CRISE ECONÓMICA E AUSTERIDADE ORÇAMENTAL
16 de Setembro de 2026 Robert Bibeau
Por Robert Bibeau.
CRISE ECONÓMICA E
AUSTERIDADE. EDITIONS LES 7 DU QUÉBEC.NET
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ECONOMIC CRISIS-austerity Robert Bibeau
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ÍNDICE
CRISE ECONÓMICA E
AUSTERIDADE * 3
A crise económica é sistémica 3
A crise económica sistémica é mundial 3
A crise económica sistémica é mundial 3
A crise económica e o desenvolvimento desigual 4
A crise económica anárquica agrava as injustiças 4
A crise económica leva à austeridade 5
Os assalariados são fortemente tributados 6
São os ricos que escondem o dinheiro 6
A crise económica é uma crise de sobreprodução 7
Os subsídios empresariais agravam a crise 8
A especulação no mercado bolsista acentua a crise cambial 9
A Crise, o Companheiro do Imperialismo na Derrota 10
Crédito ilimitado para compensar o colapso dos mercados 12
O crédito arrasta o capitalismo para o abismo 13
O Aparelho de Propaganda Publicitária 14
O Colapso Industrial da Economia Imperialista 15
Vestir a austeridade com estatísticas complicadas 16
A dívida explode e o Estado imperialista implode 16
Nenhuma medida de austeridade protegerá a economia imperialista.18
A Guerra Mundial é Inevitável 19
Dois eixos para contrariar as medidas de austeridade 20
AMERICANOS REPATRIADOS
PARA OS ESTADOS UNIDOS ** 22
Realojamento industrial para os Estados Unidos? 22
Redução dos custos laborais 26
Competição internacional entre bandidos 28
Dívida soberana descontrolada 29
Não é segredo que a realidade imparável da sua incapacidade é 30
A ESPIRAL INFERNAL DA
CAPITALIZAÇÃO *** 32
A crise sistémica explicada aos operários 32
A Financeirização da Economia Imperialista 33
A Terciarização da Economia Imperialista Moderna 34
A Crise Inevitável em Duas Equações 35
A retoma da espiral infernal 37
PRODUTIVIDADE DOS ASSALARIADOS **** 38
Produtividade empresarial 38
Produtividade dos assalariados 38
Produtividade absoluta e relativa 40
MUNDIALIZAÇÃO NEO-LIBERAL ***** 42
Crítica ao Pensamento Reformista Neo-liberal 42
Os Ideais e Princípios do Reformismo Neo-liberal 43
O dirigista neo-liberal "laissez-faire" 45
A economia em guerra contra a economia de guerra 46
Os Estados Unidos, um exemplo de impasse económico 46
A guerra como "solução" para a crise económica 49
A única solução para a crise económica 50
NOTAS 54
CRISE ECONÓMICA E
AUSTERIDADE
A crise económica é sistémica
A crise económica é o sintoma mais evidente da disfunção óbvia de todo o modo de produção e comercialização de mercadorias sob o imperialismo moderno. O sistema económico capitalista já não é capaz de resolver as suas contradições internas nem de garantir a valorização do capital, a acumulação de lucros e a sua reprodução expandida. Cada componente do sistema é deficiente no seu funcionamento interno e nas suas inter-relações com os outros componentes económicos (dinheiro, crédito, bolsa de valores, banca, indústria, energia, comércio, transportes, trabalho, investigação, consumo, comunicação, etc.). Além disso, esta crise económica está gradualmente a varrer todo o edifício caótico do sistema político burguês-democrático e a afectar profundamente a moralidade, ética e ideologia burguesas. É por isso que dizemos que a crise económica é sistémica.
A crise económica sistémica é global
Economias
nacionais independentes já não existem em lado nenhum do mundo. Nenhum país
hoje é economicamente independente ou desligado do sistema mundial e global da
economia imperialista moderna. Isto inclui os Estados Unidos da América, a
superpotência em declínio, bem como a China imperialista, a superpotência em
ascensão. Esta premissa implica que nenhuma solução local, regional ou nacional
é possível para pôr fim a esta crise sistémica. Se houvesse soluções, só
poderiam ser mundiais. É por isso que dizemos que a crise económica é sistémica
e mundial.
A crise económica
sistémica é mundial
Todas as esferas e sectores da economia, incluindo agricultura
hipermecanizada, indústria robótica, hidro-eléctrica, nuclear, fóssil e
energias renováveis, mineração, pescas, silvicultura, turismo, construção,
transportes, telecomunicações, alimentação, têxteis e vestuário, habitação,
comércio grossista e a retalho, bancos e trusts, as pensões, o crédito, as moedas
nacionais, o mercado bolsista, os assuntos do consumidor em geral e a
governação municipal, provincial, nacional e multinacional estão todos a sofrer
com a crise económica sistémica como um todo. É por isso que dizemos que a
crise económica é sistémica, mundial e global.
A crise económica e o
desenvolvimento desigual
O desenvolvimento historicamente diferenciado da economia política
imperialista moderna, do modo mercadoria, para o modo industrial, e depois para
o modo financeiro; Aliado à distribuição desigual dos recursos naturais,
combustíveis fósseis, mão-de-obra qualificada e não qualificada, meios de
produção e, consequentemente, poder militar, levaram a uma nova divisão
internacional do trabalho, da qual surgiu um desenvolvimento económico desigual,
de um país para outro e de uma região para outra no globo, Todos estes países,
entrelaçados entre si – e todos interdependentes – cada país tendo um papel
específico a desempenhar no concerto do desenvolvimento imperialista anárquico,
em saltos bruscos. Por vezes, a crise económica começa nos países do Sudeste
Asiático, outras vezes no Japão, por vezes é a Bolsa de Nova Iorque que entra
em chamas e, por vezes, é o euro que é estrangulado, mas depois todas as outras
economias são arrastadas para a recessão. É por isso que dizemos que a crise
económica mundial e global sistémica é consequência de um desenvolvimento
internacional desigual, combinado e saltitante.
A crise económica anárquica agrava as injustiças
O sistema económico e social – o modo de produção em geral – no qual o Quebec, o Canadá, França, os Estados Unidos e os outros países do mundo evoluem e sobrevivem – o melhor que podem – é anárquico e não planeado. É o produto da "livre iniciativa", do "livre mercado" e da concorrência feroz entre monopólios que apropriam todos os meios de produção e troca, e todos os recursos para o seu benefício exclusivo. O sistema económico imperialista anárquico é produto da acumulação desenfreada de lucros impressionantes, monopolizados por uma pequena camada de capitalistas monopolistas (a concentração da riqueza gera uma maior concentração como se por indução, como mostrado na Figura 1). Isto leva à concentração da riqueza mundial nas mãos de um grupo de narcisistas ricos que, ao que parece, detêm cerca de cem multibilionários que possuem metade da riqueza mundial. Enquanto, do outro lado do espelho, dois mil milhões de pessoas sobrevivem com menos de 2 dólares por dia (730 dólares por ano), o que obviamente não constitui um mercado lucrativo para a venda de mercadorias e a reprodução de capital. Estas são as razões pelas quais dizemos que a crise económica sistémica é discursiva, recursiva e anárquica e não pode ser resolvida dentro do sistema económico imperialista moderno.
As políticas de austeridade implementadas pelos vários governos,
organizações municipais, provinciais, nacionais e multinacionais, visam todas
preservar os lucros das empresas privadas, sejam pequenas, médias ou grandes, e
salvaguardar os dividendos dos oligopólios, os lucros dos tubarões financeiros,
as receitas dos bancos e bilionários privados. A forma como os governos tentam
salvar as empresas privadas da falência e da erosão dos seus lucros consiste em
transferir o fardo da crise económica para as costas dos assalariados, dos
trabalhadores, desempregados e das suas famílias, dos pobres e até da
aristocracia operária e da pequena burguesia, que veem os seus impostos, rendas
e empréstimos aumentar mais rapidamente do que os seus rendimentos. É por isso
que dizemos que as políticas de austeridade não são as causas, mas sim as
consequências da crise económica sistémica mundial do imperialismo moderno.
Os assalariados são fortemente tributados
Estamos a assistir a aumentos fiscais como o QST (imposto sobre o valor
acrescentado no Quebec, que subiu para 9,5% em 2012 – na Europa é o IVA -NdT) e
sobretaxas fiscais cobradas directamente sobre os salários de todos os assalariados,
que representam 90% dos trabalhadores activos. Estamos a observar aumentos nas
contribuições para a segurança social, juntamente com aumentos nos preços dos
bens e serviços produzidos e distribuídos pelo Estado. O custo dos serviços
públicos e dos impostos sobre o consumo é cobrado directamente na compra,
enquanto os impostos municipais e escolares são calculados com base no valor da
propriedade (que os 66% dos agregados familiares de Montreal pagam sob a forma
de renda aumenta), o que deixa os empregados com pouca capacidade para se evadir
aos impostos. Todos têm direito a perguntar quais são os verdadeiros objectivos
do Estado policial quando este lança campanhas histéricas sobre a evasão fiscal
generalizada por parte dos assalariados. Entretanto, os salários estagnaram ou
regrediram, causando o empobrecimento da aristocracia operária, da pequena
burguesia e de todos os assalariados. Estas são as razões pelas quais dizemos
que devemos rejeitar estas declarações falsas por parte do Estado policial e
dos meios de comunicação afiliados e lutar contra aumentos nas rendas, impostos
e taxas de serviços públicos.
São os ricos que escondem o dinheiro
Nada
está a ser feito para impedir a evasão fiscal por bilionários apátridas e
multinacionais que escondem 10 mil milhões de dólares em abrigos fiscais
offshore. Quase metade de todas as transações financeiras internacionais passa
por estes refúgios ilegítimos para bilionários indiferentes e gananciosos.
Todas as organizações internacionais toleram e incentivam secretamente estas
práticas, enquanto se queixam publicamente delas de forma hipócrita. Durante
vários anos, os pontífices dos estados capitalistas têm criticado a evasão
fiscal através de "paraísos fiscais", entidades de anarquia
internacional, que minam os impostos nacionais. No entanto, muitos destes
países desonestos mantêm esses paraísos fiscais fraudulentos no seu territórioII. Esta miscelânea de
"esconderijos fiscais ilícitos" esconde outras isenções e brechas
fiscais legais e "imorais", pelo menos pelos padrões e valores da
classe operária.
A
tributação diferenciada de empresas e bancos e os excessos laxistas do sistema
fiscal estão intimamente ligados ao processo de internacionalização da actividade
económica geral. Num contexto económico altamente "liberalizado",
seguindo os acordos económicos e comerciais mundiais – NAFTA e União Europeia,
Acordos Ásia-Pacífico, acordos liderados pela OMC –iii Numa situação em
que as tecnologias de informação permitem comunicações em tempo real, onde a
produtividade do trabalho manual está a aumentar nos países emergentes (mais do
que nos países desenvolvidos), em que o transporte de mercadorias se torna cada
vez menos dispendioso, nunca foi tão fácil dispersar as diferentes fábricas do
processo de produção-montagem e os diferentes componentes de uma empresa
lucrativa e operá-las remotamente, Transferir rendimentos e despesas conforme
apropriado. A "optimização fiscal" (pagar menos impostos e pequenos
royalties) não é a causa, mas sim o resultado normal deste fenómeno, que
resulta na conversão de rendas e dividendos em moedas estrangeiras, levando à
evasão fiscal geral e à desintegração das fronteiras nacionais (quando ainda
existem), colocando os operários canadianos em competição com os operários
chineses, indianos e indonésios para benefício dos colectores de lucrosiv.
Não são
os operários e os assalariados de baixos salários que enganam as autoridades
fiscais, como a propaganda governamental e a dos meios de comunicação a soldo
querem fazer-nos crer. São os accionistas de empresas privadas, os altos
executivos, os "coleccionadores de cupões"( expressão que designa hoje em dia,
de forma frequentemente irónica ou crítica, os investidores que vivem
passivamente dos rendimentos do seu capital, nomeadamente através de
obrigações ou de dividendos de acções – NdT)), os bilionários, os especuladores
e os operadores da bolsa de valores, os criminosos da máfia com rendimentos
sulfurosos, os membros dos conselhos de administração que acumulam milhões ($)
e os membros dos conselhos de administração pagos em acções e opções de acções
que obtêm generosos benefícios fiscais e paraquedas de ouro. além de esconderem
o seu dinheiro em paraísos fiscais com a cumplicidade de todos os Estados
nacionais e organizações internacionais de governação (FMI, BM, OCDE, Swift,
Libor, NAFTA, TPI, ONU, OMC, etc.)v.
É
totalmente impossível reverter esta tendência de evasão fiscal para os ricos e por
parte dos ricos, uma vez que são esses mesmos potentados que comandam os
estados policiais – através interpostos procuradoresvi. Pior ainda, se um
Estado burguês tributasse os ricos de forma justa, estes fugiriam para céus
deletérios e complacentes para se protegerem de um guarda-chuva fiscal
complacente. É por isso que dizemos que a solução para o escândalo da evasão
fiscal será mundial, global e fora da economia política imperialista modernaVII.
A crise económica é
uma crise de sobreprodução
Como o sistema capitalista da economia política passou da fase
capitalista industrial de desenvolvimento para a fase do monopólio financeiro,
e assim para a fase imperialista global e mundial moderna de desenvolvimento,
"o grande problema da produção capitalista já não é encontrar produtores e
aumentar as suas forças dez vezes (produtividade), mas descobrir os
consumidores, despertar os seus apetites e criar necessidades artificiais para
eles."VIII. O que os vários níveis de
governo retiram aos consumidores – trabalhadores – aos assalariados,
contribuintes, por um lado, devolvem aos banqueiros e empresas privadas com a
outra, mas ao fazê-lo as empresas, comerciantes e mercadores já não conseguem
vender os seus bens e serviços, porque os seus clientes – contribuintes –
trabalhadores – consumidores já não têm dinheiro suficiente para comprar os
produtos que lhes são oferecidos em abundância no mercado de consumo. Para além
deste processo de requisição do poder de compra, há a inflação dos preços que
corrói o dinheiro dos trabalhadores e o desemprego que mina completamente o
poder de compra dos assalariados. É por isso que dizemos que a crise económica
sistémica é uma crise de sobreprodução num mundo de privação.
Subsídios empresariais
agravam a crise
O
chamado Estado democrático e os Estados que não se cobrem com uma fachada
eleitoral democrática estão sob o domínio dos ricos e não estão ao serviço do
público, do cidadão, do contribuinte, do pensionista, do paciente, do
estudante, do eleitor, do desempregado ou do trabalhador. Os políticos
burgueses estão ao serviço dos banqueiros, dos bilionários, dos accionistas das
multinacionais transfronteiriças, daqueles que financiam as suas eleições e
lhes proporcionam boa cobertura mediática. Governos e parlamentos aprovam leis
para servir as empresas – para garantir os seus lucros, rendas e dividendos. Os
esforços financeiros realizados são gigantescos por parte do Estado dos ricos –
sob a forma de subsídios (no Quebec, existem 2.300 programas de subsídios governamentais
para o sector privado e totalizam 3,3 mil milhões de dólares em assistência
anual), mas também, sob a forma de férias das contribuições para pensões, sob a
forma de isenção de impostos sociais e municipais e alívio fiscal para as
empresas privadas. Em 2014, no Quebec, uma empresa paga um máximo de 26,90% de
imposto sobre os seus lucros líquidos, ou seja, 15% a nível federal e 11,90% a
nível provincial.ix Por outro lado, a taxa de imposto do assalariado
pode chegar até 55% (provincial e federal). É por isso que dizemos (sem
ilusões!) que os governos devem tributar os ricos e as empresas privadas em vez
de os subsidiarx.
É
preciso ter consciência de que os governos burgueses não podem mudar nada
nisso, pois no momento em que um Estado finge aumentar impostos, royalties de
mineração, os “royalties” petrolíferos, florestais, marítimos, ou sugere
aumentar as tarifas privilegiadas de electricidade (0,04 $ por kilowatt), as
corporações multinacionais ameaçam fechar as suas fábricas canadianas e transferi-las
para um país com um governo mais conciliador. Os “proletários” ficam perante o
dilema de pedir o aumento das royalties, impostos e taxas das empresas e depois
perderem o emprego. De qualquer forma, as queixas da classe operária não têm
efeito sobre o segmento de “classe” dos bajuladores firmemente ligados aos seus
mestres, os plenipotenciários da economia. É por isso que dizemos que a
globalização e a mundialização da economia imperialista moderna tornam as suas
ameaças eficazes.
Além disso, o apoio governamental ao
capital de risco não pretende de forma alguma compensar a falta de liquidez de
capital, uma vez que empresas privadas canadianas acumularam 600 mil milhões de
dólares em numerário (2013) antecipando oportunidades de negócio extraordináriasxi. As empresas
monopolistas canadianas estão a transbordar de capital, tal como as empresas de
todos os grandes países imperialistas. O que falta não é o capital para
investir, o que falta são os mercados lucrativos para conquistar, as
oportunidades de negócio para investir e as oportunidades para saquear assalariados.
Sem mercados solventes, não faz sentido investir na produção de novos bens que
congestionam os inventários. É por isso que dizemos que, apesar da ajuda
governamental às corporações capitalistas monopolistas, a crise económica
sistémica continua a sua inexorável espiral descendente.
A especulação no mercado bolsista acentua a crise cambial
A crise
económica de 2008, por vezes chamada de Grande Recessão, é uma catástrofe que
a maioria dos países industrializados enfrentou após o crash bolsista do Outono
de 2008, que por sua vez foi uma sequência da crise "subprime" de
2007. Em Dezembro de 2007, os Estados Unidos foram os primeiros a entrar numa
recessão, seguidos por vários países europeus durante 2008xii. A França só entrou
em recessão em 2009. O Canadá escapou por pouco, mas não sem consequências.
Esta crise económica mundial é considerada a pior desde a Grande Depressão.
No Verão de 2007, as hipotecas nos EUA foram um gatilho para a crise financeira
que levou à crise económica de 2008-2010. A origem disto é sublinhada por um
comunicado de imprensa emitido em Agosto de 2007 por um banqueiro francês que
indicou que o seu banco estava a suspender a cotação de três dos seus fundos
devido à "completa evaporação da liquidez" de certos mercados
americanos. Traduzindo este ukase (imposição arbitrária – NdT) singular para
língua vernacular, significava que, de um dia para o outro, o capital
especulativo tinha "evaporado" (sic), desaparecido sabe-se lá onde ou
como. Este enigma é fundamental para a compreensão do funcionamento do sistema
económico imperialista. Voltaremos a isto.
Embora não tenham causado sozinhas uma crise de tal magnitude, as hipotecas
de muito alto risco (hipotecas subprime) foram o elemento que
desencadeou o movimento que abalou todo o sistema bancário-financeiro em
dificuldades:
· a transferência de activos duvidosos dos bancos para o mercado de acções, o que os marketers de acções chamam de securitização destes supostos "activos" parasitasxiii;
· a criação de activos complexos e opacos, que chamamos de burla no mercado de acções;
· a cumplicidade das agências de rating que não avaliaram os riscos destes "activos" tóxicos;
· a aplicação das chamadas normas contabilísticas de "valor justo";
as falhas ouvidas pelos reguladores para corrigir "falhas" num
contexto em que o sistema banco-mercado de acções foi largamente desregulado, mundializado,
globalizado;
A manipulação das taxas de juro dos empréstimos por "demasiado grandes
para falir". Durante a crise de 2008, o valor total dos chamados activos
tóxicos (incluindo subprimes) foi estimado em cerca de 800 mil
milhões de dólares e as perdas causadas pelos bancos situaram-se entre 2200 e
3600 mil milhões de dólares em todo o mundo. Enquanto a capitalização bolsista mundial
caiu quase 50% em 2008, de 62.747 mil milhões de dólares no final de 2007 para
32.575 mil milhões de dólares no final de 2008, um prejuízo de 30.000 mil
milhões de dólares, ou 30 vezes superior à perda original. O edifício financeiro
tinha desmoronado como um castelo de cartas. Isto é o que vai acontecer
novamente durante o próximo crash da bolsa.
"Isto mostra o preço da desconfiança, devido às expectativas do mercado, em comparação com o valor real das coisas. Ainda mais porque, do lado da economia real, não houve destruição do valor do aparelho de produção ou dos potenciais clientes das empresas (vamos citar o exemplo das companhias aéreas cujo valor bolsista caiu abaixo do valor dos activos correspondentes às aeronaves que possuem). Simplesmente, o mercado antecipa, por desconfiança e pessimismo, perdas futuras que calcula no presente, em valor presente líquido, através do preço do mercado de acções. ", discute o economista em ascensão, paralisadoXIV. É por isso que dizemos que a especulação bolsista não mencionável é incontrolável.
A crise, o companheiro
do imperialismo em desordem
O crash bolsista de 2008, no qual temos vindo a debater-nos desde então,
foi o resultado imprescriptível e inescapável da evolução natural e normal do
sistema económico imperialista moderno. Vamos simplesmente resumir a sequência
deste processo obrigatório. Simplificando em excesso, podemos dizer que no
início havia uma sociedade com necessidades a preencher e a oferecer um
mercado.
O primeiro movimento deste drama
shakespeariano ocorre quando um agente económico (os capitalistas) toma o poder
económico, político e ideológico e não propõe bens e serviços para satisfazer
estas múltiplas e variadas necessidades; este agente económico propõe "mercadorias"
pelo seu valor de produção, ou seja, produtos das suas fábricas, das suas manufacturas,
das suas oficinas de serviço, dos seus estaleiros de construção, dos seus meios
de transporte e comunicação, todos pertencentes aos accionistas-proprietários
dos meios de produção, intercâmbio e comunicação. Este agente económico
capitalista privado administra as funções de produção, troca e comunicação com
o único propósito de recolher lucros em abundância e depois reinvesti-los para
desencadear um novo ciclo económico lucrativo. A motivação do proprietário
privado dos meios de produção, comércio e comunicação não é satisfazer as
necessidades sociais da população, mas satisfazer os seus accionistas.
O segundo movimento deste drama
shakespeariano ocorre no momento em que, nesta corrida à produção de
mercadorias e serviços para extrair trabalho extra que gere lucro das mãos do operário
espoliado, acontece o contrário, e quanto mais o processo se industrializa, se
mecaniza, se automatiza e se robotiza, mais o lucro diminui, mais o capitalista
exige produtividade do assalariado para obter mais trabalho extra a espoliar, e
menos salários reais restam aos operários para consumir e iniciar um novo ciclo
de produção-consumo/acumulação. O mercado solvente encolhe enquanto as capacidades
de produção se intensificam e inundam os mercados de consumo com produtos que
têm cada vez menos valor de mercado, e menos clientes estão em condições de
comprar-consumir-destruir.
Como os lucros dos banqueiros, financiadores, correctores de bolsa derivam
todos do valor excedente — do excesso de trabalho saqueado aos operários — e,
portanto, do capital financeiro activo e produtivo, o encolhimento dos mercados
conduz a uma desaceleração da produção, bem como ao ciclo de reprodução
expandida do capital, que automaticamente causa a diminuição dos lucros em todo
o sistema económico.
O terceiro movimento deste drama
shakespeariano leva investidores, correctores, banqueiros e financiadores do
mercado de acções a imaginar a propagação generalizada do crédito ao consumidor
para fazer com que os assalariados empobrecidos consumam o salário que
esperavam. Esperam continuar a ficar com a sua parte dos lucros que
provavelmente nunca serão produzidos à medida que a crise económica sistémica
se aprofunda. Para cima desta solução ilusória e ostensiva do crédito, os
banqueiros e financiadores acrescentam a criação de "produtos"
financeiros ilegais, fraudulentos e semelhantes à máfia que, na primeira subida
da bolsa, queimam e voam em pó, o que o banqueiro francês chamou acima de
"a completa evaporação da liquidez", o desaparecimento do dinheiro
falso do Monopólio, do capital artificial que na realidade só existiu em cartazes.
Desde
2008, políticos corruptos, banqueiros corruptos, economistas submissos,
especialistas engenhosos e jornalistas cúmplices têm rasgado as camisas nos
pátios dos bancos e centros financeiros ocupados pelos manifestantes
indignados, abjurando os seus crimes e jurando que serão introduzidas medidas
de controlo, que outras serão reforçadas, que a hegemonia do capital financeiro
terminou e que tantas coisas mudarão. Nada mudou, segundo a própria admissão
dos correctores, e em 2010 a Grécia foi varrida (45% dos gregos vivem agora
abaixo do limiar da pobreza) e, em 2012, os bancos de Chipre colapsaram sob as
bifurcações caudinas do Átilas das finanças internacionaisXV. É por isso que
dizemos que a crise financeira é a companheira de estrada do imperialismo
oligárquico e anárquico.
Crédito ilimitado para compensar a queda nos mercados
Já "falámos" anteriormente sobre o crédito desenfreado disponível ao vento para consumir, agora precisamos de aprofundar este esquema montado pelos "banqueiros". Para compensar a diminuição das vendas resultante da queda dos rendimentos reais e da erosão do poder de compra dos empregados, banqueiros e financiadores concederam empréstimos hipotecários sobre os quais especulavam; Empresas privadas do sector transformador (automóveis, mobiliário, electrodomésticos, electrónica) também começaram a emprestar, comerciantes a retalho e supermercados abriram empréstimos ao consumidor em abundância. Durante 2013, o crédito ao consumidor, excluindo hipotecas e empréstimos estudantis, cresceu entre 5 a 8 por cento ao mês nos Estados Unidos, enquanto o PIB estagnou. Os recebíveis pessoais nos EUA totalizaram 3.087 mil milhões de dólares em 2013.XVI. As proporções são equivalentes na Europa Ocidental e noutros países ocidentais. No Canadá, o crédito ao consumidor subiu de 438 milhões para 522 milhões entre 2009 e 2013, ultrapassando o PIB e o índice de inflaçãoxvii. Esta profusão de empréstimos – de dinheiro, na verdade – apenas aprofunda a crise financeira e monetária e atrasa o fim do crash bolsista que acabará por lançar as economias nacionais, as economias ocidentais e a economia internacional numa depressão catastrófica.
Todos estes empréstimos são dinheiro colocado em circulação antes de ter
passado pelo ciclo de valorização do capital através da produção de mercadorias
ou serviços e pelo ciclo de reprodução de capital do qual os patrões extraem o
seu lucro (dividendos, lucros, rendas). O crédito é dinheiro inflacionista
colocado no mercado, lucros antecipados que ainda não se concretizaram.
Comprar
a crédito é o consumo actual de um salário virtual que o assalariado
provavelmente nunca poderá receber, pois o desemprego, a estagnação salarial,
os aumentos de impostos combinados com a inflação o vão corroer. Sem mencionar
que, com estes empréstimos, o assalariado acaba de reduzir o seu poder de
compra pelo valor dos juros que terá de pagar sem consumir (os juros do
empréstimo são o lucro do banqueiro-usurário). É por isso que os governos estão
tão preocupados com o nível da dívida das famílias, que atingiu 164% em 2013 no
Canadá. De várias formas, os canadianos pedem emprestados 100 mil milhões de
dólares todos os anos. No total, os agregados familiares canadianos devem 1,6 mil
milhões de dólares enquanto os seus imóveis – as suas casas – estão
sobrevalorizados em 60%. Por culpa dos banqueiros, as famílias canadianas
muitas vezes vivem na pobreza, mas acima das suas possibilidades, e tudo o que
será necessário é um aumento das taxas de juro para que as finanças e a
economia colapsem e afundem irreparavelmenteXVIII. É por isso que o
Banco do Canadá e a Reserva Federal dos EUA não estão a aumentar as suas taxas
de juro chave neste momento.
Toda a questão da dívida das famílias, aliada à dívida soberana dos estados
capitalistas que coloca o seu peso nas costas dos assalariados, leva-nos a
dizer que eclodirá uma crise de crédito seguida de um colapso e depois uma
desvalorização das moedas.
O crédito está a arrastar o capitalismo para o abismo
Terá notado que os vários níveis de governo nada podem fazer contra o
flagelo do endividamento desenfreado enraizado no funcionamento interno da
economia imperialista moderna. A impressão e a distribuição massiva de dinheiro
(Quantitative Easing), particularmente pelo governo dos EUA (85 mil milhões de
dólares inflaccionários são injectados na economia mundial todos os meses) e o
acesso desenfreado ao crédito causam inflação dos preços ao consumidor, porque
o dinheiro é ele próprio uma mercadoria (é a mercadoria universal – o fetiche,
o talismã supostamente transforma todas as outras mercadorias em dinheiro).
Como mercadoria universal, o dinheiro (sob a forma de moedas, cartões de
crédito, hipotecas, acções, lucros, poupanças bancárias) representa uma série
de bens e serviços disponíveis no mercado para facilitar a sua troca.
|
Gráfico 2 |
De acordo com a lei da oferta e procura (Figura 2), o ponto de equilíbrio,
ou seja, não o valor, mas o preço médio de um bem, está definido no ponto onde
a curva de oferta e procura desse bem se encontra. À medida que o dinheiro
mercadoria se torna cada vez mais abundante, enquanto a disponibilidade de
outras mercadorias se mantém relativamente estável, o valor simbólico do
"dinheiro" da mercadoria diminui e é necessário mais para adquirir um
bem ou serviço cujo valor de mercadoria, ao contrário do dinheiro mercadoria, é
fixado pela quantidade da "força de trabalho da mercadoria" que
contém. É por isso que dizemos que as várias moedas especulativas – com taxas
de câmbio flutuantes no mercado internacional – serão desvalorizadas após o
crash do mercado bolsista.
O aparelho de propaganda
Estes
vários processos económicos e financeiros conduzem a uma redução drástica na
capacidade de consumo dos assalariados. Como o salário de um operário é uma
quantidade fixa "inelástica", cada dólar ganho permite comprar cada
vez menos bens ao preço inflaccionista de mercado, o que provoca a acumulação
de stocks em armazéns e bens não vendidos nas lojas, que os capitalistas exigem
que sejam destruídos em vez de distribuídos gratuitamente ou a um preço baixo.
Será respondido que as vendas são abundantes e importantes em todo o lado nos
mercados privados, o que é falso. Os bens vendidos durante estas vendas
representam apenas uma pequena parte dos produtos excedentes e não vendidos.
Por outro lado, estas vendas com desconto (quando há descontos, o que nem sempre
acontece) apenas prejudicam os mercados, hipotecando vendas subsequentes. É por
isso que o imenso aparelho da publicidade comercial, aliado ao gigantesco aparelho
da propaganda mediática (rádio, televisão, jornais, Internet e correios), que
se espalha ao vento, não pretende informar o público, mas sim fazer as pessoas
comprarem e consumirem de forma imprudente. Observe que as transmissões de
televisão e rádio e os artigos de jornal existem apenas para preencher o espaço
e o tempo entre dois anúncios comerciais, e muitas vezes as telenovelas e
outras "novelas" de televisão ou rádio destinam-se apenas a reforçar
a necessidade artificial com que foi imbuído durante o anúncio. Esta propaganda
publicitária é verdadeiramente um ataque aos operários e trabalhadores
assalariados, aos consumidores, com o objectivo de os programar para
"terem muitas coisas que nos fazem querer outra coisa, porque a felicidade
é ter os vossos armários cheios de bens... Ah, o mal que nos pode ser causado,
canta o trovadorxix.
É totalmente inadequado que a pequena burguesia, que agita a favor da
"pobreza voluntária" e do
"decrescimento saudável", tente fazer com que os assalariados se
sintam culpados por serem responsáveis pelo consumo excessivo gerado por estes
imensos aparelhos de propaganda publicitária. Quando um novo sistema de
economia política for construído para satisfazer as necessidades das pessoas
que trabalham – sem obrigação de valorização do capital para assegurar a
reprodução alargada do sistema de economia política – será inútil incitar à
sobre-consumação que produz mais-valia e lucros, uma vez que a busca do lucro
máximo deixará de ser o motor da economia. É por isso que dizemos que a única
forma de sair deste sistema de consumo excessivo é mudar as bases fundamentais da
economia política e derrubar esta sociedade de consumo em declínio, que é
forçada a fazer as pessoas consumir em excesso para poder funcionar.
O colapso industrial
da economia imperialista
Todo este processo económico – levando
ao encolhimento dos mercados – à redução do poder de compra dos assalariados –
aos excedentes de inventário a destruir para manter os mercados subsidiários –
leva invariavelmente ao encerramento de fábricas, o que agrava ainda mais o
desemprego, a que se soma o problema da deslocalização das fábricas do Ocidente
para os países do Oriente (fenómeno iniciado no início dos anos 1970) –
especialmente para a China «comunista». A deslocalização é esse processo
industrial pelo qual empresas monopolistas canadianas, norte-americanas, francesas
e alemãs, com sede nas metrópoles do Ocidente, encerram as suas fábricas no
país de origem e fecham as suas filiais implantadas num país vassalo, onde os
salários são mais altos, para as relocalizar nos países emergentes, onde os
salários são menos altos e o trabalho extra (mais-valia) é significativo. Este
processo tem estado em curso há vários anos, desde que a transferência de
máquinas-ferramenta, robôs e tecnologias; combinada com a redução significativa
do custo dos transportes; associada ao aumento do nível de escolaridade da
mão-de-obra assalariada, garantiu o aumento considerável da produtividade em
países que até ontem ainda eram atrasados (no capítulo seguinte falamos
bastante sobre este movimento).
Os governos
do Ocidente, sejam eles municipais, provinciais, nacionais ou
multinacionais, não podem fazer nada para impedir esses aumentos de
produtividade que as empresas capitalistas monopolistas organizam, essas
reduções de custos de transporte e, consequentemente, essas transferências de
fábricas e esses aumentos de lucros que são, de facto, o objectivo do
capitalismo. É sempre importante lembrar que o objectivo do funcionamento da
economia capitalista monopolista não é suprir as necessidades sociais das
populações assalariadas, mas garantir a reprodução alargada da economia (modo
de produção e de trocas) apoiando-se na valorização do capital, o que exige a
acumulação de lucros. É por isso que dizemos que a relocalização industrial não
é a causa da crise económica sistémica, mas uma consequência desesperada desta
crise de lucros debilitados.
Disfarçar a
austeridade com estatísticas complicadas
Cuidado com as estatísticas que os
Estados imperialistas e os seus institutos de investigação fabricam e publicam
sobre a inflação, o aumento dos preços, os aumentos salariais, os rendimentos,
o desemprego, os défices orçamentais. Sendo totalmente incapaz de resolver
esses problemas económicos, o aparelho estatal manipula as estatísticas, altera
os parâmetros e muda as variáveis para o cálculo dos índices e publica
sistematicamente dados truncados ou errados sobre o estado da economia, que se
tornaram instrumentos de propaganda para acalmar ou desorientar a ira dos assalariados.
No Quebec, recentemente, o ministro das Finanças adiou em um ano a meta do
défice zero (o equilíbrio fiscal entre as receitas e as despesas do governo).
Para consegui-lo no papel, previu um crescimento do PIB do Quebec de 3,5 % em
2016, o que é ridículo e enganoso. Mesmo os economistas burgueses bajuladores
não conseguiram endossar esse disparate e vários criticaram duramente o
ministro xx. Pedimos que tomem nota de que, em
2001, a Assembleia Nacional do Québec aprovou uma lei prescritiva obrigando o
governo a atingir o equilíbrio orçamental (défice zero). Essa lei nunca foi
aplicada desde que foi aprovada xxi. O mesmo acontece com uma lei aprovada no Salão Azul (chamado Salão da
Raça pelo extinto primeiro-ministro fascista Maurice Duplessis) que exigia a
luta contra a pobreza. Desde então, o Estado policial não deixou de agredir os
pobres sem nunca fazer nada contra a pobreza. É por isso que afirmamos que nem
o orçamento provincial nem o orçamento federal estarão equilibrados antes de
muitos anos – provavelmente não antes do próximo crash financeiro antecipado.
A dívida explode e o
Estado imperialista implode
Esforçando-se por aumentar continuamente
as suas ajudas às empresas privadas, a fim de as manter no seu quintal;
esforçando-se por reduzir os encargos fiscais das multinacionais e assim
enfraquecer as suas receitas fiscais; atingindo o limite dos encargos
tributários para particulares, operários, trabalhadores assalariados,
aristocratas operários e pequenos burgueses sobrecarregados, o Estado dos ricos
apressou-se a recorrer a empréstimos e a endividar-se no mercado de obrigações
privadas. Esta é outra forma pela qual o Estado transfere dinheiro público para
os capitalistas privados. Os banqueiros e financeiros comandam a manobra a
montante e recolhem o pecúlio a jusante. Eles recomendam os empréstimos
governamentais, emprestam a taxas elevadas, rebaixam a classificação de crédito
dos Estados e manipulam fraudulentamente as taxas de juro dos empréstimos,
emprestam e embolsam os reembolsos sobrecarregados de juros altosxxii. A dívida
soberana de quase todos os Estados industrializados (mas também de países
subdesenvolvidos) é exorbitante, não para de subir e nunca poderá ser
reembolsada… isso é certo.
Os Estados capitalistas vivem a crédito.
Acabou-se o Estado-providência e a sua abundância – as migalhas
sacrificadas aos aristocratas operários e a papa para os pequenos-burgueses
fiéis. Os Estados falidos emitem dinheiro de brincadeira, reduzem as despesas
públicas e eliminam serviços, é a isso que eles chamam austeridade. Aumentam as
suas extracções à massa de capital através de impostos indirectos e adiam a
falência estatal como na Grécia, em Portugal, em Chipre, em Espanha e
brevemente em muitos outros países. Entretanto, um exemplo máximo da economia
capitalista explica aos burocratas do governo quebequense que o Quebec pode
fazer melhor e endividar-se ainda mais em relação aos banqueiros e aos plebeus.
O ex-primeiro-ministro e ex-economista Jacques Parizeau explica que, para fazer
a dívida soberana de um Québec que ele deseja “soberano” parecer mais magrinha,
sob o controlo da sua clique da burguesia, basta mudar de convenção
contabilística, e em vez de mostrar a dívida do Québec segundo o conceito de “dívida bruta” ou de “dívida líquida”, ele propõe calculá-la e
mostrá-la segundo o conceito de “soma dos
défices acumulados”. Se, além disso, o governo evitar – como fazem os
Estados Unidos – usar a norma contabilística rigorosa do IFRS (International Financial Reporting Standards)
e adoptar a convenção contabilística americana – mais flexível – para o cálculo
das receitas, despesas, activos e amortizações, consegue – pelo menos no papel
– reduzir a dívida pública de 117% para “apenas” 65% do PIB “nacional” do
Québec (sic). E isso, sem ter reembolsado um cêntimo a mais aos seus credoresxxiii. A dívida
pública provincial é sempre estimada em 300 mil milhões de dólares, mas a sua
relativa « leveza » dá esperança de poder hipotecar mais o futuro.
A dívida bruta soberana canadiana
atingiu agora a soma astronómica de 1 437 mil milhões de dólares (2012). A do
Quebec atingiu 300 mil milhões de dólares, ou seja, 120% do PIB provincial
(2014). Combinada com a dívida federal, a dívida por cada quebequense eleva-se
a cerca de 38.000 $, que se junta à dívida pessoal de cada indivíduo. Inútil
prolongar, a maioria dos assalariados nunca conseguirá pagar nem esta dívida
pública nem a sua dívida privada. Os ricos que teriam meios de pagar fogem e
expatriam-se para outros países, como aconteceu na Alemanha por volta de 1930,
na Rússia por volta de 1989, e como acontece na Grécia, em Chipre, em Espanha e
em França. Esta é a razão pela qual afirmamos que a moeda canadiana (tal como o
euro e o dólar norte-americano) vai colapsar e o governo se vai livrar das suas
dívidas desvalorizando o dólar, depreciando igualmente as poupanças, os regimes
de reforma, os papéis comerciais e o valor das propriedades de todos os cidadãos
canadianos. Não será diferente nos Estados Unidos e em todos os países onde o
imperialismo moderno prevalece.
Nenhuma medida de
austeridade protegerá a economia imperialista
Todas as medidas e políticas de austeridade implementadas pelos municípios
e governos dos países industrializados, e até mesmo os dos países emergentes,
para sair da crise revelaram-se ineficazes, inoperantes, ou simplesmente nunca
foram aplicadas. Pior ainda, muitas vezes essas medidas de austeridade acabaram
por agravar a situação económica, social e política do país. Outras medidas
sugeridas pela pseudo-esquerda nunca foram adoptadas pelos governos burgueses ao
serviço dos ricos e por uma boa razão, onde foram aplicadas mostraram-se
desastrosas (Argentina, Islândia, Bolívia, Equador).
Nenhum economista reformista quer
admitir, mas eles não sabem como corrigir este sistema de economia política que
está a definhar. Eles nem sequer sabem prever o que acontecerá como
consequência da aplicação de tal ou tal paliativo nesta perna de pau, nem o que
acontecerá se não aplicarem nenhuma medida de austeridade. Não podem fazer nada
a não ser prolongar a agonia deste sistema decrepito. Aqui está uma lista não
exaustiva das medidas de austeridade (tanto de esquerda como de direita)
sugeridas ou aplicadas em vários países industrializados:
______________________________________________
- Imposto Tobin sobre as transações
bolsistas e financeiras.
– Nacionalização dos bancos.
– Nacionalizar as empresas mineiras e
energéticas.
– Legislar para proibir os paraísos
fiscais e combater a evasão fiscal.
– Legislar contra a especulação bolsista
e a má gestão financeira.
– Aumentar os impostos e taxas sobre os
particulares.
– Aumentar os preços.
– Reduzir o salário mínimo.
– Elevar os preços dos serviços
públicos.
– Aumentar o preço da energia.
– Aumentar as contribuições para o subsídio
de desemprego e reduzir os subsídios.
– Reduzir os serviços postais e aumentar
o preço dos selos.
– Reduzir o crédito ao consumo.
– Restringir o acesso a empréstimos
hipotecários.
– Aumentar a taxa base e as taxas de
juros sobre os empréstimos.
– Adoptar uma lei que force uma
redistribuição da riqueza (sic).
– Cancelar a dívida do governo em
relação aos regimes de pensões dos assalariados.
– Reembolsar a dívida pública o mais
rapidamente possível (sic).
– Reduzir os gastos do governo.
– Aumentar a produtividade dos
trabalhadores.
– Elevar as barreiras aduaneiras para
proteger o mercado nacional.
– Transformar a governação capitalista.
– Multiplicar as recolhas de caridade
para os trabalhadores empobrecidos.
Para cada proposta reformista de
austeridade dita de direita, é também considerada uma contramedida reformista
dita de «esquerda». Todas estas medidas foram adoptadas tal como eram ou
reorganizadas conforme a conjuntura local. Todas falharam, porque nenhuma ataca
as causas profundas da crise económica sistémica, nenhuma produziu os
resultados esperados. Ou bem que os operários e assalariados se deixam enganar
e a classe operária adere a estas mentiras reformistas que pretendem resolver a
crise económica sistémica global e mundial com alguns truques de
prestidigitação – redistribuição da riqueza e sanções contra os fugitivos e os
prevaricadores – planeadas por políticos charlatães que nunca conseguiram
aplicar nenhuma lei anti-capital, nada consegue travar a crise sistémica. Ou
então, resistimos colectivamente às medidas de austeridade que nos são impostas
e viramos a situação contra esses palradores da pequena-burguesia, burocratas sindicais
e grandes capitalistas monopolistas com as suas patranhas económicas
ultrapassadas.
Mapa 1
Repartição da riqueza por país
Nenhum país no mundo está a salvo da
crise económica sistémica, é por isso que afirmamos que não existe nenhuma
solução nacional para sair da crise económica sistémica mundial e global, a não
ser sair do sistema económico imperialista moderno em falência.
A guerra mundial é
inevitável
O abismo económico aprofunda-se cada vez
mais a cada dia. Se sairmos da crise actual, provavelmente após uma guerra
severa, será apenas para começar uma nova crise como aconteceu na Segunda
Guerra Mundial (após trinta anos chamados de "gloriosos" do Estado-providência
pelos pequenos-burgueses literatos). Esta nova crise sistémica seguirá a
seguinte sequência: – Crash bolsista – financeiro, seguido de uma depressão
terrível e de um desemprego catastrófico, seguido de uma guerra mortal – que
servirá para destruir muita força produtiva (trabalhadores assalariados) e
muitos meios de produção (fábricas, meios de transporte, recursos). É por isso
que dizemos que a crise económica sistémica global e mundial é inevitável e
poderá levar a uma nova guerra mundial.
Duas frentes para combater as medidas de austeridade
1)
COLABORAR: reclamar mais medidas de austeridade;
implorar a compaixão dos ricos para que façam caridade e apliquem políticas
para sair da estagnação económica. Depois, chorar porque os economistas e
especialistas, os políticos que administram o poder estatal com a permissão dos
capitalistas, aqueles que detêm o poder económico há séculos, não podem fazer
outra coisa senão o que já fazem – as leis da economia capitalista enterram-nos
ainda mais na crise sistémica global e mundial.
2)
RESISTIR: levar cada um de nós no nosso ambiente de trabalho, no nosso meio social,
no nosso bairro, a luta de resistência de classe contra qualquer medida de
austeridade que prejudique os trabalhadores, que prejudique os estudantes, que
prejudique os desempregados; contra os aumentos das rendas; contra o aumento
das tarifas de electricidade; contra o aumento das tarifas dos transportes
públicos; pela subida das subvenções à habitação social; contra a elitização
dos bairros operários; contra o encerramento do serviço postal e o aumento das
tarifas; pelo direito de afixar, manifestar, expressar-nos; rejeitar a
propaganda da burguesia que tenta dividir-nos e isolar-nos e levar a contra
desinformação através das redes sociais; recusar que aumentem as tarifas das
creches; recusar e combater a carta chauvinista e xenófoba de exclusão contra
os trabalhadores;
Não nos cabe de todo a nós, proletários, trabalhadores,
desempregados, reformados, estudantes, artesãos, beneficiários de assistência
social e pobres, encontrar soluções para o mau funcionamento do seu sistema
económico-político decadente, sistema sobre o qual não temos qualquer controlo
e que nunca poderemos fazer funcionar de outra forma senão da maneira
programada – ou seja, para valorizar o capital – acumular o máximo de
dividendos em benefício dos ricos e assegurar assim a reprodução alargada do
capital privado monopolista que nos lança na tormenta. Devemos construir um
novo modo de produção – um modo de produção planeado feito pela mulher e pelo
homem operário para o bem-estar da mulher e do homem assalariado.
OS AMERICANOS REPATRIAM PARA OS ESTADOS UNIDOS **
Deslocalização industrial para os Estados Unidos?
Meios de comunicação mentirosos, jornalistas subservientes e economistas a soldo queixam-se que há muito tempo muitas empresas europeias, canadianas e americanas encerram as suas fábricas na Europa, no Canadá, na Austrália, no Japão e nos Estados Unidos e as transferem para o Oriente. O que seria novo, no entanto, é que algumas empresas estariam a regressar aos Estados Unidos para aí explorar mão-de-obra barata. É mencionado o caso da empresa Otis, uma empresa americana, que teria fechado a sua unidade de produção na Europa para a repatriar para os EUAxxiv.
Mapa 2
Deslocalização das empresas por país
O mapa 2 mostra, para o ano de 2011, a importância de cada país anfitrião e dá um índice da sua força atractiva em termos de recepção das operações (produção, informatização, gestão, distribuição, comunicação, investigação/desenvolvimento) externalizadas e/ou deslocalizadas. É fácil notar que a China e a Índia ficam com a maior fatia, mas é de salientar que desde 2011 a Índia se tornou mais atractiva do que a China em termos de externalização – deslocalização de fábricas e centros de investigação, deslocando a China, que para criar um mercado interno teve de aumentar os rendimentos dos seus assalariados. Existem dados que provam que a China ultrapassou a fase das economias emergentes e se tornou uma potência que exporta capitais, domina mercados, centraliza a gestão e a administração de imensos conglomerados internacionais que externalizam e deslocalizam as suas operações em diversos países onde a exploração do capital (variável e constante) é mais lucrativa.
Especialistas e perspicazes perdem-se em
conjecturas, especulam, supõem e não conseguem compreender nem explicar este
fenómeno estranho. Porque é que há um tal redesdobramento industrial
intra-imperialista? Este processo vai continuar e, para os capitalistas da
Europa, do Canadá, da Austrália, o que fazer para contrariar este movimento, se
é que ele pode ser travado ou invertido?
Este redesdobramento industrial estratégico
é possível e necessário graças à combinação de vários factores constritivos e
interligados. Primeiro, a série de acordos de livre comércio (União
Europeia-EUA-Canadá, Coreia do Sul-Canadá, Coreia do Sul-EUA, EUA-Taiwan, etc.)
que os altermundialistas chamam de processo de «globalização dos mercados sob o
neo-liberalismo», permitindo aos capitalistas monopolistas deslocar as suas
fábricas para qualquer parte do mundo, fechar brutalmente uma unidade de
produção na Bélgica, França ou Canadá e movê-la para a China, Coreia, ou Índia,
ou para os Estados Unidos, onde a resistência trabalhista há muito tempo está
enfraquecidaxxv.
O Estado
policial americano, os Estados policiais europeus, canadianos, australianos,
japoneses e de todos os países submetidos às relações de produção imperialista
moderna identificaram perfeitamente os critérios que dificultam a
externalização/deslocalização das operações de uma empresa monopolista
multinacional. Em conjunto, sob a direcção da OMC, da ONU, da OCDE, do Banco Mundial
e do FMI, trabalham para reduzir ou eliminar esses obstáculos à expansão
imperialista industrial e comercial. A figura 3 abaixo apresenta os dez
obstáculos mais importantes que dificultam a externalização/deslocalização de
uma empresa capitalista monopolista.
Os operários
têm o hábito de reagir espontaneamente a esta desvalorização do único bem que
possuem e podem vender, a sua «força de trabalho», lutando por aumentos
salariais ou melhores benefícios sociais (seguro colectivo, plano de reforma),
para manter o seu poder de compra, por isso os Estados imperialistas perceberam
rapidamente que tinham de esmagar essa resistência ou desindustrializar-se.
Alguns indicadores e factos significativos vão
ajudar a perceber o grau de esmagamento da resistência dos assalariados
americanos desde que a crise económica sistémica se acentuou em 2008. A taxa de
sindicalização está no nível mais baixo desde a aparecimento dos sindicatos.
Apenas 11,3% da força de trabalho assalariada nos Estados Unidos é
sindicalizada. Sindicalizar-se é extremamente difícil e muitos operários
americanos acham que essa luta pelos sindicatos não vale a pena, tendo em conta
as lutas sindicais abortadas ou destruídas.
Recentemente,
o Presidente Obama aumentou alguns cêntimos ao salário mínimo para os assalariados
mal pagos do governo federal. Será que Barack Obama se tornou um «comunista»
infiltrado até ao gabinete oval da Casa Branca, como sugere a líder do Tea
Party (sic)? Não, obviamente que não, é simplesmente que o Estado capitalista monopolista
fez três constatações:
1) por um lado, o nível salarial é tão baixo para
os operários nos Estados Unidos que já não permite a uma parte da classe
operária assegurar a sua reprodução alargada, o que provoca escassez de
empregados em alguns sectores de actividade, levando a uma pressão para a
subida dos salários.
2) Além disso, o nível ridículo dos salários
praticados faz com que uma parte dos assalariados abandone o trabalho legal,
preferindo oferecer os seus serviços no mercado ilícito e em actividades do
mundo marginal. O banditismo e o crime contra a pessoa explodem nos Estados
Unidos, o que custa caro em seguros, em serviços policiais repressivos,
sobrecarrega o sistema judicial e o sistema prisional (um quarto dos
prisioneiros no mundo estaria encarcerado nos Estados Unidos).
3) Por fim, a diminuição constante do salário médio
e mediano reduz, no geral, o mercado de consumo solvente para uma parte cada
vez maior dos assalariados, que hoje, sobre-endividados, já não conseguem
crédito e deixam de consumir, daí a explosão de lojas de roupa em segunda mão,
cantinas populares e outras obras de caridade sem fins lucrativos para o grande
capital monopolista.
No ano passado, a lei sobre o seguro de
saúde obrigatório para todos os empregados (Medicare) é mais uma medida
adoptada pela administração "comunista" de Obama (sic) e que visa
apoiar o consumo e a tosquia das ovelhas operárias pelo grande capital
farmacêutico dos serviços médicos privados e do seguro capitalista. Sob o
pretexto de fornecer a cada operário um seguro para os seus cuidados de saúde,
tudo o que a indústria da saúde conseguiu inventar foi taxar directamente todos
os operários para encher os bolsos dos monopólios da saúde e do seguro privado.
Os pequenos burgueses e os plumitivos editorialistas formais perceberão porque
é que os operários norte-americanos que estavam assegurados pelos seus
empregadores se rebelam contra o facto de o Estado transferir para eles este
peso que antes era das grandes corporações monopolistas, enquanto os empregados
que não estavam assegurados continuam sem ter meios para pagar seguros a preços
proibitivos. Os únicos que ganham com esta fraude do Barack são os capitalistas
do seguro privado, enquanto os operários veem os seus salários cada vez mais
reduzidos e a sua capacidade de consumo também. É por isso que dizemos que a
crise sistémica do capitalismo é uma crise de sobreprodução em meio a
privações.
Como todos devem ter reparado, o sistema
económico capitalista funciona de acordo com leis invioláveis – inevitáveis –
inexoráveis que ninguém pode transgredir ou ignorar, especialmente não o
Presidente da primeira potência imperialista moderna.
A queda dos custos do transporte
intercontinental (por navios de passageiros, contentores e graneleiros) explica
também a facilidade com que as fábricas podem ser mudadas de um país para
outro, de um continente para outro. Um escândalo alimentar sobre carne
estragada na Europa no ano passado demonstrou que, para produzir um simples
prato preparado, nada menos do que seis empresas e fábricas situadas em seis
países estavam envolvidas no fabrico e comercialização desse veneno alimentar.
Finalmente, as legislações aduaneiras,
tarifárias, do direito do trabalho e do direito fiscal que foram moldadas, ou
que foram forjadas pelos funcionários de Bruxelas, Washington, Ottawa e
Canberra, em benefício dos seus patrões, as multinacionais presentes no espaço
Schengen, na área do NAFTA e na esfera da OMC (Organização Mundial do
Comércio), garantem que a força de trabalho assalariada, ao melhor preço, será
explorada pelas multinacionais apátridas e que, em seguida, os seus lucros
poderão migrar tranquilamente para paraísos fiscais para se subtrair ao imposto
e aos encargos sociais, sempre considerados demasiado dispendiosos por aqueles
que têm como missão recolher o máximo de lucro para redistribuir aos accionistas
ávidos de reinvestir esse capital para um novo ciclo de reprodução alargada, e
assim vai a vida económica sob o imperialismo modernoxxvi.
Todas estas explicações não evitam
completamente os benefícios procurados por este redesdobramento industrial
intra-imperialista. Para que serve fechar em Aulnay-sous-Bois, em Gent, em
Ste-Thérèse para investir em Flint, no Michigan?
Redução dos custos da força de trabalho
Nos últimos anos, a primeira potência
imperialista mundial tem mantido intencionalmente a sua moeda, o dólar, abaixo
do valor do euro, o que lhe dá uma vantagem comercial óbvia. O Canadá iniciou
uma operação parecida de desvalorização especulativa da sua moeda há vários
meses (1$ CAD = 0,90$ US = 0,65 €). Os bens e serviços produzidos nos Estados
Unidos tornam-se assim mais baratos de comprar para um Europeu, um Australiano
ou um Japonês. Mas é preciso que os custos de produção desses bens e serviços
estejam controlados e mantidos o mais baixo possível, caso contrário a vantagem
comercial seria anulada pela diferença salarial, que historicamente estava a
favor dos trabalhadores americanos relativamente bem pagos, pelo menos na
grande indústria monopolista. Esse tempo acabou graças ao 'comunista' Barack
Obama (sic), o Presidente dos pequenos burgueses 'progressistas'.
A inflação gerada pela impressão e injecção
constante de dólares norte-americanos no circuito financeiro reduziu o poder de
compra dos operários, ou seja, o valor da mercadoria «força de trabalho» no
mercado norte-americano está a cair devido à própria abundância de dinheiro
(dólar) e à desvalorização da moeda americana. A inflação e a desvalorização de
uma moeda (americana, europeia ou canadiana) têm sempre um custo para os assalariados
e constituem sempre uma forma de transferir o peso da crise económica para cima
da classe operária, algo que nenhum economista cúmplice revela aos assalariados.
Os operários geralmente têm o hábito de
reagir a esta desvalorização do valor da mercadoria «força de trabalho» lutando
por aumentos salariais ou pela melhoria dos benefícios sociais (seguro colectivo,
plano de reforma), por isso os capitalistas americanos, com o apoio do seu
aparelho de Estado burguês, lançaram há muitos anos ataques repetidos contra as
condições de trabalho, contra os salários, contra os planos de reforma, e
contra as condições de reprodução da força de trabalho dos operários
americanos. O lucro dos capitalistas monopolistas norte-americanos é múltiplo;
à desvalorização do dólar americano, que permite tornar mais baratos os
produtos americanos exportados, soma-se a redução do custo da mão-de-obra e um
lucro acrescido no momento da colocação dos produtos importados no mercado
norte-americano, colocação assegurada pelas Wall Mart e Target dos Estados
Unidos.
Hoje em dia, não só a produtividade do operário
americano (ritmo de trabalho, número de horas trabalhadas, mecanização do
trabalho, períodos de descanso reduzidos, etc.), assim como o seu baixo custo
de produção (salários e benefícios em declínio) dão uma vantagem competitiva
inigualável aos empresários monopolistas dos Estados Unidos em relação aos seus
concorrentes europeus e canadianos.
Tendo destruído consideravelmente a
resistência operária americana, com a cumplicidade dos empresários sindicais,
tendo rebaixado o proletariado e grande parte dos assalariados americanos a
condições de sobrevivência onde, individualmente, cada trabalhador se sente
ameaçado pelo desemprego endémico, a concorrência de operários estrangeiros e o
endividamento sufocante; cada um totalmente isolado na sua resistência devido à
traição da oligarquia sindical; cada trabalhador solitário luta pela sua
sobrevivência pessoal (sem consciência de classe) e cada um se vende ao melhor
comprador no «mercado de operários» em condições que nem sequer permitem a sua
reprodução alargada (o operário e a sua família)! Entretanto, o pequeno-burguês
ecologista fantasioso pregava sobre o consumo excessivo da população e a
necessidade da pobreza voluntária, todos reunidos nas suas universidades
esterilizadas pelos funcionários de apoio mal pagos.
Os Estados Unidos – a Europa Ocidental –
o Canadá – a Austrália e o Japão estão nesse ponto, caso ainda não soubesses!
Esquece a pequena-burguesia e o grupo de assalariados bem pagos do sector
terciário hipertrofiado… que serão os próximos a passar pelo processo de
empobrecimento acelerado. Só então os ouvirás lamentar a exploração descarada e
suplicar para receberem a moratória do recrutamento.
Eis a indústria americana finalmente
pronta para um segundo «decolar» – uma recuperação e uma reconquista dos seus
mercados históricos, se não fosse uma série de problemas agravantes que terá de
superar antes. Vamos demorar-nos um pouco nesses problemas, já que a Europa, o
Canadá, a Austrália e o Japão também acabarão por enfrentá-los em breve.
A concorrência internacional entre salteadores
1.
A desvalorização da moeda (do dólar)
torna ainda menos atraentes os rendimentos dos investimentos de capitais nos
Estados Unidos. As empresas imperialistas americanas reduzem, portanto, o
repatriamento dos seus lucros para a pátria (o patriotismo aos molhos é bom
para camponeses e afluentes urbanos). Os mercados bolsistas norte-americanos,
então, faltam de liquidez e especulam até com dinheiro de brincadeira –
dinheiro inflaccionário inexistente – crédito, usado para montar esquemas
especulativos, pirâmides de Ponzi, que mais cedo ou mais tarde explodem e
desmoronam. Recentemente, a Caisse de dépôt et placement du Québec anunciou
rendimentos recordes em parte graças ao maravilhoso desempenho das empresas
especulativas americanas que, no próximo ano, muito provavelmente, vão implodir
e arrastar a Caisse para mais um desses anos de perdas recordes como em 2008 xxvii.
2.
A China imperialista mantém a sua
capacidade competitiva: aumentando constantemente o nível de produtividade da
sua mão de obra assalariada (orçamento crescente em investigação e
desenvolvimento); controlando rigorosamente o aumento lento e rigoroso dos
salários dos seus operários para criar um mercado interno. Além disso, a China
começou a transferir algumas das suas fábricas de baixo valor acrescentado, ou
seja, com um factor trabalho – capital variável – elevado (indústria têxtil, de
vestuário, calçado, alimentação, etc.) para o Sudeste Asiático pobre e para a
África miserável (Etiópia)xxviii. A China mantém assim a sua capacidade
competitiva em relação aos americanos, europeus, canadianos e australianos. Um
economista burguês resume o dilema da economia chinesa contemporânea nestes
termos: o desequilíbrio fundamental da economia chinesa é a baixa parte do
consumo no PIB (40% do seu PIB, enquanto a proporção é de 70% nos Estados
Unidos, no Canadá e na Europa). Este desequilíbrio resulta de políticas que
visam manter as taxas de juro artificialmente baixas, sobretudo nos depósitos,
o que se traduz numa subvenção às grandes empresas que tomam empréstimos, em
detrimento dos agregados familiares.
Perante rendimentos de poupança mais
baixos, os agregados familiares têm de poupar mais, o que financia os
empréstimos das empresas que investem alegremente, produzem em abundância e
exportam em grande escala. No final, os agregados familiares enfrentam preços
de importação elevados devido à moeda chinesa subvalorizada, o que funciona como
um subsídio às empresas exportadoras. O resultado líquido é que o investimento
é sobredimensionado no PIB, tal como o excedente da balança comercial, e tudo
isso à custa do consumo das famílias. E, diríamos, o que impede os
imperialistas ocidentais de fazerem o mesmo?
3. Por outro lado, a União Europeia
tentou de facto ceder um pouco, deixando cair o valor do euro, mas os
americanos aceleraram a desvalorização da sua moeda (o mesmo para o dólar
canadiano). O euro forte em relação ao dólar dificulta a expansão das
exportações e sufoca a dívida soberana de cada Estado da zona euro que continua
a contrair empréstimos alegremente. Os capitalistas monopolistas europeus –
seja qual for a sua nacionalidade – já pensaram nessa possibilidade. O
turbilhão mediático, em conjunto com políticos corruptos e burocratas sindicais
interessados, está há muito tempo em campanha para demonstrar, com base nos
exemplos da Grécia, Espanha, Portugal, Itália e Reino Unido, que os operários
que não se submeterem e não aceitarem apertar o cinto e regressar às condições
salariais e de vida de antigamente serão rejeitados pelo sistema económico
omnipotente e postos de lado – desemprego e assistência social, sopa popular,
bazares e sem-abrigo serão a sua realidade – como nos Estados Unidos, onde uma
parte da classe operária vive em parques e dorme em tendas, mesmo que milhões
de trabalhadores tenham emprego. Em falência, 30% dos jovens casais voltaram a
viver com os paisxxxi.
Os trabalhadores americanos
resignaram-se, porque é que os operários europeus não se resignariam? Então,
por favor, clamam os capitalistas franceses e os seus lacaios socialistas,
«esqueçam as 35 horas», a França já não está nos tempos em que as colónias
impulsionavam o PIB metropolitano… Hoje, «filhos da pátria, o excesso de valor
deve ser produzido aqui e extorquido com patriotismo com a cumplicidade dos
nossos amigos sindicalistas derrotistas». Eis a triste e absurda realidade que
estes analistas choramingas apresentam nas emissões de televisãoxxxii.
A dívida soberana descontrolada
A valorização do euro tem como
consequência aumentar o montante da dívida soberana de cada país europeu, já
bastante pesada. Quanto mais um país depende para a sua capitalização interna
de empréstimos feitos em euros, mais a sua dívida aumenta, mesmo que esse país
não peça mais um euro novo. As dívidas dos diversos países europeus acabam
assim por ser comunitarizadas – “socializadas – europeizadas”, o que está longe
de agradar ao imperialismo alemão.
Os Estados Unidos já 'regularam' este
tipo de problema. O FED compra os títulos de poupança do governo ianque e
desvaloriza, com isso, o valor internacional do dólar americano. Assim, ganha
em duas frentes, mas ao preço de um colapso catastrófico que se antecipa.
Parece que o Banco Central Europeu decidiu recorrer ao mesmo estratagema
suicida ao criar um fundo de compensação para salvar os patos mancos europeus.
De facto, este sistema de financiamento da dívida através de crédito inflaccionário
é suicida, já que esta operação de resgatar as operações financeiras dos países
da zona euro através da emissão de dinheiro inflaccionário não faz mais do que
adiar o problema da sobre-produção e do sub-consumo – do desemprego agravado –
e do endividamento privado e público catastrófico – para prazos hipotéticos que
não vão demorar a chegar nem podem ser evitados.
Amanhã, economistas pedantes e políticos
descarados virão explicar que é necessário mais sacrifícios por parte dos
cidadãos (a ATTAC certamente pedirá uma auditoria cidadã para constatar a
dimensão do desastre anunciado); exigir menos salários e mais produtividade (os
economistas certificados seguramente validarão esta necessidade); reclamar
menos serviços públicos para reduzir os défices gigantes resultantes do
endividamento crescente (a esquerda proporá arregaçar as mangas pelo bem da
pátria); apoiar mais guerras espoliadoras e destrutivas (como na Ucrânia, após
a Síria, Líbia, Mali, Iraque, Afeganistão, Sudão, Congo, Costa do Marfim e
Sérvia); e, finalmente, reclamar mais subsídios e benefícios fiscais para
empresas em crise e bancos em colapso, de forma a permitir-lhes manter a sua
taxa de lucro. xxxiii
Nenhum segredo sobre a inevitável realidade da sua incapacidade
Esquecam o chamado «segredo» sobre a
competitividade alemã com o qual se acalma o sono dos operários europeus, canadianos
e australianos há anos. O seu segredo é simples: os operários alemães têm
mantido a competitividade dos trusts alemães à custa da sua saúde, do seu
equilíbrio mental, da sua vida familiar e da sua escravidão assalariada. São os
mesmos sacrifícios que hoje são impostos aos operários americanos para trazer
as fábricas de volta para o seu país de origem, mas à custa da sua vida.
Não nos enganemos, o objectivo do
desenvolvimento do sistema capitalista não é produzir riqueza e garantir o
bem-estar das pessoas, nem sequer acumular lucros astronómicos. Cada vez menos
pessoas acumulam cada vez mais dinheiro e riqueza e, ainda assim, o
imperialismo está em crise porque atinge cada vez menos a sua finalidade de valorização
do capital – de reprodução expandida do lucro. O objectivo final do sistema
capitalista no seu estágio imperialista do desenvolvimento é, através desta
apropriação de lucros, garantir a sua reprodução alargada.
É a lei inalterável do sistema que o
leva a empurrar os seus concorrentes monopolistas intercontinentais para
garantir sobreviver e prosperar: anda, acumula lucros, reinveste esse capital
constante (Cc) e esse capital variável (Cv) e assegura um novo ciclo de
reprodução alargada; caso contrário, perece e declara falência. Esta é a
receita das empresas monopolistas em expansão. A crise consiste no facto de não
conseguirem mais assegurar este ciclo económico, para o qual este sistema
existe e subsiste. xxxiv
As marionetes políticas, socialistas,
liberais, democratas, republicanas, conservadoras, UMP e lepenistas estão lá
apenas para regular esta transação financeira entre, por um lado, o investidor
– o tomador de risco com o capital público, com as poupanças e os fundos de
pensão – e, por outro lado, as massas operárias trabalhadoras privadas de todo
poder e vendendo a sua força de trabalho ao maior lance por um salário cada vez
menos razoável e impostos cada vez mais exorbitantes. É aceitar ou deixar, sem
qualquer saída dentro deste sistema desorganizado, nem sequer a ilusão de
restaurar as fronteiras nacionais de forma a recriar um ambiente de exploração
capitalista nacional patriótica, protegido da concorrência internacional. Se as
fábricas regressarem aos Estados Unidos ou a qualquer outro país imperialista
dominante, é porque a taxa de lucro lá foi restaurada a favor do capital
internacional. A situação só pode ser temporária, uma vez que a composição
orgânica do capital voltará a deteriorar-se e o desenvolvimento desigual e
interligado entre estes diversos países altera constantemente as condições de
exploração da classe operária.
Os operários têm duas opções: seguir o
exemplo dos assalariados norte-americanos e vender a sua força de trabalho
abaixo do custo de produção (abaixo do limiar de reprodução alargada da sua
vida) ou resistir com todas as forças, recusar os Tratados de livre comércio e
derrubar este Estado policial e este sistema económico moribundo antes da sua
perdiçãoxxxv .
A ESPIRAL INFERNAL DA
CAPITALIZAÇÃO ***
A crise sistémica
explicada aos operários
A crise sistémica do modo de economia
política geralmente começa com a sobre-produção de mercadorias – entende-se por
sobre-produção relativa – a produção excessiva de produtos em relação a um
mercado solvente. Entretanto, centenas de milhões de seres humanos não têm
acesso ao mínimo vital para sobreviver e reproduzir-se. Mas como esses pobres
não têm como pagar, eles não constituem um mercado. O mercado solvente (crédito
incluído) encolhe, mesmo no Ocidente, devido às retiradas feitas pelo Estado
(taxas, impostos, direitos e tarifas), somadas à diminuição relativa dos gastos
do Estado, aqueles destinados à população e à reprodução da força de trabalho.
O aparelho de comercialização encontra cada vez menos mercados para as mercadorias
que se empilham nos armazéns. É a sobre-produção de produtos no meio da penúria
dos empobrecidos num mundo esmagado por bombas, guerras localizadas e a
concorrência pelo controlo dos mercados.
Porquê essa ressurgência súbita da sobre-produção?
Quem ou o que é que desencadeia cada nova crise de sobre-produção? É que a economia capitalista não é planeada
de forma alguma. A mão invisível do mercado é uma mão anárquica, sensível
ao lucro máximo, qualquer que seja o preço a pagar. A produção aumenta nos sectores
ocasionalmente lucrativos por razões cíclicas. Assim, os lucros são mais
elevados em certos sectores da economia – onde a produtividade aumenta
momentaneamente, na maioria das vezes devido a uma efémera inovação
tecnológica, graças a um novo processo de fabrico, consequência da aceleração
do ritmo de trabalho, pelo prolongamento da jornada laboral. Mas todas estas tácticas
para manter as taxas de lucro elevadas são rapidamente imitadas pelos
concorrentes, de forma que a acumulação de mais-valia
relativa não dura e, em breve, todos os concorrentes se encontram em pé de
igualdade a disputar os mesmos mercados saturados.
Na etapa seguinte, as fábricas de
produção de bens de consumo corrente reduzem a sua produção e despedem
funcionários, tal como os distribuidores, as empresas de transporte, os
grossistas e os retalhistas. Estes, ao reduzirem o seu consumo, provocam
dificuldades aos monopólios de fornecimento de energia e de matérias-primas.
Eles também despedem e cortam a produção. Isto faz com que muitos clientes se
encontrem de repente sem dinheiro, o que os leva a reduzir o seu estilo de
vida, a acentuar a queda do consumo e a agravar a sobre-produção.
A financeirização da economia imperialista
Será que se pode impedir o colapso dos
mercados mantendo-os artificialmente elevados através do alargamento dos
empréstimos (a juro composto)? Sim, mas apenas por um tempo. Os bancos
demonstram isso todos os dias com o seu crédito ao consumo desenfreado. Mas
tudo isto só dura até ao dia em que o Pai da Vara passa por ali para cobrar a
sua libra de sangue, e chega ao fim o paraíso do «tudo a crédito».
Desesperados, os bancos centrais dos
países imperialistas lançaram-se nesta prática, e começaram a emitir moeda
inflaccionária, aumentando desmesuradamente a quantidade de dinheiro em
circulação. Aqui tratamos das grandes moedas (Dólar, Euro, Iene, Yuan) que
regulam as moedas dos países dependentes, esses pequenos países capitalistas
que vivem sob o imperialismo. Por exemplo, o franco CFA da África francófona (15
países africanos dependentes) está ligado ao euro e sofre todos os contratempos
que o euro enfrenta, e o mesmo acontece com outras moedas nacionais cujos
países fazem comércio com uma delas ou a outra das grandes potências mundiais.
Os bancos privados de negócios e de
poupança, a partir destas emissões de moedas centrais, também produzem dinheiro
(isto é o efeito alavanca). Os bancos
privados transformam os seus créditos em dinheiro e criam assim mais dinheiro,
porque toda operação de crédito é uma operação de criação monetária. Os
mercados ficam rapidamente inundados de liquidez, o que provoca a queda das
taxas de juro sobre o dinheiro e reduz os retornos dos investimentos (a taxas
fixas - são os obrigações - a taxas antecipadas, são as acções).
Tudo se liga nesta economia anárquica
vampirizada pelo dinheiro. Este fluxo contínuo de moeda, concentrado nas mãos
de cada vez menos monopolistas financeiros, garante a especulação bolsista – o
especulador muitas vezes nem precisa desembolsar o pagamento antes de revender
os seus activos para encaixar o lucro e reinvesti-lo numa aventura especulativa
ainda mais utópica e lucrativa, e assim colher mais lucros de alto rendimento –
efémeros – porque apoiados no nada.
Estes investimentos de alto rendimento
aumentam ainda mais a massa monetária em circulação, o que reduz
consequentemente os lucros nos investimentos em bolsa e aumenta a bolha prestes
a rebentar. A bolsa entra em pânico e dispara, enquanto a produção enfraquece,
o emprego diminui e o consumo estagna, o que faz com que os investimentos
produtivos (máquinas e meios de produção, matérias-primas e energia) recuem,
porque os lucros previstos são muito arriscados, tanto porque o consumo
diminui, os mercados se contraem, como porque os investimentos em meios de
produção e em forças produtivas desmoronam. Torna-se então mais interessante,
em termos de rendimento do dinheiro, especular nos mercados, no vento, do que
nos cereais, algodão, matérias-primas e energia. São os cocktails de activos
tóxicos e os esquemas financeiros “securitizados” e escandalosos
destinados à desgraça que se espalham pelo mercado bolsista, questão de surfar
na subida dos índices falsos. É isso que os economistas a soldo chamam de financeirização da economia, sem nunca
conseguir explicar nem, muito menos, contrariar, porque é uma lei inevitável da
economia política capitalista.
A terciarização da economia imperialista moderna
O sector terciário (finanças, seguros,
banca, escritórios, administração, serviços, turismo, hotelaria, restauração,
educação, investigação e desenvolvimento) concentra até 70% dos empregos nas
economias dos países imperialistas dominantes. A terciarização da economia e do emprego resulta da financeirização e é uma consequência da
monetarização das trocas, e, em última análise (in fine), do desenvolvimento desigual e interligado sob a economia
política imperialista moderna. Cada país tem o seu papel na divisão
internacional do trabalho, e aos países imperialistas dominantes foi atribuído
o papel de consumidores das mercadorias para a realização de lucro.
Vamos analisar de trás para a frente a
cadeia das relações. A financeirização da economia – a monetarização das trocas
– teve como consequência reforçar o fetichismo do dinheiro, aumentar de forma
incomensurável a quantidade de moeda em circulação, a ponto de, na fase
imperialista do capitalismo, o dinheiro produzir dinheiro sem passar pelo ciclo
da produção de mercadorias, noutras palavras, sem passar pelo circuito de
valorização do capital, o que é um absurdo que a longo prazo não pode durar.
Reiteramos, neste circuito paralelo o
dinheiro produz dinheiro como mercadoria – mas uma mercadoria que perde
gradualmente o seu valor simbólico “representativo” de um valor mercantil real
(mercadorias concretas). Demasiado dinheiro acaba por perseguir, de repente,
representar muito poucas mercadorias, o que desvaloriza esta mercadoria
particular que é o dinheiro-crédito.
No entanto, estranhamente, observa-se
que há demasiado poucas mercadorias em
circulação face ao dinheiro disponível. Contudo, existe uma crise de produção
relativa de mercadorias. Isto porque aqueles que acumulam imensas fortunas há
muito satisfizeram as suas necessidades e não consomem mais, ao passo que os operários
e os desempregados carecem do essencial, tal como os pobres do terceiro mundo.
O desfecho final será o dia em que, como na Alemanha nos anos trinta, seria
necessário um carrinho de marcos desvalorizados para comprar um quilo de
manteiga inexistente (pois entretanto a sobre-produção se tinha transformado em
escassez). A concentração de numerário nas mãos de cada vez menos
multimilionários não constitui um desvio de um capitalismo defeituoso; é uma
lei imperativa do modo de produção capitalista no seu estágio imperialista
moderno. Ninguém pode transgredir esta lei sem destruir a economia política
imperialista, algo que a classe capitalista monopolista nunca nos deixará agir
e obrigar-nos-á a derrubá-la.
Ao contrário do que a pseudo-esquerda
reformista afirma, este desfecho não é desejado nem pretendido pelos
banqueiros. Este resultado inesperado é a consequência das leis obrigatórias de
funcionamento da economia capitalista paralisada – a lei da propriedade privada
dos meios de produção – a lei da procura do lucro máximo – a lei da degradação
da composição orgânica do capital – a lei da queda da taxa média social de
lucro – e a lei do bloqueio do processo de valorização do capital e da sua
reprodução alargada. Nenhum economista, nem líder político, nem capitalista,
nem pseudo-socialista pode impedir que
estas leis orientem a economia capitalista-imperialista para a crise, da qual
os capitalistas tentarão um dia escapar, destruindo forças produtivas e meios
de produção através de uma crise sistémica que nem sequer controlarão, ou pior,
através de uma guerra genocida voluntária.
A crise inevitável em duas equações
Enquanto a equação básica que resume o
modo de funcionamento do capitalismo clássico competitivo (século XIX e início
do século XX) era:
Uma quantia de Argent/dinheiro transformada em Capital produtivo (máquinas, recursos naturais, energia e força de trabalho
assalariada) gera uma Mercadoria
que, quando for comercializada – vendida – permitirá obter uma quantia de Argent/dinheiro aumentada por mais-valia, transformada em lucro (profit/lucro, interêt/juro, renda) a
distribuir pelos diferentes proprietários privados do capital para iniciar um
novo ciclo de valorização do capital privado (C’). O operário, por sua vez, tem o seu salário semanal para gastar
na compra dessas mercadorias comercializadas.
A equação básica no sistema da economia
monopolista imperialista moderna é agora:
Uma soma de Argent/Dinheiro já não precisa de ser transformada em Capital produtivo como antes, mas simplesmente em crédito ao consumo (a) que irá gerar uma quantia de Argent/Dinheiro aumentada com Juros (i) não ligados a verdadeiras mercadorias comercializáveis cuja produção seria fonte de mais-valia (riqueza expropriada ao trabalho assalariado).
Assim, há algumas semanas, a Caisse de
dépôt et placement du Québec anunciou resultados magníficos, um retorno de 13%
nos seus investimentos (as poupanças de 3,6 milhões de operários e assalariados
do Québec), retorno largamente devido a investimentos especulativos na bolsa de
valores de Wall Street em empresas americanas sobrevalorizadas – inflaccionadas
com “esteroides” especulativos baseados em lucros antecipados ou na hipótese
absurda de que todas essas empresas fantasmas seriam compradas pelos seus
concorrentes a preços altos com dinheiro do Monopoly. É fácil imaginar que este
castelo de cartas em Espanha vai colapsar pior do que em 2008, já que desta vez
a pirâmide de Ponzi do esquema financeiro é dez vezes maior do que a burla
anterior xxxvi.
Se um estratagema desses fosse rentável
a longo prazo, fica-se a perguntar por que é que os capitalistas continuariam a
produção de mercadorias para comercializar. É infinitamente mais fácil especular na bolsa – comprar e vender acções
e obrigações falsas (sem sequer investir capital, já que toda esta especulação
se faz a crédito com dinheiro inexistente, ou seja, dinheiro não apoiado em
bens imobiliários ou mercadorias) e embolsar um lucro especulativo fictício –
do que fazer produzir mercadorias de verdade, mercadorias pesadas de
transportar, difíceis de armazenar e distribuir, complicadas de comercializar,
complexas de financiar a crédito, difíceis de recolher em dinheiro
desvalorizado. Tudo isto é muito complicado e arriscado, concordarão, comparado
a um simples investimento na bolsa que se realiza quando está bem cheio de
lucros complicados e depois se coloca o montante recém-encaixado noutro
“produto” da bolsa.
Então porque é que todo o Capital existente – em busca de um profit/lucro abundante e fácil – não se
lança especulativamente na bolsa para se valorizar e ganhar lucros fáceis? Mas
é exactamente isso que o Argent/Dinheiro
faz (mesmo que a operação seja suicida), e ao fazer isto este Argent/Dinheiro (sem valor real) sufoca
o sistema e prepara as condições para o próximo crash da bolsa ainda mais
impactante, porque não há nenhuma valorização – nenhuma produção de valor e de
mais-valia – de nova mais-valia – neste salpicão manipulado. Depois este
sistema podre descontrola-se e nenhum destes cambistas e economistas
especialistas pode fazer nada – o capital fácil procura instintivamente o
capital volátil e frágil.
A retoma da espiral infernal
Quando os bancos centrais (FED, BCE,
banco do Japão, banco da China, Banco do Canadá, Banco da Austrália) tiverem
completamente inundado os mercados de moedas fictícias – desvalorizadas – então
será altura de desvalorizar ainda mais drasticamente essas “moedas de macaco” e
eventualmente emitir novas moedas para reiniciar a espiral infernal de
acumulação sem reprodução alargada do capital. A Caixa de Depósitos e
Investimentos anunciará então um ano catastrófico e 40 mil milhões de dólares
de perdas, e Michael Sabia escapará com o seu paraquedas dourado, enquanto os operários
ficarão sem um tostão para a sua reforma.
Até lá, uma parte dos capitalistas
monopolistas terá fugido desses países com parte dos meios de produção
(máquinas, navios e relocalizações) e com o seu capital transformado em moeda
decorativa – sem valor. Como o capital em moeda não terá mais valor, os operários
não conseguirão proteger-se dessa desvalorização, perderão as suas poupanças,
os seus regimes de pensão, os seus bens imóveis (para quem for proprietário de
casa) e terão de se voltar a empregar-se como escravos assalariados para
suportar uma nova espiral económica devastadora. E o regime económico
imperialista moderno continuará o seu ciclo assassino até que vocês decidam
derrubá-lo para o substituir.
A PRODUTIVIDADE DOS EMPREGADOS
****
A produtividade das empresas
O ex-primeiro-ministro Jacques
Parizeau, antigo conhecido pequeno financeiro, indignou-se na semana passada
com a estagnação da produtividade das PME do Québec: «As empresas do Québec estão bastante atrasadas em termos de
produtividade. Isso resulta num nível de vida mais baixo no Québec do que
noutros lugares do Canadá.» xxxvii
O
Sr. Jacques Parizeau aconselha o aparelho de Estado e os capitalistas québécois
a fazer campanha para aumentar a «produtividade das suas empresas», um triste
eufemismo para significar que era da produtividade dos operários que o
ex-primeiro-ministro falava, pois a produtividade de uma empresa é uma farsa. O
ex-diplomado das HEC lançou este grito de incentivo a favor de uma exploração
reforçada dos operários québécois, que se esforçam nas suas
máquinas-ferramenta, nas linhas de montagem, nos estaleiros, nos ateliers
poluídos e nas insalubres «sweatshops».
De
facto, para compreender o sentido profundo deste grito de alarme do ex-ministro
dos ricos, é preciso saber o que significa aumentar a produtividade dos
empregados. O «has been» péquiste balbuciou algumas palavras sobre robótica,
informática e mecanização, para confundir e esconder este ataque planeado
contra os pequenos operários. Nas milhares de empresas québécois, a mediana
situa-se nos 500 000 $ CAD de facturação anual. De que aquisição de máquinas e
robôs caros é que estamos a falar nestas condições?
A produtividade dos
assalariados
A
produtividade industrial mede-se pelo número de itens (mercadorias) produzidos
numa hora de trabalho assalariado. Há um aumento de produtividade quando uma
costureira que produzia aceleradamente 20 camisas por hora consegue,
esforçando-se mais, costurar 25 camisas numa hora, equipada com uma máquina de
costura sofisticada. Se ela usar uma nova máquina de costura, o seu patrão
subtrairá o valor (amortização) desse novo aparelho para cada camisa vendida
para conhecer o aumento de produtividade financeira e saber se 5 camisas a mais
por hora bastam para aumentar o seu lucro. Se não for o caso, o patrão exigirá
uma maior velocidade de execução para passar de 25 para 30 camisas costuradas
em cada hora de trabalho, a fim de amortizar mais rapidamente o preço da sua
nova maquinaria e assim aumentar o lucro à custa da doença, de um acidente ou
do desgaste precoce da costureira. Pouco importa ao capitalista que esta
costureira se desgaste mais rápido ou fique doente mais vezes, já que
costureiras de véu para explorar é o que não falta nas ruas deste bairro e, com
a Carta de valores chauvinistas dos
mordomos do PQ, centenas de novas costureiras de véu – mal-pagas – com mãos de
fada treinadas despedidas estarão em breve ocupadas a pedir emprego. Note-se
que as feministas furiosas (chocadas ao ver uma mulher de véu) não se indignam
ao ver estas mulheres esmagadas, quebradas, gastas, acorrentadas ao seu
trabalho nestes ateliers da rua Laurier, contanto que sejam exploradas e
sugadas, a cabeça descoberta e laica.
Aumentar
a produtividade significa, para o operário contratado por uma PME «sub-contratante,
just-in-time, fordista e taylorista», aceitar trabalhar intensamente quando o
patrão precisa dele e ser despedido quando o empregador já não precisa. O assalariado
deve estar totalmente disponível para as exigências do capital. Ele tem de
suportar uma alternância constante entre períodos de trabalho intenso e
desemprego, bem como mudanças de local de trabalho ao ritmo dos movimentos do
capital (os operários chineses são transplantados com as suas fábricas de um
país para outro). Deve sofrer os efeitos da nova divisão mundial do trabalho. O
trabalho assim dividido e intensificado não proporciona qualquer aumento de
rendimento líquido ao operário alienado. Pelo contrário, a sua ração é
diminuída e imprevisível. Isto é parte do que se entende por condições de
trabalho precarizadas e flexibilizadas para maior produtividade xxxviii.
Este
trabalho precário é aquele que o capitalismo monopolista tende a generalizar
como meio de aumentar a produtividade. Apresenta várias vantagens para as
empresas com alta intensidade de capital variável (muita mão de obra). O
trabalho precário não é apenas o trabalho intermitente, just-in-time, mas
também, para o operário, a multiplicação de empregos a tempo parcial, tudo isso
gerando salários parciais, o que afectará a sua pensão de reforma. Os «working
poors» (operários pobres) veem o seu número crescer nos Estados Unidos (são 97
milhões), no Reino Unido, no Canadá (onde 2 em cada 3 operários estão sujeitos
a horários de trabalho atípicos, a qualquer hora, intermitentes, aos fins de
semana) e na Austrália, onde este sistema foi inicialmente implementado xxxix.
O
trabalho de curta duração é adequado à procura da máxima intensidade e
produtividade; o rendimento do operário é sempre mais elevado nas primeiras
horas do dia de trabalho: « Como é que o
trabalho se torna mais intenso? O primeiro efeito do encurtamento do dia de
trabalho decorre desta lei evidente de que a capacidade de acção de toda força
animal é inversamente proporcional ao tempo durante o qual actua. Dentro de
certos limites, ganha-se em eficácia o que se perde em duração » xl.
A produtividade absoluta
e relativa
A
crise económica sob a qual a economia cedeu começou em 2008. Marca o fim dos
efeitos «benéficos» do neo-liberalismo (que nada tem de liberal). Esta crise
sistémica demonstra os limites encontrados pelo aumento da mais-valia relativa (aumento dos lucros através das subidas de
produtividade resultantes da mecanização da produção). A produtividade através
da mecanização-robotização tendo atingido um pico, a burguesia monopolista leva
a cabo uma ofensiva com vista a aumentar a mais-valia
absoluta, seja ao reduzir os salários relativos (inflação e especulação
descontada) e até, em vários países, ao reduzir os salários absolutos (Estados
Unidos, Reino Unido, Irlanda, Grécia, Espanha, Chipre, Egipto, países do
Leste). É este atraso na exploração intensiva da força de trabalho que o
oligarca octogenário sublinhava aos seus congéneres.
O
esforço de algumas empresas capitalistas norte-americanas foi tão grande para
aumentar a produtividade – mais-valia absoluta – que algumas delas estão a
trazer as suas fábricas de volta para os Estados Unidos (ver o nosso segundo
capítulo).
A
extração da mais-valia relativa
constitui uma forma de exploração relativamente indolor, pois o aumento do
lucro parece vir do aperfeiçoamento da maquinaria, ou seja, do que parece ser a
«contribuição» do investimento em dinheiro na valorização do capital xli.
Por
outro lado, a extração da mais-valia
absoluta, à qual o senhor Parizeau convida os capitalistas a se comprometerem,
é uma forma de exploração muito mais evidente. O aumento da extracção da
mais-valia (chamado de aumento de produtividade pelos empregadores e seus
aliados) aparece claramente como provindo inteiramente da contribuição do
trabalho assalariado. O tempo de trabalho do operário é prolongado,
intensificado, flexibilizado e, pior ainda, cada vez menos remunerado.
Será,
portanto, necessária uma violência acrescida do Estado policial para impor a destruição das «conquistas sociais»,
tão importantes para os pequenos-burgueses empobrecidos, fazendo crer que é
preciso priorizar a retoma do emprego, o que justifica a aplicação das medidas
de austeridade radicais contra os
assalariados. Estas transformações das relações sociais, há muito iniciadas,
têm sido e serão acentuadas no contexto da crise desencadeada em 2008, que se
aprofunda.
Finalmente,
já era altura de o velho financeiro cansado e os seus amigos economistas
progressistas engessados se aperceberem de que não adianta aumentar a
produtividade para aumentar a quantidade de mercadoria a liquidar, quando os
mercados já estão saturados, os clientes assalariados endividados –
empobrecidos e incapazes de absorver mais mercadorias em saldo.
Mas
dizem-nos, aumentar a produtividade não visa aumentar a produção ou a riqueza
colectiva, mas sim impulsionar a lucratividade da empresa e despedir
empregados. Se este aumento de produtividade demorou no Canadá e no Québec,
isso é consequência da sindicalização dos assalariados e da combatividade de
alguns sectores assalariados, assim como da resistência dos estudantes, mas
esta reacção do ex-CEO anuncia confrontos iminentes.
A MUNDIALIZAÇÃO NEO-LIBERAL *****
Crítica do pensamento
reformista neo-liberal
As
expressões «neo-liberalismo», «globalização/mundialização», «monetarização»,
«financeirização» e «austeridade» são apresentadas como características de um
novo estágio de desenvolvimento do modo de produção capitalista, o que é
totalmente falso. A economia política da «mundialização» e da «austeridade» tem
sido estudada e descrita desde o período entre-guerras (1916-1939). Por outro
lado, é justificado afirmar que a economia política imperialista moderna entrou
numa nova fase de desenvolvimento desde os anos de 1968-1971, com a rejeição
dos acordos de Bretton Woods, a abolição da conversibilidade do dólar
norte-americano em ouro e das outras moedas, e a adopção do regime de câmbios
flutuantesxlii. No entanto, esta nova fase do imperialismo
moderno não constitui senão uma exacerbação das contradições já presentes no
capitalismo clássico.
Segundo
as críticas à mundialização/globalização neo-liberal, o modo de produção
capitalista comercial (mercantil), baseado no comércio e na colonização, teria
evoluído para o capitalismo industrial neo-colonial, marcado pelo proteccionismo
e pelas barreiras tarifárias para proteger os mercados nacionais da concorrência
estrangeira.
Este
modo de produção – este sistema – teria depois evoluído para o «neo-liberalismo,
globalizado, mundializado, monetarista e financeirizado» que conhecemos hoje.
As características deste sistema económico imperialista neo-liberal não
totalmente «novo» seriam que toda a economia está hoje dominada pelo sector
privado e por um punhado de banqueiros (os poderes do dinheiro – este talismã)
em detrimento da equidade e do bem público e comunitário popular. O Estado, até ontem ainda justo e
equitativo – árbitro imparcial entre as forças sociais contraditórias – teria
sido usurpado e dominado por um grupo de ricos – em conluio – que se cooptam,
conspiram e corrompem os funcionários – subornando os políticos com caixas
eleitorais ocultas e subornos e apoderando-se de todo o poder em cada Estado.
Os
meios de comunicação nas nossas sociedades livres e democráticas (sic) terão
falhado na vigilância e, por vezes, até terão fechado os olhos inadvertidamente
perante estas malfeitorias. A missão da oposição eleitoralista
altermundialista, social-democrata, nacionalista e eco-socialista de “esquerda”
seria hoje reorientar o aparelho estatal e governamental, este árbitro
imparcial entre forças sociais divergentes, na direcção da sua tendência
natural, que nunca deveria abandonar, a favor da equidade e da justiça. Tudo
isto não passa de charlatanice, como já terá percebido.
O
fim último desta oposição, desta procissão com tochas cívicas e cidadãs
lacrimosas seria a manutenção do Estado-providência – símbolo dos
anos de felicidade em que a pequena burguesia exultava – dos anos sessenta até
aos anos noventaxliii. A pequena burguesia, correia de transmissão e «subalterna»
do grande capital monopolista, queria assim conservar os seus privilégios (as
suas correntes douradas) e não sofrer com os horrores do neo-liberalismo mundializado,
este sistema prevaricador que destrói todas as bases da harmonia social que o
pequeno-burguês tanto esforço teve para credibilizar aos olhos dos operários,
dos assalariados e dos funcionários dos estados ocidentalizados. É preciso
saber que o fenómeno do Estado-providência foi estritamente circunscrito ao Ocidente político e
imperialistaxliv.
«
A partir dos anos 1970, com o crescimento das ideias de Milton Friedman e
Friedrich Hayek, a palavra neo-liberalismo passa a ter outro significado. A
partir de Michel Foucault, o neo-liberalismo é então apresentado como uma
técnica de governo, uma política económica e social que estende o domínio dos
mecanismos do mercado a toda a vida. Friedman e Hayek são apontados em França
como em grande parte os inspiradores, embora nunca tenham reivindicado o neo-liberalismo,
apenas o keynesianismo. O contexto económico marcado pelo fim do sistema de
Bretton Woods relança as discussões entre escolas económicas, e a sua
intensidade contribuiu para popularizar este termo » xlv.
Os ideais e os princípios
do reformismo neo-liberal
Os
termos «neo-liberalismo, globalização, mundialização, monetarização,
financeirização» designam hoje um conjunto de orientações ideológicas,
económicas e políticas de inspiração reformista e oportunista que partilham
várias ideias comuns:
·
A
corrente de pensamento neo-liberal critica a aspiração de uma parte dos
intelectuais burgueses que se opõem à «austeridade»
e esperam a manutenção do «Estado-providência» em declínio.
Esta corrente de pensamento denuncia o aumento das intervenções governamentais
na economia sob a forma de regulamentações abusivas. Criticam a manutenção de
encargos fiscais excessivos para as empresas privadas «deficitárias» (sic).
Reprovar a tomada de controlo de empresas privadas pelo Estado «socialista»,
empresas que, segundo os intelectuais neoliberais, deveriam ser devolvidas ao
setor privado assim que fossem «recuperadas». Isto é o que contradizem os
pequeno-burgueses altermundialistas e pseudo-socialistas críticos do neo-liberalismo,
sob o argumento de que estas empresas estatais rentáveis beneficiariam os
contribuintes.
·
A
corrente de pensamento neo-liberal promove a economia de mercado livre em nome
da liberdade do agente económico produtor e do actor económico consumidor e em
nome da «eficiência» económica da empresa livre competitiva e monopolista. Um
argumento bastante lúdico quando se observa a crise económica estrutural e
sistémica que não para de demonstrar a incapacidade da empresa capitalista
livre de sobreviver sem guerras genocidas, sem crises financeiras repetitivas,
sem fome endémica, sem pandemias mortais e sem cataclismos (para os quais as
populações do terceiro mundo nunca estão preparadas nem protegidas). A
pseudo-esquerda libertária, altermundialista, ecológica e supostamente
«anti-austeridade» devia ser suficientemente avisada para perceber que o livre
mercado e a livre concorrência simplesmente não existem sob o imperialismo
monopolista.
·
A
corrente de pensamento neo-liberal defende a desregulamentação e a desregulação
dos mercados, que deveriam ser regulados estritamente pelas forças e pelas leis
naturais do mercado “livre” e pelo jogo da livre concorrência monopolista
(sic). Os pequeno-burgueses reformistas, alter-globalistas e pseudo-socialistas
respondem que trinta anos de desregulação-desregulamentação provocaram a
intensificação da corrupção, da colusão, do saque das administrações públicas;
o aumento da fraude fiscal e a multiplicação dos paraísos fiscais; a expansão
da especulação bolsista exagerada; a deriva monetária e bancária; a destruição
dos serviços públicos; a multiplicação dos envenenamentos alimentares, a
profusão de acidentes ferroviários, aéreos, rodoviários, marítimos e
petrolíferos; o desencadear de guerras regionais destrutivas; bem como a
anarquia total do desenvolvimento económico imperialista que agora se revela em
toda a sua extensão e em toda a sua horribilidade. Tudo isto é verdadeiro, mas
é igualmente verdade que essas tendências económicas, sociológicas, políticas e
militares estão inscritas no código genético do imperialismo moderno e nunca
poderão ser contidas enquanto permanecermos sob o domínio do modo de produção
imperialista
·
Os
ideólogos neo-liberais defendem a austeridade e aspiram ao desaparecimento
progressivo e selectivo do sector público da economia em benefício do sector
privado nas áreas rentáveis e lucrativas. Evidentemente, a classe operária em
todo o mundo não concorda de forma alguma com este amontoado absurdo, mas o
militante atento percebe rapidamente que os poderes (económico, político,
jurídico e militar) são indiferentes às suas veementes hesitações e que apenas
uma oposição muito firme pode contrariar, ainda que um pouco, as decisões tomadas
no alto escalão pelas administrações públicas da governação estatal a soldo dos
ricos.
·
Os
intelectuais neo-liberais exigem, em nome dos seus financiadores capitalistas,
que os sectores de atividades económicas de produção, distribuição e os serviços
públicos não lucrativos sejam abandonados se não forem essenciais à reprodução
alargada do capital; ou então, num vasto programa de austeridade, que sejam
fortemente reduzidos em termos de despesa governamental e colocados a cargo do
utilizador-pagador, libertando assim rendimento governamental extra para
aumentar os subsídios às empresas privadas parasitárias sob o pretexto de
«estimular a economia», criar empregos (fortemente subsidiados, precários e
efémeros) e para reembolsar a dívida soberana, que escapou totalmente ao
controlo governamental dos mordomos do capital.
·
De
comum acordo, neo-liberais entusiastas e críticos do neo-liberalismo deprimido
concordam que os orçamentos estatais devem ser obrigatoriamente colocados ao
serviço do grande capital para a sua reprodução expandida, e o desafio das
administrações públicas capitalistas consiste em fazer com que os
trabalhadores, incluindo os pequenos-burgueses empobrecidos e endividados,
aceitem essas políticas de austeridade, ou seja, esse desvio dos fundos dos
regimes de pensão, dos depósitos bancários dos poupadores, dos empréstimos
públicos, que doravante não passarão mais por um processo de distribuição
generalizada (assistência social, abono de família, creches subsidiadas,
transportes públicos, habitação subsidiada, cuidados de saúde, educação e
serviços públicos difamados), mas irá directamente – sem intermediários – para
os bolsos dos monopólios e dos bilionários. A chantagem das empresas florestais
e dos alumínios monopolistas, exigindo uma nova baixa nas tarifas de electricidade
já sub-facturadas, é uma manifestação autêntica desta ditadura imperialista
sobre a governação públicaxlvi.
·
Os
críticos burgueses do “neo-liberalismo” queixam-se de que este conjunto de
medidas de austeridade e de desengajamento dos governos “neo-liberais” aumenta
as desigualdades sociais; desestabiliza o tecido colectivo dos cidadãos;
compromete a paz cívica; saqueia os recursos naturais da nação e desequilibra o
Estado burguês nas suas práticas jurídicas, envolvendo-o “demasiado” (dizem
eles) do lado dos possuidores, retirando-lhe o verniz gasto de “árbitro
imparcial” acima das classes sociais.
O « laisser faire » dirigista neo-liberal
Longe de « laisser
faire », o Estado burguês (providencial ou não providencial) intervém
constantemente e cada vez mais « austeramente » e vigorosamente para organizar
e apoiar a reprodução ampliada do capital, ou seja, primeiro, para assegurar a
valorização (os lucros) do capital, que é a condição básica para a reprodução
do sistema de economia política imperialista moderna. O Estado burguês só sabe
fazer isso. A chamada mundialização neo-liberal globalizada, caracterizada pela
austeridade e pela não-intervenção do Estado, não é senão mentira e engano,
conforme acreditam as organizações altermundialistas, eco-socialistas e de
esquerda através das suas denúncias do pseudo desengajamento do Estado. Nunca
houve desengajamento do Estado capitalista. Existem apenas medidas de
austeridade e uma redefinição das prioridades do Estado a favor dos capitalistas,
sem passar pela pequena burguesia, os pobres, os assistidos sociais, os
desempregados e os estudantes.
Todos os dias, o Estado burguês de «austeridade»
desinveste nos serviços públicos e reduz os seus gastos destinados à reprodução
da força de trabalho e ao apoio social, enquanto todos os dias o Estado-providência
para os ricos transfere os fundos públicos assim poupados para
programas de apoio aos capitalistas (no Quebec há 2 300 programas de subsídios
às empresas) para assegurar a reprodução alargada do capital, do qual o Estado
é o mandatário universal, e isto independentemente da facção da burguesia que
controla o poder político, a pseudo esquerda ou a verdadeira direita. Em última
análise, todos os seus esforços são em vão, pois o colapso económico está a
chegar. xlvii
A
economia em guerra contra a economia de guerra
Será possível imaginar por um momento que existem
alambiques tais como a economia 'real'
e a economia 'virtual'? xlviii De facto, os economistas burgueses são incapazes
de compreender, prever e corrigir as calamidades da economia capitalista. O
mesmo se aplica aos seus apóstolos reformistas – oportunistas e esquerdistas,
que se abstêm de dizer que se trata simplesmente de duas formas clássicas de
existência do capital (o capital produtivo ou capital vivo ou ainda capital
variável (Cv) e o capital morto ou capital constante (Cc)). Para Marx, é a
relação entre estas duas formas de capital, aquilo que ele chamava de
composição orgânica do capital (Cc/Cv), que gera economicamente as crises e
politicamente as ditaduras, formas políticas particularmente virulentas da
ditadura 'democrática' burguesa.
A resolução impossível desta contradição, que leva
à queda tendencial da taxa média de lucro – contradição que não pode ser
resolvida sob o domínio do capital monopolista – acaba por conduzir à guerra
(regional ou mundial) como meio último de destruir meios de produção, capital
fixo constante (Cf) e quantidades de stocks de mercadorias invendidas, ao mesmo
tempo que elimina quantidades de forças produtivas não utilizadas (os operários
transformados em carne para canhão nas trincheiras).
Os
Estados Unidos, um exemplo de impasse económico
Se já não há mais mais-valia suficiente para
partilhar, é porque os capitalistas já não conseguem, ao mesmo tempo, explorar
os trabalhadores assalariados e os proletários ocidentais (tirando deles a
mais-valia do trabalho extra não pago), enquanto lhes deixam um salário
miserável; e, ao mesmo tempo, nos países emergentes, explorar os operários,
artesãos e camponeses que migram para as cidades para se proletarizarem. A
solução escolhida pelo capital internacional é, portanto, fazer desaparecer os
humanos excedentes, e para isso guerras, fomes, pandemias, catástrofes naturais
e eutanásia serão aproveitadas.
O gráfico 2 mostra que os salários dos operários
americanos em relação ao PIB do país estão no nível mais baixo desde 1940. Isto
significa que a parte do bolo económico que milhões de operários americanos
levam para casa para se reproduzirem como classe social nunca foi tão pequena.
Chegou-se ao ponto de, nos Estados Unidos, surgir na última década a categoria
de operários pobres. Aqueles que trabalham cinquenta horas por semana não
ganham o suficiente para garantir a reprodução da sua força de trabalho
(aqueles para quem a maior empresa do mundo, a Wall Mart, organiza recolhas de
alimentos em vez de pagar aos seus empregados). Acredita por um instante que
estes proletários anémicos e alienados se possam interessar pela política e
pela coisa pública? É exactamente o efeito esperado.
A segunda informação que o gráfico 2 fornece é
catastrófica para o sistema económico imperialista. Se no passado os Estados
Unidos desempenhavam o papel de mercado consumidor da humanidade, a redução da
participação dos salários no PIB nacional significa que os Estados Unidos em
breve não serão mais capazes de desempenhar o papel de consumidor-destruidor e
desperdiçador de mercadorias, pois os consumidores americanos têm cada vez
menos rendimento para consumir. Assim que o crédito ao consumo se esgotar, o
sistema colapsará como aconteceu em 2008 no mercado imobiliárioxlix. Os credores dos americanos têm mesmo razão em
estar assustados.
Os Estados
Unidos deixaram, portanto, de ser um grande país produtor de mercadorias
(excepto para armamento, aviação, automóveis, energia e parte da sua
alimentação) e estão cada vez menos a ser um país consumidor solvente. Os Estados
Unidos, principal parceiro económico do Canadá, tornaram-se numa oligarquia de
banqueiros financeiros e accionistas milionários e bilionários parasitas (0,01%
da população) que vivem da acumulação de lucros enormes. Os Estados Unidos também se tornaram numa
colagem de grupos de pequenos-burgueses desesperados, em via de empobrecimento
acelerado, desarticulados e abandonados pelos seus mentores desfalidos.
Especificamos « descapitalizados » no sentido de
que os montes de capitais que os capitalistas financeiros americanos acumulam
são papéis especulativos da bolsa que amanhã se evaporarão ao mesmo tempo que
desabarão os índices da bolsa. Esses diversos segmentos de pequeno-burgueses
desatinados estão cada vez mais afastados da massa de assalariados, que já não
se reconhece nos seus mitos e nas suas misturas confusas sobre o «destino
manifesto», o «self-made-man», a «democracia eleitorista» e o paraíso
capitalista para todos. Cortado desta missão de correia de transmissão e de
coolie dos grandes patrões, o vassalo pequeno-burguês desprovido perde toda a
utilidade para o seu suserano.
Os Estados
Unidos são também uma enorme massa de assalariados (90% dos clientes são assalariados),
cada vez mais pobres e cada vez mais desamparados e alienados. Para já, essa
multidão proletarizada sofre, penetra, desespera, entrega-se ao crime ocasional
e volta a sua raiva contra si própria, através do suicídio, da mística
religiosa, das drogas, do álcool, da sexualidade desregrada, do furto à mão
armada, dos homicídios cegos ou em série, dos gangues de rua, da desobediência
civil, da anarquia social e do sub-mundo. Este amálgama deformada sofre uma
terrível repressão por parte de um Estado policial cada vez mais selvagem e
desregulado. Os múltiplos órgãos de polícia, totalmente desligados da sociedade
civil, aliam-se ao crime organizado e entregam-se à prevaricação dos
“corruptos”.
O egocentrismo e o narcisismo são a ordem nos
Estados. Cada um tenta tirar o melhor proveito da situação e é assim, no meio
desta anarquia, que a oligarquia se mantém no poder entre duas mascaradas
eleitorais nas quais já só participam a pequena burguesia, a aristocracia sindical,
uma parte dos rentistas, e os políticos, todos mais corruptos uns que os outrosl. É assim mesmo. Não convidem de
maneira nenhuma os operários a votar. Agora que perderam toda a ilusão sobre o
Estado dos ricos capitalistas, só nos resta mobilizá-los para o derrubar.
A situação económica, sociológica, política e
jurídica é praticamente idêntica no Canadá, com um ligeiro atraso no tempo e no
aprofundamento devido a alguns particularismos nacionais e ao efeito de escala.
O sub-continente norte-americano tem 310 milhões de habitantes e o Canadá tem
36 milhões.
A economia imperialista será reactivada, não
porque tenha desmantelado muitos meios de produção, erradicado muitas forças
produtivas (operários) e destruído muitas mercadorias durante a guerra nuclear,
durante as fomes e as pandemias em série, e ao longo dos cataclismos naturais
para os quais nada terá sido feito para prevenir ou socorrer as populações
martirizadas, ou ainda por eutanásia dos reformados agora apresentados como a
panaceia para todos os males da humanidade, mas porque o sistema económico
imperialista terá assim resolvido os seus problemas de excesso de mão-de-obra
desocupada, de excesso de pobres improdutivos e caros de sustentar, bem como o
da escassez de mercados e do excesso de meios de produção que leva à inevitável
queda da composição orgânica do capital e da taxa média de lucro.
A guerra
como «solução» para a crise económica
Claro que, actualmente, as guerras são
localizadas, controladas, dirigidas e contidas, embora cada vez menos eficazmente
(Sudão do Sul, Síria, Afeganistão-Paquistão, República Centro-Africana, Líbia,
Mali). Por acordo comum entre os protagonistas dos campos imperialistas
antagónicos, ainda não resignados a enfrentar-se num grande cataclismo
internacional, as áreas de guerra limitam-se aos países sub-desenvolvidos.
Desde 1945 – fim do conflito mundial anterior –, não houve um único ano sem que
tivesse ocorrido uma guerra local ou regional, envolvendo o imperialismo
americano triunfante (por algum tempo) e o campo socialista, que depois se
transformou no campo social imperialista. O bloco social imperialista
soviético, ao desmoronar-se em 1989, foi substituído pelo social-imperialismo
chinês e pelo imperialismo russo ascendente, ambos unidos na aliança dos BRICS,
diante do campo imperialista ocidental decadente (OTAN).
Mais de cinquenta guerras locais e regionais
marcaram e continuam a marcar o rápido declínio do imperialismo americano, que
se agarra desesperadamente ao seu estatuto obsoleto de primeira potência
económica mundial. Os Estados Unidos da América continuam a ser a principal
potência militar do mundo, mas já não são a principal potência económica
internacional. Só a fraude monetária que acompanha o dólar americano –
artificialmente mantido em sobrevivência – ainda permite a este país decadente
guerrear.
Desde antes da Primeira Grande Guerra, surgiu na
cabeça dos sociais-democratas, dos reformistas e dos oportunistas de todas as
sortes a ideia de que a guerra não era um companheiro de cama inevitável do
modo de produção capitalista e que a humanidade, tão frequentemente ultrajada
pelos horrores da guerra mil vezes repetidos e denunciados, poderia finalmente
respirar em paz, se não perpétua, pelo menos prolongada e duradoura.
Não vamos aqui recapitular toda a panóplia de
correntes de pensamento argumentativas que afirmam que «nunca mais» o mundo
sofrerá tais abominações assassinas. E, de cada vez, novos cemitérios
clandestinos vêm dissipar as ilusões dos prestidigitadores, padres, molás,
imãs, popes, humanistas e chorosas laicas empenhadas na guerra contra a guerra
à custa de água benta, orações, cânticos e petições de compaixão. Aqui, vamos
apenas tratar de alguns dos argumentos mais recentes dos adoradores do
impossível apocalipse nuclear e dos «negacionistas» de uma nova guerra mortal à
escala planetária.
Primeiro
argumento desses pacifistas utópicos: A guerra mundial já não é possível, porque os
armamentos nucleares disponíveis são demasiado poderosos e colocariam em perigo
tanto o vencedor como o vencido. Acredite-se ou não, isso já se dizia nos meses
anteriores à Segunda Guerra Mundial. Queiram o que quiserem, os capitalistas
monopolistas serão arrastados para esta guerra mundializada pelas leis
inexoráveis da economia imperialista.
Segundo
argumento destes defensores da «paz inevitável»: a divisão internacional do trabalho
e a distribuição dos meios de produção (indústria pesada produtora de meios de
produção), assim como a dependência gerada por este novo paradigma de
«interdependência industrial universal», tornam improvável, se não impossível,
uma guerra total entre um campo imperialista e outro campo imperialista
poderoso e possuidor da maior parte dos meios de produção da humanidade. De
facto, como poderia a General Motors dos Estados Unidos ordenar a destruição
das suas instalações de produção na China «Comunista»? Entre 1939 e 1945, a
empresa americana IBM viu os seus equipamentos industriais situados na Alemanha
serem bombardeados. Outras empresas industriais americanas também. A destruição
de meios de produção permite aliviar os mercados e relançar o processo de
produção lucrativa.
Embora estes argumentos pareçam lógicos e
razoáveis, eles não resistem à história e aos factos do presente. Infelizmente,
temos de aceitar a evidência: os capitalistas monopolistas sempre juraram
querer a paz a todo o custo, enquanto preparavam a guerra a qualquer preço. Os
gastos governamentais com armamento, em constante aumento, provam claramente
que o mundo se dirige para um novo conflito internacional. A investigação avançada
sobre o desenvolvimento de armas nucleares letais, ditas de «efeitos
localizados e limitados», e as recentes mudanças na política americana em
relação ao escudo nuclear europeu perante o campo eurasiático, assim como a
decisão do presidente americano de deslocar as suas frotas e bases militares
para a Ásia-Pacífico, demonstram claramente que o grande capital monopolista
está a preparar um grande confronto, do qual apenas um lado sairá vencedor
(temporariamente) em termos de domínio mundial sobre os recursos, em
termos de exploração das forças produtivas e de espoliação do mais-valia e dos
lucros, assegurando a reprodução alargada do modo de produção imperialista
modernoli.
A única
solução para a crise económica
A revolução impedirá a guerra ou a guerra desencadeará
a revolução operária. Ou seja, a classe operária decidirá cumprir a sua missão
histórica, que consiste em repudiar o antigo modo de produção imperialista
degenerado, que prestou os serviços que pôde, mas já não é capaz de superar as
suas contradições internas e de assegurar a evolução da humanidade. Os operários
terão de o substituir por um novo modo de produção planeada, um novo modo de
propriedade e uma nova sociedade organizada que garanta o desenvolvimento
respeitando o ambiente.
Acreditamos sinceramente, tendo em conta o estado
caótico das organizações do movimento operário desorganizado em todo o mundo,
infiltradas pelos contingentes de pequeno-burgueses paralizados e tendo em
conta o grau de alienação da classe operária e das forças populares, depois das
múltiplas traições reformistas, oportunistas, esquerdistas e revisionistas, que
infelizmente, mais uma vez, seja a guerra que desencadeará a revolução e não o
inversolii.
Os operários de todo o mundo e os seus aliados empregados e assalariados de todos os sectores e de todos os meios terão de descer até ao fundo do Inferno da guerra termonuclear mais mortífera antes de fazer a triagem entre os milhares de correntes de pensamento pequeno-burguesas (classe social cujo ofício é debruçar-se sobre múltiplas teorias complicadas) para extrair deste magma indigesto a teoria científica da revolução socialista. Apenas a guerra revolucionária poderá pôr fim às séries de guerras de extermínio e de espoliação, acabando com a exploração do homem pelo homem.
|
O OCIDENTE IMPERIALISTA MODERNO |
|
O Ocidente imperialista
moderno, no plano económico, político e ideológico, é composto pelos Estados Unidos da América, Canadá, Austrália e Nova Zelândia,
Japão, Alemanha e Áustria, Reino Unido e Irlanda, França, Bélgica, Luxemburgo, Países Baixos,
Itália, Espanha, Portugal, Grécia, Suíça e os países escandinavos Suécia, Noruega, Dinamarca, Islândia e, por fim, Israel.
Em 2013, estes 23 países (de um total de 203 no mundo) reuniam 921 milhões de
habitantes (14% da população mundial); concentravam 716 dos 1 455 bilionários
do planeta; acumulavam 237 das 300 maiores corporações monopolistas mundiais;
totalizando 41 645 mil milhões de dólares de PIB (58% do total mundial em
2012). Estes 23 países gastaram 1080 mil
milhões de dólares em despesas militares (65% do total mundial em 2010). O
seu rendimento anual médio situa-se entre 23 000 $ e 115 000 $, com uma
mediana de 52 000 $ por habitante. Por outro lado, entre 1,3 e 2 mil milhões
de pessoas em todo o mundo vivem abaixo do limiar da extrema pobreza, com
menos de 2 $ por dia. Fonte http://www.inegalites.fr/spip.php?article381 |
|
O
ESTADO-PROVIDÊNCIA |
|
O Estado-providência,
depois de ter apoiado o desenvolvimento da economia capitalista em cada um
dos países imperialistas do Ocidente, sobreviveu por algum tempo à concorrência
entre blocos imperialistas, entre o bloco atlântico e o bloco social
imperialista soviético, e depois entre a aliança atlântica e os BRICS. O Estado-providência,
até ontem ainda «generoso» com as suas moedas para os assistidos sociais, os
desempregados, as ONG, os funcionários do governo, os aristocratas operários
agradecidos e os pequenos-burgueses prestativos, vê-se hoje incumbido do
papel de canalizar a maior parte das receitas do Estado directamente para as
carteiras dos bilionários, dos especuladores e do capital monopolista
financeiro, na tentativa de travar a queda tendencial da taxa média de lucro,
desempenho que, no entanto, é impossível de realizar. O efémero e tão amado Estado-providência
é hoje sacrificado, os seus programas sociais, aquilo a que os reformistas
chamam os «direitos sociais», são liquidados para libertar
créditos para subsidiar a empresa privada e reembolsar os rentistas e
banqueiros. Através de medidas políticas e financeiras chamadas “neo-liberais”,
o Estado dos ricos imperialistas favorece o desenvolvimento da sua secção
nacional da grande família dos capitalistas internacionais. Este Estado não
quer nem pode ser usado para apreender os capitalistas monopolistas
financeiros que o dirigem, financiam e comandam. O Estado-providência
nacional burguês dos ricos não pode favorecer os operários da sua própria
nação sem se atrair medidas de retaliação dos organismos para-nacionais da
governação imperialista mundial. A fase da luta de classes chamada “nacional”
para salvar o Estado-providência nacional já passou. |
NOTAS
http://www.latribune.fr/actualites/economie/international/20140124trib000811681/qui-
sont-ces-85-milliardaires-dont-la-fortune-equivaut-a-celle-de-la-moitie-de-l-humanite.html
ii
http://fr.wikipedia.org/wiki/Paradis_fiscal
#Liste_grise
iii
http://www.legrandsoir.info/montages-financiers-des-entreprises-quand-les-etats-
iv
Todos terão
percebido que os soluços dos soberanistas do Quebeque, que querem separar o
Quebeque do resto do Canadá para supostamente erguer fronteiras e barreiras
tarifárias em torno de um Quebeque capitalista totalmente integrado nas
alianças comerciais supra-continentais do sistema de economia política
imperialista moderno, globalizado e mundializado, constituem uma batalha reaccionária
de rectaguarda sem qualquer interesse para a classe operária quebequense e
canadiana internacionalizada.
http://www.legrandsoir.info/montages-financiers-des-entreprises-quand-les-etats-perdentle-controle.html
v
http://fr. wikipedia. org/wiki/Liste_d’organisations_internationales
vi
http://www.lapresse.ca/actualites/national/201304/04/01-4637782-paradis-fiscaux-46-
quebecois-sont-mis-en-cause.php#Scene_1 et http://www.rts.ch/video/info/journal19h30/4800517-offshore-leaks-l-analyse-de-myret-zaki-redactrice-en-chef-adjointe-dumagazine-bilan.html
vii
http://fr.wikipedia.org/wiki/Paradis_fiscal
viii
Paul Lafargue (1880). O direito à preguiça.
http://fr.wikipedia.org/wiki/Le_Droit_%C3%A0_la_paresse
ix
http://www.iris-recherche.qc.ca/blogue/les-taux-dimposition-des-entreprises-au-quebec
x
A família dos bilionários
Bombardier-Beaudoin, através da sua holding o Groupe Beaudier, vai receber 350
milhões de dólares de ajuda do Estado do Québec para construir uma super
cimenteira em Port-Daniel, na Gaspésie, no Québec.http://affaires.lapresse.ca/economie/quebec/201401/29/01-4733452quebec-injectera-350-millions-a-port-daniel.php
xi
http://www.les7duquebec.com/7-au-front/surabondance-de-capitaux-
toxiques-dans-les-pays-imperialistes/
http://fr.wikipedia.org/wiki/Crise_%C3%A9conomique_mondiale_des_ann%C3
xiii
A titularização
(securitization em inglês) é uma técnica financeira que consiste em transferir
para investidores os chamados activos financeiros, como créditos (por exemplo,
facturas emitidas não pagas ou empréstimos em andamento), transformando esses
créditos, ao passarem por uma sociedade ad hoc, em títulos financeiros emitidos
no mercado de acções. O produto financeiro controverso é vendido a
especuladores do mercado de acções, como a Caisse de dépôt et placement du
Québec, que possuía bilhões de dólares em valores mais do que arriscados. Fonte:
http://fr.wikipedia.org/wiki/Titrisation
xiv
http://blogs.mediapart.fr/blog/marie-anne-kraft/280309/bilan-financier-
xv
Éric Toussaint (2014). Como é que os bancos e
os governos destroem os freios de segurança.
http://www.legrandsoir.info/comment-les-banques-et-lesgouvernants-detruisent-les-garde-fous.html
xvi
http://affaires.lapresse.ca/economie/etats-unis/201401/08/01-4726826-e-u-le-credit-a-
la-consommation-ralentit-sa-hausse.php
xvii
http://www.statcan.gc.ca/tables-tableaux/sum-som/l02/cst01/fin20-fra.htm
xviii
http://www.radio-canada.ca/nouvelles/Economie/2013/12/13/002-
endettement-dette-canadiens.shtml
xix
Alain Souchon Foule sentimentale.
http://www.youtube.com/watch?v=V_SNDGwwGFM
xx
http://argent.canoe.ca/nouvelles/quebec-reporte-lequilibre-budgetaire-
http://www2.publicationsduquebec.gouv.qc.ca/dynamicSearch/telecharge.ph
p?type=2&file=/E_12_00001/E12_00001.html
xxii
http://www.les7duquebec.com/trouvailles/le-plus-grand-scandale-de-
manipulation-de-prix-de-tous-les-temps/
xxiii
http://www.les7duquebec.com/actualites-des-7/jacques-parizeau-de-la-
xxiv
http://economieamericaine.blog.lemonde.fr/2012/10/26/pourquoi-lindustrie-
americaine-se-desengage-de-leurope/
xxv
Paul Craig Roberts http://www.vigile.net/L-effondrement-de-l-economie
xxvi
http://canempechepasnicolas.over-blog.com/article-le-pdg-de-psa-peugeot-
citroen-annonce-la-fermeture-d-usines-en-europe-110604349.html
xxvii
Rendimento de 13% para a Caixa de Depósitos em
2013, atribuído a rendimentos de 22,9% no mercado de acções dos EUA (altamente
especulativo e volátil). http://quebec.huffingtonpost.ca/2014/02/26/rendement-caissedepot-placement-quebec-2013_n_4858295.html
xxviii
http://les7duquebec.org/7-au-front/afrique-le-continent-spolier/
xxix
O economista Michael Pettis simplesmente
descobriu mais tarde do que os outros que a China se tinha tornado a oficina do
mundo desenvolvido dependente e que tinha adoptado a estratégia de conquistar
todos os mercados
http://www.les7duquebec.com/7-de-garde-2/le-rebalancement-de-leconomiechinoise/
xxx
A falência dos regimes de reforma http://www.sauvegarderetraites.org/article-retraite.php?n=258
xxxi
A reprodução alargada da força de trabalho de
um operário inclui o que ele pessoalmente precisa para viver, cuidar de si,
estudar, divertir-se e passar a reforma em segurança, mas também para se
reproduzir, procriar, criar e educar os filhos, cuidar da sua saúde e
prepará-los para se tornarem trabalhadores assalariados.
xxxii
http://les7duquebec.org/7-au-front/elections-americaines-2012-les-vrais-
xxxiii
http://www.agoravox.fr/actualites/economie/article/la-polemique-sur-les-35-heures-
xxxiv
http://fr.wikipedia.org/wiki/Liste_des_milliardaires_du_monde_en_2012
xxxv
http://fr.wikipedia.org/wiki/Convention_de_Schengen et Vincent Gouysse (2012) 2011-2012 : Retoma da crise. http://www.marxisme fr/reprise de la crise.htm
A China http://www.les7duquebec.com/7-de-garde-2/le-rebalancement-deleconomie-chinoise/
xxxvi
http://www.jobintree.com/dictionnaire/definition-pyramide-ponzi-913.html
xxxvii
http://www.journaldemontreal.com/2014/02/09/ca-prend-un-remede-de-cheval
xxxviii
J.
Aubron.
N. Ménigon. J.-M. Rouillan. R. Schleicher (2001) Le
Prolétaire Précaire, notes et
réflexions sur le nouveau sujet de classe.
Paris. Acratie
xxxix
http://www.agoravox.fr/actualites/economie/article/industria
liser-la-grece-et-l-111497
xl
K.
Marx
O Capital Vol. 1, tomo 1, página 75.
xli
Durante os anos do pós-guerra, vários
factores jogaram a favor da classe operária. Foi assim com o enfraquecimento da
burguesia após o período fascista, que dividiu as forças da burguesia –
dilacerada entre a opção pseudo-democrática e a opção abertamente fascista –
oposição que beneficiou as organizações operárias e populares, vantagem que as
diferentes formas de reformismo se encarregaram de monetizar e liquidar. Houve
também a vontade da burguesia de eliminar a influência do comunismo. Convém, no
entanto, lembrar que o "Estado Providência" se aplicou apenas a
alguns países imperialistas avançados (no máximo cerca de trinta Estados
ocidentais, Japão incluído na área de organização económica ocidental).
![]()
xlii
http://fr.wikipedia.org/wiki/Accords_de_Bretton_Woods
xliii
http://www.legrandsoir.info/du-printemps-occidental-mai-68-au-printemps-devoye-mai2008.html et
http://www.agoravox.fr/actualites/politique/article/mai-2008-le-printempsdevoye-2e-127408
xliv
http://fr.wikipedia.org/wiki/%C3%89tat-providence
xlv
http://fr.wikipedia.org/wiki/N%C3%A9olib%C3%A9ralisme
xlvi
http://fr.wikipedia.org/wiki/Hydro-Qu%C3%A9bec
xlvii
http://fr.wikipedia.org/wiki/Hydro-Qu%C3%A9bec
xlviii
http://www.oulala.info/2013/11/le-fonctionnement-du-mode-de-production-capitaliste-
xlix
Susceptível de existir, mas que
permanece sem efeito no presente, sinónimo de potencial. Diccionário Larousse.
l
http://www.mondialisation.ca/usa-10-chiffres-qui-disent-tout/5310915
li
A Europa quer drones americanos. 21.05.2013. http://www.oulala.info/2013/05/leurope-fait-pression-sur-les-etats-unis-pour-partager-lesdrones-pas-pour-les-supprimer/ Novas bombas nucleares americanas na
Europa para os F-35. 24.04.2013. http://www.mondialisation.ca/nouvelles-bombes-nucleairesetasuniennes-en-europe-pour-les-f-35/5332695
lii
O Pentágono diz ao Senado americano que as guerras vão continuar durante anos.25.05.2013. http://www.legrandsoir.info/le-pentagone-dit-au-senat-americain-que-lesguerres-vont-continuer-durant-des-dizaines-d-annees.html
* Este artigo
foi publicado no webmagazine Les 7 du
Québec em Março de 2014 http://www.les7duquebec.com/7-au-front/la-crise-economique-mondiale-etlausterite-premiere-partie/
http://www.les7duquebec.com/7-au-front/crise-economique-et-austerite-2epartie/
** Este artigo
foi publicado no webmagzine Les 7 du
Québec em Março de 2014. http://www.les7duquebec.com/7-au-front/les-entreprises-americainesdelocalisent-aux-etats-unis/
*** Este artigo foi publicado no
webmagazine Les 7 du Québec em
Fevereiro de 2014
http://www.les7duquebec.com/7-au-front/la-spirale-infernale-de-la-capitalisation-bidon/
**** Este
artigo foi publicado no webmagazine Les 7
du Québec em Fevreiro 2014 http://www.les7duquebec.com/7-au-front/la-productivite-des-ouvriers-nest-pas-suffisante/
***** Este
artigo foi publicado no webmagazine Les 7
du Québec em Fevreiro de 2014 http://www.les7duquebec.com/7-au-front/mondialisation-pseudo-liberale/
O artigo em francês,
em formato Word, está disponível aqui:
livro THE
ECONOMIC CRISIS-austerity Robert Bibeau
O artigo em inglês, em formato PDF, está disponível aqui:
livro
THE-ECONOMIC-CRISIS-RobertBibeau-pdf Versão em inglês
Fonte: CRISE ÉCONOMIQUE ET AUSTÉRITÉ BUDGÉTAIRE – les 7 du quebec
A tradução deste livro para Língua Portuguesa foi da
responsabilidade de Luis Júdice









