Comunicado
sobre a situação em França – 26 de Outubro de 2026
« Cuidado com a raiva das pessoas racionais. Ao longo da manifestação parisiense, aliás, ouvem-se poucas palavras de ordem sobre o poder de compra ou o forte aumento do preço dos combustíveis, mas uma fúria poderosa expressa-se contra o Estado, contra o governo, e sobretudo contra as forças de ordem, com o universal “ACAB” (“All cops are bastards”, ou seja, “todos os polícias são uns bastardos”), mil vezes cantado, seguido de “E toda a gente odeia a polícia”. » (Le Monde, 25 de Outubro de 2026[1], artigo sobre a manifestação parisiense de 24 de Outubro de 2026)
O repórter do jornal Le Monde faz um relato bastante fiel tanto do ponto de vista do desenrolar da manifestação parisiense de 24 de Outubro quanto do seu significado político. Oficialmente, participaram 250 000 manifestantes, apesar das proibições e das mudanças de última hora no percurso feitas pela polícia. De facto, esta política de proibição total ou parcial das manifestações, sob a ameaça de uma repressão cada vez mais violenta, não conseguiu impedir que centenas de milhar de pessoas – quase tantas quanto em 17 de Outubro – se manifestassem por todo o país, incluindo locais como Lyon, onde qualquer manifestação era proibida. É ainda mais notável considerando que, após as violentas manifestações do dia 17 e ao longo da semana que levou ao dia 24, a saturação diária, sistemática e renovada em todos os media, jornais e canais de notícias em directo sobre as violências, os saques e os vândalos não cessou de crescer ao longo dos dias e isso até ao sábado da manifestação.
No entanto, a semana de bombardeamento mediático sobre as violências foi muito mais eficaz em termos ideológicos e políticos. O resultado foi que os lemas das manifestações de sábado já não eram um «todos juntos» contra o custo de vida, condições de trabalho e de estudo escandalosas e miseráveis, e a favor do aumento dos salários ou outros; mas sim em defesa do direito de manifestar, da democracia, no terreno do anti-racismo e contra a repressão policial. Este fenómeno foi acentuado pela organização de uma manifestação em Orleães contra a realização do congresso do Rassemblement national da extrema-direita nessa mesma cidade. Depois, pelo aproveitamento mediático do ataque assassino de um racista[2] contra imigrantes de «cor», que matou uma pessoa e feriu várias num subúrbio parisiense, em Trappes. Qual foi o lema mais repetido nas manifestações de 24? Siamo tutti antifascisti. O anti-fascismo tomou o lugar da luta de classes proletária. A deslocação da confrontação do terreno da defesa das condições de vida e de trabalho de 17 de Outubro para o da ameaça racista, xenófoba e repressiva tornou-se então dominante, com na rectaguarda a perspectiva da vitória de Marine Le Pen nas eleições presidenciais de 2027. Enquanto todos os meios de comunicação burgueses se admiravam na semana anterior ao dia 17 pelo facto de uma mobilização de massas acontecer em plena campanha eleitoral presidencial, a semana de 17 a 24 também conseguiu reverter a mobilização em curso e transformá-la num momento da campanha presidencial.
A grande combatividade e raiva que se manifestaram novamente nas manifestações massivas e determinadas deste sábado, dia 24, deslizaram então do terreno de classe para o terreno burguês da democracia. A linha de polarização já não era contra o Estado, mas em defesa do Estado contra a extrema-direita e a repressão policial. Como diz o jornalista do Monde, «ouvem-se poucas palavras de ordem sobre o poder de compra ou o forte aumento do preço dos combustíveis, mas uma fúria poderosa manifesta-se contra o Estado.»
Muitos, incluindo dentro do campo revolucionário, verão na raiva anti-polícia e contra o Estado um sinal positivo tanto do ponto de vista da mobilização actual como do ponto de vista histórico. Verão nisso um enfraquecimento considerável da mistificação democrática, ou mesmo as primeiras tentativas de disputar à burguesia o seu poder político. Tal como lhes será tentador ver na vontade dos coletes amarelos de se dirigir ao Eliseu e aos locais de poder durante a manifestação do dia 17, ou mesmo nos incêndios nas câmaras municipais, uma vontade e uma consciência crescentes de colocar a questão do poder político. Nós, pelo contrário, pensamos que esta aparente radicalidade marca um retrocesso político da mobilização e o sucesso da manobra ideológica e política conduzida por todo o aparelho de Estado desde 17 de Outubro. Cada um, governo, partidos de direita e extrema-direita, partidos de esquerda, extrema-esquerda, sindicatos e sindicalismo de base, joga o seu papel de prender os trabalhadores e os futuros trabalhadores hoje estudantes ou liceais que estão nas ruas numa falsa alternativa: iliberalismo-democracia, fascismo-anti-fascismo, racismo-anti-racismo, direito de manifestação-proibição e repressão, etc. « A fúria contra o Estado » que o nosso jornalista destaca não é contra o Estado, mas em defesa do Estado democrático burguês, da República, quaisquer que sejam as consciências individuais das “pessoas sensatas” e por muito revoltadas que estejam, ou até por mais radical que seja a sua postura.
Neste sentido, parece-nos que a compreensão da situação e a orientação que defendíamos com outros[3] depois do dia 17 foram globalmente confirmadas: «Para nós, este dia não podia senão marcar uma viragem: ou abria caminho para uma entrada mais ou menos rápida na luta de setores da classe operária, aproveitando a porta que os estudantes tinham aberto, e assim abria uma nova perspetiva para esta mobilização; ou os trabalhadores não iam além de simpatias e apoios individuais – sem dúvida numerosos, mas não coletivos – e esperavam pelo dia de ação dos sindicatos previsto para 5 de novembro, cujo objetivo, toda a gente sabe, não é mais do que controlar a mobilização, deixar escapar o vapor, voltar com todos ao âmbito sindical e assim apagar o incêndio. (...)
No momento em que escrevemos, após o dia 17 e o bombardeamento mediático e governamental sobre as violências e os saqueadores, por um lado, e a substituição de um dia de ação sindical no dia 5 de novembro em vez de uma entrada imediata dos trabalhadores na luta pelas suas reivindicações nas quais todos se reconhecem, parece pouco provável – esperemos que estejamos errados – que setores significativos do proletariado entrem numa luta imediata e massiva. Para isso, seria necessário não só que saíssem da atitude de espera e hesitação mostrada até agora, mas sobretudo que assumissem conscientemente a confrontação política com os sindicatos que se opõem, e se vão opor, a qualquer greve imediata sob o pretexto de preparar o dia 5 de novembro. Para já, resulta que as palavras de ordem e orientações do nosso folheto continuam sempre válidas no momento em que escrevemos.» (comunicado de 18 de outubro)
O dia 17 de facto marcou uma viragem, infelizmente não no sentido do desenvolvimento da luta no terreno proletário. Não houve qualquer entrada em luta por parte de sectores mais ou menos amplos da classe operária, o que teria permitido dar uma perspetiva de classe clara à mobilização[4]. Na sua ausência, o caminho ficou livre para a contra-ofensiva burguesa. Como já referimos, a campanha política dos media e dos partidos sobre as violências e o marco da jornada sindical de 5 de novembro são as duas mandíbulas da armadilha que se estão a fechar, impedindo qualquer alternativa de classe significativa. Não surgiu nenhuma luta operária para assumir o seu lugar, nem sequer entre os professores (certamente de férias) que, no entanto, têm as mesmas reivindicações que os estudantes do secundário, e a direcção da mobilização no terreno económico, ou seja, contra os ataques aos salários e às condições de trabalho. O resultado é que todo o aparelho político estatal da burguesia pôde ocupar todo o terreno durante toda a semana e assim desviar a atenção das reivindicações económicas para o terreno da defesa da ordem republicana de um lado e, do outro, da democracia e do direito de manifestar. A raiva de classe, que tendia a afirmar-se até 17 de outubro – mesmo que ainda muito confusa – desviou-se para o terreno burguês e tornou-se raiva cidadã.
Não há quase dúvidas de que a participação maciça e a raiva existente obrigam as forças burguesas a intercalar outros dias, pelo menos um, de manifestação ou outro para preencher o vazio que separa 24 de Outubro de 5 de Novembro – mais de dez dias. Não há quase dúvidas também, segundo nós, de que a já anunciada para o próximo sábado virá confirmar a mudança de uma linha de confrontação que se polariza em torno das reivindicações económicas, e portanto de confrontação entre classes sociais, para uma que polariza as forças “autoritárias” anti-democráticas contra as forças democráticas. Uma dúvida? “Para o acto III, no sábado, 31 de Outubro, apelamos a concentrações e a sit-in em frente à Assembleia Nacional e em todas as câmaras municipais de França, para a defesa das liberdades públicas. Nesse dia, manifestaremos pela liberdade de manifestar, e por todas as nossas liberdades,” afirma o principal site dos coletes amarelos cuja influência é significativa. (https://www.17octobregiletjaune.net/)
Nessas condições, é claro que as orientações de luta imediata e de agitação que ainda podíamos avançar na semana passada já não são adequadas à nova situação. A perspectiva e as palavras de ordem de extensão e generalização da luta a toda a classe operária, a possibilidade de entrada em luta de sectores operários, acabam por se encontrar de facto assimiladas ou associadas ao dia de acção sindical de 5 de Novembro. A atitude de esperar para ver, de hesitação, que apontávamos na semana passada e contra a qual alertávamos os operários, deixou toda a liberdade à burguesia para ocupar o terreno mediático e enfraquecer assim qualquer potencialidade, não só de emergência de luta operária significativa até ao dia 5, mas também de transformar esta luta num momento de generalização, de uma forma ou de outra, da mobilização operária sobre reivindicações de classe. Uma vez afastada (salvo acidente) a ameaça de uma extensão e generalização aos sectores da classe operária, como em Maio de 1968, por exemplo, a burguesia intensificou o seu controlo sobre o curso dos acontecimentos. Ela quase os dita directamente. Basta-lhe, sobretudo através dos sindicatos e dos dias de acção, marcar o ritmo das manifestações de acordo com o nível de combatividade e manter-se na prancha para surfar na onda de combatividade e raiva agora direccionada principalmente contra… a polícia.
Vamos evitar um esquema absoluto. Embora nos pareça improvável que uma dinâmica proletária possa impor-se agora a partir desta mobilização, da sua própria dinâmica, não podemos excluir que aconteça um evento “fortuito”, fora da mobilização, que abra a porta a uma inversão do curso actual, num clima geral de raiva e descontentamento que, esse sim, não desapareceu e que só poderia favorecer isso. Pode ser uma greve ou luta operária surgindo aqui ou ali. Pode ser um excesso da repressão ou um acidente. Ou ainda, uma redistribuição das cartas devido a um desenvolvimento de mobilizações idênticas, ou da mesma natureza, que se exprimiram posteriormente na Bélgica, em Itália, em Portugal, em Espanha, na Albânia, mesmo na Alemanha.
Porque não deixa de ser verdade que o descontentamento e a vontade de lutar tendem a generalizar-se um pouco por todo o mundo. As manifestações “contra a vida cara” multiplicam-se na Europa e muitas vezes assumem as mesmas características de massa e de confronto com a repressão policial. O mesmo acontece em muitos outros países, como aconteceu recentemente na Bolívia. Para preparar a guerra imperialista generalizada imposta pelas contradições económicas do capitalismo mundial, todas as classes dominantes são forçadas a atacar a sua população e, em particular, a sua classe operária, o seu proletariado. Manifestações, revoltas, greves em massa, ou seja, confrontos de classes, haverá e já há.
A questão não é tanto se elas acontecem, mas como torná-las eficazes do ponto de vista das reivindicações. Ora, para que sejam «eficazes», ou seja, que façam recuar os ataques da burguesia, ou mesmo apenas os travem, é preciso impor a esta última uma relação de forças. Para que esta seja, no mínimo, favorável, toda luta deve tender a envolver todo o proletariado e as camadas sociais que o rodeiam na luta em massa, o «todos juntos». Para assumir esta orientação política de generalização da luta de classes, o proletariado e as suas minorias mais combativas não podem evitar enfrentar as forças políticas burguesas, e o conjunto do aparelho de Estado capitalista, como nos mostra, mais uma vez, a mobilização actual em França. A defesa das condições de vida e de trabalho e as reivindicações de classe trazem em si a confrontação real com o conjunto do aparelho de Estado capitalista – e não com tal ou qual fracção ou órgão específico deste. O seu esquecimento, provocado pela campanha mediática de 17 a 24, leva à impotência e ao fracasso.
Em vez de reafirmar as reivindicações e a dinâmica de classe iniciais do movimento que partiu dos liceus, a manifestação massiva e combativa de 24 de Outubro veio sancionar e validar a sua relegação para segundo plano, senão mesmo o seu esquecimento. Para os revolucionários, é da maior importância ter em conta esta inversão da dinâmica da luta, a abertura de um curso de recuo e de confusão, a fim de adaptar a sua intervenção em conformidade. Continuar a apelar à extensão desta mobilização, quando agora se situa no terreno burguês da defesa da República e da democracia, equivaleria objectivamente a reforçar a burguesia. De facto e muito provavelmente, o cariz agitador das orientações e palavras de ordem que prevaleciam até então, e que se pode resumir pela extensão e generalização da luta aos sectores operários, vai dar lugar às advertências e à denúncia das mistificações e armadilhas de ordem democrática.
No entanto, os grupos comunistas e os revolucionários devem manter-se atentos a qualquer expressão ou manutenção, mais ou menos ampla, mais ou menos localizada ou limitada, de reivindicações em defesa das condições de vida e de trabalho e apoiá-las ao máximo. Certamente, é pouco provável que tais expressões, se surgirem, consigam inverter a dinâmica actual. Mas podem ajudar a limitar o recuo e a confusão que se instalam e estabelecer uma linha de defesa mínima que permita às minorias mais claras do proletariado agrupar-se e preparar as lutas futuras. Neste caso, a responsabilidade dos revolucionários é precisamente adaptar a sua intervenção e as suas orientações em conformidade.
GIGC, 26 octobre 2026
[1]. Um dia de forte
mobilização sem incidentes graves: «O direito de manifestar é tão importante
quanto o direito de voto» (https://www.lemonde.fr/politique/article/2026/10/25/une-journee-de-forte-mobilisation-sans-incidents-majeurs-le-droit-de-manifester-est-aussi-important-que-le-droit-de-vote_6799929_823448.html
) .
2. Provavelmente desequilibrado, mas tanto mais
influenciado pelo racismo anti-imigrante propagado pelo Rassemblement national
e pelos partidos de direita tradicionais.
3. Os camaradas do Grupo revolucionário internacionalista da TCI em França e os simpatizantes próximos das nossas duas organizações, ou mesmo – uma vez não sendo costume – a Corrente comunista internacional.
4. Houve de facto alguns locais de trabalho, o
tecnocentro SNCF de Châtillon, o pessoal do hospital Tenon, que se puseram em
greve no dia 13 de Outubro. Mas se estas mobilizações muito raras dos sectores
mais tradicionalmente combativos do proletariado só podem nos alegrar, também
não devem criar ilusões. Na realidade, elas escondem uma situação muito mais
apática. Isto é ainda mais importante porque muitas organizações esquerdistas,
ao se agarrarem a estas lutas mais do que minoritárias, tendem a pintar um
quadro de uma situação que está longe da dinâmica actual - alguns chegando
mesmo a falar de situações pré-revolucionárias!…
Fonte : Revolução ou Guerra -
Révolution ou Guerre
Este comunicado foi traduzido para Língua Portuguesa
por Luis
Júdice







