Romeu e Julieta
na sua versão wahabita
Nota do editor www.madaniya.info Arábia Saudita / Decapitação: Romeu e Julieta
na sua versão wahabita Da decapitação...
Por: René Naba - em: Saudi Arabia
Politics - em 7 de Julho de 2015
Nota do editor www.madaniya.info
Arábia Saudita / Decapitação: Romeu e
Julieta na sua versão wahabita
Da decapitação como
modo de regulação social.
Cem pessoas foram decapitadas no
primeiro semestre de 2015 na Arábia Saudita por crimes de direito comum, um
recorde mundial absoluto de todos os tempos, sem o menor protesto por parte dos
aliados da dinastia wahhabita: os Estados Unidos, que albergam a sede das
Nações Unidas; a França, a pátria dos Direitos Humanos; e o Reino Unido, a
pátria do Habeas Corpus, enquanto, para dar resposta às suas necessidades, o
Reino lançou um concurso público para o recrutamento de novos carrascos. Relato
de uma decapitação.
Título original do artigo: A virilidade da dinastia wahabita e a
honra manchada de sangue,
Jaafar Al Bakli (escritor, Tunísia), versão francesa adaptação: René Naba
para madaniya.info
http://www.al-akhbar.com/node/222003
Preâmbulo do autor:
- O presidente egípcio Anwar Sadat ajudou a
preparar o filme "Assassinato de uma Princesa", que foi exibido
em Maio de 1980. Foi ele quem escolheu Soussane (Suzanne) Badr para
interpretar o papel da princesa decapitada. Salah Jahine, cartoonista e
argumentista egípcio, desempenhou um papel a pedido do presidente egípcio,
enquanto na altura estava confinado a filmes de humor tolo como
"Khali Balak Min Zouzou" (Cuidado com Zouzou).
- Maomé foi o filho mais violento, teimoso e reactivo
dos filhos de Abdel Aziz, o fundador do Reino. Por isso, era referido pelo
apelido de Abu Al Charreyne, "o pai dos dois males".
In Memoriam: O Trágico
Fim dos Amantes de Verona na sua Versão Saudita
Relato do dia de sexta-feira, 17 de Julho de 1977, em Jeddah:
«Os soldados sauditas
saíram a correr do seu veículo e posicionaram-se em círculo, formando um cerco
hermético, de modo a bloquear todo o acesso à praça pública, situada junto ao
parque de estacionamento próximo do edifício «Al Mamlaka» (O Reino), em Jeddah,
paralisada sob um sol escaldante. Era meio-dia daquela sexta-feira, 15 de Julho
de 1977.
Os soldados começaram
então a dispersar os curiosos que começavam a aglomerar-se à volta da praça,
pressentindo que algo estava para acontecer. De repente, as portas de um camião
abriram-se abruptamente. Duas pessoas algemadas foram tiradas à força, com
brutalidade. Dois jovens.
·
O jovem estava atordoado, em pânico. Vestia uma jallabiya suja, rasgada na
zona do peito.
·
A jovem… Os seus tremores eram perceptíveis através da sua longa abbaya
preta. Ambos estavam perturbados… Como duas presas presas na armadilha do seu
predador.
Os soldados arrastaram
o jovem para o meio do círculo formado na praça. Ele debatia-se e resistia-lhes
com obstinação, apesar das algemas que o mantinham imobilizado. A jovem, sem
forças, lançava gritos sem voz, ajoelhada ao seu lado… À espera do senhor da
morte.
1- O Carrasco
Então, surgiu um homem negro de grande
estatura, com um rosto antipático e marcado pela desgraça. Esbelto e ágil como
uma raposa, aproximou-se por trás do casal ajoelhado. Na sua mão, brilhava sob
os raios do sol a lâmina de uma espada larga e afiada.
O jovem, em lágrimas, clamava pela sua
inocência. Ao seu lado, a jovem senhora, com a garganta seca e o olhar perdido.
A morte voltou a rondar. Atrás do casal.
Nas suas costas. Brandindo a sua arma, girando-a, o carrasco posiciona-se à
altura da cabeça do jovem curvado, ajoelhado e acorrentado. Fixa então a ponta
da sua espada na parte inferior das costas do jovem, que se arqueia
imediatamente devido à dor da punhalada. A sua nuca fica tensa, rígida, com as
veias cheias de sangue, como se estivesse pronta para a decapitação.
O homem negro empunha então rapidamente
a sua espada e abate-a sobre a nuca esticada. Com um golpe de espada, corta as
veias cheias de sangue. As veias explodem e salpicam sangue no rosto e no corpo
do jovem, bem como nas roupas do carrasco.
A ponta da espada na
parte inferior das costas era tão dolorosa que o corpo amarrado endireitou-se
com vigor, como se o condenado, apesar da dor violenta, tentasse levantar-se
para fugir.
Apesar da violência do
golpe de espada, a cabeça não foi decapitada. O carrasco desferiu imediatamente
um segundo golpe… A cabeça separou-se então do corpo, rolou como uma bola antes
de parar de repente, encharcada de sangue… Com os olhos esbugalhados e bem
abertos, a língua para fora da boca.
O corpo permaneceu por
um momento imóvel, de joelhos, tomado por um tremor. Depois inclinou-se antes
de tombar, cair e ficar imóvel.
A jovem ficou
paralisada perante aquele espetáculo. Um grito agudo escapou-lhe da garganta
quando o carrasco abateu a espada. Ficou instantaneamente imóvel, como
embalsamada.
2- O pai da princesa
Vestido com uma
dichdecheh branca, com o bigode tingido e óculos escuros a cobrirem-lhe todo o
rosto, um homem idoso e imponente fez então a sua entrada em cena. Aproximou-se
do círculo da morte e parou exactamente à altura da jovem senhora. Ela voltou o
olhar na sua direcção e murmurou algumas palavras, como se implorasse pela sua
clemência. Os óculos, maiores do que o rosto, ocultavam qualquer sinal de
emoção.
Os dedos trémulos
deslizaram então até ao cinto para de lá retirar um revólver. O olhar severo
mergulhou no olhar desesperado da jovem e disparou, sem hesitação, contra a
cabeça juvenil.
3- A princesa
Ela tinha 19 anos
naquele dia e chamava-se Macha’el Bint Fahd Ben Mohamad Ben Abel Aziz. O seu
suposto amante, decapitado diante dos seus olhos, chamava-se Khaled Al Mohalhal,
sobrinho materno do General Ali Al Chaer, embaixador da Arábia Saudita no
Líbano e, posteriormente, ministro da Informação do Reino.
O homem que alvejou a
princesa foi o seu próprio pai. Um parente próximo, segundo se afirma,
tinha-lhe atribuído esta terrível missão… «Lavar a mancha da vergonha com
sangue».
4- O avô da princesa:
Abou Al Charreyne "O pai dos dois males"
O avô da princesa, Mohamad, era
conhecido pelo apelido de Abou Al Charreyne, «O pai dos dois males», devido à
sua impetuosidade. Segundo testemunhos (1), ele próprio tinha insistido para
que o seu próprio filho, o pai da princesa, executasse a sua neta.
Mohamad era, na altura, presidente do
conselho de supervisão da família reinante, encarregado de resolver os litígios
no seio da dinastia, na sua qualidade de filho mais velho de Abdel Aziz ainda
vivo. Mohamad era também o irmão mais velho do rei Khaled, na altura rei da
Arábia, a quem se tinha dedicado, cedendo-lhe a sua ordem de sucessão para
permitir que o seu irmão mais novo reinasse em seu lugar. Quarto filho do rei
Abdel Aziz — depois de Turki, falecido ainda jovem, e de Saoud e Faysal, que
chegaram a reinar —, Mohamad, o mais violento, o mais teimoso e o mais
impetuoso dos filhos do rei, não temia ninguém.
Por essa razão, foi apelidado de Abou Al
Charreyne, «Pai dos dois males». O próprio Saoud, na época em que era príncipe
herdeiro, sofreu muito com a grosseria de linguagem do seu meio-irmão. Mohamad
desempenhou, aliás, um papel essencial na revolução palaciana que culminou na
destituição de Saoud, em Novembro de 1064.
Abdel Aziz aproveitou
a brutalidade do seu filho mais novo para lhe confiar, apesar da sua tenra
idade, cargos de comando em conflitos secundários do exército saudita. Aos 15
anos, como recompensa, conquistou o cobiçado cargo de governador de Medina, a
cidade do Profeta, cujo destino viria a presidir durante 40 anos.
5- A sexualidade desenfreada de
Mohamad... Poligamia e homofilia
Para além das disputas familiares a que
estava habituado, Mohamad destacou-se por uma vida sexual desenfreada,
multiplicando casamentos e divórcios a tal ponto que era difícil contabilizar o
número das suas esposas. Cinco delas receberam o título de princesa; as
restantes, a coorte das divorciadas e das abandonadas, voltaram ao anonimato
assim que a separação se consumou. A sua prole está à altura do seu activismo
nesta área: 29 filhos, 17 rapazes e 12 raparigas.
Para além da poligamia, Mohamad
demonstrou grande atracção pela homofilia, um novo mundo que descobriu por
ocasião da sua primeira estadia em Londres, em Maio de 1937. Com 27 anos,
Mohamad acompanhava o príncipe herdeiro Saoud para representar o Reino da
Arábia Saudita nas cerimónias de entronização do rei Jorge VI.
É costume que a coroa britânica receba
com deferência os seus convidados de honra, especialmente os provenientes do
Oriente. Os dois príncipes sauditas não foram excepção à regra, tendo sido alvo
de uma atenção especial.
É também costume os
ingleses identificarem os pontos fracos dos seus anfitriões para os cativar e
colocá-los sob o seu domínio. Foram — e continuam a ser — elaborados relatórios
sobre cada anfitrião antes da sua visita: alguns ficaram deslumbrados com o
fausto da vida em Londres. Os dois príncipes beduínos, por seu lado,
entregaram-se de corpo e alma aos prazeres da vida, nunca antes vistos no seu
país e geralmente proibidos. Mais tarde, graças à bonança petrolífera, a
peregrinação a Londres, Paris, à Riviera e às Ilhas Baleares passaria a ser uma
etapa obrigatória para todos os beneficiários dessa bonança. Um ritual sagrado.
6- Uma dinastia
libidinosa: Rei Saud: 43 esposas, 115 filhos/Rei Abdel Aziz: 38 esposas, 63
filhos
Saud demonstrou uma
clara preferência pelas mulheres, independentemente das circunstâncias,
superando, neste aspecto, todos os seus irmãos. De acordo com os documentos
oficiais, o segundo rei da Arábia casou-se com 43 mulheres, deixando uma prole
numerosa de 115 filhos: 53 rapazes e 62 raparigas.
A atracção pelo sexo parece ter sido a
marca distintiva da dinastia libidinosa dos Al Saoud. Abdel Aziz tinha, assim,
o costume de passar uma noite de amor com uma mulher — uma única noite de amor
—, antes de a dispensar. As mais afortunadas tinham direito a várias noites
consecutivas antes de serem rejeitadas e relegadas ao anonimato.
Nem a esposa do seu irmão Mohamad (2),
nem a viúva do seu irmão Saad, nem mesmo a viúva do seu inimigo íntimo, Saoud
Ben Rachid, governador de Hael, foram poupadas ao seu ardor. Mal tinha
conquistado Hael, quando se apoderou da viúva de Ibn Rachid, Fahida Bint Al
Assi Ben Kleib Ben Chreim Al Rachid, para lhe dar um filho que não é outro
senão… Abdallah, o actual rei da Arábia.
Abdel Aziz honrou assim, sem
interrupção, as suas 38 mulheres, para além de um número incalculável de
desconhecidas, enriquecendo o reino com uma prole de 63 filhos. Um número que não
tem em conta nem os filhos que morreram na infância, nem os nados-mortos.
O mais estranho é que
o rei Abdel Aziz, meio cego, paralítico e em cadeira de rodas, conseguiu a
proeza de continuar a ter filhos: Moukren, Hazloul, Hammoud, Abta e Tarfa são
fruto dos seus amores aos setenta anos, um dos milagres do fundador do Reino
(4).
7- Rei Abdullah: 21
esposas, 63 filhos
A virilidade não se
limita ao pai fundador do Reino. O rei Abdallah, recentemente falecido,
demonstrou as suas grandes capacidades reprodutivas ao gerar, aos 75 anos, um
filho, Bandar, nascido em 1999, da sua esposa, a princesa Haifa El Mehanna.
Bandar é o 63.º filho do rei Abdallah, fruto de 21 esposas. O problema com
Mout’eb (o rei Abdullah) é que sofria de amnésia selectiva. Tinha filhos, mas
esquecia-se de parte da sua prole. Algumas das suas filhas negligenciadas
começaram assim a clamar por ajuda, implorando a Deus, antes de decidirem
recorrer à justiça e aos programas de televisão dos canais europeus (5).
8 - 500.000 dólares
por 15 minutos de conversas com Kristen Stewart e 1 milhão de dólares por uma
noite com Brigitte Nielsen
A obsessão sexual não
era exclusividade dos pais fundadores do Reino. Filhos e netos herdaram os
mesmos impulsos. O seu feito residia na competição a que se entregavam em torno
dos dólares derramados sobre as beldades de Hollywood. Histórias intermináveis.
Inimagináveis. Sobre a sua estupidez e a sua inconsistência.
Harvey Winston conta
que um príncipe saudita lhe ofereceu 500 000 dólares pela honra de conversar
com a sua ídola, Kristen Stewart. A actriz aceitou, mas com a condição de que o
príncipe fizesse uma doação de meio milhão de dólares para o fundo de ajuda às
vítimas do tufão Sydney.
Mark Young, por seu
lado, publicou um livro intitulado «Saudi Bodyguard», no qual este britânico,
há muito destacado para a protecção dos palácios da família Al Saoud, desde
1979, narra as depravacões da dinastia, «os seus desvios, a prostituição a que
alguns se entregam, os roubos e pilhagens, os vícios no álcool, nas drogas e no
jogo». Relatos acompanhados de fotografias que confirmam a sua pertença à
guarda de segurança da família real saudita.
9- A fantasia de
Khaled Ben Sultan e Brigitte Nielsen
A história mais
singular de que Mark Young foi testemunha é a do antigo vice-ministro da
Defesa, Khaled Ben Sultan, antigo contacto saudita do general norte-americano
Norman Schwarzkoff durante a 1.ª Guerra do Golfo (1990-1991) e proprietário do
jornal «Al Hayat».
Fascinado pela beleza
de Brigitte Nielsen, na altura esposa do actor norte-americano Sylvester
Stallone (também conhecido como Rambo), o generalíssimo, segundo o relato de
Young, terá arquitectado vários planos para passar uma noite de amor com a bela
loira dinamarquesa. Chegou ao ponto de oferecer um milhão de dólares por essa
noite que prometia ser escaldante.
10- Abdel Aziz, ou a
transformação de um príncipe de juventude turbulenta num pregador wahhabita
O filho mais novo do Rei Fahd, por sua
vez, apaixonou-se pela actriz de televisão Yasmine Bleeth, de origens judaicas.
Abdel Aziz Ben Fahd gastou com ela uma quantia tão avultada que teria sido
suficiente para erradicar definitivamente o problema das solteironas do Reino.
Companheiro de festas do antigo
primeiro-ministro libanês Saad Hariri, as suas travessuras parisienses
valeram-lhe uma proibição de entrada num grande hotel de luxo da capital
francesa. No final de uma juventude agitada, Abdel Aziz demonstrou contricção e
arrependimento: Deixou crescer a barba e tornou-se pregador wahhabita,
financiador do canal takfirista «Wissal» (o laço).
… O príncipe voltou a colocar o revólver
no cinto depois de ter lavado a mancha de vergonha que manchava a família real
saudita, matando a sua filha com um tiro na cabeça. Depois, voltou-se na direcção
do seu carro sumptuoso, escoltado pelos seus guardas. Os soldados
precipitaram-se para o local onde a jovem princesa tinha caído, banhada no seu
próprio sangue, e cobriram o seu corpo frágil com um cobertor.
Outros soldados apressaram-se a colocar
o corpo num veículo de transporte, enquanto outros se dirigiam para o jovem
decapitado. A hemorragia persistia; ajudaram-se uns aos outros para o
transportar para outro camião… Um soldado estendeu a mão para recolher a cabeça
que jazia não muito longe do corpo: os olhos do decapitado estavam bem abertos,
a língua de fora da boca e o sangue escorria, escorria, escorria.
… Os amantes de
Verona, na sua versão saudita, teriam completado 57 anos em 2015, idade de
serem avós, idade de iniciar os seus netos nas descobertas da vida. Nas
alegrias da vida.
O código beduíno
decidiu de outra forma: a honra manchada deve ser lavada com sangue. Tal é a
lei implacável dos seres lascivos. Uma decapitação e um tiroteio como preço de
um amor juvenil. Um preço exorbitante.
Notas
1- Em 1980, o canal ATV transmitiu um
docudrama britânico intitulado «A Morte de uma Princesa», que narrava o
assassinato da princesa Macha’el e do seu companheiro. A transmissão deste
documentário provocou uma grave crise diplomática entre Londres e Riade. O rei
Khaled ordenou a expulsão do embaixador do Reino Unido na Arábia Saudita, em
resposta a esta «ingerência flagrante da televisão britânica num assunto
familiar saudita». Os actores egípcios que interpretaram as personagens do
filme foram proibidos de permanecer na Arábia Saudita para sempre. A actriz
Suzanne Abou Taleb, que interpretou o papel da princesa, teve de mudar o seu
nome para Saoussane Badr para contornar as consequências do veto saudita.
2- Hussa Bint Ahmad Ben Mohamad Al
Sideiry era uma das esposas de Abdel Aziz. Deu à luz um filho a quem deram o
nome de Saad, que faleceu ainda na infância, o que levou o rei a divorciar-se
da sua esposa. Hussa casou-se em segundas núpcias com o próprio irmão de Abdel
Aziz, o príncipe Mohamad Ben Abdel Rahman. Hussa deu à luz um menino, chamado
Abdallah, filho do seu segundo marido. Mais tarde, mudando de ideias, Abdel
Aziz voltou a sentir atracção pela sua primeira esposa. Ordenou ao seu irmão
mais novo que se divorciasse dela para que pudesse casar-se novamente com ela.
Do seu segundo casamento com a sua esposa Hussa, Abdel Aziz teve 14 filhos (7
rapazes e 7 raparigas), dos quais os mais famosos foram o rei Fahd, o príncipe
Sultan (Defesa), Nayef (Interior) e Salmane (governador de Riade), ou seja, os
três últimos príncipes herdeiros do reino.
3- A união de facto era legal na Arábia
Saudita até 1962. Nessa data, o rei decretou a sua abolição. Assim, as criadas
circassianas, magrebinas, sudanesas e arménias são as mães de muitos príncipes
sauditas. Por exemplo, Bandar Ben Sultan, o antigo «cappo di tutti cappi» do
jihadismo mundial, é filho de uma criada sudanesa, e Moqren, o efémero príncipe
herdeiro de Salmane, é filho de uma escrava iemenita. G. Rives Chandlers,
embaixador dos Estados Unidos na Arábia Saudita (1946-1951), relata nas suas
memórias uma história curiosa sobre o rei Abdel Aziz. Ao perceber que o
diplomata americano vivia solteiro na Arábia, sem a sua esposa, que tinha
ficado nos Estados Unidos, o monarca sentiu compaixão por ele e propôs-lhe uma
das suas criadas como companhia para «alegrar as suas noites». Chandlers recusou
a oferta, naturalmente, mas contou esta história aos seus colegas diplomatas
ocidentais destacados em Jidá.
4- Perto do fim da sua vida, o rei Abdel
Aziz sofria de uma doença grave. As doenças crónicas levaram-no a apresentar
aos médicos americanos, colocados à sua disposição gratuitamente pelo consórcio
petrolífero ARAMCO (Arab-American Company), pedidos improváveis:
1.º pedido: pôr fim à dor aguda que paralisava os seus joelhos ao ponto de causar
perda de mobilidade, forçando-o a permanecer sentado e privando-o de estar de
pé.
Segundo pedido: Restaurar as suas capacidades reprodutivas.
O Dr. A.I. Wait, médico adstricto à
embaixada norte-americana em Jeddah, realizou um exame médico completo
(check-up) a Abdel Aziz. Conseguiu curar a cegueira do rei, causada pelo
tracoma, bem como o reumatismo que lhe paralisava as articulações. Em 1950, o
coronel Wallace Graham, médico pessoal do presidente Harry Truman, constatou
que o rei Abdel Aziz começava a perder as suas faculdades mentais, confinado à
sua cadeira de rodas devido ao reumatismo que o obrigava a permanecer sentado
durante grande parte do dia.
5- Em 2014, eclodiu um escândalo na
Arábia Saudita quando duas filhas do rei, Sahar e Jawaher, alertaram a opinião
pública, através da sua conta no Twitter e de uma entrevista ao canal britânico
«Channel Four», para a sua situação de cativeiro. Em prisão domiciliária em
Jeddah há 12 anos, na companhia das suas outras duas irmãs — Hala e Maha —,
estava-lhes proibido sair de casa sem a companhia dos seus guardas. Desde Março
de 2014, as quatro filhas do rei estão proibidas de sair de casa e privadas de
abastecimento alimentar. Para sobreviver, decidiram contentar-se com uma
refeição por dia, a fim de poupar as suas reservas alimentares. Elas afirmam
que esta decisão foi tomada pelo próprio rei, em retaliação à decisão da sua
mãe, Ounoud Al Fayez, de apresentar «uma queixa contra o seu ex-marido,
guardião dos Lugares Santos», em Estrasburgo, exigindo ao «Rei do Humanismo», segundo
a imprensa saudita, aceder ao pedido das suas filhas de abandonarem a sua
gaiola dourada e se juntarem à mãe, refugiada em Londres.
Versão árabe
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Ilustração
- Cena da
decapitação da Princesa Misha'al Bint Fahd Al Saud e do seu amante a 15 de
Julho de 1977 na praça pública de Deddah.
Fonte: Roméo
et Juliette dans sa version wahhabite - En point de mire
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice
