sábado, 21 de março de 2026

Da guerra do petróleo à guerra da água?

 


Da guerra do petróleo à guerra da água?

21 de Março de 2026 Oeil de faucon 

 
Dois artigos que lançam luz sobre as consequências potencialmente graves da guerra contra o Irão. Além de centenas de mortes de civis e centenas de milhares de deslocados, a fome avizinha-se nos países mais ricos do mundo, confirmando que existe uma mercadoria mais essencial e vital do que o petróleo: a água!
Eu acrescentaria que na Europa, e particularmente na França, a água também está a tornar-se um recurso escasso; data centers e centrais nucleares são grandes consumidores de água. Será a França o novo Eldorado para data centers?
Golfo Pérsico: da guerra do petróleo à guerra da água? [center
026/03/12 às 11:45
por Béchir Lakani]

Uma central de dessalinização no Bahrein foi danificada no domingo por um ataque de drone iraniano. Um ataque também atingiu uma fábrica no Irão. Numa região onde o abastecimento de água potável depende em grande parte da dessalinização, tais ataques aumentam a ameaça de uma grande crise humanitária para as populações do Golfo, bem como para as do Irão.
Será a água a próxima arma estratégica no conflito armado cada vez mais intenso no Médio Oriente?  Incidentes recentes a envolver centrais de dessalinização no Golfo Pérsico sugerem um cenário preocupante: uma guerra na qual o recurso mais vital da região está directamente ameaçado. Noutras palavras, numa região onde a água é ainda mais vital que o petróleo, essas instalações constituem alvos militares de suma importância.


Vejamos os factos. Em 8 de Março, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, acusou os Estados Unidos de bombardear uma central de dessalinização na ilha de Qeshm, localizada perto do porto estratégico de Bandar Abbas. Segundo Teerão, esse ataque interrompeu o abastecimento de água para cerca de trinta aldeias. Em retaliação a esse acto hostil, um drone iraniano danificou uma central de dessalinização no Bahrein no dia seguinte. Essa central fornece água potável para uma base militar americana localizada na ilha. Esses ataques sem precedentes marcam um desenvolvimento com consequências imprevisíveis. A água — um recurso escasso e vital para essa região, uma das mais áridas do planeta — pode agora ser usada como ferramenta estratégica e militar.

Dependência e vulnerabilidade:

De facto, com a água doce a ser um recurso praticamente inexistente, a maioria dos países da região depende principalmente de centrais de dessalinização para abastecer as suas populações e economias. O Médio Oriente, com milhares de instalações ao longo da costa do Golfo, responde por quase 40% da capacidade mundial de dessalinização.

Os números ilustram essa extrema dependência. No Kuwait, quase 90% da água potável provém da dessalinização. A proporção chega a 86% em Omã e a cerca de 70% na Arábia Saudita. Nos Emirados Árabes Unidos, mais de 40% da água consumida é produzida por essas instalações. Essas infraestruturas possibilitaram o surgimento das principais metrópoles do Golfo, do Dubai a Doha, incluindo Abu Dhabi. Sem a água potável produzida por essas infraestruturas, essas cidades em expansão, construídas no coração de desertos áridos, seriam simplesmente inabitáveis.

Um calcanhar de Aquiles estratégico.

Essa dependência da tecnologia de dessalinização é o verdadeiro calcanhar de Aquiles dos Estados do Golfo. E se, no contexto da guerra que actualmente opõe o Irão à coligação israelo-americana, essas centrais fossem atacadas por drones ou mísseis iranianos, como ocorreu no Bahrein?

Esse é o pior cenário possível para as monarquias do Golfo. Especialistas em segurança hídrica há muito alertam para esse perigo. Já em 2010, uma análise da CIA estimou que a destruição de várias grandes centrais de dessalinização no Golfo Pérsico poderia ter consequências mais graves do que a perda de qualquer outra indústria estratégica. Isso é especialmente verdadeiro considerando que a localização dessas centrais, geralmente construídas na superfície ao longo da costa, dificulta a sua protecção eficaz contra drones, mísseis ou ataques cibernéticos. Assim, um simples ataque cibernético poderia ser suficiente para interromper os processos químicos essenciais ao tratamento da água. Além disso, essas instalações geralmente estão intimamente ligadas a centrais de energia. Portanto, um ataque à infraestrutura energética pode interromper indirectamente a produção de água potável.

Uma catástrofe humanitária.

Para muitos especialistas, atacar a infraestrutura hídrica é uma linha vermelha perigosa. Porque, ao contrário das instalações militares ou industriais, essa infraestrutura está directamente ligada à sobrevivência das populações civis.

Um exemplo concreto? Se a enorme central de dessalinização de Jubail, que abastece Riad e os seus oito milhões de habitantes, fosse gravemente danificada, a capital saudita poderia ficar sem água em menos de uma semana. E isso não é ficção científica.

Dito isso, o Irão também não está imune a uma crise semelhante. O país tem vindo a sofrer com uma seca severa há vários anos, o que reduziu drasticamente as suas reservas hídricas. Como resultado, as barragens que abastecem a capital, Teerão, atingiram níveis alarmantes. Alguns reservatórios estão com menos de 5% da sua capacidade, aumentando as preocupações com uma possível escassez de água para os mais de dez milhões de habitantes da metrópole.

Em última análise, depois do petróleo e das rotas marítimas, a água poderá tornar-se o próximo campo de batalha estratégico no Médio Oriente. E neste conflito não declarado, o recurso mais precioso da região provavelmente será a primeira vítima.

Irão: Guerra ameaça o abastecimento de água e alimentos para as monarquias do Golfo
Por Oussama Nadjib

Maghreb Emergent | Fonte de notícias económicas do Magreb

Enquanto o mundo se preocupa com um choque mundial do petróleo, as monarquias do Golfo enfrentam uma ameaça mais imediata: a interrupção do abastecimento de água e alimentos. A guerra contra o Irão e a paralisação do Estreito de Ormuz expõem brutalmente a vulnerabilidade logística das economias desérticas que dependem de importações para a sua sobrevivência diária.

Ao atingir a infraestrutura civil e interromper as rotas marítimas, o conflito revela a fragilidade de um modelo económico que depende de importações para mais de 80% das suas necessidades básicas. A gigante dinamarquesa de transporte marítimo Maersk suspendeu as suas viagens para vários terminais importantes do Golfo, incluindo Jebel Ali e Dammam, alegando uma situação de segurança insustentável. Essa decisão atinge o coração do porto de Jebel Ali, no Dubai, um centro logístico que atende quase cinquenta milhões de consumidores na região. Segundo diversos analistas, a paralisia desse centro está a transformar países como o Catar e o Kuwait em economias praticamente sem litoral, forçadas a depender quase exclusivamente das rotas terrestres da Arábia Saudita, já congestionadas por um fluxo excepcional de camiões.

O efeito nos mercados locais é imediato. Produtos perecíveis — bananas, frutas frescas e laticínios — estão sujeitos à especulação, que por vezes triplicou os seus preços em menos de quarenta e oito horas. Embora as autoridades garantam que as reservas estratégicas cubram entre quatro e seis meses de consumo, a psicologia da escassez já desencadeou compras por pânico nos supermercados. No Dubai, as autoridades tiveram que flexibilizar temporariamente algumas restricções de tráfego para manter o abastecimento de bens essenciais.

Tecnologias de tratamento de água:

Água potável, um alvo estratégico.

A crise atingiu um novo patamar com o ataque de drones a uma central de dessalinização no Bahrein. Esse episódio ressalta a extrema fragilidade de uma região onde a água potável não é um recurso natural, mas um produto industrial derivado da dessalinização da água do mar. A infraestrutura hídrica do Golfo está agora exposta a uma dupla ameaça: ataques directos às instalações e poluição marinha ligada a ataques a petroleiros.

De facto, os derramamentos de petróleo podem obstruir os filtros das centrais de osmose reversa, causando grandes paralisações técnicas. Sem essas instalações, as grandes cidades do deserto têm reservas de água potável suficientes para apenas alguns dias.

As limitações das estratégias pós-2008:

A situação actual também está a testar as políticas adoptadas após a crise alimentar mundial de 2008. Na época, países como a Arábia Saudita abandonaram os seus dispendiosos programas de cultivo de trigo para preservar as suas águas subterrâneas, preferindo investir pesadamente em terras agrícolas no exterior. Essa estratégia, no entanto, baseava-se numa premissa simples: a segurança das rotas marítimas. Agora, o quase encerramento do Estreito de Ormuz coloca essa premissa fundamental em xeque, tornando incerto o transporte dessas colheitas. Algumas infraestruturas alternativas existem. Os silos de grãos em Fujairah, localizados fora do estreito, por exemplo, oferecem capacidade estratégica de armazenamento para cereais. Mas o seu volume continua insuficiente para compensar a paralisação dos principais portos na costa oeste do Golfo. Nesse contexto, a coordenação entre os membros do Conselho de Cooperação do Golfo surge como uma das últimas alavancas para evitar uma grande interrupção nas cadeias de suprimentos. Contudo, a ausência de redes ferroviárias transfronteiriças totalmente operacionais limita ainda mais a capacidade de solidariedade logística entre as seis monarquias.

O fim do refúgio:

A crise actual demonstra que a riqueza financeira dos Estados do Golfo já não constitui um baluarte suficiente contra o isolamento geográfico e as novas formas de guerra assimétrica. Ao terceirizar a sua agricultura para preservar os seus recursos hídricos, estes países ganharam em eficiência económica, mas à custa de uma extrema dependência estratégica. A estabilidade das monarquias do Golfo depende da sua capacidade de proteger as suas infraestruturas civis e manter abertas as rotas marítimas vitais. Porque, sem livre acesso ao Estreito de Ormuz, o modelo de desenvolvimento ultra-moderno de cidades no deserto entra em conflito brutal com as realidades da geografia.

 

Fonte: De la guerre du pétrole à la guerre de l’eau ? – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




sexta-feira, 20 de março de 2026

Civilização capitalista = a ocultação estrutural dos trabalhadores produtivos

 


Civilização capitalista = a ocultação estrutural dos trabalhadores produtivos

20 de Março de 2026 Robert Bibeau


Por  Khider Mesloub .

A civilização capitalista moderna apresenta uma peculiaridade histórica notável: nunca antes uma sociedade dependeu tanto do trabalho produtivo, ao mesmo tempo que tornou tão invisíveis aqueles que produzem valor e riqueza. Nunca na história da humanidade as sociedades produziram tantos bens materiais, mobilizaram tantos recursos ou implantaram sistemas tecnológicos tão poderosos. E, no entanto, nunca antes os indivíduos estiveram tão distantes da compreensão dos processos que tornam essa produção possível.

A sociedade moderna vive no meio de um mundo material de abundância sem precedentes — redes de energia, infraestrutura logística mundial, indústrias químicas e electrónicas, agricultura mecanizada — sobre o qual a maioria das pessoas praticamente nada sabe. Os objectos são usados, consumidos e substituídos, mas os processos que possibilitam o seu fabrico permanecem em grande parte invisíveis.

A civilização capitalista é a primeira na história em que a grande maioria dos indivíduos vive num mundo material que utiliza diariamente sem saber como ou por quem é produzido.

Quando as sociedades compreendiam o seu próprio mundo material

Durante a maior parte da história da humanidade, as sociedades viveram num mundo material que compreendiam. Nas sociedades de caçadores-colectores, as técnicas para garantir a subsistência — identificar plantas, caçar, fabricar ferramentas, construir abrigos — faziam parte do conhecimento partilhado. Nas sociedades agrícolas, a rotação de culturas, a criação de animais, o processamento de alimentos e o fabrico de ferramentas permaneciam visíveis e compreensíveis para a comunidade.

Mesmo quando certas actividades eram especializadas, elas permaneciam localizadas e observáveis. O ferreiro trabalhava na aldeia, o carpinteiro construía à vista de toda a comunidade, e os campos circundavam as casas. A produção fazia parte da paisagem social.

Essa centralidade da actividade humana reflectia-se até mesmo nas primeiras obras literárias. Na Grécia Antiga, um dos textos fundamentais da tradição ocidental, Os Trabalhos e os Dias de Hesíodo, é dedicado ao calendário agrícola, às tarefas do trabalho na terra e às condições materiais da vida humana. A ordem do mundo está directamente ligada às actividades produtivas. Noutras palavras, as sociedades antigas produziam pouco, mas compreendiam o que produziam.

A ruptura introduzida pela sociedade capitalista

A civilização capitalista transformou profundamente a relação entre os seres humanos e as condições materiais da sua existência. A produção concentrou-se gradualmente em gigantescos sistemas industriais baseados numa extrema divisão do trabalho e na mundialização das cadeias produtivas. Um objecto comum hoje pode envolver matérias-primas extraídas de diversos continentes, componentes fabricados em diferentes regiões do mundo, operações de montagem distribuídas por múltiplas fábricas e redes logísticas mundiais. O produto final, então, surge como um objecto acabado, desprovido de qualquer história aparente.

 

Essa dispersão espacial é agravada pela fragmentação do conhecimento técnico. A produção moderna mobiliza campos de especialização altamente específicos — engenharia, química industrial, electrónica, logística algorítmica — que nenhum indivíduo consegue dominar completamente. Essa limitação decorre da própria organização social do trabalho: a divisão capitalista do trabalho separa a concepção da execução, concentrando o conhecimento e a direcção nas mãos de uma minoria. Assim, mesmo os operários muitas vezes controlam apenas um aspecto limitado de um processo mundial que permanece fora do seu controlo.

Essa invisibilidade dos produtores também decorre de uma transformação mais profunda do próprio trabalho. Nas sociedades artesanais, o produtor controlava todo o processo de fabrico e mantinha uma relação tangível com o seu trabalho. Com o capitalismo industrial, essa unidade desaparece: a actividade humana fragmenta-se e transforma-se em trabalho abstracto, um simples e indiferenciado gasto de energia integrado num mecanismo produtivo que transcende aqueles que participam nele. À escala mundial, esse processo estende-se a uma divisão internacional do trabalho que separa os espaços de concepção, produção e consumo. O trabalho é, portanto, progressivamente separado da própria vida social, relegado para uma esfera económica distinta e cada vez mais distante da experiência quotidiana das sociedades.

A invisibilidade social da produção

Essa transformação tecnológica é acompanhada por um fenómeno social: a realocação dos locais de produção. Fábricas, infraestrutura industrial, centros de logística e instalações de energia estão localizados nos arredores das cidades, em zonas industriais ou noutras regiões do mundo. A sociedade contemporânea exibe locais de consumo por toda parte — shoppings, boutiques, restaurantes — mas oculta em grande parte os lugares onde a riqueza material é criada. A produção está a desaparecr gradualmente da experiência quotidiana. Os indivíduos veem os bens, mas raramente aqueles que os produzem.

Outra característica essencial do capitalismo deve ser enfatizada: no exacto momento em que a produção se industrializa, se colectiviza e se interliga internacionalmente, mobilizando por vezes milhares de operários em grandes empresas, o produto desse trabalho colectivo permanece privatizado pela classe capitalista minoritária que detém os meios de produção.

A invisibilidade cultural do trabalho

Esse apagamento não se restringe ao espaço físico. Ele estende-se também ao âmbito simbólico. Na literatura, no cinema, nas séries de televisão e nas narrativas contemporâneas, o mundo do trabalho produtivo raramente figura como elemento central. As tramas desenrolam-se, na maioria das vezes, em ambientes urbanos pertencentes ao sector de serviços: jornalistas, advogados, polícias, artistas, estudantes, gerentes, empreendedores. Os personagens vivem em apartamentos elegantes, frequentam cafés ou restaurantes e trabalham em escritórios ou instituições. Eles conversam, investigam, viajam e consomem. Mas os trabalhadores que garantem de facto a produção material da sociedade — operários da indústria, agricultores, trabalhadores de armazém, técnicos, operadores logísticos — estão amplamente ausentes dessas representações. A produção material, portanto, desaparece não apenas da experiência quotidiana, mas também das narrativas que moldam o imaginário colectivo.

Essa invisibilidade é acompanhada por outra transformação ideológica. Mesmo com o desaparecimento gradual dos operários da representação social, o próprio trabalho tornou-se objecto de uma verdadeira sacralização ideológica. Nas sociedades capitalistas modernas, a actividade profissional é elevada ao valor supremo, ao critério central de realização individual e integração social. O trabalho não é mais mera necessidade material: torna-se uma norma moral e cultural. Assim, surge uma situação singular: uma civilização que glorifica constantemente o trabalho, relegando aqueles que o realizam para as sombras.

Essa situação contrasta fortemente com o período industrial do século XX. Durante grande parte desse período, as sociedades industriais ocidentais ainda viviam sob a influência de uma cultura operária relativamente visível e valorizada. A indústria ocupava um lugar central tanto na economia quanto no imaginário social. Grandes fábricas, minas, estaleiros e siderúrgicas estruturavam a vida de regiões inteiras. Os operários industriais constituíam um componente reconhecido da sociedade, com sindicatos poderosos, organizações políticas e uma presença cultural significativa. A figura do operário — na literatura, no cinema, na fotografia social e no discurso político — aparecia como uma das principais representações do mundo do trabalho.

Essa visibilidade social do trabalho produtivo contrasta fortemente com a situação actual. Com o declínio da indústria em grande parte do Ocidente e a transferência da produção material para outras partes do mundo, a cultura da classe operária recuou gradualmente da esfera pública. Ao mesmo tempo, emergiu um novo imaginário social, centrado na inovação tecnológica, no empreendedorismo e na economia digital. A figura dominante não é mais a do operário ou técnico de fábrica, mas sim a do fundador de startup, do investidor ou do desenvolvedor de aplicativos.

Essa transformação do imaginário social num ambiente de startups constitui, portanto, o oposto exacto da cultura industrial que ainda dominava as sociedades ocidentais algumas décadas atrás. Enquanto a indústria outrora estruturava a identidade social e política de grandes segmentos da população, o imaginário contemporâneo valoriza actividades amplamente desvinculadas da produção material. O trabalho produtivo está a desaparecer gradualmente do âmbito das aspirações sociais, enquanto o empreendedor digital se torna a figura emblemática do sucesso económico.

Essa mudança no imaginário social é muito visível nas representações culturais contemporâneas. Nas sociedades ocidentais, um novo horizonte simbólico tem-se consolidado gradualmente: o do empreendedor digital, da startup e da inovação tecnológica, apresentados como os únicos motores do progresso económico. A media e o cenário cultural estão, portanto, repletos de narrativas que glorificam fundadores de startups, investidores e figuras da economia digital, enquanto operários da indústria, da agricultura ou da logística praticamente desaparecem da narrativa social. Essa "startupização" do imaginário contemporâneo não é apenas uma moda passageira. À medida que a produção material se desloca para outras regiões do mundo, as sociedades ocidentais retratam-se cada vez mais como economias de serviços, inovação e empreendedorismo, obscurecendo a realidade fundamental sobre a qual, ainda assim, continuam a basear-se: o trabalho produtivo de milhões de homens e mulheres que garantem a produção material do mundo contemporâneo.

Assim, embora a civilização moderna se baseie em sistemas de produção tecnológica sem precedentes, a representação cultural da sociedade tende a apagar aqueles que produzem e as acções que tornam possível a vida material. Noutras palavras, a modernidade capitalista não é apenas a civilização da produção industrial; é também a primeira civilização em que os produtores se tornam invisíveis na consciência social do mundo que criam. A civilização capitalista baseia-se na produção, mas estruturalmente torna os seus produtores invisíveis na consciência social e cultural, inaugurando, assim, uma mudança antropológica sem precedentes na história da humanidade.

A análise clássica de Karl Marx sobre o capitalismo baseava-se numa ideia central: numa sociedade de mercado, os produtos do trabalho aparecem como objectos autónomos. As relações sociais entre os operários desaparecem por trás das mercadorias, e o trabalho humano torna-se invisível nos objectos que, no entanto, são o seu resultado. Noutras palavras, os produtos parecem possuir uma existência própria quando são meramente a expressão do trabalho humano.

Mas o capitalismo contemporâneo parece ter levado esse processo muito mais longe. Ele não se limita mais a ocultar o trabalho dentro das mercadorias: tende a apagar os próprios produtores da consciência social.

A mundialização da produção, a extensão planetária das cadeias logísticas, o afastamento geográfico dos locais de fabrico e a terciarização das representações culturais transformaram profundamente as condições de visibilidade do trabalho. Nas sociedades ocidentais, os produtores materiais – operários, agricultores, trabalhadores logísticos – desapareceram progressivamente da paisagem social e do imaginário colectivo. Assim, a invisibilidade já não diz respeito apenas ao trabalho contido na mercadoria: atinge agora os próprios produtores.

O capitalismo moderno parece assim produzir três níveis de invisibilização. O primeiro é técnico: a divisão extrema do trabalho fragmenta os processos produtivos a tal ponto que cada operário apenas percebe uma ínfima parte. O segundo é espacial: a mundialização das cadeias de produção afasta os locais onde a riqueza é fabricada dos locais onde as mercadorias são consumidas. O terceiro é cultural: as representações dominantes valorizam as actividades terciárias, a inovação empresarial e as finanças, enquanto os produtores materiais desaparecem progressivamente do imaginário social. O capitalismo contemporâneo não invisibiliza, portanto, apenas o trabalho no bem ou produto: ele invisibiliza os próprios produtores na representação da sociedade.

Uma sociedade contada sem os seus produtores.

Isso resulta numa representação singular do mundo social. Os bens circulam, a infraestrutura funciona, os serviços são prestados, mas os produtores que tornam tudo isso possível permanecem invisíveis. A sociedade aparece como um universo de troca, comunicação e consumo, em vez de um sistema baseado no trabalho material de milhões de operários.

Além disso, a própria popularização do termo "sociedade de consumo" ilustra esse processo de invisibilidade. Através do seu uso generalizado na media, no discurso político e académico, essa expressão contribui para deslocar o olhar colectivo: a atenção concentra-se nas práticas de consumo, nos estilos de vida e nos comportamentos de compra, enquanto as condições materiais de produção e a origem produtiva desses bens consumidos desaparecem do horizonte mental.

A sociedade capitalista é, portanto, descrita pela óptica do consumo em vez da produção. O imaginário colectivo está repleto de shoppings, vitrines, marcas e serviços, mas os locais onde os bens são de facto fabricados — fábricas, quintas, oficinas, infraestrutura logística — permanecem relegados à periferia da representação colectiva.

Essa inversão simbólica não é insignificante. Ela ajuda a obscurecer o facto de que a sociedade capitalista, antes de ser uma sociedade de consumo, é antes de tudo uma gigantesca organização de produção. Milhões de operários, técnicos, engenheiros, agricultores e operadores logísticos participam diariamente no fabrico, processamento e distribuição dos produtos que abastecem as prateleiras e os armazéns do mundo contemporâneo.

Mas na consciência social dominante, essa imensa actividade produtiva tende a desaparecer por trás da aparente abundância de bens disponíveis. Tudo acontece como se as mercadorias surgissem espontaneamente no espaço social, como se os produtos consumidos caíssem do céu, sem história, sem trabalho e sem produtores visíveis.

O resultado: nunca antes uma sociedade desprezou tanto aqueles que produzem a sua riqueza, nem levou a inversão da realidade social a um extremo, atribuindo a estratos improdutivos e parasitários o papel de actor económico central e força motriz da história, aqueles a quem agora chamamos de "tomadores de decisão" e gestores.

Uma civilização inteiramente dependente do trabalho produtivo, mas que valoriza cada vez mais as actividades improdutivas: esta é a realidade do capitalismo decadente. Uma civilização que, ao relegar os seus produtores às sombras, acaba negando as próprias condições da sua existência. Tal desenvolvimento não é uma deriva acidental. Pelo contrário, é inerente à própria lógica do modo de produção capitalista.

O paradoxo da civilização capitalista

Este sistema caracteriza-se por uma contradição fundamental. Desenvolveu o poder produtivo mais considerável de toda a história da humanidade, ao mesmo tempo que distancia a maioria dos indivíduos da compreensão dos processos materiais que tornam essa produção possível. Os seres humanos continuam a produzir a sociedade, mas a sociedade que produzem tende a apagar a sua presença.

As sociedades antigas viviam num mundo que elas mesmas criavam e compreendiam. Os gestos do trabalho, as técnicas de subsistência e as habilidades necessárias à vida faziam parte da experiência quotidiana e da paisagem cultural. O mundo moderno, ao contrário, tende a dissociar radicalmente a produção da vida ordinária. As mercadorias circulam por toda parte, mas aqueles que as produzem desaparecem do panorama social. As mercadorias são omnipresentes, enquanto os produtores se tornam invisíveis, tanto no mundo físico quanto no imaginário colectivo.

Essa invisibilidade não é isenta de consequências. Quando uma sociedade deixa de vislumbrar aqueles que produzem, acaba também por deixar de reconhecer a dignidade do seu trabalho. O trabalho manual torna-se abstracto, distante, quase irreal na consciência social.

Essa transformação é particularmente evidente na percepção das gerações mais jovens. Criados num mundo dominado por serviços, consumo e ideais empreendedores, muitos jovens imaginam-se espontaneamente como gerentes, empreendedores ou fundadores de startups. O trabalho produtivo — industrial, agrícola ou manual — muitas vezes aparece como uma perspectiva desvalorizada, arcaica ou socialmente estigmatizada. Assim, uma sociedade que depende materialmente do trabalho de milhões de operários, técnicos e agricultores testemunha um crescente desprezo na consciência social pelas próprias actividades que tornam possível a existência colectiva.

É sob essas condições que surgiu uma civilização única: uma sociedade que se baseia inteiramente no trabalho de milhões de homens e mulheres, mas que tende a apagar aqueles que produzem a consciência social.

Nunca uma sociedade humana produziu tanto quanto a sociedade capitalista. Mas nunca os produtores foram tão invisíveis. O capitalismo agora soma à exploração dos operários a sua invisibilidade.

No exacto momento em que o planeta se transformou numa aldeia global, aproximando a humanidade, a sociedade capitalista baniu escandalosamente os seus produtores da esfera social e simbólica. É como se a burguesia, ao excluir deliberadamente os verdadeiros produtores de riqueza do âmbito social e simbólico, tentasse repelir os ataques dos seus destruidores históricos.

Mas essa invisibilidade nunca é total.

A história recente ofereceu uma demonstração impressionante disso. A crise do Covid-19 lembrou-nos brutalmente quem realmente faz a sociedade funcionar. Essa invisibilidade começou então a ruir. A pandemia trouxe abruptamente de volta ao foco o que tem sido chamado de "trabalhadores de segunda linha" — operários de fábrica, pessoal de logística, trabalhadores de armazém, agricultores, trabalhadores de manutenção — sem os quais o mundo material não pode funcionar. Durante vários meses, a hierarquia simbólica que estrutura a sociedade capitalista foi abalada: o gerente passou a ser secundário em relação ao trabalhador de armazém. A crise revelou, assim, de forma fugaz, mas clara, quem são os verdadeiros produtores de riqueza social.

Confinados nas suas casas durante vários meses, os gerentes e as classes dominantes descobriram que a sociedade continuava a funcionar e a produzir, demonstrando que a verdadeira sociedade de operários pode perfeitamente prescindir deles.

O capitalismo não explora apenas os operários: ele torna-os invisíveis.

Então, de que é que os produtores estão à espera para se libertarem daqueles que vivem à custa do seu trabalho para retomarem o controle da sociedade que administram?

Khider MESLOUB

Fonte: La civilisation capitaliste = l’occultation structurelle des travailleurs productifs – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Ormuz: O Irão ataca o dólar... estará o petro-dólar a morrer?


Ormuz: O Irão ataca o dólar... estará o petro-dólar a morrer?

20 de Março de 2026 Robert Bibeau

Fonte:  Hormuz: Irão ataca o dólar… estará o petro-dólar a morrer?


Fonte:
Ormuz : L’Iran attaque le dollar… le pétrodollar est-il en train de mourir ? – les 7 du quebec

Título introdutório ao vídeo traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice



quinta-feira, 19 de março de 2026

Salários, emprego e as trombetas desafinadas da burguesia

 


Salários, emprego e as trombetas desafinadas da burguesia 

Publicamos aqui uma tradução dos nossos camaradas na Battaglia Comunista sobre a condição da classe operária em Itália. Grande parte dela será também uma leitura familiar para operários fora de Itália.

Introdução

O artigo seguinte é uma atualização de um artigo anterior publicado no Prometeo n.º 28 em 2022. (1) As declarações da Primeira-Ministra Meloni na véspera do Dia do Trabalhador levaram-nos a "reabrir o assunto." Não que a mensagem de auto-promoção da Meloni fosse diferente do que ela tem vindo a dizer há cerca de dois anos: ou seja, a habitual imagem descarada de uma realidade que não existe, tirando a enxurrada de disparates disparadas pela televisão e pelos ecrãs dos telemóveis. Não só a "Terra Prometida" promovida pelo Primeiro-Ministro não aparece no radar da classe operária, como, pelo contrário, parece mais distante do que nunca.

Este artigo refere-se principalmente a dados do final de Março, mas dados divulgados por volta de 1 de maio apenas confirmam, se não agravam, o quadro sombrio que o proletariado enfrenta. Um número, entre muitos, é o encargo fiscal sobre os recibos salariais, que mais uma vez desmente aquilo que o governo "soberanista" apresenta como uma das suas maiores conquistas para a classe operária: a suposta redução das deduções fiscais (ver abaixo). A própria OCDE, essa "Bíblia" tanto para a direita como para a esquerda capitalista, diz o seguinte:

Em 2024, segundo o relatório "Taxing Wages 2025" da OCDE, o encargo dos impostos sobre o trabalho para um único trabalhador aumentou 1,61 pontos percentuais, atingindo 47,1% dos custos laborais e mantendo-se bem acima da média da OCDE (34,9%). O italiano é o aumento mais significativo entre os países da OCDE. A Itália ocupa o quarto lugar pelo tamanho do calço, ou seja, a diferença entre o custo do trabalho suportado pelo empregador [empreendedor, dizemos...] e o rendimento líquido recebido pelo trabalhador. (2)

A razão para esta aparente incongruência com a propaganda tóxica do governo é facilmente explicável: os (escassos) aumentos contratuais resultantes da renovação de uma parte dos contratos de trabalho desencadearam a taxa de imposto mais elevada, de modo que o que é dado com uma mão é retirado com a outra — pelo Estado, o supremo defensor dos interesses dos empregadores e da burguesia. Nada mau para um governo favorável à classe operária. ...

Emprego: Propaganda versus Realidade

A 1 de Abril, o ISTAT(3) publicou uma actualização sobre as tendências de emprego em Itália. A taxa de desemprego tinha descido para 5,9% em Fevereiro, a mais baixa desde 2007, quando era de 5,8%. Além disso, havia mais 567.000 pessoas empregadas em comparação com o mesmo mês de 2024, elevando a taxa de emprego para 63%. A única nota discordante dizia respeito à população inactiva, que, com um aumento de 0,3%, atingiu os 32,9%. Como é bem sabido, "pessoas inactivas" são definidas como aquelas que, apesar de não terem emprego ou estudar, já não procuram trabalho porque foram desencorajadas a fazê-lo.

No geral, portanto, esta parece ser mais uma medalha que o governo maravilhoso pode prender no peito, excepto que outros dados divulgados alguns dias antes fazem com que a medalha corra o risco de se assemelhar a uma piada do Dia das Mentiras contra a classe operária. De facto, na última semana de Março, primeiro a OIT e depois o ISTAT divulgaram dois documentos que rapidamente esvaziaram a vulgaridade do governo.

Comecemos pelo segundo, o relatório ISTAT (Condições de Vida e Rendimento Familiar), que, essencialmente, não diz nada de novo ou sensacionalista, mas confirma uma tendência de longa data que está a afectar gradualmente milhões de pessoas da classe operária que veem as suas condições de vida piorarem. Os números mostram que, em 2024, 13.525 milhões de pessoas estavam em risco de pobreza (para além dos quase seis milhões que sobrevivem em pobreza absoluta), ou seja, 23,1% da população, comparado com 22,8% em 2023. Estão em risco de exclusão social — como regista banalmente a linguagem estatística fria — pois, simplesmente, mesmo que trabalhem, têm dificuldade em chegar ao fim do mês (mesmo quando o fazem sem se endividar), porque os salários são baixos, muitas vezes nem remotamente suficientes para sobreviver semana após semana, mesmo quando cumprem as cláusulas dos contratos nacionais. O contrato de segurança privada, assinado—nem é preciso dizer—pelos sindicatos, é notório, prevê um salário por hora bem abaixo do limiar de €9 por hora indicado como salário mínimo viável. Mas mesmo que trabalhe num sector que ofereça salários hora mais elevados, pode estar muito perto da pobreza se o emprego ficar preso às muitas formas de trabalho legal ou ilegal e precário. Este tipo de laço aperta o pescoço de milhões de operários, predominantemente mulheres, jovens e imigrantes.

Não é por acaso que são os segmentos mais desfavorecidos (ou seja, esmagados) da classe operária, um facto que qualquer inquérito sobre emprego, de onde quer que venha, regista regularmente. Em suma, o emprego é o mais alto desde o virar do século — como disse a primeira-ministra, com o seu habitual desprezo pelo ridículo — mas estes são geralmente "empregos de merda", para usar o termo coloquial: salários muito baixos, inseguros, onde a opinião dos patrões não tem limites.

Além disso, e mais uma vez, o aumento "espectacular" do emprego não se deve aos poderes milagrosos de Meloni, mas faz parte de outra tendência internacional, certamente europeia, que acelerou há pelo menos uma década. Em 2014, o desemprego na Zona Euro era de 12%, dez anos depois era de 6,5%, o que significa, segundo o instituto que forneceu os dados, mais 20 milhões de empregos. Então, tudo bem? Depende de como se vê. Do ponto de vista dos patrões, tanto "públicos" como privados, sim, mas do ponto de vista da classe operária, certamente menos. Na verdade, o que importa não é a quantidade, mas a qualidade do emprego, que é geralmente inversamente proporcional à primeira. A burguesia mais "consciente", digamos, ou aqueles sem interesses eleitorais a proteger, notam isto, também porque está ali para todos verem: "A Europa avançou para um modelo ligeiramente mais americano, onde todos têm um emprego, mas um emprego podre." Este emprego "podre" caracteriza-se por precariedade e baixos salários, tanto à hora como mensais, devido à redução forçada do total de horas de trabalho:

'Minijobs' na Alemanha, contratos de horas flexíveis, trabalhadores em plataformas de entrega ao domicílio (Deliveroo, Uber Eats, etc.)... Por todo o Velho Continente, as reformas do mercado de trabalho multiplicaram-se, com o objectivo de simplificar os despedimentos [o Jobs Act, portanto, não é uma prerrogativa italiana], reduzir o apoio aos desempregados e facilitar as obrigações dos empregadores.(4)

O mercado de trabalho italiano e as pressões políticas que o governam não são excepção a este quadro. Isso é de esperar, dado que ambos são resultado da lógica do capital e, hoje, da sua crise estrutural que se prolonga há décadas. Em suma, trata-se da aplicação burguesa de um antigo lema do movimento laboral, principalmente numa vertente radical-reformista: "Menos trabalho, trabalho para todos." Para além do amargo sabor de piada, não é surpreendente que esta redução forçada de horas trabalhadas seja acompanhada pelo fenómeno crescente de empregos duplos ou até triplos na Europa — tal como nos EUA — para garantir um salário digno. Em resumo, para reiterar mais uma vez, a maior taxa de emprego obtém-se precisamente através da compressão dos salários e do agravamento das condições de trabalho, ou seja, pela exacerbação da exploração, tudo em detrimento das ilusões reformistas.

Além disso, há outro aspecto importante que ajuda a explicar o aumento do emprego, e é outro indicador das dificuldades com que o capital tem lutado há mais de meio século. Este é o chamado "inverno demográfico", ou seja, o declínio progressivo dos nascimentos nas últimas décadas, juntamente com o envelhecimento da população. São duas faces da mesma moeda, talvez mais pronunciadas em Itália,(5) mas um fenómeno presente em todas as regiões do chamado capitalismo avançado.

Amalgamar o "inverno demográfico" com a queda da taxa de lucro — a raiz das dificuldades — pode parecer um exagero ideológico, mas, ao examinar mais de perto, a relação emerge de forma mais clara. Para além das indiscutíveis mudanças "culturais" das últimas décadas, a diminuição da taxa de natalidade está intimamente ligada tanto à progressiva redução dos serviços sociais — a depredação dos salários indirectos — como ao aumento da insegurança no emprego com os salários baixos, se não muito baixos, como referido acima. (Embora salários baixos não sejam prerrogativa dos precários.) As mulheres são especialmente afectadas pelo trabalho involuntário a tempo parcial, algo que obviamente impacta negativamente a possibilidade de estabelecer as condições mínimas para "começar uma família", como costumavam dizer.

Para além de serem evidentes, existem inúmeros estudos académicos "oficiais" que demonstram como a crise do processo de acumulação é um obstáculo à própria reprodução da força de trabalho.

A longa citação que se segue descreve o dilema em que muitos casais se encontram, muitas vezes mesmo quando ambos estão a trabalhar:

O rendimento de um casal operário com uma criança de um ano pode não ser suficiente para cobrir os custos de habitação, alimentação, transporte e creche. Isto chama-se armadilha dos dois rendimentos(6) e torna-se cada vez mais comum [...] para famílias de baixos rendimentos onde ambos os pais estão empregados, e particularmente na faixa média, os custos cresceram mais rapidamente do que o rendimento total da família desde o final da década de 1970. Por outras palavras, o poder de compra dos operários diminuiu. (7)

Em muitos casos, várias formas de assistência social às famílias são fundamentais, mas, desnecessário dizer, não são suficientes para contrariar o ataque de décadas dos capitalistas ao proletariado, um ataque tão intenso que provoca um colapso da taxa de natalidade. É precisamente a burguesia, agente do capital, que também se opõe à vida a partir desta perspectiva. Para dar outro exemplo, é notório que os empreendedores (chefes), antes de contratarem uma mulher, frequentemente a intimidam perguntando se pretende ter filhos, ou fazem-na assinar um formulário de demissão em branco, para a poderem despedir sem complicações burocráticas caso engravide.

No entanto, ainda mais do que o "inverno demográfico", embora real, há outro elemento que explica o aumento do emprego em Itália: deve-se quase exclusivamente ao facto de os maiores de cinquenta e sessenta anos serem forçados a continuar a trabalhar porque as várias reformas das pensões têm acorrentado cada vez mais pessoas ao "remo" das galés dos empregadores (nomeadamente, os do sector público). Para dar alguns números: "Em Fevereiro, o número de pessoas empregadas aumentou 47.000 em comparação com Janeiro e atingiu um novo recorde de 24.332 milhões, enquanto, em termos anuais, o crescimento é de 2,4%, equivalente a +567.000 novos empregos." Mas o "aumento de 567.000 pessoas empregadas em comparação com Janeiro deve-se a +542.000 de pessoas com mais de 50 anos e 52.000 mais jovens entre os 15 e os 24 anos estarem empregados. Os principais grupos em idade activa estão a diminuir em 17 mil pessoas empregadas (35-49 anos) e 10 mil pessoas empregadas (25-34 anos), respectivamente. [...] Além disso [...] anualmente, o emprego feminino está a crescer quase o dobro da taxa (+3,1%) do emprego masculino (+1,8%), mesmo que a taxa de 54,2% permaneça cerca de 13 pontos abaixo da média europeia". (8)

O inefável Ministro dos Transportes, cuja simples menção nos deixa enjoados, construiu a sua carreira política sombria com a promessa de abolir as piores — mas em linha com as anteriores — reformas das pensões. Entretanto, escusado será dizer, o desmantelamento da lei "Fornero"(9) desapareceu sem deixar rasto e, de facto, existe um risco real de que a idade de reforma aumente ainda mais.

Finalmente, e quanto à abolição do chamado rendimento dos cidadãos, que eliminou o apoio ao rendimento, ainda que modesto, para 800.000 indivíduos/unidades familiares?

Estatísticas "Contraditórias" Não Apagam os Dados Subjacentes

O documento da OIT sobre os salários mundiais(10) quase parece ter preparado o terreno para o documento ISTAT, porque aqui também, o panorama salarial em Itália choca com o sorriso triunfalista exibido descaradamente — obviamente — por aqueles que hoje estão sentados nos bancos da maioria, mesmo tendo feito nada senão pegar no testemunho dos seus antecessores.

Segundo a OIT, entre 2008 e 2024, os salários em Itália caíram 8,7% (o pior número), comparando, diz-se, com um aumento de 5% em França e 15% na Alemanha. Especificamente, após a forte queda entre 2009 e 2012, na sequência da crise dos subprime, os salários registaram uma queda de 3,3% em 2022 e 3,2% em 2023. Só em 2024 foi registado um aumento de 2,3%, mas foi insuficiente para recuperar as perdas dos anos anteriores. Portanto, assumindo que estes dados estão correctos, o chamado corte das contribuições fiscais (originalmente iniciado por Draghi) nem sequer serviu para travar a queda salarial, revelando-se assim pelo que é: uma "pequena ajuda", sim, mas para os empregadores, que evitam gastar esse (pouco) dinheiro para aumentar os salários. O crescimento em 2024 não pode ser explicado pelo "corte", mas deve-se a outras razões. A primeira é que muitos contratos foram renovados por serem "acessíveis", ou seja, compatíveis com a rentabilidade — embora com atrasos consideráveis, enquanto mais de 50% da força de trabalho (aproximadamente sete milhões de pessoas) ainda aguarda renovação. Aliás, quase se poderia dizer que, se o aumento proposto pelo governo para os funcionários do sector público for de 6%, seria melhor não se preocupar em negociar: pelo menos evitaria ser mantido cativo por um governo tão preocupado com a classe operária!

Outro elemento igualmente importante, talvez ainda mais, é a queda da inflação, que no período de dois anos de 2022-23 ultrapassou os 17% (certos dados mostram quase 20%); mas, no final, o impacto nos salários tem sido mais severo, dado que o índice IPCA sobre o qual se calculam os aumentos salariais exclui o preço do combustível, gás e electricidade, despesas que estão longe de ser insignificantes, como todos sabem. Portanto, a classe operária italiana (incluindo os imigrantes, obviamente) parece ter sofrido a maior perda, enquanto noutros países, como já mencionado, os salários parecem ter realmente aumentado. Uma oportunidade de ouro para o reformismo radical acusar a classe dominante italiana — isto é, a burguesia e o seu pessoal político voraz e charlatão — de particular mesquinharia em comparação com os seus homólogos estrangeiros. Certamente não negamos que o ataque aos salários tenha sido severo, até particularmente severo, mas não estamos totalmente convencidos pelo aumento de que outros segmentos da classe operária mundial parecem ter beneficiado. Embora existam, sem dúvida, especificidades em diferentes áreas geográficas, o sistema capitalista domina o mundo inteiro, assim como a sua crise de décadas. É precisamente esta crise que força os ramos "nacionais" da burguesia mundial a adoptar a mesma estratégia em relação ao proletariado e, se em certas partes do mundo os salários aumentaram — partindo de níveis muito baixos, senão mínimos — noutras, particularmente no "centro", seguiram na direcção oposta. Neste artigo, não vamos aprofundar as razões deste fenómeno nem referir-nos às nossas publicações. Aqui, basta recordar que, desde o final da década de 1970, a quota dos salários no PIB global tem vindo a diminuir de forma constante, enquanto, inversamente, a dos lucros tem aumentado, confirmando assim que salários mais baixos são o factor mais imediato e eficaz que contrabalança a diminuição da taxa média de lucro. Alguns dados que confirmam esta tendência já são apresentados no artigo da Prometeo citado na introdução. Aqui, para confirmar que nada mudou — nem poderia mudar — referimo-nos a dois gráficos(11) desenhados por uma economista do BCE (Isabel Schnabel), que mostram, mais uma vez, como a participação dos salários no PIB está a diminuir de forma constante, enquanto a dos lucros segue a tendência oposta. Além disso, o declínio da "quota salarial" é paralelo ao da "densidade sindical", ou seja, o declínio progressivo da adesão sindical e das greves. O gráfico é acompanhado pela observação, em certos aspectos correcta, de que, dada a perda de força do sindicato, os salários não podem deixar de diminuir.

Devemos acrescentar, no entanto, que a crise do capital, que levou os empregadores a atacar a classe operária de frente, reduziu de facto o peso dos sindicatos como resultado da dramática convulsão e, no Ocidente, da dispersão de grandes concentrações de operários que alterou a composição da classe operária. No entanto, os sindicatos continuam a ser um aliado valioso para os patrões, como no passado. De facto, os sindicatos apoiaram em grande parte a ofensiva burguesa, paralisando ou limitando uma verdadeira resposta "operária" (no sentido mais amplo), para não comprometer a "coesão social" — ou seja, a paz social fundada na subjugação do proletariado e da "economia do país", isto é, do capital. Assim, o "mistério" das estatísticas de aumento salarial da OCDE desde o final de 2022 mantém-se. Na altura, disputas "industriais", difíceis de definir como baseadas na classe, excepto com mil distinções, acompanharam o crescendo da ofensiva dos empregadores e do Estado. Chefes como benfeitores? Para eles próprios, certamente, e de facto as estatísticas internacionais, incluem executivos e gestores até aos mais altos níveis entre os "empregados", cuja "compensação" estratosférica esconde a queda dos salários, sem a qual pareceria, como de facto é, ainda mais em benefício exclusivo do capital e dos seus responsáveis.

Precisamos de compreender exactamente quais são os critérios metodológicos para estes inquéritos, porque correm o risco de gerar confusão em vez de clareza. Voltemos ao documento da OIT, cuja linguagem é algo desconcertante. Por exemplo, a introdução afirma que há "crescimento dos salários reais a nível mundial a partir de 2022 [mas] os salários reais em muitos países ainda não recuperaram a perda de poder de compra causada pela crise do custo de vida." Isto levanta imediatamente a questão: "Pode haver crescimento, mas que tipo de crescimento real é se não recuperou o que se perdeu anteriormente?" Considerações banais? Talvez, mas é como celebrar um funeral bonito.

No entanto, estes não são os únicos dados que levantam algumas questões, pois a página 14 afirma que "Com menos de 1% dos trabalhadores classificados como baixos rendimentos, Itália é um dos países com menor desigualdade salarial." Esta é uma afirmação ousada, tendo em conta que outras investigações académicas e, como é óbvio, reformistas apresentam números bastante diferentes. Uma digressão antes de continuar: por "baixos rendimentos", alguns institutos de investigação referem-se a "aqueles com rendimentos abaixo de 60% da mediana nacional (líquido de transferências sociais)"(12) e, segundo a Eurostat, em Itália este valor é "9%, acima dos 8,7% registados em 2023." (13) Para a OIT, no entanto, na página 15, a definição refere-se a "aqueles que ganham menos de 50% do salário mediano por hora." Esta indicação dos salários por hora é importante porque fornece uma referência específica, em contraste com inquéritos que registam o aumento da quota/massa salarial, sem especificar se isso se deve a um aumento das horas trabalhadas ou do número de empregados (mesmo que seja de baixos salários e redução do tempo). Neste último caso, pode haver um aumento da massa salarial mesmo na presença de salários baixos, abaixo do valor da força de trabalho. Dito isto, mesmo os dados da Eurostat (assim como a OIT) parecem não concordar com outro estudo conjunto sobre "Trabalho e Salários em Itália", segundo o qual a percentagem de trabalhadores pobres é maior e, como era de esperar, tem "uma forte conotação de género: a percentagem de trabalhadoras de baixo salário (19,2%) é quase o dobro da dos homens (10,5%)." (14) A maior prevalência de baixos salários entre a força de trabalho feminina — uma força histórica do capital, que utiliza formas de opressão com raízes milenares em seu benefício — acrescenta mais uma peça ao quebra-cabeça do crescimento do emprego vangloriado pela primeiro-ministro. Este crescimento afecta, em termos percentuais, mais os homens do que as mulheres, o que nos remete de volta às considerações “estranhas” do relatório da OIT. Na página 15, o relatório da OIT identifica correctamente a disparidade salarial que afecta as mulheres: "Quase 52% dos trabalhadores de baixos salários são mulheres. Em Itália, as trabalhadoras representam 43,2% de todos os trabalhadores empregados. Esta proporção sobe para 51,9% entre os trabalhadores de baixos salários." Até agora, tudo bem (por assim dizer), mas depois o documento afirma que "entre os países de rendimentos elevados, a sobre-representação de trabalhadoras na faixa inferior da distribuição salarial é mais modesta em Itália do que a média dos países deste grupo, estimada em 55,9%." Depois de afirmar que esta "sobre-representação" afecta todos os países do mundo (um facto bem conhecido), na página 16 diz: "A diferença salarial de género em Itália é de 9,3%, uma das mais baixas entre os países da União Europeia", onde se situa nos 14,3%. Agora, mais uma vez, é natural apontar a discrepância com outros dados (INPS 2022) que mostram uma diferença de €7.300 entre o salário anual médio de homens e mulheres (€24.500 contra €17.300), ou seja, aproximadamente 30%, o que se reflecte obviamente nos "benefícios de pensão, que são em média 36% mais baixos". (15)

No meio desta selva de dados, o facto subjacente, declarado ou não, permanece que o chamado crescimento salarial, vangloriado por vários políticos, não recupera o que se perdeu nos últimos três ou quatro anos. Na melhor das hipóteses, os salários — ou melhor, o proletariado — têm de acompanhar o custo de vida. Na maioria das vezes, têm de travar uma batalha de rectaguarda que pelo menos tenta limitar os danos. Segundo a OCDE, no final de 2024 os salários em Itália eram 7,2% mais baixos do que nos primeiros quatro meses de 2021; mas na República Checa estavam a -11,8% e na Suécia a -8,6%. (16) No mesmo período, a Zona Euro como um todo registou -4% e a "média entre os 38 países da organização regista -0,6%". (17)

Se Atenas chora, Esparta não ri, e se incluirmos a Alemanha em "Esparta", segundo outros institutos de investigação, a situação pouco se assemelha aos +15% reportados pela OIT.

Num artigo publicado no seu blogue a 22 de Fevereiro, o economista Michael Roberts descreve a situação da seguinte forma:

Os salários reais na Alemanha mantêm-se abaixo dos níveis pré-pandemia. Um quarto dos alemães tem rendimentos insuficientes para sobreviver, segundo o Instituto Económico Alemão ... O declínio da economia alemã expôs a questão subjacente de um mercado de trabalho 'duplo', com toda uma camada de trabalhadores temporários a tempo parcial para empresas alemãs com salários muito baixos. Cerca de um quarto da força de trabalho alemã recebe agora um salário de 'baixo rendimento', usando uma definição comum de alguém que é inferior a dois terços da mediana, o que é uma proporção superior à dos 17 [talvez 27?, ed.] Países europeus, exceoto a Lituânia. (18)

O que há a dizer, a não ser que soa ao relatório do ISTAT do final de Março?

O factor que piorou as condições do proletariado em Itália, Alemanha e noutros locais é a inflação, amplificada pela especulação. Agora, para além disto, há uma economia de guerra que agrava o ataque de décadas desencadeado pelos patrões contra os trabalhadores assalariados que, como um economista da OCDE modestamente reconhece, estão a mostrar "uma atitude responsável nas exigências salariais." (19) Por outras palavras: a habitual política derrotista e cúmplice do sindicalismo em relação ao sistema capitalista, também conhecida como "o bem do país."

Esperar que os sindicatos tirem a classe da situação difícil que surge dos estudos burgueses e, acima de tudo, que ela vivencia diariamente, é como pedir ajuda ao cocheiro que nos está a levar para o cadafalso.

CB
Battaglia Comunista
16 May 2025

Notas:

(1) leftcom.org

(2) Claudio Tucci, Porque i salari in Italia restano bassi? Inflazione, cuneo fiscale e produttività, Il Sole 24 ore+, 2 maggio 2025.

(3) Istituto Nazionale di Statistica (Instituto Nacional de Estatística)

(4) En Europe, le grand chambouement du marché du travail, lemonde.fr

(5) "entre 2013 e 2023 ... No grupo etário dos 15 aos 34 anos [...] o número total de jovens passou de 12,9 para 12 milhões (-927 mil) e o número de adultos entre os 35 e os 49 anos diminuiu 2,6 milhões (de 14,2 para 11,6 milhões). Mas, no mesmo período, o número de adultos com mais de 50 anos aumentou 1,9 milhões, de 11,8 para 13,7 milhões. Neste grupo etário, existem contratos mais permanentes", Giorgio Pogliotti, Lavoro, stanno davvero aumentando i posti stabili in Italia?, Il Sole 24 ore+, 14 de Março de 2025

(6) Se ambos os pais trabalham e não têm apoio dos avós, não podem cuidar da criança, por isso uma delas, normalmente a mulher, é forçada a deixar o emprego ou têm de pagar a outra pessoa para cuidar da criança. Em todo o caso, o rendimento familiar é significativamente reduzido...

(7) Marianna Filandri, Lavorare non basta, Laterza, 2022, p. 29. Na página 30, ela continua a dizer que, "Em 2020, segundo o ISTAT, a presença de um menor no núcleo [familiar] aumentou a probabilidade de estar em pobreza absoluta de 7,7 para 11,5%".

(8) Giorgio Pogliotti, Lavoro, l'occupazione in Italia cresce grazie agli over 50: ecco perché, Il Sole 24 ore+, 2 de Abril de 2025

(9) A lei de 2012, nomeada em homenagem a Elsa Fornero, então Ministra do Trabalho, transferiu os trabalhadores para um regime de contribuição definida, deixou de indexar pensões acima de um determinado nível de rendimento para a inflação e aumentou a idade de reforma para 67 anos. O objectivo era angariar liquidez e tranquilizar os mercados sobre o compromisso com a disciplina dos gastos na terceira maior economia da zona euro. Tudo isso agravou as condições dos operários em relação ao capital.

(10) Relatório Global sobre Salários 2024-25: A desigualdade salarial está a diminuir globalmente?, ilo.org Para estatísticas sobre Itália, Le tendenze dei salari e delle disuguaglianze salariali in Italia e nel mondo, ilo.org

(11) x.com

(12) Patrizia Pallara, Poveri pur lavorando: lo dice Eurostat, collettiva.it, 28 de Abril de 2025.

(13) Pallara, loc. cit.

(14) Rinaldo Evangelista e Lia Pacelli, Lavoro e salari in Italia, in Menabò n. 236, Abril de 2025.

(15) Esmeralda Rizzi, Diferença salarial de género: una discriminazione che não si ferma, collettiva.it, 15 de Fevereiro de 2025.

(16) Giorgio Pogliotti, Stipendi reali, com'è messa l'Italia rispetto agli altri paesi europei?, Il Sole 24 ore+, 27 de Março de 2025

(17) Il Sole 24 ore+, loc cit

(18) thenextrecession.wordpress.com

(19) Il Sole 24 ore+, loc cit.

Terça-feira, 17 de Março de 2026

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Fonte: Wages, Employment, and the Out-of-Tune Trumpets of the Bourgeoisie | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice