quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O risco de guerra nuclear vem do Império Americano na Ásia (Scott Ritter)

 


O risco de guerra nuclear vem do Império Americano na Ásia (Scott Ritter)

26 de Agosto de 2026 Robert Bibeau



Por Normand Bibeau

Scott Ritter é, juntamente com alguns outros especialistas militares, um verdadeiro especialista, fascinado pelo desejo de uma paz justa e duradoura, protegida dos interesses imperialistas de "roubo, pilhagem e banditismo" (Lenine) que motivam as "elites" burguesas que dominam o mundo.

No entanto, e com deferência à sua experiência militar, como pode ele acreditar que uma "Operação Kursk" UKRONAZI BANDERISTA / U$A/ OTAN, como uma vaga de drones liliputianos com 70.000 a 80.000 tropas e 600 veículos blindados, teria sucesso onde 3,8 milhões de invasores nazi-fascistas e colaboradores genocidas com uma força aérea de 5.369 aviões, 3.350 tanques, 7.184 canhões e 600.000 veículos falharam miseravelmente em 1941? Onde falhou um milhão de soldados napoleónicos experientes em guerra em 1812?

O que representa Kursk, os seus 1000 km2 e a sua população anémica de 10.000 habitantes numa Federação Russa de 17 milhões de km2 e 145 milhões de habitantes?

Como Ritter escreve implicitamente, o PROPÓSITO DESEJADO não pode ser uma "vitória militar" do exército UCRANIANO BANDERISTA DE KIEV e dos seus ~900.000 soldados mobilizáveis e dos seus ~200.000 soldados mobilizados, num total de ~27 milhões de habitantes, derrotando um exército russo de 1,5 milhões de soldados mobilizados e 5 milhões de soldados mobilizáveis, num total de 145 milhões de habitantes.

O equilíbrio de poder em termos de equipamento militar é perfeitamente ilustrado pelos drones FPV UKRONAZI$ de ~2kg de explosivos contra os mísseis balísticos russos de 500kg e o FAB-3000kg de explosivos: um David UKRONAZI sem fisga contra um Golias capitalista com capacete e armado da cabeça aos pés.

Definitivamente, o PROPÓSITO procurado está noutro lado.

A burguesia europeia, privada das suas colónias, está em falta mortal de recursos naturais para "roubar, pilhar e disputar", tal como a Alemanha nazi em 1939, o que fazer? Quanto aos nazi-fascistas e colaboradores: um LEBENSRAUM NAZI no Leste, sobre a Federação Russa, de forma bastante simples.

O problema é que a Rússia é uma potência nuclear líder que já anunciou que usará o seu arsenal nuclear no caso de uma "ameaça existencial" à ditadura da sua própria burguesia "czarista-ortodoxa".

Façamos como com a URSS e o bloco de Leste, a China e a Ucrânia: um «golpe palaciano» para uma mudança de regime por dentro (uma mudança da guarda social-fascista de esquerda para a direita fascista) contra a qual Putin não poderá recorrer à arma atómica sem se auto-destruir.

Khrushchev, Deng Xiao-ping, Gorbachev e muitos outros conseguiram, dizem os plutocratas bilionários do Ocidente, "vamos repetir a operação de subversão, daí um LEBENSRAUM EURONAZI 2.0: acompanhado por uma guerra massiva de propaganda goebelliana + guerra económica total por "congelamentos" e sanções + agressão militar por "proxies" + subversão interna = derrube do regime social-fascista e o estabelecimento de um regime fascista de direita comprador que faria da Rússia o "posto de gasolina" da Europa em vez do da China e dos BRICS, como o regime "hostil" de Putin e outros pretende.

Este plano de campanha bem-sucedido de "agressão/subversão" contra a URSS no Afeganistão e o "golpe palaciano" de 1991 contra os "Czares Vermelhos" são da mesma natureza que o actualmente empregue contra a Rússia sob o "Czar Pardo Putin", com a diferença de que a China dos "mandarins vermelhos" foi adicionada à equação mundial com o seu poder industrial e o seu desejo concorrente de hegemonia.

Este plano de campanha é também o utilizado contra o Irão dos mulás: propaganda goebeliana + guerra económica "congelamentos e sanções" + agressão militar por proxies mercenários genocidas SIONAZI$ ISRAELITAS + bloqueio = substituição do regime do social/fascismo dos aiatolás para os renegados e traidores puramente fascistas. Mais uma vez, a China está a turvar as águas e a minar o "plano imperialista ocidental".

Ritter tem toda a razão, quanto tempo o fürher TR0MP tolerará que a China comprometa os seus planos de dominação mundial para enriquecer os bilionários da sua claque governante e até que ponto a China se oporá às artimanhas das potências imperiais ocidentais (???), estas são as questões.


ANEXO

Por Felix Abt a 24 de Agosto de 2026, Blogue Pessoal "Liberdade de Expressão em Zanzibar"

 

Caso tenha perdido – A NATO invadiu a Rússia… e o Armagedão nuclear não está longe

Scott Ritter explica como a Ofensiva de Kursk, os ataques de mísseis de longo alcance e o envolvimento crescente da NATO aproximaram o mundo de uma guerra nuclear muito mais do que a maioria das pessoas imagina.

Num vídeo, Scott Ritter, antigo oficial de inteligência dos Fuzileiros Navais dos EUA e inspector de armas da ONU, lembrou aos espectadores o quão perto os EUA e a Rússia estiveram de uma guerra nuclear sob a administração Biden.

Segundo Ritter, em 2024, a Rússia procurava uma saída para o conflito ucraniano. Moscovo não estava decidida a render-se incondicionalmente; estava aberta a um acordo negociado. Mas, na altura, essa abertura russa para a negociação foi interpretada por muitos no Ocidente como um sinal de fraqueza, e muitos esforços foram feitos para explorar essa fraqueza percebida.

Ritter lembra-nos do que aconteceu em Agosto de 2024: a NATO invadiu a Rússia.

A NATO enviou entre 70.000 e 80.000 soldados ucranianos, treinados e equipados pela aliança politico-militar, para a região de Kursk. Não se tratava de uma incursão pequena. Segundo Ritter, a operação tinha como objectivo tomar territórios e, eventualmente, uma central nuclear, criando assim uma alavanca de negociação para uma possível troca envolvendo a central nuclear de Zaporíjia.

Foi uma operação de grande escala planeada com a participação da NATO. Não se tratava apenas das forças ucranianas acordarem numa manhã e decidirem: 'Vamos a Kursk.' Ritter sustenta que os líderes dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França apoiaram esta operação.

A força era composta maioritariamente por soldados ucranianos, apoiados por mercenários, mas eram unidades escolhidas a dedo, treinadas e equipadas com equipamento especializado da NATO.

Muitas pessoas também desconhecem que a NATO alterou a sua doutrina operacional após o fracasso da contra-ofensiva ucraniana no Verão de 2023. A nova abordagem incorporou um conceito de fusão de inteligência operacional orientado por IA. Segundo Ritter, as unidades tácticas ucranianas receberam dispositivos semelhantes a iPads que lhes indicavam para onde se moverem com base em informações sobre o destacamento das forças russas. O sistema poderia identificar violações, prever tempos de reacção russos e seleccionar rotas com as melhores oportunidades — permitindo aos ucranianos avançar significativamente em território russo.

Foi preciso considerável coragem e conhecimento por parte dos russos para os travar. Tropas aero-transportadas, fuzileiros navais e forças especiais chechenas foram destacados. As forças chechenas frustraram a ofensiva, os fuzileiros travaram o avanço e os paraquedistas assumiram o controlo. Gradualmente, as forças russas repeliram os atacantes.

Mas isto foi, sublinha Ritter, uma intervenção da NATO.

E estes factos são importantes por causa do que aconteceu a seguir.

Em Setembro de 2024, o Primeiro-Ministro britânico Keir Starmer viajou para Washington com a sua mala contendo os seus documentos oficiais. Ele tinha agendado uma reunião com o Presidente Biden para 13 de Setembro, durante a qual deveria pedir permissão para que a Ucrânia utilizasse mísseis Storm Shadow para atacar profundamente território russo.

Tal operação teria ido muito além do âmbito dos ataques a posições russas no Donbass ou na Crimeia. Isto significaria atacar alvos no coração da profundidade estratégica da Rússia. Os Estados Unidos também estavam a considerar permitir o uso do ATACMS para fins semelhantes.

Este plano previsto era de particular importância, porque a Rússia tinha deixado claro que, se os Estados com armas nucleares fornecessem a um Estado não nuclear a capacidade de atacar o coração do território estratégico russo, Moscovo poderia considerar tais ataques como ataques dessas próprias potências nucleares — mesmo que as armas usadas fossem convencionais.

Foi neste contexto que ocorreu a invasão de Kursk.

E foi aí que a história tomou um rumo pessoal para Ritter.

A 13 de Setembro, no mesmo dia em que esta reunião iria ter lugar, estava na embaixada russa em Washington para assistir a um concerto. Desde o final de 2022, encontrava-se com o embaixador russo Anatoly Antonov para discutir a russofobia e formas de apresentar a cultura russa ao público americano. Um dos temas discutidos foi a organização de eventos culturais, incluindo concertos.

Nessa noite, houve um concerto dedicado a Rimsky-Korsakov. Ritter diz que normalmente não gosta de música clássica – é mais do tipo Bruce Springsteen e Bob Dylan – mas foi uma grande honra para ele ser convidado, e que compareceu por respeito ao embaixador e aos esforços que fez na organização do evento.

Mas naquela noite, Anatoly Antonov não era o homem que Ritter conhecera. Ele estava furioso. Algo obviamente o tinha perturbado. Ele interrompeu o concerto e foi-se embora.

Aconteceu que, mais cedo nessa tarde, Antonov tinha feito uma chamada telefónica.

Segundo Ritter, pessoas próximas da Casa Branca queriam saber se os russos estavam a fazer bluff quanto à sua disposição para usar armas nucleares. Segundo pessoas que Ritter disse estarem em boa posição para saber — embora ele saliente que o próprio Antonov nunca discutiu directamente com ele o assunto — o embaixador foi contactado e questionado sobre a resposta russa caso os mísseis ATACMS ou Storm Shadow fossem usados contra alvos no interior do território russo.

A resposta, transmitida a Ritter, foi inequívoca: a Rússia retaliaria e Washington, D.C., estaria na lista de alvos.

Não haveria ambiguidade quanto a isso.

Segundo este relato, este aviso contribuiu para a falha de Biden em assinar a autorização. Diz-se que ficou zangado, e Starmer deixou Washington num estado de desânimo. Os Estados Unidos realizaram então uma investigação para determinar se a Rússia estava a fazer bluff.

Esta tornou-se a questão central: estariam os russos a fazer bluff?

Em Novembro de 2024, o Contra-Almirante Thomas Buchanan, Director de Planos (J5) no Comando Estratégico dos Estados Unidos, falou no CSIS. Durante a sessão de perguntas e respostas, foi-lhe essencialmente perguntado: estariam os russos a fazer bluff? Estariam os Estados Unidos preparados para um conflito nuclear?

A sua resposta foi essencialmente esta: os Estados Unidos estavam prontos para envolver-se numa troca nuclear com a Rússia — e estavam convencidos de que isso prevaleceria.

Deixe-me simplificar, diz Ritter.

Disse que os Estados Unidos estavam prontos para travar uma guerra nuclear contra a Rússia e achavam que podiam vencê-la.

Porque é que isto é significativo?

Porque em Fevereiro de 2022, a administração Biden juntou-se a outros Estados com armas nucleares reconhecidos pelo Tratado de Não Proliferação ao reafirmar o princípio de que uma guerra nuclear não pode ser vencida e nunca deve ser travada.

Esta era a linha oficial.

No entanto, em Novembro de 2024, o J5 afirmou que os Estados Unidos estavam prontos para travar uma guerra nuclear contra a Rússia e acreditavam que podiam vencê-la.

Ele continuou a explicar o que realmente significava "ganhar".

Não significava aquilo que a maioria das pessoas imagina. Vencer uma guerra nuclear significaria a destruição da América como a conhecemos. Os Estados Unidos deixariam de existir como uma república constitucional. Diz-se que há muito poucos sobreviventes, e vivem sob um regime de sobrevivência rigoroso imposto pelo governo.

Por outras palavras, salvar a América através da guerra nuclear seria como destruir a América.

Segundo relatos, disse que talvez o povo americano devesse compreender o que "vencer" realmente significava, ou então poderiam estar demasiado entusiasmados com a ideia de uma guerra nuclear.

Depois, Ritter foi ao Congresso e reuniu-se com membros muito seniores de ambos os partidos. Perguntou especificamente se a CIA acreditava que a Rússia estava a fazer bluff sobre armas nucleares, pois esse foi o argumento apresentado publicamente em alguns dos principais jornais dos EUA.

A resposta que recebeu de um democrata de muito alto escalão, e confirmada de forma independente por um republicano que também ocupava cargos elevados, foi não.

A CIA não achava que a Rússia estivesse a fazer bluff.

De acordo com a avaliação apresentada a Ritter, a Rússia usaria armas nucleares se considerasse que o seu território estratégico estava suficientemente seriamente sob ataque.

Mas havia algo ainda mais assustador.

De acordo com o briefing do Congresso descrita a Ritter, a avaliação indicava que havia mais de 50% de probabilidade de uma guerra nuclear eclodir com a Rússia até ao final de 2024.

Reflictam nisso.

Os Estados Unidos pareciam acreditar que a Rússia poderia, de facto, usar armas nucleares devido à escalada da crise em torno da Ucrânia, especialmente perante a perspectiva de ataques realizados em território profundo russo.

E, no entanto, hoje, parece que toda a gente se esqueceu do que aconteceu em Kursk.

Todos esqueceram que as forças ucranianas entraram em território russo numa ofensiva de grande escala envolvendo dezenas de milhares de soldados (entre 70.000 e 80.000), com considerável apoio da NATO em termos de treino, equipamento, inteligência e apoio operacional.

Esqueceram-se de como a escalada que se seguiu, ligada a ataques de longo alcance, quase desencadeou um confronto directo entre duas potências nucleares.

Mas, segundo Ritter, o perigo não terminou com a administração Biden.

O Incidente Valdai

Ritter evoca outro episódio que acha particularmente revelador.

Em Dezembro de 2025, enquanto o Presidente Trump falava por telefone com Vladimir Putin sobre a Iniciativa de Paz do Alasca, Ritter afirma que 98 drones ucranianos, alegadamente guiados pela inteligência da CIA, se dirigiam para a residência de Putin em Valdai.

Segundo Ritter, Trump manteve a comunicação telefónica com Putin enquanto se ausentava brevemente, enquanto os drones se aproximavam da residência do presidente russo.

"Chama-lhe o que quiseres", diz Ritter. Segundo ele, foi ou uma tentativa de assassinato ou, pelo menos, uma manobra para pressionar e intimidar Putin.

Ritter apresenta esta afirmação como parte de um padrão mais amplo de escalada. Ele aponta para a operação Spiderweb da Ucrânia em Junho de 2025, na qual a inteligência ucraniana, com a ajuda da CIA e do MI6, lançou drones a partir de camiões contra bombardeiros estratégicos russos.

Para Ritter, esta era outra grande linha vermelha: um ataque directo à força estratégica de bombardeiros nucleares da Rússia.

A sua conclusão é que as declarações públicas da administração Trump de que procurava desescalar o conflito eram completamente inconsistentes com o que estava a acontecer no terreno.

A Estratégia por Trás da Guerra

Ritter argumenta que os EUA estão a seguir uma estratégia para criar o que chama de "momento Maidan em Moscovo."

O objectivo, disse ele, é derrotar a Rússia não necessariamente por uma vitória militar convencional, mas provocando o colapso da sua economia, esgotando as suas forças armadas e quebrando a vontade da população de continuar a lutar — o que acabaria por provocar distúrbios nas ruas e derrubar o governo de Putin.

Putin, argumenta Ritter, está agora ciente desta estratégia.

A Rússia compreende, disse ele, que os Estados Unidos não estão realmente a tentar estabelecer um processo de paz e que o objectivo final de Washington é a mudança de regime em Moscovo.

É por isso, argumenta Ritter, que o debate russo evoluiu.

A questão já não é se a Rússia está a fazer bluff sobre armas nucleares. A questão que se coloca cada vez mais na Rússia é se a NATO é realmente capaz de fazer algo para mudar o desfecho da guerra.

Ritter cita o exemplo de Fiódor Lukyanov, que descreve como parte da elite liberal tradicionalmente pró-Ocidente da Rússia e como alguém que anteriormente se tinha mostrado aberto a um acordo negociado. Ainda assim, argumenta Ritter, até Lukyanov está cada vez mais convencido de que a Rússia poderá ter de vencer a guerra nos seus próprios termos.

Do ponto de vista russo, argumenta Ritter, grande parte da postura ocidental é, em última análise, irrelevante. A Europa pode anunciar novos programas militares, discutir cooperação nuclear e capacidades de ataque de longo alcance, e ameaçar uma escalada adicional — mas Moscovo pode simplesmente esperar.

Ritter considera que a Europa está enfraquecida tanto política como economicamente, e acredita que a NATO está cada vez mais incapaz de liderar um confronto significativo com a Rússia.

Segundo ele, a principal variável é Donald Trump.

Ritter descreve Trump como emocionalmente imprevisível e diz que Moscovo deve, portanto, tratá-lo com cautela — um actor perigoso mas controlável, aos seus olhos.

Mas a maior preocupação de Ritter já não é a Europa.

É a Ásia.

O maior perigo nuclear poderia estar na Ásia

Ritter argumenta que o risco de escalada nuclear no Pacífico, um teatro que recebe muito menos atenção do que a guerra na Europa, é enorme.

Ele aponta para a crescente cooperação militar entre a Coreia do Norte e a Rússia, o destacamento de tropas norte-coreanas e o que descreve como a aquisição de experiência directa da Coreia do Norte em guerra moderna.

Está particularmente preocupado com o desenvolvimento de mísseis norte-coreanos mais potentes e ogivas maiores.

E depois há Taiwan.

O que aconteceria, pergunta Ritter, se as tensões entre a China e o Japão escalassem? E se o Japão atacasse um navio da guarda costeira chinesa e a China retaliasse contra o Japão? O que aconteceria se Taiwan se envolvesse e a China atacasse a ilha? E o que fariam os Estados Unidos?

É aí, argumenta Ritter, que reside o verdadeiro perigo nuclear.

A Ucrânia, por outro lado, já não representa o mesmo problema estratégico que representava em 2024. A Rússia adaptou-se, o seu exército amadureceu e a ofensiva de Kursk terminou. Segundo Ritter, a Rússia já não vê a NATO como uma ameaça militar credível capaz de alterar o equilíbrio fundamental da guerra.

Guerra no campo de batalha

Ritter também afirma que a própria natureza da guerra mudou drasticamente por causa dos drones.

No passado, um colapso das defesas ucranianas poderia ter dado origem a um avanço militar clássico, representado por grandes flechas num mapa: cercos, rupturas e avanços rápidos nas linhas de rectaguarda inimigas.

Hoje em dia, algo assim é muito mais difícil.

Mesmo que uma frente colapse, a Ucrânia pode concentrar milhares de drones FPV numa determinada área. Qualquer formação importante que tente capitalizar um avanço pode assim tornar-se extremamente vulnerável.

Ritter explica que é por isso que a Rússia não procura avanços espectaculares. Pelo contrário, avança calmamente e metodicamente, dominando os ucranianos táctica, operacional e estrategicamente enquanto vai esgotando gradualmente as suas forças.

Durante uma estadia na Rússia, Ritter diz ter discutido guerra de drones com soldados russos. Inicialmente, disseram-lhe que a situação estava a tornar-se extremamente difícil. Em Abril e Maio, os russos avisaram-no de que algumas áreas se tinham tornado tão perigosas que poderiam ser forçados a cancelar a sua visita planeada.

Quando finalmente atravessou a zona de conflito, diz ele, os drones eram ubíquos.

Mas não viu qualquer pânico entre as forças russas.

A mensagem deles era: É difícil, mas sabemos o que os ucranianos estão a fazer, estamos a desenvolver formas de lidar com isso e estamos no controlo.

Ritter afirma que a Rússia passou agora de uma simples estratégia de conter a ameaça dos drones ucranianos para uma de ganhar vantagem.

Reconhece que os drones ucranianos ainda atingem alvos russos, mas acrescenta que a sua eficácia diminuiu e que a Ucrânia está cada vez mais a lutar para substituir os seus operadores experientes de drones.

Guerra económica

Ritter argumenta que o objetivo final da Rússia não é simplesmente derrotar a Ucrânia no campo de batalha.

Trata-se de destruir a capacidade da Ucrânia de fazer guerra.

Ele explica que a Rússia está a visar cada vez mais a indústria de defesa do país, infraestruturas e capacidade económica, incluindo instalações dispersas em áreas civis.

Ele afirma que a produção ucraniana de drones foi transferida para locais civis, incluindo centros comerciais e prédios de apartamentos, e argumenta que isso tornou estas instalações potenciais alvos militares.

Seja qual for a opinião de cada um sobre este argumento, é uma parte importante da explicação de Ritter para os contínuos ataques da Rússia à infraestrutura ucraniana.

Acredita que a Rússia está gradualmente a desmantelar a base militar-industrial da Ucrânia, em vez de tentar alcançar um único avanço espectacular.

Porque é que a Rússia não quer uma guerra com a NATO

Ritter também argumenta que a Rússia não tem interesse em atacar a NATO.

De facto, ele acredita que o oposto é verdade: alguns decisores políticos europeus poderão ver um ataque russo à NATO como o único evento que poderia restaurar a coesão dentro da aliança e trazer os Estados Unidos de volta ao conflito europeu.

Um ataque russo à NATO, segundo esta lógica, poderia dar significado à aliança e potencialmente forçar Washington a reactivar.

Mas a Rússia não tem razão para oferecer esta oportunidade à NATO.

Por isso, Ritter rejeita os apelos para que a Rússia ataque a Europa.

Quem defende tal caminho, argumenta ele, não está a agir no interesse da Rússia.

Pelo contrário, a estratégia russa é derrotar a Ucrânia evitando uma guerra directa com a NATO.
O perigo de uma guerra nuclear

Ritter regressa finalmente à questão nuclear.

Ele sublinha que a sua avaliação de que o perigo de uma guerra nuclear na Europa é menor do que na Ásia não deve ser interpretada como significando que a Europa está segura.

O perigo continua sério.

Não existe, argumenta Ritter, uma guerra nuclear verdadeiramente "limitada".

Recorda o antigo princípio da Guerra Fria: guerras nucleares não podem ser vencidas e, por isso, nunca devem ser travadas.

Assim que uma potência nuclear chega à conclusão de que as armas nucleares podem ser usadas para alcançar objectivos militares e que uma guerra nuclear pode de alguma forma ser vencida, toda a lógica da dissuasão estratégica começa a desmoronar-se.

As outras potências nucleares seriam então forçadas a reagir para restaurar o equilíbrio.

É por isso que Ritter considera o discurso sobre o uso controlado de armas nucleares tácticas tão perigoso. Segundo ele, todos os exercícios sérios de simulação de guerra envolvendo armas nucleares tácticas acabaram por escalar para um conflito nuclear em grande escala.

A lição da Guerra Fria, argumenta ele, foi precisamente o oposto.

Ronald Reagan foi um dos anti-comunistas mais intransigentes da história americana, mas chegou a compreender a necessidade não só de controlo de armamentos, mas também de redução de armamentos. Ritter vê o Tratado INF como um passo histórico em frente que ajudou a salvar a Europa e o mundo de uma catástrofe nuclear.

Hoje, diz ele, esta consciência está a perder-se.

A Europa não está a debater como reduzir a ameaça nuclear. Está a debater como aproximar o limiar nuclear da Rússia.

E é precisamente este tipo de raciocínio, alerta Ritter, que pode transformar um conflito convencional numa catástrofe.

A lição central do seu argumento é, portanto, clara:

Não se pode ganhar uma guerra nuclear. A única forma de a vencer é não a liderar.


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Fonte: Le risque de guerre nucléaire vient de l’Empire Américain en Asie (Scott Ritter) – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Les Bleus, uma equipa francesa "não tão francesa", uma controvérsia tão antiga quanto o futebol

Jogadores franceses posam para uma fotografia da equipa antes do jogo internacional amigável de futebol entre França e Irlanda do Norte, no Estádio Pierre-Mauroy em Villeneuve-d'Ascq, norte de França, a 8 de Junho de 2026, antes do Mundial FIFA 2026. AFP - SAMEER AL-DOUMY

Les Bleus, uma equipa francesa "não tão francesa", uma controvérsia tão antiga quanto o futebol

História

Desporto

A equipa francesa é regularmente destacada por alguns observadores que acreditam que, devido ao número de jogadores de origem africana que a compõem, não é "francesa o suficiente". Uma controvérsia que não é novidade, pois a selecção nacional tem sido, desde o início, alvo de ataques racistas.

Publicado : 21/06/2026

Por:

Stéphanie TROUILLARD

Em 2022, após a final perdida contra a Argentina, os Bleus (Azuis – côr da selecção de futebol francesa – NdT) foram alvo de gozo pela presença de muitos jogadores de origem estrangeira no seu plantel. "A minha equipa africana perdeu", tuitou o Presidente queniano, William Samoei Ruto, após a derrota, anexando uma montagem fotográfica dos 15 jogadores "africanos" da equipa francesa, especificando o país de origem de cada um deles.

Mais recentemente, poucos dias antes do início do Mundial de 2026, Éric Zemmour, presidente do partido de extrema-direita Reconquête (Reconquista – NdT), disse numa entrevista à Sud Radio que a selecção "não representa realmente toda a França", mas acima de tudo "os subúrbios e a imigração árabe-muçulmana". "Acho que os franceses estão envergonhados com a imagem que esta equipa francesa transmite. A imprensa estrangeira goza regularmente connosco dizendo que é uma equipa africana", acrescentou.

Estas críticas racistas aos Les Bleus não são novas. No seu mais recente livro "Bleus, histoire de l'équipe de France de football depuis 1904" (Éditions du Détour), o historiador François da Rocha Carneiro mostra que as declarações feitas por Éric Zemmour tiveram muitos precedentes.

Cosmopolitismo inicial

Quando foi criada no início do século XX, a equipa francesa era composta principalmente por futebolistas de "uma elite parisiense de classes bastante privilegiadas", segundo este especialista da selecção francesa que dedicou a sua tese à sua história. Mas na década de 1920, "o seu recrutamento era muito mais amplo geograficamente em toda a França, bem como nos departamentos argelinos". "Notamos a presença dos Pieds-Noirs antes de os árabes da Argélia ou do Norte de África serem por sua vez seleccionados na década de 1930", descreve François da Rocha Carneiro.

A equipa francesa disputou o primeiro jogo da sua história a 1 de Maio de 1904 em Uccle, contra a Bélgica, perante 1.500 espectadores. Resultado final 3-3. © Federação Francesa de Futebol

A ler:  Estes Blues que morreram pela França durante a Grande Guerra

Para este doutor em história, investigador associado na CREHS (Universidade de Artois), este "recrutamento imperial" não representa um problema imediato. "Há apenas algumas pequenas farpas sobre os 'jogadores negros', como diziam na altura, e dois em particular: Raoul Diagne, filho de Blaise Diagne, e o marroquino Larbi Ben Barek. Mas são duas personagens muito diferentes, uma é filho de um deputado, enquanto a outra nunca será cidadã francesa", afirmou.

Com a profissionalização do futebol no início dos anos 1930, os clubes franceses são aurorizados a deixar jogar três futebolistas estrangeiros. Este recrutamento está orientado para a América Latina e Europa Central. Estes atletas vêm para França por razões económicas ou políticas, enquanto as tensões aumentam no velho continente. Após alguns anos no campeonato francês, alguns deles obtiveram a nacionalidade francesa e puderam usar a camisola azul.

Este "cosmopolitismo" da selecção não agradou aos jornais de extrema-direita, e em particular à Action française, que denunciava a presença de Gusti Jordan, nascido na Áustria, ou de Désiré Korany, Jules Mathé e Edmond Weiskopf, originalmente da Hungria. Ela acusa-os de serem "estranhos à raça francesa".


A equipa francesa de futebol durante um jogo amigável contra a Hungria a 13 de Março de 1939. De pé: Julien Darui, François Bourbotte, Gusti Jordan, Etienne Mattler e Raoul Diagne. Agachados: Roger Courtois, Larbi Ben Barek, Alfred Aston, Oscar Heisserere, Emond Weiskopf. © Imprensa desportiva


 A ler: Futebol: devemos o Mundial a... um francês!

 

"A era dos ritais (italianos – NdT) e polaks (polacos – NdT)"

Na década de 1950, a equipa francesa viu a aparição de filhos de imigrantes polacos e italianos. "Foi a era dos ritais e polaks", resume François da Rocha Carneiro. A lendária equipa de 1958, que conseguiu chegar às meias-finais de um Mundial na Suécia pela primeira vez, incluía Raymond Kopa, Maryan Wisniewski, Roger Piantoni e Bernard Chiarelli. "No entanto, estes intervenientes não são directamente alvo de ataques, mas sim caricaturas ao destacar os seus nomes estrangeiros", observa o historiador.

O avançado francês Maryan Wisnieski (centro, direita) é felicitado pelo colega Roger Piantoni após marcar o primeiro golo da sua equipa, enquanto o avançado Jean Vincent (à esquerda) assistia a 19 de Junho de 1958 em Norrköpping, durante os quartos-de-final do Mundial entre França e Irlanda do Norte. A França qualificou-se para as meias-finais graças a uma vitória por 4-0 sobre a Irlanda do Norte. AFP - EQUIPA

Durante a década de 1970, os comentários racistas pretendiam ser "positivos". Originário da Guadalupe e Senegal, Marius Trésor e Jean-Pierre Adams formam a espinha dorsal dos Les Bleus e são apelidados de "a guarda negra". "Reconhecemos as suas qualidades, mas referem-se a particularidades relacionadas com a cor da pele e origem geográfica. Os negros correm rápido como leões ou tigres. Está a ser construída toda uma mitologia, mesmo que não tenha intenção de ser ofensiva", diz o autor de "Bleus, histoire de l'équipe de France de football depuis 1904".

Fotografia tirada a 11 de Outubro de 1974, mostrando os jogadores da selecção francesa de futebol, Marius Trésor (à direita) e Jean-Pierre Adams, a saírem de Paris de comboio para Bruxelas para enfrentar a equipa belga como parte das qualificações para o Campeonato Europeu. AFP - -

Nos anos 90, a extrema-direita voltou a atacar Les Bleus. Durante o Euro 1996, o líder da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, apontou para a composição da equipa e listou os nomes daqueles que não considerava suficientemente franceses: "Desailly nasceu no Gana, Martins tem dupla nacionalidade portuguesa, tendo optado pela nacionalidade francesa para poder fazer parte desta equipa, Lamouchi é tunisino nascido em França, Loko congolês nascido em França, Zidane argelino nascido em França, Madar tunisino nascido em França, Djorkaeff arménio nascido em França."

Para François da Rocha Carneiro, ele só "aproveita os leitmotivs da imprensa de extrema-direita para os aplicar à selecção, mas isso não quer dizer que a França os aceite". Como prova, depois da vitória histórica no Mundial de 1998, os franceses elogiam a diversidade e a imagem de uma equipa "Preta, Branca, Beur (magrebina – NdT)".

A ler: Futebol: Zinedine Zidane, futuro treinador dos Les Bleus?


Os jogadores da selecção francesa celebram a vitória frente ao Brasil após a final do Mundial, a 12 de Julho de 1998, no Stade de France em Saint-Denis, a norte de Paris. Da esquerda para a direita: Thierry Henry, Laurent Blanc, o capitão Didier Deschamps a segurar o troféu, Bernard Diomède, Marcel Desailly e Alain Boghossian. AP - Michel Lipchitz

De "França Negra, Branca, Beur" a "caïds" (“rufias” – NdT)

Mas quando os fracassos se sucedem, a retórica racista não demora a regressar. "Com o jogo interrompido entre França e Argélia em 2001, a eliminação do Mundial em 2002, a bola de Zidane em 2006, o caso Zahia e a greve de Knysna em 2010, toda esta sequência será lida apenas através do prisma da raça", diz o historiador. "Argumentos racistas e islamofóbicos são usados para denunciar falhas que são, na verdade, essencialmente desportivas e, por vezes, humanas."

O clímax foi alcançado no Mundial de 2010, realizado na África do Sul. Quando os jogadores decidiram não treinar em apoio a Nicolas Anelka, que foi excluído da equipa por ter tido uma altercação com o treinador Raymond Domenech, foram acusados de "serem miúdos dos subúrbios, escória ou chefes". "Estamos a visar particularmente jogadores muçulmanos, como Franck Ribéry, ou jogadores negros como o capitão Patrice Evra", diz François da Rocha Carneiro.

A ler: Quem traiu a equipa francesa? "Le Bus" revela o lado oculto do fiasco de 2010


O capitão francês Patrice Evra (2.º a partir da direita) aquece com o colega de equipa Franck Ribéry (3.º da esquerda) durante uma sessão de treino no Campo dos Sonhos em Knysna, a 21 de Junho de 2010, durante o Mundial de 2010 na África do Sul. AFP - PATRICK HERTZOG

Alguns anos mais tarde, os avançados estrela Karim Benzema e Olivier Giroud, muitas vezes rivais durante a sua carreira, também não são tratados da mesma forma. Em Janeiro de 2024, o advogado do antigo craque do Real Madrid apresenta queixa contra o ministro do Interior Gérald Darmanin, que o acusou de ter ligações conhecidas com a Irmandade Muçulmana.

Diz-se que ele faria uma espécie de proselitismo. O que é que dizem a Olivier Giroud, que diz que reza antes de cada jogo? A mim, isso não me choca. Mas ele é cristão e isso não é um problema. Quando é o Benzema que diz que é crente, é preciso acreditar que é o islão a religião que causa problema", denuncia Me Hugues Viguier.

O avançado francês Olivier Giroud (à esquerda) sai do campo ao lado do avançado francês Karim Benzema durante o jogo amigável de futebol do Euro 2016 França contra Sérvia no estádio Matmut Atlantique em Bordéus, a 7 de Setembro de 2015. AFP - FRANCK FIFE

No seio da equipa actual de França, essa estigmatização ainda é sentida. Numa vídeo publicado na véspera do primeiro jogo dos Bleus contra o Senegal pela Federação Francesa de Futebol, Rayan Cherki, que também tem nacionalidade italiana pelo pai e nacionalidade argelina pela mãe, denunciou este racismo: "Não sei porquê algumas pessoas não gostam de mim. Consigo perceber que tenho um perfil que incomoda... talvez por ter uma barba demasiado grande, talvez por ser um pouco demasiado moreno."



"O que torna a França forte hoje"

A questão dos binacionais também surge regularmente. Os jogadores em questão têm de "provar ainda mais", como se não fossem totalmente franceses. "Quando também são originários de Portugal ou de Itália, não se lhes faz nenhuma crítica; mas quando são do Senegal, da Costa do Marfim ou da Argélia, aí sim. É realmente paradoxal", nota François da Rocha Carneiro.

A ler: Taça do Mundo-2026: Michael Olise, diamante misterioso

 

Michael Olise em acção durante o jogo do Grupo I de futebol do Mundial entre França e Senegal em East Rutherford, Nova Jérsia, perto de Nova Iorque, a 16 de Junho de 2026. Foto AP/Steve Luciano - Steve Luciano

Para o historiador, a equipa tricolor não é afinal mais do que o reflexo "da globalização" e da nossa história: "Quase todos os jogadores que hoje estão na selecção francesa vêm de antigas colónias francesas. Temos essa tradição de imigração. Nem sequer está no ADN dos Bleus, mas sim no ADN da França."

Rayan Cherki concorda com a mesma ideia. O médio de 23 anos, que está na sua primeira Taça do Mundo, defende valorizar a riqueza deste grupo: "É uma equipa de França magnífica, com muita diversidade, com muitas histórias diferentes. E é isso que faz a força da França hoje."

 

Fonte: Les Bleus, une équipe de France "pas si française", une polémique vieille comme le foot - France 24

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

Les Bleus, uma equipa francesa "não tão francesa", uma controvérsia tão antiga quanto o futebol

História

Desporto

A equipa francesa é regularmente destacada por alguns observadores que acreditam que, devido ao número de jogadores de origem africana que a compõem, não é "francesa o suficiente". Uma controvérsia que não é novidade, pois a selecção nacional tem sido, desde o início, alvo de ataques racistas.

Publicado : 21/06/2026

Por:

Stéphanie TROUILLARD

Jogadores franceses posam para uma fotografia da equipa antes do jogo internacional amigável de futebol entre França e Irlanda do Norte, no Estádio Pierre-Mauroy em Villeneuve-d'Ascq, norte de França, a 8 de Junho de 2026, antes do Mundial FIFA 2026. AFP - SAMEER AL-DOUMY

Em 2022, após a final perdida contra a Argentina, os Bleus (Azuis – côr da selecção de futebol francesa – NdT) foram alvo de gozo pela presença de muitos jogadores de origem estrangeira no seu plantel. "A minha equipa africana perdeu", tuitou o Presidente queniano, William Samoei Ruto, após a derrota, anexando uma montagem fotográfica dos 15 jogadores "africanos" da equipa francesa, especificando o país de origem de cada um deles.

Mais recentemente, poucos dias antes do início do Mundial de 2026, Éric Zemmour, presidente do partido de extrema-direita Reconquête (Reconquista – NdT), disse numa entrevista à Sud Radio que a selecção "não representa realmente toda a França", mas acima de tudo "os subúrbios e a imigração árabe-muçulmana". "Acho que os franceses estão envergonhados com a imagem que esta equipa francesa transmite. A imprensa estrangeira goza regularmente connosco dizendo que é uma equipa africana", acrescentou.

Estas críticas racistas aos Les Bleus não são novas. No seu mais recente livro "Bleus, histoire de l'équipe de France de football depuis 1904" (Éditions du Détour), o historiador François da Rocha Carneiro mostra que as declarações feitas por Éric Zemmour tiveram muitos precedentes.

Cosmopolitismo inicial

Quando foi criada no início do século XX, a equipa francesa era composta principalmente por futebolistas de "uma elite parisiense de classes bastante privilegiadas", segundo este especialista da selecção francesa que dedicou a sua tese à sua história. Mas na década de 1920, "o seu recrutamento era muito mais amplo geograficamente em toda a França, bem como nos departamentos argelinos". "Notamos a presença dos Pieds-Noirs antes de os árabes da Argélia ou do Norte de África serem por sua vez seleccionados na década de 1930", descreve François da Rocha Carneiro.

A equipa francesa disputou o primeiro jogo da sua história a 1 de Maio de 1904 em Uccle, contra a Bélgica, perante 1.500 espectadores. Resultado final 3-3. © Federação Francesa de Futebol

A ler:  Estes Blues que morreram pela França durante a Grande Guerra

 

Para este doutor em história, investigador associado na CREHS (Universidade de Artois), este "recrutamento imperial" não representa um problema imediato. "Há apenas algumas pequenas farpas sobre os 'jogadores negros', como diziam na altura, e dois em particular: Raoul Diagne, filho de Blaise Diagne, e o marroquino Larbi Ben Barek. Mas são duas personagens muito diferentes, uma é filho de um deputado, enquanto a outra nunca será cidadã francesa", afirmou.

Com a profissionalização do futebol no início dos anos 1930, os clubes franceses são aurorizados a deixar jogar três futebolistas estrangeiros. Este recrutamento está orientado para a América Latina e Europa Central. Estes atletas vêm para França por razões económicas ou políticas, enquanto as tensões aumentam no velho continente. Após alguns anos no campeonato francês, alguns deles obtiveram a nacionalidade francesa e puderam usar a camisola azul.

Este "cosmopolitismo" da selecção não agradou aos jornais de extrema-direita, e em particular à Action française, que denunciava a presença de Gusti Jordan, nascido na Áustria, ou de Désiré Korany, Jules Mathé e Edmond Weiskopf, originalmente da Hungria. Ela acusa-os de serem "estranhos à raça francesa".

A equipa francesa de futebol durante um jogo amigável contra a Hungria a 13 de Março de 1939. De pé: Julien Darui, François Bourbotte, Gusti Jordan, Etienne Mattler e Raoul Diagne. Agachados: Roger Courtois, Larbi Ben Barek, Alfred Aston, Oscar Heisserere, Emond Weiskopf. © Imprensa desportiva

 

A ler: Futebol: devemos o Mundial a... um francês!

 

"A era dos ritais (italianos – NdT) e polaks (polacos – NdT)"

Na década de 1950, a equipa francesa viu a aparição de filhos de imigrantes polacos e italianos. "Foi a era dos ritais e polaks", resume François da Rocha Carneiro. A lendária equipa de 1958, que conseguiu chegar às meias-finais de um Mundial na Suécia pela primeira vez, incluía Raymond Kopa, Maryan Wisniewski, Roger Piantoni e Bernard Chiarelli. "No entanto, estes intervenientes não são directamente alvo de ataques, mas sim caricaturas ao destacar os seus nomes estrangeiros", observa o historiador.

O avançado francês Maryan Wisnieski (centro, direita) é felicitado pelo colega Roger Piantoni após marcar o primeiro golo da sua equipa, enquanto o avançado Jean Vincent (à esquerda) assistia a 19 de Junho de 1958 em Norrköpping, durante os quartos-de-final do Mundial entre França e Irlanda do Norte. A França qualificou-se para as meias-finais graças a uma vitória por 4-0 sobre a Irlanda do Norte. AFP - EQUIPA

Durante a década de 1970, os comentários racistas pretendiam ser "positivos". Originário da Guadalupe e Senegal, Marius Trésor e Jean-Pierre Adams formam a espinha dorsal dos Les Bleus e são apelidados de "a guarda negra". "Reconhecemos as suas qualidades, mas referem-se a particularidades relacionadas com a cor da pele e origem geográfica. Os negros correm rápido como leões ou tigres. Está a ser construída toda uma mitologia, mesmo que não tenha intenção de ser ofensiva", diz o autor de "Bleus, histoire de l'équipe de France de football depuis 1904".

Fotografia tirada a 11 de Outubro de 1974, mostrando os jogadores da selecção francesa de futebol, Marius Trésor (à direita) e Jean-Pierre Adams, a saírem de Paris de comboio para Bruxelas para enfrentar a equipa belga como parte das qualificações para o Campeonato Europeu. AFP - -

Nos anos 90, a extrema-direita voltou a atacar Les Bleus. Durante o Euro 1996, o líder da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, apontou para a composição da equipa e listou os nomes daqueles que não considerava suficientemente franceses: "Desailly nasceu no Gana, Martins tem dupla nacionalidade portuguesa, tendo optado pela nacionalidade francesa para poder fazer parte desta equipa, Lamouchi é tunisino nascido em França, Loko congolês nascido em França, Zidane argelino nascido em França, Madar tunisino nascido em França, Djorkaeff arménio nascido em França."

Para François da Rocha Carneiro, ele só "aproveita os leitmotivs da imprensa de extrema-direita para os aplicar à selecção, mas isso não quer dizer que a França os aceite". Como prova, depois da vitória histórica no Mundial de 1998, os franceses elogiam a diversidade e a imagem de uma equipa "Preta, Branca, Beur (magrebina – NdT)".

A ler: Futebol: Zinedine Zidane, futuro treinador dos Les Bleus?

Os jogadores da selecção francesa celebram a vitória frente ao Brasil após a final do Mundial, a 12 de Julho de 1998, no Stade de France em Saint-Denis, a norte de Paris. Da esquerda para a direita: Thierry Henry, Laurent Blanc, o capitão Didier Deschamps a segurar o troféu, Bernard Diomède, Marcel Desailly e Alain Boghossian. AP - Michel Lipchitz

De "França Negra, Branca, Beur" a "caïds" (“rufias” – NdT)

Mas quando os fracassos se sucedem, a retórica racista não demora a regressar. "Com o jogo interrompido entre França e Argélia em 2001, a eliminação do Mundial em 2002, a bola de Zidane em 2006, o caso Zahia e a greve de Knysna em 2010, toda esta sequência será lida apenas através do prisma da raça", diz o historiador. "Argumentos racistas e islamofóbicos são usados para denunciar falhas que são, na verdade, essencialmente desportivas e, por vezes, humanas."

O clímax foi alcançado no Mundial de 2010, realizado na África do Sul. Quando os jogadores decidiram não treinar em apoio a Nicolas Anelka, que foi excluído da equipa por ter tido uma altercação com o treinador Raymond Domenech, foram acusados de "serem miúdos dos subúrbios, escória ou chefes". "Estamos a visar particularmente jogadores muçulmanos, como Franck Ribéry, ou jogadores negros como o capitão Patrice Evra", diz François da Rocha Carneiro.

A ler: Quem traiu a equipa francesa? "Le Bus" revela o lado oculto do fiasco de 2010

O capitão francês Patrice Evra (2.º a partir da direita) aquece com o colega de equipa Franck Ribéry (3.º da esquerda) durante uma sessão de treino no Campo dos Sonhos em Knysna, a 21 de Junho de 2010, durante o Mundial de 2010 na África do Sul. AFP - PATRICK HERTZOG

Alguns anos mais tarde, os avançados estrela Karim Benzema e Olivier Giroud, muitas vezes rivais durante a sua carreira, também não são tratados da mesma forma. Em Janeiro de 2024, o advogado do antigo craque do Real Madrid apresenta queixa contra o ministro do Interior Gérald Darmanin, que o acusou de ter ligações conhecidas com a Irmandade Muçulmana.

Diz-se que ele faria uma espécie de proselitismo. O que é que dizem a Olivier Giroud, que diz que reza antes de cada jogo? A mim, isso não me choca. Mas ele é cristão e isso não é um problema. Quando é o Benzema que diz que é crente, é preciso acreditar que é o islão a religião que causa problema", denuncia Me Hugues Viguier.

O avançado francês Olivier Giroud (à esquerda) sai do campo ao lado do avançado francês Karim Benzema durante o jogo amigável de futebol do Euro 2016 França contra Sérvia no estádio Matmut Atlantique em Bordéus, a 7 de Setembro de 2015. AFP - FRANCK FIFE

 

No seio da equipa actual de França, essa estigmatização ainda é sentida. Numa vídeo publicado na véspera do primeiro jogo dos Bleus contra o Senegal pela Federação Francesa de Futebol, Rayan Cherki, que também tem nacionalidade italiana pelo pai e nacionalidade argelina pela mãe, denunciou este racismo: "Não sei porquê algumas pessoas não gostam de mim. Consigo perceber que tenho um perfil que incomoda... talvez por ter uma barba demasiado grande, talvez por ser um pouco demasiado moreno."

"O que torna a França forte hoje"

A questão dos binacionais também surge regularmente. Os jogadores em questão têm de "provar ainda mais", como se não fossem totalmente franceses. "Quando também são originários de Portugal ou de Itália, não se lhes faz nenhuma crítica; mas quando são do Senegal, da Costa do Marfim ou da Argélia, aí sim. É realmente paradoxal", nota François da Rocha Carneiro.

 

A ler: Taça do Mundo-2026: Michael Olise, diamante misterioso

 

Michael Olise em acção durante o jogo do Grupo I de futebol do Mundial entre França e Senegal em East Rutherford, Nova Jérsia, perto de Nova Iorque, a 16 de Junho de 2026. Foto AP/Steve Luciano - Steve Luciano

Para o historiador, a equipa tricolor não é afinal mais do que o reflexo "da globalização" e da nossa história: "Quase todos os jogadores que hoje estão na selecção francesa vêm de antigas colónias francesas. Temos essa tradição de imigração. Nem sequer está no ADN dos Bleus, mas sim no ADN da França."

Rayan Cherki concorda com a mesma ideia. O médio de 23 anos, que está na sua primeira Taça do Mundo, defende valorizar a riqueza deste grupo: "É uma equipa de França magnífica, com muita diversidade, com muitas histórias diferentes. E é isso que faz a força da França hoje."

 

Fonte: Les Bleus, une équipe de France "pas si française", une polémique vieille comme le foot - France 24

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

Les Bleus, uma equipa francesa "não tão francesa", uma controvérsia tão antiga quanto o futebol

História

Desporto

 

 

A equipa francesa é regularmente destacada por alguns observadores que acreditam que, devido ao número de jogadores de origem africana que a compõem, não é "francesa o suficiente". Uma controvérsia que não é novidade, pois a selecção nacional tem sido, desde o início, alvo de ataques racistas.

Publicado : 21/06/2026

Por:

Stéphanie TROUILLARD

Jogadores franceses posam para uma fotografia da equipa antes do jogo internacional amigável de futebol entre França e Irlanda do Norte, no Estádio Pierre-Mauroy em Villeneuve-d'Ascq, norte de França, a 8 de Junho de 2026, antes do Mundial FIFA 2026. AFP - SAMEER AL-DOUMY

Em 2022, após a final perdida contra a Argentinaos Bleus (Azuis – côr da selecção de futebol francesa – NdT) foram alvo de gozo pela presença de muitos jogadores de origem estrangeira no seu plantel. "A minha equipa africana perdeu", tuitou o Presidente queniano, William Samoei Ruto, após a derrota, anexando uma montagem fotográfica dos 15 jogadores "africanos" da equipa francesa, especificando o país de origem de cada um deles.

Mais recentemente, poucos dias antes do início do Mundial de 2026, Éric Zemmour, presidente do partido de extrema-direita Reconquête (Reconquista – NdT), disse numa entrevista à Sud Radio que a selecção "não representa realmente toda a França", mas acima de tudo "os subúrbios e a imigração árabe-muçulmana". "Acho que os franceses estão envergonhados com a imagem que esta equipa francesa transmite. A imprensa estrangeira goza regularmente connosco dizendo que é uma equipa africana", acrescentou.

Estas críticas racistas aos Les Bleus não são novas. No seu mais recente livro "Bleus, histoire de l'équipe de France de football depuis 1904" (Éditions du Détour), o historiador François da Rocha Carneiro mostra que as declarações feitas por Éric Zemmour tiveram muitos precedentes.

Cosmopolitismo inicial

Quando foi criada no início do século XX, a equipa francesa era composta principalmente por futebolistas de "uma elite parisiense de classes bastante privilegiadas", segundo este especialista da selecção francesa que dedicou a sua tese à sua história. Mas na década de 1920, "o seu recrutamento era muito mais amplo geograficamente em toda a França, bem como nos departamentos argelinos". "Notamos a presença dos Pieds-Noirs antes de os árabes da Argélia ou do Norte de África serem por sua vez seleccionados na década de 1930", descreve François da Rocha Carneiro.

A equipa francesa disputou o primeiro jogo da sua história a 1 de Maio de 1904 em Uccle, contra a Bélgica, perante 1.500 espectadores. Resultado final 3-3. © Federação Francesa de Futebol

A ler:  Estes Blues que morreram pela França durante a Grande Guerra

 

Para este doutor em história, investigador associado na CREHS (Universidade de Artois), este "recrutamento imperial" não representa um problema imediato. "Há apenas algumas pequenas farpas sobre os 'jogadores negros', como diziam na altura, e dois em particular: Raoul Diagne, filho de Blaise Diagne, e o marroquino Larbi Ben Barek. Mas são duas personagens muito diferentes, uma é filho de um deputado, enquanto a outra nunca será cidadã francesa", afirmou.

Com a profissionalização do futebol no início dos anos 1930, os clubes franceses são aurorizados a deixar jogar três futebolistas estrangeiros. Este recrutamento está orientado para a América Latina e Europa Central. Estes atletas vêm para França por razões económicas ou políticas, enquanto as tensões aumentam no velho continente. Após alguns anos no campeonato francês, alguns deles obtiveram a nacionalidade francesa e puderam usar a camisola azul.

Este "cosmopolitismo" da selecção não agradou aos jornais de extrema-direita, e em particular à Action française, que denunciava a presença de Gusti Jordan, nascido na Áustria, ou de Désiré Korany, Jules Mathé e Edmond Weiskopf, originalmente da Hungria. Ela acusa-os de serem "estranhos à raça francesa".

A equipa francesa de futebol durante um jogo amigável contra a Hungria a 13 de Março de 1939. De pé: Julien Darui, François Bourbotte, Gusti Jordan, Etienne Mattler e Raoul Diagne. Agachados: Roger Courtois, Larbi Ben Barek, Alfred Aston, Oscar Heisserere, Emond Weiskopf. © Imprensa desportiva

 

A ler: Futebol: devemos o Mundial a... um francês!

 

"A era dos ritais (italianos – NdT) e polaks (polacos – NdT)"

Na década de 1950, a equipa francesa viu a aparição de filhos de imigrantes polacos e italianos. "Foi a era dos ritais e polaks", resume François da Rocha Carneiro. A lendária equipa de 1958, que conseguiu chegar às meias-finais de um Mundial na Suécia pela primeira vez, incluía Raymond Kopa, Maryan Wisniewski, Roger Piantoni e Bernard Chiarelli. "No entanto, estes intervenientes não são directamente alvo de ataques, mas sim caricaturas ao destacar os seus nomes estrangeiros", observa o historiador.

O avançado francês Maryan Wisnieski (centro, direita) é felicitado pelo colega Roger Piantoni após marcar o primeiro golo da sua equipa, enquanto o avançado Jean Vincent (à esquerda) assistia a 19 de Junho de 1958 em Norrköpping, durante os quartos-de-final do Mundial entre França e Irlanda do Norte. A França qualificou-se para as meias-finais graças a uma vitória por 4-0 sobre a Irlanda do Norte. AFP - EQUIPA

Durante a década de 1970, os comentários racistas pretendiam ser "positivos". Originário da Guadalupe e Senegal, Marius Trésor e Jean-Pierre Adams formam a espinha dorsal dos Les Bleus e são apelidados de "a guarda negra". "Reconhecemos as suas qualidades, mas referem-se a particularidades relacionadas com a cor da pele e origem geográfica. Os negros correm rápido como leões ou tigres. Está a ser construída toda uma mitologia, mesmo que não tenha intenção de ser ofensiva", diz o autor de "Bleus, histoire de l'équipe de France de football depuis 1904".

Fotografia tirada a 11 de Outubro de 1974, mostrando os jogadores da selecção francesa de futebol, Marius Trésor (à direita) e Jean-Pierre Adams, a saírem de Paris de comboio para Bruxelas para enfrentar a equipa belga como parte das qualificações para o Campeonato Europeu. AFP - -

Nos anos 90, a extrema-direita voltou a atacar Les Bleus. Durante o Euro 1996, o líder da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, apontou para a composição da equipa e listou os nomes daqueles que não considerava suficientemente franceses: "Desailly nasceu no Gana, Martins tem dupla nacionalidade portuguesa, tendo optado pela nacionalidade francesa para poder fazer parte desta equipa, Lamouchi é tunisino nascido em França, Loko congolês nascido em França, Zidane argelino nascido em França, Madar tunisino nascido em França, Djorkaeff arménio nascido em França."

Para François da Rocha Carneiro, ele só "aproveita os leitmotivs da imprensa de extrema-direita para os aplicar à selecção, mas isso não quer dizer que a França os aceite". Como prova, depois da vitória histórica no Mundial de 1998, os franceses elogiam a diversidade e a imagem de uma equipa "Preta, Branca, Beur (magrebina – NdT)".

A ler: Futebol: Zinedine Zidane, futuro treinador dos Les Bleus?

Os jogadores da selecção francesa celebram a vitória frente ao Brasil após a final do Mundial, a 12 de Julho de 1998, no Stade de France em Saint-Denis, a norte de Paris. Da esquerda para a direita: Thierry Henry, Laurent Blanc, o capitão Didier Deschamps a segurar o troféu, Bernard Diomède, Marcel Desailly e Alain Boghossian. AP - Michel Lipchitz

De "França Negra, Branca, Beur" a "caïds" (“rufias” – NdT)

Mas quando os fracassos se sucedem, a retórica racista não demora a regressar. "Com o jogo interrompido entre França e Argélia em 2001, a eliminação do Mundial em 2002, a bola de Zidane em 2006, o caso Zahia e a greve de Knysna em 2010, toda esta sequência será lida apenas através do prisma da raça", diz o historiador. "Argumentos racistas e islamofóbicos são usados para denunciar falhas que são, na verdade, essencialmente desportivas e, por vezes, humanas."

O clímax foi alcançado no Mundial de 2010, realizado na África do Sul. Quando os jogadores decidiram não treinar em apoio a Nicolas Anelka, que foi excluído da equipa por ter tido uma altercação com o treinador Raymond Domenech, foram acusados de "serem miúdos dos subúrbios, escória ou chefes". "Estamos a visar particularmente jogadores muçulmanos, como Franck Ribéry, ou jogadores negros como o capitão Patrice Evra", diz François da Rocha Carneiro.

A ler: Quem traiu a equipa francesa? "Le Bus" revela o lado oculto do fiasco de 2010

O capitão francês Patrice Evra (2.º a partir da direita) aquece com o colega de equipa Franck Ribéry (3.º da esquerda) durante uma sessão de treino no Campo dos Sonhos em Knysna, a 21 de Junho de 2010, durante o Mundial de 2010 na África do Sul. AFP - PATRICK HERTZOG

Alguns anos mais tarde, os avançados estrela Karim Benzema e Olivier Giroud, muitas vezes rivais durante a sua carreira, também não são tratados da mesma forma. Em Janeiro de 2024, o advogado do antigo craque do Real Madrid apresenta queixa contra o ministro do Interior Gérald Darmanin, que o acusou de ter ligações conhecidas com a Irmandade Muçulmana.

Diz-se que ele faria uma espécie de proselitismo. O que é que dizem a Olivier Giroud, que diz que reza antes de cada jogo? A mim, isso não me choca. Mas ele é cristão e isso não é um problema. Quando é o Benzema que diz que é crente, é preciso acreditar que é o islão a religião que causa problema", denuncia Me Hugues Viguier.

O avançado francês Olivier Giroud (à esquerda) sai do campo ao lado do avançado francês Karim Benzema durante o jogo amigável de futebol do Euro 2016 França contra Sérvia no estádio Matmut Atlantique em Bordéus, a 7 de Setembro de 2015. AFP - FRANCK FIFE

 

No seio da equipa actual de França, essa estigmatização ainda é sentida. Numa vídeo publicado na véspera do primeiro jogo dos Bleus contra o Senegal pela Federação Francesa de Futebol, Rayan Cherki, que também tem nacionalidade italiana pelo pai e nacionalidade argelina pela mãe, denunciou este racismo: "Não sei porquê algumas pessoas não gostam de mim. Consigo perceber que tenho um perfil que incomoda... talvez por ter uma barba demasiado grande, talvez por ser um pouco demasiado moreno."

"O que torna a França forte hoje"

A questão dos binacionais também surge regularmente. Os jogadores em questão têm de "provar ainda mais", como se não fossem totalmente franceses. "Quando também são originários de Portugal ou de Itália, não se lhes faz nenhuma crítica; mas quando são do Senegal, da Costa do Marfim ou da Argélia, aí sim. É realmente paradoxal", nota François da Rocha Carneiro.

 

A ler: Taça do Mundo-2026: Michael Olise, diamante misterioso

 

Michael Olise em acção durante o jogo do Grupo I de futebol do Mundial entre França e Senegal em East Rutherford, Nova Jérsia, perto de Nova Iorque, a 16 de Junho de 2026. Foto AP/Steve Luciano - Steve Luciano

Para o historiador, a equipa tricolor não é afinal mais do que o reflexo "da globalização" e da nossa história: "Quase todos os jogadores que hoje estão na selecção francesa vêm de antigas colónias francesas. Temos essa tradição de imigração. Nem sequer está no ADN dos Bleus, mas sim no ADN da França."

Rayan Cherki concorda com a mesma ideia. O médio de 23 anos, que está na sua primeira Taça do Mundo, defende valorizar a riqueza deste grupo: "É uma equipa de França magnífica, com muita diversidade, com muitas histórias diferentes. E é isso que faz a força da França hoje."

 

Fonte: Les Bleus, une équipe de France "pas si française", une polémique vieille comme le foot - France 24

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice