SOBRE A MISTIFICAÇÃO DEMOCRÁTICA
Ridha Klouche·
Sobre a mistificação democrática:
Jacques Camatte a Bordiga
Paris, 18 de Junho de 1965
Caro Amadeo,
Aqui está uma primeira parte sobre as
obras de juventude de Marx, ainda chamadas de obras filosóficas, embora aí se
encontrem todos os elementos da obra da maturidade e, portanto, não existam um
Marx jovem e um Marx velho.
É um resumo e um comentário da
"Crítica à filosofia do Estado de Hegel". Isto tem interesse:
- Para mostrar que desde o início Marx
tem a solução para todos os antagonismos, para todos os enigmas: é a comunidade
(Gemeinwesen); que a sociedade burguesa é a última sociedade política; que a
democracia é a última forma política. Isto quer dizer que é na sociedade
burguesa que pela última vez se coloca o problema de organizar os homens.
A
democracia sendo a solução, "o enigma resolvido de todas as
constituições" e portanto ao mesmo tempo o fim da política.
- Para evidenciar a crítica à vontade e
à burocracia, encontrarás incluídas as cartas sobre este assunto que te tinha
escrito no ano passado. Acho que este ponto é fundamental: todos aqueles que
teorizam a vontade acabam por precisar da burocracia porque esta nasce no plano
da transmissão de ordens e na hierarquia do conhecimento.
Por outro lado, Marx polemizando com
Hegel declara: qual é o ser da constituição? Hegel responde: o povo.
É aí que se encontra a mistificação que
Marx irá revelar em todos os seus trabalhos posteriores, mostrando que é o
capital. Marx encontrou a solução na Gemeinwesen comunista. Ele vai demonstrar
a génese do Estado, portanto a destruição da antiga comunidade e depois a
reformação da comunidade. Pode-se demonstrar que esta foi a preocupação
fundamental de Marx. De facto, ele abordou O Capital de quatro formas
diferentes:
- Os Manuscritos de 1844: ele insiste sobretudo no trabalho alienado e
assalariado na sociedade capitalista.
- A Contribuição para a Crítica da Economia Política: ele parte da
relação material, a mercadoria, depois o capital. As conclusões são as
mesmas. Apenas Marx queria por um lado demonstrar como o processo social
se tinha efectivamente produzido e como se tinha apresentado no homem: as
várias escolas económicas. Daí um plano duplo, por um lado os dados
puramente teóricos, por outro as considerações históricas.
- As formas que precedem a forma de produção capitalista. Nos dois
primeiros textos tentava-se ver como o trabalhador assalariado era
produzido, como o capital se tinha constituído. A diferença entre as duas obras
resulta do ponto colocado no centro: o trabalho assalariado ou o capital.
Aqui, Marx explica que o capitalismo só pôde constituir-se destruindo a
comunidade natural, depois a comunidade mediada pela terra, etc. O ponto
central é a comunidade.
- O Urtext que não é senão um fragmento da versão primitiva da
Contribuição à Crítica. Aqui Marx coloca a questão da autonomia do valor
de troca e demonstra que o ouro não pode realizar isso, só o capital podia.
No entanto, ele indica ainda que agora o capital pode ser a comunidade
material. Só ele pode substituir a antiga comunidade que foi destruída ao
longo das várias revoluções que representam os diversos tempos da
expropriação, até ao homem totalmente rejeitado – mesmo do processo de
produção e, portanto, do trabalho – o proletário.
Isto é importante porque complementa a
investigação das Formas e, por outro lado, permite unir toda a obra em torno da
questão fundamental da comunidade, ou seja, do comunismo.
Marx percebeu que não conseguiria construir
toda a obra integrando os diversos dados. Por outro lado, o fracasso da
Contribuição mostrou-lhe que era necessário 'ser mais simples' (vamos dizer
assim), razão pela qual, dado o carácter urgente de fornecer uma arma de luta
ao proletariado, publicou o 1.º livro do Capital, que é um todo e é ao mesmo
tempo o programa da classe revolucionária e a desmistificação de todas as
relações sociais. É por isso que encontramos a mesma 'terminologia', o mesmo
estilo no VI Capítulo, no Urtext, na Contribuição ou nas partes do Capital não
publicadas em vida do autor. Quando não o é, a substância é a mesma, por
exemplo: no VI Capítulo fala-se da mistificação da mercadoria e depois do
capital (como na Contribuição), no I livro do Capital fala-se do 'carácter
fetiche da mercadoria'. Vamos agora para a mistificação das relações sociais e,
portanto, da democracia, aqui está uma das frases-chave que se encontra na
Contribuição:
"É necessário que uma relação
social de produção se apresente sob a forma de um objecto existente fora dos
indivíduos e que as relações determinadas, nas quais eles entram no processo de
produção da sua vida social, se apresentem como propriedades específicas de um
objecto. É esta inversão, esta mistificação não imaginária, mas de uma
realidade prosaica, que caracteriza todas as formas sociais do trabalho criador
de valor de troca."
Outra citação importante: "Como o
dinheiro não é produto da reflexão ou da convenção, mas constitui-se
instintivamente no processo de troca, mercadorias muito diversas, mais ou menos
inadequadas, podem perfeitamente funcionar como dinheiro."
Portanto, a democracia não é um simples
subterfúgio das classes dominantes para enganar as massas. Por outro lado, pode
ter havido várias formas de democracia. A busca pela democracia ideal - a
democracia renovada dos excrementos estalinistas - é tão inútil quanto a da
moeda ideal..
Isto colocou-nos no caminho da
compreensão – em profundidade – da mistificação democrática. O Roger vai
escrever-te precisamente sobre o Capital de Marx e a democracia.
Mais tarde, vou enviar-te o trabalho
sobre A Questão Judaica e A Contribuição para a Crítica da Filosofia do Direito
de Hegel[1], sempre abordado com a mesma perspectiva. Estou a enviar-te tudo
isto que é "matéria para trabalhar" e não um produto elaborado, para te
manter a par do trabalho que estamos a fazer sobre a mistificação. É quase
certo que num futuro próximo teremos chegado ao fim de tudo e poderemos
sintetizar como pedes e submeter-te o texto.
https://www.facebook.com/share/p/14jj7RxyCfB/
Para que as máscaras intercambiáveis não
possam mais personificar nada, é absolutamente necessário que os SEM-RESERVAS
fraternizem e lutem como classe, ou seja, partido comunista que, por sua
função, é planetário.
Para dissolver à escala planetária:
Todos os estados
Depois
O processo de produção
O processo de circulação
O processo de reprodução de todo o lixo
Dissolução também
De todos os SACRIFÍCIOS económicos,
políticos, militares, jurídicos, filosóficos e religiosos
Quem tem ferro
Tem pão
https://www.facebook.com/share/p/17eG9qVB6h/
CfJutta Matzner: O conceito de máscara de caráter em Karl Marx
In: SOCIALE WELT : Revista de Ciências
Sociais
Forschung und Praxis
JAHRGANG 15 1964 HEFT 2
https://www.facebook.com/share/p/1GP7P2FHqY/
Eu não pinto de cor-de-rosa, muito longe
disso, a personagem do capitalista e do proprietário de terras. Mas essas
pessoas aqui só aparecem como personificação de categorias económicas, como
portadoras de relações de classe e de interesses determinados. Menos do que
qualquer outra perspectiva, a minha, que consiste em compreender o
desenvolvimento da formação económico-social como um processo histórico
natural, não pode responsabilizar um indivíduo singular por relações e
condições das quais é socialmente produto, mesmo que consiga elevar-se,
subjetivamente, acima delas. Karl Marx: https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=10228120662755908&id=1655649564https://www.facebook.com/share/p/17eG9qVB6h/CfJuttahttps://www.facebook.com/share/p/18T1Yqv2xy/
« A mercadoria em si e para si está
acima de qualquer barreira religiosa, política, nacional e linguística. A sua
língua universal é o preço, e a sua comunidade, o dinheiro. Mas, com o
desenvolvimento da moeda universal em oposição à moeda nacional, desenvolve-se
o cosmopolitismo do possuidor de mercadorias sob a forma de religião da razão
prática em oposição aos preconceitos hereditários religiosos, nacionais e
outros, que impedem a troca de substância entre os homens » Karl Marx 1859, a
América desencadeará a 3.ª guerra mundial quando o centro de gravidade se
deslocar definitivamente para a Ásia, a América já implantou o cavalo de Troia
em Marrocos.
A relação de todos os estados e de todas
as formações sociais é determinada pelo modo de produção capitalista que é
mundial, problemático, ingovernável e criminoso: 2 matanças mundiais, depois
mais de 700 guerras, e continua. Os SEM-RESERVAS devem fraternizar e unir-se
para lutar como classe, ou seja, partido comunista histórico que, pela sua
função, é planetário. A fim de dissolver todos os estados, bem como o processo
de produção, o processo de circulação, o processo de reprodução e a dissolução
de todos os SUPRA-SACRIFÍCIOS económicos, políticos, militares, jurídicos,
filosóficos e religiosos.
Para Rosa Luxemburgo, o modo de produção
capitalista não pode ser mundial porque precisa ter à sua volta na sua
periferia outros modos de produção, cuja destruição lhe daria o impulso que é
fundamentalmente necessário. Portanto, para Rosa Luxemburgo, tal como para os
maoístas, não deve desaparecer pelo efeito da contradição entre N e N-1, e não
entre N e N+1. A China, tal como a Rússia, estava abaixo do modo de produção
capitalista mundial e, portanto, não podia ir além. Mas estar abaixo do
problema e querer ir além do problema é uma contradição in adjecto.
A dissolução de todos os N-1,
Ou seja, os modos de produção
pré-capitalistas,
leva necessariamente AO MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA MUNDIAL.
Se N se impõe uma vez, continuará a
impor-se tantas vezes à escala planetária até à sua dissolução e ao nascimento
de N+1.
A DISSOLUÇÃO DE N LEVA
NECESSARIAMENTE A N+1 A COMUNIDADE
HUMANA PLANETÁRIA DO SER PORQUE N ESTÁ GRÁVIDO DE 18 MESES DE N+1, OU SEJA,
DO PROLETARIADO MUNDIAL.
Fonte: Página do Facebook de Ridha
Klouche
Este texto foi traduzido para Língua
Portuguesa por Luis Júdice