Teorias da decadência, teoria do colapso, curso
catastrófico do capital e crise final
17 de Agosto de 2026 Robert Bibeau
Por
Gérard Bad. Fonte : http://spartacus1918.canalblog.com/archives/2009/07/18/14433667.html
Teorias da
decadência, teoria do colapso, curso catastrófico do capital e crise final.
Vamos primeiro apresentar os diferentes argumentos sobre a teoria da decadência e a teoria do colapso, bem como as suas variantes.
Para alimentar o debate, começamos pelo Grupo Comunista Internacionalista
(GCI), recorrendo a excertos do seu artigo «Tteorias da
decadência : decadência da Teoria » publicado em 1985 (no nº 23 de Comunismo).
Neste artigo, o GCI dirige-se essencialmente ao Grupo Comunista
Internacionalista (GCI), do qual faz parte, e tem a vantagem de elevar o debate
sobre a teoria das crises. O texto critica a «periodização» e o conceito de
capitalismo ascendente, depois senilmente decadente. Em seguida, passaremos às
teorias da decadência, e às variantes que fazem o julgamento das forças
produtivas.
Introdução do GCI
« A própria origem das teorias decadentistas (teorias
da “mudança de período” e da “abertura de uma nova fase capitalista: a do seu
declínio”…) encontram-se “estranhamente” nos anos 30, teorizadas tanto pelos estalinistas
(Varga) como pelos trotskistas (o próprio Trotsky) e por alguns
sociais-democratas (Hilferding, Sternberg,…) e académicos (Grossmann). É
portanto na sequência da derrota da vaga revolucionária de 1917-23 que alguns
produtos da vitória da contra-revolução começaram a teorizar um longo período
de “estagnação” e de “declínio”. Esta teorização permitiu assim a posteriori
manter uma coerência formal entre as “conquistas do movimento operário do
século anterior” (estamos a falar, naturalmente, das “conquistas” burguesas da
social-democracia: o sindicalismo, o parlamentarismo, o nacionalismo, o
pacifismo, a “luta pelas reformas”, a luta pela conquista do Estado, o rejeitar
da acção revolucionária …) e, devido à « mudança de período » (argumento
clássico para justificar todas as revisões/traições do programa histórico), o
surgimento de « novas tácticas » próprias desta « nova fase », que vão desde a
defesa da « pátria socialista » pelos estalinistas até ao « programa de
transição » de Trotsky, passando pelo rejeitar da forma sindical em favor da
dos conselhos para os « ultra-esquerdistas » (Cf. Pannekoek: Os Conselhos
Operários – ed. Bélibaste).
Comentário: Aqui acho que seria necessário denunciar a tese
das “conquistas” para a classe operária sob o modo de produção capitalista.
Conquistas não existem – toda conquista ou vantagem pode ser posta em causa e
retirada pela burguesia; “conquista” é um conceito reformista.
Também seria importante sublinhar aqui que a teoria da decadência implica
que o MPC desmoronará por si só sem necessidade de uma acção revolucionária do
proletariado, com a qual discordamos profundamente.
Aqui o GCI não hesita em colocar os pés
na questão da
teoria da decadência e
passa em revista o que considera um desvio da teoria, na pura tradição
bordiguista de restauração do programa comunista. Em seguida, o GCI indica as
razões para a promoção das diferentes teorias que negam a
totalidade/globalidade do capital. Cada uma agarrando-se a um ramo da economia
política marxista, para dele fazer o eixo que determina o todo, sem realmente
se dar conta de que os tomos I / II-III do
Capital são uma representatividade, no seu movimento, do ser capital em
processo. Noutras palavras, cada uma destas teorias prende-se apenas a um ramo
de uma suposta economia política marxista, enquanto que em O Capital Marx
procurou, num processo de crítica da economia política, descrever e reproduzir
o movimento histórico mundial do capital (que é uma relação social que define
uma sociedade na sua totalidade e não um sector – a economia – da actividade
humana)
Do ponto de vista do GCI, ele tem razão em criticar as “múltiplas” teorias
que vão desde a “saturação dos mercados” até ao “imperialismo: estádio supremo do capitalismo”, do “terceiro estágio
do capitalismo” à “dominação real”, do “parar do desenvolvimento das forças
produtivas” à “tendencial queda da taxa de lucro”… O que nos interessa num
primeiro momento é o conteúdo comum a todas estas teorias, a visão moralizadora
e civilizadora que elas implicam.
Em seguida, o GCI demonstra o carácter não dialéctico das teorias da
decadência.
« A dinâmica das sociedades de classes
(diz o GCI) não é como uma montanha com o seu declive ascendente, o seu cume e
o seu declive descendente, mas ao contrário – de acordo com a dialéctica
materialista – cada vez mais um antagonismo entre a classe dominante e a classe
revolucionária, e isto até à resolução desta contradição numa unidade superior
(negação da negação) correspondente à superação dos dois polos da unidade
anterior, ou seja, como um novo movimento de dois polos contraditórios. As
visões decadentes são portanto metodologicamente visões anti-dialéticas
correspondendo, não ao ponto de vista proletário, mas ao burguês do
evolucionismo e do imediatismo (= gradualismo). » e citar Bordiga a seguir
(Bordiga: Reunião de Roma 1951 in Invariance No.4) (Bordiga: « Diálogo com os
mortos » 1956).
O GCI, sem grande dificuldade, prova que
até os defensores do «decadentismo ou decadentismo e meio» são obrigados a
reconhecer o imenso desenvolvimento das forças produtivas.
« Para o grupo «
Socialismo ou Barbárie », que também nesta questão se manifestou como um
precursor do revisionismo moderno, tanto nas questões ditas económicas como nas
suas implicações políticas), é directamente liquidado pela simples constatação
feita por alguns decadentes eles próprios:
« A produção industrial mundial, em 1848, ultrapassava em 36% o nível de
1937 e em 74% o de 1929. Entre 1878 e 1948, a produção industrial mundial
aumentou 11 vezes. Durante o mesmo período, a população da Terra passou de
1.500 para 2.300 milhões de habitantes, ou seja, um aumento de cerca de 50%. »
(Castoriadis: « A consolidação temporária do capitalismo mundial », Socialisme
ou Barbarie No.3 – 1949)
Depois o GCI ainda reforça bem a ideia, com exemplos sobre todos os aspcetos
ideológicos da manutenção do capitalismo, para acabar com esta conclusão:
« As visões decadentes, na sua essência metodológica
burguesa, negação da dialéctica materialista, culto ao Progresso, à Evolução, à
Civilização, à Ciência, à Moral… são, portanto, concepções estranhas ao ponto
de vista comunista e constituem directamente obstáculos à compreensão e à
prática invariável do proletariado que luta pela defesa dos seus interesses
históricos. Ontem, hoje, amanhã, os comunistas defendem (e caracterizam-se)
pela defesa da invariância do programa revolucionário: revolução social
mundial, ditadura do proletariado para a abolição do trabalho assalariado,
comunidade humana mundial.»
O GCI tenta depois mostrar como, desde as suas origens, o capital se
apresenta como um ser mundial, como um estado mundial em relação ao
proletariado. Rejeitamos todos os nacionalismos, o direito dos povos à auto-determinação,
a libertação nacional, etc., tão bem criticados por Rosa Luxemburg. O GCI, para
apoiar os seus argumentos, cita Marx:
« A descoberta das regiões auríferas da América, a
redução dos indígenas à escravatura, o seu enterro nas minas ou a sua
exterminação, os primórdios da conquista e do saque nas Índias Orientais, a
transformação de África numa espécie de coelheira comercial para a caça às
peles negras, esses são os métodos idílicos de acumulação primitiva que
marcaram a aurora da era capitalista. Logo a seguir, irrompe a guerra
mercantil; tem o globo inteiro como palco. Começando com a revolta da Holanda
contra a Espanha, ela atinge proporções gigantescas na cruzada da Inglaterra
contra a Revolução francesa e prolonga-se até aos nossos dias em expedições de
piratas, como as famosas guerras do ópio contra a China. » (Marx: O Capital)
Desta citação, o GCI tira a seguinte conclusão:
« O que Marx demonstra aqui de forma magistral, para
além do facto da existência, desde o alvorecer
do capitalismo, do mercado mundial como “palco” da civilização capitalista, é o
carácter directamente imperialista do capital, o qual não precisou de
esperar uma ou outra data para se afirmar através do saque sistemático do
globo; não precisou de esperar por um “estágio supremo” para ser competitivo à
escala planetária, ou seja: imperialista. Tanto a essência do capital é
mundial, como esta é diretamente imperialista.
Aqui o GCI está totalmente em desvio, confundindo a mundialização da época mercantil e colonial com o conceito de imperialismo da época do capitalismo imperialista.
A época mercantil foi exclusivamente o saque e o comércio de escravos.
O capitalismo imperialista foi assimilado à
exportação de capitais e à partilha do mundo para se apropriar das
matérias-primas de que a dominação real do capital necessitava. Enquanto o
termo «imperialista» se apresentava como um adjectivo do capitalismo, para
mostrar a sua violência para a partilha do mundo, não havia razão para pôr em
causa este termo. Mas assim que este se torna um corpo doutrinal que supera o
capitalismo (o seu estádio supremo), o imperialismo capitalista de Lenine, onde
o capitalismo é rebaixado ao nível de adjectivo para nos fazer engolir «as lutas de libertação nacionais», já não
concordamos.
Outro
dos erros de Lenine foi alegar que, em 1916, no momento de
escrever o seu livrinho, o desenvolvimento das forças produtivas dentro do
capitalismo e a divisão das zonas de influência e dos sectores de exploração
das forças produtivas estavam completos e a partilha terminada, e que tinha
começado a fase degenerativa do capitalismo e da nova repartição. Estas duas
épocas (mercantil e capitalista) parecem confundir-se pela violência das
intervenções, mas são bem distintas, pois o período burguês distingue-se de
todos os outros (e é a única periodização aceitável).
« Esta constante mudança na produção, esta permanente
perturbação de todo o sistema social, esta agitação e esta insegurança
contínuas distinguem a época burguesa de todas as anteriores. » (O Manifesto
Comunista)
Esta distinção é a seguinte:
« É a tendência inevitável do capitalismo submeter
em todos os pontos o modo de produção, colocando-o sob a dominação do capital.
Dentro de uma sociedade nacional determinada, isso acontece necessariamente,
nem que seja pela transformação de todo trabalho em trabalho assalariado
através do capital. Quanto aos mercados estrangeiros, o capital força a
propagação do seu modo de produção pela concorrência internacional. » (Marx:
Grundrisse – Tomo II)
No que nos diz respeito, o único saque que nos interessa é o da força de
trabalho, os outros não são mais do que roubos entre capitalistas ou actos de
bandidos. O CGI conclui:
« Ver assim, nos mercados chamados ‘extra-capitalistas’, o próprio motor do
desenvolvimento capitalista (pois estes seriam a ‘única procura solvente’ –
tese de Rosa Luxemburgo), é essencialmente não perceber que o verdadeiro
problema é a produção necessariamente sempre mais elevada de mais-valia – de
mais-valia excedente (e não a sua realização, mas aceitando que é essa não
realização que impede e arruina a sua produção) e, assim, a troca entre
produção capitalista e produção ‘extra-capitalista’ é um absurdo, pois
significa directamente a existência e a dominação do mercado mundial, significa
pelo facto dessa troca a destruição (inexistência) dos chamados ‘mercados
extra-capitalistas’ que, na própria tese de Luxemburgo, desaparecem ao primeiro
intercâmbio. »
Vai notar que a parte
a negrito isola uma das manifestações do capital, para a opor a outra: a
produção de mais-valia versus a realização da mais-valia. Ao fazer isso, o GCI,
e ele não é o único, bloqueia o próprio movimento do capital na altura da
esfera de produção, enquanto outros, como PI, travam esse movimento na altura
da circulação das mercadorias (a realização da mais-valia pela venda). A crise,
já que é este o nosso tema, pode disparar, dependendo da situação, em tal ou
qual etapa dos três ciclos da metamorfose do capital.
Os três ciclos de reprodução do capital
« Os três ciclos têm o
mesmo objetivo, o mesmo incentivo: a produção de mais-valia. A forma da figura
1 indica-o claramente; o mesmo se aplica à figura 11, que começa por P, a
produção de mais-valia. Quanto à figura 111, o ciclo começa pelo valor
aumentado de mais-valia e termina num valor contendo uma nova mais-valia, mesmo
que o movimento se reproduza na mesma escala. (aqui seria interessante, se
forem citadas, mostrar estas três figuras 1, 11 e 111).
Enquanto M – A é A – M para o comprador,
e A – M é M – A para o vendedor, a circulação do capital representa
simplesmente a metamorfose ordinária das mercadorias, e as leis que foram
desenvolvidas em relação a estas últimas (vol. 1, cap. 111, 2) sobre a quantidade de dinheiro em circulação
aplicam-se aqui. Mas assim que não nos limitamos a esse lado formal e
estudamos, na sua ligação real, as transformações dos diferentes capitais
individuais considerados como movimentos parciais da reprodução do capital
total da sociedade, já não se pode explicar o fenómeno apenas pela simples
mudança de forma do dinheiro e da mercadoria.
Num ciclo que se
renova constantemente, cada ponto é, ao mesmo tempo, um momento inicial e um
momento final. Não é o mesmo num ciclo interrompido, onde cada ponto não marca
o início e o fim de um movimento. Assim, vimos que, não só cada um dos ciclos
pressupõe (implicitamente) os outros, como o renovar do ciclo sob uma forma
implica o seu cumprimento nas outras formas. A diferença é, portanto, entre
eles, puramente formal, puramente subjetiva; só existe para quem a observa.
Se considerarmos cada
ciclo como uma expressão especial do movimento realizado por diferentes
capitais industriais isoladamente, essa diferença existe sempre apenas como uma
diferença individual. Mas na realidade, cada capital industrial apresenta-se
simultaneamente nas três formas. Os três
ciclos de reprodução do capital realizam-se, sem interrupção, lado a lado.
É assim que uma fração do capital, funcionando como capital-mercadoria, se
transforma em dinheiro, enquanto outra sai da produção para entrar, como novo
capital-mercadoria, na circulação.
O ciclo M’… M’ é
portanto continuamente descrito e o mesmo acontece com os outros dois. A
reprodução do capital em cada uma das suas formas e em cada um dos seus
estágios é tão ininterrupta quanto as metamorfoses dessas formas e a sua
sucessão nos três estágios. O ciclo total resulta aqui da combinação das suas
três figuras.» (1) (CAPÍTULO IV do Capital T 2 - AS TRÊS FIGURAS DO PROCESSO
CÍCLICO).
No seu movimento, o capital assume duas formas: a do capital dinheiro
e a do capital mercadoria; a sua forma durante a fase de produção é a do
capital produtivo (não está claro produtivo, não é uma forma; meios de produção
– ferramentas – maquinaras seria uma forma comparável a dinheiro e
mercadoria??). Estas três formas de capital não são autónomas, elas são apenas
«formas funcionais particulares do capital industrial, que as assume as três
sucessivamente» (T II p. 57 ed. Moscovo)
Isso resulta no facto de que o ciclo total do capital só funcionará desde
que, em cada fase, passe sem interrupção de um estado para outro. Se ao longo
dos três ciclos o capital ficar preso numa fase, há crise. Na fase A-M, o capital dinheiro fica retido como tesouro;
se for na fase de produção, os meios de produção ficam paralisados e os operários
sem trabalho. Na última fase M’-A’, que é a da circulação das mercadorias,
estas acumulam-se sem conseguir vender-se. Por exemplo, para o capital
mercadoria, o período de circulação é o momento em que o produto é colocado no
mercado e assume a forma de mercadoria.
Em suma, a dificuldade de transformar a
mercadoria em dinheiro, de realizar a mais-valia através da venda, é que a
mercadoria tem obrigatoriamente de ser convertida em dinheiro para que a
mais-valia seja concretizada.
Por outro lado, o dinheiro não precisa
de ser imediatamente convertido em mercadoria. Daqui resulta que a venda e a
compra podem ser separadas. É essa separação que contém as sementes da crise, porque permite que as diferentes fases
da circulação do capital se dissolvam e se tornem "autónomas". A crise surge então como o acto violento
destinado a reunir as diferentes fases do processo de produção, que se tinham
tornado autónomas umas das outras.
Commentário
: (seria bom definir o conceito – de CRISE que tu introduziste. Além
disso, acima falas em REUNIFICAR, ACHO QUE ESTE NÃO É O TERMO CERTO, AS FASES
NÃO FORAM DESUNIFICADAS, UMA DAS FASES FOI PARALISADA E RESOLVER A CONTRADIÇÃO
CONSISTE EM REACTIVAR ESSA FASE PARA QUE ELA DEIXE DE BLOQUEAR TODO O CICLO –
TODO O PROCESSO de reprodução ampliada do capital ???)
Na crise actual, é em
primeiro lugar o carácter fictício do capital que aparece como o elemento
perturbador. Mais tarde, a crise vai estender-se aos dois outros ciclos do
capital e, portanto, ao capital total. Tudo isto vem, portanto, relativizar
fortemente os debates sobre a crise catastrófica, o decadentismo, a crise
final…
As manifestações da crise financeira
No capitalismo mercantil e industrial, o
crédito tem apenas um papel puramente técnico. É só um adiantamento sobre
vendas ou sobre produção futura. É a falta de venda das mercadorias (ou/ e o
não reembolso do crédito) que o faz parecer «supérfluo», como dinheiro que não
tem equivalente em valor realizável (o que de facto é).
Com o desenvolvimento do capitalismo
financeiro, (tu introduzes o capitalismo financeiro, seria necessário
defini-lo, o que é exactamente?) e a sua relativa autonomização (o que
significa isto e quais são as consequências desta autonomização relativa?), o
crédito torna-se o meio de antecipar produções futuras e de valorizar o próprio
dinheiro (o que significa isto em marxismo, valorizar o próprio dinheiro?).
Marx usará a fórmula segundo a qual o dinheiro deve trazer mais dinheiro como a
árvore de pereiras dá peras (a citação de Marx parece contradizer a tua
afirmação). A partir deste momento, a caixa de Pandora da especulação é aberta
e o capital financeiro aparece como vigarista e profeta.
Quando a crise irrompe, não é só a
sobreprodução (sobreprodução de mercadorias ou sobreprodução de meios de
produção? ou sobreprodução de capital, que dá ao mesmo???) ou o carácter
fictício das mercadorias (a sua não validação social) (não validação ou a sua
não realização, logo sem mais-valia???) que faz aparecer a não realização dos signos
monetários destinados a representá-las. Isso acontece sempre, claro, como nas
crises imobiliárias e, mais perto de nós, na sorrateira crise dos subprimes (2007-2008…). Mas, na maioria
das vezes, é o caráter fictício do “produto financeiro” que aparece neste
momento. Este produto está ligado às mercadorias através de combinações de
créditos que se sobrepõem e que devem ser pagos numa data determinada. Aqui a
crise explode devido à impossibilidade, não só de vender as mercadorias, mas
também de efectuar toda uma série de pagamentos baseados na venda dessas
mercadorias dentro de um prazo específico. Esta é a forma típica das crises
financeiras e monetárias.
O valor
É o auto-aumento do valor financeiro
(seria necessário dar a definição marxista do conceito de valor e depois ver se
VALOR financeiro é um conceito marxista) que se interrompe porque as
expectativas de alta que o sustentavam foram travadas por alguma razão (um
aumento das taxas de juro, a insolvência de alguns bancos ou de um país muito
endividado, a subida dos preços do petróleo, ou qualquer coisa que possa
desencadear vendas massivas de títulos por «precaução» e o pânico na bolsa).
O aumento da massa dos títulos
financeiros é impulsionado pelo do crédito (nomeadamente a dívida pública,
crédito concedido ao Estado), e amplificado pelos «efeitos de alavanca» dos
«produtos financeiros» modernos, como os CDS ou outros CDO 2.
O valor (será que é a palavra certa
VALOR) desses produtos financeiros é, em grande parte, fictício, e na medida em
que não se baseia em trabalho materializado, transformado numa mercadoria, a
sua desvalorização apenas penaliza a sua valorização virtual (avaliada por
Patrick Artus para a crise de 2007-2009 em 26 000 mil milhões de dólares),
capitalização de rendimentos hipotéticos, ou até simples aposta na evolução de
«noções» (taxas, índices, etc.)
Isso significa que, ao contrário da época do capitalismo mercantil e industrial,
na era do capitalismo financeiro não
são mais os produtos fabricados que se desvalorizam primeiro, mas sim os «valores»
em papel, o dinheiro... Não é trabalho materializado que não é validado
socialmente (mau negócio, excesso de produção), é capital fictício que é
constatado como tal, por não estar valorizado. Mas como o capital é mundial, é
todo o processo de valorização/desvalorização do capital (financeiro,
produtivo, comercial, industrial) que acaba por ser desvalorizado. É por isso
que a crise financeira, que começa com quedas nos mercados de acções e moedas,
é sempre uma crise do capital total.
Toda a crise provoca reacções em cadeia,
destinadas a proteger o «verdadeiro dinheiro» soante e trepidante (o ouro). O
ouro é rebaixado a apenas mais uma mercadoria. (Greenspan e os chineses pensam
o contrário e acumulam ouro metálico).
Apenas os títulos de Estados poderosos,
e os de alguns grandes trusts que parecem valores seguros. Esses valores
refúgio serão, portanto, essencialmente os títulos americanos, japoneses e,
acessoriamente, europeus, cuja função é substituir o ouro nas suas funções de
conservação de valor (veja-se o recente aumento do Iene). (Revê tudo isto
camarada BAD, o Iene é a moeda mais sobrevalorizada – endividada e posta em
risco tanto quanto o dólar e as obrigações das grandes empresas como a Apple –
o Google vai colapsar como a GM quase faliu em 2009).
Pelo contrário, os títulos e as moedas
dos países cujas capacidades de captação de riqueza social são mais baixas vão
sofrer um colapso (caso actual dos chamados países emergentes, que na verdade
são dependentes) e a dívida do terceiro mundo volta à tona.
Dizer que a crise se manifesta primeiro
na esfera financeira (essa é uma das formas da crise da actualidade) é dizer
que são principalmente as suas instituições, os Bancos, as Bolsas, os seguros,
mas também as moedas e títulos monetários dos Estados, que são atingidos, sendo
estes os principais representantes do capitalismo financeiro.
Os preços das acções caem. Alguns bancos
encontram-se em perigo por causa da insolvência dos devedores, já que os seus
fundos próprios são muito inferiores a esses créditos evaporados (e, aliás, em
grande parte constituídos por títulos financeiros agora desvalorizados). E como
estão todos ligados uns aos outros por dívidas recíprocas, é todo o sistema
bancário que corre o risco de colapsar como um castelo de cartas (o famoso
risco sistémico dos subprimes e CDS). Quanto aos Estados em crise que já não
podem pagar as suas dívidas, ainda mais quando o capital foge, têm de declarar
falência (como o Estado argentino em 2001, e actualmente o Equador e a Grécia
parecem ter se recuperado temporariamente…), desvalorizar a sua moeda, ou seja,
desvalorizar o património nacional, ou recorrer ao FMI. As empresas dessas
nações tornam-se então presas fáceis, adquiridas a preço baixo pelos trusts
multinacionais/transnacionais (camarada BAD, evita o termo capital estrangeiro
que tem uma conotação nacionalista chauvinista).
As pirâmides de créditos mostraram o
carácter fictício dos processos de valorização em que se baseavam ao se
transformarem num oceano de perdas. Os bancos estão sobrecarregados com
créditos incobráveis ou duvidosos que têm de provisionar, utilizando os seus
recursos reduzidos e até os seus próprios fundos, constituídos por activos
agora desvalorizados. Em resumo, esses fundos derretem, e com eles a capacidade
de crédito. Foi exactamente isso que aconteceu com a crise dos subprimes e que
exigirá a intervenção dos bancos centrais e dos Estados, que irão injectar
milhares de milhões em liquidez para salvar a representação do capital.
Não é que não haja “liquidez”
suficiente, como afirmam os economistas, mas sim que ela deixou de circular (os
bancos têm de fazer provisões constantemente, as empresas já não querem
investir, etc.). E como todo o sistema capitalista se baseia no crédito, ocorre
uma brutal contracção dos negócios. Isto é amplificado pela queda generalizada
dos preços causada por essa contracção (deflacção), assim como pela diminuição
do consumo (devido ao desemprego crescente, à paragem dos investimentos e aos
comportamentos de poupança de "precaução" dos detentores de
dinheiro).
Quando o crash financeiro acontece, é o movimento clássico da crise que se
manifesta: colapso do preço das «mercadorias», fuga diante dos sinais que as
representam e corrida para o «verdadeiro» dinheiro, aquele que supostamente
conserva o valor. Pudemos verificar, recentemente, que a subida do preço das
matérias-primas durou apenas pouco tempo, pela simples razão de que isso era um
factor devastador para a taxa de lucro. O Capital, t. 3, cap. VI: «Efeitos das
mudanças de preços».
Gérard Bad
Notas
1
Será necessário voltar a este conceito, filosófico, que se procura introduzir
na economia, mas também na luta de classes. Camatte, desde 1974, abandona o
tema da história – o proletariado – em favor de fórmulas gerais: «os homens e
as mulheres», os «seres humanos», «a espécie e a comunidade humana», a
«multidão»; na realidade, a dissolução do proletariado no povo tão criticada
por Marx. Na verdade, um regresso ao materialismo filosófico.
2
CDO (Obrigações de Dívida Colateralizadas): Títulos lastreados em carteiras de
créditos diversos (crédito bancário, crédito imobiliário, crédito ao consumo,
etc.)
Fonte: Théories
de la décadence, théorie de l’effondrement, cours catastrophique du capital et
crise finale – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice