Do
«Bougnoule» ao «Sauvageon», uma viagem pelo imaginário francês – Harmattan 2002
Livro 3: O «Bougnoule»
Do «Bougnoule» ao «Sauvageon», uma viagem pelo imaginário francês –
Harmattan 2002
Prólogo: Naquela época, a «carne para canhão» alimentava-se de aguardente.
O «Bougnoule»: o seu significado etimológico, a sua evolução semântica, o
seu alcance simbólico
Obs : Bougnoule significa árabe, oriental ou muçulmano (NdT)
O contexto
histórico
Ao assalto
das trincheiras inimigas, dobrando-se sob uma chuva de granadas, sufocando sob
o efeito dos gases mortíferos nos campos de batalha enevoados e ventosos do
nordeste de França, sob o frio glacial das noites negras de Novembro, a
milhares de quilómetros do seu trópico natal, os grandes goles de álcool
estimulavam o seu ímpeto combativo, na falta de exaltar o seu patriotismo.
Naquela
época, a «carne para canhão» alimentava-se de aguardente. Através de um
subterfúgio cujo segredo só a razão conhece, mas que não deixa de revelar os
pressupostos de um povo, os resortes psicológicos de uma nação e a constituição
mental dos seus dirigentes, a reivindicação final que antecede o sacrifício
supremo — « Aboule Gnoule», traz o álcool — acabará por constituir, através de
uma distorção do pensamento, o símbolo de uma estigmatização absoluta daqueles
que contribuíram maciçamente, por duas vezes, arriscando a própria vida, para
derrotar, paradoxalmente, os opressores dos seus próprios opressores.
«Bougnoule»
tem a sua origem na expressão coloquial dessa súplica ante mortem.
Acabará por confundir, na mesma infâmia, todos os
estrangeiros do Império, a ralé da República, promovidos ao estatuto de
defensores ocasionais da Pátria, defensores essenciais de uma pátria que sempre
se quis distinta no concerto das nações, que muitas vezes se distinguirá de
forma brilhante (1), por vezes de forma hedionda, arrastando como um fardo
Vichy, a Argélia, a colaboração, a delação, a deportação e a tortura, as
páginas vergonhosas da sua história, esforçando-se durante décadas para
expurgar o seu passado e, por ter demorado a expiar o seu passivo, pagará o
preço em termos de autoridade moral.
Curiosa é a relação que liga a França à sua memória,
estranha é a relação que liga este país a si próprio, ao mesmo tempo «Pátria
das Luzes e dos Direitos do Homem» e pátria do «Código Negro» da escravatura, o
código da abominação, do tráfico de negros e do desprezo pelo indígena.
Estranhamente curioso é o vínculo que une este país aos seus aliados do período
colonial, os povos colonizados dos territórios ultramarinos.
Por duas vezes no mesmo século — um fenómeno
extremamente raro na história —, estes soldados da linha da frente, as
vanguardas da morte e da vitória, os goumiers argelinos, os spahis marroquinos,
os tiradores tunisinos, senegaleses e sudano-nigerianos, foram recrutados para
conflitos que lhes eram, etimologicamente, totalmente estranhos, antes de serem
rejeitados, numa espécie de catarse, para as trevas da inferioridade,
devolvidos à sua condição subalterna, severamente reprimidos assim que cumpriam
o seu dever, como aconteceu repetidamente — o que não foi por acaso — em Sétif
(Argélia), em 1945, cruelmente no dia da vitória dos Aliados na Segunda Guerra
Mundial, no campo de Thiaroye (Senegal) em 1946 e, em Madagáscar, em 1947, sem
dúvida como retribuição pela sua contribuição para o esforço de guerra francês.
Substituir uma subjugação por outra, ser dizimado, à
escolha, nos campos de batalha ou no terreno da repressão ao regressar ao país,
antes de serem novamente mobilizados para a recuperação da economia da
Metrópole — que consequências traumáticas sofrerão desta «disputa entre
brancos». Na altura, não se falava de «limiar de tolerância», mas sim de sangue
a derramar em abundância. Muitos pagariam o seu tributo de sangue ao aprenderem
o que é a embriaguez, sem conhecer a euforia da vitória. Muitos sobreviverão ao
inferno de Verdun ou de Monte Cassino antes de sucumbirem à confusão causada
pela incompreensão no seio do grupo dos Alcoólicos Anónimos. Muitos perderão a
razão perante tal aberração de comportamento. Muitos, mais tarde, muito mais
tarde, lançar-se-ão numa revolta libertadora que marcará o fim do império
francês.
Vítima de provações ao fim de uma vida curta, mas
turbulenta, Lapaye Natou, valente combatente do Exército da União Francesa, minado
pelos estragos do álcool de palma, faleceu num crepúsculo do Verão de 1961.
Deitado aos pés do baobá da sua cidade natal, Kaolack,
na região de Sine Salloum, no Senegal — um dos centros mundiais do amendoim,
que fez a fortuna dos entrepostos coloniais dos comerciantes de Bordéus —,
Lapaye Natou — de quem o autor foi testemunha —, num último surto de orgulho,
dirigiu-se ao seu público com estas palavras: «Sou eu, Lapaye Natou, o homem
dos homens, coração de leão, pele de pantera, o homem que, no seu dawar, tem o
Mar, tem o Mediterrâneo, tem Baden-Baden a leste. Quem me conhece, tudo bem;
quem não me conhece, paciência».
Em termos mais refinados, ou seja, menos rudimentares
mas certamente menos expressivos, isso daria: «Sou eu, Lapaye Natou, um ser
humano, corajoso e resistente, um homem que respondeu ao apelo do dever ao
participar, longe da sua terra natal, em todas as batalhas da França, desde o
Mediterrâneo até ao ponto de encontro das forças aliadas no coração da Europa.
Agradeço àqueles que reconhecem o meu valor e condeno à infâmia aqueles que
menosprezam o meu valor e o dos meus semelhantes».
Quantas imprecações perante esta maldição do destino
terão assim sido proferidas ao longo de um século, fora do alcance dos seus
verdadeiros destinatários. Quantos ressentimentos abafados no mais completo
anonimato. Quanta raiva contida perante tanta indiferença em relação àqueles
que um dos seus, Frantz Fanon, designaria como «os condenados da terra» (2).
São raras as populações que terão vivido um percurso tão caótico sem nunca
terem cultivado uma ideologia de vitimização, sem nunca terem recorrido a ela
posteriormente na sua luta pela aceitação.
Um professor catedrático de gramática da Universidade
francesa — uma disciplina em que os laureados são extremamente raros —, que
viria posteriormente a presidir aos mais altos destinos do seu país, Léopold
Sedar Senghor (3), concederia a estas vítimas silenciosas da História a
dignidade de «dogues negros da República».
Ciselada com cuidado por um mestre na arte semântica
para afirmar a sua dolorosa solidariedade com os seus irmãos de raça, esta
fórmula passará à posteridade como a marca de escarificação moral dos seus
cerberos e dos seus herdeiros naturais. «Os cães negros da República», a anti-memória
da França, a sua face oculta, bem como o seu prolongamento conceptual, a
«Negritude», que este filho querido da francesidade forjará por oposição
identitária aos seus antigos senhores, constituirão a alavanca de libertação do
continente negro, o seu tema mobilizador rumo à independência. Puro produto da
cultura francesa, um dos grandes motivos internacionais de satisfação figura de
destaque do mundo intelectual francês, teórico da mistura cultural e da
civilização universal, membro da Academia Francesa, colega do presidente
francês Georges Pompidou no Liceu Louis-le -Grand, em Paris, ministro da
República Francesa e um dos grandes impulsionadores da Internacional
Socialista, Senghor será, inexplicavelmente, o grande esquecido da «enarquia»
francesa no seu funeral em Dakar, a 20 de Dezembro de 2001, aos 95 anos, que a
«enarquia» reduzirá apenas à sua «africanidade», ilustração sintomática da
singularidade francesa.

Significado
etimológico
Nas obras de
referência da sociedade erudita da elite francesa, o calvário da sua
despersonalização e a sua luta pela restauração da sua identidade e dignidade
resumir-se-ão a esta definição lacónica: «O “bougnoule”, nome masculino que
surgiu em 1890, significa “negro” na língua wolof (dialecto do Senegal).
Atribuído coloquialmente pelos brancos do Senegal aos negros autóctones, este
nome tornar-se-á, no século XX, uma designação insultuosa dada pelos europeus
do Norte de África aos norte-africanos. Sinónimo de “bicot” (cabrito – NdT) e
de “raton”» (texugo – NdT). Pouco precisa, a definição, enigmática, parece um
tanto sucinta. Esconderá algum embaraço, ignorância, indiferença ou vontade de
atenuar? A expressão era realmente coloquial? Seria fruto de um paternalismo
branco bem-intencionado para com os bravos negros, os «bons selvagens»? Quem
são, afinal, esses europeus que proferiam tais epítetos injuriosos? Suecos a
insultar fenícios, os antepassados dos cartagineses? De que planeta eram os
seus habitantes? Em que época da nossa História? Quem são, afinal, esses
norte-africanos de identidade mal definida que eram — e são — alvo de tal
interpelacão? O diccionário (4) que apresentava a definição de «Bougnoule»
data, no entanto, de 1979, uma época recente da história contemporânea. Cuidava
bem de não identificar os magrebinos, 30 anos após a independência da Argélia,
de Marrocos e da Tunísia, mais uma vez agrupados sob a mesma
designação da sua antiga denominação colonial.
Treze anos mais tarde, em 1996, esse mesmo diccionário,
cedendo sem dúvida ao espírito da época, sob o efeito das reivindicações dos
movimentos associativos e dos sucessos alcançados pelas gerações mais jovens de
origem imigrante, daria uma definição lacónica, num estilo telegráfico que mal
conseguia esconder as ligações: «coloquial, pejorativo, insulto racista / 2
magrebinos, árabes», sem que se especificasse se se tratava de insultos
racistas proferidos contra os árabes e os magrebinos ou de insultos trocados
entre si por árabes e magrebinos.
A sua evolução semântica
Ao longo do tempo, verificou-se uma deslocação
semântica do termo «bougnoule», que passou a abranger, muito para além do Norte
de África, toda a França, todos os «mélanodermes», os «arabo-berberes e
negro-africanos» tão queridos por Senghor, acabando por se enraizar no mais
profundo da consciência como a marca indelével de um desdém absoluto, enquanto,
paralelamente, por extensão do termo «raton» — que lhe é sinónimo —, a
linguagem corrente designava por «ratonnade» uma técnica de repressão policial
que sancionava o delito de discriminação com base na aparência.
Longe de ser uma questão de casuística, a análise de
conteúdo contribui para um esclarecimento semântico e psicológico, para um
exercício de rastreio do «não dito» da consciência nacional através de uma
viagem pelos meandros do imaginário francês. O tema continua a ser, em grande
medida, um tabu em França, e o problema é cuidadosamente ocultado dos manuais
escolares e dos debates públicos. Tal como um espasmo, surge de repente, em
consequência de reminiscências infelizes. Será que a França teme tanto, ao
ponto de a exorcizar, a ideia de que «um sangue impuro tenha regado os seus
sulcos»? Acredita realmente na realidade de um «sangue impuro», quando este
foi, no entanto, tão abundantemente derramado nos campos de batalha de
Champagne-Ardenne, Bir Hakeim, Tobruk, Koufra e noutros locais?
Longe de fazer parte de uma hipermnésia
culpabilizante, o debate impõe-se, não obstante, tanto sobre a contribuição dos
«povos de pele escura» para a libertação do solo francês, como sobre o seu
contributo para o prestígio do seu país de acolhimento. Não tanto por apetite
polémico, mas sim por uma obra de restauração da memória francesa através da
reconstituição do elo em falta, essa união dos «fios visíveis e invisíveis que
ligam os indivíduos ao seu ambiente, o real à História» (5), uma medida de
profilaxia social contra os males coloniais cujo ocultamento poderia esclarecer
os desvios recorrentes da França, tais como — mera hipótese académica? — a
correspondência entre a amnésia sobre os «crimes de gabinete» de 1940-44 e a
impunidade soberana da classe político-administrativa face aos escândalos
financeiros do final do século XX, ou a correlação entre a derrota da elite
burocrática de 1940 e o colapso da enarquia contemporânea.
Uma realidade vergonhosa, durante
muito tempo negada e até mesmo rejeitada por uma espécie de pecado de orgulho,
a persistência de uma atitude de desprezo e irresponsabilidade — a singular
«teoria do fusível à francesa» — e de uma ideologia proto-fascista inerente a
uma parte da cultura francesa acabará por impor-se em toda a sua crueldade por
ocasião das eleições presidenciais de 2002, colocando os franceses perante o
dilema infamante de escolher entre um «vigarista» e um «fascista» (6), entre um
«supermentiroso» e um «superfascista» (7), dois septuagenários, veteranos
políticos da época da Guerra Fria, que ocupavam o centro das atenções há quase
quarenta anos, os dois candidatos mais idosos, mais ricos e mais criticados da
corrida eleitoral, reforçando-se mutuamente numa campanha centrada na
segurança, o herdeiro de um gaullismo desviado para o clientelismo mais
desenfreado (8) frente ao herdeiro de um vichismo sublimado por um antigo
torturador da Guerra da Argélia.
O primeiro, Jacques Chirac, autor de
uma frase chauvinista de demagogia consumada sobre os «ruídos e odores» das
famílias imigrantes que esgotam a segurança social com a sua proliferação
reprodutiva; o segundo, Jean-Marie Le Pen, autor de uma frase de absoluta
abominação sobre o «crematório de Durafour (…) um pormenor da História».
«Um dos maiores erros democráticos da história
contemporânea de França» (9), segundo a expressão do escritor indo-britânico
Salman Rushdie, a primeira consulta popular a nível nacional do século XXI
revelará aos franceses e ao Mundo atónito, a degradação moral de um país
propenso a juízos severos e o descrédito da sua elite não menos voluntariamente
servil e arrogante, incapaz de assumir, ao fim de um poder monopolizado ao
longo da segunda metade do século XX, ao nível económico, a mutação pós-industrial
da sociedade francesa, ao nível sociológico, a sua mutação pós-colonial, ao
nível da opinião nacional, a sua mutação psicológica, sinal do falhanço patente
da política de integração da sua componente afro-muçulmana.

«Se uma França com 45 milhões de habitantes se abrisse
amplamente, com base na igualdade de direitos, para acolher 25 milhões de
cidadãos muçulmanos, mesmo que em grande parte analfabetos, não estaria a
empreender um passo mais ousado do que aquele a que a América teve de recorrer
para não continuar a ser uma pequena província do mundo anglo-saxónico»,
profetizava, já em 1955, Claude Lévi-Strauss, num resumo marcante da
problemática pós-colonial com que a sociedade francesa se debate há meio século
(10).
A França não pode ser o depósito de lixo da Europa,
mas nem os árabes, nem os africanos podem ser o escape de todos os males da
sociedade francesa.
A HISTÓRIA fica incompleta sem o testemunho dos
vencidos. A racionalidade cartesiana, transcendência simbiótica da inteligência
ateniense e da ordem romana, quintessência do espírito crítico, terá assim
gerado monstruosidades nos seus momentos de adormecimento. Nenhum país está a
salvo de tais desvios perante as grandes convulsões da história, e a ingratidão
é considerada uma lei fundamental dos povos para a sua sobrevivência. Mas a tão
reivindicada «excepção francesa» de uma nação que se proclama grandiosa é, no
entanto, antinómica a uma cultura de impunidade e amnésia, uma cultura erigida
em dogma de governo e, como tal, incompatível com a deontologia do comando e os
imperativos da exemplaridade.
Referências
1-Valmy:
Primeira vitória militar da República, conquistada pelos generais Dumouriez e
Kellermann, em 1792, nesta localidade do departamento de Marne, que inspirou
Goethe, que testemunhou o acontecimento, a proferir esta exclamação: «A partir
de hoje e deste lugar, inicia-se uma nova era na história do mundo».
2-Psiquiatra
e revolucionário de origem martinicana, especialista no fenómeno da
despersonalização associado à situação colonial, representante diplomático dos
independentistas argelinos nas instâncias internacionais. Autor de «Pele Negra,
Máscaras Brancas», de 1952, «Os Condenados da Terra» (1961) e «Pela Revolução
Africana» (1969).
3-Léopold
Sedar Senghor, falecido aos 95 anos a 20 de Dezembro de 2001, foi o primeiro
Presidente da República do Senegal (1960-1980). Nem o presidente neo-gaullista
Jacques Chirac, nem o primeiro-ministro socialista Lionel Jospin compareceram
ao seu funeral, o que lhes valeu críticas violentas da imprensa por esta «falha
injustificável».
4-Diccionário
alfabético e analógico da língua francesa «Le Petit Robert», Volume 1 / Société
du nouveau Littré. 1979. página 205
5-Lise
Sourbier-Pinter, responsável por missões no Estado-Maior do Exército de Terra
francês. Entrevista ao jornal «Libération», sábado, 14, e domingo, 25 de Julho
de 2001, «O 14 de Julho, símbolo da integração das diferenças».
6-«Escroque contra Fascista», ver Le Canard Enchaîné
n.º 4252, 24 de Abril de 2002.
7-«A esquerda órfã resigna-se a engolir o sapo
Chirac», por Marie Joëlle Gros e Julie Lasterade, ver jornal Libération de 3 de
Maio de 2002.
8-Ver «Noir Chirac», de François-Xavier Verschave,
Edições Les Arènes, Março de 2002; «Os gaullistas e o dinheiro, meio século de
guerras internas», de Philippe Madelin, Ed. L’Archipel, 2001; bem como «Rafic
Hariri, um empresário primeiro-ministro», Ed. L’Harmattan, Novembro de 2000.
9-«Em França, ilusões perigosas», de Salman Rushdie,
autor de «Os Versos Satânicos»; ver jornal *Libération*, 30 de Abril de 2002,
secção «Rebonds».
10-Claude Lévi-Strauss, «Tristes Trópicos». A obra do
etnólogo francês foi publicada em 1955, cf. «Etats d’âme», de Bertrand Poirot-Delpech,
jornal Le Monde, 30 de Abril de 2002.
Capítulo
I
As colónias, um antegozo do paraíso ou um travo do
inferno?
O porto
de Bordéus pintado por Claude-Joseph Vernet (1714-1789)
Como a vida era bela nos
tempos abençoados das colónias e no seu antegozo do paraíso: cinquenta e dois
milhões de pessoas (1), colonos em busca de um meio de subsistência,
aventureiros em busca de fortuna, militares em busca de pacificação,
administradores em busca de prestígio, missionários em busca de conversão,
todos em busca de ascensão, emigraram do «Velho Mundo», em pouco mais de um
século (1820-1945), à descoberta de novos mundos, precursores distantes dos
trabalhadores imigrantes da era moderna.
A um ritmo médio de 500
000 expatriados por ano durante 40 anos, de 1881 a 1920, 28 milhões de europeus
abandonaram assim a Europa para povoar a América, dos quais 20 milhões nos
Estados Unidos, oito milhões na América Latina, sem contar com a Oceânia
(Austrália, Nova Zelândia), o Canadá, o continente africano, o Magrebe e a
África do Sul, nomeadamente, bem como os confins da Ásia, os enclaves
comerciais de Hong Kong, Pondicherry e Macau.
52 milhões de expatriados,
ou seja, o dobro da população estrangeira total residente na União Europeia no
final do século XX, um número sensivelmente equivalente à população francesa.
Principal
fornecedor demográfico do planeta durante cento e vinte anos, a Europa
conseguirá o feito de moldar à sua imagem outros dois continentes, a América em
ambos os lados, bem como a Oceânia, e de impor a marca da sua civilização à
Ásia e à África. «Mestre do mundo» até ao final do século XX, fará do planeta o
seu campo de tiro permanente, a sua própria válvula de segurança, o trampolim
do seu alcance e expansão, o descarregador de todos os seus males, um depósito
para o seu excesso de população, um campo de trabalhos forçados ideal para os
seus perturbadores, sem outra limitação que a imposta pela rivalidade
intra-europeia pela conquista das matérias-primas.
O fardo do homem branco e os
«zoológicos humanos»
Ao longo de cinco séculos (século XV
– século XX), 40 por cento do mundo habitado (2) terá, assim, estado, em maior
ou menor grau, subjugado ao jugo colonial europeu. Assumindo o testemunho da
Espanha e de Portugal, pioneiros do movimento, a Grã-Bretanha e a França, as
duas principais potências marítimas da época, viriam a deter, por si só, até 85
por cento do domínio colonial mundial e 70 por cento dos habitantes do planeta
no início do século XX, saqueando, ao longo do caminho, Portugal e Espanha do
ouro da América do Sul, a Inglaterra das riquezas da Índia e a França do
continente africano.
A Grã-Bretanha reivindicaria essa
responsabilidade a título do «fardo do homem branco», exaltado por Rudyard
Kipling (3), a França, em nome da sua «missão civilizadora», corpus filosófico
inalterável do pensamento francês durante décadas, para além das divisões
políticas e religiosas, tema que será objecto de todas as variações numa
antologia literária extravagante e numa profusão de iniciativas igualmente
extravagantes, das quais as mais improváveis terão sido os «zoológicos humanos»
das exposições coloniais.
Anões braquicefálicos, corcundas
dolicocefálicos, gigantes macrocefálicos, negros albinos, indígenas calípigos
(4), canibais kanaks — todas as variações da morfologia humana serão assim
exibidas durante cerca de cinquenta anos nas principais cidades francesas, sem
a menor contenção, para exaltar o esplendor colonial da
França e, por consequência, teorizar a inferioridade dos estrangeiros.
A um ritmo de
um evento a cada 18 meses, 38 exposições etnológicas — das quais 30 só no
Jardim de Aclimatação de Paris — foram organizadas alternadamente em Paris,
Marselha e Lyon durante mais de meio século, de 1877 a 1931, no âmbito de um
vasto projecto que se enquadrava simultaneamente numa operação de relações
públicas e numa acção psicológica.
Propaganda
massiva? O efeito foi imediato: um milhão de entradas pagas — um número enorme
para a época — na primeira exposição (5) organizada por Étienne Geoffroy de
Saint-Hilaire no Jardim de Aclimatação em 1877, cinquenta milhões de
espectadores para o «Diorama vivo sobre Madagáscar», organizado por ocasião da
Exposição de Paris de 1900, cujo ponto alto deveria ser, no entanto, a Torre
Eiffel; 34 milhões de entradas pagas apenas em seis meses para a exposição de
Paris de 1931, ou seja, uma média de 166 000 visitantes por dia.
A julgar pelos
franceses ávidos de emoções fortes numa época que eles próprios, no entanto,
qualificaram de «belle époque»: o entusiasmo pelas «aldeias negras» iria crescendo,
atraindo no total cerca de 100 milhões de espectadores, e o «barbarin» a viver
nas casas das famílias abastadas e saciadas, que podiam ser explorados e
submetidos a trabalhos forçados à vontade, seria o símbolo máximo de distinção
social, o non plus ultra da vida social, sem que se saiba, quase um século
depois, se esse frenesi correspondia a uma sede de descoberta, a uma
necessidade sórdida de voyeurismo ou ainda a um impulso mórbido de patologia
colectiva.
Quase ninguém
resistirá ao fascínio da obra pacificadora da França. Nem mesmo um visionário
como Alexis de Tocqueville — que, aliás, foi um teórico tão lúcido da
«Democracia na América» —, que legitimará os massacres como «necessidades
lamentáveis a que qualquer povo que queira fazer guerra aos árabes será
obrigado a submeter-se», nem Jules Ferry, pai da escola laica, a matriz da
III.ª República, que reivindicaria para «as raças superiores (…) o direito de
civilizar as raças inferiores», nem mesmo um humanista venerável da estatura de
Léon Blum, primeiro chefe do governo socialista da França moderna, artífice das
primeiras conquistas sociais sob o governo da Frente Popular (1936) (6).
Raras serão as
vozes discordantes no coro de elogios à França colonial. Guy de Maupassant,
como pioneiro, ironizará sobre a «singular concepção da honra nacional» dos
franceses.
Louis Aragon,
André Breton e Paul Eluard apelarão ao boicote das exposições coloniais,
denunciando esta fraude intelectual num manifesto intitulado «Não visitem a
exposição colonial». Esforço em vão: a exposição de 1931 gerará 33 milhões de
lucros em apenas seis meses.
Símbolos
esquecidos da época colonial, totalmente relegados da memória colectiva
ocidental, apesar de terem suscitado o entusiasmo de milhões de espectadores
tanto em Paris como em Londres, Hamburgo e Nova Iorque e até mesmo em Moscovo,
«etapa fundamental da transição progressiva de um racismo científico para um
racismo popular», as «exposições antropozoológicas», ao colocar em perspectiva
a «espectacularização do outro» através de uma combinação habilidosa de
indivíduos exóticos e animais selvagens, deram origem a muitos estereótipos que
ainda hoje se mantêm. Contribuíram assim poderosamente para moldar a identidade
ocidental e o imaginário dos ocidentais (7).
Na memória viva
dos povos, as feridas nunca cicatrizam. Décadas mais tarde, muito depois da
capitulação de Montoir (1940) e de Dien Bien Phu (1954), num dos momentos mais
marcantes de união francesa no final do século XX, o triunfo do Mundial de
1998, quando as exposições etnológicas já há muito tinham caído completamente
no esquecimento dos franceses, um kanak de origem, portador da nacionalidade
francesa, encarregar-se-á de trazer de volta à memória a dolorosa recordação
dessa cicatriz persistente. De «devolver aos franceses a sua própria imagem».
Com a boca
irremediavelmente fechada perante as câmaras de televisão de todo o mundo,
perante milhares de espectadores atónitos, Christian Karambeu, o futebolista da
Nova Caledónia, vencedor do Mundial de 98, que contribuiu para a glória da
França, não entoará o hino nacional francês no início da competição, como era
habitual para ele em cada jogo.
Nem uma única
vez, em nenhuma competição internacional, por mais prestigiada que fosse, em
nenhuma circunstância, em nenhum caso, sob nenhum pretexto, ao longo de toda a
sua carreira desportiva, ele terá derrogado esta regra. Christian Karambeu
nunca entoou «A Marselhesa», que o kanak baniu do seu repertório como sinal de
protesto silencioso contra a exibição de um dos seus antepassados nos
«zoológicos humanos» da época do apogeu colonial. Como uma vingança do destino,
uma afronta aos traficantes de escravos de outrora, Christian Karambeu, o
futebolista campeão do mundo em 1998, casará com um símbolo universal da beleza
eslava, a bela Adriana, modelo estrela da década de 2000. Dores silenciosas, as
feridas da memória nunca cicatrizam.
Este quadro
paradisíaco da época abençoada das colónias irá desmoronar-se com a Grande
Guerra.
Primeira grande
ruptura geo-estratégica da era contemporânea, a Primeira Guerra Mundial
(1914-1918) — um banho de sangue e um desperdício económico — provocará, do
ponto de vista geo-estratégico, um declínio progressivo da Europa em benefício
dos Estados Unidos; a nível demográfico, uma inversão dos fluxos migratórios;
e, a nível da psicologia dos europeus, a dura aprendizagem do fenómeno exógeno,
da cultura da alteridade, a negação do egocentrismo — uma verdadeira revolução
mental.
Com 1,4 milhões
de mortos e 900 000 inválidos, a França lamentará a perda de 11 por cento da
sua população activa devido à Primeira Guerra Mundial, aos quais convém
acrescentar os danos económicos: 4,2 milhões de hectares devastados, 295 000
casas destruídas, 500 000 danificadas, 4 800 km de vias férreas e 58 000 km de
estradas a restaurar, 22 900 fábricas a reconstruir e 330 milhões de m³ de
trincheiras a aterrar (8).
Os primeiros
trabalhadores imigrantes, os kabyles, chegaram a França já em 1904 em pequenos
grupos, mas a Primeira Guerra Mundial provocou um efeito acelerador, levando a
um recurso maciço aos «trabalhadores coloniais», aos quais se somaram os
reforços dos campos de batalha contabilizados noutra rubrica.
Durante a
primeira década do século XX, a França já contava com 1,1 milhões de
estrangeiros em 1906, o que correspondia a 2,7 por cento da população. Vinte
anos depois, esse número duplicou, atingindo 2,5 milhões de estrangeiros, dos
quais 1,3 milhões eram trabalhadores provenientes da Europa, da Ásia e de
África, recenseados em 1926.
O indígena de
terras distantes dá lugar ao imigrante de perto. De curiosidade exótica exibida
em «zoológicos humanos» para glorificar a acção colonial francesa, o
melanodérmico tornar-se-á progressivamente uma presença permanente no panorama
humano da vida quotidiana metropolitana, sendo a sua presença vivida como um
fardo, exacerbada pela diferenciação dos modos de vida entre imigrantes e
metropolitanos, pelas flutuações económicas e pelas incertezas políticas do
país de acolhimento
Paradoxalmente,
no período entre as duas guerras (1918-1938), a França irá favorecer a
implementação de uma «República Xenófoba», matriz da ideologia de Vichy e da
«preferência nacional», apesar de a sua necessidade de mão-de-obra ser
premente. Apesar de contribuírem para tirar a França das ruínas, os
trabalhadores imigrantes serão alvo de desconfiança, sendo registados num
grande «ficheiro central». Obrigados a pagar, para obterem o cartão de
residência, uma taxa que, por vezes, equivalia a meio mês de salário — fonte de
receitas complementares para o Estado francês —, eram, além disso, vistos como
portadores de um triplo perigo: perigo económico para os seus concorrentes
franceses, perigo sanitário para a população francesa, na medida em que se
presumia que os estrangeiros — em especial os asiáticos, os africanos e os magrebinos
— fossem portadores de doenças e representassem um risco para a segurança do
Estado francês (9).
As cotações bolsistas dos
trabalhadores coloniais
Cerca de duzentos mil «trabalhadores
coloniais» (200 000) serão assim importados do Norte de África e do continente
africano por verdadeiras corporações de tráfico de escravos, como a «Société
générale de l’immigration» (SGI), com o objectivo de colmatar a falta de
mão-de-obra francesa, principalmente na construção civil e na indústria têxtil,
em substituição dos soldados franceses que partiram para a frente de batalha.
No seio da coorte de trabalhadores imigrantes, provenientes inicialmente
principalmente da Itália e da Polónia, os magrebinos serão alvo de uma atenção
especial por parte das autoridades públicas.
Em 31 de Março de 1925, é criado um
«Gabinete de vigilância e protecção dos indígenas norte-africanos encarregado
da repressão de crimes e delitos». Um gabinete especial dedicado exclusivamente
aos magrebinos, precursor do «Serviço das Questões Judaicas» que o regime de
Vichy criaria em 1940 para a vigilância dos cidadãos franceses de «raça
judaica» ou de «confissão israelita» durante a Segunda Guerra Mundial. A
denominação do gabinete diz muito sobre a opinião do governo francês e as suas
intenções em relação a eles. O fenómeno iria amplificar-se com a Segunda Guerra
Mundial e os gloriosos anos trinta do pós-guerra (1945-1975) que se seguiram à
reconstrucção da Europa, onde a necessidade de «carne para canhão» e de
mão-de-obra abundante a baixo custo provocaria um novo fluxo migratório de
igual importância do anterior.
Até mesmo a
imigração clandestina, que viria a ser perseguida incansavelmente no final do
século com o episódio dos «voos charter da vergonha» (1986-1988) e dos
«sem-papéis» (1993-1996), encontrava, naquela época, a compreensão das
autoridades públicas: «A imigração clandestina não é inútil, pois se nos
limitássemos à aplicação estrita das regras, teríamos falta de mão-de-obra»,
afirmava Jean Marcel Jeanneney, um economista de renome, na altura ministro da
Indústria do general de Gaulle, numa entrevista ao jornal «Les Échos» de 29 de
Março de 1966, confirmando publicamente uma verdade evidente que os políticos
iriam silenciar durante muito tempo por razões eleitorais.
Um luxo de
requinte, o recrutamento decorria de acordo com critérios de afinidades
geográficas, ao ponto de se formarem verdadeiros casais migratórios, em
particular entre a Renault e os trabalhadores cabilianos, as minas de carvão
francesas e os trabalhadores do sul de Marrocos, bem como na Alemanha, entre a
Volkswagen e os imigrantes turcos.
À semelhança de
uma cotação bolsista num mercado de gado, os trabalhadores coloniais eram mesmo
objecto de uma classificação em função da sua nacionalidade e raça, com
distinções subtis consoante o seu local de origem, nomeadamente entre os
argelinos, onde os cabilianos beneficiavam de um preconceito mais favorável do
que os outros grupos da população argelina (10).
Assim, em
Nantes, numa escala de valor de 20, os chineses encontravam-se na base da
hierarquia. A sua produtividade era avaliada em 6 numa escala em que os
marroquinos ficavam em 8, os argelinos, os cabilas e os gregos em 10, os
italianos e espanhóis em 12.
Em Bordéus,
marroquinos, italianos, cabilas e espanhóis estavam classificados em 90 numa
escala em que os portugueses se situavam em 75, senegaleses em 50, chineses em
40 e os indochineses em 30, enquanto os franceses estavam, naturalmente, no
topo da hierarquia em ambos os rankings com uma nota inigualável de 20 em 20. Pontuação
jamais registada por qualquer outra nacionalidade, sob qualquer outro céu, em
qualquer outra competição.
A vingança do indochinês e dos povos
coloniais
Nesta classificação, a nota do
indochinês não deixa de intrigar: 30 por cento, ou seja, 3 em 10, a nota mais
baixa da hierarquia; o indochinês era considerado irrecuperável pelos
franceses, a sua nota era eliminatória em qualquer prova, apesar de todos os
pontos de recuperação e de todos os esforços para ser reprovado. Essa nota intrigaria
um jovem anamita que se encarregaria de fazer justiça mais tarde, em nome do
seu povo. Aproveitando a sua longa estadia em França, intercalada com viagens
pelo Império Francês, pelo Magrebe e pela África Negra (1911-1920), Nguyen Ai
Quoc dedicaria tempo a familiarizar-se com a mentalidade francesa e as práticas
coloniais. De regresso ao seu país, escandalizado com o «imposto de sangue» que
representava para os povos coloniais o seu recrutamento para o teatro de
operações europeu, o indochinês, metódico, começará por elaborar «O Julgamento
da Colonização Francesa» (11) antes de passar à acção, infligindo ao seu antigo
senhor e ao novo senhor da nova ordem internacional uma severa derrota militar.
Juntamente com os seus dois
companheiros de luta, Pham Van Dong e Vô Nguyen Giap, dotará o seu país de um
dos mais gloriosos palmarés militares do século XX, contribuindo grandemente
para alterar a geo-estratégia do planeta através dos reveses que infligiu
sucessivamente às principais potências militares da época: primeiro o Japão, em
1945, depois a França em Dien Bien Phu, em 1954, e, por fim, os Estados Unidos,
vinte anos mais tarde, em 1975, em Saigão, com perdas acumuladas da ordem dos
67 000 soldados, 15 000 da França e 52 000 dos Estados Unidos.
Uma das figuras
de destaque da história do século XX, Nguyen Ai Quoc, cujo nome predestinado
significa «patriota», é agora mundialmente conhecido — e para sempre — pelo
nome de Ho Chi Minh, «aquele que ilumina», o pai do Vietname moderno, a antiga
Indochina Francesa, cuja segunda capital, aliás, leva o nome de «Ho Chi
Minh-Ville», em homenagem à sua luta pela independência e pela reunificação do
seu país, cuja trajectória, na opinião unânime, merece mais do que um 3 em 10.
A menos que se
atribua isso a um grave problema de percepção visual por parte do recrutador ou
ao peso dos estereótipos que terão distorcido o julgamento francês, a nota do
indochinês permanece inexplicável e, em retrospectiva, amplamente
injustificada. Ho Chi Minh, trabalhador incansável, reabilitou a classificação
dos trabalhadores coloniais indochineses em França.
Mas, em
contrapartida, ninguém se aventurou jamais a questionar a classificação
francesa, nem mesmo a título de um exercício salutar de introspecção.
A rendição de
Sedan perante a Alemanha em 1870-71 deu origem à III.ª República; a rendição de
Montoire (12) perante Hitler em 1940, à IV.ª República (1946); a de Dien Bien
Phu e da Argélia em 1955, à V.ª República (1958), com o seu leque de grandes
instituições: Sedan esteve na origem da «Sciences Po», o Instituto de Estudos
Políticos de Paris, e Montoire na fundação da ENA, a Escola Nacional de
Administração (1945). O país das «grandes escolas», dos concursos que formam as
elites, dos escribas e dos clérigos — cinco milhões de funcionários públicos em
França no ano 2000, o maior contingente da União Europeia, ou seja, 20 por
cento da população activa (13) — não tolera um regresso ao seu passado. Apenas
concebe as perspectivas de futuro. Nunca retrospectivas, sempre perspectivas.
Uma fuga para a frente?
Antevisão do
paraíso para o colono, as colónias terão deixado um travo a inferno para o
colonizador francês.
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Referências
1- Gildas Simon, «Geo-dinâmica das
migrações internacionais no mundo – PUF», op. cit.
2- Ignacio Ramonet, «Cinco séculos de
colonialismo», em «Manière de voir n.º 58, bimestral do Le Monde Diplomatique,
Julho-Agosto de 2001, «Polémicas sobre a história colonial».
3- Rudyard Kipling, jornalista e
romancista inglês (1865-1936), proveniente de um meio anglo-indiano, nutria uma
veneração pelo Império Britânico, pelos valores míticos da energia e do
altruísmo e pelos aspectos exaltantes da aventura imperialista. Autor do famoso
poema «If» (Se)… «Se conseguires ver a obra da tua vida ser destruída e, sem
dizer uma única palavra, começares a reconstruí-la… então serás um homem, meu
filho».
4- Uma das mais famosas «Vénus
Callipyge», imortalizada pelo cantor popular francês Georges Brassens, é a
«Vénus Hottentote». Nascida em 1789, ano da Revolução Francesa, na África
Austral, então sob o domínio dos colonos holandeses, os bôeres, Saartjie
Baartman, filha de um pastor, originária da África do Sul e pertencente à etnia
dos hotentotes, foi levada por um cirurgião britânico por volta de 1810 para
Londres, onde foi rebaptizada como Sarah Saartmann. Dotada de nádegas muito
largas e de órgãos sexuais fora do normal, foi exibida como uma atracção de
feira em Londres e em Paris, levando uma vida infernal e dedicando-se à
prostituição até à sua morte, aos 27 anos, em Paris, em 1815. A pedido de
Geoffroy Saint-Hilaire, foi dissecada por Georges Cuvier, que concluiu
tratar-se de «algo curioso e caprichoso», cujos órgãos lembravam «os de um
macaco». O seu esqueleto, os seus órgãos e um molde do seu corpo ficaram
expostos ao público no Musée de l’Homme até 1974. Alvo de um imbróglio
diplomático entre a França e a África do Sul, os restos mortais da Vénus
Hotentote foram finalmente devolvidos à África do Sul a 29 de Abril de 2002.
Ver, a este respeito, «O enigma da Vénus Hotentote», de Gérard Badou, Ed. JC
Lattès, Fevereiro de 2002.
5- Entre 1877 e 1912, foram
realizados trinta espetáculos etnológicos no Jardim de Aclimatação, em Paris, e
posteriormente nas Exposições Universais de Paris de 1878 e 1889, cujo ponto
alto, na edição de 1889, foi tanto a inauguração da Torre Eiffel como a visita
a uma «aldeia negra». Seguiram-se as exposições de Lyon (1894), as duas
exposições coloniais de Marselha (1906 e 1922) e, por fim, as grandes
exposições de Paris de 1900 (diorama sobre Madagáscar, 50 milhões de espectadores)
e de 1931, cujo comissário-geral não era outro senão o marechal Lyautey. cf. «O
espectáculo comum dos zoológicos humanos» e «1931. Todos à Expo», de Pascal
Blanchard, Nicolas Bancel e Sandrine Lemaire, Manière de voir n.º 58, Julho-Agosto
de 2001, obra citada.
6- «Quando Tocqueville legitimava os
massacres», de Olivier le Cour Grandmaison, e «Uma história colonial
reprimida», de Pascal Blanchard, Sandrine Lemaire e Nicolas Bancel — Dossier
geral sob o tema «Os impasses do debate sobre a tortura na Argélia» — Le Monde
Diplomatique, Junho de 2001. Ibid. para Guy de Maupassant na mesma edição do
*Le Monde Diplomatique* de Junho de 2001: «Quando se fala de antropófagos,
sorrimos com orgulho ao proclamar a nossa superioridade sobre esses selvagens… Uma
cidade chinesa desperta a nossa inveja: vamos, para a conquistar, massacrar
cinquenta mil chineses e mandar degolar dez mil franceses. Essa cidade não nos
servirá de nada. Trata-se apenas de uma questão de honra nacional. Assim, a
honra nacional (honra no singular) impele-nos a tomar uma cidade que não nos
pertence; a honra nacional, que se satisfaz com o roubo, com o roubo de uma
cidade, satisfar-se-á ainda mais com a morte de cinquenta mil chineses e de dez
mil franceses. Gil Blas — 11 de Dezembro de 1883.
Alexis de Tocqueville legitimará os
massacres, considerando «o facto de se apoderar de homens desarmados, mulheres
e crianças como necessidades fúteis a que qualquer povo que queira fazer guerra
aos árabes será obrigado a submeter-se». Por seu lado, Jules Ferry afirmará num
discurso no Palácio Bourbon, a 29 de Julho de 1995, que «existe um direito para
as raças superiores, na medida em que lhes cabe um dever. Elas têm o direito de
civilizar as raças inferiores».
Da mesma forma,
Léon Blum invocará o seu «excesso de amor» pelo seu país «para rejeitar a
expansão do pensamento e da civilização francesa». «Reconhecemos o direito e
até mesmo o dever das raças superiores de atrair para si aquelas que não
alcançaram o mesmo grau de cultura», escreverá ele no jornal «Le Populaire», de
17 de Julho de 1925.
7- «Zoos
humanos, da Vénus Hotentote ao reality show», Ed. La Découverte, Março de 2002,
obra realizada sob a direcção de um colectivo de historiadores e antropólogos
membros da Associação para o Conhecimento da África Contemporânea
(Achac-Paris), Nicolas Bancel (historiador, Universidade de Paris XI), Pascal
Blanchard (historiador, investigador do CNRS), Gilles Boetsch (antropólogo,
director de investigação do CNRS), Eric Deroo (cineasta, investigador associado
do CNRS) e Sandrine Lemaire (historiadora, Instituto Europeu de Florença).
8- «A República
Xenófoba, 1917-1939: da máquina do Estado ao “crime de escritório”, as
revelações dos arquivos», de Jean Pierre Deschodt e François Huguenin, Ed. JC
Lattès, Setembro de 2001.
9- «A República
Xenófoba… da máquina do Estado ao crime de escritório», obra citada.
10-«Uma teoria racial dos valores?
Desmobilização dos trabalhadores imigrantes e mobilização de estereótipos em
França no final da Grande Guerra», de Mary Lewis, professora da Universidade de
Nova Iorque, em «A invenção das populações», obra colectiva sob a direcção de
Hervé Le Bras (Edições Odile Jacob).
11- Ho Chi Minh: O julgamento da
colonização francesa — Nguyen Ai Quoc (Ho Chi Minh) — Introdução de Alain Ruscio.
Le temps des cerises, Paris 1999. Ho Chi Minh faleceu a 6 de Setembro de 1969,
ou seja, quatro anos após o início da Segunda Guerra do Vietname, que seria
levada a bom termo com a tomada de Saigão, capital pró-americana do Vietname do
Sul, em Abril de 1975, pela dupla Phan van Dong-General Giap.
12- O armistício foi assinado a 22 de
Junho de 1940, simbolicamente em Retondes, no mesmo local e no mesmo vagão que
o armistício de 11 de Novembro de 1918. No entanto, o encontro de Montoir, a 24
de Outubro de 1940, entre Pétain e Hitler selou a colaboração entre a França e
a Alemanha nazi. Se o armistício constituía uma cessação das hostilidades, o
encontro de Montoir representou, num plano simbólico, a viagem de Pétain a
Canossa e constituiu, de facto, uma capitulação, na medida em que Pétain
endossou a colaboração com o regime nazi, mesmo que a Alemanha, renegando as
suas promessas, tivesse anexado a Alsácia-Lorena em Agosto de 1940.
13- Entre 1975 e 1998, a França
registou um aumento de 1,2 milhões de funcionários públicos, elevando o total
da função pública para cinco milhões de pessoas (20,2% da população activa,
(27% se incluírem as empresas públicas), o que provocou uma fractura social e
uma desigualdade de direitos entre os cidadãos de uma mesma sociedade, entre um
sector privado na linha da frente do desemprego e uma função pública sobredimensionada,
com emprego vitalício garantido e direito à greve) cf. «Jacques Chirac e o
declínio francês 1974-2002, trinta anos de vida política: primeiro balanço», de
Yves Marie Laulan, Edições François Xavier de Guibert, Novembro de 2001.
Um alto funcionário, o professor Philippe Even,
decano da Faculdade de Medicina Necker Enfants Malades (1988-2000), chocado com
as consequências fatais do mais recente hospital parisiense «O Hospital Europeu
Georges Pompidou», inaugurado no ano 2000, criticará com estas palavras esses
«altos funcionários hierárquicos que confiscam a nação em benefício da sua
legião, do seu partido, hábeis em paralisar ou enterrar qualquer decisão política
para preservar a sua posição, o seu futuro ou a sua casta (…).
Há muito sem experiência no terreno, agarrados ao
modelo socio-económico que aprenderam, sabendo um pouco de tudo e pouco de cada
coisa, um conhecimento teórico que permite a redacção dessas famosas «notas de
síntese para os ministros», tanto mais simplificadoras quanto a análise se
manteve a boa distância do terreno (…), cultivando falsos segredos e falsas
confidências, sufocados pela sua paranóia de conspirações, sem nunca terem uma
ideia de que se possam arrepender e, no entanto, cheios de uma ambição
dissimulada sob a máscara do rigor, da virtude republicana, da falsa modéstia,
da eterna prudência, antes de irem para a «vida de aposentado», em «Os
escândalos dos hospitais de Paris e do Hospital Pompidou», Philippe Even,
editora Le Cherche Midi, Outubro de 2001.
Capítulo II A França e o fenómeno exógeno: o ser e o
nada
Fazer o burnous suar…
A percepção do fenómeno migratório em
França, a forma como o imaginário francês encara a mistura da população
francesa e o cruzamento cultural da sua sociedade e, consequentemente, a
representação das populações imigrantes no campo visual e sonoro francês,
sintetizada nos meios de comunicação social, não resultará de uma evolução
antecipada da sociedade francesa no que diz respeito à concepção que esta tem
da sua configuração futura. Ela ocorrerá por defeito e desenvolver-se-á de
forma progressiva sob a influência da necessidade, resultante tanto das lutas
reivindicativas dos trabalhadores imigrantes como das restricções económicas do
contexto geo-estratégico francês.
«O ser e o nada»: esta fórmula,
emprestada da literatura existencialista do filósofo francês Jean-Paul Sartre,
resume bem a situação das populações imigrantes em França e na Europa em geral
até ao último quartel do século XX. Embora dotado de uma existência física, o
imigrante era, no entanto, inexistente, se não aos olhos do país de
acolhimento, pelo menos no universo mental dos seus habitantes, mesmo que muitos
deles tivessem contribuído para a libertação do solo francês durante a Segunda
Guerra Mundial, a maior afluência de estrangeiros da história, mesmo tendo sido
recrutados em massa no próprio local pelas grandes corporações industriais
francesas, mesmo constituindo uma mão-de-obra útil à
reconstrucção da França e à retoma da sua economia.
Como agente
económico, um imigrante existia por simples hábito ‘paisagístico’, por
familiarização visual, mas não era reconhecido como sujeito político. Era
assimilado a uma força física, um consumidor aparentemente desprovido de
entretenimento ou de necessidade cultural ou espiritual.
A publicidade
«Banania» resume bem o estado de espírito dos metropolitanos daquela época em
relação aos «indígenas». Um cartaz preto sobre fundo amarelo que mostra um
negro sorridente, com os dentes brancos à mostra, a expressar, numa linguagem
francesa de origem africana, «ya bon Banania», a sua satisfação por consumir
uma marca de cacau: A representação ingénua do negro que ela apresentava
despertaria a ira do poeta martinicano Aimé Césaire e do gramático Léopold
Sédar Senghor, que forjariam o conceito de negritude, instrumentalizando as
qualidades da sua raça como arma de combate.
«O ritmo é
negro, tal como a emoção é helénica», martelaria de forma pedagógica o
académico senegalês aos «metropolitanos», cuja ignorância considerava
consternadora, antecipando sem dúvida as explosões de entusiasmo que
suscitarão, nos palcos do mundo, os artistas negros, de Louis Armstrong a Michael
Jackson, e, nos estádios do mundo, as proezas desportivas dos atletas negros, a
começar pelo seu próprio compatriota, Habib Thiam, detentor do recorde francês
dos 100 metros na década de 1950, colega de turma do primeiro-ministro francês
Lionel Jospin e futuro primeiro-ministro do próprio Senegal, os velocistas
Jesse Owen, Carl Lewis e Maurice Greene, Michael Johnson, Wilma Rudolph e
Marion Jones, o maratonista etíope Gebréséllasié, os pugilistas Ray Sugar
Robinson e Mohamad Ali Cassius Clay, os jogadores de basquetebol Michael Jordan
e Magic Johnson, que, por si só, conquistaram tantos prémios como todas as
equipas olímpicas francesas, em todas as disciplinas, desde o lançamento dos
Jogos Olímpicos modernos pela França.
Ao transpor o modelo colonial para o
espaço metropolitano, o imigrante em França era visto como um indígena, o que,
paradoxalmente, fazia do imigrante o indígena daquele que, etimologicamente, é
o indígena — uma mão-de-obra submetida a uma servidão de conveniência, cujo
exílio garantia a sua subsistência e, consequentemente, o obrigava a um dever
de gratidão para com o país de acolhimento. Algumas frases emblemáticas
simbolizam melhor do que tudo o estado de espírito dominante da época.
Todos têm presente essa piada que, no
entanto, resume bem o sentimento de culpa que pairava sobre a ideia do «árabe
que comia o pão do português que comia o pão do francês». As razões para esta
distorção são múltiplas, de tal forma que o estrangeiro era duplamente
estrangeiro, ou mesmo estranho. De origem modesta, destinado a tarefas
subalternas e penosas, além de pouco valorizadas, o imigrante, confinado à
periferia das cidades, era, por definição e por destino, um ser à margem da
sociedade, um elemento marginal e não uma componente da sociedade francesa. Por
isso, não tinha direito de cidadania, nem direito de opinar, nem, muito menos,
direito de voz. Subtraído à vista do público, fora das fábricas, não dispunha
de uma existência própria.
Não dominando nem a cultura nem o
discurso do país de acolhimento, não podia reivindicar o direito à palavra e,
por conseguinte, não podia ser objecto de representação.
O imigrante foi
ainda mais marginalizado, na medida em que, durante os anos de 1950 a 1970,
passou a ser considerado responsável por todos os males diplomáticos e
económicos franceses: desde o desastre de Dien Bien Phu, em 1954, passando pela
Guerra da Argélia e pela expedição franco-britânica de Suez contra o símbolo do
nacionalismo árabe, Nasser, em 1956, ao confronto de Bizerte e à descolonização
de África, em 1960, à 3.ª Guerra Árabe-Israelita de Junho de 1967, à primeira
crise do petróleo, em 1973 — tantos acontecimentos que acabaram por demonizar o
imigrante, nomeadamente o «árabe-muçulmano», aos olhos dos franceses.
Pela pena do
escritor Jean Lartéguy e dos nostálgicos do Império Francês, as virtudes dos
«paraquedistas-comandos» são então exaltadas nos escritos e nos ecrãs. O seu
livro «Os Centuriões» será, aliás, adaptado para o cinema por celebridades do
cinema francês, como Alain Delon, de machismo declarado.
Por antítese,
serão assim magnificadas, com «os paraquedistas» e os seus «boinas vermelhas»,
as mais severas «caçadas» contra os elementos exógenos da população. No domínio
do imaginário e no campo da produção intelectual, o árabe representava então,
por compensação, «o mal absoluto», identificado na linguagem corrente por esta
fanfarronice machista: «o árabe a quem é preciso fazer suar o burnus».
Durante quase
vinte anos, no período da descolonização sob a IV República (1946-1958) e no
início da V República, o boubou vai suar e sangrar em África, na Costa do
Marfim, em Madagáscar e nos Camarões; o burnous vai suar e sangrar no Magrebe e
no próprio território metropolitano.
Félix Moumié,
líder carismático da oposição camaronense, será assassinado e 60 000 dos seus
apoiantes serão queimados vivos pela «política da terra queimada», o rei
Mohamed V de Marrocos será forçado ao exílio após motins em Casablanca; o líder
nacionalista tunisino Habib Bourguiba será também exilado após os massacres no
Cabo Bon; e cinco líderes históricos do movimento independentista argelino
(Ahmad Ben Bella, Mohamad Khider, Mohamad Boudiaf e Krim Belkacem) capturados
na sequência do primeiro acto de pirataria aérea da história, o desvio pela
aviação francesa do seu avião civil que efetuava um voo comercial entre
Marrocos e a Tunísia, serão as figuras mais ilustres deste período.
Primeiro país a
ter institucionalizado o terror como forma de governo, com Maximilien de
Robespierre, durante a Revolução Francesa (1794), a França será também o
primeiro país a inaugurar a pirataria aérea, em 1955, dando assim o exemplo aos
militantes do Terceiro Mundo em luta pela sua independência.
A França
pensará assim compensar a sua própria falha para com os seus cidadãos judeus,
em 1940, através dos ataques anti-árabes na França e de um apoio incondicional
a Israel, uma «solidariedade expiatória» que culminará com o fornecimento de
tecnologia nuclear à central de Dimona, em 1955, no Negev, a expedição de Suez,
em 1956, e a criação de um gabinete de aquisições militares israelita no seio
do próprio Ministério da Defesa francês. Algo inédito nos outros países
ocidentais.
Através de um
falso efeito de óptica, a França criará a ilusão de vingar os seus reveses na
Argélia e, por meio de um filosemitismo activo, a ilusão da sua redenção,
substituindo a judeofobia pela arabofobia — em suma, uma injustiça por outra
injustiça —, fingindo assim ignorar que a injustiça não se combate com outra
injustiça.
Sintomático
desta situação, o harki, aquele mesmo que, no esquema mental francês, deveria
representar o «árabe bom» ou o «imigrante bom», uma vez que se tinha alinhado
do seu lado — ou seja, do lado certo —, será apagado da consciência nacional e
ocultado nos recantos áridos do país, numa iniciativa simbólica destinada a
reprimir esse «resíduo do colonialismo» nas profundezas da consciência. Entre
30 000 e 150 000 harkis serão mortos no local, na Argélia, devido à passividade
do exército francês, e os 20 000 sobreviventes serão confinados na metrópole em
cerca de vinte barracamentos improvisados, vivendo de esmolas e indignidade,
num sistema de despromoção.
Quarenta anos
depois do seu drama, os seus descendentes processarão a França, a pátria da sua
escolha, a 1 de Setembro de 2001, por crime contra a humanidade, com o objectivo
de obter uma reparação moral em relação a um episódio que constitui «uma das
páginas vergonhosas da história de França, tal como foram a instituição do
estatuto dos judeus a 3 de Outubro de 1940 ou o raide do Vel’ d’Hiv» (1).
Ironia da
história de uma crueldade rara, que marca o regresso do reprimido ao
subconsciente francês: um dos mais famosos torturadores da época será,
paradoxalmente, Maurice Papon, secretário da Câmara Municipal de Bordéus sob o
regime de Vichy em 1942, durante a deportação dos judeus, e Prefeito de Polícia
em Paris durante a brutal repressão anti-argelina de 17 de Outubro de 1961.
A presença
inabalável deste alto funcionário em cargos de responsabilidade durante 40 anos
sob os diversos regimes da República (III.ª, IV.ª e V.ª), cuja carreira será,
além disso, coroada pela sua promoção ao cargo de tesoureiro do partido
gaullista UNR (União para a Nova República) e a um cargo ministerial
(Orçamento) sob Valéry Giscard d’Estaing, surge como a ilustração sintomática
da complacência francesa em relação à sua própria verdade histórica.
Maurice Papon
«cristalizará as duas grandes fracturas da história contemporânea francesa»
(2).
Bode expiatório
ideal da conivência burocrática, a sua condenação sepulcral por «crimes de
gabinete» — por mais evidentes que fossem as suas responsabilidades —, bem como
os actos de arrependimento em cascata por parte das instituições oficiais
(Igreja, Polícia) que antecederam por pouco o seu julgamento, surgirão, em
retrospectiva, como uma operação de regularização a posteriori, um acerto de
contas definitivo, a absolvição que a França concedeu a si própria pelo seu
comportamento nos dois pontos negros da sua história: Vichy, símbolo da
degradação moral da França, e a Argélia, símbolo do fim do Império francês,
símbolo do abandono da Pátria, para os defensores de um nacionalismo
exacerbado.
Desta repressão
generalizada surgirão, a nível institucional, o Museu das Artes Africanas e
Oceânicas e o Jardim Zoológico de Vincennes, dupla herança das exposições
etnológicas coloniais, bem como a Mesquita de Paris, construída como homenagem
póstuma aos combatentes muçulmanos que morreram pela França, mas cujo
financiamento será alvo de uma generosidade parcimoniosa por parte do governo
francês, que, embora disponibilize o terreno e um crédito de 500 000 FF, o
onerará, no entanto, com um imposto especial que os argelinos pagarão para além
do seu tributo de sangue (3).
Desta repressão
generalizada, serão raros os sobreviventes a nível individual. Como marcos
luminosos que rasgam a noite negra da opressão, destacar-se-ão graças aos seus
talentos intrínsecos: Joséphine Baker e a sua «Revue Nègre» nas Folies
Bergères, que se empenhará posteriormente em fundar a primeira grande família
multi-colorida e multi-racial, a prefiguração da equipa francesa vencedora do
Mundial de 1998, os cantores Henri Salvador e Georges Mouloudji, o campeão
olímpico Alain Mimoun, o famoso maratonista de Melbourne, em 1956, um dos raros
medalhistas de ouro franceses da época.
Destacar-se-ão
também Roger Bambuck, recordista mundial dos 100 metros em 1963, o primeiro
atleta a ter ultrapassado a barreira dos 10 segundos nesta prova rainha do
atletismo e futuro ministro socialista do Desporto no governo de Michel Rocard em
1988, o futebolista argelino Rachid Mekhloufi, antecessor de Zidane e primeiro
titular de origem magrebina a vestir a camisola n.º 10 na mítica equipa dos
«Verts» de Saint-Étienne da década de 1960 e colega de equipa de Aimé Jacquet,
o futuro treinador da selecção na Taça do Mundo de 1998, bem como Marie José
Nat. «Elise ou a Vida Real», interpretado pela actriz francesa de ascendência
argelina, será, aliás, um dos raros filmes franceses que testemunham os anos de
tensão da Guerra da Argélia, a par do filme de Yves Boisset «O Vento do Dia de
Todos os Santos» e de «O Pequeno Soldado», de Jean-Luc Godard, o cineasta suíço
cuja expulsão seria exigida na qualidade de «cineasta estrangeiro» muito antes
da de Daniel Cohn-Bendit, o «judeu alemão» líder do movimento contestatário de
Maio de 1968.
A independência da Argélia em 1962
marca o fim da ideia imperial na França. Os acordos franco-argelinos de Evian,
de 18 de Março de 1962, ao mesmo tempo que estabelecem a independência da
Argélia, põem fim a cinco séculos de aventuras coloniais. «De Dunkerque a
Tamanrasset», a França fica agora reduzida «de Dunkerque a Menton». Volta-se
para a Europa e, ao mesmo tempo, vira as costas ao seu império colonial,
limitando as suas relações com os territórios ultramarinos às relações
institucionais e comerciais.
«A Corrèze passa agora à frente do
Zambeze» nas preocupações dos franceses, segundo o lema popularizado pelo
jornalista da Paris-Match Raymond Cartier. Jacques Dutronc criticaria
veementemente o egocentrismo francês com uma canção de sucesso intitulada «500
milhões de chineses e eu, e eu e eu». Em vão.
A revolta estudantil de Maio de 1968
abalou de facto a letargia reinante numa «França que se aborrece», segundo o
diagnóstico lúcido de um dos jornalistas mais pertinentes da época, o
editorialista do *Le Monde*, Pierre Vianson Ponté, mas a grande reviravolta que
provocou, a mistura socio-cultural que induziu, a libertação dos costumes e a
mudança de mentalidades que suscitou não alteraram, por isso mesmo, a visão que
os franceses tinham do mundo, com excepção da sua franja marginal politizada.
Uma sondagem
oficial da época atribuía, aliás, à comunidade árabe-muçulmana 2% de opinião
favorável junto da população francesa, apesar da reconciliação selada com o
mundo árabe pelo general de Gaulle aquando do seu regresso ao poder em 1958,
apesar dos benefícios que os lucrativos contratos civis e militares
representavam para a indústria francesa e das suas importantes repercussões na
economia nacional.
O palestiniano,
recém-chegado ao cenário do Terceiro Mundo militante, substitui o argelino,
relegado à fobia dos franceses, cuja visibilidade continua obscurecida pela
«centralidade de Israel», horizonte insuperável para os principais analistas
franceses. Michel Jobert, ministro dos Negócios Estrangeiros do presidente
Georges Pompidou, teve na altura imensa dificuldade em convencer os seus
compatriotas de que «tentar regressar a casa não constitui necessariamente uma
agressão», como justificação para a ofensiva egípcia de 6 de Outubro de 1973
contra a Linha Bar-Lev, que visava recuperar o Canal do Suez e o Sinai. Esforço
em vão.
Ideias, mas não
petróleo.
Um abalo
económico para a França, a crise do petróleo de 1973, na sequência do boicote
decretado pelos países árabes contra os Estados ocidentais que apoiavam Israel,
constituiu para os franceses — apesar de terem sido poupados — um trauma
psicológico.
Sobrepondo-se à
perda do império colonial, o primeiro choque petrolífero ocorreu num momento
crucial para a França, privando-a daquilo que, durante séculos, fora o seu
«mercado cativo» ideal, o seu escoamento natural tanto para a sua
sobrepopulação, como para a sua produção industrial e para a sua mão-de-obra
barata.
Uma travagem
brusca a trinta anos de expansão económica, a crise do petróleo gerou uma
situação de precariedade marcada pelo surgimento de um desemprego endémico,
desencadeando um subsequente ressurgimento da xenofobia latente de uma
sociedade que se apresenta de bom grado como revolucionária, mas que, no seu
íntimo, se revela profundamente conservadora.
Em 1973, a
França era oficialmente o parceiro privilegiado do Mundo Árabe, oficialmente
poupada do boicote petrolífero anti-ocidental, a principal beneficiária do boom
petrolífero e dos contratos petrolíferos com as monarquias, mas os franceses
agarravam-se a uma xenofobia lancinante, tensos num comportamento guiado por
uma rigidez psicológica alimentada por uma nostalgia de grandeza.
Todos têm bem
presente o humor de uma época em que os franceses se regozijavam por compensar
a sua falta de recursos naturais com uma suposta superioridade intelectual,
ostentando o seu orgulho de «não ter petróleo, mas sim ideias», uma fórmula que
pode ser interpretada da seguinte forma: «sem gasolina, mas com a quintessência
do espírito», um humor que subjazia a uma arabofobia generalizada num período
em que os árabes-muçulmanos eram colocados na berlinda por se terem atrevido a
deixar os franceses a passar frio com a sua crise energética.
O aumento do
custo do petróleo era vivido como um crime de lesa-majestade, quando se
tratava, na verdade, de um problema de reajustamento dos preços do crude, que
durante muito tempo tinham sido escandalosamente favoráveis às economias
ocidentais. A contradição entre a abertura pan-árabe da diplomacia francesa e a
tensão identitária da opinião pública francesa já colocava, na altura, o
problema de como dar coerência à política francesa em relação à realidade
árabe-muçulmana.
Sinal do
conservadorismo da França, este país que, desde a batalha de Valmy, era
portador, segundo Goethe, da promessa de «uma nova era na história do mundo»,
demoraria quarenta e cinco anos a reconhecer, em 1999, o estatuto de antigos
combatentes aos 1,7 milhões de militares franceses que participaram na guerra
da Argélia.
Uma guerra até
então discretamente designada por «acontecimentos», apesar de ter custado a
vida a 30 000 soldados franceses e de ter provocado, segundo as estimativas de
vários especialistas, cerca de 350 000 vítimas de «neuroses traumáticas» (4),
os distúrbios psíquicos ligados às consequências dessa guerra, sem contar com
as perdas argelinas, estimadas, segundo um balanço oficial argelino, em cerca
de um milhão de mortos. A França demorará o mesmo tempo a admitir o dever de
desobediência a ordens manifestamente ilegais, quarenta e dois anos após o acto
de rebeldia do general de la Bollardière, em 1957, na Argélia, contra a tortura
(5), quarenta e dois anos após o acto de rebeldia de Boris Vian, autor da
mítica canção da insubordinação «Le déserteur».
Por iniciativa
do poder gaullista, é criada uma «associação de amizade França-Países Árabes»,
sob a presidência de Louis Terrenoire, antigo ministro do general De Gaulle,
com o objectivo de sensibilizar a opinião pública francesa para a civilização
árabe.
É lançada uma
grande estação de rádio francesa de língua árabe, a «RMC-MO», destinada ao
mundo árabe. Sob a forma de uma abertura tímida, decidida não em resposta a uma
acção reivindicativa, mas, paradoxalmente, por um decreto que antecipava uma
evolução, a normalização franco-árabe terá, no entanto, repercussões na
população imigrante árabe-muçulmana de França: o Islão e a cultura árabe surgem
no campo visual e no imaginário francês através dos programas religiosos do canal público
Antenne 2.
Durante a era
de Giscard (1974-1981) e a sua «sociedade liberal avançada», o progresso
concretizava-se em doses homeopáticas: as «pessoas de cor» surgiam nos ecrãs em
quantidades infinitesimais, geralmente originárias dos departamentos
ultramarinos franceses. Jornalistas originários de países árabes, ou seja,
produtores de informação, faziam ouvir a sua voz nas ondas das rádios
francesas, não sem antes terem «afrancesado» os seus nomes, a fim de eliminar
qualquer aspereza cultural relacionada com a sua origem.
Facto
substancial a nível interno, a normalização franco-árabe coincide em França com
a escolarização da segunda geração de imigrantes e conduz a uma política
educativa que visa valorizar a língua e a cultura de origem dos expatriados:
«Mosaïque», o primeiro programa destinado à população de origem imigrante,
surgiu em 1977 (6), com a ambição, segundo as palavras de um dos seus
realizadores, Djelloul Beghoura, de «acompanhar a evolução sociológica da
imigração e servir de caixa de ressonância à sua criatividade». Um passo
tímido.
Na sua fase pós-colonial,
as preocupações da sociedade de consumo metropolitana centravam-se então
principalmente na conquista de novos espaços de liberdade para a sociedade
civil.
A redução da
idade da maioridade de 21 para 18 anos foi alcançada a 5 de Julho de 1974; o reconhecimento
legal da interrupção voluntária da gravidez (IVG), oficializado pela Lei Veil a
20 de Setembro de 1974; e, sobretudo, as manifestações de Larzac, em 1973,
contra o despovoamento do campo devido à expansão da zona militar, lideradas
por um jovem agricultor chamado José Bové, futuro porta-estandarte do movimento
anti-globalização, acabariam por mobilizar cerca de 100 000 pessoas, dando
origem às manifestações do movimento ecologista emergente contra a central nuclear
de Creys-Malville, a 31 de Julho de 1977, que causaram um morto e cem feridos;
Seguir-se-ão as
manifestações contra as alas de alta segurança nas prisões, contra os tribunais
de excepção, contra a «Lei da Segurança e da Liberdade» do ministro da Justiça
Alain Peyrefitte, contra a censura institucional dos meios de comunicação
social e contra a pena de morte.
Tantas
investidas que abalarão um conformismo social tradicional, reforçado ainda por
um quarto de século de política conservadora.
Perante esta
efervescência, opera-se no imaginário francês um compromisso entre a
racionalidade cartesiana e a exuberância mediterrânica representada pelo
«pied-noir», nem totalmente branco nem totalmente negro, mestiço, de origem
europeia mas com uma impregnação cultural árabe-muçulmana.
Roger Hanin,
Enrico Macias e o «couscous Garbit» serão o símbolo absoluto disso. Num
contexto de valorização cultural com um toque folclórico, o entusiasmo por este
tríptico constituirá o sinal de abertura retroactiva da França para com os seus
repatriados da Argélia — num total de um milhão — que regressaram ao país uma
década antes. O prelúdio de uma nova mutação psicológica francesa que a
efervescência identitária, consequente do amadurecimento da terceira geração de
imigrantes, irá amplificar e abalar, não sem convulsões, por ocasião da grande
viragem de 10 de Maio de 1981 e da chegada dos socialistas ao poder com a
eleição do presidente François Mitterrand, ponto de viragem reivindicativo da
outra vertente constitutiva da sociedade francesa, a França da imigração, iniciado
pela marcha pela igualdade e pelas revoltas periurbanas.
Referências
1- A expressão
é da socióloga Dominique Shnapper no prefácio do livro «Et ils sont devenus
harkis», de Mohand Hamoumou (Fayard, 1994). Cf. «Libération», quinta-feira, 30
de Agosto de 2001.
2- François
Loncle, presidente da Comissão dos Assuntos Externos da Assembleia Nacional, em
«Écrire l’histoire commune» (Para sarar as feridas franco-argelinas,
incentivemos a investigação histórica em ambas as margens do Mediterrâneo). Cf.
Rebonds, jornal «Libération», terça-feira, 24 de Julho de 2001.
3-Inaugurada em
1927 por Gaston Doumergue por ocasião do décimo aniversário de Verdun, a
mesquita foi construída graças a uma doação de terreno e a um empréstimo de 500
000 francos do governo francês, complementado por um imposto especial cobrado
aos argelinos. «Várias dezenas de milhares de combatentes muçulmanos» morreram
pela França entre 1914 e 1918, nomeadamente em Verdun, onde lhes foi reservado
um cemitério muçulmano. 450 artesãos e técnicos do Magrebe participaram na
construção da mesquita, cujas obras duraram 4 anos (1922-1926).
4- Florence
Beaugé «350 000 ex-combatentes da Argélia sofreriam de perturbações psíquicas
relacionadas com a guerra», cf. *Le Monde*, 28 de Dezembro de 2000.
5- Jacques
Pâris de la Bollardière: Companheiro da Libertação, Grande Oficial da Legião de
Honra, comandante dos paraquedistas — as tropas de choque do exército francês —
na Indochina, em 1952-53, general aos 49 anos, demitiu-se do seu comando na
Argélia em sinal de protesto contra a tortura. Filho de um oficial que serviu
sob as ordens do marechal Lyautey no Estado-Maior francês durante a Primeira
Guerra Mundial, defendeu na Argélia um «diálogo entre civilizações». Fêz os
seus subordinados prestarem juramento, garantindo que «todo o muçulmano será
considerado por mim como um amigo e não como um suspeito, salvo prova em
contrário».
6-O programa
«Mosaïque» foi transmitido durante dez anos (1977-87) na FR3, aos domingos de
manhã. Produzido pela «Point du jour», com realização de Tewfik Farès, o
programa beneficiava de subvenções do FAS (Fundo de Acção Social) e da ADRI
(Agência para o Desenvolvimento das Relações Interculturais). Pioneiro nesta
área, o cineasta Tewfik Farès lançaria posteriormente o «télé cité», um programa
que dá voz aos jovens, propondo-lhes que realizem reportagens sobre a sua vida
quotidiana. Exibido em Setembro de 1999 na France 3 Ile-de-France, o programa é
transmitido, desde Janeiro de 2001, na região de Nord-Pas-de-Calais.
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Capítulo III A
Política das Considerações
Houve um tempo em que aprender turco,
árabe ou persa — ou seja, as línguas vernáculas dos povos indígenas —
constituía o cúmulo do requinte. Muito antes da Revolução, Molière, à
semelhança do Senhor Jourdain, abrindo-se por curiosidade intelectual à cultura
dos outros, tinha-se aventurado nessa tarefa com a sua obra *Mamamouchi*, no
século XVII, e Voltaire, um século mais tarde, com *Zadig*, aquele jovem
babilónio (Iraque) que se tornaria o símbolo da sabedoria contrariada pela
injustiça. Não era preciso ser um grande erudito na época para saber que a
política de um país é ditada pela sua história e geografia e que uma diplomacia
de boa vizinhança é garantia de prosperidade.
Francisco I (1494-1574) e Solimão, o
Magnífico, superariam assim as suas recriminações mútuas sobre o litígio das
Cruzadas, em particular o saque de Jerusalém (1099) e de Constantinopla (1204)
— « as páginas vergonhosas do Ocidente cristão», segundo a expressão do
historiador Jacques Le Goff —, para selar uma aliança audaciosa. Encravado
entre a Alemanha e a Espanha, ambas sob a coroa de Carlos V (1550-1558),
Francisco I pactuará com o líder do Império Otomano, um infiel, para grande
escândalo da cristandade da época, com o objectivo de contrabalançar o poder do
Sacro Império.
Na mesma linha
da sua inspiração, criou o «Colégio dos Leitores Reais», precursor do Colégio
de França, e impôs o ensino do árabe, em 1537, que viria a ser consagrado
cinquenta anos mais tarde com a criação da cátedra de árabe. Luís XIV
completaria a sua obra no plano cultural. Sob o impulso de Colbert, ansioso por
colocar à disposição dos comerciantes franceses interlocutores adequados no
Oriente, o Rei Sol fundou a secção de línguas orientais no Colégio Luís, o
Grande. Colbert, autor do tão hediondo «Código Negro da Escravatura», que seria
publicado após a sua morte ao abrigo do Édito de Março de 1695, decretaria «o
privilégio da terra de França» e o seu poder libertatório; uma cláusula de
salvaguarda que permitia satisfazer um triplo objectivo: a libertação
automática dos escravos pelo simples facto de pisarem solo francês, a
consagração a priori da escravatura nas possessões ultramarinas e a preservação
dos interesses fundamentais da França através da valorização da sua tradição de
hospitalidade e da sua boa reputação no mundo.
Durante a
Revolução, a secção de línguas orientais do Colégio Louis le Grand tornar-se-á
uma instituição autónoma, «a Escola de Línguas Orientais». O árabe, o turco e o
persa serão as primeiras línguas aí ensinadas. O general Bonaparte, no Egipto,
decretará a política de consideração… para com os indígenas. Não por um impulso
arabo-musulmano, mas pela razão óbvia de que o respeito pelo próximo constitui a primeira forma de auto-estima. Em suma, através de um realismo
envolto em idealismo, que ele considerará como a melhor garantia da perenidade
da sua acção.
Francisco I, o
precursor, e Bonaparte, o sucessor, colherão os frutos desta política de
abertura para os territórios ultramarinos, dois séculos mais tarde, com Jean
François Champollion, um dos mais ilustres alunos das «Línguas O», decifrador
dos hieróglifos egípcios, uma descoberta que fará do Egipto um dos centros da
influência cultural francesa no Oriente, um exemplo de rentabilidade
operacional, o famoso «retorno sobre o investimento» do jargão moderno (2).
Como estratega,
o general corso, sem dúvida mais versado nas subtilezas geo-estratégicas do
Mediterrâneo, limitou-se a reorientar a política do seu predecessor real,
considerando que Meca, e não Constantinopla, constituía o centro impulsionador
da política francesa na região.
Afastando-se de
qualquer messianismo, reivindicou para a França a responsabilidade pela esfera
soberana, deixando aos autóctones a gestão dos seus próprios assuntos locais,
em aplicação da «política de consideração», primeira expressão política da auto-gestão
dos territórios conquistados. O seu sobrinho, Napoleão III, chegou mesmo a
acalentar o projecto de fundar um «Grande Reino Árabe» na Argélia. Esta
evidência demoraria dois séculos a impor-se. Mas, entretanto, quantas
humilhações, que desperdício. Por ter ignorado este princípio, por ter renegado
os seus próprios princípios, a França pagaria o preço.
O
verme na fruta
A aliança entre
Francisco I e Solimão, o Magnífico, já continha em si os germes da discórdia. O
Pacto das Capitulações, embora se preocupasse em enumerar e recapitular os
direitos e deveres das duas partes contratantes, constituiu um dos primeiros
tratados desiguais da história moderna, na medida em que os franceses beneficiavam
do privilégio de jurisdição, subtraindo-o à justiça da Porta Sublime, enquanto
o otomano estava sujeito à lei comum, pelo facto de já ser considerado o «bode
expiatório» dos franceses.
Terra de asilo,
a filha mais velha da Igreja acolherá os arménios sobreviventes do genocídio
turco, em 1915, mas, paradoxalmente, recompensará a Turquia pelo seu crime — o
seu exterminador e inimigo da França durante a Primeira Guerra Mundial —,
oferecendo-lhe Hatay numa bandeja, através da amputação do distrito de
Alexandretta da Síria. Uma operação que se revelou uma aberração mental,
provavelmente única na história do mundo, ilustração patética de uma confusão
mental em nome da preservação de supostos interesses superiores da nação em
detrimento da vítima.
Nesta perspectiva, a criminalização
da negação do genocídio arménio teria sido isenta de qualquer suspeita de
oportunismo eleitoral se não tivesse sido acompanhada pela recompensa pela
traição turca (Alexandrette), de uma cooperação estratégica franco-turca com
cinquenta anos de duração, incluindo contra a independência da Argélia, e de
uma hostilidade resoluta da França em relação aos dois grandes protectores dos
arménios, o Irão, vizinho e aliado da Arménia ao longo dos séculos, e a Síria,
que alberga o grande memorial dos arménios em Deir Ez-Zor, local de peregrinação
anual da diáspora, a 23 de Abril.
Protectora dos
cristãos do Oriente, facilitou o acesso ao seu território aos libaneses que
fugiam dos estragos da guerra civil (1975-1990), mas, ao longo do tempo,
institucionalizou e instrumentalizou o confessionalismo político,
desrespeitando o princípio da laicidade e da separação entre a Igreja e o
Estado, um dos princípios fundadores da República Francesa.
O sistema
confessional francês terá sido o gatilho desta guerra fratricida que corrói a
vida pública nacional desde a independência do Líbano, há setenta anos, com
consequências desastrosas para o cristianismo árabe, particularmente para os
maronitas, os aliados privilegiados da França na região.
Numa inversão
de tendência, sem dúvida irreversível, o número de falantes de francês no
Líbano registou uma queda drástica em benefício do inglês, passando de 67 por
cento na década de 1960 para 27 por cento no início do novo milénio, enquanto o
êxodo dos cristãos do Líbano atingia uma taxa alarmante: 40 % dos cristãos
libaneses terão abandonado o país desde o início da guerra, em 1975, embora a
diáspora espalhada pela América do Norte (Estados Unidos, Canadá), pela América
Latina, pela Austrália e pela África tenha mantido laços fortes com a pátria.
Na mesma linha,
a condenação do presidente libanês Émile Lahoud, na sequência do assassinato do
primeiro-ministro Rafic Hariri, em Fevereiro de 2005 — o bilionário
libanês-saudita amigo do presidente francês Jacques Chirac —, levou ao
ostracismo do único líder cristão do mundo árabe. Um precedente com graves
consequências para o futuro do cristianismo árabe. A expedição
franco-anglo-israelita de Suez, em 1956, resultou num êxodo dos cristãos do Egipto,
à criação de Israel por influência ocidental e à judaização progressiva da
Palestina, a um forte êxodo de cristãos palestinianos, bem como à implosão do
Iraque por influência americana e ao êxodo dos cristãos do Iraque.
Não é
irrelevante notar, a este respeito, que os refugiados políticos mais famosos do
Médio Oriente em França na época contemporânea, o aiatolá Ruhollah Khomeini,
líder da revolução islâmica iraniana, e o antigo chefe do governo provisório
libanês, o general Michel Aoun, líder da corrente patriótica libanesa, se
tenham voltado contra o seu país de acolhimento ao regressarem à sua pátria.
A «aliança
desconcertante» entre o Hezbollah e o general Michel Aoun, para retomar a
expressão dos analistas ocidentais, surge assim como o resultado e a resposta à
«atitude desconcertante» dos ocidentais em relação às aspirações do mundo
árabe, particularmente no que diz respeito à Palestina e aos cristãos do
Oriente.
Uma aliança
tanto mais imperiosa para «preservar o carácter árabe» quanto por ter quebrado
estrategicamente a divisão confessional islâmico-cristã da equação libanesa. A
adesão a esta aliança do Partido Tachnag, o mais importante partido arménio da
diáspora, vai ao encontro destas preocupações, tal como as reticências do novo
patriarca maronita em optar por um alinhamento incondicional com a estratégia
ocidental em território árabe.
Da
Grande Síria à Síria Menor.
Cerca de 560
000 árabes e africanos, cristãos e muçulmanos, vieram em auxílio da França
durante a Primeira Guerra Mundial, dos quais 73. OOO mortos, e outros tantos na
Segunda Guerra Mundial, mas a França retribuirá aos árabes com ingratidão, duas
vezes no mesmo século: primeiro em Alexandretta (Síria) e, depois, em Sétif
(Argélia), uma reincidência que não é, de forma alguma, fruto do acaso.
Na Síria, o projecto
francês não carecia, contudo, nem de audácia nem de grandeza.
A França
propunha-se constituir uma «Grande Síria» que abrangesse Jerusalém, Belém,
Beirute, Damasco, Alepo, Van, Diyarbakir e até mesmo Mossul, ou seja, um
território que englobasse a Síria, parte do Líbano, da Palestina, da Turquia e
do Iraque. As instruções do ministro francês dos Negócios Estrangeiros,
Aristide Briand, a Georges Picot, o seu cônsul-geral em Beirute, eram claras e
não admitiam a menor ambiguidade: «Que a Síria não seja um país exíguo… É-lhe
necessária uma fronteira ampla que a torne uma dependência capaz de se
sustentar a si própria», concluía a nota datada de 2 de Novembro de 1915 (3).
Perante os
hábeis negociadores ingleses, a Síria, por culpa da França e contrariamente às
suas promessas, foi reduzida ao mínimo indispensável, ao preço de uma quadrupla
amputação, despojada não só de todos os territórios periféricos (Palestina,
Líbano, Turquia e Iraque), mas também privada, no seu próprio território
nacional, do distrito de Alexandrete.
Uma traição que
levará o próprio ministro da Defesa sírio, Youssef Al Azmeh, a pegar em armas
contra os franceses para a repelir em Mayssaloune (1925), batalha na qual
perecerá, juntamente com cerca de 400 dos seus, naquela que marcou o nascimento
da consciência nacional síria. Desde então, a Síria tem enfrentado a França de
frente, opondo-se frontalmente a todas as suas incursões em território árabe,
seja na Argélia, onde será o primeiro país árabe a enviar voluntários para se
juntarem aos «Fellaghas», seja no Líbano, onde constituirá o «barramento árabe»
durante meio século. Tendo em conta a duplicidade francesa e a voracidade
turca, o apoio franco-turco prejudica, de certa forma, a credibilidade da
oposição síria no exterior na sua contestação ao regime baasista.
Errar é humano,
mas para um país que reivindica uma postura moralizante, a repetição desse erro
é nefasta. Potência continental e marítima, banhada, além disso, no seu flanco
sul pela margem muçulmana do Mediterrâneo, a França virará as costas à visão
inovadora de Francisco I e de Bonaparte e optará, no que diz respeito à esfera
muçulmana, por uma diplomacia das canhoneiras e uma política de confinamento.
Herdeira de
Roma e do universalismo católico, a França não renovará o Édito de Caracala,
que concedeu aos homens livres do Império Romano o estatuto de cidadãos
romanos. Como se os herdeiros da Revolução Francesa tivessem querido penalizar
os autóctones da sua condição de oprimidos. Isso acabará por prejudicá-la
indirectamente.
Assim, na
Argélia, a título do «Grande Reino Árabe» idealizado por Luís Napoleão, os
pieds-noirs e os padres brancos, os soldados-lavradores do General Thomas
Robert Bugeaud e os discípulos do Cardeal Martial de Lavigerie lançar-se-ão, em
conjunto, numa política de conquista baseada na constituição de «colónias
militares», acompanhada pela destruição sistemática das instituições
muçulmanas. A Argélia será mesmo entregue aos colonos através de uma política
de assimilação que assimilará tudo, excepto o indígena, o autêntico
proprietário do país, irremediavelmente relegado à sua condição subalterna pelo
«Código do Indigenato».
Pior ainda,
numa projecção hegemónica e egocêntrica da sua imagem, como um sinal de
incompetência ou de ingratidão, através de uma aberração mental sem paralelo na
história do mundo, a França cometerá o maior massacre da sua história no
próprio dia da celebração da vitória dos Aliados, a 8 de Maio de 1945, afogando
num banho de sangue, em Sétif, a primeira grande manifestação autonomista
argelina. Sem a menor consideração pelo sacrifício que eles fizeram durante a
Segunda Guerra Mundial.
Se a França se
situa hoje no campo da democracia, deve-o certamente às «Cruzes Brancas» dos
cemitérios americanos da Normandia, mas também ao sacrifício dos cerca de
quinhentos mil combatentes do mundo árabe e africano que ajudaram a França a
libertar-se do jugo nazi, enquanto uma grande parte da população francesa
praticava a colaboração com o inimigo.
Quinhentos mil combatentes na Primeira Guerra Mundial (1914-1918),
outros tantos, se não mais, na Segunda Guerra Mundial (1939-1945); naquela
altura, não se falava em rastreio genético, em «teste de ADN» ou em «limiar de
tolerância».
Sob
Sarkozy, um duplo revés retumbante para a Turquia
Impedir a Turquia de entrar na Europa
sob o pretexto de que não é europeia ganharia credibilidade se esse argumento
falacioso se aplicasse igualmente à sua presença na OTAN, o pacto atlântico do
qual não faz parte de forma alguma. Consolidar uma União Transmediterrânica com
base numa divisão racial do trabalho — «a inteligência francesa e a mão-de-obra
árabe», segundo o esquema esboçado por Nicolas Sarkozy no seu discurso em
Tunes, a 28 de Abril de 2008 — não augurava nada de bom para a viabilidade de
um projecto que validava a permanência de uma postura racista no seio da elite
político-mediática francesa, uma postura manifesta através das variações
seculares sobre este mesmo tema, opondo ora «a carne para canhão» ao «génio do
comando» inevitavelmente francês durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918),
ora «as ideias» do génio francês face ao «petróleo árabe», para retomar o
slogan da primeira crise petrolífera (1973): «Ideias, mas não petróleo».
Substituir, além disso, o Irão por
Israel como o novo inimigo hereditário dos árabes visaria exonerar os
ocidentais da sua própria responsabilidade na tragédia palestiniana,
banalizando a presença israelita na região em detrimento do vizinho milenar dos
árabes, o Irão, cujo potencial nuclear é 60 anos mais recente do que a ameaça
nuclear israelita e a expropriação palestiniana.
A União para o
Mediterrâneo, um projecto condenado ao fracasso desde o início, surgiu como uma
manobra de diversão, um engodo que traía as verdadeiras intenções dos
ocidentais em relação a um país que, embora fosse membro da Aliança Atlântica,
era muçulmano, na medida em que os europeus aceitavam a Turquia como uma força
auxiliar do Ocidente, mas não tanto como membro de pleno direito da família
europeia.
À margem da
Europa, mas não no seio da Europa, mesmo que nunca nenhuma potência militar
muçulmana tivesse ido tão longe na sua colaboração com o Ocidente,
estabelecendo uma parceria estratégica com Israel numa aliança contrária à
natureza, celebrada entre o primeiro Estado «genocida» do século XX e os
sobreviventes do genocídio hitleriano.
Para além das
construcções teóricas, a escolha atlantista da Turquia assentava num pacto
tácito celebrado com o bloco ocidental, baseado na ocultação da
responsabilidade da Turquia no genocídio arménio, em troca do envolvimento
deste país de cultura muçulmana não só na defesa do «Mundo Livre» face à União
Soviética, mas também numa aliança estratégica com Israel contra o Mundo Árabe.
O efeito
secundário da sua adesão à OTAN respondia à preocupação dos Estados Unidos de
colocar o litígio greco-turco — o binómio Atenas-Constantinopla — acima do
conflito entre o Islão e a cristandade sob o controlo do Ocidente, na medida em
que Atenas constituía o berço da civilização ocidental e Constantinopla-Ancara,
o último império muçulmano. A afirmação da Turquia na cena regional do Médio
Oriente, com base numa diplomacia neo-otomana veiculada por um Islão tingido de
modernismo, em concorrência directa com os interesses das antigas potências
coloniais, levou a França a voltar a assumir a sua antiga postura.
À luz dos
factos, a política árabe da França, um dogma sagrado se é que alguma vez houve
um, revelou-se uma vasta mistificação, um argumento de venda do complexo
militar-industrial francês. Alexandrette, Sétif, mas também Suez: dez anos após
o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1956, em conjunto com Israel e a
Grã-Bretanha, a França lançou-se numa «expedição punitiva» contra o líder do
nacionalismo árabe, Nasser, culpado de ter pretendido recuperar a sua única
riqueza nacional, «o Canal do Suez».
Curiosa
aliança, aliás, esta «aventura de Suez» entre sobreviventes do genocídio
hitleriano (os israelitas) e um dos seus antigos carrascos, a França, que terá
afundado a sua frota e será, sob o regime de Vichy, a antecâmara dos campos de
extermínio? Curiosa aliança para que combate? Contra quem? Os árabes? Os mesmos que foram amplamente mobilizados durante a
Segunda Guerra Mundial para derrotar o regime nazi, ou seja, o ocupante dos
franceses e o algoz dos israelitas.
Verdadeiro
«porta-aviões» dos Estados Unidos no Mediterrâneo Oriental, a Turquia serviu
lealmente o Ocidente, incluindo a França, chegando mesmo a pronunciar-se contra
a independência da Argélia, negando, contra todas as evidências, que a luta dos
nacionalistas argelinos fosse uma guerra de libertação, chegando mesmo a
disponibilizar à aviação israelita as suas bases militares e o seu espaço aéreo
para o treino dos seus caças-bombardeiros em operações contra o mundo árabe.
O lançamento do
projecto de lei sobre a criminalização da negação do genocídio hitleriano,
embora parecesse responder em primeiro lugar a considerações eleitorais, teve
como primeira consequência a ruptura da cooperação entre os dois principais
patrocinadores da oposição síria, colocando os dois países artífices do
desmembramento da Síria numa posição de guerra latente. Curiosa reviravolta
entre velhos cúmplices.
A
queda da França na hierarquia das potências
Primeira
potência continental da Europa, no início do século XX, numa altura em que a
Europa era o centro do mundo, a França será relegada para o 9.º lugar entre as
potências mundiais até ao ano de 2017, sendo a degradação da sua notação
económica de AAA para AA um sinal precursor dessa queda. Sem dúvida atribuível
à ascensão de grandes potências (China, Índia) e à perda do seu império, esta
relegação deve-se igualmente aos contínuos reveses militares franceses desde há
mais de um século, desde a derrota de Waterloo (1815) até à derrota de Fachoda,
desde a expedição ao México (1861-1867) até à expedição de Suez (1956), desde a
capitulação de Sedan (1870), à rendição de Montoire (1940) e à rendição de Dien
Bien Phu (1954), da batalha de Trafalgar ao afundamento da frota de Toulon
(1942), aos reveses económicos, do Crédit Lyonnais, da Elf Aquitaine, à France
Télécom, ao Gan, à Dexia, aos mercados da Île-de-France e às despesas com
alimentação;
Assim como à
famosa «excepção francesa», que fará com que, num quarto de século, a França
terá perdido 40 por cento da sua quota de mercado no comércio mundial, levando
ao encerramento de 900 indústrias, a uma redução drástica do número de
trabalhadores de 6 milhões para 3,4 milhões, com o consequente aumento do
número de desempregados na ordem dos 4 milhões — um dos mais elevados da
Europa. Sem a menor reflexão, sem a menor contestação.
Uma desvalorização
que sanciona a perda de 40 por cento de quota de mercado num quarto de século e
marca o declínio da França para o nível das potências médias, um nível
sensivelmente equivalente ao da Turquia, nova potência regional no Médio
Oriente, agora em concorrência directa com a França. Um rebaixamento que marca,
ao mesmo tempo, oito séculos após as capitulações de Solimão, o Magnífico, a
capitulação da França na hierarquia das potências mundiais.
Durante o
mandato de Sarkozy, a França infligiu assim, em menos de uma década, dois
grandes reveses à Turquia: a proibição europeia e a criminalização do genocídio
arménio. A Síria, o seu ponto de convergência e conivência no século XX, terá
sido o seu ponto de confronto no século XXI.
Um resultado
imputável a uma política de duplicidade gerada por uma postura proto-fascista
inerente a toda uma parte da sociedade francesa, baseada, não numa visão
prospectiva, mas nos pressupostos ideológicos de uma classe política compulsiva,
movida por um pensamento convulsivo.
A França tem
sido frequentemente pioneira ao longo da sua história, mas essa especificidade,
alimentada por uma concepção hierática do universalismo da sua missão,
degenerará numa excentricidade ao ponto de se tornar um modo de comportamento.
Aos caminhos de cume que ambicionava percorrer, substituirá por vezes os
meandros lamacentos de caminhos tortuosos, reduzindo a névoa os benefícios
dessa postura antecipatória.
O Ocidente, em
particular o bloco atlântico, deve parte da sua vitória sobre a União Soviética
ao Mundo árabe e muçulmano, cujas iniciativas, mesmo as mais aberrantes,
apoiou, comprometendo os seus interesses a longo prazo, seja contra o império
soviético, no passado, seja contra o Irão, hoje, mesmo que esse mesmo Ocidente
tenha sido o adversário mais implacável das aspirações nacionais do mundo árabe
há quase um século, em Mayssaloune e em Alexandretta (Síria), em Sétif
(Argélia), em Suez (Egipto), em Bizerte (Tunísia) e, naturalmente, na
Palestina, a mais importante operação de deslocalização do anti-semitismo
institucional europeu para solo árabe.
À frente de um
Estado debilitado, mas expurgado dos traidores maléficos, o próximo presidente
pós-sarkozista de França deverá ser o presidente da solidariedade nacional e da
reconciliação pós-colonial. Em Argel, em Dakar ou mesmo em Damasco, e não o
presidente das opções sobre acções e de um atlantismo febril ao serviço do
sionismo… no Curdistão, no sul do Sudão, na Líbia e em Gaza.
Referências
1- A
documentação Francesa/Mundo árabe-Machreq Magrebe, revista trimestral N°152
(Abril-Junho 1996) «A política muçulmana da França» sob a direcção de Henry
Laurens.
2- «Do
Bougnoule ao Selvagem, viagem no imaginário francês» René Naba, Edições
Harmattan. 2002.
3- Paris, 2
de Novembro de 1915 (Arquivos do ministério dos negócios estrangeiros) Instrucções
de Aristide Briand, ministro dos Negócios Estrangeiros (1862-1932) a Georges
Picot, cônsul da França em Beirute. Documento publicado em «Atlas do Mundo
Árabe, geo-política e sociedade» por Philippe Fargues e Rafic Boustany,
prefácio de Maxime Rodinson (Edições Bordas)
Capítulo
IV A Europa face ao fenómeno migratório árabe-muçulmano
Os árabes-muçulmanos da Europa, o
primeiro grupo étnico-identitário de relevância a estabelecer-se fora da esfera
eurocêntrica e judaico-cristã.
Cinco séculos de colonização
intensiva por todo o mundo ainda não tornaram comum a presença dos «de pele
morena» em solo europeu, da mesma forma que treze séculos de presença contínua,
concretizada por cinco vagas de emigração, não conferiram ao Islão o estatuto
de religião autóctone na Europa, onde o debate, há meio século, centra-se na
compatibilidade entre o Islão e a República, como que para afastar a ideia de
uma integração inevitável deste grupo étnico-identitário nos povos da Europa —
o primeiro de tal importância a consolidar-se fora da esfera eurocêntrica e
judaico-cristã.
As questões são reais e
fundamentadas, mas, pela sua repetição (problema da compatibilidade entre o
Islão e a modernidade, compatibilidade entre o Islão e o laicismo), as
variações sobre este tema parecem, sobretudo, remeter para o velho debate
colonial sobre a assimilação dos indígenas, como que para demonstrar o carácter
inassimilável do Islão no imaginário europeu, como que para mascarar as antigas
fobias chauvinistas, apesar das relações sexuais de servidão nos territórios
coloniais ultramarinos;
Apesar da
mistura que ocorreu no Norte de África e no continente africano, apesar da
mistura demográfica que se verificou, nomeadamente nas antigas potências coloniais
(Reino Unido, França, Espanha, Portugal e Países Baixos), devido às sucessivas vagas
de refugiados do século XX provenientes de África, da Ásia, da Indochina, do
Médio Oriente e de outros locais.
Para além da
polémica sobre se «o Islão é compatível com a República ou, pelo contrário, se
a República é compatível com o Islão», a própria realidade encarregou-se de
responder ao principal desafio intercultural da sociedade europeia no século
XXI. Solúvel ou não, para além de quaisquer suposições, o Islão está agora bem
presente na Europa de forma duradoura e substancial, tal como a sua demografia
reflecte uma composição inter-racial, europeia, certamente, mas também, numa
proporção menor, árabe-berbere, negro-africana e indo-paquistanesa: Quatro mil
mesquitas, doze milhões de fiéis e 2,6 por cento da população europeia é de
origem muçulmana, de acordo com as estatísticas não oficiais relativas aos 15
países da Europa Ocidental divulgadas antes da adesão em massa dos 12 países da
Europa Central e Oriental (1).
Estes números
falam por si e dispensam qualquer comentário.
Sendo o
primeiro país europeu em termos da dimensão da sua comunidade muçulmana, a
França é também, proporcionalmente à sua superfície e população, o maior centro
muçulmano do mundo ocidental. Com cerca de cinco milhões de muçulmanos, dos
quais dois milhões têm nacionalidade francesa, conta com mais muçulmanos do que
nada menos do que oito países membros da Liga Árabe (Líbano, Kuwait, Catar,
Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Palestina, Ilhas Comores e Djibuti). Nesse
sentido, poderia justificar a sua adesão à Organização da Conferência Islâmica
(OCI), o fórum político pan-islâmico que reúne 52 Estados de vários
continentes, ou, no mínimo, dispor de um lugar de observador.
Em comparação,
com uma superfície de 9,3 milhões de km² e uma população de 280 milhões de
habitantes, os Estados Unidos contam com cerca de 12 milhões de muçulmanos, dos
quais 3,5 milhões são árabes-americanos, e 1 200 mesquitas. A comunidade
muçulmana de França compõe-se da seguinte forma: dois milhões de magrebinos,
dois milhões de cidadãos franceses, a maioria originária da Argélia e
repatriados para França aquando da independência desse país, bem como 400 000
africanos, 300 000 turcos e 100 000 asiáticos.
Em vinte anos
(1980-2000), foram fundadas cerca de três mil associações e construídos mil e
quinhentos locais de culto, entre os quais cinco grandes mesquitas, três das
quais na região parisiense — em Paris, Evry e Mantes-La-Jolie —, bem como em
Lyon e Lille.
Constituindo o
principal núcleo da população imigrante, apesar da sua heterogeneidade
linguística e étnica, com 12 milhões de pessoas, das quais cinco milhões em
França, a comunidade árabe-muçulmana da Europa Ocidental surge, devido à sua
efervescência — uma piada que, no entanto, esconde uma realidade —, como o 28.º
Estado da União Europeia.
Se a isso se
somar a adesão da Turquia, da Albânia e do Kosovo à União Europeia, o número de
muçulmanos elevar-se-ia a cerca de 100 milhões de pessoas, representando 5 por
cento da população do conjunto europeu, o que poderia comprometer, segundo os
defensores da direita radical europeia, à sua homogeneidade demográfica, à
imaculada brancura da sua população e às «raízes cristãs da Europa». A tal
ponto que a UMP, o partido sarkozista em França, instituiu uma cláusula de
salvaguarda, submetendo a referendo a adesão de qualquer novo país cuja
população exceda cinco (5) por cento da população total da Europa (2).
Para um
observador não informado, os números são impressionantes: a área metropolitana
de Paris concentra, por si só, um terço da população imigrante da França — 37
por cento, exactamente —, de todas as origens (africanos, magrebinos, asiáticos
e antilhanos), enquanto 2,6 por cento da população da Europa Ocidental é de
origem muçulmana, concentrada principalmente nas aglomerações urbanas.
Dez por cento
da população de Berlim, Bruxelas e Bradford é de origem muçulmana, enquanto
Colónia e Birmingham contam com entre 5 e 10 por cento de pessoas de origem
muçulmana e estão registadas mais de quatro mil mesquitas em toda a Europa, o
que representa, em vinte anos, uma multiplicação por 40 do número de locais de
culto. A França ocupa o primeiro lugar, com cerca de 1. 500 locais de oração,
seguida pela Alemanha em 2.º lugar com 800 e pelo Reino Unido (3.º lugar – 500
mesquitas). Os Países Baixos ocupam o 4.º lugar (230 mesquitas), a Bélgica o
5.º lugar (220) e a Suécia o 6.º lugar com 150 mesquitas. A Itália (7.º) e a
Espanha (8.º) contam, respetivamente, com 60 e 50 mesquitas. O suficiente para
inflamar imaginações febris e suscitar as fobias mais graves.
A sua importância em termos numéricos
e a sua presença na Europa, nos principais países industrializados,
conferem-lhe um valor estratégico que faz da comunidade árabe-muçulmana da
Europa o palco privilegiado da luta por influência travada entre as diversas
correntes do mundo islâmico e, por conseguinte, o barómetro das convulsões
políticas do mundo muçulmano. Durante muito tempo marginalizados, os
árabes-muçulmanos são agora alvo de uma dupla atenção, que se traduz numa
competição entre os países de acolhimento — que defendem uma política de
integração progressiva — e os países de origem — que lançam uma campanha de
sedução, numa estratégia cujo objectivo subjacente é, tanto para uns como para outros,
se não impedir o fundamentalismo, pelo menos criar uma esfera de influência no
seio da população expatriada.
Já um facto irreversível, o
enraizamento duradouro das populações muçulmanas na Europa, a generalização da
sua escolarização, a afirmação multifacetada da sua tomada de consciência, bem
como a irrupção na cena europeia das grandes contendas do mundo islâmico e a
profunda transformação do panorama social e cultural europeu que estas fenómenos
implicaram no último quartel do século XX, impulsionaram o início de uma
reflexão aprofundada sobre a gestão a longo prazo do Islão no contexto europeu.
As vagas de atentados que abalaram a
França durante duas décadas, a primeira em 1986-87, relacionada com o conflito
iraquiano-iraniano, a segunda em 1995, relacionada com o conflito argelino, bem
como os recentes atentados anti-europeus relacionados com os conflitos no
Afeganistão e no Iraque, que marcaram a actualidade entre 2002 e 2004, desde
Madrid, a Karachi (autocarro militar francês), passando por Ancara (consulado
britânico) e Marraquexe (centro cultural espanhol), em relação à caça à
«Al-Qaida» e à Guerra do Iraque, vêm recordar a proximidade dos dois
continentes e a sua interligação política e humana.
No entanto, sob
o efeito da precariedade económica e da ascensão dos conservadorismos, a Europa
— sob o pretexto da luta contra o terrorismo, em particular a França — tem
vindo a praticar, há um quarto de século, uma política de endurecimento em
matéria de segurança, ilustrada pela sucessão de leis sobre a imigração (leis
Debré, Pasqua, Chevènement, Sarkozy e Hortefeux), apresentando-se como um dos
países europeus mais na vanguarda da luta contra a imigração, quando, na
verdade, a sua população imigrante diminuiu 9 por cento numa década
(1990-1999).
O prémio neste
domínio cabe, incontestavelmente, a Nicolas Sarkozy, autor de nada menos do que
onze leis repressivas durante o seu mandato no Ministério do Interior
(2002-2007), ou seja, em média duas leis por ano (2). Desde a sua ascensão à
Presidência da República, este conjunto de medidas foi reforçado com um
dispositivo de rastreio genético e o estabelecimento de uma quota
administrativa equivalente a 25 000 expulsões por ano de estrangeiros em
situação irregular.
A euforia que se apoderou da França
na sequência da vitória da sua equipa multi-racial no Campeonato do Mundo de
Futebol, em Julho de 1998, não resolveu, no entanto, os problemas persistentes
da população imigrante, nomeadamente o ostracismo de facto de que é alvo no seu
quotidiano, o seu sub-emprego e a discriminação insidiosa de que é alvo nos
locais públicos, com as consequências que tal marginalização social acarreta: a
exclusão económica e, devido ao desvio social que provoca, a reclusão
prisional.
Os atentados anti-americanos de 11 de
Setembro de 2001 reacenderam a xenofobia latente, a tal ponto que, em momentos
de grande destaque na actualidade, como o atentado de Madrid de 11 de Março de
2004, se percebe uma verdadeira atmosfera de arabofobia e islamofobia.
Um quarto de século após a revolução
ocorrida no domínio da comunicação, dez anos após a comunhão inter-racial do
«Mundial de 1998», os árabes e os africanos continuam a ser, em França,
«indígenas», sub-representados na produção de informação, de um modo geral na
indústria do entretenimento e da cultura, e de um modo mais específico nos
círculos de decisão política, pela razão óbvia de que dificilmente são vistos
como criadores de ideias e programas, quando o seu desempenho intelectual não
admite qualquer contestação.
A importância
da presença árabe-muçulmana no panorama francês, bem como a profusão de
estabelecimentos religiosos e culturais, de meios de comunicação comunitários e
de desempenhos desportivos, não foi, de facto, acompanhada por um avanço
qualitativo da comunidade imigrante no que diz respeito a cargos de
responsabilidade no país de acolhimento. Com o amadurecimento da terceira
geração de imigrantes, formaram-se, sem dúvida, «ilhas de excelência» nos
domínios do desporto, da música, da literatura, da edição e da moda, mas não existem
pontes entre estas individualidades, às quais falta uma consciência colectiva.
A imigração, o
valor acrescentado da França, tanto a nível do conjunto mediterrânico como a
nível da Europa. A integração pressupõe uma conjunção de contributos e não a
amputação da matriz identitária de base.
No início do
terceiro milénio, a França sofre, evidentemente, de um bloqueio cultural e
psicológico marcado pela ausência de fluidez social. Reflectindo uma grave
crise de identidade, este bloqueio está, paradoxalmente, em contradição com a
configuração multi-étnica da população francesa, em contradição com a
contribuição cultural da imigração, em contradição com as necessidades
demográficas da França e, por fim, em contradição com a ambição da França de
fazer da Francofonia o elemento unificador de uma constelação pluricultural
destinada a servir de contrapeso à hegemonia anglo-saxónica a nível mundial, a
garantia da sua futura influência no mundo.
Na 12.ª posição
do ranking cultural das nações, o francês situa-se muito atrás do Reino Unido
(500 milhões de falantes), da Espanha (350 milhões de falantes), bem como do
árabe, que ocupa a 6.ª posição com 250 milhões de falantes, contra 120 milhões
de francófonos.
Prevê-se que
esta diferença aumente ao longo do século XXI, em benefício do inglês, a
primeira língua de comunicação mundial numa sociedade da informação, seguido do
espanhol, que dispõe, nos Estados Unidos — no coração do principal centro de
produção de riqueza e valores da era contemporânea —, uma sólida presença concretizada
por um terço da população norte-americana hispanofona, apoiada, além disso, no
sub-continente latino-americano; e, por fim, o árabe, com o seu imenso
reservatório humano, representado por uma comunidade de 1,2 mil milhões de
fiéis muçulmanos distribuídos por 52 países em todo o mundo, potencialmente
reciclável do ponto de vista linguístico e cultural. Pior ainda, no coração do
seu novo espaço vital, a União Europeia tende a tornar-se uma sucursal
linguística da OTAN, uma organização à qual a França foi obrigada a
reintegrar-se militarmente na sequência da Guerra do Golfo (1990-1991).
Confirmando uma
inversão de tendência sem dúvida irreversível, o inglês suplantou agora o
francês como língua de trabalho. 55% dos documentos de trabalho são redigidos
em inglês, contra 40% há dez anos e 44% em francês. Desde a criação da União
Europeia, em 1957, 80 por cento do trabalho interno era realizado em francês, o
que representa uma redução de 50 por cento em quase uma década.
É certo que a
adesão dos países bálticos e da Europa Central à União Europeia irá reduzir a
proporção de «pessoas de pele escura» no espaço europeu, mas o envelhecimento
previsível da população europeia torna a comunidade árabe-muçulmana um
verdadeiro desafio, devido à sua taxa de natalidade, ao seu dinamismo e à sua
flexibilidade salarial.
A integração
pressupõe uma conjunção de contributos e não uma amputação da matriz
identitária de base. A terceira geração proveniente da imigração, francesa por
direito ao abrigo do novo Código da Nacionalidade de 1998, é certamente
extremamente sensível ao seu ambiente internacional, como atestam os surtos de
violência de carácter confessional relacionados com a Intifada palestiniana, a
Guerra do Golfo (1990-91), o conflito na Bósnia (1990-1999), a guerra no
Afeganistão (2001-2002) ou a guerra contra o Iraque (2003). Não deixa, no
entanto, de ser portadora de uma dinâmica intercultural devido às suas origens,
ao seu perfil cultural e às suas crenças religiosas. Através das relações de
solidariedade verticais que poderia desenvolver com o país de origem e
horizontais a nível europeu, constituiria o valor acrescentado da França, tanto
a nível do conjunto do Mediterrâneo como a nível da Europa.
Desde que, no entanto, sejam
estabelecidos novos alicerces que integrem o Islão no seu contexto europeu e a
República no multiculturalismo. Desde que seja também criada uma esfera de
consenso que ultrapasse uma visão xenófoba do mundo, em contradição com a
missão universal da França.
Como factor de intermediação
socio-cultural, os «bougnoules» de outrora parecem destinados a ter a sua
revanche na vocação de assumir um novo papel de ponte da francofonia entre as
duas margens do Mediterrâneo, a vanguarda da «arabo-francofonia cultural» que a
França se esforça tanto por criar, a fim de fazer frente à hegemonia
anglo-americana e promover o diálogo entre as culturas, superando o seu passado
colonial.
1- «Do Bougnoule ao
sauvageon, viagem pelo imaginário francês», René Naba – Edições l’Harmattan,
2002
2- Eis a lista dos principais
textos sobre segurança aprovados durante o mandato de Nicolas Sarkozy no
Ministério do Interior
-Setembro de 2002: Lei sobre a
orientação e a programação em matéria de segurança interna
-Fevereiro de 2003: Lei que agrava
as penas por crimes de ódio racial
-Março de 2003: Lei sobre a
segurança interna
-Março de 2004: Adaptação do sistema
judicial à evolução da criminalidade
-Novembro de 2003: Controlo da
imigração e repressão da permanência irregular
-Janeiro de 2005: Luta contra o
terrorismo
-Abril de 2006: Repressão da
violência contra menores
-Julho de 2006: Repressão da
violência em manifestações desportivas
-Novembro de 2006: Prevenção da
delinquência, o que implica a alteração de um número recorde — 80 artigos — do
Código Penal.
Chapitre
V France Colonies: La France schizophrène?
Percurso
Maurice Audin – Ernest Pignon Ernest - 2003 (Argel)
Para mais informações: http://www.pignon-ernest.com/
http://www.pignon-ernest.com/download/articleaudin.pdf
Ao percorrer os séculos,
apresenta-se ao olhar um panorama bi-dimensional, um choque de ambivalências
francesas, onde, no Egipto, a figura de Champollion, o decifrador dos
hieróglifos, e a de Ferdinand de Lesseps, o construtor do Canal do Suez,
sobrepõem-se à de Kléber, cujos substitutos coloniais colocarão o poder do
kedive sob tutela e a economia do país sob controlo estrito, sob a liderança da
Companhia do Canal do Suez.
Na Argélia, a figura de Mons.
Étienne Duval, representante do clero anti-colonial e cardeal-arcebispo da
Argélia independente, contrasta com a do cardeal Lavigerie, braço religioso do
colonizador. Ainda na Argélia, a figura juvenil do martirizado Maurice Audin e
dos seus companheiros de luta, os «portadores de mala», Francis Jeanson e Henri
Curiel, de carácter indomável, e, por fim, a figura singularmente prestigiada
do general Jacques Pâris de la Bollardière, face a toda a hierarquia
político-militar francesa, desviada do caminho e desmascarada meio século mais
tarde pelo seu antónimo, o general Paul Aussaresses (1).
Para um
exército habituado a reviravoltas salutares e cujo mais ilustre oficial rebelde
não é outro senão o General Charles de Gaulle, em 1940, o líder da França
Livre, oposta à capitulação, a onda de choque desencadeada pela acção ousada do
General de la Bollardière — que pediria para ser destituído do seu comando na
Argélia em 1957, em sinal de protesto contra a tortura — demoraria, no entanto,
42 anos a atingir a hierarquia militar.
O dever de
desobediência a ordens manifestamente contrárias à ética universal é agora
reconhecido nas forças armadas francesas, consagrado num documento do
Estado-Maior do Exército de 1999 relativo aos «Fundamentos e princípios do
exercício da profissão militar no Exército». 42 anos: tendo em conta o
princípio da autonomia decretado por Bonaparte no século XVIII e concretizado
dois séculos mais tarde por Gaston Defferre, a assimilação foi rápida e os prazos
consideravelmente encurtados. Mas ainda há um longo caminho a percorrer.
Numa espécie de
reavaliação no final do século XX, a França reconhecerá a sua responsabilidade
no genocídio judeu. O recém-eleito presidente Jacques Chirac denunciará, em
1995, «a loucura criminosa do ocupante, apoiada, como todos sabem, pelos
franceses», convidando os seus compatriotas a assumir a «dívida imprescritível
da França para com os deportados judeus». Cinquenta anos para saldar a dívida
para com os judeus, outrora invejados pelas suas condições de vida ao ponto de
serem citados como exemplo — «felizes como um judeu em França», como se dizia
—, antes de serem abandonados ao seu destino sombrio.
Cinquenta anos
também para começar a saldar a dívida colonial com o triplo reconhecimento, em
2001, da França da sua responsabilidade tanto para com os Harkis, como para com
os antigos combatentes da África Negra (2), como em relação aos civis argelinos
durante a manifestação de 17 de Outubro de 1961 em Paris, dos quais cerca de
duzentos terão sido massacrados durante a repressão ordenada pelo então
Prefeito da Polícia, Maurice Papon.
Meio século
para resolver o conflito que minava a França. O lançamento, com grande alarido,
dos «julgamentos identitários» do final do século XX é, a este respeito,
revelador da verdade da história da França, ao trazer à luz da história os
antagonismos da sociedade francesa, dividida entre o «dever de memória» e a
necessidade do «esquecimento reparador». Os julgamentos de Klaus Barbie, Paul
Touvier e Maurice Papon, tal como anteriormente, no século XIX, o caso Dreyfus,
terão tido uma «função catártica» destinada a libertar a consciência nacional
francesa do seu passado, argumentará, a título de justificação tardia, o
académico Jean Pierre Royer (3) na sua «História da Justiça em França».
O Conselho de
Estado não se enganou ao atribuir a responsabilidade do Estado no caso Papon,
condenando-o a pagar, em partes iguais, a multa imposta ao antigo alto
funcionário, considerando que «o restabelecimento da legalidade republicana
pela portaria de 9 de Agosto de 1944 não implica, por isso mesmo, a
irresponsabilidade do poder público», na medida em que «certas decisões
permitiram e facilitaram as operações que constituíram o prelúdio da
deportação» (4).
A mesma ambivalência
verifica-se em África, onde a figura do governador Van Vollenhoven se opõe aos
«escondidos coloniais».
Governador-geral
da África Ocidental Francesa, Van Vollenhoven demitiu-se do seu prestigiado
cargo em Dakar — na altura, o orgulho da colonização francesa — para se alistar
no exército francês, incapaz de suportar a ideia de permanecer em segurança no
local enquanto os tiradores senegaleses partiam para defender o seu próprio
país durante a Primeira Guerra Mundial. Alistado como soldado de 1.ª classe,
foi morto em combate em 1915.
O seu nome foi
dado ao maior liceu francês de África, o liceu «Van vo» em Dakar, sede do seu
antigo comando, bem como a uma praça do 12.º arrondissement de Paris, junto ao
Museu das Artes Africanas e Oceânicas, como se fosse uma relíquia da
antiguidade. Van Vollenhoven não consta de nenhum diccionário francês, tendo
sido salvo do esquecimento apenas por estas duas referências, embora o liceu de
Dakar tenha sido renomeado após a independência do Senegal para assumir o nome
de Lamine Gueye, em homenagem póstuma ao defensor da «revolta dos soldados
negros do acampamento de Thiaroye».
Mas, para um
valente «Van vo», quantos impostores! Como aqueles oficiais de alta patente que
receberam com salvas de canhão o General de Gaulle, que chegou em 1942 a bordo
do cruzador Richelieu para recrutar combatentes ao largo de Dakar, e que
forçaram o seu irmão de armas a bater em retirada, a recuar para as profundezas
de África, onde se juntou a ele uma figura surpreendente, Félix Eboué, o primeiro
a aderir à causa dos territórios ultramarinos franceses, governador negro do
Chade, que fará de Brazzaville a capital da França Livre no continente negro, a
base de rectaguarda da sua luta para erguer o império e restaurar a honra
abalada da França.
Por cada Félix
Eboué, mais patriota do que muitos franceses de raça pura, quantos canalhas em
contraponto? Como aqueles oficiais de postura altiva e elegante que, para
apagar os vestígios dos crimes dos seus superiores e travar a contaminação
reivindicativa dos soldados negros de regresso da Europa, ordenaram o incêndio
do seu acampamento de Thiaroye (5), nos subúrbios de Dakar, no Senegal, logo
após a Segunda Guerra Mundial. Ou ainda aquele administrador colonial dos
Camarões, o bem chamado Toqué, de sinistra memória, que, para distrair as suas
tardes de tédio, se entregava a exercícios de «pirotecnia colonial», cercando
com cartuchos de dinamite os contribuintes recalcitrantes de raça negra antes
de os despedaçar com a explosão da carga.
Quantas
infâmias terão sido lavadas pela abnegação de um Albert Schweitzer (6), o bom
médico de Lambaréné, no Gabão. Quantas afronta foram apagadas da memória pela
humildade de um Raoul Follereau (7), o irmão mais velho dos leprosos no
Senegal. Quantas derivas mortíferas da «Françafrique», uma das formas mais
elaboradas do pacto de corrupção das elites à escala transcontinental, terão
sido compensadas pela dedicação de René Dumont (8), o precursor da ecologia
moderna, crítico precoce da pilhagem do Terceiro Mundo e do desperdício dos
recursos do planeta.
«Devia ter dado
ouvidos a Dumont», diria, desiludido, no final do seu longo mandato
presidencial no Senegal, Léopold Sedar Senghor, reconhecendo a posteriori o
zelo premonitório deste anticonformista desinteressado, oprimido pelo balanço
calamitoso da África pós-colonial, uma África que se apresentava, no final do
segundo milénio, como «o conservatório dos males da humanidade» (9): um
continente com cerca de setecentos milhões de habitantes, o oitavo em termos de
população mundial, que representa apenas 2,5 por cento do mercado mundial, com
uma elevada mortalidade neonatal, a esperança de vida mais baixa do mundo, a
taxa de analfabetismo mais elevada do planeta, da ordem dos 80 por cento, cuja
maioria dos habitantes, além disso, carece de acesso à água e à eletricidade, é
vítima de desnutrição, foi devastada pelo tráfico de escravos e se encontra
totalmente desarmada perante as catástrofes naturais e uma guerra civil
endémica.
Fora dos
circuitos habituais, longe dos círculos da sociedade dos bem-pensantes, estes
agitadores excêntricos abriram caminho na sociedade francesa e consolidaram a
humanidade da França no imaginário mundial, apesar de inúmeras depravacões.
Entre as figuras que simbolizam o prestígio universal da
França e a sua imortalidade contam-se, assim, Louis Pasteur, inventor da vacina
contra a raiva, Luc Montagnier, descobridor do vírus da SIDA (VIH), Victor
Schoelcher (10), artífice da abolição da escravatura, Auguste e Louis Lumière,
inventores da cinematografia, Pierre de Coubertin, fundador dos Jogos Olímpicos
modernos, os dez «Prémios Nobel da Paz» que marcaram o século XX, à razão de um
prémio por década, Aristide Briand (1926), Albert Schweitzer (1952), René
Cassin (1968), artífice da Declaração Universal dos Direitos do Homem, bem como
a organização pioneira na intervenção humanitária «Médicos Sem Fronteiras»
(1999).

Entre eles contam-se também os
protagonistas da prestigiada investigação científica francesa, coroada por dez
Prémios Nobel da Física ao longo de um século, incluindo dois de origem
estrangeira, Marie Curie (1903) e Georges Charpak (1992), quatro Prémios de
Medicina (François Jacob, André Lwoff, Jacques Monod (1965) e Jean Dausset
(1980)), quatro Prémios de Química, entre os quais Frédéric e Irène
Joliot-Curie (1935), bem como a sua plêiade de escritores, laureados ou não com
o Prémio Nobel, Rousseau e Voltaire, Albert London, autor do livro «Au Bagne»,
que denuncia o horror da prisão de Cayenne, Jean-Paul Sartre e Émile Zola, os
críticos francófilos ou simplesmente francófonos das tiranias, os martinicanos
Aimé Césaire e Frantz Fanon e o senegalês Léopold Sédar Senghor, o argelino
Jean Amirouche, os mediadores entre as duas margens Louis Massignon (11),
símbolo da compreensão entre o Islão e o Cristianismo, Maxime Rodinson, o
primeiro intelectual francês a ter exposto, em 1967, num discurso acessível à
opinião pública ocidental, as razões da «recusa árabe de Israel», ou ainda o
islamólogo Jacques Berque (12), um homem que dominou o século com a sua
estatura majestosa, «um dos raros pontos de referência que sobreviveram ao
colapso das ideias», segundo a expressão do político francês Jean-Pierre
Chevènement.
Ao longo dos
tempos, no sub-consciente colectivo das nações, estes pioneiros encarnaram a
verdadeira face da França e compensaram, em certa medida, a sua perda da
posição central que ocupava no início do século XX, bem como o seu eclipse
parcial na condução dos assuntos mundiais.
Potência
nuclear, membro de pleno direito do quadro de direcção mundial, tanto no
Conselho de Segurança da ONU como no G7, o grupo dos países mais
industrializados, e quinta potência económica, o francês ocupa, no entanto,
apenas o décimo segundo lugar no ranking cultural das nações, muito atrás do
Reino Unido (500 milhões de falantes), da Espanha (350 milhões de falantes) e
até mesmo do árabe, que ocupa a 6.ª posição com 250 milhões de falantes, contra
os 120 milhões de francófonos.
Prevê-se que,
ao longo do século XXI, a diferença se acentue a favor do inglês — a principal
língua de comunicação mundial numa sociedade da informação — e do espanhol, que
dispõe, nos Estados Unidos, no coração do principal centro de produção de
riqueza e de valores da era contemporânea, uma sólida presença concretizada por
um terço da população norte-americana de língua espanhola, apoiada, além disso,
no sub-continente latino-americano; e, por fim, do árabe, com o seu imenso
reservatório humano, representado por uma comunidade de 1,2 mil milhões de
fiéis muçulmanos distribuídos por 52 países em todo o mundo, potencialmente
reciclável do ponto de vista linguístico e cultural.
Pior ainda, no
coração do seu novo espaço vital, a União Europeia tende a tornar-se uma
sucursal linguística da OTAN, uma organização à qual a França foi obrigada a
reintegrar-se militarmente na sequência da Guerra do Golfo (1990-1991).
Confirmando uma inversão de tendência sem dúvida irreversível, o inglês
suplantou agora o francês como língua de trabalho. 55% dos documentos de
trabalho são redigidos em inglês, contra 40% há dez anos e 44% em francês.
Aquando da fundação da União Europeia, 80 por cento do trabalho interno era
realizado em francês, o que representa uma perda de 50 por cento em quase uma
década (13).
Mais grave ainda, no índice mundial
de corrupção, a França encontra-se na posição pouco lisonjeira de 23.º lugar,
com uma média de 6,7 e a classificação «razoável». Na cauda do pelotão dos
países membros da União Europeia, ao lado da Bélgica, de Portugal, da Itália e
da Grécia, mas muito atrás dos «grandes europeus», o Reino Unido, em 13.º lugar
(média de 8,3 e classificação «Bom»), e a Alemanha (média de 7,4 e
classificação «Razoavelmente Bom»), a anos-luz do seu discurso moralista. Para
um Estado prescritor do Direito, «o único país, a par dos Estados Unidos, a
reivindicar um discurso universalista», segundo a expressão em voga entre a
intelectualidade parisiense, a classificação da «Transparency International»
para 2001 soa como uma afronta, como uma confirmação do descrédito moral da
classe político-administrativa.
A identidade francesa parece, assim,
desestabilizada, tanto devido às mutações na função do Estado e da nação
ocorridas em consequência da mundialização/globalização, como devido à crise da
representação política resultante da corrupção da República que corrói o país
há quase duas décadas e que faz com que « uma sociedade tão pomposamente
assente no Estado de direito continue a gerar as mais graves formas de exclusão
e desigualdade» (14).
Ao longo de uma
década marcada por uma tripla revolução — geo-estratégica, tecnológica e socio-económica
—, resultante simultaneamente do desaparecimento da URSS, do ressurgimento de
sentimentos identitários nacionais de base étnico-religiosa, da marginalização
da energia nuclear na gestão colectiva das crises do pós-Guerra do Golfo, do
advento da guerra electrónica do futuro, e, por fim, da mundialização/globalização
dos fluxos e da «desregulamentação das fronteiras entre o nacional e o
internacional, o público e o privado, o civil e o militar», o establishment
francês, em contrapartida, parece paralisado por escândalos financeiros
retumbantes, atolado em processos judiciais inextricáveis que envolvem a
maioria das formações políticas e os seus dirigentes (contratos públicos da
Île-de-France, Office HLM de Paris, MNEF, ELF Aquitânia, Crédit Lyonnais, EADS,
Clearstream, Angolagate, o caso de Taiwan, etc.), a tal ponto que foi
instaurado um processo de acusação perante a Justiça — facto sem precedentes na
história constitucional francesa desde o marechal Pétain — contra um antigo
chefe de Estado, ele próprio o guardião das instituições, por casos
relacionados com dinheiro ilícito.
«O registo
criminal da República» apresenta assim o seguinte balanço revelador: 900
representantes eleitos constam da lista das 1 500 acusações proferidas na
última década, das quais 67,7 por cento dizem respeito a crimes financeiros
(contra 4,5 por cento à escala da população francesa) e 6,1 por cento de
processos por crimes contra bens e pessoas, incluindo crimes sexuais (15).
A França, que
foi o motor da construção europeia no seu início, parece agora estar à procura
de um novo impulso, à procura de um novo papel.
Suplantada
agora pela Alemanha, potência central da União Europeia, amplamente
desqualificada para liderar uma rede de pequenos Estados europeus, sem pontos
de apoio estáveis na sua esfera de influência árabe-africana e, além disso,
prejudicada por um sistema republicano de comportamento essencialmente
monárquico, que funciona com base na opacidade financeira de fundos secretos e
na impunidade administrativa, a França, a menos que se exponha a um novo
fracasso, parece estar à beira de uma séria revisão do seu funcionamento, de
uma dolorosa revisão dos seus modos de comportamento.
Todos os sinais apontam para este
diagnóstico: «Todo o corpo da nação está afectado. A democracia encontra-se em
baixa por doença prolongada e a França desliza lentamente para uma anarquia
tolerada. Os seus dirigentes estão desacreditados pela corrupção e pela
ausência de projectos. Os seus cidadãos, transformados em consumidores,
desinteressam-se da acção colectiva. Seja quem for o novo eleito, o próximo
Presidente da República terá de empreender uma grande limpeza… se não tiver o
carácter necessário para levar a cabo esta tarefa, a anarquia triunfará». Longe
de ser uma profecia ou de se tratar de um exercício de simulação, esta
constatação foi efectivamente feita por dois publicistas franceses, o
politólogo Jean Marc Lech e o jornalista Denis Jeanbar, na véspera das eleições
presidenciais francesas de… 1995, ou seja, um mandato de sete anos antes (16).
Um mandato de sete anos mais tarde,
sofrendo a mais severa derrota colectiva da sua história moderna, a França
apresentava o espectáculo paradoxal de um presidente eleito com uma vantagem
considerável sobre o seu adversário, mas sem uma base sociológica que lhe
conferisse uma forte legitimidade, além de ser criticado, mas, mesmo assim,
promovido como «baluarte da República». Um quinquénio mais tarde, durante o
mandato de Nicolas Sarkozy, a situação agravou-se com o «escudo fiscal» a
suceder à «fractura social», em plena turbulência bancária, com o seu cortejo
de medidas xenófobas de inspiração populista em benefício de uma oligarquia
indecente, a anos-luz do gaullismo, o corpus
doutrinário a que os dois últimos Presidentes da República se referem.
Nas vésperas do
século XXI, a França apresentava o quadro de um Estado cujos poderes se
encontravam minados tanto pela construção europeia como pela mundialização/globalização,
bem como pela má gestão, com um desperdício da ordem dos 700 mil milhões de FF
por ano (17), uma sociedade marcada pela desagregação dos laços colectivos, por
partidos políticos afastados das camadas populares, por uma esquerda socialista
a seguir as tendências da moda, por uma direita à deriva que renegava os seus
ideais, devastada por casos de corrupção, com um núcleo duro da extrema-direita
a representar 1/5 do corpo eleitoral, uma nação marcada pela ascensão do
corporativismo e do comunitarismo, bem como pela exacerbação, num contexto de conflito
israelo-palestiniano, do antagonismo judaico-árabe no território nacional.
Uma França
mergulhada na penumbra, sem pontos de referência, em busca de sentido, vítima
dos resquícios da sua memória. «As questões pendentes em França relativas a
Vichy e à Argélia continuam a assombrar a consciência francesa.»
«O voto étnico está prestes a
substituir o voto de classe», constata o historiador Benjamin Stora (18) na
sequência das eleições presidenciais francesas de 2002, considerando que
«embora o sentimento anti-semita revelado pelo regime de Vichy ainda estruture
poderosamente o imaginário da extrema-direita, este continua a ser refreado
pela memória das atrocidades nazis contra os judeus. Em contrapartida, a
questão argelina, uma história por resolver, incentiva fortemente (…) «uma
transferência de memória para a metrópole», defende Stora, considerando que,
para a extrema-direita francesa, «a guerra da Argélia nunca terminou. Sempre
revivida, ela encontra uma continuação através de uma luta contra o Islão e
legitima antecipadamente toda a violência para defender… a liturgia de uma
França enraizada na pureza de uma identidade mítica».
Para além da afronta eleitoral,
sintomaticamente caricatural da marginalização francesa no plano internacional,
está o comportamento da França no conflito afegão que se seguiu aos atentados
de 11 de Setembro de 2001 em solo americano: enquanto o mundo se mobilizava em
torno da resposta anglo-americana aos atentados de Nova Iorque e do Pentágono,
a França permanecia à espera da decisão do Tribunal de Cassação, proferida a 10
de Outubro de 2001, sobre o estatuto penal do Chefe de Estado, na sequência da
sua implicação em casos relacionados com dinheiro ilícito.
A França viu-se
assim encalhada, tal como o navio-almirante da sua frota, o porta-aviões
nuclear «Charles De Gaulle», sem aviões de longo alcance, nem mísseis de
cruzeiro, nem grupo aeronaval, limitando-se a colocar à disposição dos seus
aliados ocidentais uma fragata furtiva e um navio de reabastecimento.
No primeiro
grande conflito do século XXI, a França viu-se reduzida a uma função de «posto
de abastecimento no Golfo», segundo a expressão de um dos principais expoentes
do gaullismo, Philippe Seguin, antigo Presidente da Assembleia Nacional (19),
enquanto a Alemanha acolhia a primeira conferência de reconciliação inter-afegã
e a Grã-Bretanha assumia a liderança do contingente da força de interposição
internacional.
A honra da
França não residirá em recusar uma luta, mas em travar uma luta sem nunca
ofender a dignidade humana. A sua grandeza não consistirá em mutilar ou
rebaixar os outros, mas em elevar-se ao nível dos melhores entre eles, e a
«excepção francesa» que ela invoca deverá ser vivida não como um privilégio,
mas como uma exigência de excelência. Pelo menos, é esta a lição que a França
poderia retirar de um milénio da sua história, agora que, por sua vez, sofre
com o hiperpoder americano, que tanto infligiu aos outros ao longo dos séculos.
Esse deveria
ser o desafio que a França deveria assumir para si mesma, de forma que «os
países do norte e o seu apetite de domínio não sejam os principais coveiros da
humanidade», segundo a bela expressão de René Dumont, e para que à lei da selva
de um mundo unipolar impulsionado pelos conglomerados multinacionais finalmente
se substitua uma política com dimensão humana, uma «política de consideração»,
melhor expressão do respeito por si próprio, que a França do século XXI deveria
reaprender para reconquistar o respeito dos outros.
Referências
1-Paul Aussaresses: General francês
especialista em serviços secretos, fundador do 11.º Choc (braço armado da
divisão de acção dos serviços secretos franceses), ficará conhecido na
clandestinidade sob o pseudónimo de «Comandante O». Autor de uma obra que
causou escândalo sobre a tortura na Argélia, «Serviços Especiais – 1955-1957»,
Edição Perrin, 2001, nela relata o seu papel como torturador na Batalha de
Argel, nomeadamente na execução do responsável militar argelino Larbi Ben Mhidi
e no desaparecimento de Maurice Audin, professor comunista e defensor da
independência argelina. Após a publicação do seu livro, em Maio de 2001, foi
alvo de processos judiciais e aposentado compulsivamente.
Em primeira instância, o general
Aussaresses foi condenado a uma multa de 7 500 euros, em Janeiro de 2002, enquanto
quinhentos oficiais franceses, dos quais 328 generais, assinavam um manifesto
justificando a luta do exército francês na Argélia, no prefácio de um livro
branco sobre este tema.
2-A 25 de Setembro
de 2001, a França prestou uma homenagem solene aos Harkis com a colocação de
uma placa comemorativa nos Invalides. Por seu lado, o Conselho de Estado
sancionou, a 30 de Novembro de 2001, o Governo francês pela sua recusa em
reajustar a pensão militar de reforma dos antigos combatentes africanos do
exército francês, decisão cujos efeitos retroactivos deverão onerar o orçamento
do Estado em cerca de 12 mil milhões de francos.
Por fim, o
presidente da Câmara socialista de Paris, Bertrand Delanoë, descerrou, a 17 de
Outubro, uma placa numa das pontes de Paris em homenagem às vítimas argelinas
da repressão policial francesa.
3-«História da
Justiça em França», Prémio Malesherbes 1996, 3.ª edição revista, Ed. PUF, «colecção
Direitos Fundamentais – Direito Político e Teórico», Outubro de 2001, por
Jean-Pierre Royer, professor de Direito na Universidade de Lille II.
4-O Conselho de
Estado, por acórdão de 12 de Abril de 2002, condenou o Estado a pagar metade
das indemnizações civis impostas a Maurice Papon (ou seja, 50 por cento dos 720
000 euros, 4,7 milhões de FF), considerando que «a portaria de 9 de Agosto de
1944 relativa ao restabelecimento da legalidade republicana não implica, por
isso mesmo, a irresponsabilidade do poder público».
O mais alto
tribunal administrativo considerou, de facto, que «certas decisões permitiram e
facilitaram as operações que constituíram o prelúdio à deportação», citando,
nomeadamente, a criação de um campo de detenção em Mérignac, perto de Bordéus,
bem como a existência de um serviço para as questões judaicas encarregado de
manter atualizado um registo que identificava as pessoas de «raça judaica» ou
de «confissão israelita».
5-Thiaroye: Um
filme e um livro retratam a tragédia deste campo. O filme do cineasta senegalês
Ousmane Sembene, intitulado «Thiaroye», em homenagem aos 2 000 soldados senegaleses,
nigerianos, sudaneses e guineenses que, na perspectiva da sua desmobilização,
ousaram reclamar os salários em atraso há 18 meses, salários esses que, na
verdade, tinham sido desviados pelos seus superiores franceses, os quais, para
encobrir o seu crime, ordenaram o incêndio do quartel, justificando o seu acto
como uma medida preventiva contra uma eventual «contaminação democrática» de
África pelos soldados negros que regressavam da Europa. A obra «Das trincheiras
de Verdun à igreja de Saint Bernard, 80 000 combatentes malianos em auxílio da
França 1914-1918/ 1939-1945», de Bakari Kamian (Ed. Karthala), foi publicado
após o assalto da polícia francesa à igreja de Saint Bernard, em Paris, no Verão
de 1995, sob as ordens do ministro gaullista do Interior, Jean Louis Debré, com
o objetivo de expulsar de lá os africanos «sem documentos», em vista do seu
repatriamento forçado para África.
6-Schweitzer,
Albert (1875-1965): teólogo, músico, pastor e, posteriormente, médico, fundou
um hospital no Gabão, em Lambaréné, que viria a dirigir e onde residiria de
forma permanente a partir de 1924, dedicando a sua vida aos cuidados aos
doentes africanos. Prémio Nobel da Paz de 1924.
7-Raoul
Follereau (1903-1977): jornalista e advogado francês, dedicou a sua vida à luta
contra a lepra; fundador de uma colónia de leprosos no Senegal, na região de
Kaolack, lançou em 1954 o «Dia Mundial dos Leprosos» e, em 1966, a «Federação
Internacional das Associações de Luta contra a Lepra».
8-René Dumont
(1904-2001): «Agrónomo da fome», como ele próprio se definia, autor de uma obra
sensacional intitulada «A África Negra começou mal», com um diagnóstico
premonitório, publicada em 1962 nos primeiros dias das independências
africanas. Primeiro candidato ecologista às eleições presidenciais francesas,
em 1974, foi o crítico do «auto-genocídio planetário». Ver o seu retrato
publicado no jornal Le Monde na quarta-feira, 20 de Junho de 2001, «As verdades
excessivas de René Dumont», de Jean-Paul Besset.
9-«Françafrique,
o fracasso: A África pós-colonial em questão», de Baadikko Mamammadu,
empresário e antigo professor da Escola Superior de Ciências Económicas e
Comerciais de Douala (Camarões) (Ed. L’HARMATTAN, Abril de 2001).
10-Schoelcher,
Victor (1804-1893): político francês, sub-secretário de Estado no governo
provisório que se seguiu à revolução de 1948, travou uma luta incansável pela
abolição da escravatura nas colónias. Homem de esquerda, viveu no exílio em
Londres durante o reinado de Napoleão III. De regresso a França após a queda do
Segundo Império, ocupou um lugar na Assembleia Nacional como deputado da
Martinica e da Guadalupe. Em 1949, as suas cinzas foram transferidas para o
Panteão.
11-Massignon,
Louis (1883-1962): autor de importantes obras sobre o misticismo islâmico: «Os
Sete Dormentes de Éfeso» (1955), «Ensaio sobre as origens do léxico técnico da
mística muçulmana» (1927) e «A Paixão de Al-Hallaj, místico muçulmano» (1922).
Em sintonia com o Oriente, conseguiu — apesar de ser casado — ser ordenado
sacerdote da Igreja Greco-Melquita Católica.
12-Berque,
Jacques (1910-1995), islamólogo, professor no Collège de France, autor de uma
importante obra de divulgação do Alcorão: «O Alcorão, ensaio de tradução de
Jacques Berque», Biblioteca Espiritual — Edição Albin Michel. É também autor de
obras de referência para o conhecimento do mundo árabe, nomeadamente «Os Árabes
de ontem a amanhã» e «Egipto, imperialismo e revolução»1967), bem como «O interior do Magrebe (séculos XV-XIX)»,
em 1978. Numa mensagem de homenagem publicada aquando do seu falecimento, Jean
Pierre Chevènement, antigo ministro francês da Defesa e, posteriormente, do
Interior, descreveu-o como «um dos raros pontos de referência que sobreviveram
ao colapso das ideias», cf. versão francesa do jornal Al-Moharrer, publicado em
Paris na segunda-feira, 10 de Julho de 1995, n.º 19.
13-«A língua
internacional conquista Bruxelas», cf. jornal Libération, 27 de Julho de 2001,
Marie Cousin e Jean Quatremer.
14-«O olhar dos
vencedores, os desafios franceses da imigração», Sami Naïr, Figures Grasset.
15-Das 128
personalidades que exerceram funções governamentais desde 1992, 34 foram alvo
de inquérito, ou seja, um quarto do pessoal governamental francês, e o número
de acusações relativas a representantes eleitos desde 1990 situar-se-ia entre 2
000 e 5 000 pessoas; a região da Île-de-France, bem como a região da
Provença-Côte d’Azur, figuram no topo da lista, cf. «O registo criminal da
República», de Bruno Fay e Laurent Ollivier, Edições Ramsay, Janeiro de 2002.
Além disso, trezentos e setenta e cinco (375) representantes eleitos franceses
foram alvo de inquérito só em 1998, o que ilustra o elevado grau de corrupção
política francesa; ver «L’Omerta française», de Sophie Coignard e Alexandre Wickham,
Edições Albin Michel, Outubro de 1999.
16-Denis
Jeanbar e Jean Marc Lech, «A Grande Lavagem: Anarquia e Corrupção», Flammarion,
1995.
17-«O Grande
Desperdício – As Verdadeiras Contas do Estado», de Jacques Marseille, Ed. Plon,
Fevereiro de 2002
18-«Comunitarismo
branco ou República?», de Benjamin Stora, Le Monde, 24 de Abril de 2002
19-«A França é
“gerida por dois candidatos à Presidência da República (o Presidente Jacques
Chirac e o Primeiro-Ministro Lionel Jospin) que gerem a sua comunicação num
país que conheceu páginas mais gloriosas do que a actual, em que serve de posto
de abastecimento no Golfo”», opinou Philippe Seguin, uma das figuras de
destaque do partido neo-gaullista, no semanário L’Express de 25 de Outubro de
2001, em «A Co-habitação Chirac-Jospin: Crónica do ódio», de Christophe Barbier,
Eric Mandonnet e Romain Russo.
Capítulo
VI: A identidade francesa em mutação
A euforia que
se apoderou da França na sequência do seu triunfo multi-racial no Mundial de 98
voltou, sem dúvida, a colocar o debate sobre a integração da terceira vaga de
imigração num contexto menos hostil para os cidadãos originários do terceiro
mundo, com toda a sua diversidade, mas o entusiasmo tricolor por esta equipa
multicolorida não deve, por isso, ocultar a grave crise de apatia que mina a
identidade francesa.
No rescaldo de
um Verão galvanizador, o diagnóstico impõe-se em toda a sua simplicidade, sem
complacência nem excessos. Os problemas persistentes da sociedade francesa
permanecem. Insistir em negá-los equivaleria a sucumbir a uma satisfação beata,
propícia a ilusões líricas e a graves desilusões.
A implosão da
direita francesa, nas suas duas vertentes moderada e radical, na sequência das
eleições regionais da Primavera de 1998 e da derrota nas eleições legislativas
antecipadas da Primavera de 1997, não parece ser fortuita. Tal como um
catalisador, revelou o profundo mal-estar da França, quarenta anos após a
fundação da V.ª República gaullista, um mal-estar tão profundo que sugere uma
crise da identidade francesa.
Os princípios
fundadores da excelência francesa parecem, se não deturpados, pelo menos
desrespeitados. Nem gestos retóricos, nem uma exaltação com conotações
nostálgicas conseguem esconder esta realidade, nem, pelo menos, remediar a
situação.
Primeira
constatação: a França marca a sua entrada no próximo milénio através da
celebração dos seus acontecimentos históricos. Esta tem sido a constante da
última década do século. Nunca um país pareceu tão empenhado em glorificar o
seu passado. Todas as datas do calendário são comemoradas: 500.º aniversário da
proclamação do Édito de Nantes (1598), que pôs fim à guerra religiosa entre
católicos e protestantes; o milénio do baptismo de Clóvis (1996), que marca a
adesão da França à cristandade; o bicentenário da Revolução Francesa (1989);
o 150.º aniversário
da abolição da escravatura (Maio de 1998), o centenário do manifesto acusatório
de Émile Zola contra a segregação político-religiosa («J’accuse», Janeiro de
1998), o quinquagésimo aniversário da libertação da França, o quadragésimo
aniversário da V. República e, por fim, o trigésimo aniversário da revolta
estudantil de Maio de 1968. Será que a França pretende, assim, compensar o seu
retraimento cauteloso sobre si própria ou puxar da sua glória passada a
esperança para o seu futuro?
Para ser
benéfico, este exercício não deve ocultar as páginas vergonhosas da sua própria
História. É sem dúvida essa a terapia levada a cabo com o julgamento de Papon.
Mas, para que a demonstração seja completa, é imperativo que o dever de memória
não seja selectivo. Embora os povos do Terceiro Mundo nunca tenham cultivado
uma ideologia de vitimização, e os seus cidadãos em França nunca tenham
recorrido a ela na sua luta pela aceitação, o arrependimento deveria abranger
as vítimas silenciosas, os aliados do período colonial, os povos colonizados
dos territórios ultramarinos, que, paradoxalmente, por duas vezes num século,
contribuíram fortemente para a libertação do seu colonizador em guerras que
lhes eram totalmente alheias — as duas guerras mundiais (1914-18, 1939-45), antes
de serem severamente reprimidos em Sétif (Argélia), no campo de Thiaroye
(Senegal) e em Madagáscar, sem dúvida como retribuição pela sua colaboração no
esforço de guerra francês.
É certo que a
ingratidão é a lei dos povos para a sua sobrevivência, mas a grandeza de uma
nação reside na sua coragem para reivindicar os seus actos e na sua capacidade
de assumir as suas responsabilidades. Apesar do passado segregacionista do seu
país, o Presidente Bill Clinton assumiu, em Abril de 1998, o legado americano,
afirmando, durante a primeira visita de um presidente americano ao continente
africano em 20 anos, que «África constituiu o mais belo presente oferecido aos
Estados Unidos».
Depois de
praticamente tê-la afastado da África Central, a América, rival da França em
África, acaba de ultrapassá-la neste terreno com as visitas marcantes do
presidente Clinton a Robben Island (África do Sul) e a Gorée (Senegal), antigo
centro de trânsito da escravatura negra, agora local de peregrinação dos
afro-americanos do Novo Mundo.
No entanto, nem
tudo é assim tão sombrio na doce França. Os motivos de orgulho são numerosos,
tanto no domínio da tecnologia de ponta (Airbus, Ariane, TGV), do armamento
(mísseis optrónicos) como na indústria do luxo; e a sua diplomacia, após um
longo período de letargia, esforça-se por fazer valer a sua diferença face à
hiperpotência americana, nomeadamente durante as últimas crises entre o Iraque
e os Estados Unidos. No entanto, estas ilhas de excelência não devem ocultar a
desorientação moral da sua classe política — a desafectação pela política, como
dizem os governantes e os politólogos para atenuar o seu impacto, como se se
tratasse de um fenómeno de moda —, os reveses da sua tecnocracia, a derrota da
sua política no seu próprio terreno africano e o fracasso das suas ondas na
batalha hertziana da esfera mediterrânica.
Segunda
constatação: nunca um país sofreu, em tão pouco tempo, uma erosão tão acentuada
da sua posição internacional e um encolhimento tão significativo do âmbito das
suas ambições. Ao dar prioridade à Europa, a Pátria dos Direitos Humanos
encontra-se a anos-luz do discurso gaullista de Phnom Penh (1965) e do discurso
humanista de Cancún (1981). A França pratica uma das políticas mais restritivas
da Europa em matéria de direito de asilo e imigração, sem, no entanto,
conseguir travar o avanço das teses da extrema-direita francesa, e isto apesar
da multiplicidade de leis que regulam a imigração — as leis Pasqua, Debré e
Chevènement, três em três anos, um recorde mundial absoluto.
Com o efeito do
Mundial a contribuir para isso, é curioso notar que o Sr. Charles Pasqua,
outrora na vanguarda da luta anti-imigração, tenha sido o autor de uma proposta
ousada que visa regularizar os imigrantes em situação irregular. No entanto, a
proposta do antigo ministro gaullista do Interior não é uma brincadeira.
Os institutos
de prospectiva concordam com a mesma constatação, nomeadamente que a imigração
constitui o antídoto para o envelhecimento demográfico da Europa. Assim, em
França, onde os estrangeiros representam 6,4 por cento da população, os
nascimentos de estrangeiros ou de origem estrangeira representam uma parte
significativa do total de nascimentos: 10,1 por cento em 1996.
Muito pior, a
França, segundo a OCDE, precisaria importar onze milhões de imigrantes entre
2010 e 2020 só para compensar a queda da fertilidade da população francesa e
travar o seu envelhecimento.
Como
consequência da política restritiva francesa, a elite francófona do terceiro
mundo deixa a França de lado em favor dos Estados Unidos. A proporção de
universitários estrangeiros nas instituições francesas caiu um terço em 10
anos, passando de 12,5 por cento em 1987-88 para 8,5 por cento em 1997. O
número de estudantes do Magrebe passou de 47.000 para 35.000 e o de estudantes
de África de 75.000 para 60.000. A circular Védrine de Maio de 1998, que visa
favorecer a entrada em território francês de diplomados do terceiro mundo,
tentou atenuar os efeitos desta política restrictiva.
No entanto, a
implementação deste «visto sensor de inteligência» no meio do debate sobre a
regularização de «sem-abrigo» pareceu reforçar a ideia de que a França se
preocupava em reter a «nata do Terceiro Mundo» e, ao mesmo tempo, tentar
livrar-se dos seus «resíduos».
Terceira
constatação: Neste país com uma velha tradição de centralização jacobina, o
serviço à comunidade nacional dá lugar à gestão da carreira pessoal e as portas
giratórias substituiem o sacerdócio do serviço público dos grandes funcionários
do Estado. Pior ainda. Desprezando a deontologia do comando, a França elevou à
categoria de culto a tributação automática e a irresponsabilidade
administrativa, abusando do «bode expiatório». O caso do Crédit Lyonnais é uma
ilustração eloquente, mas os relatórios anuais da Cour des Comptes abundam em
casos de desperdício, sem consequências judiciais.
A exceção francesa é vista como uma
impunidade, a tal ponto que parece ser a lei comum da classe
político-administrativa. No entanto, a impunidade nem sempre é de graça e a
gratuidade tem o seu custo: um presidente do Conselho Constitucional, a quinta
figura do Estado, um antigo presidente do Instituto do Mundo Árabe com um
passado duplamente prestigioso como antigo ministro gaullista e antigo ministro
socialista, cento e cinquenta parlamentares, antigos ou em exercício, assim
como meia dúzia de ministros e de prestigiados empresários encontraram-se em
dificuldades com a justiça por actos relacionados com dinheiro ilícito, sem
falar da rocambolesca novela do grupo petrolífero ELF, o verdadeiro Dallas à
francesa, ou do episódio vaudevillesco dos serviços de habitação social de
Paris.
Apesar da
retoma do controlo realizada na Córsega após o assassinato do prefeito da ilha,
estão a formar-se zonas de não-direito, não apenas nos bairros-ghetto da
imigração, mas também nos departamentos da faixa meridional do país, liderados,
aliás, por personalidades com aspirações presidenciais. Milhares de milhões de
francos, exactamente quinhentos mil milhões segundo as estimativas de Nazanine
Révaî, jornalista do Figaro, ou o equivalente a 20 vezes o orçamento da NASA,
evaporam-se em fumaça, para grande desespero dos contribuintes e da nova classe
de excluídos da sociedade, frequentemente vítimas de reestruturações
relacionadas com gestões arriscadas.
Em
contrapartida, como uma longa lamentação de desespero perante tal demonstração
de vaidade humana, uma crónica editorial de algumas das mais reputadas penas da
República das Letras critica o conformismo e o narcisismo elitista. Em vão. Os
seus argumentos são considerados inaceitáveis sob o pretexto de que fazem parte
de uma tentativa de desmoralização pública.
O primeiro a
dar o toque de alerta foi o sociólogo Michel Crozier, diagnosticando uma «crise
da inteligência» num «Ensaio sobre a incapacidade das elites em se
reformarem».
Foi de imediato
seguido pelo jornalista Jacques Julliard, autor de um estrondoso impropério
contra a nova traição dos intelectuais que gerem uma «democracia sem o povo»,
desviando a sua missão num país onde um Presidente da República, desautorizado
por uma derrota eleitoral dois anos após a sua eleição, pode institucionalmente
manter-se no cargo reivindicando o papel de chefe da oposição.
País onde um
ministro pode ser «responsável mas não culpado», um alto funcionário «nem
responsável, nem culpado», podendo este último, no entanto, ser sujeito a uma
sanção — o famoso «assento ejectável» à francesa — só pelo facto de ser
subordinado de um superior falível. A demissão de François Scheer, antigo
secretário-geral do Quai d’Orsay na altura do caso Habbache, em Janeiro de
1992, continua a ser um dos casos mais célebres de «bode expiatório
administrativo». No entanto, a lealdade não é necessariamente sinónimo de
complacência, tal como a competência não é antónima da lealdade. Nem toda a
crítica é um denegrir, nem toda a proposta é necessariamente demagógica, e o
bom senso pode, por vezes, suplir as construções intelectuais mais elaboradas.
A excepção
francesa deve ser vivida como uma ética e não como um privilégio, como uma
exigência de qualidade e não como um rendimento de situação. É a esse preço que
a França poderá voltar a ser o que foi no passado, um eixo de referência da
liberdade, da inteligência e da generosidade. Em poucas palavras, é através de
um impulso moral que a França deve pagar o preço da identidade francesa para
reconquistar o respeito dos seus cidadãos e manter o seu lugar e papel no
mundo.
No plano
Árabe-Muçulmano: a França, de facto, não pode ser o "depósito de lixo da
Europa", mas o Árabe por si só não pode ser o escape absoluto para todos
os problemas da sociedade francesa. O excesso de Árabes de que se queixa uma
parte da classe política francesa não se deve a um fluxo permanente de
imigração clandestina. A rigor, é necessário restabelecer a verdade histórica:
a maior vaga de Árabe-muçulmanos em França ocorreu no meio deste século para
ajudar a libertar um país que os seus próprios cidadãos não souberam defender
devidamente. Na altura, não se falava em quotas, nem em "limite de
tolerância", mas em sangue a ser derramado "em abundância". Da
mesma forma, exaltar Zidane não deve ocultar o suplício de Malek Oussekine, o
estudante marroquino morto durante os motins estudantis de 1986-87 e de outros
semelhantes, vítimas da tormenta do ódio racial, disfarçado de
"erro".
Primeiro país
europeu em termos de importância da sua comunidade muçulmana, com mais de cinco
milhões de muçulmanos, 2.000 locais de culto e quase 3.000 associações, a
França tem mais muçulmanos do que nada menos que nove países membros da Liga
Árabe: Líbano, Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Palestina, Ilhas Comores,
Djibuti e Líbia. Sob o efeito combinado do aumento dos conservadorismos e da
precariedade económica, a França parece ter optado por uma política de apertar
a segurança.
Deixando à
margem a sua própria comunidade muçulmana, ela tem, até agora, assegurado uma
gestão caótica do Islão francês, tal como ilustra a dança das siglas oficiais
que se sucedem conforme mudam as maiorias políticas. Assim, em seis anos, não
menos de seis organismos com vocação representativa passaram pelo palco público
com a ambição de unir as diversas componentes do Islão francês e de ser a sua
voz perante os poderes públicos. Concebido pelos socialistas, em 1990, o CORIF
(Conselho de Reflexão sobre o Islão em França) foi substituído, em 1993,
durante o governo de M. Édouard Balladur, pela Coordenação dos Muçulmanos de
França, e depois, em 1994, por iniciativa do então ministro do interior, M.
Charles Pasqua, pelo Conselho Consultivo dos Muçulmanos de França.
Em 1995, a adopção
da Carta do Culto Muçulmano levou a uma nova alteração da sigla, passando o
Conselho Consultivo a chamar-se Conselho Representativo dos Muçulmanos de
França, gerando um fenómeno de cisão, esta espiral vertiginosa desmoronar-se-á,
em 1996, com o surgimento de duas novas instâncias com função representativa: o
Alto Conselho dos Muçulmanos de França e o seu inevitável corolário, o Conselho
Superior das Mesquitas de França.
A nível do
ensino: Sexta língua no mundo pelo número de falantes (250 milhões) contra 125
milhões do francês (12ª posição mundial), o árabe parece ser a língua não
querida no campo do ensino em França, da mesma forma que os meios franceses
direccionados para o mundo árabe parecem ser os esquecidos do aparelho audio-visual
exterior francês. O ensino da língua árabe em França, tal como está actualmente
concebido, longe de favorecer a integração, acentua a segregação. A presença do
árabe situa-se maioritariamente onde está o seu público, ou seja, nos
subúrbios, e quase toda a audiência do ensino do árabe é de origem árabe. 'Parente
pobre' do ensino em França, o Árabe conta com 25 agregados e 67 certificados
para 70.000 alunos e estudantes, ou seja, uma percentagem de 0,48 por cento em
relação à totalidade da população escolar francesa.
Longe de
constituir um perigo, o desenvolvimento do ensino da língua árabe poderia
favorecer o surgimento de uma nova geração de cidadãos bi-culturais, capazes de
ser pontes entre as duas margens do Mediterrâneo. E em vez de serem vistos como
a "quinta coluna" de um mítico inimigo hereditário, esses cidadãos bi-culturais
poderiam ser os melhores divulgadores das realizações de um país que, não nos
esqueçamos, é o quarto maior exportador mundial.
Enquanto a
França reactiva a sua política em direcção ao mundo árabe, a sabedoria
aconselha garantir uma harmonização da política governamental em relação ao
facto árabe e muçulmano.
«Um estudo
prospectivo realizado para a União Europeia concluiu que a diferença de riqueza
entre o norte e o sul do Mediterrâneo irá duplicar até 2010 se nada for feito.
Declarando-se a favor de uma política de cooperação trans-mediterrânica, os
quinze no entanto só destinam à região 10 por cento dos financiamentos que dão
aos países em desenvolvimento.»
A nova projecção diplomática francesa
coincidiu, por um lado, com uma recomposição do panorama político árabe
resultante dos difíceis processos de sucessão (nomeadamente na Arábia Saudita,
na Palestina e na Jordânia), e, por outro lado, com a ascensão da nova geração
oriunda da imigração, um dos acontecimentos marcantes da próxima década. A
coerência implica, no plano interno, fazer um trabalho de pedagogia política
dirigido à opinião pública francesa, assim como abrir mais o ensino da língua
árabe em França, e, no plano internacional, reabilitar as emissões francesas
destinadas ao mundo árabe muçulmano. A valorização da imagem do árabe em França
é o primeiro passo para levantar o ostracismo que o afecta desde a época
colonial. Tanto é verdade que uma política de abertura em relação ao mundo
árabe é dificilmente compatível com uma política de fechamento em relação à própria
comunidade árabe muçulmana, assim como uma política de amizade com o mundo
árabe é igualmente incompatível com a demonização dos árabes em França.
Capítulo
VI Os esquecidos da República.
A pensão de um antigo combatente
«moreno», um salário étnico, injusto e cínico
Paris, 16 de Junho de 2009 – Em cada
comemoração nacional (11 de Novembro, 8 de Maio, 6 de Junho, 15 de Agosto), a
sorte miserável dos antigos combatentes árabes e africanos, muçulmanos ou
cristãos do exército francês, deixados ao seu destino, volta a emergir, numa
espécie de reflexo pavloviano tratado periodicamente pela imprensa como um
sinal de alívio da boa consciência francesa perante uma consciência crónica
culpada. «Os esquecidos da República» não o são realmente. São deliberadamente
mantidos no estado em que estão, deliberadamente mantidos no esquecimento da
sua condição apesar da emoção suscitada pelo filme «Indigènes» em 2006, na
esteira dos motins nos subúrbios franceses, apesar da surpresa fingida da
classe político-mediática face a este aspecto horrível da burocracia francesa.
Para lá
das indignações de ocasião, isso traduz a permanência de uma postura proto-fascista
inerente a toda uma parte da sociedade francesa.
A França,
que se recusa às estatísticas étnicas por as considerar contrárias aos
princípios fundadores da República francesa (Igualdade e Fraternidade), é, na
verdade, uma firme partidária desta prática discriminatória na remuneração dos
seus antigos combatentes de origem não francesa e, mesmo para além disso, na
mobilidade social das diversas componentes da sociedade francesa.
Para
memória, o balanço das perdas indígenas nas duas grandes guerras mundiais do
século XX ascendeu, só em mortos, a 113.000, ou seja, tanto quanto a população
combinada das cidades de Vitrolles e Orange, antigos redutos do Front National.
Na altura, não se falava de «nível de tolerância», muito menos de testes de
ADN, nem de voos da vergonha, mas de sangue a derramar em abundância, como
mostra o quadro seguinte:
A contribuição global das colónias
para o esforço de guerra francês
A contribuição global das colónias
para o esforço de guerra francês na 1.ª Guerra Mundial (1914-1918) ascendeu a
555.491 soldados, dos quais 78.116 foram mortos e 183.903 colocados na rectaguarda
no esforço de guerra económico para compensar o recrutamento de soldados
franceses na frente (1).
Só a Argélia forneceu 173.000
combatentes muçulmanos, dos quais 23.000 foram mortos, e 76.000 trabalhadores
participaram no esforço de guerra, substituindo os soldados franceses na
frente. A contribuição total dos três países do Magrebe (Argélia, Tunísia,
Marrocos) foi de 256.778 soldados, 26.543 mortos e 129.368 trabalhadores. A
África negra (África Ocidental e África Equatorial) aportou, por sua vez,
164.000 combatentes, dos quais 33.320 mortos, a Indochina 43.430 combatentes e
1.123 mortos, a Ilha da Reunião 14.423 combatentes e 3.000 mortos,
Guiana-Antilhas (23.000 combatentes, 2.037 mortos).
Para a Segunda
Guerra Mundial (1939-1945): O Primeiro Exército de África, que desembarcou na
Provença (sul de França) a 15 de Agosto de 1944, permitiu abrir uma segunda
frente em França após o desembarque de 6 de Junho de 1944 na Normandia. Este
exército de 400.000 homens incluía 173.000 árabes e africanos nas suas
fileiras. De Junho de 1940 a Maio de 1945, cinquenta e cinco mil (55.000)
argelinos, marroquinos, tunisinos e combatentes da África negra foram mortos.
25.000 deles serviam nas fileiras do exército de África.
Durante a campanha
de Itália, marcada pela famosa Batalha de Monte Cassino, que abriu o caminho
para Roma e, por isso, é celebrada como a grande vitória francesa da II Guerra
Mundial, dos 6.255 soldados franceses mortos, 4.000, ou seja, dois terços eram
originários do Magrebe e entre os 23.500 feridos, 15.600, ou seja, um terço
eram do Magrebe. Ahmad Ben Bella, um dos futuros líderes da guerra de
independência argelina e primeiro presidente da Argélia independente, estava
entre os feridos da Batalha de Monte Cassino. O mesmo aconteceu na campanha da
Alemanha: dos 9.237 mortos, 3.620 eram recrutas do Magrebe, e dos 34.714
feridos, 16.531 eram magrebinos.
«Os esquecidos
da República», a persistência de uma postura racista
A manutenção de
uma prática discriminatória na remuneração de antigos combatentes de origem não
francesa traduz o desprezo de França pelos seus antigos servidores, e pior,
pelos seus próprios princípios. Ela carrega a marca de um racismo institucional
subliminar na linha das avaliações dos trabalhadores coloniais do período
entre-guerras (1919-1939).
Tal como numa
cotação bolsista num mercado de gado, estes eram já na altura creditados com
pontos, com responsabilidades e remunerações correspondentes, de acordo com a
sua nacionalidade e raça, com distinções subtis consoante o seu local de
proveniência. Assim, o chinês situava-se no fundo da hierarquia, a sua produção
avaliada em 6 numa escala onde o marroquino era colocado em 8, o argelino
(árabe), o cabilo e o grego em 10, o italiano e o espanhol em 12, enquanto o
francês encontrava-se naturalmente no topo de todas as classificações com uma
nota inigualável de 20 sobre 20. Pontuação jamais alcançada por qualquer outra
nacionalidade, sob qualquer outro céu, em qualquer outra competição (2). (2).
A França decidiu
congelar o valor das pensões dos combatentes estrangeiros devido ao peso
financeiro que este encargo representava para o orçamento francês, apresentando
esta medida económica com considerações morais: congelar o nível da pensão à
data da independência dos respectivos países para marcar a separação da
metrópole. Este gesto simbólico de ruptura obscurece o facto de que os antigos
combatentes tinham servido o seu colonizador e não o seu país de origem.
Argumento
falacioso como poucos, não resiste à análise, tal como o argumento alternativo
que também se baseava em pura casuística: O congelamento das pensões ao nível
da obtenção da independência do país em questão evitava que os reformados
indígenas tivessem rendimentos superiores aos dos seus conterrâneos que não
combateram no seu país de origem, com o objectivo de prevenir qualquer
instabilidade no seu ambiente local.
Uma espécie de
nivelamento por baixo disfarçado pela palavra pomposa de «cristalização», por
analogia com o fenómeno químico.
As voltas
jurídicas não mudarão a realidade das coisas e, para além das considerações
económicas, a decisão francesa implica implicitamente um julgamento moral sobre
o valor relativo do sangue francês e do sangue indígena na bolsa de valores
entre irmãos de armas que, na altura, enfrentavam o mesmo perigo no mesmo
combate. Como justificar, então, esta discriminação no tratamento de um antigo
combatente francês que recebe 600 euros por mês de indemnização, de um
senegalês 100 euros por mês ou, pior, de um marroquino que tem direito a 60
euros por mês, ou seja, dez vezes menos que o francês, sujeito a uma obrigação
de residência de nove meses por ano em França.
Que isso agrade a quem quiser, a
disparidade das pensões de reforma constitui, sem dúvida possível, uma forma
insidiosa da diversidade à francesa, firmemente enraizada na consciência
nacional, e que o presidente Nicolas Sarkozy propõe actualizar como antídoto ao
princípio fundador da República francesa, o princípio da igualdade. A pensão de
reforma dos antigos combatentes indígenas surge assim como um salário étnico,
injusto e cínico.
Uma discriminação injustificável,
tanto ao nível do direito como da moral, pelo facto de penalizar estrangeiros
por compensarem a falha dos franceses na defesa do seu próprio território
nacional. Uma dupla penalização, em suma, em nome da gratidão.
A sua
manutenção, apesar das críticas, assinala a permanência da filiação
gobino-darwinista do corpus jurídico francês, materializada pela codificação do
Código Negro da escravatura (para o continente negro) e do Código do Indigenato
(para os muçulmanos da Argélia), nos séculos XVIII e XIX.
Uma filiação
confirmada no século XX pela implementação de uma teoria racial dos valores,
com a classificação dos trabalhadores coloniais segundo um critério étnico, a
criação dos «zoos humanos», assim como de um «escritório de assuntos do Norte
de África» no período entre guerras (1919-1939), precursor do «Comissariado
para Assuntos Judaicos» e da imposição da «estrela amarela» sob o regime de
Vichy (1940-1944).
Uma filiação
reiterada, por fim, no século XXI, pela discriminação salarial dos antigos
combatentes de pele morena e pelo teste de ADN para o reagrupamento familiar
dos trabalhadores expatriados da era Sarkozy.
Esta abordagem
racial está em contradição com a contribuição dos povos de pele escura para a
liberdade de França e para a sua reconstrução, em contradição também com os
princípios universalistas que a «Pátria dos Direitos do Homem» ambiciona
transmitir pelo mundo, uma teoria que, finalmente, prejudica França e
enfraquece o seu discurso humanista.
Do papel
positivo dos colonizados em relação ao seu colonizador
França, por
mais dolorosa que seja esta constatação para o nosso amor-próprio nacional, foi
o único grande país europeu a articular os dois grandes flagelos do Ocidente da
época contemporânea, «os impulsos criminosos da Europa democrática» (4), o
tráfico de escravos e o extermínio dos Judeus, ao contrário da Grã-Bretanha que
praticou exclusivamente o tráfico de escravos, sem de forma alguma participar
no extermínio dos Judeus, e até contrário à Alemanha que concebeu e realizou,
ela, a solução final da questão judaica, mas sem participação significativa no
tráfico de escravos.
Ela também se
distingue dos outros grandes países ocidentais não apenas no tratamento dado
aos seus antigos combatentes indígenas, mas também na sua dívida moral para com
eles.
Nunca nenhum
país no mundo deveu tanto a sua liberdade às colónias como a França, e no
entanto, nunca nenhum país no mundo reprimiu os seus libertadores tanto quanto
a França, muitas vezes de forma compulsiva.
Aqui reside o
paradoxo da França: Duas vezes num mesmo século, fenómeno raríssimo na
história, estes soldados da linha da frente, as vanguardas da morte e da
vitória, foram envolvidos em conflitos que lhes eram, etimologicamente,
totalmente alheios, numa «querela de brancos», antes de serem rejeitados, numa
espécie de catarse, nas trevas da inferioridade, devolvidos à sua condição
subalterna, severamente reprimidos assim que cumpriam o seu dever, como
aconteceu de forma suficientemente repetitiva para não ser por acaso, em Sétif
(Argélia), em 1945, cruelmente no dia da vitória aliada da Segunda Guerra
Mundial, no campo de Thiaroye (Senegal) em 1946, e, em Madagáscar, em 1947,
finalmente, nos Camarões, sem dúvida como forma de retribuição pela sua
contribuição para o esforço de guerra francês.
No Reino Unido,
ao contrário de França, a contribuição ultramarina para o esforço de guerra
inglês foi de natureza paritária, o grupo de países anglo-saxónicos
pertencentes à população Wasp (White Anglo Saxon Protestant) - Canadá,
Austrália, Nova Zelândia - forneceu efectivos sensivelmente iguais aos povos
morenos do império britânico (indianos, paquistaneses, etc.). Resultou daí a
proclamação da Independência da Índia e do Paquistão em 1948, ao fim da guerra,
ao contrário, mais uma vez, da França que se envolverá em dez anos de guerras
coloniais arruinadoras (Indochina, Argélia).
Outro paradoxo,
a sua estigmatização pelo termo «Bougnoule», termo que, no entanto, tira a sua
origem da expressão argótica deste pedido ante mortem. Por um desvio do
pensamento talvez único no mundo, a reivindicação última que precede o
sacrifício supremo - «Aboule Gnoule, traz o álcool» - a bebida que galvaniza o
assalto às linhas inimigas, acabará por constituir a marca de uma
estigmatização absoluta daqueles que terão contribuído massivamente, por duas
vezes, ao perigo das suas próprias vidas, para vencer, paradoxalmente, os
opressores dos seus próprios opressores.
Nos livros franceses, o calvário da
sua despersonalização e o seu combate pela restauração da sua identidade e
dignidade resumir-se-ão a esta definição lacónica: «Bougnoule, nome masculino
surgido em 1890, significa negro na língua Wolof (dialecto do Senegal). Dado
familiarmente por brancos do Senegal aos negros nativos, este nome tornar-se-á,
no século XX, numa designação insultuosa dada pelos europeus do Norte de África
aos norte-africanos. Sinónimo de bicot e de raton». Uma evolução semântica do
termo bougnoule ocorrerá com o tempo para abranger, muito além do Norte de
África, toda a França, todos os «melanodermas», árabo-berberes e
negro-africanos, acabando por se fixar no íntimo da consciência como a marca
indelével de um desprezo absoluto, enquanto paralelamente, por extensão do
termo raton que lhe é sinónimo, a linguagem corrente designava por «ratonnade»
uma técnica de repressão policial a punir o crime de aparência.
O Bougnoule
acabará por confundir, na mesma infâmia, todos os métèques do Império, a plebe
da República, promovidos ao estatuto de defensores ocasionais da Pátria, que na
verdade eram os defensores essenciais de uma pátria que sempre se quis
distinguir no concerto das nações, que por vezes se distinguirá de forma
horrenda, arrastando como um peso, Vichy, a Argélia, a colaboração, a delação,
a deportação e a tortura, as páginas vergonhosas da sua história, esforçando-se
durante décadas para expurgar o seu passado, e, por ter demorado a purgar o seu
passivo, pagará o preço em termos de magistério moral…….
Um país que ignora a sua história tende a
repeti-la, e as operações de recuperação parecem inúteis para a pedagogia
nacional. É o mesmo com o salário étnico dos antigos combatentes
"morenos" como com a exaltação do mártir do jovem resistente comunista
Guy Môquet (6), que permanecerá também sem efeito terapêutico enquanto não
forem denunciados os seus carrascos, aqueles que inscreveram o seu nome na
lista de suspeitos, assim como os que o entregaram aos alemães, ou seja, a
polícia francesa e o ministro do interior da altura, o distante predecessor de
Nicolas Sarkozy, autor desta mistificação memorial …
Da mesma forma, os artigos recorrentes sobre os
esquecidos da República continuarão a ser um puro exercício de estilo enquanto
o silêncio for mantido sobre a remuneração étnica e a face horrível do racismo
institucional francês.
Referências
1- Cf.: «O Império na guerra», publicação do serviço
histórico do exército, na qual o documento menciona o critério religioso dos
soldados originários de África. Este documento é publicado em anexo ao livro
«Do Bougnoule ao selvagem, viagem no imaginário francês», René Naba/ Harmattan
2002
2- «Uma teoria racial dos valores? Desmobilização dos
trabalhadores imigrantes e mobilização dos estereótipos em França no final da
Grande Guerra» por Mary Lewis, professora na New York University, in «A
invenção das populações», obra colectiva sob a direcção de Hervé Le Bras
(Editions Odile Jacob).
3- «A França em todas as suas declinações, Sobre o papel
positivo da colonização: Desconstrução dos mitos fundadores da grandeza
francesa» Cf.: «Do nosso enviado especial, um correspondente no teatro do
mundo» René Naba Harmattan Maio 2009
4- «As tendências criminais da Europa democrática» -
Jean Claude Milner – Edições Verdier 2003
5- Sobre o termo Bougnoule, suas origens, definição e
alcance simbólico: http://latelevisionpaysanne.fr/video.php?lirevideo=109#109
E na sua versão mixada em reggae: http://www.jamendo.com/us/album/972/
6- «Cf.: «Como Nicolas Sarkozy escreve a História de
França» do caso Dreyfus a Jean Jaurès a Guy Môquet, até ao planalto de Glières.
Por Laurence de Cock, Fanny Madeleine, Nicolas Offenstadt e Sophie Wahnic -
Edições Agone 2008
Fotografias de Philippe Guionie, Prémio Roger Pic 2008
pelo seu portfólio Le tirailleur e os três rios. Obra: Antigos combatentes
africanos, Ed. Les Imaginaires.
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Epílogo:
Manhattan Transfer, No coração do santuário americano
“O Islão não
assusta porque é próximo e essa proximidade desperta fantasmas?
É um ‘outro’ àparte,
nascido da mesma matriz abraâmica, arauto do mesmo monoteísmo revelado que não
parou, durante séculos, de colocar absolutos em concorrência à volta do
Mediterrâneo e das suas regiões limítrofes.
É capaz do
mesmo totalitarismo messiânico do qual a cristandade se fez culpada na sua
altura e que hoje se encontra em Israel, e tem uma pretensão – muito familiar
aos ocidentais – de fornecer às regiões onde é maioritário uma espécie de multifuncional
de reserva, tirando a sua legitimidade do campo religioso. Após um lento
processo de secularização, a Europa cristã trocou o messianismo evangélico pelo
do progresso. Em terras de Islão, o processo mal começou (...)
Os ocidentais
medem o poder de tais mobilizações messiânicas (...) Infelizmente, não é certo
que o bombardeamento do Afeganistão as neutralize.
«As belas
palavras do Ocidente», Libération, 24 de Outubro de 2001, Sophie Bessis, autora
de uma crítica notável ao modelo ocidental de civilização (O Ocidente e os
outros. História de uma supremacia, La Découverte, Paris, 2001).
Manhattan
Transfer: No coração do santuário americano
Comparável pelo
seu impacto e pelo seu alcance simbólico ao saque de Jerusalém (1099) e de
Constantinopla (1204), do qual seria, na imaginação do fundamentalismo
árabe-muçulmano, a réplica milenar, a "terça-feira negra" americana
do 11 de Setembro de 2001 não é o detonador da primeira guerra moderna do
século XXI, mas o último avatar colonial do século XX, e as bombas humanas
voadoras que atingiram os símbolos económicos e militares da superpotência
americana, -o Pentágono em Washington e as Torres Gémeas do World Trade Center
em Nova Iorque-, não eram propulsionadas por querosene, mas por quase um século
de espoliações, humilhações e frustrações acumuladas desde a promessa Balfour.
Por mais que
desagrade aos especialistas ocidentais, o terrorismo não resulta de uma criação
do nada. Também não constitui um fenómeno sui generis. Alimenta-se das feridas
e das manchas, do beco sem saída do desespero amplificado por uma exaltação
sacrificial. Nunca é de bom grado que um adolescente no início da sua vida se
cinture com dinamite para se desintegrar numa explosão, ou que um pai de
família, universitário com estudos superiores, se dedique a um paciente treino
de pilotagem aérea para embater num edifício, por mais prestigioso que seja,
por mais excitante que pareça essa perspetiva.
Tal como outros continentes, o
Ocidente também gerou monstros, como Hitler, e a defesa do «Mundo Livre» não é
um privilégio exclusivo seu. Ela também é fruto da contribuição dos povos do
terceiro mundo, asiáticos, árabes, africanos, de todas as religiões, muitos
milhares dos quais lutaram ao lado dos Europeus e Americanos contra as tiranias
do século XX. Nesse sentido, Verdun e Monte Cassino representam tanto vitórias
aliadas quanto vitórias árabes ou africanas.
Enquanto um prurido
beligerante tomou novamente os países ocidentais, no Afeganistão, no Iraque ou
na Líbia, alimentado pelos espectaculares e mortíferos atentados
anti-americanos - que fizeram, segundo o cômputo oficial, quase 3 000 mortos ou
desaparecidos -, pode parecer sensato lembrar que o mundo árabe-muçulmano
forneceu cerca de 1,2 milhões de combatentes durante as duas guerras mundiais,
dos quais 53 000 morreram nos campos de batalha do Marne e noutros lugares pela
libertação da França, o seu colonizador da época (1), e que cerca de 800
magrebinos do «Regimento de marcha Norte-africano de Paris», pertencente à 2.ª
divisão blindada do General Leclerc, participaram na batalha pela libertação da
capital francesa (2). O mesmo aconteceu com os contingentes indo-paquistaneses
recrutados para a defesa do Império britânico.
Herdeiros da
Europa e testemunhas privilegiadas dos seus desaires, os Estados Unidos
intervieram por duas vezes no século XX durante as duas guerras mundiais
(1914-1918/1939-1945) em auxílio das grandes democracias europeias antes de as
suplantarem como potência mundial, sem, contudo, tirar proveito dos erros
coloniais dos seus antepassados europeus. Sobre os destroços do colonialismo
francês e inglês, a América, apoiando as independências de Marrocos e da
Argélia na sequência da louca aventura tripartida (anglo-franco-israelita) de
Suez, em 1956, foi recebida como herói pelos povos árabes, mas, em desprezo
pelos ensinamentos da História, fundou a sua hegemonia numa colusão com as
forças árabes mais conservadoras e alianças contra-natura com os principais
inimigos do mundo árabe, desperdiçando assim o seu capital de simpatia através
de uma política errática ilustrada pela luta implacável que travou contra o
nacionalismo árabe renascente.
O pior, no auge
da Guerra Fria, ela instrumentalizou o Islão contra o ateísmo do bloco
soviético, preparando assim o terreno para o islamismo com a ajuda de uma
parceria com a Arábia Saudita, o país árabe mais conservador, acompanhada de
uma colusão estratégica com as potências regionais hostis ao mundo árabe, a
Turquia e Israel.
Apresentada
pela diplomacia americana como uma parceria das grandes democracias do Médio
Oriente, a aliança improvável entre o primeiro estado genocida do século XX e
os sobreviventes do genocídio hitleriano foi percebida pelas populações da
região como uma operação para controlar o mundo árabe pelo antigo colonizador
otomano dos árabes e pelo usurpador israelita da Palestina, ambos promovidos,
nesta circunstância, ao papel de «cães de guarda do imperialismo americano» e
beneficiando, por este motivo, juntos, de dois terços da ajuda militar
americana no estrangeiro.
Além disso, a
adesão total, absoluta, incondicional e intangível às teses mais extremas do
establishment político e militar israelita (Menahem Begin, Itzhak Shamir, Ehud
Barak, Ariel Sharon e Benyamin Netanyahu), apesar de todas as concessões árabes
e palestinianas, acabará por enfraquecer significativamente os seus protegidos
e aliados árabes, a marginalizar o mundo árabe e a gerar uma profunda repulsa
em relação à América, um país que apresenta para os seus críticos a dupla
desvantagem de ser ao mesmo tempo o protector de Israel e de regimes árabes
desacreditados.
O facto de os mentores
dos atentados de 11 de Setembro se terem recrutado na sua esmagadora maioria
dentro da nova burguesia saudita (quinze dos dezenove operadores eram de
nacionalidade saudita) dá uma medida da cegueira política americana e do
fracasso completo de uma política baseada numa ocidentalização forçada da
Arábia Saudita. Uma política concretizada pela atribuição de um crédito anual
de um milhar de milhões de dólares em bolsas de estudo a 150.000 estudantes
sauditas nas universidades americanas, que visava preservar uma influência
cultural americana duradoura no Reino Wahhabita. Paradoxalmente, acabou apenas
por consolidar o seu papel de bastião do fundamentalismo islâmico.
Uma diplomacia
de canhoneira e a negação das profundas aspirações dos povos indígenas na mais
pura tradição colonial europeia acabaram por gerar uma reacção materializada
pelo uso da arma do terror num combate assimétrico que desenvolveu ao extremo
uma cultura da morte com o objectivo, tanto em Nova Iorque, como em Washington,
como em Israel-Palestina ou noutros locais, de desestruturar o adversário na
falta da sua destruição.
Esta é pelo
menos uma das explicações para o desatar de violência sem precedentes contra
alvos americanos, com o Médio Oriente primeiro, depois a África, e por fim o
santuário nacional americano (Homeland), a ter sido, nas últimas duas décadas,
o palco desses ataques: quer em Beirute, contra a chancelaria e o P.C.
americanos em 1983-1984, em Khobar e Riade, contra bases americanas na Arábia
Saudita em 1995, em Dar es-Salaam (Tanzânia) e Nairobi (Quénia), contra as
embaixadas americanas nas duas capitais africanas em 1998, ou ainda ao largo da
costa do Iémen, contra o navio de guerra «USS Cole» em 2000, e finalmente em
Washington e Nova Iorque em 2001.
Em nome da realpolitik, os Estados
Unidos ligaram o seu destino regional ao regime político mais antinómico do
sistema americano. Pacto fundador de uma parceria estratégica selada entre dois
países que, no entanto, têm em comum o facto de serem co-detentores do recorde
mundial de execuções capitais, o “Pacto de Quincy” revelou-se, ele também, uma
aliança contra a natureza entre uma potência que se quer a maior democracia
liberal do mundo e uma dinastia que se reivindica como a monarquia teocrática
mais rigorosa do mundo.
Concluído em Fevereiro
de 1945 entre o presidente Franklin Roosevelt e o Rei Abdel Aziz, a bordo do
cruzador americano Quincy, este pacto assegurou a estabilidade do abastecimento
energético mundial e a prosperidade económica ocidental, por vezes em
detrimento dos interesses dos outros produtores do terceiro mundo, sem, no
entanto, satisfazer as reivindicações legítimas árabes, nomeadamente em relação
à questão palestina.
Em aplicação
deste pacto, que deu origem às derivações mais improváveis, a América assumiu
um papel etimologicamente retrógrado, em negação com os valores que professa.
Exemplo de
democracia e liberalismo no mundo, ela posicionou-se como 'padrinho' do reino
mais fechado do planeta, opondo-se às experiências de modernização e
democratização do terceiro mundo, como aconteceu no Irão, em 1953, durante a
nacionalização das instalações petrolíferas pelo líder nacionalista Mossadegh,
no Egipto, em 1967, contra o líder do nacionalismo árabe, Gamal Abdel Nasser,
ou mesmo na zona de influência americana, na Guatemala, em 1954, no Chile, em
1973, contra o presidente socialista democraticamente eleito Salvador Allende,
derrubado por uma junta militar a 11 de Setembro de 1973, curiosamente na data
do aniversário dos atentados em Manhattan e Washington, com o apoio activo dos
americanos.
Ainda em
aplicação desse mesmo pacto, a América decretou, após a invasão do Koweit em 1990,
uma mobilização internacional contra o Iraque, praticamente aniquilando este
país que outrora estava na vanguarda do Mundo árabe, mantendo-o em estado de
apoplexia, sob embargo quase doze anos após as hostilidades, alimentando assim
a acusação de parcialidade ocidental pela sua benevolência em relação a Israel,
suscitando em contrapartida uma vontade de reabilitação dos povos árabes e
muçulmanos que para muitos militantes islâmicos se confundiu com uma sede de
vingança.
Dom do céu para
uma ínfima minoria de líderes e privilegiados, o petróleo foi sobretudo uma
fonte de cobiça para os países árabes e muçulmanos e uma fonte de desgraça para
a sua população, ao ponto de, quatro vezes numa década (1980-1990), um feito
único na história, quatro armadas ocidentais terem-se destacado ao largo do
Médio Oriente para assegurar a segurança do abastecimento energético dos países
ocidentais em crude árabe, em 1982 ao largo de Beirute, durante o conflito
libanês, em 1986, ao longo do golfo arábico-pérsico durante o conflito
iraquiano-iraniano, em 1990-1991, contra o Iraque, e de novo em 2003, contra o
Iraque.
Desde o fim da
Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos procederam ao seu destacamento geo-estratégico
segundo a configuração do mapa do Almirante Harrison, concebido em 1942 com
vista a fechar um cerco a toda a Ásia e Europa.
Em aplicação da «teoria dos anéis
marítimos», eles assim articularam a sua presença num eixo baseado em três
posições-chave: o estreito de Bering, o Golfo Pérsico e o estreito de
Gibraltar, com o objectivo de provocar uma marginalização total de África, uma
marginalização relativa da Europa e de confinar num cordão de segurança um
«perímetro insalubre» constituído por Moscovo-Pequim-Delhi-Islamabade, contendo
metade da humanidade, três mil milhões de pessoas, mas também a mais elevada
densidade de miséria humana e a maior concentração de droga do planeta (6).
Se a guerra do
Golfo em 1990-1991 permitiu aos americanos tomar posição no coração dos
principais depósitos de petróleo do planeta, a guerra do Kosovo em 1999
permitiu-lhes estabelecer-se no coração da Europa central, particularmente na
Albânia, há muito considerada um bastião da ortodoxia comunista.
Na linha dos
seus objectivos, a guerra do Afeganistão deverá permitir-lhes, salvo acidente,
completar a sua missão ao tomar posição, pela primeira vez na sua história, no
Cáucaso, colocando a América no centro do dispositivo energético mundial
através do seu controlo do Golfo e das rotas de abastecimento de petróleo
transcaucasiano.
Perante este
primeiro grande conflito do século XXI, a Europa, que se quer um dos pilares do
terceiro milénio, viu-se rapidamente marginalizada pelo duo anglo-americano,
uma discreta pré-figuração da «Anglo-esfera», a aliança Wasp (White Anglo-Saxon
Protestant), cuja criação é recomendada pelos discípulos de Samuel Huntington,
o autor do «choque das civilizações», com vista a constituir sob a égide
anglo-saxónica um directório dos países pertencentes à civilização ocidental,
de raça branca (29% da população mundial), para a liderança do «mundo
livre».
A redefinição
da doutrina estratégica da NATO por ocasião do 50.º aniversário da aliança
atlântica, em Maio de 1999, com a adição dos antigos países do bloco soviético,
surgiu nesse sentido como um sinal precursor para os defensores desta tese.
Ao trazer o seu
apoio militar e diplomático aos Estados Unidos, subestimando a sua capacidade
de influência, a Europa aparece, aos olhos da comunidade internacional, como um
apêndice da América. A tal ponto que se coloca, em toda a sua brutalidade, a
questão de saber se a Europa abdicou da sua independência para se conformar com
o papel de promontório além-Atlântico da América ou se, retomando a sua antiga
vocação de berço da civilização, desenvolverá a sua própria autonomia face aos
Estados Unidos, fazendo dela uma «ilha à beira da Eurásia», para usar a
expressão do geógrafo Michel Foucher.
O Ocidente cristão pensou em purgar o
seu passivo com o judaísmo e em lhe mostrar a sua solidariedade expiatória
criando o Estado de Israel com o objectivo de «normalizar a condição judaica da
diáspora e enraizá-la em componentes nacionais claras», segundo a expressão do
escritor israelita Abraham B. Yehoshua (7). Mas, ao mesmo tempo, transmutou o
seu litígio bi-milenar com uma religião há muito considerada pelos cristãos
como «deicida» num conflito israelo-árabe e num conflito islâmico-judaico, em
negação da simbiose andaluza.
A Alemanha,
responsável pelo genocídio judeu do século XX, a Grã-Bretanha, autora da
promessa de Balfour de criar um lar nacional judeu na terra da Palestina, no
coração do espaço árabe, na intersecção da margem africana com a margem
asiática do mundo árabe, assim como a França pelos seus massacres coloniais
massivos em terras do Islão, são chamadas a assumir, ao lado dos Estados
Unidos, um papel à altura da sua responsabilidade anterior no nascimento do
conflito israelo-árabe e na exacerbação do sentimento anti-ocidental no mundo
árabe-muçulmano. Israel, por mais trágico que tenha sido o sofrimento dos
judeus devido às perseguições do século passado e por mais eminente que tenha
sido a sua contribuição para a cultura mundial, não pode ignorar o interesse
que 1,5 mil milhões de muçulmanos e 1,2 mil milhões de cristãos têm por
Jerusalém, uma cidade que o acaso da história destinou a ser o Lugar Santo das
três religiões monoteístas, nem conceber a sua perenidade com base na
espoliação do povo palestiniano.
Excepto se
quiserem precipitar uma nova fractura Norte-Sul ou alimentar um novo «choque
dos imaginários» (9), prelúdio de um novo conflito de civilizações, o Ocidente
terá de integrar os seus novos parâmetros nas suas relações com o mundo não
ocidental, tendo em conta o facto de que o Paquistão, a Arábia Saudita, e para
além disso, todo o mundo muçulmano, apesar de toda a sua grande boa vontade
pró-americana, são, por sua vez, cativos do legado de Osama Bin Laden,
independentemente do destino que tenha reservado para o seu antigo companheiro
de armas, sendo paradoxalmente dependentes, em parte, da sua consideração por
um dos vencedores do temível exército vermelho na guerra do Afeganistão, cujo
prestígio no mundo árabo-muçulmano só é superado pelo dos recém-chegados à cena
internacional, o libanês Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah e duplamente
vitorioso sobre Israel, o iraquiano Moqtada Sadr, grande decisor da vida
política iraquiana, o Hamas palestiniano na sua resistência corrosiva face a
Israel, até mesmo o líder palestiniano Yasser Arafat, cuja resistência
obstinada no seu reduto de Ramallah (Cisjordânia) face aos ataques das tropas
israelitas do general Ariel Sharon, levou o seu concorrente mais sério, o rei
Abdullah II da Jordânia, a elevá-lo ao estatuto de «herói do Médio Oriente de
todos os tempos», projectando-o numa dimensão heroica ao nível do mítico
revolucionário latino-americano Ernesto Che Guevara ou do derrubador do
apartheid branco na África do Sul Nelson Mandela.
Cinquenta e três por cento da população do
conjunto muçulmano atribui aos Estados Unidos e a Israel a responsabilidade
pelo «fosso criado entre o mundo ocidental e o mundo árabe-muçulmano» e
considera a política americana na zona como «arrogante, provocadora e parcial»,
segundo uma sondagem do Instituto Gallup para o jornal americano «US Today»,
realizada em Dezembro de 2001 e Janeiro de 2001, com uma amostra representativa
da população de nove países árabes e muçulmanos (11).
Ponto de tensão dos conflitos latentes entre o
Islão e o Ocidente, o conflito israelo-palestiniano e, de um modo geral, o
passivo pós-colonial será resolvido não pela coerção mas pela cooperação dos
vários protagonistas de um litígio que marcou o século XX para transbordar de
forma apocalíptica no novo milénio.
Referências
1-«A força negra
mobilizada» cf. «Paris Negra» de Pascal Blanchard, Eric Deroo e Gilles
Manceron, Editions Hazan, Setembro de 2001, assim como «Do Bougnoule ao
selvagem, viagem pelo imaginário francês» René Naba (Harmattan 2002).
2-Cf: Um
«caldeirão da nação» a reinventar: O exército abre-se timidamente aos Beurs»,
Karim Bourtel, Cf. Le Monde Diplomatique, Setembro de 2001, assim como a
revista «Islão de França» N°2-199 -«Apelo para a criação de um memorial dos
muçulmanos mortos pela França. «O Regimento de marcha norte-africano de Paris»
(RMNAP), comandado pelo Tenente-Coronel Massebiau, era composto por 400 argelinos,
250 marroquinos, 250 tunisinos e 300 europeus, ou seja, 800 norte-africanos num
total de 1 100 homens. Será dissolvido dentro do primeiro exército francês no
final do ano de 1944.
3 - Até 1999, a
Turquia foi o terceiro país beneficiário da ajuda militar americana, depois de
Israel e do Egipto. Só em 1997, a ajuda americana à Turquia na guerra contra os
autonomistas curdos superou a que este país tinha recebido durante todo o
período de 1950-1983 da Guerra Fria. cf. «Os Estados Unidos entre hiperpotência
e hiper-hedemonia, o terrorismo, a arma dos poderosos» Noam Chomsky-Le Monde
Diplomatique Dezembro 2001
4 - «Guerra das
ondas/Guerra das religiões, a batalha hertziana no céu mediterrânico» por René
Naba (Harmattan 1998)
5- O «Pacto de
Quincy», concluído no final do encontro em Fevereiro de 1945 no cruzador
americano Quincy entre o presidente americano Franklin Roosevelt e o Rei Abdel
Aziz Ibn Saoud, fundador do reino, baseia-se em cinco pontos. A estabilidade da
Arábia Saudita faz parte dos “interesses vitais” dos Estados Unidos, que em
troca asseguram a protecção incondicional do Reino contra qualquer ameaça
externa eventual. Por extensão, a estabilidade da península arábica e a
liderança regional da Arábia Saudita também fazem parte dos «interesses vitais»
dos Estados Unidos. Em contrapartida, o Reino garante a maior parte do
abastecimento energético americano, sem que a dinastia Ibn Saoud alienasse
qualquer parcela do seu território, sendo que as empresas concessionárias
seriam apenas arrendatárias dos terrenos. Os outros pontos dizem respeito à
parceria económica, comercial e financeira saudita-americana, bem como à não
ingerência americana em questões de política interna saudita. Cf. Richard
Labévière «os dólares do terror».
6 – «Guerra das
ondas..» René Naba op. citado.
7 – «A questão
judaica colocada ao mundo», cf. Libération 29 de Novembro de 2001, assim como
«Por uma normalidade judaica» – Edição Liana Lévi 1992.
8 – Para uma
população de seis mil milhões de pessoas, a distribuição das religiões é a
seguinte: Muçulmanos 19,5 por cento, Católicos 18,46 por cento, Hindus 14,03
por cento, Protestantes 9,14 por cento, Budistas 5,87 por cento, Ortodoxos 3,25
por cento, religiões chinesas 2,58 por cento, Animistas 1,63 por cento,
Agnósticos 1,49 por cento, Ateus 4,27 por cento (Fonte «povos do mundo» –
Libération sábado 19 – domingo 20 de Agosto de 2000).
9- A expressão
é do islamólogo franco-argelino Mohamad Arkoune, professor emérito na Sorbonne.
Conferência na Universidade de Balamand (Líbano) na qual ele defende uma
revisão fundamental das percepções tanto do mundo ocidental como do mundo
muçulmano, com vista a «fazer dos eventos de 11 de Setembro de 2001 um
«acontecimento». Jornal «L’Orient-Le Jour» de 16 de Abril de 2002.
10- «A dimensão
heróica de Yasser Arafat nas televisões árabes». Cf. notícia da AFP de 14 de Abril
de 2002 que retoma a declaração do Rei Abdullah II da Jordânia à cadeia
americana CNN feita na quinta-feira, 11 de Abril de 2002, após as conversações
do Monarca Hachemita em Amã com o secretário de Estado Colin Powell,
qualificando Yasser Arafat de «herói do Médio Oriente de todos os tempos». A
notícia acrescenta ainda que o Sr. Arafat é frequentemente apelidado pelos
manifestantes árabes de «Saladino» em referência ao vencedor da Cruzada, ou
ainda de Omar Ibn Khattab, em referência ao segundo Califa do Islão que recebeu
as chaves de Jerusalém.
11- O inquérito
do Instituto Gallup foi realizado com uma amostra de 9.924 pessoas provenientes
de 9 países árabes e muçulmanos (Arábia Saudita, Jordânia, Kuwait, Líbano,
Marrocos, Paquistão, Turquia, Irão e Indonésia), representando metade da
população de todo o mundo árabe-muçulmano. Publicado em 3 de Março de 2002 pelo
jornal «Al-Qods A-Arabi» de Londres, apresenta os seguintes dados: 77 por cento
dos entrevistados consideram os bombardeamentos americanos no Afeganistão
«moralmente injustificáveis», contra 9 por cento que lhes encontram uma
justificação. 53 por cento consideram a política americana «parcial,
provocadora, anti-árabe e anti-muçulmana» e consideram que os Estados Unidos e
Israel são «responsáveis pelo fosso que separa o mundo ocidental do mundo
árabe-muçulmano». Além disso, a maioria dos inquiridos duvida que as operações
tenham sido realizadas por árabes, 18% culpam «os círculos ocidentais» pelos
ataques de 11 de Setembro às cidades americanas. As opiniões mais favoráveis à
América foram registadas no Líbano (41%) e na Turquia (40%), seguidos pelo
Kuwait (28%) e pela Indonésia (27%). A Jordânia e o Marrocos empatam em quinto
lugar (22%), seguidos pela Arábia Saudita (16%), pelo Irão (14%) e pelo
Paquistão (5%). 58% dos inquiridos expressaram opiniões hostis ao Presidente
George W. Bush.
---
Trechos do
livro «Guerra das ondas, Guerra das religiões / A Batalha hertziana no céu mediterrânico»
de René Naba – Harmattan 1998
EXCERTOS
Capítulo VII: O descalabro das ondas francesas.
Perante os
predadores electrónicos anglo-saxónicos, a França cultiva quatro paradoxos até
ao paroxismo:
Líder da
Francofonia e estandarte da União Europeia na defesa de uma especificidade
cultural face aos americanos nas negociações da AMI, a França, primeiro
paradoxo, é o principal difusor de programas anglo-saxónicos, fora das estações
oficiais, no Mediterrâneo.
República
laica, um dos primeiros países ocidentais a proceder à separação da Igreja e do
Estado, a França, segundo paradoxo, é também a principal difusora de programas
religiosos estrangeiros nessa mesma zona mediterrânica. Líder dos países
latinos e durante muito tempo filha mais velha da Igreja, cuja adesão milenar à
catolicidade foi celebrada, em Setembro de 1996, a França, terceiro paradoxo, é
a principal difusora de emissões religiosas protestantes de origem
anglo-saxónica. Principal potência muçulmana da União Europeia, acolhendo a
maior comunidade árabe-muçulmana da Europa ocidental (5 milhões de pessoas),
principal palco de operações, ao nível europeu, das convulsões do mundo
islâmico, com o qual partilha uma frente marítima de 12.000 km, além de ser a
primeira potência mediterrânica que deveria ser a principal interlocutora da
margem muçulmana do Mediterrâneo, a França, quarto paradoxo, é o único grande país
ocidental que não dispõe de um «MEDIA DE SOBERANIA E DE PLENO EXERCÍCIO» num sector
que constitui, juntamente com África, a sua zona de acção privilegiada.
Percurso surpreendente aquele da
França, cujo balanço, ao fim de um quarto de século de estratégia de
comunicação, se resume à crónica de uma derrota programada. No início da década
de 70, a França estava entre os principais países na área dos Media, na esfera
euro-mediterrânica, e apesar da sua incontestável vantagem representada pelo
legado gaullista, um quarto de século depois encontrava-se na rectaguarda dos
grandes países ocidentais, ultrapassada até por novas potências regionais, como
a Arábia Saudita.
Nada, no entanto, destinava o
audiovisual externo francês a tal destino. Nada, a não ser esta falsa
preocupação com a excepcionalidade francesa, a famosa «especificidade» que
acabaria por se tornar vaidade. Nada, a não ser também e sobretudo uma
propensão para a «gestão em pânico», para usar a expressão do sociólogo Michel
Crozier.
Um
comportamento de espera, onde as soluções circunstanciais prevalecerão sobre os
regulamentos estruturais, um comportamento de receio, onde a ousadia de uma
antecipação será travada pela tranquilidade proporcionada pelo apodrecimento de
uma situação, onde a serenidade e a racionalidade darão lugar ao frenesim e à
improvisação geradas num ambiente de catastrofismo.
Com um poder
comparável ao do Reino Unido, a França apresenta um balanço oposto, mais exactamente
nos antípodas do seu rival inglês. Sem surpresa. Enquanto a BBC estende o
prestígio do Reino Unido além dos oceanos, a SOFIRAD, pivô do aparelho audio-visual
exterior francês, e o seu apêndice, a RMC Médio Oriente, mancham e ensombram
com os seus escândalos judiciais o prestígio da França pelo mundo.
Enquanto os
ingleses estão no auge, os franceses estão no seu momento mais baixo, à beira
da apoplexia: único país a ter três rádios a actuar no Mediterrâneo (RMC MO,
MEDI 1 e Radio France Internationale), a França é também o único país cuja
presença radiofónica registou um retrocesso notável nesta zona. Um alcance
reduzido à sua mínima expressão: a primeira rádio todas as categorias em todo o
Médio Oriente na sua criação, há vinte e cinco anos, a RMC MO não é, em 1996,
mais do que a primeira rádio estrangeira no Líbano e, em menor medida, na
Síria, sendo agora ultrapassada pela BBC tanto no Egipto, o país mais populoso
do Mundo Árabe, como na Arábia Saudita, o maior mercado de consumo árabe e, por
consequência, o principal fornecedor de receitas publicitárias do mundo árabe.
A França será
rapidamente ultrapassada não só pelos anglo-saxões, que garantem uma cobertura
integral e simultânea da zona nos melhores horários de audiência e com um
conforto de escuta óptimo, mas também pelos novos meios transfronteiriços
árabes (MBC, Radio Orient). Uma constatação há muito ocultada pela hierarquia
francesa do audio-visual externo, mas reconhecida pelo Presidente Director-Geral
da RFI, Jean Paul Cluzel, por ocasião da integração da RMC Médio-Oriente na
RFI.
No seu discurso
diante do pessoal da SOMERA, a 19 de Novembro de 1996, o novo presidente comum
às duas rádios francesas admitiu publicamente e pela primeira vez «a erosão da
audiência» da RMC MO, atribuindo-a, no entanto, ao surgimento de concorrentes,
como se a missão dos responsáveis não fosse antecipar a evolução das coisas,
prever o surgimento de potenciais concorrentes e, se necessário, neutralizar a
sua intervenção.
Pior ainda,
outra constatação prejudicial: ao contrário das grandes rádios ocidentais, as
três rádios francesas nunca conseguiram assegurar uma cobertura completa de
toda a área geográfica da sua esfera de competência. Apesar do dobro da
potência das antenas da RMC MO, a rádio continua inaudível durante grande parte
do dia, num arco de círculo que vai do sul do Cairo ao Golfo de Omã. Uma lacuna
ainda mais grave tendo em conta que, segundo a média das projecções
demográficas da ONU, o Médio Oriente abrigará três das vinte Megalópoles do
mundo do ano 2000, com o Cairo (14 milhões de habitantes), Teerão (13 milhões)
e Bagdade (12 milhões), três capitais situadas na esfera de actuação da RMCMO.
Quanto à RFI,
ela tem, nas ondas curtas, um público bastante reduzido, a ponto de um
comentário brincalhão lhe atribuir o incomparável privilégio de ser «a única
rádio no mundo que não corre o risco de processos por difamação», tal é o
limitado público arabófono no Médio Oriente. MEDI 1, por sua vez, oferece uma programação
bastante parcial das notícias, na qual qualquer crítica ao país anfitrião,
Marrocos, accionista maioritário da estação e um dos grandes actores da sua
área de difusão, está proibida.
Em
contra-corrente com as outras potências ocidentais, a «política das bacias de
audiência», um dos grandes dogmas da política francesa contemporânea, defendida
tanto pelos governos sucessivos como pelos grandes nomes do audio-visual,
acabou por resultar numa presença fragmentada, em contra-corrente com a
comunicabilidade dos fluxos entre os dois lados do mundo árabe, e por
fragilizar um dispositivo cujos investimentos significativos estão longe de
corresponder ao seu fraco rendimento.
Ainda em nome
da «especificidade francesa», a França aplicou à televisão a «teoria das bacias
de audiência», implementada com o sucesso ou insucesso que se conhece,
multiplicando os vectores TV5CFI, Canal Horizons, ARTE, etc... Se a segmentação
dos vectores se destinava a corresponder a uma fragmentação do público, fora da
Europa acabou por gerar resultados opostos.
Se esta
política teve algum sucesso na relação francófona (Europa-Quebeque),
traduziu-se, no plano televisivo, numa marginalização da França perante todo o
mundo árabo-muçulmano. Assim, apesar da multiplicidade dos media, rádios e TV,
a França não dispõe de nenhum meio trans-regional neste sector de grande
proximidade. A não ser que se queira fechar os olhos, o constatado impõe-se na
sua simplicidade.
Sem querer
alongar-me nas razões do seu atraso, atribuível tanto à escolha das pessoas
como a uma má interpretação do novo contexto regional, a França deveria
compensar o seu atraso face à concorrência anglo-americana e saudita através de
um avanço qualitativo, de modo a voltar a aceder a uma posição de liderança, a
posição que reivindica junto do seu vizinho imediato.
A França
deveria assim sair da sua timidez, do falso sentimento de conforto que lhe dá a
manutenção no audio-visual, de estruturas de tipo colonial, e começar sem
demora uma obra de reabilitação das suas ondas e de desconstruir de uma maneira
geral as suas relações com o Mundo árabe-muçulmano. Os seus dois principais vectores
destinados à zona sul do Mediterrâneo estão, de facto, em estado de quase
fracasso:
RMC Médio
Oriente e o Instituto do Mundo Árabe (IMA), os outros meios, por outro lado,
estão sujeitos à precariedade. Quem é que pode, de facto, garantir a médio
prazo a continuidade do dispositivo de Tânger (MEDI 1), quando se coloca o
problema da sucessão dinástica em Marrocos, e a viabilidade do dispositivo do
Gabão (Africa N° 01) quando a França acabou de sofrer uma série de reveses no
Ruanda e no Zaire, fragilizando a sua presença na África Central. A questão é actual,
mesmo que estes dois meios tenham algum sucesso, atribuível a uma espécie de
renda de situação, resultante tanto da existência de um mercado cativo como da
ausência de uma concorrência séria.
Radio Monte
Carlo-Médio Oriente: Ilustração sintomática dos problemas do audio-visual
externo francês
Instrumento de
acompanhamento do que se convencionou chamar de «política árabe de França», a
RMC MO ou SOMERA (Sociedade Monegasca de Exploração e Estudos de Radiodifusão)
foi criada em 1970 no âmbito da ORTF, sendo depois ligada à Sofirad, em 1975.
Única rádio ocidental de carácter comercial a operar em ondas médias para o
Médio Oriente, esta rádio francesa tem em Chipre um direito exclusivo que
proíbe a instalação de qualquer outra rádio comercial a emitir para o Médio
Oriente, e que lhe permite transmitir em todas as línguas, com excepção do
grego e do turco, as línguas vernáculas da ilha.
Esta cláusula
de exclusividade geográfica, válida até ao ano 2000, coloca a rádio francesa em
situação de monopólio no plano comercial, conferindo-lhe um privilégio tanto em
relação às rádios ocidentais como às árabes, e que explica em boa parte o
sucesso da SOMERA. Um privilégio pago a peso de ouro: um bónus de 25 milhões de
FF foi entregue em 1981 ao país anfitrião para impedir a instalação de um
possível emissor concorrente na ilha. Esta concessão foi renovada em 1991
Este vector,
destinado a servir de trampolim para o destaque cultural da França no Mundo
árabe, vai rapidamente transformar-se, por um desvio incrível, numa estação de
reputação duvidosa e prejudicar o país que supostamente deveria servir. De
facto, desrespeitando as regras mais básicas de funcionamento do serviço
público, a RMC MO vai ser captada por um clã familiar, sob a aparente
indiferença das autoridades de supervisão, a ponto de, na década de 80,
aparecer como a rádio das «falanges libanesas», as milícias cristãs libanesas,
sugerindo uma parcialidade da França no conflito libanês.
Ao longo desse
período conturbado da História do Médio Oriente (Guerra do Líbano, Guerra
Irão-Iraque, Intifada palestiniana, Guerra Chade-Líbia), a hierarquia editorial
apresentava as características típicas de uma estrutura nepotista: um director
de informação, acumulando as funções de Director de Programas e Director da
Antena, que abrangia todo o pessoal técnico. O seu próprio irmão e o seu
próprio sobrinho actuando como secretários de redacção, os outros cargos de
responsabilidade confiados à parentela do director.
Além disso, em
desrespeito às regras deontológicas profissionais, o director de informação,
transformando-se em gestor de publicidade, recebia comissões como angariador de
publi-reportagens dos países árabes, criando uma confusão lamentável de papéis.
Em 1982, ano marcado pelo cerco de Beirute pelo exército israelita, o director
recolheu, a título de «comissões por angariação publicitária», a quantia
considerável de três milhões de francos, enquanto a França se esforçava para
manter, a alto custo, a exclusividade comercial da estação de Chipre.
Noutras
palavras, a França estava a esforçar-se ao máximo para que um dos seus
empregados pudesse obter lucros pessoais substanciais adicionais por um
trabalho pelo qual já era pago e que fazia parte das suas funções
profissionais, sem qualquer benefício para a colectividade nacional. Algo nunca
visto nos anais da comunicação das grandes democracias ocidentais.
Pior, o seu
sucessor, desrespeitando as regras de neutralidade e sem se preocupar muito com
grandes considerações, firmou a antena francesa com empresários libaneses,
gratuitamente, enquanto alguns deles estavam directamente envolvidos no
conflito libanês. Foi o caso, em particular, de Roger Eddé, que tinha uma
rubrica semanal na RMC MO apenas por ser amigo do director. A presença
invulgar, mas regular, nas ondas francesas deste empresário de obras públicas e
porta-voz do General Michel Aoun, chefe militar cristão exilado em França,
nunca despertou a menor curiosidade das autoridades de supervisão. No entanto,
na sua dupla qualidade de político e empresário, o Sr. Eddé beneficiava de uma
tribuna incomparável e de uma publicidade igualmente grande, com as consequências
inerentes no plano político e comercial.
Que um
dispositivo mercantil clânico desses tenha perdurado durante quase duas décadas
e que, ao mesmo tempo, a França, através dessa mesma rádio, tenha podido servir
de vector ao proselitismo religioso americano numa área afectada pelo
integrismo, enquanto se apresentava como um modelo de diversidade cultural
humanista, que, enfim, tal excrescência tenha podido desenvolver-se e escapar à
vigilância dos grandes nomes do audio-visual público que se sucederam na liderança
da Holding francesa, seria, entre outras coisas, suficiente para explicar a
regressão mediática francesa.
Tanto laissez-faire acaba
inevitavelmente num colapso, materializado, neste caso, pela tempestade
judicial que soprou em 1994-95 sobre a Sofirad com a dupla condenação penal do
seu Presidente e Director-Geral e do Director-Geral da RMC MO. Tardia, a sanção
acabou por se abater em toda a sua brutalidade: a supressão da Sofirad está na
ordem do dia e a reestruturação da RMC Médio Oriente está em curso. Com
precauções infinitas, como se se tratasse de poupar susceptibilidades dos
sucessivos governantes corresponsáveis por este estado de coisas, o Senador
Jean Cluzel toma nota no seu relatório parlamentar anual:
«A gestão desta empresa (RMCMO), no
mínimo de laissez-faire, especialmente no que diz respeito ao pessoal, foi
sancionada, após um período demasiado longo, pela substituição do Director-Geral
(Jacques Taquet)».
E para encobrir
a falência audio-visual francesa para o Mundo árabe-muçulmano, o relator sénior
multiplica eufemismos: «As relações entre a RFI e a Somera reflectem a falta de
reflexão estratégica do Estado na sua acção audio-visual dirigida ao Mundo
árabe». Uma falta de reflexão estratégica que explicaria as «repetições
desagradáveis que diminuem a clareza da política francesa».
O diagnóstico
de fracasso feito sem rodeios, a reforma prometia ser radical. De volta ao
poder após uma longa fase de oposição, o poder neo-gaullista anunciava uma nova
era em clara ruptura com a «década de dinheiro e ostentação» tão criticada da
época do socialismo mitterrandiano.
Com grande
alarido publicitário, ele propunha dotar a França de uma força de impacto
mediático através do agrupamento de todos os vectores a actuar no cenário
internacional. O ponto alto desta reforma, cujo objectivo não era nada menos do
que manter uma sensibilidade francófona no domínio da comunicação mundial,
deveria ser o lançamento de um canal mundial de notícias francófono contínuo.
Em prelúdio ao que devia ser uma vasta operação de salvamento e reconquista, um
«super presidente» foi empossado à frente do aparelho audio-visual francês.
Confundindo sem
dúvida sincronização com orquestração, o poder chiracois, contra todas as
expectativas, escolheu um antigo Director da Ópera, Jean Paul Cluzel, para
alinhar os diversos operadores externos. Na altura, esta escolha foi explicada
pela proximidade de Jean Paul Cluzel com o primeiro-ministro da época, Alain
Juppé, de quem foi colega na École Nationale d’Administration e padrinho de um
dos seus filhos. Arquétipo dos «Juppé boys» que povoavam a alta administração
durante a passagem aos negócios do deputado-prefeito de Bordéus, Jean Paul
Cluzel, com um orçamento à altura, conseguiu a proeza, um ano após assumir
funções, de provocar uma greve geral na Radio France Internationale (RFI), em Março
de 1997, precisamente no momento em que o Zaire caía sob a investida de Laurent
Désiré Kabila.
Esta greve de
protesto de uma semana deixou afónica durante todo esse tempo a «Voz de França»
no continente africano, no momento em que uma das suas antigas zonas de
influência passava para o controlo dos seus adversários.
Outro palco de
intervenção do «super presidente»: o Médio Oriente. Como um acrobata das ondas,
Jean Paul Cluzel, completamente ignorante quanto aos infortúnios dos seus
antecessores no caos libanês, vai entregar-se a uma acrobacia
jurídico-financeira absurda para tentar pôr os pés na rede de FM em Beirute.
A operação
consistia, para se conformar com a legislação libanesa, em criar uma filial libanesa
da holding francesa, colocando à sua frente um jornalista libanês da RFI. Sem
recear a contradição, o “super presidente” solicitou a colaboração do grupo
Hariri, o adversário mais directo das estações francesas no Médio Oriente, para
a realização deste projecto, sem ter em conta, também, os riscos inerentes a
este tipo de operação, por exemplo, que a filial libanesa se libertasse da
tutela francesa e que o seu responsável se tornasse, pelo menos no Líbano, o
alter ego do seu empregador, o presidente da holding francesa, ou ainda que o
prestígio das ondas francesas e a sua linha editorial em território árabe
ficassem dependentes da gestão da filial libanesa.
Nenhuma dessas
considerações conseguiu ter um efeito decisivo na determinação do «super presidente»,
nem os avisos repetidos da autoridade de supervisão, que considerava este projecto
«estritamente perigoso», o desencorajaram na sua busca constante por um efeito
de anúncio. Apesar de todas as suas contorções jurídicas, o Sr. Cluzel foi
rejeitado no seu pedido por ter transgredido o sagrado princípio do equilíbrio
confessional nas estações francesas.
Aproveitando o
tumulto político provocado pela dissolução antecipada da Assembleia Nacional,
em Abril de 1997, o Sr. Cluzel, de facto, ordenou a redução do pessoal da RMC
Médio Oriente num movimento de reorganização, justificado sem dúvida pelo
estado das finanças da estação, mas que aos seus críticos pareceu ser um «plano
de purga étnica», de que a imprensa especializada francesa deu eco.
Ao nível do serviço
em árabe, o plano de redução de pessoal levou à saída de sete jornalistas e
animadores de várias nacionalidades árabes, todos de religião muçulmana,
enquanto, por outro lado, maronitas (cristãos libaneses) foram promovidos a
cargos de direcção e editoriais.
Ao ceder ao
enviesamento maronita, Jean Paul Cluzel reforçou a hegemonia deste clã dentro
da rádio e afundou a estação francesa na toca confessional libanesa. O «super
presidente» acabou assim por consolidar a ideia de que a França continua a
jogar com as minorias no Médio Oriente e que, excluindo os maronitas, nenhuma
outra religião encontra favor aos seus olhos.
É um mérito da França colocar-se como
protectora das minorias oprimidas, mas erguer-se como padrinho exclusivo dos
maronitas revela o estreitamento das suas ambições na esfera árabe, lamenta uma
nota de avaliação que circulou na comunidade jornalística de língua árabe na
Europa. Este documento, apresentado à atenção da hierarquia audio-visual, e de
que o autor pôde tomar conhecimento, lamenta ainda a confusão feita pelo «super
presidente» entre «cultura e culturismo», assim como o seu desconhecimento do
Terceiro Mundo e das complexidades da diplomacia internacional.
Longe de serem
vistas como os pontos nevrálgicos de uma guerra diplomática de dimensão
cultural, as várias posições no aparelho audio-visual externo foram por vezes
um cargo confortável para os apaniguados. Sophie Coignard e Marie Thérèse
Guichard, jornalistas da revista semanal «Le Point», sustentam, em essência,
que as boas relações baseadas em afinidades intelectuais, regionais ou
sentimentais constituem um dos impulsionadores socio-profissionais mais
poderosos, de longe mais importantes do que a competência ou a experiência.
No audio-visual
em particular, a sua obra cita casos recentes de nomeações baseadas unicamente
em critérios afectivos de «marginalidade partilhada». Menciona o caso de um
ministro da comunicação, assistido pelo seu conselheiro privilegiado, que gere
o seu campo de influência com uma atenção particular pelos seus amigos rapazes,
ou ainda o de um «Director de uma estação de rádio de vocação internacional,
que, logo à chegada, quis promover à sua volta algumas amizades masculinas
cuidadosamente escolhidas».
Numa área onde
a concorrência internacional é implacável, sem concessões, nem boas relações,
nem contorcionismos pélvicos dispensam o uso intensivo do córtex cerebral.
Coincidência desagradável: o desastre das ondas francesas ocorreu no momento
estratégico em que a concorrência anglo-saxónica e saudita fazia o seu
desdobramento planetário, acentuando a distância entre a França e os seus
rivais tradicionais.
Este
desenvolvimento é ainda mais frustrante para a França, uma vez que a
implementação dos vectores transfronteiriços sauditas, com a sua programação
bilíngue anglo-árabe, constituiu um obstáculo ao crescimento da Francofonia,
agravando também o declínio da língua francesa no ranking das línguas mundiais.
Com 500 milhões de falantes, o inglês ocupa o 2.º lugar mundial, atrás do
chinês (1,5 mil milhões) e empatado com o hindi, enquanto o francês (125
milhões), que tem quatro vezes menos falantes do que o inglês, encontra-se na
12.ª posição mundial. O francês situa-se assim logo à frente da Alemanha (13.º
lugar – 120 milhões), mas muito atrás do espanhol (4.º lugar – 381 milhões) ou
mesmo do árabe (6.º lugar – 250 milhões). O declínio da francofonia veio acompanhado,
paralelamente, de um fenómeno de sub-avaliação da língua árabe em França,
apesar de o Mundo árabe constituir o bloco geo-político mais populoso do seu
vizinho imediato.
Deste «Estado das coisas», decorre
que o aparelho audio-visual exterior francês está obsoleto face aos gigantes
ocidentais, assim como o espaço radiofónico francês é bastante poroso diante do
influxo das rádios e televisões transfronteiriças árabes que visam o público
árabe-muçulmano da Europa Ocidental. Nada menos que 27 canais de televisão
pertencentes a países árabes ou muçulmanos inundam a França com a sua
programação a partir dos satélites Arabsat ou Eutelsat Il F3.
Assistindo passivamente ao
redesdobramento dos seus rivais tanto a nível político quanto mediático, até
agora tem-se mostrado relutante em tomar uma iniciativa ousada que restaurasse
a sua influência e prestígio. Pior ainda. A dupla derrota das companhias aéreas
francesas face à British Airways, que agora controla 27 por cento do tráfego
aéreo francês, e a derrota das ondas francesas face à BBC não parecem ter tido
efeitos pedagógicos ou terapêuticos sobre os poderes públicos em França.
Assim, a
escolha dos responsáveis encarregados de implementar a reforma do aparelho
exterior francês pareceu responder mais a uma preocupação de bloqueio político
a nível interno do que a um desdobramento mediático a nível internacional. O
envio frequente de enarcas (antigos alunos da prestigiada École
nationale d'administration – ENA - em França – NdT),
por vezes sem ligação à informação ou mesmo à comunicação, para o topo do
dispositivo internacional audio-visual assemelhou-se, na última década, a uma
dança de privilegiados num contexto de ruptura social, justificando depois as
críticas populares à conivência enárquica das elites francesas e à sua cegueira
política e explicando em parte o revés eleitoral do poder de Chirac.
De uma
amplitude comparável à revolução energética, a revolução no domínio da
comunautica (A Communautique alegadamente
destina-se a trabalhar para democratizar o acesso à tecnologia com
vista ao desenvolvimento económico, cultural e social – NdT) começou
por iniciativa dos Estados Unidos, com uma vantagem de 10 anos sobre o século
XXI. No momento em que os grandes conglomerados anglo-saxões, esses «grandes
predadores electrónicos», travam uma batalha sem concessões para dominar as
infraestruturas de transmissão e difusão da informação, garantia da sua
dominação económica e cultural, a França, a não ser que queira auto-excluir-se
da competição, deve estar presente nesta batalha, por necessidade vital,
especialmente no seu quintal mediterrâneo, um sector que constitui, juntamente
com África, a sua zona de acção privilegiada.
Seria de facto
uma pena que a França ficasse de fora de uma zona que representa um mercado de
quase 400 mil milhões de dólares, e, além disso, é o centro histórico do Islão
com a Meca (Arábia Saudita), Qom (Irão), a Universidade egípcia de Al Azhar,
bem como, por extensão, o Instituto de Teologia de Lahore (Paquistão), um dos
grandes fornecedores da jurisprudência islâmica contemporânea. Seria igualmente
prejudicial que a atenção a esta zona fosse negligenciada devido à dispersão de
meios e à falta de imaginação criativa.
O que privaria a França de uma
presença tanto mais necessária quanto o facto religioso se torna um facto da
sociedade e um facto político importante no final deste século e, a nível
nacional, um facto incontornável. Em poucas palavras, cabe à França manter o
seu lugar, não ceder ao curto prazo e, acima de tudo, não insultar o futuro,
sob a influência de um cegueira que se espera passageira, ou mais simplesmente
de uma rigidez psicológica alimentada pelo amargo sentimento de nostalgia da
grandeza.
Fonte : Du Bougnoule au Sauvageon, voyage dans
l’imaginaire français –Harmattan 2002
Este livro foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice