A Ideologia
Americana: Interseccionalidade Contra a Classe Operária
Os EUA têm sido a maior
superpotência mundial aproximadamente desde a Segunda Guerra Mundial e, embora
o seu estatuto esteja a ser cada vez mais contestado por uma China em ascensão,
a sua supremacia mantém-se intacta por agora. Assim, os debates ideológicos que
dividem a classe dominante americana continuam a ter implicações mais amplas
para o resto do mundo. Uma característica moderna disto tem sido a
identificação da "esquerda" (ou seja, os democratas) com o
"woke" e da "direita" (ou seja, os republicanos) com
políticas "anti-woke", cimentada pela declaração de Trump de que, com
o seu regresso ao poder, os EUA "já não serão woke". À medida que uma
multidão de comentadores reaccionários celebra agora a "morte do
woke", vale a pena repetir que a crítica comunista à política identitária
nas suas várias formas (incluindo a identidade mais bem-sucedida de todas, o
nacionalismo), vem de um lugar muito diferente. Não se trata de criar uma cisão
ainda maior entre operários de diferentes identidades – algo que só beneficia a
classe dominante tanto da esquerda como da direita – mas de encontrar uma forma
de ultrapassar tais divisões através da unidade de classes. Para isso, as
chamadas ideologias "woke" e "anti-woke" são ambas uma
barreira.
Neste contexto, a
integração do conceito de "interseccionalidade" no meio da esquerda
e, em certa medida, na consciência social mais ampla teve um impacto
particularmente tenaz. Hoje, até grupos auto-denominados socialistas e
anarquistas foram forçados a integrá-lo no seu enquadramento. Tal como o
próprio "feminismo", a "interseccionalidade" foi em grande
parte reduzida a uma banalidade para permitir a sua imposição como imperativo
moral – no caso do feminismo, se não és feminista, tens de ser misógino; No
caso da interseccionalidade, se não a subscreves, não deve importar-se com as
várias dificuldades daqueles que experienciam opressões interseccionais. Mas
para compreender a interseccionalidade, temos de ser claros sobre a que nos
referimos: a teoria específica articulada nos estudos jurídicos para expressar
a forma como as pessoas podem ser oprimidas por mais do que uma base (e, por
isso, necessitar de mais do que uma protecção legal dentro do direito burguês).
Isto, claro, nada tem a ver com os objectivos políticos daqueles de nós que
querem acabar com a sociedade capitalista por completo, mas criticá-lo é
convidar à indignação e a acusações de racismo, misoginia, homofobia,
transfobia, capacitismo e assim por diante. Como é que entrámos nesta confusão?
O ponto de partida é o
Partido Comunista dos EUA (CPUSA) nas décadas de 1930 e 40, com a criação do
que hoje se conhece como a teoria da "tripla opressão" por influentes
mulheres negras membros do partido, Louise Thompson Patterson e Claudia Jones.
A ideia de que as mulheres negras sofreram a "triplicar" devido às
opressões de sexo, raça e classe não era nova, e pode ser rastreada até aos
movimentos sufragistas e abolicionistas dos EUA em meados do século XIX,
articulados mais famosamente por Sojourner Truth (Ain't I A Woman?, 1851). A importância das contribuições de Jones e Thompson Patterson,
quase um século depois, é antes a de terem estabelecido o precedente para
sintetizar essas ideias com a doutrina marxista-leninista, tornando esta última
mais aceitável e sustentável num contexto ocidental.
Na década de 1930, o
CPUSA destacou-se pelo seu apoio aos afro-americanos (em particular pela sua
declaração de apoio aos Scottsboro Boys em 1932) e orientou conscientemente a
sua actividade para recrutar membros negros e organizar operários negros. Para
tal, Louise Thompson Patterson foi destacada para intervir nas lutas das
mulheres operárias negras, como as do Mercado de Escravos do Bronx – trabalhadoras
domésticas, predominantemente negras, numa posição de constante precariedade.
No seu artigo de 1936 sobre a sua situação, Rumo a uma Aurora Mais Brilhante, Thompson Patterson descreveu a sua
situação como uma de "tripla exploração" entre mulheres, operários e
negros. Mais tarde, o artigo de Jones de 1949, Um Fim ao Abandono dos Problemas da Mulher Negra, forneceu uma
elaboração mais longa e aprofundada da nova orientação do partido, que afirmava
explicitamente que as mulheres tinham alcançado "novos patamares de
igualdade" na União Soviética e na recém-estabelecida República Popular da
China.
Os seus esforços devem
então ser entendidos no seu contexto como parte do esforço do CPUSA para forjar
alianças com grupos liberais progressistas e integrar operários negros e
femininos no seu círculo, em linha com a política da Frente Popular do Comintern
(e como uma continuação deste após a dissolução do Comintern e a Segunda Guerra
Mundial). Por mais genuína que fosse uma tentativa de corrigir a sua reputação
bem merecida de machismo operário, foi, em todo o caso, um movimento
oportunista para tornar o partido mais apelativo para as pessoas desses grupos,
e para afirmar que o "socialismo" (ou seja, o modelo capitalista de
Estado da URSS e dos seus aliados) se sobrepôs à "democracia"
capitalista liberal do Ocidente no tratamento das mulheres e minorias étnicas.
Na realidade, operando firmemente dentro das leis da ordem capitalista nesta
altura, após cerca de quinze anos de contra-revolução, as próprias políticas da
URSS sobre liberdades civis oscilavam como as de qualquer outro Estado
capitalista, em harmonia com a saúde da sua própria economia. Ao longo das
décadas de 1930 e 40, a URSS implementou várias políticas que visaram,
marginalizaram e até exterminaram minorias étnicas como ucranianos, polacos e
judeus. No mesmo ano em que foi publicado o artigo de Thompson Patterson, a
URSS criminalizou o aborto.
Nova Esquerda: O
Abandono da Classe Operária
Na altura do final da
década de 1960 e da década de 1970, o boom sem precedentes da acumulação, que
tinha sido possibilitado pela destruição provocada pela Segunda Guerra Mundial,
começou a abrandar; ou seja, a rentabilidade começou a cair, e o mundo
experimentou outra enorme vaga de movimentos sociais em que a luta de classes
se manifestou sob a forma de greves e ocupações, por vezes ligadas a movimentos
estudantis e a grandes protestos contra a guerra. Nas universidades, floresceu
uma ala radical da academia, que passou a ser conhecida como a "Nova
Esquerda", liderada por pensadores como os da Escola de Frankfurt,
particularmente Herbert Marcuse. A maior contribuição de Marcuse surgiu nas
páginas do seu Homem Unidimensional (1964), onde defendeu explicitamente o
abandono da classe operária como sujeito revolucionário, com o argumento de que
esta se tinha integrado plenamente na dominação do capitalismo e, portanto, as
"formas tradicionais" de luta contra o capitalismo deixaram de ser
aplicáveis. Segundo Marcuse, a luta em massa já não era possível nos centros
capitalistas avançados porque 'o povo', anteriormente o fermento da mudança
social, 'subiu' para se tornar o fermento da coesão social (p.260). Em vez
disso, Marcuse argumentava que 'o substracto dos excluídos e marginalizados, os
explorados e perseguidos de outras raças e outras cores, os desempregados e
inaproveitáveis' são agora o grupo na sociedade cujos interesses são
inerentemente opostos aos da ordem social existente (p.143). Com o lento
declínio da luta de classes que se seguia a partir da segunda metade da década
de 1970, Marcuse havia fornecido a justificação teórica perfeita para a
esquerda se desvincular da análise de classe.
Conciliando o
Estalinismo e o Liberalismo: O Nascimento da "Política de Identidade"
Por esta altura, grupos
de activistas como o Combahee River Collective (CRC) afirmavam explicitamente
sintetizar o "socialismo" com o feminismo negro (o próprio uma
síntese das teorias dos movimentos feminista e anti-racista) nas suas perspectivas
políticas. Grupo pequeno marginal entre uma infinidade na altura, o CRC é hoje
lembrado pela sua articulação do conceito de "política de identidade"
na sua declaração de 1977. Nela, escrevem que "a política mais profunda e
potencialmente mais radical surge directamente da [sua] própria
identidade", que defendem ser "um conceito particularmente …
revolucionário" para elas, como lésbicas negras, devido à extensão e
complexidade particulares das opressões que enfrentam. Embora se descrevam como
"socialistas" e escrevam sobre a necessidade da "destruição do …
capitalismo e do imperialismo", listam explicitamente a classe como uma
entre "toda uma gama de opressões" juntamente com a raça, o sexo e a
sexualidade.
É aqui também que
chegamos a Angela Davis, que passou a década de 1960 como estudante de
doutoramento de Marcuse e a década de 1970 a viajar pelo mundo a falar em nome
do CPUSA e dos Panteras Negras (uma organização fundada explicitamente com
princípios masculinistas, cuja viragem pública de 1969 a levou a declarar
oficialmente que as mulheres membros eram iguais, mas cujos relatos de membros
femininas sobre a sua dinâmica interna falam por si), declarando que Cuba era
um país livre de racismo e elogiando a RDA e a URSS por denunciarem o racismo.
Davis publicou então Women, Race and
Class (1981), que se baseia de forma variada e confusa no trabalho de
outras “feministas marxistas” contemporâneas (nomeadamente James, Dalla Costa e
Federici), bem como de outras feministas, anti-racistas, marxistas e
pós-marxistas, para sintetizar os movimentos pela libertação das mulheres, dos
negros e da classe operária num só. E aqui também encontramos a afirmação de
que a URSS e os seus aliados abriram o caminho para a libertação das mulheres,
por exemplo: "Os únicos passos
significativos em direcção ao fim da escravidão doméstica foram, de facto,
dados nos países socialistas existentes" (p.138).
Estudos Jurídicos: O
Termo Lógico da Jornada
Quando chegamos ao termo
"interseccionalidade", cunhado pela académica jurídica Kimberlé
Crenshaw em 1989, chegamos também à conclusão lógica desta mudança de
afastamento da política revolucionária, completada na sua reorientação para a
política da inclusão liberal; da assimilação de todas as pessoas na sociedade
capitalista como cidadãos iguais entre si nas oportunidades de que desfrutam,
sendo a classe social apenas uma das muitas razões pelas quais as oportunidades
de uma pessoa podem ser injustamente limitadas. Este era o objectivo declarado
do trabalho de Crenshaw, que argumentava que as leis anti-discriminação
existentes se limitavam a tratar de um eixo de discriminação de cada vez.
Deveria ser óbvio neste ponto que isto nada tem a ver com o objectivo de
derrubar a sociedade capitalista, e tudo a ver com o objectivo de a
aperfeiçoar. Por isso, Crenshaw também escreve sobre a classe social juntamente
com a raça e o sexo (e mais tarde sobre sexualidade, identidade de género,
capacidade física e outras características semelhantes) como apenas mais uma
forma de se sentir "privilegiado" ou "oprimido". No ano
anterior, Peggy McIntosh também publicou White Privilege and Male Privilege/ Privilégio Branco e Privilégio Masculino (abreviado em 1989
como White Privilege: Unpacking the Invisible
Knapsack/Privilégio Branco:
Desembrulhando a Mochila Invisível), um artigo marcante no campo dos estudos
sobre mulheres que popularizou (embora não inventou) a ideia de que não
experienciar uma dada forma de opressão ou discriminação constituía um "activo
não merecido".
Esta linha temporal
relâmpago do desenvolvimento do que viria a ser a "interseccionalidade"
é necessariamente limitada no seu âmbito, e por isso, inevitavelmente, certos
pensadores-chave foram deixados de fora (Ida B Wells, Anna J Cooper, Elizabeth
Flynn, Audre Lorde, bell hooks e estudiosos mais recentes como Patricia Hill
Collins e Carole Boyce Davies, para citar apenas alguns). Isto não porque as
suas contribuições para o feminismo negro não fossem também significativas, mas
porque este artigo trata de forma mais específica do desenvolvimento do que
hoje chamamos interseccionalidade e da sua insinuação no quadro do meio mais
amplo de esquerda e activista, e que também se propaga nos milieux das
organizações revolucionárias.
Feminismo da Quarta Vaga e o Caos do Activismo Moderno
Dadas as várias
vertentes do reformismo entrelaçadas no seu ADN, faz todo o sentido que a
interseccionalidade seja adoptada como princípio orientador do activismo; de
facto, desde o advento do Feminismo da Quarta Vaga, algo como uma condição sine qua non. E fê-lo especialmente através dos campi
universitários, onde a interseccionalidade passou a fazer parte do currículo,
algo que os activistas estudantis adoptaram como resultado. Isto teve depois um
efeito dominó no panorama mais amplo da "esquerda", já que grupos
estalinistas e trotskistas receberam mais ou menos criticamente a
interseccionalidade como herdeira do seu antepassado teórico comum. Ao mesmo
tempo, tem-se infiltrado no anarquismo desde que a tendência começou a ser
diluída pela Nova Esquerda. Não só isso, devido às suas origens jurídicas
burguesas, e em certa medida graças a activistas estudantis que encontraram
emprego em vários papéis burocráticos, a linguagem da interseccionalidade foi
adoptada por partidos políticos institucionais, sindicatos e até se tornou
parte integrante da formação no local de trabalho, pelo que aqueles fora do
mundo universitário também estão expostos a ela. Tudo isto, por sua vez, fez
com que nós, em grupos fora da divisão oficial esquerda-direita, reconhecendo
os dois polos como as duas alas políticas do capital, nos deparámos, no
entanto, com a interseccionalidade de forma semelhante ao feminismo, ao anti-racismo
e, de facto, ao anti-fascismo – como algo que se espera que adoptemos no nosso
quadro ou sejamos condenados como pró-sexistas, pró-racista, pró-fascista e por
aí fora.
E entendemos de forma
semelhante a interseccionalidade como um quadro que mina a independência de
classe e rejeita a revolução em favor de minimizar o dano a curto prazo, o que,
como a história nos ensinou repetidamente, implica uma orientação para o prolongamento
do sistema capitalista e, assim, para o prolongamento das condições que criam
as próprias opressões que procura aliviar. Portanto, o nosso quadro para
analisar e opor-se à opressão deve ter uma base completamente diferente.
A Compreensão Marxista da Opressão
Como marxistas, nunca
precisámos de ser avisados de que a classe operária é composta por pessoas de
todos os géneros, nacionalidades, capacidades e assim por diante; isto é
perfeitamente óbvio para nós, tanto na nossa capacidade de analistas da
sociedade de classes, como enquanto membros da própria classe operária. Nem, obviamente,
Marx e Engels, nem Lenine e Luxemburgo, precisaram de ser avisados disso na sua
época, quando formularam as teorias da luta de classes nas quais baseamos a
nossa orientação política. Se as formas com que a burguesia nos divide uns
contra os outros mudaram, (principalmente porque se proliferaram), o facto
básico de que o fazem não mudou.
Além disso, enquanto
marxistas compreendemos que estas categorias são mais do que rótulos que nos
são atribuídos, dos quais podemos escolher se devemos sentir vergonha ou
orgulho; em cada caso, articulam opressões que são consequência da própria
sociedade de classes. A nossa análise de classe não pode, portanto, ser
relegada a qualquer tipo de igualdade com categorias como género, raça,
sexualidade e assim por diante, porque é a sociedade de classes, em primeiro
lugar, que as gerou em todos os sentidos. A nossa compreensão da opressão
sexual e racial, por exemplo, não é a de que elas sejam de menor importância do
que a opressão de classe – um juízo de valor que não tem lugar na análise materialista
– mas de que são consequências directas desta, e, portanto, não podem ser
combatidas de forma significativa de qualquer maneira que envolva compromisso
de classe. O facto de as lutas transclasse não nos oferecerem nada em termos de
libertação é suficientemente evidente na forma como movimentos recentes como o
Black Lives Matter e as Marchas das Mulheres, que originalmente surgiram com
diferentes graus de espontaneidade em resposta a preocupações genuínas com os
negros e as mulheres, respectivamente, forneceram a vários oportunistas uma
plataforma para carreiras no esquerdismo, assim como um meio para os partidos
políticos da esquerda do capital restabelecerem o controlo sobre a raiva
popular.
E assim, como marxistas,
devemos finalmente expor a insolubilidade fundamental destes problemas enquanto
a sociedade de classes permanecer intacta. Quando rejeitamos concessões aos
movimentos feministas, anti-racistas, queer, etc., – e o mesmo se aplica ao
quadro híbrido da interseccionalidade – não o fazemos por falta de preocupação
pelas pessoas que esses movimentos posicionam como sujeito da sua política, mas
precisamente porque entendemos que as soluções que o espectro ideológico do
capitalismo tem para nos oferecer não são soluções de todo. O melhor que ele
pode apresentar é a igualdade de oportunidades no seu vasto e todo-consumidor
mercado, o que, para aqueles de nós que constituímos a classe que não tem nada
para vender senão a nossa força de trabalho, só pode significar igualdade de
exploração. Um cenário optimista já bastante sombrio, sabemos, além disso, que
na realidade não é nada mais do que pensamento desejoso, porque seja o que for
que a classe dominante nos conceda em termos de espaço de respiração, ou
"privilégios" como gosta de rotular tais luxos, como o acesso a
cuidados de saúde, ou o prazer de não sermos alvo e assediados, pode muito bem
tirá-los, como inevitavelmente vemos em tempos de crise e guerra.
Portanto, por mais
desigualmente difíceis que as nossas vidas sejam tornadas pelos nossos
exploradores, é claro que não temos nada a ganhar competindo entre nós sobre
qual de nós tem o pior momento. Por outro lado, temos tudo a ganhar ao
reconhecer o nosso interesse comum como classe e combinar forças através das
nossas diferenças.
E se isso tem sido central para a teoria dos nossos
antecessores políticos, a história provou em momentos chave que eles estavam
correctos, já que várias secções particulares da nossa classe – mulheres,
trabalhadores migrantes, trabalhadores escravizados – reconheceram isto na
prática. Seria negligente não recordar aqui o exemplo da Revolução de Fevereiro
de 1917, quando mulheres da classe operária na Rússia assumiram a liderança,
não numa luta sectorial ou separatista, mas numa luta que se estendia aos seus
irmãos, maridos, pais e filhos como seus companheiros de classe, nas fábricas
dos patrões e no exército conscrito do Czar. Elas reconheceram instintivamente
o que os partidos revolucionários articulavam – que o movimento da nossa classe
deve ser um movimento de massas, e portanto, para qualquer esperança de sucesso,
deve procurar maneiras de se expandir e, em última instância, de se generalizar
através das divisões impostas pelo sistema.
Libertação da
Identidade: Operários de todas as Nações, Géneros, Raças, Sexualidades,
Capacidades, etc. etc. etc… Uni-vos!
É neste sentido que
entendemos a classe como a linha divisória fundamental na sociedade
capitalista, e é neste sentido que vemos a classe operária como o sujeito
revolucionário – com o nosso interminável caleidoscópio de diferenças – detendo
a chave para uma sociedade futura. Não porque levamos para casa a medalha de
ouro nos enfadonhos jogos olímpicos da opressão da burguesia, mas porque somos
a classe de pessoas cuja posição dentro da sociedade – a de produzir todos os
bens e fornecer todos os serviços de que deriva todo o lucro – nos concede o
poder de pôr o capitalismo e a classe que o domina de joelhos.
Para ser capazes de
fazer isto, precisamos de recusar jogar os jogos deles; de rejeitar as
categorizações que nos impõem e de ver através das soluções oferecidas pelas
suas facções progressistas como nada mais do que tentativas utópicas de
consertar o seu sistema, para manter a sua dominação de classe. São livres de
fazer os seus ajustes mais ou menos minuciosos no seu esforço sisifo de
aperfeiçoar a sua sociedade enquanto o seu núcleo continua a apodrecer; o nosso
objectivo é inteiramente diferente.
Portanto, opomo-nos ao
racismo, sexismo, homofobia, transfobia e toda a outra opressão sem
compromissos, na única forma possível de o fazer de maneira significativa – não
com colaboração de classes, mas com a unidade da classe operária orientada para
uma luta de classe independente, auto-organizada e de massas, para desafiar o
capitalismo e, em última análise, derrubá-lo por completo, e em seu lugar
construir uma nova sociedade de produtores livremente associados, na qual o
desenvolvimento livre de cada um será a condição prévia para o desenvolvimento
livre de todos. Esta futura sociedade, que chamamos de comunismo, obviamente
não tem mais em comum com os leviatãs capitalistas de estado defendidos pelos
vários estalinistas e trotskistas mencionados acima do que tem com as
igualmente capitalistas 'democracias' do Ocidente; em vez disso, esta futura
sociedade será aquela em que os estados, o dinheiro e as classes em si
aparecerão apenas nos nossos livros de história. A tarefa de criar esta
sociedade pode ser colossal, mas é uma da qual nós, e apenas nós, a classe operária
em todo o mundo, somos capazes.
Tinkotka
Communist Workers' Organisation
Agosto, 2025
Para os nossos artigos
anteriores sobre política identitária, veja, por exemplo, Workers of all Identities, Unite! e Adventures in the Culture Wars: A
Review Article
Imagem: Spaynton (CC
BY-SA 4.0), commons.wikimedia.org
Segunda-feira, 23 de Março de 2026
Journal of the Communist
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Tendência Comunista Internacionalista
Fonte: The
American Ideology: Intersectionality Against the Working Class | Leftcom
Este artigo
foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice