quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Greve da Airbus: A classe operária só pode vencer libertando-se de uma vez por todas da camisa de força sindical!

 


Greve da Airbus: A classe operária só pode vencer libertando-se de uma vez por todas da camisa de força sindical!

 

Desde 25 de Agosto, os funcionários da Airbus em Espanha estão em greve "sem prazo definido" devido à deterioração das condições de vida e de trabalho, após rejeitarem — num referendo — um acordo inicial negociado entre os sindicatos e a gestão da empresa.

Esta greve contrasta fortemente com mobilizações anteriores. Primeiro, desenrola-se num contexto de intensificação da luta de classes em Espanha, impulsionada principalmente por baixos salários, insegurança no emprego, aumento do custo de vida e deterioração das condições de trabalho. Só nos primeiros sete meses de 2026, o número de greves já ultrapassou o total de 2025 — apesar dos esforços inconfessáveis dos sindicatos, que preferem negociar acordos vergonhosos de racionalização salarial com a burguesia, como se viu na Zara ou na Primark. É preciso recuar até 2012 para encontrar um nível semelhante de agitação industrial — um período marcado por uma grave crise económica e pelas drásticas medidas de austeridade que afectaram duramente a classe operária. (1) Naquela altura, a burguesia espanhola (PSOE socialista e PP conservador), encurralada, procurou reactivar a economia comprimindo os salários dos operários ao limite: reformas laborais destinadas a facilitar os despedimentos e a priorizar acordos ao nível das empresas em detrimento dos sectoriais; a natureza "flexível-precária" do trabalho (proliferação de contratos de curta duração); cortes nos salários e pensões; uma idade de reforma aumentada; e aumentos de impostos indirectos, juntamente com uma redução da segurança social. Algumas consequências dessa crise persistem hoje, nomeadamente sob a forma de salários mais baixos e uma explosão de emprego precário. (2) Para o operário espanhol, a vida diária continua a ser uma provação, e os operários da Airbus não são excepção.

Esta greve eclodiu devido a exigências económicas, como refere o jornal espanhol Público:

A disputa entre a Airbus e a sua força de trabalho começou com negociações salariais mas, em poucas semanas, expandiu-se para abranger outros aspectos das condições de trabalho. Os operários exigem um aumento salarial para restaurar o poder de compra perdido nos últimos anos (...) O trabalho remoto é outro grande ponto de discórdia. A empresa planeia reduzir este acordo de dois dias por semana para um — uma medida que a equipa rejeita, argumentando que altera os termos previamente acordados. Os assalariados também exigem maior flexibilidade no agendamento dos tempos de folga, a reintegração dos bónus retidos durante a baixa médica e uma revisão dos mecanismos de monitorização do absentismo (...) A estas exigências juntam-se os apelos por melhorias nas cantinas, transportes públicos, rotas e horários, bem como questões relativas à carga de trabalho nas instalações de Cádiz e à actualização das classificações de emprego. Os sindicatos também procuram garantias relativamente ao 'Projeto Bromo' — uma iniciativa para integrar actividades específicas relacionadas as instalações da Airbus, Leonardo e Thales— para garantir que qualquer reorganização salvaguarde os salários, a antiguidade, as condições de trabalho e os direitos de representação dos operários afectados. (3)

O que torna este conflito único é que a greve selvagem rapidamente saiu do controlo das principais lideranças sindicais. A 23 de Julho, numa tentativa de apertar o controlo de gestão sobre a força de trabalho e pôr fim às greves iniciadas a 1 de Julho, a direcção da Airbus e os principais sindicatos colaboracionistas (CCOO, SIPA e ATP)(4) negociaram um acordo que equivalia à capitulação; Isto foi rejeitado pela grande maioria dos operários, pois não respondia a nenhuma das suas reivindicações iniciais. Para defender a sua causa junto da empresa, os operários começaram a realizar assembleias gerais regulares no final de Agosto — independentemente dos sindicatos tradicionais, a maioria dos quais se opunha à continuação da greve e apelava ao regresso imediato ao trabalho. Foi posteriormente eleito um comité de greve, composto por membros sindicais da UGT (socialista) e CGT (sindicalista revolucionário), bem como operários não sindicalizados — que lideraram o protesto através dos canais do Telegram. (5)

O movimento de greve espalhou-se rapidamente por várias instalações da empresa, e alguns sindicatos ameaçaram estendê-lo a instalações em França. Perante esta perda de controlo por parte da burguesia e dos seus principais sindicatos — à medida que os operários nas assembleias gerais(6) rejeitavam sucessivamente todas as suas propostas — o governo socialista procurou quebrar a greve actuando como "mediador". No jargão capitalista, que visa obscurecer o antagonismo de classes, "mediador"(7) implica posicionar-se acima dos interesses de ambos os grupos para alcançar um acordo ao serviço do interesse "geral". Na realidade, isto não significa mais do que servir os interesses da burguesia ao enganar o proletariado. Foi precisamente isto que o governo de esquerda de Pedro Sánchez fez: a gestão da empresa propôs um novo acordo — apresentado como mais alinhado com as reivindicações dos operários do que as anteriores — mas mesmo assim não respondeu às exigências centrais dos grevistas. Consequentemente, o acordo foi novamente rejeitado pela maioria dos operários. (8)

Perante estes reveses sucessivos, os capitalistas empregaram uma táctica diferente: após o período de negociações, procuraram desgastar o movimento. Deixaram de negociar, recusaram-se a fazer quaisquer concessões aos grevistas e assinaram o acordo apesar da forte oposição — apenas para fragmentar o movimento ao aproveitar o apoio dos sindicatos "dissidentes". E, naturalmente, resultou: a UGT, inicialmente parte da greve, rapidamente pediu o regresso ao trabalho(9); a CGT seguiu o exemplo, considerando necessário "suspender" a greve com o argumento de que não poderiam ser extraídos mais ganhos da empresa. (10) Embora a força de trabalho tenha votado por uma margem estreita para continuar a greve, as operações foram agora retomadas na maioria das instalações (Tablada em Sevilha, Illescas em Toledo, El Puerto de Santa María em Cádiz e Albacete). No entanto, a "extrema-esquerda do capital" — os trotskistas na linha da frente — prometeu-nos que as coisas mudariam com o sindicalismo de base, que supostamente era "orientado para o protesto" e "democrático". Como sempre, a história dá o veredicto final, e assim foi aqui.

Independentemente da corrente política de qualquer liderança sindical — quer se apresentem como defensores apolíticos da negociação e do diálogo social, quer como revolucionários convictos — o sindicalismo tornou-se um instrumento reaccionário encarregado de negociar o preço da força de trabalho, em detrimento de qualquer acção colectiva genuína. Quando os sindicatos apelam ao regresso ao trabalho, não estão a trair a sua função; pelo contrário, estão a cumpri-lo plenamente: actuando como cães de guarda da burguesia e gerindo a força de trabalho ao serviço dos interesses capitalistas.

Já em Dezembro de 1918, durante a vaga revolucionária na Alemanha, Rosa Luxemburgo denunciou o papel claramente contra-revolucionário dos sindicatos social-democratas:

(...) Os sindicatos oficiais mostraram-se uma organização estatal burguesa e uma organização da classe dominante capitalista. É por isso que é óbvio que a luta (...) tem de priorizar as considerações sobre a liquidação destes obstáculos(11)

A Esquerda Italiana, na tradição do Partido Comunista Internacionalista (PCInt) fundado em 1943, desenvolveu ainda mais esta posição: não é esta ou aquela organização sindical específica que é contra-revolucionária, mas sim o próprio sindicalismo, devido à sua progressiva integração no aparelho estatal na era do monopólio e do capitalismo imperialista. Assim, declarámos na nossa Plataforma de 1952:

O partido afirma categoricamente que, na fase actual da dominação totalitária do imperialismo, os sindicatos são uma ferramenta indispensável dessa dominação, na medida em que até perseguem objectivos que correspondem aos interesses da burguesia para a sua própria preservação e guerra. Portanto, o partido rejeita a perspectiva falsa de que estas organizações poderiam, no futuro, cumprir uma função proletária, de modo que o partido teria de mudar de posição e adoptar uma postura de conquistar posições dentro da sua liderança.(12)

Já não é possível reconquistar os sindicatos; A revolução não será alcançada com estas organizações, mas contra elas: esta é a lição da história que todo revolucionário deve ter em mente durante a luta.

Esta greve marca um ressurgimento — ainda que incerto e confinado a um único sector — da luta proletária em Espanha; uma luta que, mais cedo ou mais tarde, voltará a surgir como uma fénix, impulsionada pela crise do capital, pela marcha rumo à guerra e pelas condições de vida e trabalho deterioradas do proletariado. Embora isto possa actualmente parecer uma esperança distante, estamos a trabalhar — dentro dos limites das nossas capacidades — para torná-la realidade.

Acima de tudo, no entanto, este conflito ilustra até que ponto a Esquerda e os sindicatos representam um perigo para a classe operária. Sabotar a luta é apenas uma das muitas malfeitorias cometidas por estes lacaios da burguesia. Desde que assumiu o governo, o governo espanhol — apoiado por um segmento da extrema-esquerda e aclamado como modelo por toda a Esquerda Europeia (incluindo as suas fracções supostamente radicais) — tem seguido uma política ferozmente anti-proletária que rivaliza com a dos seus predecessores. Julguem vocês próprios.:

·         No primeiro trimestre de 2025, os salários reais mantiveram-se 4,2% abaixo do nível do primeiro trimestre de 2021. Em 2022, o salário mediano real era aproximadamente o mesmo de 2008, tendo caído cerca de 0,5% nesse período. (13)

·         A reforma laboral de 2012, adoptada pelo governo conservador, foi em grande parte mantida, assim como a reforma das pensões de 2011, que elevou a idade de reforma para 67 anos. (14)

·         Os empregos precários continuam a ser generalizados no mercado de trabalho. (15)

·         Centenas de milhares de operários fazem horas extra não remuneradas. (16)

·         Durante a greve dos metalúrgicos em Cádis em 2021, o governo mobilizou a polícia de choque para reprimir os protestos, detendo vários grevistas. (17)

·         Um quarto da população espanhola continua em risco de pobreza ou exclusão social. (18)

Isto resulta da política seguida pelas duas principais confederações sindicais, CCOO e UGT, que têm consistentemente procurado negociar com o governo e substituir a acção colectiva por "diálogo social", "concertação" e outros disparates semelhantes. Estas organizações são marcadas por uma longa história de colaboração de classes, tendo apoiado todas as piores políticas anti-operárias desde o regresso à democracia em 1975. (19) O governo e os sindicatos estão de guarda, prontos para fazer tudo o que for preciso para evitar qualquer ressurgimento da luta de classes.

Esta política de consulta foi abalada pela greve selvagem na Airbus, embora apenas parcialmente. De facto, esta luta enfrenta limitações significativas: um segmento da classe operária ainda deposita a sua fé nas organizações sindicais quando estas afirmam representar os operários e professam oposição ao capitalismo; a luta espalhou-se por linhas corporativistas — estendendo-se a outras instalações da empresa — em vez de se generalizar por diferentes sectores económicos ou a empresas sub-contratadas. Uma luta isolada de outros sectores da classe operária, centrada em reivindicações puramente sectoriais, está condenada ao fracasso; a força do proletariado reside, pelo contrário, em afirmar a sua unidade e independência de classe. O fracasso da greve na Airbus — com o regresso ao trabalho imposto pelos sindicatos de base — demonstra a futilidade da estratégia de greve sectorial.

Tal como durante os "anos selvagens" das décadas de 1960 e 70, os operários devem regressar aos métodos de luta baseada em classes: a formação de comités de greve independentes e autónomos e assembleias gerais; e luta aberta contra os sindicatos e partidos burgueses — tanto de esquerda como de direita — que procurarão canalizar e conter o movimento e impedir a sua extensão geográfica da greve a outras empresas e a generalização da luta a todos os sectores. Só por estes meios o proletariado poderá finalmente libertar-se das correntes da opressão e da exploração capitalista. Para garantir que estes episódios de luta não sejam apenas efémeros e que comece uma nova fase revolucionária, é essencial que todos os que compreendem a trajectória do capitalismo, e a sua crise insolúvel, se unam para demonstrar que este sistema não tem futuro e que a classe operária deve organizar-se no seu partido de classe – o partido internacional do futuro.

Xav
Grupo Revolucionário Internacionalista
15 de Setembro de 2026

Notas:

Imagem: Samu (CC BY 2.0), commons.wikimedia.org

(1) diariosocialista.net e diariosocialista.net

(2) pmc.ncbi.nlm.nih.gov

(3) publico.es

(4) A CCOO é um sindicato estalinista próximo do Partido Comunista Espanhol (PCE); os outros dois sindicatos são entidades corporativistas.

(5) elplural.com e france3-regions.franceinfo.fr

(6) diariosocialista.net ; insurgente.org e 20minutos.es

(7) elcorreo.com

(8) larazon.es e lavozdelsur.es

(9) cadenaser.com

(10) infodefensa.com e eleconomista.es

(11) Rosa Luxemburgo no Congresso fundador do KPD. Ver: rosalux.de

(12) leftcom.org

(13) oecd.org

(14) oecd.org

(15) oecd.org

(16) rtve.es

(17) europapress.es

(18) ine.es

(19) tandfonline.com e revistas.ucm.es

Terça-feira, 22 de Setembro de 2026

 

Fonte: Airbus Strike: The Working Class Can Only Win by Freeing Itself Once and For All From the Union Straitjacket! | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




A Rússia responde aos europeístas que alegam preparar a guerra (vídeo 2’50)

 


A Rússia responde aos europeístas que alegam preparar a guerra (vídeo 2’50)

24 de Setembro de 2026 do

https://mai68.org/spip3/spip.php?article8021

 


 

A resposta mordaz de Putin

Gravado na franceinfo a 19 de Setembro de 2026 às 12:01.

Clique no link para ver o vídeo

https://mai68.org/spip3/IMG/mp4/Poutine_FI_19sept2026_12h01.mp4

Putin: Alguns líderes europeus declaram abertamente que se estão a preparar para uma guerra contra a Rússia. Na minha opinião, estão simplesmente a tentar salvar as suas classificações de popularidade em queda, encobrindo os seus erros na política económica e social."

Pode encontrar este artigo e comentar aqui:

https://mai68.org/spip3/spip.php?article8021

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Operação "Libertar Jacques Baud"

Jacques Baud foi sancionado pela União Europeia por dizer a verdade ao poder. Ele merece o apoio de todos os defensores da liberdade em todo o mundo.

As sanções contra Jacques Baud "preveem o congelamento dos bens das pessoas sancionadas, a proibição da entrada no território da UE e a proibição de disponibilizar fundos para elas".

Pode encontrar este artigo e comentar aqui:

https://mai68.org/spip3/spip.php?article8015

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Palestina – Líbano – Nunca esqueceremos Sabra e Shatila!

CAPJPO-EuroPalestina, 17 de Setembro de 2024:

Há exactamente 42 anos, entre 3.500 e 5.000 refugiados palestinianos e libaneses foram massacrados por milícias cristãs libanesas, as Falanges, uma milícia maronita pró-Israelita, com o apoio do exército israelita.

Pode encontrar este artigo e comentar aqui:

https://mai68.org/spip3/spip.php?article1312

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Líbano 1982, raio-X de um massacre (vídeo 53'18)

LCP – – TV Filmes – 2022 – Vídeo 53 min 17 s

O massacre de Sabra e Shatila, cinco dias e quatro noites de terror extremo no Líbano, em Setembro de 1982, contra mulheres, crianças e refugiados palestinianos idosos em dois campos em Beirute, é uma monstruosidade histórica. Quarenta anos depois, nunca houve qualquer julgamento, nem condenação; apenas comissões de inquérito falhadas. E, no entanto, este massacre mudou a face do Médio Oriente. Através do prisma das testemunhas directas dos acontecimentos de 1982, do seu olhar, das suas memórias, do seu compromisso, este documentário regressa ao coração de Sabra e Shatila. Pela primeira vez, arquivos desclassificados – em Israel e no Líbano – permitem dizer exactamente porquê e como estes cinco dias decorreram. Decifrando e radiografando, sob a forma de uma investigação histórica, este evento dramático de Sabra e Shatila.

Vídeo: https://mai68.org/spip3/spip.php?article7615

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Líbano – Hezbollah – O Massacre dos Pagers

 

Há mãos mutiladas que, apesar de tudo, voltaram a ter uma das suas funções essenciais: «Resistir ao invasor»

Roland RICHA, 18 de Setembro de 2026:

O que aconteceu no Líbano a 17 de Setembro de 2024 foi inimaginável... em horror. Foi cometido um crime em massa durante alguns segundos. O auto-proclamado "exército mais moral do mundo" incapacitou 20 cidadãos libaneses e feriu outros 3000, desfigurando-os para sempre.

O acto foi executado por ordem do próprio chefe genocida. Num instante, tudo mudou. Dispositivos portáteis explodiram na cara de milhares de indivíduos... um massacre, o dos "Pagers".

Pode encontrar este artigo e comentar aqui:

https://mai68.org/spip3/spip.php?article8013

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A extrema-direita afirma que « Georges Guingouin nunca resistiu antes da ruptura do pacto germano-soviético »

A arte de usar a IA consiste em já saber muitas coisas e em lhe fazer as perguntas certas. Esta conversa trata da Segunda Guerra Mundial, de quem devemos a vitória sobre o nazismo, e termina na Guerra na Ucrânia (poderá ficar surpreendido com a resposta da IA do Google sobre a guerra na Ucrânia!).

 

Pode encontrar este artigo e comentar aqui:

https://mai68.org/spip3/spip.php?article7996

Tudo de bom para vós,
https://mai68.org/spip3

 

Fonte: La Russie répond aux européistes qui prétendent préparer la guerre (vidéo 2’50) – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice





Sobre uma nova publicação revolucionária: Communist Prometheus

 


Sobre uma nova publicação revolucionária: Communist Prometheus

24 de Setembro de 2026 Robert Bibeau


Pelo Grupo Internacional da Esquerda Comunista (GIGC). Em  Révolution ou Guerre – Révolution ou Guerre;   https://igcl.org/-Revolution-ou-Guerre-   No. 34, Setembro de 2026.

La revue Révolution ou Guerre, No 34 est disponible
en format PDF et WORD : rg34-format Word ; rg34

A leitura do primeiro número da revista Communist Prometheus[1] (CP) veio confirmar as nossas primeiras impressões após as correspondências e discussões que pudemos ter com os camaradas deste novo grupo. O facto marcante “positivo” é que a revista e o grupo de militantes que a anima defendem claramente, sem ambiguidade, que a situação histórica actual só apresenta uma única alternativa, sem qualquer outra terceira via: revolução proletária mundial ou guerra imperialista generalizada – uma terceira guerra mundial. E perante a guerra imperialista, eles «estendem» o internacionalismo proletário até ao «derrotismo revolucionário»[2]. »

O Manifesto[3] que os camaradas adoptaram como «documento programático» não apresenta de forma sistemática as posições de princípio do grupo, como faria uma plataforma política. No entanto, grande parte das fronteiras de classe defendidas pela Esquerda comunista são mencionadas… excepto as relativas aos sindicatos e à natureza de classe burguesa do trotskismo [4]. Nada é dito sobre os sindicatos. Obviamente, os camaradas não poderão permanecer em silêncio sobre a natureza de classe dos sindicatos hoje, nem que seja porque querem intervir com um mínimo de coerência nas lutas operárias.

Na verdade, a dificuldade e o objectivo de qualquer novo agrupamento de revolucionários – o mesmo se aplica aos militantes individuais – é reapossar-se do legado histórico da Esquerda Comunista Internacional e, se possível, inserir-se na tradição da Esquerda Comunista de Itália. Para isso, é importante romper da forma mais clara possível com todas as formas políticas e ideológicas do esquerdismo. Essa é a orientação que, da nossa parte, temos defendido junto dos camaradas desde o início dos nossos contactos. «Não pode haver atalhos e a adopção das posições revolucionárias não pode ocorrer, depois de toda uma experiência esquerdista (...) sem que se tenha feito um balanço crítico e uma ruptura política clara e profunda. É precisamente durante este balanço e este processo de ruptura que poderão adoptar com total clareza política as posições revolucionárias e fazer vosso o legado da Esquerda Comunista», escrevíamos-lhes em Janeiro de 2026.

Ora, deste ponto de vista, parece-nos que o primeiro número da revista não responde totalmente a esta exigência. A ruptura com o esquerdismo é, no mínimo, insuficiente, como vamos tentar demonstrar. Uma das consequências políticas imediatas é que os membros do grupo, em ruptura organizacional com o grupo esquerdista italiano Lotta Comunista, não consideraram útil pronunciar-se primeiro sobre as plataformas e programas defendidos pelos grupos actuais da Esquerda Comunista antes de adoptarem o seu próprio Manifesto e as suas próprias posições e de constituírem mais um grupo revolucionário. Ora, mesmo que o CP defenda um grande número de posições, ou fronteiras, de classe, a sua reivindicação assumida de uma continuidade organizacional – que passa por esta experiência de duas décadas com a Lotta – e do percurso do seu grupo de militantes desde 1998 não pode deixar de enfraquecer a base política e a coerência programática do CP, tal como a sua homogeneidade política interna. É o que ilustra a ausência de tomada de posição sobre a questão sindical.

 O editorial da revista [5] que não podemos reproduzir aqui, apresenta-nos o CP como «o resultado natural de quase trinta anos de trabalho levado a cabo pelo nosso grupo [o Grupo Marxista de Kirov]. (…) A primeira etapa foi a publicação do jornal Komsa, lançado em Junho de 1998 no contexto de uma profunda crise económica na Rússia. Ao contrário de muitos grupos ‘de esquerda’, não considerávamos 1991 como uma ‘contra-revolução burguesa’; para nós, esta já tinha ocorrido em 1925, quando o estalinismo, depois de triunfar na URSS, abandonou o caminho da revolução mundial. (…) Os princípios do internacionalismo proletário faziam parte integrante da nossa organização desde o início. É por isso que, quando o conflito inter-imperialista se intensificou em 2014 e a Ucrânia se tornou uma das suasfrentes militares, não precisámos de rever as nossas posições. (…) No momento em que uma parte importante da chamada ‘esquerda’ se afundava no chauvinismo social, defendemos incansavelmente a tese marxista clássica: o proletariado não tem pátria, e qualquer nação moderna não é senão uma casca política e económica ao serviço do capital. A tarefa da classe operária em qualquer conflito imperialista resume-se a um único princípio: o principal inimigo está em casa. (…) Hoje, a situação exige que avancemos para a próxima etapa. Como indica o Manifesto [6] publicado, a era das revoluções democráticas burguesas e dos movimentos de libertação nacional terminou definitivamente. O capitalismo encadeou definitivamente o planeta às correntes do mercado mundial, mantendo ao mesmo tempo a classe dos trabalhadores assalariados dividida. 

A publicação Communist Prometheus é ditada pela necessidade de nos empenharmos num trabalho concreto com vista à formação de um partido comunista mundial. Avaliamos as nossas forças com lucidez, não nos consideramos um partido plenamente constituído e reconhecemos que somos apenas um componente do movimento concreto que tende para isso. Nesse caminho, mantemos-nos abertos à colaboração com todas as organizações da Esquerda comunista que defendem de forma coerente as posições do marxismo e do internacionalismo proletário.

Portanto, parece acima de tudo que o novo grupo não é "novo", já que se reivindica de uma continuidade organizacional e política com o grupo russo Kirov Marxist Group [KMG], constituído em 1998. Outro artigo da revista, Searching for a Way [7] [À procura de um caminho] fornece-nos mais informações sobre o percurso do KMP até ao Communist Prometheus hoje, o que pode esclarecer a natureza e a realidade desta continuidade orgânica reivindicada. Há três momentos da história que devem ser destacados:

  •  citando o editorial do primeiro número da Komsa, Searching for a Way parece situar a origem do grupo na organização juvenil do partido comunista russo estalinista da altura, o Komsomol: «No final da era soviética [da URSS?], o termo ‘Komsa’ designava a ala rebelde e incontrolável da organização de massas do Komsomol, ou seja, aqueles que não suportavam ter de assistir a reuniões enfadonhas e todas iguais»;

  • « Em Agosto de 2000, o KMG participou na segunda conferência do Movimento por um Partido Operário (DzRP). Durante esta conferência, ocorreu uma cisão: os delegados do Partido Marxista dos Trabalhadores e da Fracção Operária do DzRP saíram do movimento; pouco depois, o KMG também se retirou da organização.. » O artigo do CP não indica que o Workers’ Party e os outros participantes nesta conferência eram na sua maioria grupos trotskistas e nada é dito sobre as razões políticas da sua « retirada »;  

  • por fim, « ao longo do inverno de 2000, a organização italiana Lotta Comunista entrou em contacto connosco. (…) Esta escolha permitiu-nos: alargar os nossos horizontes marxistas e aprofundar a nossa experiência; aceder à análise estratégica aprofundada e de longo prazo das relações internacionais conduzida pela Lotta Comunista há décadas, bem como a documentos científicos mais específicos, mas igualmente valiosos, abrangendo uma ampla variedade de questões; adoptar um modelo de trabalho organizacional sério, responsável, disciplinado e sistemático, baseado numa planificação a longo prazo[8]. »

Portanto, ao ler textos publicados, percebe-se que todo o percurso de Komsa até Communist Prometheus está ligado a organizações de esquerda e esquerdistas, ou seja, a organizações e correntes contra-revolucionárias e burguesas. Isto apresenta um problema político para qualquer agrupamento, formal ou informal, de indivíduos e militantes revolucionários. Sejamos claros, não estamos aqui a julgar as circunstâncias particulares pelas quais os indivíduos e membros atuais do CP possam ter passado ao longo da sua vida militante. Pelo que os camaradas nos disseram, não temos dúvidas sobre a honestidade e a sinceridade do seu compromisso militante. Mas o percurso pessoal e o percurso das organizações políticas devem ser distinguidos. A ruptura política e de princípio com o esquerdismo não pode acontecer sem descontinuidade e ruptura organizacional para qualquer agrupamento de militantes.

Ora, os artigos da revista não nos fornecem explicações claras, ou seja, programáticas e de princípio, sobre as motivações da sua ruptura com o estalinismo do Komsomol, os trotskistas do Workers Party ou mesmo com o Lotta Comunista. A sua ruptura com o estalinismo parece ter incidido mais sobre questões secundárias do que sobre questões de princípio, se formos pelo que apresenta o CP. Apresentada como o «período romântico da [sua] formação revolucionária» – confundindo aqui também trajectórias individuais, por um lado, e continuidade organizacional e descontinuidade de classe, por outro – o CP indica-nos quais teriam sido os supostos «princípios leninistas reconstruídos» então: a rejeição do militante de carreira (os burocratas estalinistas?); « num período não revolucionário, a política é apanágio de minorias restrictas e organizadas – as vanguardas das classes »; « o reconhecimento da necessidade de um órgão de imprensa que nos seja próprio (…) enquanto organizador » colectivo; « o facto de se posicionar como organização da classe operária mundial »; e « uma estratégia elaborada com base numa análise marxista ». Só « o Estado enquanto aparelho de violência de classe da classe dominante » pode remeter para uma questão de princípio de classe. Não é preciso dizer que muitos militantes de esquerda, incluindo estalinistas, podem fazer todos esses supostos “princípios”. Para Lotta, acontece o mesmo. Só se menciona uma única questão de princípio: « a atitude em relação ao suposto ‘Movimento de Resistência’ durante a Segunda Guerra Mundial [9]. »

Mais perigoso ainda, como vimos na citação anterior, os camaradas veem os seus vinte anos na Lotta Comunista como um momento positivo da sua evolução. « Aprendemos muito ao longo deste quarto de século, e ganhámos e formámos novos camaradas. (…) Este quarto de século não foi tempo perdido. Tornámo-nos incontestavelmente mais fortes do que éramos quando conhecemos a Lotta Comunista. É precisamente por isso que não se pode dizer que demos dois passos atrás. Continuamos a avançar. Tendo percebido que permanecer mais tempo na Lotta Comunista era incompatível com as conclusões a que chegámos (expostas no nosso ‘Manifesto’), tomámos a única decisão possível: romper as nossas relações com esta organização. » (destacamos)

A ruptura com a Lotta Comunista – assim como com o estalinismo e o trotskismo – não está feita ao nível dos princípios, pelo menos não entendida como tal. Não pode incidir apenas sobre o militância, a necessidade de uma revista «organizadora colectiva» ou outra coisa semelhante; mas sobre o facto de estes movimentos terem traído o internacionalismo proletário, com a teoria estalinista do «socialismo num só país» e a participação do trotskismo e dos antepassados da Lotta Comunista nos movimentos de resistência anti-fascista durante a 2.ª Guerra Mundial. Consequentemente, eles são total e definitivamente, enquanto correntes e organizações, passados para o campo da contra-revolução. A partir deste facto histórico, os comunistas não discutem ou debatem com eles, não «reconstroem princípios ditos leninistas» que teriam sido abandonados por estes; eles denunciam-nos e combatem-nos e apelam aos seus militantes sinceros para romper politicamente com estas organizações burguesas.

Talvez os camaradas estejam mais ou menos conscientes da fraqueza da sua ruptura tal como a apresentam: «As divergências mais profundas [com a Lotta Comunista] encontrarão expressão nas páginas da nossa revista. A polémica aberta sempre foi uma arma do marxismo, e continuaremos a utilizá-la na nossa luta.», afirma a revista. Só podemos encorajá-los a seguirem por este caminho de forma decidida, abandonando qualquer hesitação ou timidez. A ausência de um balanço crítico da sua experiência passada e de uma ruptura clara com toda forma de esquerdismo, inclusive o desta organização [10], só pode prejudicar o trabalho de reapropriação histórica que o CP e os seus membros têm de levar a cabo. A longo prazo, é toda a coerência de princípio e de programa e, com ela, a homogeneidade do grupo como tal, que ficaria prejudicada, precisamente no momento em que se anuncia o furacão histórico.

A orientação que definimos em relação aos camaradas desde o início da nossa relação não mudou. As nossas observações críticas podem parecer severas. Elas visam participar na clarificação e no agrupamento mais completo dos membros do CP dentro da Esquerda Comunista. É também por isso que, apesar das nossas críticas, saudamos e apoiamos a vontade dos camaradas de participar nos debates que atravessam o campo proletário. Não duvidamos que é também nos debates e confrontos políticos com os grupos da Esquerda Comunista que os membros do CP tomarão consciência da necessidade de uma ruptura clara e nítida com toda forma de esquerdismo. [11].

 

GIGC/IGCL, Julho de 2026


Aviso

 

 Enviámos este artigo ao Communist Prometheus antes da sua publicação para informação. Recebemos uma carta de 5 páginas a criticar fortemente a nossa posição. Apesar do pedido deles, não podemos reproduzi-la nesta edição. Tivemos em conta algumas observações específicas e mudámos algumas partes. Reservamo-nos o direito de publicar excertos na nossa próxima edição.

 


[1]. 100 páginas em russo, italiano, espanhol e inglês! (https://comprom.org/)

[2] . https://comprom.org/en/about/

 

[3] . https://comprom.org/en/manifest/

[4]. « O mais conhecido destes movimentos é o trotskismo, que atualmente nem sequer dispõe de uma teoria unificada e que degenerou ao nível de ideologias pequeno-burguesas que não vão além de certas reivindicações nacionais ou de alianças interclassistas. » Este trecho do Manifesto do Communist Prometheus não denuncia o trotskismo como corrente política burguesa e contra-revolucionária. Ele o « critica » pelos seus défices teóricos e pela sua ideologia pequeno-burguesa. Para o proletariado, os chamados « défices teóricos » do trotskismo são a marca da sua natureza hoje burguesa, portanto impossível de superar. Se se tratasse de défices teóricos, então poderiam ser ultrapassados e o trotskismo como corrente e as suas organizações ainda poderiam voltar e pertencer ao campo revolucionário.

[5] . https://comprom.org/en/blog/editorial-note/

 

[6] . https://comprom.org/en/manifest/

 

[7] . https://comprom.org/en/blog/in-search-of-the-way/

[8]. Isso significa que os membros do CP fazem um balanço positivo da sua experiência e actividade militante na Lotta Comunista.

[9]. Os desacordos apresentados pelos camaradas não dizem respeito a questões de princípio nem ao carácter burguês da Lotta Comunista: «No entanto, depois de quase um quarto de século, fomos forçados a romper as nossas relações com esta organização, porque, durante todo esse tempo, ela não conseguiu colocar uma série de questões-chave, estreitamente ligadas entre si, sobre as causas da passividade actual da nossa classe; as condições em que esta superará essa passividade; e o que deveria ser, precisamente nessas condições de classe, o modelo do próprio partido, os seus métodos de trabalho e o próprio tipo de revolucionário proletário.»

[10]. Esta organização, pouco conhecida fora de Itália – tem um grupo em França que publica o jornal L’internationaliste – «vive» do seu controlo sobre todo um aparelho sindical italiano. Ela aproveita as finanças assim obtidas para desenvolver o seu aparelho organizacional com «permanentes», ou ainda atrair militantes em exílio, fornecendo-lhes trabalho e salário, pagos graças aos fundos retirados do aparelho sindical. Um pouco como os lambertistas em França. O seu funcionamento interno e a «gestão» dos seus militantes são de caráter sectário e até «violento», se necessário. Ao mesmo tempo que se reivindica da resistência anti-fascista italiana, também se afirma como uma componente da Esquerda de Itália, o que todos as correntes e grupos provenientes do PC de Itália e da sua fracção de esquerda dos anos 1920 e 1930 rejeitam e denunciam com razão.

[11]. É por isso que publicamos a seguir uma carta crítica da parte deles sobre o nosso artigo Ou como o conselhismo, expulso pela porta, volta pela janela no nosso número anterior (cf. Révolution ou guerre #34: https://igcl.org/Les-conseils-ouvriers-et-le-parti e em Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: "Os conselhos operários e o partido de classe": ou como o conselhismo, expulso pela porta, volta pela janela). Fazemo-lo seguir da resposta que enviámos ao CP e que vai muito além, era essa a nossa intenção, do desacordo particular que os camaradas expressam sobre a «auto-organização»


Fonte: www.igcl.org 

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice