quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O petróleo… a fonte de todas as cobiças, de todas as guerras modernas

 


O petróleo… a fonte de todas as cobiças, de todas as guerras modernas

3 de Setembro de 2026 Robert Bibeau



Por Normand Bibeau.

Como repetimos incansavelmente: "QUEM CONTROLA O PETRÓLEO (o sangue da indústria) DOMINA NAÇÕES; QUEM CONTROLA A COMIDA (fertilizantes de azoto) DOMINA OS POVOS" (segundo o criminoso de guerra e genocida Henry Kissinger, "A Saúde da Nação")

É «intrigante» constatar até que ponto os ideólogos, tanto da direita como da esquerda, se esforçam por OCULTAR o OBJECTIVO de todas as guerras imperialistas-capitalistas: «O ROUBO, A SAQUE, O BANDITISMO e a EXPLORAÇÃO DOS RECURSOS NATURAIS E HUMANOS».

De Saddam Hussein, o regime comprador proxy, a Saddam Hussein, o regime pária

Assim, Naba, Ritter, Macgregor e outros analistas da guerra do Iraque concordam em concluir que os agressores traiçoeiros do "triunvirato" YANKKE U$/Britânico/Austrália de 2003 visavam o "derrube do regime de Saddam Hussein" (sic). No entanto, todos escondem o facto de que este mesmo Saddam Hussein foi levado ao poder por essas mesmas potências imperialistas nos termos de um "golpe de Estado" perpetrado a 17 de Julho de 1968 e concluído com a eliminação dos seus concorrentes em Julho de 1979, pela renúncia de al-Bark e por uma espetacular purga dentro do Partido Baath que culminou a 22 de Setembro de 1980 pela agressão traiçoeira contra o Estado iraniano em nome das potências imperialistas ocidentais (re:PBS.org, 1937-2003; estudos de países, 1968-1979).

A agressão traiçoeira de Saddam e do seu regime comprador contra o Irão foi aconselhada, financiada, armada e promovida pelas potências imperialistas ianques e seus vassalos das petromonarquias obscurantistas do Médio Oriente, Arábia Saudita e Kuwait, que a lideram.

Assim, até 1988, foram nada menos do que dezenas de milhares de milhões de petrodólares americanos  em assistência e ajuda sob a forma de informações de satélite; informações sobre as posições iranianas; equipamentos e tecnologias militares; de apoio económico e diplomático que os regimes piratas ocidentais forneceram ao seu «proxy» iraquiano nesta guerra de agressão para derrubar o regime iraniano e apoderar-se dos seus inestimáveis recursos petrolíferos  (re:openstax.org, 29/12/2014; crf.org, 1953-2026: « Relações dos EUA com o Irão»).

De 1972 a 1975, o governo baathista nacionalizou a "Companhia de Petróleo do Iraque (IPC)", um consórcio que anteriormente tinha reunido interesses do petróleo e gás britânicos, franceses e holandeses para "o roubo, a pilhagem e o assalto" do "OURO NEGRO" do Iraque.

O governo baathista "nacionalista burguês" "pré-Saddam" (1972-1979) duplicou a produção de petróleo do Iraque e multiplicou as suas receitas petrolíferas por um factor de 22, que exportou principalmente para o mercado soviético e para os mercados europeu e japonês para enriquecer a burguesia iraquiana (re:history.state.gov, 11/1976; cia.gov, 25/01/1981).

O regime fascista de Saddam Hussein (1979-2003), muito mais rico do que os seus predecessores, decidiu "virar as costas" ao bloco "soviético", reduzindo as importações da URSS, China e bloco de Leste de 25% para cerca de 9% das suas compras actuais entre 1979 e 1980, enquanto durante o mesmo período, as importações de U$A aumentaram 9 vezes (re:Washingtonpost.com)


Assim, em Setembro de 1988, na altura da agressão pérfida do regime fascista de Saddam contra o Irão dos "mulás", o Iraque produziu ~ 3,5 milhões de barris de petróleo por dia ("Mb/d"), com receitas de ~ 27 mil milhões ("G") de dólares americanos, que exportou principalmente para França, Brasil, Japão, Itália, bloco soviético e U$A, as receitas com que o regime baathista financiou as suas compras de armas à URSS, França, China, Europa, U$A e Egipto para travar a sua guerra de agressão (re:sipri.org, 1984; cia.gv, 1983).

Depois de ter «incentivado», financiado e armado o regime fascista de Saddam, este atacou perfidamente o seu vizinho iraniano para lhe «roubar» o seu «OURO NEGRO», as potências imperialistas ocidentais, confrontadas com a «derrota do regime de Bagdad» e com a agressão contra o Kuwait para se apoderarem do petróleo — que já pertencia às potências ocidentais —, a fim de pagar as suas dívidas de guerra, tornaram-se seus «inimigos» e declararam-lhe uma «guerra económica», em todas as frentes, através de um regime de sanções económicas «da ONU» patenteadas que fez com que as suas receitas petrolíferas passassem de 10,2 mil milhões de dólares americanos em 1990 para 305 milhões de dólares americanos em 1991, arruinando a sua economia, matando de fome o povo iraquiano e provocando profundas divisões no seio do Estado fascista-baasista iraquiano.

O Império ataca o Iraque e envolve-se na ocupação neo-colonial do território

Foram essas as bases da pérfida agressão militar dos EUA/Reino Unido/Austrália em 2003, sob as mentiras odiosas e repugnantes de «libertar o povo iraquiano» do seu proxy, aquele «canalha do Saddam», e de encontrar «armas de destruição maciça» que nunca existiram (tal como a bomba nuclear iraniana)   a não ser na propaganda goebbeliana dos meios de comunicação social dominantes dos bilionários: «Mintam, mintam, mintam, sempre ficará algo de útil» (Goebbels dixit). Mais uma vez, os especialistas ocidentais entraram em alvoroço por causa destas tolices da propaganda imperial.

O regime de ocupação do Iraque, um prenúncio do que estava para acontecer no Canadá e na Venezuela

É precisamente na instauração do regime de «ocupação» do Iraque após a sua invasão que reside o único e exclusivo OBJECTIVO desta guerra desumana de «roubo, pilhagem, banditismo e exploração» do OURO NEGRO iraquiano, que os «especialistas» ocultam e que a sequência dos acontecimentos demonstra.

Assim, a partir do derrube do regime de Saddam, em Abril de 2003, os ianques dos EUA e os seus vassalos ocidentais criaram a «Autoridade Provisória da Coligação», um governo fantoche que «abriu» amplamente os recursos petrolíferos iraquianos aos «interesses estrangeiros» imperialistas e que servirá de modelo para as subsequentes apropriações de bens. Assim,

BP+CNPC CHINÊS > Rumaila;
ExxonMobil + Shell > West Qurna1;
LUKOIL RUSSO > West Quurna-2;
ENI > Zubair;
CNPC CHINA > vários grandes campos petrolíferos;
A TotalEnergies França > numerosos projectos de petróleo e gás e ainda mais, graças ao mecanismo financeiro subordinado ao 
"Banco da Reserva Federal de Nova Iorque/Fundo de Desenvolvimento para o Iraque", que os imperialistas ianques assumiram o controlo total das "receitas" petrolíferas iraquianas, que constituem 90% do orçamento do estado iraquiano remanescente (23/re:reuters.com/01/2026)

Em resumo, os «vampiros» do complexo financeiro YANKEE receberam as suas rendas  por terem financiado: «a guerra Irão-Iraque»; «Iraque-Kuwait»; «Guerra do Golfo 1990-1991»; «Operação Liberdade do Iraque» de 2003; «derrube do regime de Saddam» pelos regimes ocidentais supostamente liberais e pelas suas operações subversivas ilegais, em virtude das quais, tal como demonstrámos: as «receitas» do OURO NEGRO iraquiano passaram do Estado iraquiano comprador, em 1972, para o controlo dos YANKEE U$, actualmente.

Este regime de "controlo" das receitas do petróleo e gás iraquianos é semelhante ao que acaba de ser imposto pelo "fürher" Tr0mp ao governo venezuelano renegado pelo decreto dos "Fundos de Depósito do Governo Estrangeiro", assinado a 9 de Janeiro de 2026, que subordina aos diktats dos YANKEES o uso de "receitas da venda dos recursos naturais venezuelanos, receitas da PDVSA e fundos soberanos venezuelanos detidos na Venezuela contas do governo dos EUA e do acordo de Agosto de 2026, que dão aos Estados Unidos o controlo maioritário na exploração de 65 mil milhões de barris de petróleo provenientes das reservas comprovadas da Venezuela" (re: whitehouse.gov, "Bem-vindos à idade de ouro!", 01/09/2026; 08/2026).

O regime fundiário neo-colonial

Este regime corresponde também ao programa de ditadura «financeira» mundial que os imperialistas ianques se empenham em impor, militar, política e economicamente, ao Irão através de uma guerra «total» e aos seus vassalos canadianos através de uma guerra «comercial», de propaganda e de ingerência nos assuntos internos, tal como demonstrou a «ruptura» das negociações fictícias «EUA-Canadá» sobre a questão da venda de petróleo bruto canadiano à Ásia através do oleoduto «Trans Mountain», quando 90% das exportações de petróleo bruto canadiano são destinadas aos Estados Unidos, o que explica na totalidade o excedente da balança comercial canadiana.

Aliás, o director executivo da «Trans Mountain» declarou durante as negociações que o Canadá deveria construir um segundo oleoduto capaz de transportar até 2 Mb/j para a Ásia, a fim de diversificar os seus mercados e escapar ao «controlo» dos EUA, o que indignou os negociadores ianques (ref.: reuters.com, 28/08/2026)

O Canadá não é já o 51.º Estado dos EUA…? A Gronelândia tornar-se-ia o 52.º (???)

Já em janeiro de 2026, o «Führer» Tr0mp ameaçou o Canadá com «direitos aduaneiros ilegais» de 100% ou 50% caso este celebrasse determinados acordos com a China.  Em Março-Abril, as negociações incidem «sobre a segurança energética dos EUA». O Canadá, Alberta e a Aliança das Areias Betuminosas celebram um protocolo com o objectivo de «diversificar o acesso aos mercados mundiais para o petróleo canadiano», nomeadamente através do oleoduto Trans-Mountain, ao que o «pirata» Tr0mp responde com uma «guerra de tarifas» e, a 21 de Agosto de 2026, após o «romper» das negociações, anuncia o ressurgimento forçado do oleoduto «Keystone XL» (suspenso pelo regime de Biden)  para obrigar o Canadá (o 51.º Estado da União) (sic) a fornecer o seu petróleo bruto às refinarias ianques  do sul, que enfrentam escassez devido ao encerramento do estreito de Ormuz e ao bloqueio ilegal dos portos iranianos.

Eis o OBJECTIVO de todas as guerras imperialistas que os «especialistas auto-proclamados e certificados», tanto da direita como da esquerda, ocultam sistematicamente: «o roubo, a pilhagem e o banditismo»  oferecendo ao proletariado, ora «explicações» fúteis sobre o mau carácter e as «mudanças de humor» de uma personagem rocambolesca e outras estupidezes infantis, ora a ausência pura e simples de explicação, sugerindo que as guerras imperialistas são realidades misteriosas que não se deve, sob nenhuma circunstância, compreender para nunca lhes dar resposta de forma revolucionária.


PROLETÁRIOS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS E REJEITAI

AS EXPLICAÇÕES FALSAS DA BURGUESIA SOBRE A SUA BUSCA

DE LUCROS DESUMANOS ATRAVÉS DO «ROUBO, SAQUE E BANDIDAGEM»


Publicado pela Éditions L'Harmattan em Paris, o volume de Robert Bibeau e Khider Mesloub:

"DA INSURREIÇÃO POPULAR À REVOLUÇÃO PROLETÁRIA". Colecção Questões contemporâneas. 220 páginas.

Para encomendar online em Harmattan: Da insurreição popular à revolução proletária – Robert Bibeau, Khider Mesloub, na AMAZON: https://www.amazon.ca/-/fr/linsurrection-populaire-%C3%A0-r%C3%A9volution-prol%C3%A9tarienne/dp/2336478714/ref=sr_1_8?

 

Versão em Língua Portuguesa

Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: DA INSURREIÇÃO POPULAR À REVOLUÇÃO PROLETÁRIA

 

Fonte: Le pétrole…la mère de toute les convoitises, de toutes les guerres modernes – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




" Projecto de Programa " do Partido Comunista Internacionalista (1944)

 


" Projecto de Programa " do Partido Comunista Internacionalista (1944)

 

Reproduzimos aqui um documento do PCInt de 1944, traduzido pelo recém-criado grupo comunista Prometeu. Parte da introdução baseia-se num artigo previamente preparado por nós, ver A Esquerda Comunista Italiana - Uma Breve História Internacionalista, mas muito mais aprofundado.

O grupo Comunista Prometeu(1) não se considera um "partido comunista" mundial nem sequer o seu único embrião" e vê as suas actividades "como parte do movimento prático em direcção ao comunismo, como uma luta para criar esse partido." A partir disto, consideramos importante trocar experiências e envolver-nos em discussões com outras organizações comunistas internacionalistas. O " Projecto de Programa " do Partido Comunista Internacionalista e a sua introdução — especialmente redigida por camaradas da Battaglia Comunista — marcam o início de uma série de publicações que apresentam documentos, artigos e materiais de outras organizações comunistas; consideramos a familiaridade com estas obras parte do património teórico do marxismo e um elemento vital na formação da consciência de classe do proletariado mundial.

Introdução ao " Projecto de Programa " do Partido Comunista Internacionalista (1944)

Para compreender melhor o contexto em que o " Projecto de Programa " do Partido Comunista Internacionalista foi elaborado e tornado público em 1944 (dentro dos limites da sua clandestinidade forçada), acreditamos que pode ser útil esboçar uma breve história da "Esquerda Italiana" desde a Primeira Guerra Mundial até ao período pós-guerra, quando os contrastes entre os diferentes líderes terminaram no cisma de 1952. A ruptura contribuiu substancialmente para o enfraquecimento gradual dos grupos internacionalistas, em Itália e no estrangeiro.

Breve história internacionalista da Esquerda Comunista Italiana

Nós, do Partido Comunista Internacionalista – afiliado italiano do Bureau Internacional do Partido Revolucionário [que agora é a Tendência Comunista Internacionalista, TCI, ed.] – viemos directamente da Esquerda Comunista Italiana e demos os passos necessários em frente, enfrentando as verdadeiras dinâmicas do capitalismo e a verdadeira natureza do imperialismo (que, recordemos, não é apenas uma política). Acreditamos que os outros, que vêm da tradição da Esquerda Comunista Italiana, ou se afastaram do seu quadro metodológico geral – e este é o caso do TPI – ou – tal como os Bordigistas – permaneceram presos (invariantes) às posições de 1921-22, colocando-se fora das perspectivas revolucionárias relativamente ao capitalismo moderno.

Mauro Stefanini, in an e-mail, early 2000s

Hoje, o termo "esquerda comunista" cria bastante confusão. Os grupos que seguem as TIC não usam esse termo com frequência. Preferimos ser chamados de "internacionalistas". Também tentamos evitar, ou usar muito pouco, o termo "Esquerda Italiana", o que pode criar muita confusão. Na tradição da "Esquerda Italiana" existem três componentes: o Partido Comunista Internacionalista (Battaglia Comunista), o grupo fundador, juntamente com o CWO, do futuro IBRP e mais tarde das TIC), a Esquerda Comunista Francesa, precursora do TPI, e os Bordigistas, que hoje são representados por muitos grupos que não se podem facilmente contar, mas todos derivam do Programma Comunista (Programa Comunista); Os grupos bordigistas costumam adoptar o nome de "Partido Comunista Internacional". Depois há outro agrupamento, que tem origem no ICC, do qual se separou, ou, mais precisamente, foi expulso do ICC no início dos anos 2000: o Groupe International de la Gauche Communiste.

Para nós, uma das maiores fontes de confusão é que, quando dizemos que viemos da tradição da Esquerda Comunista Italiana, muitas vezes somos incorrectamente identificados com o Bordiga e o Bordigismo.

A esquerda italiana passou por dois períodos em que as suas ideias tiveram um vasto seguimento, os anos de 1919-24 e, em menor grau, os anos de 1943-49.

O Partito Comunista d'Italia [Partido Comunista de Itália]

A partir da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa, o grande problema em Itália foi a criação de um partido comunista que pudesse ser afiliado à Terceira Internacional, instituída em 1919. O problema que a Esquerda enfrentou foi a confusão deliberadamente espalhada pelo PSI [Partido Socialista Italiano], sob Serrati, que manteve aberta a possibilidade de uma afiliação à Terceira Internacional, sem realmente o fazer. Além disso, o PSI manteve uma posição ambígua expressa na fórmula "nem apoio, nem sabotagem" relativamente à guerra, à qual a Itália só aderiu em Maio de 1915. Desta forma, poderia complicar ainda mais as águas.

Durante esse período (1919-20), a Itália enfrentava agitação política, com operários que ocupavam as suas fábricas e realizavam greves que envolviam milhares de pessoas; este período é conhecido como «Biennio Rosso» [Dois Anos Vermelhos]. No entanto, não existia nenhum partido da classe operária capaz de orientar essas lutas para um ataque ao Estado. Os operários permaneceram confinados nas fábricas e a classe dominante limitou-se a esperar que o movimento se esmorecesse. Durante esse período, os «intransigentes», como eram chamados na altura os camaradas da esquerda, conseguiram concretizar a ruptura com os socialistas e fundar o Partido Comunista da Itália [também designado pela sigla PCd’I] em Livorno, em 1921; mas o movimento ascendente da luta de classes já tinha chegado ao fim e a burguesia já se encaminhava para o fascismo.

O partido recém-fundado tinha sido criado pela Esquerda, e o seu líder mais proeminente era o jovem Amadeo Bordiga. Mesmo assim, Bordiga tinha uma tendência para o formalismo e um dos seus erros foi chamar à sua fracção "a fracção abstencionista", quando na verdade deveria ter sido chamada de fracção comunista. O resultado foi que muitos comunistas, que pensavam que o parlamento deveria ser usado como púlpito para ganhar publicidade (sem realmente o ver como uma via para ganhar poder), hesitaram em aderir, o que resultou não só num partido com um tamanho numericamente inferior ao que deveria ter sido, mas também que o partido acabou por surgir mais tarde do que deveria. A ideia táctica de Bordiga na raiz da sua decisão sobre o nome "abstencionista" era que o antigo partido socialista se tinha tornado corrupto e reformista porque os seus membros tinham obtido privilégios parlamentares, e esta era a sua forma de manter os reformistas afastados. Mais confusão foi acrescentada pelo facto de Bordiga ter ido ao Segundo Congresso do Comintern e insistido em adicionar a 21.ª condição, que afirmava que todas as decisões do Comintern eram vinculativas para todos os partidos comunistas. Isto significava que tinha ligado o Partido Italiano ao trabalho no parlamento e aos sindicatos, o que para alguns era considerado um retrocesso. No entanto, Bordiga foi coerente na sua insistência de que a consolidação da Internacional deveria ter prioridade acima de tudo. Isto explica porque uma das críticas de Bordiga aos camaradas do KAPD, os comunistas de esquerda alemães, era que elevavam questões que consideravam tácticas a questões de princípio, para serem priorizadas em detrimento da unidade da acção comunista. A eles, escreveu, destacando que "como marxista sou, antes de mais, centralista, e só depois disso abstencionista".

Entretanto, em Itália, a situação tornava-se cada vez mais desesperada para a classe operária, uma vez que o ímpeto revolucionário se tinha perdido. Agora era seguido por um período de reacção. Ao mesmo tempo, o Comintern estava em visível declínio; no seu Quarto Congresso, em 1922 (embora baseando-se no Terceiro Congresso de 1921), decidiu adoptar a táctica da "frente unida" com os mesmos partidos socialistas que apoiaram a guerra imperialista e dificultaram seriamente o processo de criação de partidos comunistas. Para a Esquerda Comunista, a adopção da frente unida marca um ponto de viragem na história da classe operária. É um dos elementos que hoje nos distingue das correntes trotskistas.

Em Itália, a Esquerda, que ainda controlava o partido, sugeriu a ideia de declarar uma «frente unida a partir de baixo» e tentou persuadir os outros partidos da Internacional a adoptarem esta interpretação. A ideia era que os comunistas trabalhassem ao lado dos operários socialistas nas fábricas, mas não com os seus partidos. No entanto, mesmo isto foi demasiado para o Comité Executivo do Comintern que, quando Bordiga foi detido pelo governo fascista em 1923, teve a oportunidade de nomear Gramsci como secretário-geral do partido. Gramsci sempre tinha reconhecido Bordiga como o verdadeiro líder do partido, mas Moscovo prevaleceu sobre ele ao substituir o líder mais conhecido. Sob a sua liderança, o partido foi «bolchevizado» e a Esquerda foi gradualmente afastada do poder.

Bordiga não se opôs activamente a este processo, uma vez que reconhecia a autoridade central do Comité Executivo do Comintern, mas não escondeu a sua oposição à nova direcção tomada pelo partido e pela Internacional. Isto levou-o a apoiar, embora sem grande entusiasmo e apenas numa fase posterior, os esforços dos camaradas do Comitato d’Intesa [Comité de Entendimento ou Aliança], que tinham elaborado uma crítica à degeneração do partido. Entre os signatários encontravam-se Onorato Damen e Francesca (Cecca) Grossi, que mais tarde se casariam e ambos estariam entre os fundadores da nossa filial italiana, o Partido Comunista Internacionalista. O Comitato d’Intesa argumentava que

É errado pensar que, em todas as situações, expedientes e manobras tácticas podem alargar a base do Partido, uma vez que as relações entre o partido e as massas dependem em grande parte da situação objectiva.

Platform of the Committee of Intesa, leftcom.org

O EC do ComIntern pediu a expulsão de todos os que tinham apoiado o Comitato, cujos membros foram destituídos de todas as funções por Gramsci, mas a Esquerda continuou a lutar politicamente contra as degenerações do partido. O clímax chegou em 1926, em dois acontecimentos que resumem esta luta: o último discurso de Bordiga à Internacional Comunista e o Congresso PCd'I de Lyon. A primeira viu Bordiga denunciar Estaline, o abandono do internacionalismo pela Revolução Russa e a forma como Trotsky tinha sido tratado. Diz-se que Estaline respondeu "Que Deus te perdoe". O PCd'I certamente não o fez. No Congresso de Lyon, todos os dirigentes do partido que apoiaram a Esquerda foram informados por Gramsci que, se não votassem na sua tese, teriam perdido os seus cargos no partido juntamente com o salário (razão pela qual, depois disto, os nossos camaradas sempre se opuseram à ideia de "revolucionários profissionais"). Sob esta pressão, muitos recuaram, deixando assim a Esquerda ainda mais isolada. Nessa altura, a esquerda foi expulsa do partido e muitos exilaram-se em França e na Bélgica. Damen nunca foi para o exílio. Em vez disso, teve de lidar várias vezes com a prisão e o envio para a prisão, tanto durante a Guerra Civil Espanhola como durante a Segunda Guerra Mundial. Bordiga também permaneceu em Itália, mas retirou-se para a vida privada e dedicou-se ao exercício da sua profissão de engenheiro em Nápoles. Deixou de ter qualquer papel na política até 1945.

A Facção de Esquerda do Partido Comunista de Itália

A Esquerda Italiana surgiu assim durante os anos trinta, particularmente em França, onde em 1928 (em Pantin) foi formada a Fracção de Esquerda do Partido Comunista de Itália. A Fracção publicou Prometeo (originalmente o nome da revista revolucionária feita pela secção do Partido em Nápoles, secção de Bordiga) e depois Bilan.

A fracção não era um grupo homogéneo, não podia ser.

Os nossos camaradas encontraram-se no meio do processo contra-revolucionário. O problema era compreender as suas razões, a sua natureza e por aí fora. A Guerra Espanhola dividiu a fracção; alguns camaradas pensavam que podiam ir para Espanha tentar juntar-se à guerra ao lado dos republicanos, na esperança de a transformar numa verdadeira luta comunista – mesmo aqueles que se opunham a esta ideia foram para Espanha para tentar trazer os outros de volta às posições comunistas. No final, os camaradas que se juntaram às milícias rapidamente perceberam, às suas próprias custas, que era impossível conquistar os operários para o comunismo numa guerra que se tinha tornado imperialista. A principal conquista foi que os camaradas de Bilan reconheceram que a guerra anti-fascista era o prelúdio para a mobilização da classe operária em apoio ao imperialismo, de uma forma ou de outra.

No entanto, existiam pelo menos duas tendências dentro do grupo Bilan. Por exemplo, enquanto uma tendência negava que fosse possível definir com certeza a natureza da URSS, outra afirmava que a política contra-revolucionária de um partido e de um Estado era produto de um desenvolvimento social e político contra-revolucionário, no qual o Estado já não era um semi-Estado proletário (Lenine, O Estado e a Revolução) e o partido tinha ultrapassado a linha de classe, substituindo-se à velha burguesia tradicional (capitalismo de Estado). Mas Bilan não foi claro em muitas questões, uma delas foi o Estado durante o período de transição. Outra foi a análise das contradições económicas do capitalismo, onde um ensaio escrito por Mitchell (um dos camaradas belgas mais proeminentes) via nas teorias luxemburguistas tardias a única explicação verdadeira para as crises capitalistas. Estes erros levaram à desastrosa subestimação da natureza da crise de 1939. Acreditando (como no Capítulo 18 de A Acumulação do Capital, de Rosa Luxemburgo) que a produção de armamento teria permitido que o capitalismo emergisse da Grande Depressão, pensavam que o capitalismo poderia evitar outra guerra imperialista. A fracção abandonou Bilan e substituiu-a por Octobre, que saiu em apenas uma dúzia de edições nos últimos meses antes da guerra. Vercesi (ou seja, Ottorino Perrone, o membro mais notável da Fracção) afirmou que a classe operária não tinha sido derrotada e que a revolução ainda era possível. Alguns membros da Fracção seriam mortos por Estaline e outros por Hitler, mas no brutal, embora mais desorganizado, estado fascista em Itália, a esquerda sobreviveria mesmo que na fronteira, na prisão e em prisão domiciliária.

A Fundação do Partito Comunista Internazionalista [Partido Comunista Internacionalista]

O Partido Comunista Internacionalista surgiu em 1942, embora só tenha feito a sua estreia "oficial" no cenário político no Outono de 1943, com a primeira edição da Prometeo, que, naturalmente, foi publicada clandestinamente. Os camaradas que formaram o partido concentraram-se principalmente no Piemonte e na Lombardia, ou seja, no coração da classe operária italiana. Geralmente, vinham de uma longa história de activismo dentro das fileiras da "Esquerda Italiana", que deu origem ao Partido Comunista de Itália em 1921, e mesmo naquela altura eram rotulados como bordigistas. É um termo bastante impreciso, embora Bordiga tenha dado uma contribuição teórica e política importante para a própria "Esquerda". De um modo geral, os internacionalistas tinham vivido a prisão e a vida precária do exílio, da qual trouxeram de volta a experiência política da Fracção, após a queda de Mussolini a 25 de Julho de 1943. Mesmo antes disso, muitos desses camaradas tinham lutado contra o surgimento da contra-revolução estalinista, uma luta que culminou no Comitato di Intesa (1925), no qual, não por acaso, Onorato Damen foi uma das principais forças motrizes, apesar – como vimos – da reticência de Bordiga, mesmo que lhe seja atribuída a autoria da maioria dos documentos políticos produzidos pelo próprio Comité. O Partido foi fundado numa altura em que a classe operária, através de greves massivas, estava a abalar o clima de paz social imposto por vinte anos de fascismo e reforçado pela guerra em curso, colocando assim objectivamente em causa a própria guerra e o sistema capitalista que a tinha provocado. As greves, que começaram em Turim – a 'cidade mais operária de Itália' – espalharam-se depois para Milão e o resto do norte. Escusado será dizer que Prometeo não só apoiou entusiasticamente as greves, como, juntamente com os seus militantes, participou activamente nelas.

O Partido estava a desenvolver-se, no meio de enormes dificuldades, tal como o PCI [Partito Comunista Italiano], por assim dizer, encerrava oficialmente a sua espiral descendente ao apoiar o lado dos "Aliados" na guerra imperialista, participar na formação do Comité Nacional de Libertação (CLN) e apoiar o governo de Pietro Badoglio, carrasco de operários, assassino em massa de pessoas indefesas nas guerras em África e nos Balcãs, para mencionar apenas as vítimas civis de uma longa carreira ao serviço da burguesia.

As posições políticas da organização – definidas no " Projecto de Programa " de  1944,(2) embora em alguns aspectos, como no que toca aos sindicatos, fossem ainda um "trabalho em progresso" – no seu conjunto estabeleceram com clareza as bases sobre as quais a organização revolucionária cresceria: certas questões que tinham perturbado a vida da Fracção, como a natureza social da URSS, tinha sido há muito resolvida pelos camaradas que permaneceram em Itália. A União Soviética foi identificada pelo que era: um regime capitalista de Estado, com o Partido "Comunista" [PCI] a actuar como representante do regime, com o objectivo de conduzir o proletariado para apoiar um dos campos imperialistas durante a guerra e na subsequente reconstrução burguesa. Por fim, dava como garantido que os sindicatos, que estavam necessariamente ausentes nessa altura, se tornariam, com o fim do conflito, uma ferramenta poderosa nas mãos da social-democracia e do estalinismo. O "Programa Preliminar", embora fosse um documento "provisório", era mais avançado – em termos da sua estrutura revolucionária das questões – do que a "Plataforma" de 1945, elaborada por Bordiga, que não era, nem jamais seria, membro do partido. As áreas cinzentas, os retrocessos teóricos e políticos, e os primeiros sinais de uma regressão mecanicista-idealista por parte de Bordiga assumiriam uma força disruptiva ao longo dos anos, até à ruptura de 1952. O facto é que a "Plataforma" foi pensada mais como uma contribuição para futuras discussões do congresso do que como a declaração definitiva de identidade do partido; já continha em embrião elementos que, tendo-se desenvolvido posteriormente, dariam origem à era do Bordigismo. Muitos anos depois, esclarecemos mais uma vez o que a "Plataforma" de 1945 representava para o Partido Comunista Internacionalista:

Em 1945, o CC [Comité Central, ed.] recebeu um projecto de Plataforma política do camarada Bordiga que, sublinhamos, não era membro do Partido. O documento, submetido quase concluído para aceitação, foi considerado incompatível com as posições firmes já adoptadas pelo partido sobre as principais questões e, apesar das alterações feitas, sempre foi visto como uma contribuição para o debate, e não como uma plataforma real.

Introduction to our Quaderno “Documenti della Sinistra Italiana” [Documents of the Italian Left] published in the early 1970s, containing the Draft Programme and the Platform of 1945

Voltando ao nosso "Recrutamento", foi mais do que suficiente para guiar o partido pela situação extremamente complexa da guerra, tanto em termos dos alinhamentos políticos e militares no terreno como, acima de tudo, do fenómeno do movimento partidário, que retirava a sua força em grande parte do proletariado, que era geralmente sincero no seu desejo de combater o capitalismo e opor-se ao Nazi-Fascismo, mas estavam completamente sob a influência da ideologia e direcção política do CLN. A sua tarefa era manter essas forças confinadas ao domínio do anti-fascismo burguês, desviando e extinguindo o seu potencial anti-capitalista no contexto da guerra imperialista, e mobilizando-as em apoio a um dos lados em guerra. O Partido, portanto, ao mesmo tempo que denunciava como um trágico engano anti-proletário a política do CLN — que visava conferir ao capitalismo do pós-guerra uma nova aparência democrática —, esforçava-se, na medida em que os limites operacionais muito restritos o permitiam, por proporcionar clareza política entre as forças partidárias, apontando com precisão as limitações do movimento anti-fascista que se tinha desenvolvido, a fim de o conduzir para o terreno da luta de classes, e uni-lo ao corpo principal do proletariado que tinha permanecido nos locais de trabalho: este, e não a guerra de guerrilha, era o ponto de partida para derrubar o capitalismo. Deve notar-se, aliás, que o Partido não caiu na teorização abstracta; sabia muito bem que muitos proletários se tinham refugiado nas montanhas para escapar à perseguição, para desertar da guerra, e que não podiam simplesmente regressar a casa: por esta razão, a directiva política e militar dada consistia em manter as suas posições em defesa de si próprios e das suas famílias, se necessário, para preservar a sua experiência e as suas armas, de modo a disponibilizá-las à classe operária no agora iminente período do pós-guerra.. Nem com Kesserling [Comandante Supremo do Exército Alemão em Itália, ed.] nem com Alexander [Comandante-em-Chefe das forças anglo-americanas em Itália, ed.]: não com o carrasco dos partisans, o assassino em massa de aldeias indefesas sob a bandeira da suástica, mas também não com o representante do não menos feroz imperialismo britânico, que convidou os partisans, no rigoroso Inverno de 1944, regressar a casa como se isso não fosse equivalente a uma sentença de morte.

As mentiras, ditadas por ignorância grosseira ou má-fé egoísta, sobre o papel dos nossos camaradas durante a Segunda Guerra Mundial, acompanham-nos desde 1944, quando o PCI apontou os nossos camaradas como agentes da Gestapo e instou os partisans a tratar-nos como tal. Em pelo menos duas ocasiões, este incitamento ao assassinato foi levado a cabo: contra Fausto Atti, na zona de Bolonha, e Mario Acquaviva na zona de Asti.

A nossa, portanto, não era indiferença – talvez tingida de cobardia, como alguns gostavam de insinuar – mas a única posição consistentemente comunista em relação à guerra. Ninguém mais, nem mesmo os anarquistas, adoptou uma perspectiva tão distintamente baseada na classe. (3)

Em todo o caso, ninguém nutria ilusões sobre a possibilidade de as posições políticas do partido se consolidarem entre a classe operária durante a fase final do fascismo e a abertura de um ressurgimento revolucionário no pós-guerra, mas antecipava-se (e esperava-se) que o luto, a miséria e o colapso económico abrissem espaços para o partido intervir e criar raízes. Ao contrário do que alguns relatos históricos afirmam, o cenário em que os "libertadores" anglo-americanos se abririam era compreendido, em termos gerais:

Isto é certo, no entanto: que a vitória — uma vitória esmagadora para as potências da Entente [os Aliados, Ed.] — fortalecerá muito a frente de resistência do capitalismo mundial e estreitará as possibilidades objectivas para a revolução proletária. A prova da correcção desta análise reside na observação de que uma parte do proletariado 'sente' a guerra democrática e a considera, juntamente com a sua conclusão vitoriosa, como se fosse a 'sua' guerra e a 'sua' vitória. (4)

Esta avaliação foi, infelizmente, confirmada pelos factos e reafirmada várias vezes nos anos imediatamente após o fim do conflito, na imprensa e nos momentos mais altos do Partido, como a Conferência de Turim de 1945 e o Congresso de Florença de 1948.

De facto, se alguma vez houve camaradas que esperavam o surgimento de uma fase revolucionária em que o partido pudesse ter exercido o seu papel de liderança, esses devem ser procurados entre aqueles que, desapontados com o rumo que as coisas tomaram, em breve teorizariam que «não há nada a fazer» e, consequentemente, a eliminação do partido como instrumento político inevitável da luta de classes, bem como a sua transformação num núcleo de «pensadores» e «restauradores» do marxismo. Esta atitude é uma constante na história do movimento operário: a derrota traz à tona e exacerba as fraquezas da teoria, especialmente se o quadro geral da teoria tiver fundamentos instáveis.

Isto, evidentemente, é uma referência a Vercesi, uma figura de destaque na Fracção que mais tarde se tornou um dos principais canais — no seio da organização — de dúvidas, «preocupações não expressas», reconsiderações sobre a teoria e, em essência, da oposição de Bordiga à existência do Partido, o que conduziu à cisão em 1952. Se na conferência de Turim de 1945 as divergências políticas sobre questões pontuais — como a questão sindical — eram de tal ordem que se enquadravam na dialéctica normal de uma organização revolucionária e, de facto, contribuíram para o seu crescimento tanto a nível teórico como político; em Florença, em 1948, já se respirava um ambiente diferente: os nossos camaradas tiveram de lutar contra as tendências liquidacionistas de Vercesi e as suas reviravoltas na questão dos sindicatos, típicas do futuro bordiguismo. Estas tendências, infelizmente, encontrariam a sua saída na divisão de 1952.

" Projecto de Programa " do Partido Comunista Internacionalista (1944)

Este projecto de programa baseia-se no nosso programa básico, as "Teses de Roma", desenvolvidas e aprovadas no Segundo Congresso do Partido Comunista de Itália (1922).

I. Situação e Perspectivas

A guerra, na sua fase final frenética e brutal, demonstra, a par do declínio do poder alemão, a afirmação vitoriosa das potências aliadas, com os Estados Unidos e a Rússia a gozarem claramente de superioridade militar e política. Assim surge a perspectiva de uma paz democrática, garantindo, acima de tudo, a hegemonia económica e financeira indiscutível dos Estados Unidos sobre o mundo. Isto poderia significar não só a vitória na guerra, mas também uma paz vitoriosa, ou seja, uma consolidação do capitalismo que teria assim conseguido, mais uma vez, antecipar-se ao proletariado, que via na crise aberta da guerra uma oportunidade para o sucesso do movimento revolucionário. A validade desta hipótese, uma vez que a guerra ainda está em curso e o imprevisível ainda pode entrar em jogo, pode não ser totalmente confirmada pelo desenrolar dos acontecimentos, mas, no estado atual da crise e tendo em conta os elementos disponíveis, nada sugere que tal possa acontecer. Uma coisa é certa, porém: a vitória esmagadora dos Aliados irá reforçar significativamente a frente de resistência do capitalismo mundial e restringir as possibilidades objectivas de uma revolução proletária. A correcção desta análise é confirmada pelo facto de uma parte do proletariado «sentir» a guerra democrática e a considerar, bem como o seu desfecho vitorioso, como «a sua» guerra e «a sua» vitória.

A responsabilidade histórica por este trágico desvio da linha de classe correcta recai sobre os partidos socialistas e centristas, que agiram e continuam a agir face à guerra não como a ala direita do proletariado, mas como forças reais e conscientes da esquerda burguesa.

II. Fascismo e Democracia

O fascismo como necessidade da sociedade burguesa e expressão orgânica da defesa do privilégio no quadro de um Estado autoritário no auge da crise capitalista é, neste momento, um episódio que diz respeito aos coveiros muito mais directamente do que à política ou à história. Mas deve notar-se que o fascismo não morre como resultado de uma luta violenta e frontal provocada pelo proletariado, ou seja, não é varrido por uma vaga revolucionária; isto significa que há uma transferência pacífica de poder de um quadro político para outro, mais adequado às novas necessidades decorrentes da guerra, e que as necessidades do Estado autoritário, que conhecemos e experienciamos — e que ainda estão vivas e consistentes tal como o capitalismo como um todo, de onde estas necessidades se originam, está viva e coerente — estará na base do Estado democrático, essas mesmas necessidades com a hipocrisia e o engano das liberdades acrescentados, liberdades que serão factualmente reservadas àqueles que detêm o poder.

Por isso, é óbvio que as condições do conflito social não mudaram nem um pouco, e independentemente das forças ao leme do Estado, a posição do nosso partido é que defendem os interesses do capitalismo com todos os meios disponíveis, os mesmos que o fascismo usou, contra todas as tentativas do proletariado de tomar o poder.

Contra o Estado democrático, as tácticas do partido proletário permanecem inalteradas: não acreditamos nas suas eleições, nem na sua assembleia constituinte, nem na sua liberdade de imprensa, de expressão ou de associação; Mas o partido aproveitará deles, assim como de qualquer concessão que a burguesia seja forçada a fazer, com o único propósito de se fortalecer e poder atacar com força. Tal como as coisas estão, a guerra colocou o fascismo de joelhos, mas também não deixará de provocar a ruína política para os partidos tradicionalmente proletários do Comité Nacional de Libertação, que, ligados às forças triunfantes da guerra a que devem os seus sucessos políticos temporários, são hoje forçados a continuá-la. O nosso Partido, tal como esteve sozinho na luta contra a guerra do imperialismo nazi-fascista, permanecerá sozinho na luta da guerra das democracias.

III. O Nosso Partido e a Rússia

A Rússia deixou de ser, para o nosso partido, o país da primeira grande conquista revolucionária do proletariado mundial, e permanece uma página aberta para o estudo crítico do marxismo revolucionário, que hoje tem como missão identificar e expor as causas históricas, económicas e políticas, que, na Rússia, formaram a base da derrota do poder proletário e se tornaram o factor decisivo na desintegração das forças políticas da Internacional Comunista. Desde a repressão violenta contra os verdadeiros revolucionários de Kronstadt até à eliminação física de toda a oposição à política nacionalista de Estaline, é evidente no Estado operário o crescimento constante deste paradoxo peculiar: todos agem ostensivamente para armar a revolução contra qualquer tentativa de restaurar o capitalismo, e todos, revolucionários ou não, contribuíram efectivamente para armar as milícias da mais implacável reacção anti-proletária, que estava destinada a estrangular a Revolução de Outubro e, com ela, os seus melhores combatentes. Para os marxistas, as razões para isso não devem ser procuradas nos céus ou na maldade de alguns homens, mas que viviam dentro do Estado proletário, alimentados por uma política de compromisso que as condições económicas transferiram para a ideologia dominante na era de Lenine e Trotsky.

Em virtude da experiência russa, a luta do proletariado absorveu agora que a violência revolucionária só é historicamente necessária e vital quando é levada a cabo por forças de classe cujas veias correm com sangue proletário, e cujo objectivo não é a resolução de interesses genéricos, subjectivos e situacionais, nem sequer ligados à vida de um Estado proletário, mas antes impulsionado por necessidades fundamentais e permanentes de classe, para as quais o Estado é apenas um episódio e um fenómeno simples e temporário. Caso contrário, a violência deixa de ser a parteira da história e abre caminho para o regresso da reacção.

O Partido considera que, desde a repressão de Kronstadt até à liquidação do Partido Comunista, a violência do estado operário degenerado foi uma expressão de uma vontade orientadora e de interesses económicos e políticos que já não coincidiam com a luta do proletariado. Por isso, amanhã será menos difícil para as partes da nova Internacional definirem os termos, tanto teóricos como tácticos, de uma política contra o compromisso.

Em conclusão, afirmamos:

A ditadura do proletariado não deve, em circunstância alguma, ser reduzida à ditadura do partido, mesmo que se trate do partido do proletariado, da intelectualidade e da liderança do Estado operário.

O Estado e o partido no poder, enquanto órgãos dessa ditadura, contêm em si o germe de uma tendência para o compromisso com o velho mundo, tendência essa que se concretiza e se reforça, como nos ensinou a experiência russa, na incapacidade temporária da revolução num determinado país de se alastrar, unindo-se ao movimento revolucionário de outros países.

Numa fase, então, de estagnação política imposta pela natureza gradual do desenvolvimento revolucionário, os interesses da revolução são garantidos pela presença activa do proletariado — sobretudo das suas forças mais conscientes — nos órgãos fundamentais da ditadura, com cargos eleitos, com direito à destituição, com o livre exercício do sindicato dos operários para defender os seus interesses de classe contra o Estado e todas as camadas económicas que são ainda não socialista: em suma, com o exercício mais amplo possível da democracia operária. Se nesta fase da ditadura de classe a existência livre dos partidos for um anacronismo, então a crítica e a oposição devem ser permitidas dentro da esfera do partido da ditadura. O exercício da democracia mais ampla possível nas relações entre o proletariado e o partido, entre o proletariado e o Estado operário, pressupõe um grau muito elevado de maturidade política alcançado pelo proletariado e a existência de condições objectivamente suficientes para tal implementação em todas as esferas económicas e sociais do Estado operário. Entende-se que é dever do partido que exerce a ditadura elevar estas camadas atrasadas ao nível dos interesses revolucionários da classe através dos meios e métodos permitidos pela própria democracia operária, como a livre discussão, a livre expressão de opinião nas reuniões, etc...

O Estado — uma relíquia burguesa da qual o proletariado não pode prescindir para eliminar os remanescentes da sociedade de classes, mas cuja desintegração deve acelerar — tende ainda mais a sobreviver e a tornar-se mais forte, em vez de definhar, quanto mais se isola do movimento do proletariado internacional, afirmando construir o socialismo na sua própria esfera e posicionando-se como um Estado operário em oposição aos Estados burgueses no palco mundial.

IV. A Nova Internacional

A escala e duração do conflito, a profundidade e dureza dos choques ideológicos, a experiência negativa do primeiro Estado proletário e da sua Internacional, devem ter determinado as condições favoráveis para a formação e fortalecimento de organizações comunistas em países individuais, que aguardam o momento de se unirem e lançarem as bases de uma nova Internacional.

Estes terão de ter em conta, acima de tudo, as suas experiências negativas anteriores, para se tornarem efectivamente o órgão da revolução comunista mundial. O nosso Partido, que nas últimas décadas mais do que qualquer outro sentiu a falta de um órgão directivo internacional que pudesse realmente ser um guia e um incentivo para a luta proletária, e expôs corajosamente as suas falhas, erros, desvios e, em última análise, traição, e que não perdeu oportunidade de restabelecer contactos entre as forças da esquerda internacional, será capaz de tomar a iniciativa no momento oportuno. O nosso Partido está ideologicamente preparado para esta tarefa de renascimento e já afirma que a nova Internacional:

a) deve evitar tornar-se um instrumento do Estado operário e da sua política, mas, considerando-se a assembleia suprema dos operários de todo o mundo, deve defender os interesses da revolução, mesmo perante o Estado operário;

b) deve evitar a burocratização, impedindo que tanto o centro director como os centros periféricos se tornem um terreno para o carreirismo burocrático;

c) deve evitar que a política de classe seja concebida e levada a cabo de acordo com critérios formais e administrativos.

O perigo de acréscimos oportunistas e de autoritarismo burocrático só pode ser neutralizado a tempo e eliminado através da participação activa dos órgãos políticos do proletariado dos vários países na vida política da Internacional, através do seu controlo vigilante sobre as pessoas e os órgãos à frente dos centros dirigentes e responsáveis.

V. As Nossas Tácticas

Já afirmámos que as tácticas do partido não mudam com as aparentes e meramente formais mudanças nas condições externas e políticas do Estado. A menos que o curso da guerra seja brutalmente interrompido ou radicalmente alterado pelo colapso de alguma frente como resultado de uma revolta operária bem-sucedida, ao contrário da experiência democrática antecipada, sob a tutela das forças aliadas vitoriosas, o nosso partido colocará a luta proletária em termos de tácticas revolucionárias, que consistem em interpretar prontamente as situações do ponto de vista de classe, na adaptação das palavras-chave da acção em conformidade, e em equipar, a tempo, o proletariado com as ideias essenciais que alimentam a sua luta e com os meios necessários para consolidar a vitória. No período imediatamente pós-guerra, sob a liderança dos socialistas e centristas, a manobra tão cara à reacção democrática será repetida: desviar o impulso revolucionário para o encalhar nos bancos de exigências parciais e imediatas e de compromisso, aproveitando a inevitável desorientação política, económica e moral que descerá sobre todos os órgãos do Estado e sobre a consciência das massas, para além da incapacidade da classe dominante responsável pela guerra de organizar a paz no sentido de resolver os enormes problemas colocados pela guerra, o nosso partido adaptará as suas tácticas em conformidade, com a maturação de condições objectivas favoráveis, e conduzirá a luta dentro do canal da tradição revolucionária, de modo a proporcionar uma verdadeira liderança em vez de ficar atrás dos acontecimentos. É, portanto, óbvio que os expedientes tácticos da democracia serão lançados para o lixo da política assim que o partido julgar que a situação está a caminhar para um desfecho revolucionário.

Porque a nossa linha política não será influenciada por tentações idealistas ou teorias da espontaneidade, isso permitirá que a vontade do partido de lutar coincida com a vontade das massas, de modo que expressem de forma concentrada a urgência de uma necessidade prática no sentido de um assalto revolucionário pela conquista do poder.

Mas não haverá uma conquista séria do poder, a menos que o partido ganhe primeiro influência sobre as massas do proletariado. Para tal, o partido define as suas tarefas da seguinte forma:

a)   as massas não podem ser conquistadas quando e como se desejar, se as condições objectivas não as despertarem, as acrobacias tácticas das partes que querem influenciá-las e fazê-las entrar em acção ao toque de uma varinha mágica são inúteis;

b) o espírito combativo das massas, quando inflamado na luta, indica, como que num diagrama, o processo de instabilidade e crise que permeia o aparelho produtivo do capitalismo, os seus mercados e toda a sua organização política. Neste momento, o partido pode inserir-se na luta e ser um dos seus elementos determinantes, atraindo as massas para a sua órbita para unir as suas energias e direccioná-las para a concretização de objectivos específicos;

c) o sucesso de tal intervenção é possível na medida em que o partido conseguiu criar organizações permanentes para propaganda, recrutamento e agitação entre as massas; na medida em que conseguiu conquistar confiança, através da constante adesão à vida e às lutas do proletariado e às suas exigências de classe; finalmente, na medida em que demonstrou que não iludiu as massas com agitação inoportuna e insincera, com gestos vazios como greves por causa das greves, ou greves por fins contrários ao espírito e interesses da classe;

d) O nosso partido, que não subestima a influência de outros partidos com tradição operária nem a importância dessa influência junto das massas, defende a «frente unida», a expressão orgânica da unidade proletária fora e para além dos partidos, indispensável para a luta e a vitória, uma arena natural e livre para o confronto de correntes políticas opostas, no seio da qual o nosso partido desempenhará o seu papel de liderança como guia da maioria do proletariado, porque é o seu fiel intérprete, porque representa os seus interesses fundamentais e porque, acima de tudo, provou ser o seu único e fiável guia na luta revolucionária.

VI. A Questão da União

Actualmente, a questão sindical não existe, e os remanescentes das antigas organizações sindicais sobreviventes em clandestinidade provaram servir mais como instrumentos de agitação política ligados à guerra do que como órgãos genuínos da luta dos operários.

O renascimento do movimento sindical, que se seguirá ao fim da guerra, terá a marca das suas vicissitudes políticas e verá a tradicional dominação social-democrata dos sindicatos muito fortalecida e a sua burocracia tornar-se ainda mais autoritária. Apesar destas perspetivas, o nosso partido levantará, assim que as circunstâncias permitirem, o problema da reorganização unificada do movimento operário, reconstituirá a rede das suas fracções sindicais desde o grupo comunista de fábrica (composto por comunistas e operários sem partido) até ao comité nacional comunista da União: e se assim o considerar necessário, tomará a iniciativa de formar uma "Frente da União da Esquerda" para derrubar a liderança da Confederação do Trabalho.

Entretanto, o partido concentrará a sua atenção e actividade em estabelecer ligações sistemáticas com as fábricas, com o objectivo não só de construir um aparelho interno, mas também de criar uma rede capaz de direccionar o movimento das massas amplas.

VII. Trabalho entre os Camponeses

Esta guerra, tal como a anterior, e certamente numa escala muito maior, deve ter aprofundado entre os camponeses o seu distanciamento do mundo das tradições seculares e da subjugação económica e política, e deve ter actuado como uma picareta demolidora, por um lado, contra as formas obsoletas e limitadas de cultivo agrícola e, por outro, contra o domínio das camarilhas parasitárias da escravatura agrária. A separação entre as populações rurais e urbanas tem vindo a diminuir e muitos mal-entendidos, bem como mais do que uma diferença, desapareceram; ambas foram aproximadas e quase unidas pelos sofrimentos físicos e pelas restricções morais e políticas violentamente impostas por uma ditadura implacável e por uma guerra feroz.

Se o camponês, que pensa devagar, mas com uma lógica clara e profunda, chegou, após tantas experiências, a perceber o laço de responsabilidade partilhada que une o proprietário da terra que cultiva às forças políticas que quiseram esta guerra de extermínio, então terá sido dado um grande passo em direcção à revolução.

O nosso campo, que a guerra deveria transformar ao impulsioná-lo, como tem feito até certo ponto, para níveis mais elevados de desenvolvimento económico, encontra-se, no quinto ano da guerra, alarmantemente esgotado de mão-de-obra e reservas devido ao saque sistemático levado a cabo por beligerantes, tanto inimigos como aliados, presos entre o apelo passageiro do mercado negro e a depreciação monetária, que anula os seus sacrifícios e está sujeita ao peso opressivo da intervenção monopolista e predatória do Estado. Não duvidamos que estes desenvolvimentos fomentaram entre as massas camponesas a aversão e ódio contra um regime económico e político cuja experiência se revelou tanto irracional como criminosa.

O período do pós-guerra encerra, portanto, ricas possibilidades revolucionárias também nesta esfera, uma esfera em que o proletariado industrial enfrentava, até ontem, uma oposição obstinada e tenaz à luta comum pela emancipação. O nosso partido sempre reconheceu o papel que o campesinato, especialmente o campesinato pobre, está destinado a desempenhar na revolução italiana, e, a partir deste preciso momento, coloca a questão camponesa na ordem do dia, fazendo seu o programa adoptado no Segundo Congresso do Partido Comunista de Itália — um programa que permanece plenamente vivo e relevante, tanto como orientação táctica na fase que antecede a conquista do poder, como guia concreto e construtivo durante a primeira fase difícil da concretização de uma economia socialista.

De um ponto de vista prático, o partido aposta na reorganização dos sindicatos dos trabalhadores agrícolas e das ligas dos meeiros e pequenos arrendatários; e, no que diz respeito aos pequenos proprietários, na organização de uma associação para a defesa dos seus interesses económicos.

Comité Central do Partido Comunista Internacionalista
Setembro de 1944 (apresentado pelo Comité Central em Novembro desse ano)
Extraído de um panfleto publicado pelo Partido Comunista Internacionalista, 1945

 

Notas de rodapé

(1) O Prometeu Comunista é um grupo internacionalista recentemente formado, originalmente sediado na Rússia, mas com camaradas em vários países. A tradução que se segue vem da primeira edição da sua revista, que pode ser encontrada em inglês em comprom.org. O mesmo documento também existe em russo e italiano. Agradecemos de coração aos camaradas esta tradução do " Projecto de Programa " de 1944 do Partido Comunista Internacionalista e esperamos aprofundar a discussão com eles.

(2) " Projecto de Programa " do Partido Comunista Internacionalista (1944)

(3) Relativamente aos anarquistas e ao CLN:

Neste jogo burguês, até mesmo… aqueles terríveis defensores… da forma mais «intransigente» de revolução: os anarquistas apareceram (será preciso dizer mais?). A natureza não historicista, mas grosseiramente voluntarista, da sua doutrina, a sua «forma mentis» particularmente apaixonada, confusa e muitas vezes ilógica, bem como a superficialidade das suas análises, conduziram [os anarquistas] para as fileiras do CLN, lado a lado […] com padres, mazzinianos [seguidores de Mazzini, ed.] e burgueses. [Os anarquistas] não se deixaram, nem um pouco, afectar pela dúvida de que a guerra que travavam se enquadrava na categoria dos conflitos imperialistas: ao aderirem ao CLN, os «negadores mais radicais de qualquer forma de governo», não suspeitaram, nem um pouco, que estavam a dar o seu apoio a novos órgãos do Estado burguês que «derrubavam definitivamente»… em teoria, e consolidavam na prática por todos os meios […] Uma triste ironia histórica fez com que os primeiros e últimos actos da tragédia da guerra (Espanha e Itália) testemunhassem os anarquistas a chegar a um acordo (ministros, libertadores, CLN) com o capitalismo, contribuindo para tornar a derrota da classe operária verdadeiramente totalitária

(O Proletariado e a Segunda Guerra Mundial, artigos retirados da Battaglia Comunista de Novembro de 1947 a fevereiro de 1948) 

(4) Do relatório apresentado pela CE na preparação para o Congresso Nacional do Partido, Dezembro de 1947, em Quaderni Internazionalisti, op. cit., p.67:

O Partido não alimentou nem fomentou ilusões a este respeito [o início de uma fase revolucionária]; Previu, no final do conflito, o surgimento de uma situação histórica abertamente reaccionária, e preparou-se para falar nela com firmeza e coragem, tal como conseguiu fazê-lo contra todas as probabilidades e contra todos os adversários no meio da guerra mundial.

E Aldo Lecci, no Congresso de 1948, expressou-se da seguinte forma:

No entanto, ele [Vercesi] afirmou ter-se enganado em 1945 em Turim, quando acreditava numa retoma do curso revolucionário, enquanto hoje percebe que em todo o mundo a classe proletária está aliada ao capitalismo e que tudo o que fazemos só pode beneficiar um ou outro bloco imperialista [...]. O discurso do camarada Vercesi hoje oculta uma tentativa de reduzir o partido a um clube de super-homens, de auto-proclamados cientistas marxistas, que se sentem superiores e desprezam envolver-se com a realidade em que vivem as massas [...]. Estes elementos, que procuram esconder o seu pessimismo atrás do nosso suposto optimismo, vêm — politicamente inactivos — lançar frases grandiloquentes entre nós sem dar qualquer contributo positivo para as posições que defendemos e advogamos, sem refutações teóricas ou políticas dos nossos 'erros' e desvios. Os camaradas que trabalharam connosco sabem que nunca nos iludimos a nós próprios nem alguma vez iludimos alguém com posições e perspectivas fixas. Sempre fomos firmes e precisos; sempre dissemos aos nossos camaradas: "Recrutem com cautela; desvalorizar qualquer pessoa que demonstre incompreensão política; Talvez tenhamos de reduzir ainda mais; a situação não permite o desenvolvimento de um partido baseado em classes; A tarefa é formar os quadros, a espinha dorsal do partido.

Reports: Turin Conference of 1945, Florence Congress of 1948, p.16

Terça-feira, 1 de Setembro de 2026

 

Fonte: "Draft Programme" of the Internationalist Communist Party (1944) | Leftcom

Este documento foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice