ou que um pai de família, universitário com
estudos superiores, se dedique a um paciente treino de pilotagem aérea para
embater num edifício, por mais prestigiado que seja, por mais excitante que
seja essa perspetiva.
Tal como outros continentes, o Ocidente
também gerou monstros, como Hitler, e a defesa do «Mundo Livre» não é um
privilégio exclusivo seu. Ela também é fruto da contribuição dos povos do
terceiro mundo, asiáticos, árabes, africanos, de todas as religiões, muitos
milhares dos quais lutaram ao lado dos europeus e americanos contra as tiranias
do século XX. Neste sentido, Verdun e Monte Cassino são tanto vitórias aliadas
como vitórias árabes ou africanas.
Enquanto um prurido beligerante tomou
novamente os países ocidentais, no Afeganistão, no Iraque ou na Líbia,
alimentada pelos espectaculares e mortíferos atentados anti-americanos - que
fizeram, segundo o cômputo oficial, quase 3 000 mortos ou desaparecidos -, pode
parecer sensato lembrar que o mundo árabe-muçulmano forneceu cerca de 1,2
milhões de combatentes durante as duas guerras mundiais, dos quais 53 000
morreram nos campos de batalha do Marne e noutros lugares pela libertação da
França, o seu colonizador da época (1), e que cerca de 800 magrebinos do
«Regimento de marcha Norte-africano de Paris», pertencente à 2.ª divisão
blindada do General Leclerc, participaram na batalha pela libertação da capital
francesa (2). O mesmo aconteceu com os contingentes indo-paquistaneses
recrutados para a defesa do Império britânico.
Herdeiros da Europa e testemunhas
privilegiadas das suas desventuras, os Estados Unidos intervieram duas vezes no
século XX durante as duas guerras mundiais (1914-1918/1939-1945) para socorrer
as grandes democracias europeias antes de as superar como potência mundial,
sem, no entanto, tirar proveito dos extravios coloniais dos seus antepassados
europeus.
Sobre os escombros do colonialismo
francês e inglês, a América, apoiando as independências do Marrocos e da
Argélia na sequência da louca aventura tripartida (anglo-franco-israelita) de
Suez, em 1956, foi recebida como heroína pelos povos árabes, mas,
desrespeitando os ensinamentos da História, fundou a sua hegemonia numa colisão
com as forças árabes mais conservadoras e em alianças contra-natura com os
principais inimigos do mundo árabe, dissipando assim o seu capital de simpatia
através de uma política errática ilustrada pela luta implacável que travou
contra o nacionalismo árabe renascente.
Pior ainda, no auge da Guerra Fria, ela
instrumentalizou o Islão contra o ateísmo do bloco soviético, preparando assim
o terreno para o islamismo com a ajuda de uma parceria com a Arábia Saudita, o
país árabe mais conservador, acompanhada de uma colusão estratégica com as
potências regionais hostis ao mundo árabe, a Turquia e Israel.
Apresentada pela diplomacia americana
como uma parceria das grandes democracias do Médio Oriente, a aliança
improvável entre o primeiro estado genocida do século XX e os sobreviventes do
genocídio hitleriano foi percebida pelas populações da região como uma operação
para controlar o mundo árabe pelo antigo colonizador otomano dos árabes e pelo
usurpador israelita da Palestina, ambos promovidos, nesta circunstância, ao
papel de «cães de guarda do imperialismo americano» e beneficiando, por este
motivo, juntos, de dois terços da ajuda militar americana no estrangeiro.
Além disso, a adesão total, absoluta,
incondicional e intangível às teses mais extremas do establishment político e
militar israelita (Menahem Begin, Itzhak Shamir, Ehud Barak, Ariel Sharon e
Benyamin Netanyahou), apesar de todas as concessões árabes e palestinianas,
acabará por fragilizar consideravelmente os seus protegidos e agradecidos
árabes, por marginalizar o mundo árabe e por gerar uma profunda repulsa em
relação à América, um país que apresenta para os seus críticos a dupla
desvantagem de ser ao mesmo tempo o protector de Israel e dos regimes árabes
desacreditados.
Que os mentores dos atentados de 11 de
Setembro tenham sido recrutados, na sua esmagadora maioria, dentro da nova
burguesia saudita (quinze dos dezenove operadores eram de nacionalidade saudita)
mostra bem a cegueira política americana e o fracasso completo de uma política
baseada numa ocidentalização forçada da Arábia Saudita. Uma política
concretizada pela atribuição de um crédito anual de um mil milhões de dólares
em bolsas de estudo a 150.000 estudantes sauditas nas universidades americanas,
que visava manter uma influência cultural americana duradoura sobre o Reino
Wahhabita. No fim, acabou por reforçá-lo, paradoxalmente, no seu papel de
bastião do fundamentalismo islâmico (4).
Uma diplomacia de canhoneira e a negação
das profundas aspirações dos povos indígenas na mais pura tradição colonial
europeia acabaram por gerar uma reacção materializada pelo uso da arma do
terror num combate assimétrico que desenvolveu ao extremo uma cultura da morte
com o objectivo, tanto em Nova Iorque, como em Washington, como em
Israel-Palestina ou noutros locais, de desestruturar o adversário na falta da
sua destruição.
Esta é pelo menos uma das explicações
para o desatar de violência sem precedentes contra alvos americanos, com o
Médio Oriente primeiro, depois a África, e por fim o santuário nacional
americano (Homeland), a ter sido, nas últimas duas décadas, o palco desses
ataques: quer em Beirute, contra a chancelaria e o P.C. americanos em
1983-1984, em Khobar e Riade, contra bases americanas na Arábia Saudita em
1995, em Dar es-Salaam (Tanzânia) e Nairobi (Quénia), contra as embaixadas
americanas nas duas capitais africanas em 1998, ou ainda ao largo da costa do
Iémen, contra o navio de guerra «USS Cole» em 2000, e finalmente em Washington
e Nova Iorque em 2001.
Em nome da realpolitik, os Estados
Unidos ligaram o seu destino regional ao regime político mais antinómico do
sistema americano. Pacto fundador de uma parceria estratégica selada entre dois
países que, ainda assim, têm em comum serem co-detentores do recorde mundial de
execuções capitais, o “Pacto de Quincy” revelou-se também uma aliança
anti-natural entre uma potência que se quer a maior democracia liberal do mundo
e uma dinastia que se reivindica como a monarquia teocrática mais rigorosa do
mundo.
Concluído em Fevereiro de 1945 entre o
presidente Franklin Roosevelt e o Rei Abdel Aziz, a bordo do cruzador americano
Quincy, este pacto assegurou a estabilidade do abastecimento energético mundial
e a prosperidade económica ocidental, por vezes à custa dos interesses de
outros produtores do terceiro mundo, sem contudo dar satisfação às
reivindicações legítimas árabes, nomeadamente sobre a questão palestiniana.
Em aplicação deste pacto, que deu origem
a desvios inimagináveis, a América assumiu um papel etimologicamente
retrógrado, em negação com os valores que professa. Modelo de democracia e
liberalismo no mundo, colocou-se como «padrinho» do reino mais hermético do
planeta, opondo-se às experiências de modernização e democratização do terceiro
mundo, como aconteceu, no Irão, em 1953, durante a nacionalização das
instalações petrolíferas pelo líder nacionalista Mossadegh, no Egipto, em 1967,
contra o líder do nacionalismo árabe, Gamal Abdel Nasser, ou ainda no quintal
americano, na Guatemala, em 1954, e no Chile, em 1973, contra o presidente
socialista democraticamente eleito Salvador Allende, derrubado por uma junta
militar a 11 de Setembro de 1973, curiosamente na data de aniversário dos
atentados de Manhattan e Washington, com o apoio activo dos Americanos.
Ainda em aplicação desse mesmo pacto, a
América decretou, após a invasão do Koweit em 1990, uma mobilização
internacional contra o Iraque, praticamente aniquilando este país que já esteve
na vanguarda do mundo árabe, mantendo-o em estado de apoplexia, sob embargo
quase doze anos depois das hostilidades, alimentando assim o argumento da
parcialidade ocidental pela sua mansidão em relação a Israel, suscitando, em
contraponto, uma vontade de reabilitação dos povos árabes e muçulmanos que,
para muitos militantes islamistas, confundiu-se com uma sede de vingança.
Dom do céu para uma ínfima minoria de
dirigentes e privilegiados, o petróleo foi sobretudo uma fonte de cobiça para
os países árabes e muçulmanos e uma fonte de infortúnio para a sua população, a
ponto de, por quatro vezes numa década (1980-1990), facto único na história,
quatro armadas ocidentais terem sido enviadas ao largo do Médio Oriente para
garantir a segurança do abastecimento energético dos países ocidentais com
crude árabe, em 1982 ao largo de Beirute, durante o conflito libanês, em 1986,
ao longo do golfo árabe-pérsico durante o conflito Iraque-Irão, em 1990-1991,
contra o Iraque, e novamente em 2003, contra o Iraque.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial,
os Estados Unidos têm feito o seu posicionamento geo-estratégico de acordo com
a configuração do mapa do Almirante Harrison, desenhado em 1942, com o
objectivo de cercar todo o mundo eurasiático.
Em aplicação da “teoria dos anéis
marítimos”, articularam assim a sua presença num eixo baseado em três
posições-chave: o estreito de Bering, o Golfo Pérsico-Arábico e o estreito de
Gibraltar, com o intuito de provocar um isolamento total de África, um
isolamento relativo da Europa e de confinar num cinturão de segurança um
“perímetro insalubre” constituído por Moscovo-Pequim-Delhi-Islamabad, que
contém metade da humanidade, três mil milhões de pessoas, mas também a maior
densidade de pobreza e a maior concentração de droga do planeta.
Se a guerra do Golfo em 1990-1991
permitiu aos americanos tomar posição no coração dos principais depósitos de
petróleo do planeta, a guerra do Kosovo em 1999 permitiu-lhes estabelecer-se no
coração da Europa central, particularmente na Albânia, durante muito tempo considerada
um bastião da ortodoxia comunista.
Na linha dos seus objectivos, a guerra
do Afeganistão deverá permitir-lhes, salvo acidente, completar a sua missão,
tomando posição, pela primeira vez na sua história, no Cáucaso, colocando a
América no coração do sistema energético mundial através do seu domínio do
Golfo e do controlo das rotas de abastecimento do petróleo transcaucasiano.
Perante este primeiro grande conflito do
século XXI, a Europa, que se quer um dos pilares do terceiro milénio, viu-se
rapidamente marginalizada pelo duo anglo-americano, uma discreta pré-figuração
da «Angloesfera», a aliança Wasp (White Anglo-Saxon Protestant), cuja criação é
recomendada pelos discípulos de Samuel Huntington, o autor do «choque das
civilizações», com vista a constituir sob a égide anglo-saxónica um directório
dos países pertencentes à civilização ocidental, de raça branca (29% da
população mundial), para a liderança do «mundo livre».
A redefinição da doutrina estratégica da
NATO por ocasião do 50.º aniversário da aliança atlântica, em Maio de 1999, com
a adição dos antigos países do bloco soviético, surgiu nesse sentido como um
sinal precursor para os defensores desta tese.
Ao apoiar os Estados Unidos com a sua
garantia militar e diplomática, subestimando a sua capacidade de influência, a
Europa surge, aos olhos da comunidade internacional, como o apêndice da
América. A ponto de se colocar, com toda a brutalidade, a questão de saber se a
Europa abdicou da sua independência para se conformar com o papel de promontório
além-Atlântico da América ou se, retomando a sua antiga vocação de berço da
civilização, desenvolverá a sua própria autonomia face aos Estados Unidos,
fazendo deles uma «ilha ao largo das margens da Eurásia», para usar a expressão
do geógrafo Michel Foucher.
O Ocidente cristão pensou em purgar o
seu passivo com o judaísmo e em lhe mostrar a sua solidariedade expiatória
criando o Estado de Israel, com o objectivo de «normalizar a condição judaica
na diáspora e enraizá-la em componentes nacionais claras», segundo a expressão
do escritor israelita Abraham B. Yehoshua (7). Mas, ao mesmo tempo, ele
transformou a sua contenda bi-milenar com uma religião durante muito tempo
considerada pela cristandade como «deicida», num conflito israelo-árabe e num
conflito islâmico-judaico, em negação da simbiose andaluza.
A Alemanha, responsável pelo genocídio
judaico do século XX, a Grã-Bretanha, autora da promessa Balfour que criou um
lar nacional judeu na terra da Palestina, no coração do espaço árabe, na
intersecção entre a margem africana e a margem asiática do mundo árabe, assim
como a França pelos seus massacres coloniais massivos em terras de Islão, são
chamadas a assumir, ao lado dos Estados Unidos, um papel à altura da sua
responsabilidade anterior no nascimento do conflito israelo-árabe e na
exacerbação do sentimento anti-ocidental no mundo árabo-muçulmano.
Israel, por mais trágico que tenha sido
o sofrimento dos judeus devido às perseguições no século passado e notável a
sua contribuição para a cultura mundial, não pode ignorar o interesse que 1,5
mil milhões de muçulmanos e 1,2 mil milhões de cristãos têm em Jerusalém (8),
uma cidade que o acaso da história destinou a ser o Lugar Sagrado das três
religiões monoteístas, nem conceber a sua permanência à custa da apropriação do
povo palestiniano.
A não ser que se queira precipitar uma
nova fractura Norte-Sul ou alimentar um novo «choque dos imaginários» (9),
prelúdio de um novo conflito de civilizações, o Ocidente terá de integrar os
seus novos parâmetros nas suas relações com o mundo não ocidental, tendo em
conta o facto de que o Paquistão, a Arábia Saudita, e para além deles, todo o
mundo muçulmano, apesar de toda a sua grande boa vontade pró-americana, estão,
quanto a eles, cativos do legado de Osama Bin Laden, qualquer que seja, aliás,
o destino que tenha sido reservado ao seu antigo irmão de armas, paradoxalmente
dependentes, em parte, da sua consideração por um dos vencedores do temível
exército vermelho na guerra do Afeganistão, cujo prestígio no mundo árabe-muçulmano
só é ultrapassado pelo dos recém-chegados ao palco internacional, o libanês
Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah e duplo vencedor sobre Israel, o iraquiano
Moqtada Sadr, grande decisor da vida política iraquiana, o Hamas palestiniano
com a sua resistência corrosiva face a Israel, até mesmo o líder palestiniano
Yasser Arafat, cuja resistência obstinada no seu reduto de Ramallah
(Cisjordânia) face aos ataques das tropas israelitas do general Ariel Sharon,
levou o seu concorrente mais sério, o rei Abdullah II da Jordânia, a elevá-lo
ao estatuto de «herói do Médio Oriente de todos os tempos», projectando-o numa
dimensão heroica ao nível do mítico revolucionário latino-americano Ernesto Che
Guevara ou do derrubador do apartheid branco na África do Sul Nelson Mandela.
Cinquenta e três por cento da população
do conjunto muçulmano atribui aos Estados Unidos e a Israel a responsabilidade
pelo «fosso criado entre o mundo ocidental e o mundo árabe-muçulmano» e
considera a política americana na zona como «arrogante, provocadora e parcial»,
segundo uma sondagem do Instituto Gallup para o jornal americano «US Today»,
realizada em Dezembro de 2001 e janeiro de 2001, com uma amostra representativa
da população de nove países árabes e muçulmanos (11).
Ponto de tensão dos conflitos latentes
entre o Islão e o Ocidente, o conflito israelo-palestiniano e, de um modo
geral, o passivo pós-colonial será resolvido não pela coerção mas pela
cooperação dos vários protagonistas de um litígio que marcou o século XX para
transbordar de forma apocalíptica no novo milénio.
Notas
1-«A força negra mobilizada» cf. «Paris Noir» de
Pascal Blanchard, Eric Deroo e Gilles Manceron, Editions Hazan, Setembro de
2001, bem como «Do Bougnoule ao selvagem, viagem no imaginário francês» René
Naba (Harmattan 2002).
2-Cf: Um «crisol da nação» a reinventar: O exército
abre-se timidamente aos Beurs», Karim Bourtel, cf Le Monde Diplomatique
Setembro de 2001, bem como a revista «Islam de France» N°2-199 - «Apelo para a
criação de um memorial dos muçulmanos mortos pela França. «O Regimento de
marcha norte-africano de Paris» (RMNAP), comandado pelo tenente-coronel
Massebiau, era composto por 400 argelinos, 250 marroquinos, 250 tunisinos e 300
europeus, ou seja, 800 magrebinos entre 1.100 homens. Será dissolvido no seio
do primeiro exército francês no final do ano de 1944.
3 - Até 1999, a Turquia foi o terceiro país
beneficiário da ajuda militar americana, depois de Israel e do Egipto. Só em
1997, a ajuda americana à Turquia na guerra contra os autonomistas curdos
superou a que este país tinha recebido durante todo o período de 1950-1983 da
Guerra Fria. cf. «Os Estados Unidos entre hiperpotência e hiper-hedemonia, o
terrorismo, a arma dos poderosos» Noam Chomsky-Le Monde Diplomatique Dezembro
2001
4 - «Guerra das ondas/Guerra das religiões, a batalha
hertziana no céu mediterrânico» por René Naba (Harmattan 1998)
5- O «Pacto de Quincy», concluído no final do encontro
em Fevereiro de 1945 no cruzador americano Quincy entre o presidente americano
Franklin Roosevelt e o Rei Abdel Aziz Ibn Saoud, fundador do reino, baseia-se
em cinco pontos. A estabilidade da Arábia Saudita faz parte dos “interesses
vitais” dos Estados Unidos, que em troca asseguram a protecção incondicional do
Reino contra qualquer ameaça externa eventual. Por extensão, a estabilidade da
península arábica e a liderança regional da Arábia Saudita também fazem parte
dos «interesses vitais» dos Estados Unidos. Em contrapartida, o Reino garante a
maior parte do abastecimento energético americano, sem que a dinastia Ibn Saoud
ceda qualquer parte do seu território, sendo que as empresas concessionárias
seriam apenas arrendatárias dos terrenos. Os outros pontos dizem respeito à
parceria económica, comercial e financeira saudita-americana, bem como à não
ingerência americana em questões de política interna saudita. cf. Richard Labévière «os dólares do terror».
6 – «Guerra das ondas.. » R.Naba op. citada.
7-«a questão judaica colocada ao mundo», cf.
Libération 29 de Novembro de 2001, assim como «por uma normalidade judaica» -
Edição Liana Lévi 1992.
8- Para uma população de seis mil milhões de pessoas,
a distribuição das religiões é a seguinte: Muçulmanos 19,5 por cento, Católicos
18,46 por cento, Hindus 14,03 por cento, Protestantes 9,14 por cento, Budistas
5,87 por cento, Ortodoxos 3,25 por cento, religiões chinesas 2,58 por cento,
Animistas 1,63 por cento, Agnósticos 1,49 por cento, Ateus 4,27 por cento (Fonte
«povos do mundo» - Libération sábado 19-domingo 20 Agosto 2000).
9- A expressão é do islamólogo franco-argelino Mohamad
Arkoune, professor emérito da Sorbonne. Conferência na Universidade de Balamand
(Líbano) na qual defende uma revisão fundamental das percepções tanto do mundo
ocidental como do mundo muçulmano, com o objectivo de «fazer dos acontecimentos
de 11 de Setembro de 2001 um +advento+». Jornal «l’Orient-le Jour» de 16 de
Abril de 2002.
10- «A dimensão heróica de Yasser Arafat nas telas das
televisões árabes». Cf. despacho da AFP de 14 de Abril de 2002 que retoma a
declaração do Rei Abdullah II da Jordânia à cadeia americana CNN feita na
quinta-feira, 11 de Abril de 2002, após as conversações do Monarca Haxemita em
Amã com o secretário de Estado Colin Powell, qualificando Yasser Arafat como
«herói do Médio Oriente de todos os tempos». O despacho relata ainda que o Sr.
Arafat é frequentemente qualificado pelos manifestantes árabes como «Saladino»,
em referência ao vencedor dos Cruzados, ou ainda a Omar Ibn Khattab, em
referência ao segundo Califa do Islão que recebeu as chaves de Jerusalém.
11- A sondagem do Instituto Gallup foi realizada com
uma amostra de 9.924 pessoas provenientes de 9 países árabes e muçulmanos
(Arábia Saudita, Jordânia, Kuwait, Líbano, Marrocos, Paquistão, Turquia, Irão e
Indonésia), representando metade da população de todo o mundo árabe-muçulmano.
Publicada em 3 de Março de 2002 pelo jornal «Al-Qods A-Arabi» de Londres,
apresenta os seguintes dados: 77 por cento dos entrevistados consideram os
bombardeamentos americanos contra o Afeganistão «moralmente injustificáveis»,
contra 9 por cento que lhes encontram uma justificação. 53 por cento julgam a
política americana «parcial, provocadora, anti-árabe e anti-muçulmana» e consideram
que os Estados Unidos e Israel são «responsáveis pelo fosso que separa o mundo
ocidental do mundo árabe-muçulmano». Além disso, a maioria dos inquiridos
duvida que as operações tenham sido realizadas por árabes, 18% culpam «os
círculos ocidentais» pelos ataques de 11 de Setembro às cidades americanas. As
opiniões mais favoráveis à América foram registadas no Líbano (41%) e na
Turquia (40%), seguidas pelo Kuwait (28%) e pela Indonésia (27%). A Jordânia e
o Marrocos empatam em quinto lugar (22%), seguidos pela Arábia Saudita (16%),
pelo Irão (14%) e pelo Paquistão (5%). 58% dos inquiridos expressaram opiniões
hostis ao Presidente George W. Bush.
Fonte: Retour
sur le 11 septembre 2001 (René Naba) – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua
Portuguesa por Luis Júdice