Capitalismo e Natureza
Publicamos aqui a primeira parte de um
contributo de um simpatizante do GIGC. Ele já tinha começado a trabalhar neste
texto antes do Verão, ou seja, antes de as vagas mundiais de calor atingirem a
magnitude que vivemos de forma tão abrupta desde o mês de Junho. A sua
perspicácia merece destaque. Como salienta o camarada, a deterioração dramática
e gravíssima do ambiente e do clima é uma das características e consequências
do modo de produção capitalista. Ele recorda que o marxismo, já há 180 anos –
desde 1844 –, tem vindo a destacar como o capital separa e até opõe «o Homem e
a Natureza».
A contribuição tem, portanto, o mérito
teórico de recordar como o capitalismo não pode deixar de tornar o planeta cada
vez mais inóspito para a vida humana (a). Contribui assim para munir os grupos
e militantes comunistas contra a ideologia ecologista e as organizações
políticas ditas «verdes», cujo carácter e acção de classe são totalmente
burgueses e anti-proletários. Tem também o mérito de levar todo o campo
proletário a reflectir sobre o «lugar» que os grupos comunistas — o futuro
partido — devem atribuir, na sua reflexão, propaganda e intervenção, a esta
questão em relação às outras questões com que o proletariado internacional se
depara enquanto classe explorada e revolucionária ao mesmo tempo; e, em
primeiro lugar, à questão da guerra.
A introdução estabelece, com razão, uma
ligação estreita entre a atual aceleração brutal da deterioração da natureza e
a aceleração igualmente brutal da dinâmica rumo a uma guerra imperialista generalizada.
Ambas reforçam-se mutuamente. Mas qual é a relação dinâmica — dialéctica —
entre as duas? Haverá algum que seja determinante, ou pelo menos dominante, na
definição dos cenários e momentos do antagonismo entre as classes? E, por
conseguinte, para a perspectiva revolucionária de destruição do capitalismo?
Para simplificar: contra que perigo ou perspectiva do capital é que os grupos
comunistas devem, não apenas alertar o proletariado – «os dois, capitão!» –,
mas mobilizá-lo? Basear e definir, principalmente e de forma prioritária, as
suas orientações e intervenções? Na guerra imperialista generalizada, como
defendemos? Ou então nesta e no aquecimento mundial em simultâneo, como campos
de confronto equivalentes? A questão pode parecer académica ou especulativa
para quem não se considera um militante ou uma fracção militante do
proletariado revolucionário. Mas, de um ponto de vista comunista militante,
terá implicações políticas. Já tem repercussões políticas. Colocar o problema
sem demora, debatê-lo e esclarecê-lo é também um momento da luta pelo partido
do futuro.
A
equipa de redacção, Agosto de 2026
Nota (a): ver
Revolução ou Guerra n.º 13, 2019, Lutar para «salvar o planeta» exige a
destruição do Estado capitalista e o exercício da ditadura do proletariado! (https://igcl.org/Lutter-pour-sauver-la-planete-485
)
Capitalismo
e Natureza
Introducção geral
O ar está quente – até mesmo sufocante. Após
mais um Verão marcado por temperaturas recorde, uma seca sem precedentes,
incêndios intermináveis que devastam habitats e florestas, centenas, senão
milhares, de mortos, como nos lembra o trágico exemplo do Nepal, este ano
parece ser um ponto de viragem no que diz respeito à questão climática. No
entanto, se olharmos mais de perto, isto não começou em 2026; as temperaturas
literalmente sufocantes na Índia e no Paquistão, a subida lenta mas inexorável
do nível das águas, etc., já há muito que o processo tinha começado a
desenrolar-se à vista de todos. Os primeiros alertas foram lançados na década
de 70; sem dúvida que os cientistas devem ter ouvido o eco dos seus gritos, de tanto
que falavam para o vazio. É verdade que, na altura, as consequências da crise
em curso eram discretas. Hoje, porém, é difícil escapar a isso — o desastre
está aqui, diante dos nossos olhos. Mas uma parte da burguesia finge não ver
nada; «business as usual» — ou melhor, «depois
de mim, o dilúvio».
Por seu lado, outra facção da burguesia alega estar a lutar contra a crise actual:
mercado de quotas de carbono, carros eléctricos, energias renováveis… Pelo
menos, não se lhe pode negar a criatividade, que esconde, da melhor forma
possível, a sua incapacidade e a sua recusa em pôr realmente fim à crise climática em curso.
Fundamentalmente, a burguesia depara-se com
um problema que não consegue resolver: é o modo de produção capitalista que
está na origem da crise. Esclareçamos desde já: é a própria lógica deste modo
de produção que está na origem do desastre, e não uma das suas formas situadas
historicamente ou geograficamente, como teremos oportunidade de demonstrar. E é
contra isso que deve erguer-se a única classe capaz de afastar a catástrofe,
derrubando o capitalismo em prol de uma sociedade comunista: o proletariado.
Pois esta alternativa histórica — revolução ou crise climática — é talvez a
última da história da humanidade, pelo menos tal como a conhecemos hoje. Pois,
tendo em conta as previsões para as próximas décadas e séculos, as mortes já
não se contarão aos milhares, mas aos milhões, se não mais. Em suma,
encontramo-nos numa encruzilhada, entre o comunismo e a destruição. É em torno
da ligação intrínseca entre o capitalismo e a crise climática que se articulará
a primeira parte deste artigo.
As expressões populares têm frequentemente
um fundo de verdade, e quando se diz que uma desgraça nunca vem só, não podemos
deixar de ficar impressionados com a veracidade dessa máxima. Pois à crise
ecológica junta-se a crise inter-imperialista, a marcha para a guerra, que se
intensifica um pouco mais a cada dia, avançando a todo o vapor. A marcha para a
guerra e a crise climática estão intrinsecamente ligadas, alimentam-se uma à
outra; os recursos começam a escassear e eis que as tensões inter-imperialistas
sobem mais um degrau, chegando por vezes a explodir; surgem conflitos e eis que
os aviões, os drones e outras armas destroem seres humanos e o ambiente (sem
sequer falar do custo da simples preparação para a guerra: mobilização máxima
do aparelho produtivo, etc.). Teremos de discutir a relação entre estes dois
aspectos; será que um prevalece sobre o outro, ficando este, então,
subordinado? Estarão eles inextricavelmente ligados? Colocar a questão e tentar
respondê-la é procurar obter o quadro de análise mais preciso possível, para
agir em conformidade. Pois, longe de serem uma mera análise abstracta, estas
reflexões são indissociáveis da actividade do militante comunista. Uma coisa é
certa, no entanto: cabe à classe operária assumir o controlo da sociedade para
a colocar de novo de pé e, assim, dar um futuro à humanidade.
Por fim, coloca-se a questão do que virá a
seguir, sem dúvida mais especulativa, mas igualmente essencial. Na hipótese
fantasiosa de que tudo parasse amanhã, certos processos ecocidas já estão em
curso e levarão séculos a reverter-se; de forma mais geral, as infraestruturas
que a sociedade capitalista nos deixará em herança não serão viáveis, e será
necessário repensar por completo a própria forma como produziremos no futuro. O
perigo, no entanto, é cair aqui no paradigma do decrescimento, um verdadeiro perigo para o proletariado, como
teremos oportunidade de demonstrar. Tentaremos mostrar que, contra este tipo de
mistificações, a única resposta possível é comunista. Este será o tema da
terceira e última parte deste artigo.
Esta contribuição tem, portanto, um vasto
âmbito; mas não pode — nem pretende — constituir um trabalho exaustivo sobre a
questão. Limitar-se-á a estabelecer alguns marcos, pontos de referência, que
poderão ser discutidos e criticados por todos os militantes revolucionários.
Mas pretende também tentar colocar, no seio do campo proletário, a questão
ecológica como uma questão central e fundamental. Pois, embora seja efectivamente
evocada de forma incidental pelos diferentes grupos, raramente tem sido objecto
de um debate aprofundado. É verdade que aventurar-se neste terreno não é isento
de riscos; muito rapidamente podemos atolar-nos no perigoso pântano do
interclassismo — pois a luta pela preservação da «Natureza» (conceito aqui
completamente abstracto!) deveria, para alguns, prevalecer sobre a luta de
classes… Abordar este tema, mesmo estando cientes do risco de desvio político
em que nos envolvemos, continua a ser uma necessidade para os militantes
comunistas; pois, ao evitar essa discussão, impedimo-nos de compreender o mundo
de forma completa e ficaremos impotentes quando se tratar de o mudar. Compreender
os desafios da actual crise ecológica requer, antes de mais nada, compreender
as relações que o modo de produção capitalista mantém com a natureza, ou seja,
o ambiente em que se desenvolve. Embora se trate de um tema extremamente vasto,
é possível, no entanto, abordá-lo sob a dupla perspectiva da alienação e da ruptura, por um lado, e
da destruição, por outro. Isto
permitir-nos-á demonstrar que é a própria lógica deste modo de produção que
está na base da situação actual, e não simplesmente uma das suas formas
históricas específicas; é, aliás, esta constatação que nos leva a preferir a
palavra «crises» a outros termos por vezes utilizados, como «catástrofe»,
«colapso» ou qualquer outro superlativo que, embora talvez mais impactante,
parece ignorar o facto de que é um determinado modo de produção que está na
base da situação que conhecemos hoje.
Os poucos elementos que serão apresentados
nesta parte estão, na verdade, profundamente ligados, interligados entre si; e
se aparecem separadamente, é apenas para maior clareza da nossa exposição.
Parece-nos, portanto, importante compreender as diferentes ideias como diversas
pinceladas que, quando vistas com algum distanciamento, formam um quadro global
que tende a ser coerente.
1) O capitalismo como alienação e ruptura
«Enquanto
naturalismo consumado, [o] comunismo
é humanismo; [enquanto] humanismo
consumado, é naturalismo»: foi assim que Marx, nos Manuscritos de 1844,
apresentou uma das características do comunismo: uma ligação estreita entre o
Homem e a Natureza. Se o comunismo é um «naturalismo
consumado», é precisamente porque, como demonstra Marx, o trabalhador, no
modo de produção capitalista, além de estar alienado no e pelo trabalho, é
afastado da natureza; e é precisamente este vínculo rompido que o comunismo
deve reconstruir, para permitir que o Homem aceda ao seu verdadeiro ser.
O modo de produção capitalista gera,
portanto, uma alienação do Homem em relação ao seu ambiente, impedindo-o de
aceder ao que se assemelha à sua essência. É difícil, no entanto, não ver
nestas formulações vestígios de idealismo — sintomas de um movimento operário
ainda incipiente, que não tinha elaborado uma doutrina clara e científica.
Trata-se, aliás, de uma limitação que Marx irá perceber e corrigir ao longo do
tempo; pois, embora na sua obra a relação entre o Homem e a Natureza seja
central, ele irá posteriormente conferir-lhe uma perspectiva muito mais
materialista, nomeadamente através de uma leitura atenta de Justus von Liebig
(1803-1873). Os trabalhos deste químico alemão, de imensa influência e
considerado um dos pais fundadores da química moderna, constituíram uma leitura
fundamental para Marx, ao ponto de este escrever a Engels, em 1866, que «Liebig e Schöbein (…) são mais importantes
para esta questão [da renda fundiária] do
que todos os economistas juntos.»
Devemos, nomeadamente, a John Bellamy Foster
e a Kohei Saito investigações aprofundadas e enriquecedoras sobre o tema
(embora não isentas de sérias falhas políticas), que, no entanto, não podemos
abordar de forma completa e adequada neste contexto. Limitemo-nos, portanto,
para o nosso propósito, ao essencial; na década de 1850, Liebig sublinhou a
importância de devolver ao solo todas as substâncias minerais extraídas, para
não perturbar o metabolismo existente e, em última análise (in fine), tornar a terra inutilizável.
Marx iria fazer suas essas conclusões: surge, de facto, nele a ideia de uma
«ruptura metabólica»: uma vez que o modo de produção capitalista, ao separar o
Homem da terra para o confinar em imensos centros industriais, torna impossível
a devolução dos minerais à sua terra de origem (sendo os resíduos humanos,
embora ricos em minerais extraídos, deixados a apodrecer nas cidades ou nos
rios circundantes — Marx vê isso de forma muito concreta no caso do Tamisa), a
preservação dessa terra torna-se impossível; e é então que, a longo prazo,
estão em jogo as próprias condições de preservação da humanidade.
A ruptura metabólica é, portanto, a
separação entre o Homem e a Natureza, que vem quebrar uma harmonia de
restituição mineral que permitia uma produção sustentável. E Marx acrescenta,
no Livro 1 de «O Capital»: «Todo o progresso da agricultura capitalista
não é apenas um progresso na arte de explorar o trabalhador, mas também na arte
de explorar o solo; todo o progresso no aumento da sua fertilidade durante um
determinado período de tempo é, ao mesmo tempo, um progresso na ruína das
fontes sustentáveis dessa fertilidade»; citação particularmente
interessante na medida em que estabelece a ligação entre a exploração do
trabalhador e a da natureza. Percebe-se, portanto, que a ideia de alienação
nunca está longe e paira sobre a ideia de ruptura metabólica; no entanto,
parece agora ter saído do mundo das ideias e das abstracções para regressar ao
mundo real, material.
Note-se desde já que nesta citação, e no
pensamento de Marx de forma mais geral, está presente também a questão do que
se poderia chamar de «produção intensiva»; mas abordaremos este tema em
pormenor mais adiante.
Embora Marx aborde a questão da «“ruptura metabólica”» ao referir-se às
questões agrícolas (que é, aliás, a perspectiva que Foster e Saito irão adoptar),
esta problemática alargou-se consideravelmente desde então. Para citar apenas
um exemplo entre muitos outros, a exploração da areia (o segundo recurso mais
utilizado no mundo, a seguir à água) encontra-se em crise, pois os capitalistas
extraem sedimentos fluviais — necessários à formação da areia — a um ritmo mais
rápido do que os processos necessários à sua renovação. Sem ser uma analogia
absoluta, pode-se, no entanto, constatar que a dinâmica é muito semelhante.
Seja como for, o modo de produção
capitalista produziria, portanto, uma ruptura entre o Homem e a natureza, com
consequências políticas, sociais, mas também económicas e ecológicas. É
difícil, no entanto, ficar-se por tal constatação; pois, para ir ao fundo da
questão, não nos podemos limitar a descrever, mesmo que sucintamente, os
efeitos da separação entre o Homem e a natureza: temos de mostrar o caráter especificamente capitalista de tal
fenómeno; impõe-se, então, um desvio pela História.
Todas as sociedades pré-capitalistas
caracterizam-se por uma relação orgânica, estreita e não alienada com a
natureza, sem ruptura metabólica sistemática. Isto salta à vista quando
pensamos em certas comunidades ameríndias (desde os diversos grupos que fazem
parte da cultura Clovis até aos
iroqueses), nos povos nómadas das estepes asiáticas (kereít, mongóis, tártaros,
naimã…), etc.
O mesmo se aplica às populações que vivem em
sociedades organizadas de acordo com o modo de produção asiático. Embora este
conceito possa ter sido alvo de debate, basta recordar que se caracteriza,
nomeadamente, por um poder centralizado e forte que assegura a reprodução
dessas sociedades, bem como a organização do trabalho colectivo, e que se apoia
numa miríade de pequenas aldeias ou comunas, relativamente ou mesmo totalmente
autárquicas, que, na maioria das vezes, cultivam as terras em comum. Embora
estas aldeias sejam, em primeiro lugar, enquanto comunidades, as proprietárias
colectivas das terras aráveis, após a perda da propriedade formal devido às
medidas confiscatórias do poder central, continuam, no entanto, a ser as
verdadeiras possuidoras dessas terras.
São estas comunidades e esta forte ligação à terra que, mais uma vez,
ilustram, a contrario, a
especificidade do modo de produção capitalista na sua relação com a natureza,
relação enfraquecida, para não dizer completamente rompida. Concluiremos este
ponto afirmando que a noção de «modo de
produção asiático» é bastante inadequada; embora as sociedades asiáticas
tenham realmente começado a interessar a Marx e a Engels por ocasião dos
debates parlamentares ingleses sobre o estatuto da Índia em meados do século XIX,
tal noção alargou-se e deslocou o quadro geográfico que lhe tinha sido
atribuído: para além da Índia — e, por exemplo, da China —, encontramo-la na
América do Sul (nomeadamente junto dos Incas), no Egipto, etc.
Mas esta ligação com a natureza também se
encontra nas sociedades que conheceram o modo de produção feudal; e, uma vez
que é das contradições deste último que nasce o capitalismo, é nele que nos
vamos concentrar: assim, a especificidade capitalista no que diz respeito à
ruptura entre o Homem e a Natureza tornar-se-á clara. O feudalismo, tal como,
aliás, todos os modos de produção, desenvolve-se de muitas formas, em função
das configurações sociais dos territórios onde surge; as considerações aqui
apresentadas são, portanto, de carácter geral e tendem a aplicar-se em todo o lado, apesar de excepções notáveis.
Fundamentalmente, as relações feudais de
produção assentam numa exploração específica dos camponeses: estes são
reduzidos ao estatuto de servos. O conceito de «glebae adscripti», cunhado a posteriori pelos juristas medievais
para definir e justificar esse estatuto, reflecte bem a particularidade desta
situação, nomeadamente na sua relação com a terra, uma vez que significa,
literalmente, «ligado à terra». Este vínculo é simultaneamente consuetudinário,
jurídico e social; a tal ponto que o servo não pode abandonar a sua terra sem
correr o risco de multas ou mesmo de castigos. A servidão caracteriza-se também
pela necessidade de cultivar a terra por conta do seu senhor (que, aliás, está
inserido em relações vassalares, outra característica do feudalismo que não
iremos explorar aqui), pelo menos em parte. Esta última relação, no entanto, é
frequentemente mal compreendida: o servo não é nem escravo, nem assalariado do
senhor; é, pelo menos formalmente, o usufrutuário da terra que cultiva. Mas,
sobretudo nos primeiros séculos da Idade Média, o fruto do seu trabalho era
quase integralmente retido pelo senhor, através de tributos ou de trabalhos
forçados (trabalho obrigatório a prestar ao senhor, em troca da possibilidade
de utilizar a terra). O seu estatuto de usufrutuário era, então, meramente
formal e não lhe trazia qualquer benefício.
Paralelamente, o modo de produção feudal
reconhece geralmente a todas as famílias de servos a posse hereditária de uma «manse», ou seja, um complexo composto
por uma casa, na maioria das vezes acompanhada das suas diversas dependências
(chiqueiro, estábulo) e, sobretudo, por uma parcela de solo cultivável e pelas
ferramentas necessárias para a trabalhar.
Estes diferentes elementos permitem, assim,
começar a perceber as particularidades do feudalismo em relação ao capitalismo
no que diz respeito às relações entre o trabalhador e a natureza. Com efeito,
nesta configuração, observa-se uma «dominação
da terra sobre os homens enquanto força que lhes é estranha», tornando
assim o servo «um acessório da terra»
(Marx, 1844). É isso que leva Marx a afirmar que, ao contrário de alguns dos
seus contemporâneos que idealizam o passado ao verem os danos do modo de
produção capitalista sobre os homens e a natureza, ele «não partilha as lágrimas que o romantismo derrama a este respeito».
» Uma lembrança salutar da estupidez e do perigo da proposta política daqueles
que vêem num «regresso às origens»
(muitas vezes amplamente distorcido, em desrespeito a toda a rigor científico)
uma solução viável para sair da crise.
Não devemos, portanto, ter ilusões quanto à
relação com a natureza no feudalismo: longe de ser idílica, esta já envolvia
sofrimento e opressão para o produtor. Mas, ao contrário do modo de produção
capitalista, embora reduzido a um mero apêndice da terra que tende a
tornar-se-lhe cada vez mais estranha, o servo mantém, ainda assim, um vínculo
pessoal com esta última; vínculo esse que, aliás, se reflecte na relação entre
o senhor e o servo. Com efeito, «aqueles
que cultivam a propriedade fundiária não se encontram na situação de
trabalhadores assalariados; ou estão na propriedade (do senhor) como servos, ou
estão numa relação de lealdade, submissão e obrigação. A posição (do senhor) em
relação a eles é directamente política e tem também um lado íntimo.»
Esta ligação à natureza é tanto mais forte
quanto o modo de produção feudal inclui também terras comunais, um verdadeiro
bem comum que todos os habitantes de uma aldeia podem explorar colectivamente,
embora as modalidades de apropriação dessas terras difiram, tanto na forma como
na superfície em causa.
Assim, o feudalismo caracteriza-se por uma
relação bastante marcante entre a terra — e, portanto, a natureza — e o
produtor; e se, devido a esse imobilismo (o camponês está, no fundo, preso ao
campo que cultiva), a alienação homem/natureza seja menor e a relação
metabólica seja funcional — no sentido de que os minerais são devidamente
devolvidos ao solo, contribuindo para a preservação e a sustentabilidade deste
último —, isso não o impede de ser explorado pelo seu senhor, de viver numa
miséria significativa e até, como vimos, de ser dominado pela natureza. O que
abre caminho a uma dupla perspectiva: em primeiro lugar, a da especificidade capitalista
no que diz respeito às suas repercussões na relação homem/natureza (mas também,
por estar ligada a isso, na relação cidade/campo), em seguida, à superação da
alienação existente rumo a uma sociedade em que a relação entre o produtor e o
seu ambiente já não seja, como no modo de produção feudal, causa de
asservimento, mas seja, pelo contrário, emancipadora — em suma, uma sociedade
comunista.
Resta abordar aqui a questão da emergência
histórica dessa alienação e ruptura; pois só assim se poderá demonstrar que ela
é verdadeiramente consubstancial ao modo de produção capitalista, e não uma
forma particular ou recente deste.
Se, como já foi referido em várias ocasiões,
o feudalismo se caracteriza por uma relação particular do camponês com a sua
terra, distingue-se igualmente pelo facto de a organização social e política se
basear na primazia do campo face à cidade. Mas, como veremos, é paradoxalmente
essa marginalização que fará dos centros urbanos um dos motores do
desenvolvimento da relação social capitalista.
Não é possível aqui apresentar um panorama
exaustivo da questão; limitar-nos-emos, assim, às principais dinâmicas,
dedicando especial atenção a certos pontos por vezes pouco abordados.
Embora a dinâmica comercial tenha sido,
durante algum tempo, travada pelo sistema corporativista, a criação de
estabelecimentos comerciais — na maioria das vezes nas imediações dos centros
urbanos, em oposição às corporações — permitiu que o capital comercial se
desenvolvesse. Estes últimos, principalmente artesãos, surgiram devido à
existência de trocas comerciais a longa distância e de comércio itinerante, já
a partir do século XI; com efeito, para estes comerciantes que percorriam de
vila em vila e de feira em feira, era necessário poder satisfazer tanto as suas
necessidades alimentares como as de ferramentas de produção (barris, carroças,
etc.).
Este mercado urbano em crescimento irá abrir
novas oportunidades para as zonas rurais, que passarão assim a integrar-se na
economia mercantil das cidades. No entanto, esta integração numa economia cada
vez mais dinâmica não deixará de ter consequências no que diz respeito à
relação entre o produtor e a terra; como já foi referido, estes últimos são,
formalmente, usufrutuários das terras senhoriais: por outras palavras, uma vez produzido
o que devem ao senhor, o resto da produção pertence-lhes. Ora, o
desenvolvimento progressivo de um novo mercado levará alguns servos a deixar de
produzir apenas para auto-consumo, passando também a vender uma parte da sua
colheita à cidade. Não é preciso um Guizot, neste caso, para os incentivar a
enriquecer. É assim que uma parte dos servos poderá começar a acumular capital,
melhorar a sua produtividade (através da compra de ferramentas cada vez mais
eficientes) e tornar-se verdadeiros «lavradores
»; por outro lado, a franja do campesinato que não conseguiu integrar os
circuitos comerciais das cidades empobrece comparativamente e tornar-se-á o que
se chamará de «trabalhadores braçais»
ou «brassiers»: os termos são eloquentes e mostram bem que estes últimos têm
apenas as suas mãos ou os seus braços como ferramenta de trabalho. Encontramos
aqui o que se poderia considerar um «proto-proletariado ».
Mas foi entre os séculos XII e XIII que se
verificou a ruptura; com a transformação da terra em mercadoria, os lavradores
passaram a poder ampliar as suas terras, muitas vezes mediante o pagamento de
uma determinada quantia ao senhor feudal, antigo proprietário; por outro lado,
os trabalhadores braçais podiam rapidamente, em caso de problemas (doença, má
colheita, etc.), ver-se rapidamente endividados e, a longo prazo, acabar por
ser completamente expropriados, restando-lhes apenas a sua força de trabalho
para vender, na maioria das vezes a senhores que se tornaram proprietários de
terras ou a lavradores. Não devemos, portanto, iludir-nos quando La Fontaine
faz o lavrador afirmar que o trabalho é um tesouro; são, na verdade, os
trabalhadores braçais que representam a classe trabalhadora e que constituem a
base da produção. Acrescentemos a isto que a acção organizada da classe
capitalista (burguesia emergente ou nobreza reconvertida) para destruir toda a
propriedade comum — o exemplo das cercas inglesas, amplamente abordado por Marx
no Livro 1 de *O Capital* — é,
evidentemente, a ilustração mais famosa deste fenómeno.
É no decorrer desta dinâmica, que
apresentámos de forma extremamente sucinta, que se formam os sinais precursores
do modo de produção capitalista; mas é este mesmo movimento que, ao distinguir
entre lavradores e operários e ao expropriar estes últimos, acaba por criar uma
ruptura de facto no vínculo que existia com a terra, ruptura essa que é,
portanto, propriamente capitalista.
Nesta fase, é possível acrescentar dois
elementos. Em primeiro lugar, embora o processo descrito esteja efetivamente na
origem da alienação entre o trabalhador e a natureza (através da transformação desta em mercadoria e do primeiro em proletário), outros
elementos, igualmente ligados ao desenvolvimento do capitalismo devido às
contradições do feudalismo, desempenharam um papel nesta separação entre o
Homem e a natureza: pode-se referir, nomeadamente, o êxodo rural, que rompeu os
laços de uma parte crescente da população com um ambiente diferente do urbano,
particularmente destrutivo para o meio ambiente — trazendo de novo à tona a
questão da abolição da distinção entre cidade e campo no comunismo, amplamente
abordada em «A Ideologia Alemã».
Em seguida, é necessário salientar o carácter
não linear de tal processo; embora tenhamos descrito anteriormente as
principais linhas de força de uma evolução histórica que se estende por vários
séculos, houve retrocessos, abrandamentos e acelerações; tanto mais que a
diversidade geográfica implica, como já foi referido, variantes locais
específicas em determinados territórios. Assim, os trabalhadores agrícolas
assalariados, que se encontram em certas regiões europeias, têm, na realidade,
um estatuto que, em termos materiais, é o de um servo, tal como, aliás, a
camada mais precária dos pequenos agricultores; mas existirá também uma
diversidade de outros estatutos, desde o arrendatário ao meteiro, passando pelo
alleutier (proprietário de terras livre – NdT), todos inseridos neste período
de transição entre o feudalismo e o capitalismo.
Assim, vimos que é no
seio do próprio desenvolvimento das relações de produção capitalistas que se
opera essa separação, esse movimento de ruptura e alienação, entre o produtor e
a natureza, o que torna essa separação, como defendíamos desde o início, uma
característica intrínseca ao modo de produção capitalista. E, tal como se
referiu anteriormente, se uma ligação não alienada com a natureza não implica, por si só, o fim de toda a exploração, o
fim de toda a exploração requer essa ligação não alienada; e só através da
sociedade comunista, como veremos no final deste artigo, é que tal perspetiva
se torna possível, perspetiva essa que, como procuraremos demonstrar nas partes
seguintes desta contribuição, se torna cada vez mais urgente face ao carácter destrutivo do capitalismo..
Ross, Julho de 2026