Guia da Marselha
colonial
René
Naba / 1 DE DEZEMBRO DE 2022 / EM France, Médias
Guia da Marselha colonial
Éditions
Syllepse
Publicação : Setembro de 2022
ISBN : 979-10-399-00-57-7
https://www.syllepse.net/guide-du-marseille-colonial-_r_25_i_909.html
https://guidedumarseillecolonial.org/top
Se Bordéus e
Nantes passaram à posteridade por terem sido os mais importantes portos
negreiros de França, Marselha, «Porta do Oriente», foi o porto de trânsito por
excelência para as possessões francesas ultramarinas: Argel, Tunes, Casablanca,
Dacar, Abidjã, Beirute, Alexandria, Djibuti, Haiphong, Pondicherry, etc.), o
que explica a presença marcante do facto colonial na cidade fócia, que através
das suas ruas glorifica alguns dos mais sinistros personagens, incluindo
famosos traficantes de escravos.
Começando
por Jean Baptiste Colbert. O autor do tão horrível «Código Negro» da
escravatura (1685) beneficia, de facto, não apenas de uma rua com o seu nome,
mas também de uma estação de metro e, sobretudo, de uma Escola Secundária
Profissional, sem dúvida para educar as gerações futuras sobre os seus feitos.
Para ir mais
longe sobre o tema Le Code Noir ou l’Édit sur la Police des Esclaves
#https://www.histoire-pour-tous.fr/histoire-de-france/4117-le-code-noir-ou-edit-sur-la-police-des-esclaves-1685.html
Adolphe
Thiers, o horrível coveiro da Comuna (1871), tem direito a um liceu, situado no
nº 5 da Place du Lycée, no 1.º arrondissement de Marselha, bem no coração do
Bairro Thiers, não muito longe do Vieux-Port. Reúne um colégio, um liceu e
numerosas turmas preparatórias para grandes escolas.
Porém, por
outro lado, a antítese de Adolphe Thiers, em suma, Louise Michel, a musa da
Comuna, dispõe de um modesto jardim, recatado - relegado? - no perímetro
populoso de Belsunce, comumente designado como “bairro árabe”. O seu topónimo,
estabelecido mais de cem anos depois da atribuição do liceu a Adolphe Thiers, é
uma homenagem tardia à heroína da Comuna, que morreu nas proximidades num hotel
do Boulevard Dugommier.
Que uma
instituição dotada de turmas preparatórias para as grandes escolas - a elite
intelectual da nação francesa - seja agraciada com o nome de um horrível
partidário da capitulação – e não da resistência ao ocupante, dá que pensar.
Este facto dá uma ideia da constituição mental
da burocracia francesa….
A crer que
Adolphe Thiers interiorizou no psíquico francês a ideia de capitulação. A tal
ponto que a capitulação parece ter-se tornado o modo operatório do poder
francês. Quatro capitulações em dois séculos: Waterloo (1815), Sedan (1870),
Montoire (1940), Dien Bien Phu (1954); sem contar Trafalgar, a expedição do
México (1861-1867) e Fachoda (1898), um recorde único entre as grandes
democracias ocidentais.
A pátria do
canto para a adesão à Revolução francesa, que se tornou o hino nacional francês
- La Marseillaise -, é uma terra de paradoxo. Pelo menos, essa é a impressão
que se obtém da leitura do «Guide du Marseille Colonial», obra de um colectivo
co-editada pelas Edições Syllepse e Courtechel – Livraria Transit (Marselha).
Para
memória, a «capital marítima do Império francês», que fez a fortuna de grandes
famílias marselhesas, foi palco de duas exposições coloniais, antes de Paris
assumir o papel. E isso poderia explicar a preponderância do espírito
colonialista, se não colonial, da antiga Massília.
A observação
é de grande crueldade: O refluxo do império revela – como uma reprografia de
carbono-14 – os estigmas da colonização... como o refluxo da maré baixa que
espalha o mar devastado nas margens.
Uma revisão dos detalhes, sem que a
lista seja exaustiva:
Assim, a Rua
Paul Frédéric Mollet homenageia o «pacificador» de Marrocos, termo eufemístico
para designar a submissão do reino xerifiano e a sua servidão aos interesses
imperiais de França. Paul Frédéric Mollet, fundador do 1.º REP (Regimento de
Paraquedistas da Legião Estrangeira), está contudo enterrado em Aubagne e não
em Marselha, e o REP foi dissolvido após o golpe dos generais em Argel, em
1961. Os laços extremamente ténues entre Marselha e o general justificam, no
entanto, atribuir-lhe uma rua, se não à sua glória, pelo menos à sua memória em
Marselha e não em Aubagne? A função de Marselha será ser um depósito de lixo da
História?
A Rua Louis Régis foi, por sua vez, assim baptizada em
honra de um opulento negociante da Guiné, ou seja, um explorador das riquezas
deste país da África Ocidental Francesa, um explorador glorificado talvez em
nome da "missão civilizadora da França" e do "papel positivo da
colonização", enquanto a França é vista como um "Fardo de
África". A Guiné, reconhecendo este facto, será aliás o primeiro país a
conquistar a sua independência da França, em 1958, sob a presidência de Sékou
Touré, dois anos antes da descolonização decretada pelo General Charles de Gaulle
e do lançamento da "France à Fric".
Para ir mais neste tema:
https://www.lemonde.fr/economie/article/2014/05/26/elise-huillery-la-france-a-ete-le-fardeau-de-l-homme-noir-et-non-l-inverse_4425976_3234.html
A Rua Alexis
Rostand foi atribuída ao titular de um patronímio famoso, não em homenagem a um
natural da cidade, fabuloso contador das aventuras do Conde de Monte Cristo que
encantou a juventude do Mundo, nem sequer em homenagem a um sábio biólogo, mas
mais banalmente a um banqueiro, acumulador, numa reprodução perfeita em
miniatura do CAC 40: Vice-presidente da Companhia dos Pesquisadores de Ouro -
todo um programa -, Presidente do Banco da África Ocidental, membro do comité
de gestão do Banco da Indochina e de uma infinidade de honorários de presença.
Tal personagem justifica-se como exemplo?
O Chemin
Sainte Marthe, que margeia o 14º arrondissement, não foi baptizado por autarcas
movidos por uma religiosidade exacerbada, mas de forma mais prosaica em
referência ao nome do quartel que serviu de local de trânsito para os
territórios ultramarinos, soldados a caminho da Indochina e da Argélia, duas
memórias dolorosas para o subconsciente francês que poluem o debate público
francês há meio século, alimentadas, ademais, pelos nostálgicos do Império
francês inconsoláveis com a perda da sua antiga glória.
Esta psico-rigidez
nostálgica encontra aliás a sua concretização mais patológica e aberrante na
presença de um «lobby pied-noir» em França, o único país entre os antigos
grandes impérios coloniais ocidentais a dispor de tal grupo de pressão
anacrónico, apesar de quase todos os antigos colonos franceses da Argélia já
terem falecido, 60 anos após a independência desse país. Ao contrário do Reino
Unido, que possuía um império colonial maior do que o da França, onde nunca
existiu um lobby de nostálgicos do Império das Índias ou da África anglófona,
sendo que o Commonwealth representa ainda, com 52 membros, um terço da população
mundial. Ao contrário de Espanha e Portugal, as outras duas potências coloniais
europeias.
Parece insalubre, em termos de coerência intelectual, colocar no mesmo plano a
exploração, a opressão, a despersonalização pluri-secular dos colonizados, a
sua escravização e o tráfico de que foram alvo, e os infortúnios de antigos
colonos, iludidos pela política do seu governo. Os Pieds Noirs são as vítimas
privilegiadas do Estado colonial e não do Estado colonizado.
Para
recordar: A tradição não consiste em conservar cinzas, mas em manter bem uma
chama. (Jean Jaurès).
A rua Auguste Vimar homenageia um caricaturista encarregado da ilustração dos
catálogos das exposições coloniais de Marselha no início do século XX…, através
de caricaturas “racistas”. Com que coerência se reivindica este país que se diz
racional à moda cartesiana ao colocar no índice um humorista franco-camaronês,
Dieudonné, pelas suas provocações racistas, enquanto glorifica “ao mesmo tempo”
um caricaturista gaulês abertamente racista?
O General Michel Mangin, o organizador do massacre do “Chemin des Dames”,
durante a 1.ª Guerra Mundial, na qual 1.400 artilheiros senegaleses foram
dizimados pelo metralhamento alemão, recolherá pelo caminho o qualificativo
infamante de “triturador e carniçeiro de negros” por Blaise Diagne, o primeiro
deputado africano a sentar-se na assembleia nacional francesa.
Mangin será
demitido, sanção pela sua incompetência. No entanto, em Marselha, beneficia não
de uma ruela ou de uma viela, ou sequer de uma rua sem saída, mas de um
BOULEVARD. AH Pobre coitadoooo!: Que disparate.
Sem contar
com as Baumettes, cujo historial prisional é consternador. Ao lado de bandidos
e assassinos, mafiosos e vigaristas, o principal centro prisional de Marselha
abrigou resistentes, independentistas, em suma, todos aqueles que não se
curvaram perante o arbítrio e a injustiça, dos quais aqui se apresentam, a
título de exemplo, alguns dos seus mais ilustres inquilinos: Gérard Avran,
sobrevivente do Holocausto, René Hirschler, rabino, Abane Ramdane (FLN
argelino), Mohamed Boudia, dramaturgo e militante independentista argelino, Ali
Yata, líder do partido comunista marroquino, Mostefa Lacheraf, sociólogo e
homem político argelino, Louise Alcan, escritora e resistente francesa, Mélanie
Berger Voile, costureira militante trotskista e resistente francesa, Jacques
Trolley de Prevaux, almirante e resistente francês, finalmente Bernard Tapie e
Roland Courbis, assim como a mítica Gabrielle Russier, professora, agregada de
letras, que deu que falar na década de 1970 pelos seus amores proibidos na época com o seu jovem aluno e
imortalizada pelo presidente Georges Pompidou.
Uma
ressalva, porém: Marselha orgulha-se de ter criado um jardim público com vista
para o seu lendário Vieux Port, no perímetro do majestoso Pharo, em memória de
Missak Manouchian, líder do grupo de 22 «metecos», resistentes à ocupação
alemã, todos executados pelos nazis, cujo sacrifício foi imortalizado por Léo
Ferré na sua famosa canção «L’Affiche Rouge».
Outra
incongruência, mas esta saudável: a Rue de la Palestine... um nome agora
sacrílego no léxico político francês desde a transposição em França da Lei IHRA
(Aliança Internacional pela Memória do Holocausto), por macronistas
oportunistas paralisados pelo passado colaboracionista de Vichy e com pressa de
se isentarem dele, trocando o anti-judaísmo secular em França por um
anti-arabismo.
Quem sabe:
Que um militante brincalhão de Marselha — nem todos os militantes são
antipáticos, muito pelo contrário, e o activismo é compatível com o humor —
estabeleça agora nesta rua o ponto de encontro de todas as manifestações
pró-palestinianas que tenham Marselha como palco, matará pela ironia a censura
encoberta que se abate em França sobre uma das maiores injustiças do século XX.
Ao fim desta
caminhada não exaustiva, coloca-se uma questão: Por que é que Marselha se
sobrecarrega com tal legado colonial memorial?
Marselha
honrar-se-ia em baptizar uma das suas ruas com o nome de Félix Eboué,
Governador da Guadalupe, primeiro afro-descendente a ter aderido à França Livre
e, por isso, um resistente desde os primeiros instantes da Segunda Guerra
Mundial, ou mesmo de Pape Diouf, primeiro africano a ter dirigido um clube
europeu, concretamente o Olympique de Marselha; ou ainda com o nome de LAMINE
SENGHOR, este senegalês envenenado em Verdun, morto pela França, um dos
responsáveis pela tomada de consciência, nos próprios cais do porto de
Marselha, dos trabalhadores imigrantes ultramarinos da sua condição operária.
Neste sentido, Lamine Senghor, porta-voz do lumpem-proletariado excessivamente
explorado devido à sua condição de colonizado, será o primeiro africano
convidado oficialmente a participar, pelo próprio LENINE, no Congresso da
Internacional Socialista em Bruxelas.
Palavra de
Júpiter: «A França tem uma parte de África em si. A nossa gratidão deve ser
imperecível. Lançarei um apelo aos presidentes das câmaras de França para que
façam viver, através do nome das nossas ruas e praças, a memória dos combatentes
africanos», anunciou Emmanuel Macron, a 15 de Agosto de 2019, em Saint-Raphaël
(Var), durante as comemorações do 75.º aniversário do desembarque na Provença.
Sem dúvida, Marselha, a rebelde, Marselha, a
indómita, saberá mais uma vez sublimar a História de França através da superação
do miasma colonial secular francês. De proceder à limpeza das suas ruas à
maneira da renovação cosmética que imprime aos seus antigos edifícios.
Não uma renúncia, mas uma renovação. Uma conformidade
com a ética do comando e a exemplaridade de um país que afirma ser a
"Pátria dos Direitos do Homem".
Sobre o « papel positivo da
colonização » :
https://www.renenaba.com/a-propos-du-role-positif-de-la-colonisation/
https://www.renenaba.com/le-bougnoule-sa-signification-etymologique-son-evolution-semantique-sa-portee-symbolique/
https://www.renenaba.com/les-colonies-avant-gout-du-paradis-ou-arriere-gout-denfer/
A cristalização das pensões dos
antigos combatentes «morenos» do ultramar: um salário étnico, injusto e cínico
https://www.renenaba.com/les-oublies-de-la-republique/
Quando os artilheiros senegaleses serviam
de cobaia
https://afriquexxi.info/Quand-les-tirailleurs-senegalais-servaient-de-cobayes
Para ir mais longe neste tema sobre
Marselha
https://www.madaniya.info/2021/06/01/de-quoi-marseille-est-elle-le-nom/
https://www.madaniya.info/2018/03/16/le-traumatisme-psychiatrique-algerien-a-marseille/
| Ver no link do artigo original |
René Naba
Jornalista-escritor, ex-chefe do Mundo Árabe e Muçulmano no serviço
diplomático da AFP, depois conselheiro do director-geral do RMC Médio Oriente,
chefe de informação, membro do grupo consultivo do Instituto
Escandinavo de Direitos Humanos e da Associação Euro-Árabe de Amizade. De 1969
a 1979, foi correspondente rotativo no gabinete regional da Agence
France-Presse (AFP) em Beirute, onde cobriu a guerra civil
jordano-palestiniana, o "Setembro Negro" de 1970, a nacionalização de
instalações petrolíferas no Iraque e na Líbia (1972), uma dúzia de golpes de
Estado e sequestros de aviões, bem como a Guerra do Líbano (1975-1990) a
terceira guerra árabe-israelita de Outubro de 1973, as primeiras negociações de
paz egípcio-israelitas na Mena House, Cairo (1979). De 1979 a 1989, esteve à
frente do mundo árabe-muçulmano no serviço diplomático da AFP, depois
conselheiro do director-geral do RMC Médio Oriente, responsável pela
informação, de 1989 a 1995. Autor de "Arábia Saudita, um reino
das trevas" (Golias), "De Bougnoule a selvagem, uma jornada pela
imaginação francesa" (Harmattan), "Hariri, de pai a filho,
empresários, primeiros-ministros" (Harmattan), "As revoluções árabes
e a maldição de Camp David" (Bachari), "Media e Democracia, a captura
do imaginário um desafio do século XXI" (Golias). Desde 2013, é membro do
grupo consultivo do Instituto Escandinavo de Direitos do Homem (SIHR), sediado
em Genebra. Ele também é Vice-Presidente do Centro Internacional Contra o
Terrorismo (ICALT), Genebra; Presidente da instituição de caridade LINA, que
actua nos bairros do norte de Marselha, e Presidente Honorário do 'Car tu y es
libre' (Bairro Livre), que actua na promoção social e política das áreas
periurbanas do departamento de Bouches du Rhône, no sul da França. Desde 2014,
é consultor no Instituto Internacional para a Paz, Justiça e Direitos do Homem
(IIPJDH), sediado em Genebra. Desde 1 de Setembro de 2014, ele é responsável pela
coordenação editorial do site https://www.madaniya.info e
apresenta uma coluna semanal na Rádio Galère (Marselha), às quintas-feiras das
16h às 18h.
Fonte: Guide
du Marseille colonial - Madaniya
Este artigo foi traduzido para Língua
Portuguesa por Luis Júdice


