Colectivo Comunista dos Operários
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O Operário O Operário Comunista nº 1 (Agosto de 1929)
Publicado a 24 de Agosto de 2026
1.º Ano – Nº 1 | Agosto
de 1929
O Operário Comunista
Órgão dos Grupos Operários Comunistas
(Grupos Comunistas de Operários)
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PARA SAIR DO PÂNTANO
As
grandes lutas e derrotas da classe operária durante os períodos de guerra e
pós-guerra criaram a base para um novo ressurgimento das forças proletárias,
para um aumento da consciência ideológica e da capacidade de luta do
proletariado. Mas esta ascensão da ideologia operária só tem o custo da
desintegração das organizações nas quais a classe operária não conseguiu
encontrar meios para alcançar a vitória sobre o capitalismo — organizações
representadas pela social-democracia e pelo bolchevismo.
A nossa
origem, enquanto grupo em que a arma da crítica revolucionária não teme nem
líderes nem ídolos, deriva deste processo de decomposição que rapidamente
subjugou a Internacional Comunista após a NEP. Mas o nosso desenvolvimento, a
nossa libertação do atoleiro, não foi obra de um único dia. Foram necessárias
muitas provações e tribulações para atingirmos o nosso actual nível ideológico.
E se a nossa posição hoje está livre de qualquer oportunismo, deve-se a uma
dupla divisão.
Na
arena revolucionária, a clareza só pode ser alcançada a este preço; Não há
outra forma de manter e disseminar as posições conquistadas a um custo tão
elevado. É necessário permanecer um grupo pequeno, uma minoria, por vezes até
sozinho. Caso contrário, a única opção é esconder a posição sob uma avalanche
de concessões e disciplina mecânica.
A
primeira cisão libertou-nos da rigidez disciplinar quase bigode em que os
radicais da Comintern ainda se afundam como centristas patéticos. Mas esta
primeira cisão, à qual muito devemos aos elementos de Prometeu e
que nos permitiu vislumbrar um horizonte mais amplo, não foi suficiente.
Entre
nós estavam hereges vacilantes, assustados pelas nossas tendências
iconoclastas, que escondiam imagens religiosas desbotadas nos bolsos, esperando
que um dia pudessem ser a fonte de um milagre. Houve também aqueles que se
deixaram levar por uma corrente de aristocracia operária, definitivamente
estranha à revolução. Livrámo-nos de todos eles sem arrependimentos, porque as
nossas ideias e posições revolucionárias valiam muito mais do que a sua empresa
recalcitrante.
Além
disso, a homogeneidade ideológica perfeita, que num período de desintegração só
pode ser alcançada à custa da quantidade, é muito preferível a uma combinação
maior de elementos heterogéneos. Hoje, o crescimento da qualidade resulta da
diminuição da quantidade. Aqueles que, perante esta dura realidade, se agarram
ao mito da unidade para defender as suas posições falsas, não compreenderam a
necessidade deste processo. Assustados pelo isolamento actual, deixam-se levar
pela corrente, esquecendo que a realidade histórica não se limita ao momento
presente, mas constitui um todo complexo do qual a contingência é, em última
análise, eliminada como elemento insignificante.
Mas o
que importa a sua perda em comparação com a nossa libertação ideológica? Não
deveríamos, em vez disso, alegrar-nos por termos cortado um laço que poderia
ter-nos arrastado de volta para o pântano?
Começámos
o nosso desenvolvimento rejeitando o mito da unidade formal, porque sabíamos
perfeitamente que esta é uma força que contribui para a preservação das
organizações contra-revolucionárias. A história, os factos, já tinham provado
esta verdade antes mesmo de nós. Só nos apercebemos disso, infelizmente, um
pouco tarde demais.
Tarde
demais? Não. Além disso, como poderia esta descoberta ter sido feita mais cedo?
Os elementos do subjectivo, do consciente (as expressões de Lenine), não
representam um avanço na história. Não se pode construir em areia. O subjectivo
é apenas um reflexo da continuidade, até mesmo um aspecto do próprio objectivo.
É a experiência da história que desenvolve novas posições ideológicas, que
forma, à custa das antigas organizações obsoletas, novas formações de combate.
O erro
formidável de Lenine, que residia nele inconscientemente — reflexo de uma
situação em que o elemento proletário não era o único a desempenhar um papel
importante — foi precisamente esta tendência para construcções artificiais,
para uma estratégia que, querendo antecipar os limites da realidade através de
um plano pré-estabelecido, acaba por mutilar os rebentos da espontaneidade.
Bordiga, na sua carta a Korsch publicada pela Prometeu, apontou este erro de Lenine. O que se esqueceu de referir é que é erro de
todos os que seguiram Lenine na experiência da Comintern, Bordiga incluído, nós
próprios incluídos. Esta falta de objectividade leva a esquecer o mérito
daqueles que não seguiram Lenine na sua tentativa. E a responsabilidade aumenta
se elementos como Bordiga e tantos outros, sabendo que a linha leninista
levaria à falência da Terceira Internacional, não o disseram com toda a clareza
necessária.
Hoje ainda é doloroso notar que os representantes da linha de Bordiga
fingem considerar esta linha como uma tendência original e específica da
esquerda na Internacional, quando na verdade é um ramo atrasado da verdadeira
esquerda marxista, aquela cujos representantes em 1919 e 1920 foram Pankhurst
em Inglaterra e na Holanda, os tribunos Gorter e Pannekoek.
O Soviete, órgão da fracção
abstencionista do Partido Socialista Italiano, publicou, no entanto, um
panfleto de Pannekoek. Aquilo que finalmente encontrou expressão na Alemanha no
Partido Comunista dos Trabalhadores, contra o qual se dirigem quase todos os
ataques do comunismo comunista de Lenine.
Não deveria ser escondido, apenas os tribunistas e extremistas alemães
recusaram seguir a linha de Lenine. Foi Herman Gorter, na sua carta aberta a
Lenine, escrita para ele e para o Partido Comunista Alemão, quem denunciou a
falsa linha de Lenine.
A "velha topo" já executou o seu julgamento. Gorter tinha razão e
Lenine estava errado. A linha leninista conduziu às piores derrotas; A
constituição dos partidos de massas também constituiu um novo baluarte
oportunista e contra-revolucionário no campo do proletariado. A revolução
mundial encontrou nestes partidos sabotadores e não guias.
A linha de Lenine era a da unidade; A linha de Gorter, a da divisão. E qual
foi o resultado da táctica de unidade? Derrota e, mais tarde, decomposição.
Hoje, com a experiência adquirida, já não se trata de salvar a Comintern
agarrando-se desesperadamente ao leninismo, como quase toda a oposição faz;
Trata-se de condenar, à luz da experiência histórica, esse mesmo leninismo. E
com isto entendemos oportunismo táctico, que não pode criar artificialmente
unidade, mas atrasa o processo espontâneo de unificação revolucionária. E, ao
mesmo tempo, devemos virar-nos para a linha de esquerda, para o
"radicalismo infantil" que já tinha condenado Lenine em 1920.
Pode
parecer um paradoxo, mas o "velho infiltrado"1 assumiu para si a tarefa de demonstrar que o extremismo não
era a doença infantil do comunismo. Era, pelo contrário, leninismo. As relações
das forças sociais na Rússia, que eram muito menos avançadas do que na Europa
Ocidental e na América, formaram a base do infantilismo leninista. Assim,
Lenine e os leninistas acreditavam que podiam aplicar a mesma estratégia da
Rússia a outros países, que já não tinham uma revolução burguesa para fazer. O
leninismo, que não conseguiu extrair da experiência ocidental os elementos de
maturação, transformou-se em despotismo e reacção, tanto na Rússia como no
terreno internacional. E assim o proletariado viu o número dos seus inimigos
aumentar. Já não se confronta apenas com a democracia e a social-democracia
burguesa; é também confrontado com essa falsificação do comunismo que é o
bolchevismo.
O aspecto fundamental da doença infantil leninista era o compromisso. O
compromisso foi assim aplicado na formação dos partidos da Terceira Internacional.
Em 1919 e 1920, os elementos extremistas ou ultra-esquerdistas tenderam todos
para o anti-parlamentarismo total; O leninismo travou uma luta contra estes
elementos, que ou se deixaram subjugar ou foram expulsos das fileiras do
comunismo oficial. O anti-parlamentarismo, no seu aspecto radical, era uma
manifestação geral do grau de consciência que o proletariado tinha alcançado
através da experiência da guerra nos países capitalistas avançados. Por esta
mesma razão, tal como Lenine, esta manifestação do desenvolvimento
revolucionário dos países mais avançados não deve ser confundida com o
otzovismo russo. Mas o sistema de analogia é um dos procedimentos (nem sempre
dialécticos) da ideologia leninista. Demagogos parlamentares, que se juntavam
ao Partido Socialista Independente, à esquerda da SFIO em França, ao Partido
Socialista em Itália, foram aceites nas fileiras da Internacional. Foi assim
que as massas da Comintern receberam "líderes".
Por um lado, o extremismo foi combatido e expulso; por outro, o oportunismo
parlamentar foi autorizado a enraizar-se nas fileiras da vanguarda proletária.
Assim, o anti-parlamentarismo dos extremistas, historicamente justificado pelo
conflito entre o parlamento, órgão político do capitalismo, e os conselhos,
órgãos políticos do proletariado, foi condenado pelo leninismo e não teve lugar
na Comintern.
É claro que o primeiro passo do bolchevismo rumo ao compromisso teve de o
separar dos melhores elementos revolucionários e, portanto, da própria
realidade revolucionária. À luz da experiência histórica, podemos dizer hoje
que a questão parlamentar não foi de modo algum uma questão secundária, pois
manifestou-se, na sua interpretação diferente das tácticas comunistas, a
diferença fundamental entre a revolução russa e a revolução ocidental. Hoje,
quando a estratégia leninista se desfez e trouxe a Comintern para as fileiras
da contra-revolução, é claro que, se a Terceira Internacional tivesse tido na
sua base ideológica a força do anti-parlamentarismo radical, esse espantalho
dos oportunistas, o processo de degeneração da Terceira Internacional não teria
sido tão fácil e esse organismo teria pelo menos mantido o proletariado
internacional nas suas posições revolucionárias.
Não se contentaram em aplicar o compromisso no terreno dos partidos de
massas e do parlamentarismo. Após a introdução da NEP, foi na teoria e prática
da frente unida que se manifestou o compromisso com a social-democracia
internacional. Foi feita uma tentativa, através de uma formulação diplomática,
de ocultar o verdadeiro significado oportunista desta táctica, que reflectia no
terreno internacional a degeneração inicial da ditadura proletária na Rússia.
Miasnikov, polemizando com Lenine em 1922, apontou precisamente que houve
uma tentativa vã de ocultar a natureza claramente social-democrata desta táctica
sob novas fórmulas (a corda e o carrasco, etc.). Esta táctica, aplicada ao
mesmo tempo que o lançamento do slogan do governo dos operários e camponeses
(um slogan sem sentido nos países capitalistas avançados), revelou em poucos
anos a natureza oportunista da nova Internacional. Além disso, colocou a
Comintern pouco tempo nas mesmas posições onde a Social-Democracia se tinha
desintegrado em 1914.
Em 1923, o Partido Comunista Alemão (KPD), sob a liderança do Executivo de
Moscovo, não só aplicou a táctica da frente unida com a Social-Democracia:
tentou aplicá-la até com os elementos fascistas na Alemanha. Para tal, exaltou
a nação e defendeu, ao mesmo tempo, que só o proletariado, afiliado a todos os
elementos saudáveis do povo, poderia defender e salvar a pátria em perigo. Foi
uma traição aberta aos princípios internacionalistas.
Há
pessoas que quiseram justificar a traição de 1923 na Alemanha como um simples
erro. São, de facto, as mesmas pessoas que hoje querem endireitar a Comintern.
Mas ninguém deve ignorar o discurso de Radek sobre Schlageter, os discursos de
Bukharin e Zetkin sobre a posição da Comintern em relação à Alemanha em 1923;
ninguém deve ignorar que, nessa altura, se contemplava uma colaboração entre o
Exército Vermelho e a Reichswehr2. Ninguém nas fileiras revolucionárias deve esconder o facto, que
nunca foi negado: em 1922 e 1923, a Rússia Soviética armou a Reichswehr, contra
a qual o proletariado alemão lutava heroicamente.
A aplicação do compromisso levada ao ponto da traição encontra as suas
bases teóricas em A Doença Infantil do Comunismo, o Esquerdismo,
de Lenine, e até em Contra a Maré de Lenine e Zinoviev. Foi dito: Lenine não teria chegado a esse
ponto. Mas quando fazemos uma crítica ao leninismo, não podemos ter em conta
este argumento (cuja condenação será encontrada, além disso, no primeiro
capítulo de O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, de
Karl Marx). O que importa é que o leninismo chegou a esse ponto. Em Contra a Corrente, Lenine adopta posições contraditórias sobre a
questão nacional. O seu pensamento oscila entre uma posição internacionalista
muito correcta e reservas de tácticas falsas (assim, procurará "forças
revolucionárias" historicamente mortas em guerras nacionais, na autonomia
dos povos, etc.) que oferecem uma base teórica ampla para a traição de 1923.
Talheimer, espírito afim de Brandler (para quem Souvarine se tornou
apologista em França), fez bom uso da posição ambígua de Lenine para
justificar, num artigo publicado na Rote Fahne de 1923, o
nacional-bolchevismo do KPD.
Aqui também, a natureza da ideologia de Lenine revela-se sob a forma de um
compromisso, no antigo estilo social-democrata, em total contraste com a
ideologia da esquerda marxista.
Foi isto que Rosa Luxemburgo apontou tão acertadamente, que manifestou com
a esquerda holandesa e polaca as tendências objectivas da revolução ocidental,
e conseguiu discernir nos desvios leninistas de Contra a Corrente as primeiras manifestações do Bolchevismo Nacional em 1923.
O compromisso apressado que a Terceira Internacional criou, num momento de
entusiasmo, escondeu essas diferenças sob o alqueire, cuja importância foi mais
tarde revelada. E é com um sentimento de admiração que se lê a crítica de Rosa
Luxemburgo à Revolução Bolchevique e à sua falsa estratégia nacional, uma
crítica apenas esboçada antes da morte do grande teórico marxista. O
entusiasmo, e depois a cumplicidade, que silenciaram a profusão de líderes da
Comintern, não perturbaram a objectividade da heroína proletária; felizmente
para ela, não encontrou nem apologistas nem fiéis na Escola Lenino-Bukhariana.
Mas aqui também, o compromisso leninista sofreu mais uma derrota, e aqui
também deve ser condenado.
No entanto, a lição mais profunda infligida ao leninismo pelos factos
continua a ser o fracasso da conquista dos sindicatos. Neste campo, o
Bordigismo, o Brandlerismo, todas as nuances e tendências da Terceira
Internacional seguiram a mesma linha. E, para esse fim, todos mantinham a
necessidade de permanecer nos sindicatos, mesmo os reformistas, para combater o
reformismo e substituir os líderes reformistas por líderes comunistas, de modo
a revolucionar os sindicatos. Até ontem éramos os "conquistadores",
acreditávamos na utopia da conquista da união. Tivemos de reflectir muito, para
ver o triunfo da arbitragem, tivemos de investigar a experiência alemã,
italiana, até russa, para perceber que mesmo aí o Leninismo foi infantil.
Esquecera-se, como mau dialéctico, que as formas da luta de classes nem sempre
são as mesmas, que os órgãos originalmente naturais podem ser distorcidos e
tornar-se obsoletos e reaccionários. Hoje, os "conquistadores" falham
perante a armadilha da arbitragem obrigatória. Que frutos amargos este erro não
produziu para o proletariado!
O conflito histórico entre os conselhos de fábrica e os sindicatos, entre
revolução e contra-revolução, tem sido oculto sob o alqueire da teoria da
conquista. O espírito dos operários foi abalado pela ilusão de que, ao substituir
homens por homens, oficiais por oficiais, era possível revolucionar órgãos que
a história condenara durante a guerra e no avanço revolucionário. O leninismo,
que lutou precisamente contra o reformismo que defendia a necessidade de
fragmentar o Estado, não compreendia que os sindicatos, que tinham sido
integrados com o Estado, também deviam ser destruídos. Na Alemanha tentaram
conquistar e deixaram-se conquistar; na Rússia os sindicatos são, tal como em
Itália, corporações, formam o parafuso que aperta a classe operária nas suas
mordaças.
E os
órgãos sindicais que, fora da Internacional de Amesterdão, afirmam preservar a
tradição da luta de classes, são fatalmente empurrados na mesma direcção que as
organizações amarelas. A sua natureza reformista irá impor-se e até impor-se-á
sobre a sua fraseologia revolucionária. Por um lado, a influência
anti-proletária do Estado russo, que os torna brinquedos de uma política
contra-revolucionária; por outro, a sua essência, que os enquadra nos limites
restrictos das reivindicações parciais, desenvolvendo nelas órgãos de vassalagem3 da classe, obstáculos ao desenvolvimento da consciência
revolucionária do proletariado. Por estas razões, recusamo-nos a continuar a
ver nelas formas revolucionárias da luta de classes. Quanto às organizações
que, fora da Secção Internacional de Amesterdão e da Internacional Sindical
Vermelha de Moscovo, procuram a solução da luta de classes no mesmo terreno, ou
seja, na mesma forma em que as outras já revelaram ou estão a revelar a sua
impotência, estão destinadas a ter o mesmo fim. Quer na Alemanha, onde
escolheram o terreno da divisão, quer em França, onde se agarram à teoria da
conquista (basta olhar para a acção e a teoria da Ligue Syndicaliste para perceber que já está no caminho da
colaboração de classes), só demonstram esta realidade de forma mais completa.
Não se podem ganhar sindicatos para a revolução, não se podem criar
sindicatos revolucionários. A contradição entre a luta por um pedaço de pão e a
luta pela revolução foi historicamente resolvida nos conselhos de fábrica, nos
conselhos revolucionários, que irão quebrar o aparelho estatal da burguesia e,
com estes últimos, os próprios sindicatos.
Não conseguimos desenvolver totalmente a nossa crítica nas nossas
considerações. Tivemos de nos contentar em esboçar apenas o lado crítico do
nosso pensamento. Para dar uma base sólida à nossa crítica, é necessária uma
análise aprofundada do desenvolvimento da luta de classes nos anos do pós-guerra.
O que é certo é que os elementos desta análise, que tentaremos desenvolver na
nossa actividade futura, existem. Podemos, portanto, tirar as conclusões gerais
a partir de agora. Estas conclusões não nos levam simplesmente a condenar o
leninismo, como ideologia e acção. Conduziram-nos a posições que terão de ser
consolidadas, mas que, sendo um facto da base objectiva da luta proletária no
terreno internacional, têm um valor duradouro. Não se referem a mera
contingência, mas a todo o período de preparação e desenvolvimento da revolução
proletária.
Além disso, o conteúdo destas posições terá de ser disseminado entre os
proletários, e isso não será feito pelos métodos da agitação bolchevique, mas
por uma propaganda comunista que não tem objectivos imediatos, mas apenas um
objectivo: a revolução proletária.
Para preparar, a partir de uma base muito restrita, a partir de uma elite
consciente, o espírito das massas operárias para a revolução, ou, para ser mais
preciso, através da nossa propaganda, a experiência histórica da qual o
proletariado recebe a sua máxima educação, a sua consciência de classe para
desempenhar o seu papel de convulsão e transformação económica e social: Essa é
a nossa posição fundamental.
Não se pode manter esta posição mediante uma estratégia de chefe. Ao
contrário, só se pode consolidar condenando a política dos chefes (convém notar
que não se poderia chamar assim aos representantes da classe proletária
controlados antes e durante a acção revolucionária, ou seja, aos membros dos
conselhos e dos outros órgãos revolucionários, que são simples instrumentos da
acção proletária) que encontraram e ainda hoje encontram o seu refúgio em
organizações onde a massa de base não tem qualquer consciência dos problemas
revolucionários. Por isso, não temos pressa em fundar um novo partido, nem em
expandir precipitadamente a nossa base de organização. Não queremos repetir os
erros cometidos, não queremos connosco quem ainda não nos compreendeu. Adoptando
este sistema, estaremos protegidos contra a restauração da política dos chefes
nas nossas fileiras. Temos como objectivo formar um partido verdadeiramente
revolucionário e é para esse fim que preferimos permanecer durante muito tempo,
se necessário, uma seita.
E ainda para manter esta posição, para conservar o seu baluarte à
revolução, não bastará desenvolver a consciência proletária através da
propaganda, separando-a da política dos chefes. Para arrancá-la da influência
secular da cultura, do meio burguês, será necessário romper com toda a tradição
burguesa. Será necessário entrar em luta aberta contra as formas que tendem a
conservar e difundir as raízes da influência burguesa entre a classe operária.
Será necessário romper com as formas parlamentares e sindicais, será necessário
preparar a sua destruição. Será necessário convidar a classe operária a
boicotar o parlamento e a preparar a destruição deste último. Será necessário
dizer ao proletariado que a luta por reivindicações parciais não pode ter como
resultado a melhoria da classe operária, que só pode ter valor como um elemento
de preparação para a luta revolucionária, que deverá conduzir-nos à instauração
da ditadura do proletariado; que os sindicatos não podem ser a expressão desta
luta revolucionária, que conduz à colaboração de classes, ou seja, a uma maior
escravatura da classe operária.
Não é preciso dizer que a experiência, a propaganda deste facto tem um
valor enorme e fundamental no desenvolvimento da consciência proletária. Mas
quando a nossa propaganda, em vez de apoiar essa propaganda de facto, em vez de
apoiar as «lições da história», se coloca acima da realidade histórica, a nossa
actividade torna-se contra-revolucionária; quando o leninismo nega a existência
de um grau superior de consciência proletária e faz passar isso por uma doença
infantil, coloca-se acima da história, torna-se contra-revolucionário. Não
queremos o punhado de heróis que com os seus gestos despertam revoluções e
criam novas bases sociais.
Só conservando as posições que durante o período revolucionário do
pós-guerra o proletariado conquistou mesmo à custa de mil derrotas, cumprimos o
nosso papel modesto mas necessário.
E para manter e expandir essas posições, vamos lutar com afinco contra
todos os inimigos da revolução, contra a burguesia e seus afiliados, contra a
Social-Democracia Ocidental e contra a Social-Democracia de Moscovo.
PORQUE SOMOS ANTI-PARLAMENTARES
As teses que publicamos a seguir reproduzem perfeitamente o nosso
pensamento actual sobre a questão parlamentar, ou seja, sobre a atitude que as
elites revolucionárias deveriam manter em relação ao Parlamento. Foram
apresentadas na Comintern em 1920, mas já estavam incluídas no programa da
fracção abstencionista dentro do Partido Socialista Italiano, o qual foi
aprovado no Congresso de Bolonha (1919) desse mesmo partido por 4.000
inscritos. Esta fracção contava com os seus aderentes em todas as regiões de
Itália. O Partido Comunista de Itália, que foi fundado em Livorno em Janeiro de
1921 sobretudo pela actividade da fracção abstencionista, não adoptou no seu
programa o boicote ao parlamento, que é recomendado nas teses em questão. Ou
seja, esta fracção e o seu líder, Bordiga, renunciaram à sua posição sobre o
parlamentarismo para não ir contra os 21 pontos da Internacional Comunista,
pontos que regulavam, a priori, a formação dos partidos comunistas. Estes
pontos não admitiam, entre outras coisas, a presença na Comintern de elementos
que defendiam o boicote aos parlamentos burgueses.
A apresentação das teses em questão foi acompanhada, no Segundo Congresso
da Comintern, por um discurso de Bordiga que apareceu recentemente em Prometeu em língua italiana. O conteúdo deste discurso do camarada Bordiga
reproduz as mesmas ideias das quais Herman Gorter deu uma exposição muito
simples na sua Carta Aberta ao Camarada Lenine, também escrita no Outono
de 1920, pelo menos no que diz respeito à questão parlamentar.
Deve notar-se que já no seu discurso de 1920, Bordiga atenua bastante a
importância do boicote aos parlamentos burgueses. "As teses do
relator", diz ele, "declaram, por outro lado, que a questão
parlamentar é secundária ao movimento comunista; o mesmo não se aplica à
questão sindical (onde Bordiga defendia a opinião dos leninistas). Acredito
que, a partir desta oposição, não seria possível tirar um juízo decisivo sobre
os camaradas e os partidos comunistas." Esta clara atenuação do desacordo
sobre a questão parlamentar contradiz o conteúdo das teses reproduzidas abaixo,
escritas pelo próprio Bordiga, onde atribuiu precisamente grande importância à
questão parlamentar, como o leitor poderá perceber por si próprio.
Por outro lado, o abandono desta posição contribuiu imenso para enfraquecer
a base dos partidos da Internacional. Em Itália, eliminou do movimento
comunista a tendência abstencionista durante muitos anos. Nas teses, destaca-se
precisamente a dispersão das forças revolucionárias na actividade eleitoralista
e parlamentar (que os de Prometeu se lembrem bem! eles ridicularizaram em nós
este argumento, que apresentávamos em 1927 defendendo o boicote aos parlamentos
burgueses), forças que poderiam ser aplicadas de outra forma no campo da acção
revolucionária. Além disso, contempla-se a necessidade de dar toda a informação
ao proletariado neste terreno.
Só através do boicote ao parlamento se pode dar à classe operária a plena
consciência de que este órgão de dominação da burguesia deve ser quebrado e
substituído pelos conselhos. E se tivermos presente o papel secular
desempenhado em alguns países capitalistas pelas instituições parlamentares se perceberá
a enorme importância desta questão para as elites proletárias. Percebe-se o
enorme dano que o abandono desta posição causou à causa proletária em Itália.
Também não deve ser escondido que, em 1924, na véspera das eleições
parlamentares em Itália, Bordiga teve de escrever um artigo, que foi publicado
na imprensa oficial do Partido Italiano. Este artigo está em perfeita
contradição com o conteúdo das teses que só conseguimos encontrar hoje no Le Phare, o órgão comunista de Genebra, ao qual em 1921 todos os teóricos da
filosofia da ofensiva, incluindo Bukharin (hoje são todos direitistas
consumados).
O artigo de 1924 tenta justificar o abandono da posição de boicote,
substituindo o conteúdo das teses por uma concepção muito elástica das tácticas
parlamentares. Apoiou também a tendência no Partido Comunista Italiano de
defender a participação nas eleições contra a tendência a favor da abstenção.
Esta última tendência era favorável à abstenção por razões que, além disso,
nada têm a ver com a posição do boicote aos parlamentos burgueses. Mas isso não
justifica Bordiga e os seus apoiantes. Nem o pretexto para a mudança de
situação.
Nas teses reproduzidas abaixo, afirma-se que a táctica de boicotar
parlamentos deve ser aplicada ao longo de todo o presente período histórico, e
é mesmo declarado algures que esta táctica é indispensável em qualquer
situação. Além disso, se é verdade que em 1924 os elementos mais oportunistas
(incluindo os reformistas) eram relutantes em acções eleitorais, que se
tornaram perigosas desde o advento do fascismo, não é menos verdade que uma
posição de boicote muito clara não era menos perigosa. Além disso, a proposta
do artigo de 1924 valorizava de certa forma, aos olhos do proletariado, o papel
do parlamento.
Pelo contrário, era tempo de mostrar aos operários, através de uma acção de
boicote, que o parlamentarismo tem sempre a mesma substância, tanto sob a
ditadura democrática como sob a do fascismo. E é importante salientar que foi
precisamente a esquerda bordigista que se esforçou por mostrar (e estava certa)
a identidade de substância entre democracia e fascismo. Esta premissa teórica,
que tem raízes na realidade histórica da luta de classes em Itália, não
contribuiu para a tese da mudança de método na questão parlamentar de 1924.
Esta última posição – a do boicote ou participação em actividades
eleitorais condicionada à situação política – está contida numa nota na Carta Aberta ao Camarada Lenine de Herman Gorter. Em Gorter, cuja
análise muito simples e muito clara da situação objectiva nos países capitalistas
avançados conduz a uma conclusão fundamental a favor da necessidade de boicote
aos parlamentos burgueses, a reserva totalmente pessoal contida na nota acima
mencionada representa uma incoerência que não é justificada por toda a análise
anterior.
O conteúdo das teses que extraímos de Le Phare de 1921 é completamente satisfatório e completo. A análise contida no
capítulo "A Questão Parlamentar" da Carta Aberta de Gorter pode servir como ilustração do conteúdo muito breve do
documento de Bordiga, que já não é Bordigista.
Antes de concluir esta apresentação indispensável do documento sobre o
parlamentarismo da esquerda italiana de 1920, devemos salientar que os de Prometeu, no título que antecede o discurso de Bordiga no Segundo Congresso da
Comintern, declaram que o anti-parlamentarismo de Bordiga (que não lhe era
exclusivo) não era de origem sindicalista. e, para ser sincero, só os
anarco-sindicalistas, em acção devido à sua ideologia anarquista, são a favor
do boicote aos parlamentos burgueses. O sindicalismo puro de Sorel não teve
qualquer aplicação prática na sua tendência claramente anti-parlamentar. Além
disso, o próprio Sorel favorecia sem reservas a actividade dos seus discípulos
italianos (Labriola, Leone), conduzindo-os, pelo caminho do parlamento, para o
terreno da democracia burguesa. Nem mesmo os actuais sindicalistas de La Révolution Prolétarienne alguma vez defenderam um boicote
aos parlamentos burgueses. O sindicalismo nada tem a ver com as tendências
radicais do anti-parlamentarismo comunista e marxista que, em 1919, se
manifestaram tão claramente no terreno internacional. Prometheus não é inteiramente "marxista" quando, no seu título (vazio,
aliás) ignora ou finge ignorar vários factos que poderiam destacar o lado
marxista da tese do boicote ao Parlamento.
_________________________________________
Tese
Sobre o parlamentarismo
apresentado pelo camarada Bordiga em nome da fracção comunista
abstencionista do Partido Socialista Italiano no Segundo Congresso da
Internacional Comunista
1. O Parlamento é a forma de representação política própria do regime
capitalista. A crítica de princípio que os comunistas marxistas fazem do
parlamentarismo e da democracia burguesa em geral mostra que o direito de voto
não pode impedir que todo o aparelho governamental do Estado constitua o comité
de defesa dos interesses da classe capitalista dominante. Além disso, mesmo que
este direito seja concedido a todos os cidadãos de todas as classes sociais nas
eleições para os órgãos representativos do Estado, este último não se organiza
por isso menos como instrumento histórico da luta burguesa contra a revolução
proletária.
2. Os comunistas negam veementemente que a classe operária possa conquistar
o poder obtendo a maioria parlamentar. Só a luta revolucionária armada permitirá
atingir os seus objectivos. A conquista do poder pelo proletariado, ponto de
partida da obra de construção económica comunista, implica a supressão violenta
e imediata dos órgãos democráticos, que serão substituídos pelos órgãos do
poder proletário: os Conselhos Operários. Despojada assim a classe dos
exploradores de todo direito político, poderá implementar-se o sistema de
governo e de representação de classe, a ditadura do proletariado. A supressão
do parlamentarismo é, pois, um objectivo histórico do movimento comunista.
Dizemos mais: a primeira forma da sociedade burguesa que deve ser derrubada,
antes da propriedade capitalista e antes da própria máquina burocrática e
governamental, é precisamente a democracia representativa.
3. Isto também se aplica às instituições municipais e comunais da
burguesia, às quais é falso, do ponto de vista teórico, opor aos órgãos de
governo, já que o seu aparelho é de facto idêntico ao mecanismo governamental
da burguesia. O proletariado revolucionário deve também destruí-las e
substituí-las pelos sovietes locais de deputados operários.
4. Enquanto que o aparelho executivo militar e político do Estado burguês
organiza a acção directa contra a revolução proletária, a democracia constitui
um meio de defesa indirecta ao difundir entre as massas a ilusão de que podem
realizar a sua emancipação através de um processo pacífico e de que o Estado
proletário também pode adoptar a forma parlamentar, com direito de
representação para a minoria burguesa. O resultado desta influência democrática
sobre as massas proletárias tem sido a corrupção do movimento socialista da
Segunda Internacional, tanto no campo da teoria como no da acção.
5. Atualmente, a tarefa dos comunistas na sua obra de preparação ideológica
e material da revolução é, antes de mais, libertar o proletariado dessas
ilusões e desses preconceitos difundidos nas suas fileiras com a cumplicidade
dos antigos líderes social-democratas, que os desviam do seu caminho histórico.
Nos países onde o regime existe há muito tempo e se enraizou profundamente nos
hábitos das massas e na sua mentalidade, assim como na dos partidos
social-democratas tradicionais, esta tarefa reveste uma importância particular
e ocupa o primeiro lugar entre os problemas da preparação revolucionária.
6. No período em que a conquista do poder não se apresentava como uma
possibilidade próxima para o movimento internacional do proletariado e em que
também não se colocava o problema da sua preparação directa para a ditadura, a
participação nas eleições e a actividade parlamentar ainda podiam oferecer
possibilidades de propaganda, agitação e crítica. Por outro lado, nos países
onde a revolução burguesa ainda está em curso e cria novas instituições, a
intervenção dos comunistas nos órgãos representativos em formação pode oferecer
a possibilidade de influenciar o desenvolvimento dos acontecimentos para que a
revolução chegue até à vitória do proletariado.
7. No período histórico actual (aberto com o fim da guerra mundial e suas
consequências sobre a organização social burguesa; pela revolução russa,
primeira realização da conquista do poder pelo proletariado, e pela
constituição da nova Internacional em oposição à social-democracia dos
traidores) e nos países onde o regime democrático já completou há muito tempo a
sua formação, não existe, pelo contrário, nenhuma possibilidade de usar o
parlamento para a obra revolucionária dos comunistas, e a clareza da
propaganda, assim como a preparação eficaz da luta final pela ditadura, exigem
que os comunistas façam uma agitação pelo boicote das eleições por parte dos operários.
8. Nestas condições históricas, sendo o problema central a conquista
revolucionária do poder pelo proletariado, toda a actividade política do
partido de classe deve dedicar-se a este objectivo directo. É necessário
quebrar a mentira burguesa de que todo o choque entre partidos políticos
adversários, toda a luta pelo poder, se desenvolve no âmbito do mecanismo
democrático, através das eleições e dos debates parlamentares. Isto não se
poderá alcançar sem romper com o método tradicional que consiste em chamar os operários
a votar — juntamente com os membros da classe adversária — sem pôr fim ao espectáculo
de delegados do proletariado a trabalhar no mesmo terreno parlamentar que os
seus exploradores.
9. A perigosa concepção que reduz toda acção
política a lutas eleitorais e à actividade parlamentar tem sido demasiado
difundida pela prática ultra-parlamentar dos partidos socialistas tradicionais.
Por outro lado, a aversão do proletariado por esta prática de traição preparou
um terreno favorável para os erros dos sindicalistas e dos anarquistas que
negam todo valor à acção política e às funções do partido. Por isso, os
partidos comunistas nunca alcançarão um grande sucesso na propaganda pelo
método revolucionário marxista se não apoiarem o seu trabalho directo pela
ditadura do proletariado e pelos conselhos operários, abandonando todo o contacto
com o mecanismo da democracia burguesa.
10. A grande importância atribuída na prática à campanha eleitoral e aos
seus resultados, o facto de durante um período muito longo o partido dedicar
todas as suas forças e todos os seus recursos (pessoas, imprensa, meios
económicos) contribui, por um lado, apesar de todos os discursos públicos e de
todas as declarações teóricas, para reforçar a sensação de que é precisamente
essa a acção central para os fins comunistas e, por outro lado, provoca o
abandono quase completo do trabalho de organização e de preparação
revolucionária, dando à organização do partido um carácter técnico totalmente
contrário às exigências do trabalho revolucionário, seja ele legal ou ilegal.
11. Para os partidos que, por decisão da maioria, aderiram à Terceira
Internacional, o facto de continuar a acção eleitoral impede a selecção
necessária; pois bem, sem a eliminação dos elementos social-democratas, a
Terceira Internacional falhará na sua tarefa histórica e não será o exército
disciplinado e homogéneo da revolução mundial.
12. A própria natureza dos debates no parlamento e noutros órgãos
democráticos exclui qualquer possibilidade de passar à crítica da política dos
partidos adversários, a uma propaganda contra o próprio princípio do
parlamentarismo, a uma acção que ultrapasse os limites do regulamento
parlamentar. Da mesma forma, é impossível obter o mandato que dá direito à
palavra se se recusar a submeter-se a todas as formalidades estabelecidas pelo
procedimento eleitoral. O sucesso da esgrima parlamentar será apenas função da
habilidade para manusear a arma comum dos princípios sobre os quais se funda a
própria instituição e das artimanhas do regulamento; do mesmo modo, o sucesso
da campanha eleitoral será sempre julgado única e exclusivamente pelo número de
votos ou de mandatos obtidos. Todos os esforços dos partidos comunistas para
dar um carácter completamente diferente à prática do parlamentarismo não poderão
deixar de conduzir ao fracasso das energias gastas neste trabalho de Sísifo. A
causa da revolução comunista exige imperativamente que sejam gastas, pelo
contrário, no terreno do ataque directo ao regime de exploração capitalista.
AVANÇOS RECENTES DA DIALÉCTICA
MATERIALISTA EM TROTSKY E OS SEUS EPÍGONOS
É bem sabido que Leon Davidovich se orgulha de ser um dialéctico
irrepreensível, e que os seus discípulos, como os de Contre le Courant, Redressement
Communiste, Prometheus, Leninbund, etc., conseguem gerir mais ou menos felizmente recorrendo à dialéctica
materialista.
Basta ler a resposta de León Trotsky a um decista (ou seja, um camarada da
oposição do Centralismo Democrático do grupo dos 15: Sapronov, Smirnov, etc.)
para ver como o ex-chefe do Exército Vermelho evita as perguntas precisas do
camarada decista, opondo a cada passo a palavra dialéctica. Parece que esta
expressão, no grande chefe que descobriu em 1929 na imprensa e na edição
burguesa um meio equivalente ao «vagão fechado» de Lenine (¡), assume um
significado esotérico incompreensível.
Em menos de um ano, León Trotsky renovou-nos periodicamente as provas de
uma incoerência que não consideramos de todo dialéctica. Oferece-nos análises
da situação russa que são cada uma contraditória com a outra. Dela tira
conclusões que são a distorção de todo o método materialista e dialéctico.
Evidentemente, para Trotsky e os seus seguidores, a palavra dialéctica
tornou-se sinónimo de inconsequência.
Para aqueles que leram todos os diferentes documentos que Trotsky escreveu
(cartas e artigos que apareceram maioritariamente no Contre le Courant, o órgão da Oposição de Esquerda (!) no PCF), não será difícil seguir-nos
no exame e na crítica que vamos tentar à actividade ideológica do líder dos
Endereitores do Comintern.
Num desses documentos, publicado na Redressement
Communiste sob o título de "Nova Etapa", Leon Trotsky, no decurso de
uma análise extremamente contraditória às conclusões que dela retira, diz-nos
que a degeneração da ditadura proletária está numa fase de
"pré-kerenskyismo inverso..." Conclusão: a ditadura do proletariado
ainda existe.
Algum tempo depois, num artigo referido ao mesmo período e publicado
no Contre le Courant, o próprio Trotsky
anuncia que na Rússia estamos numa fase de "kerenskyismo invertido."
Mas ele diz-nos ao mesmo tempo que o kerenskyismo ao contrário não é
bonapartismo, mas sim "pré-bonapartismo." E numa carta aos operários
da Rússia e de outros países, que também apareceu no Contre le Courant, nega ter afirmado que a ditadura do proletariado tivesse desaparecido na
Rússia. Conclusão: O kerenskyismo ao contrário, o pré-bonapartismo é
"ainda" a ditadura do proletariado.
É muito claro que o nosso grande teórico enriqueceu o materialismo
histórico com duas descobertas sensacionais: o pré-kerenskyismo e o
pré-bonapartismo. Quanto à base analítica destas revelações, encontra-se noutro
artigo interminável de Trotsky em Contre le Courant, onde a natureza
original destes dois fenómenos políticos é justificada como produto de um
período de vários anos de reacção dentro da ditadura proletária.
Aqui é claro que o opositor de Estaline está num terreno puramente lógico e
anti-dialéctico. Esquece a diferença de qualidade que separa a ditadura
proletária da ditadura burguesa. Um deles é definido pelo seu processo de
extensão ao domínio directo de todos os operários e, através da supressão das
classes não proletárias, à abolição do Estado. A outra caracteriza-se pela
concentração do poder directo nas mãos de um aparelho especial, guardião do
equilíbrio de classes e do ambiente social actual.
Se
considerarmos a profunda diferença admitida por Marx entre as ditaduras
operária e burguesa, a premissa trotskista de uma natureza proletária de
pré-kerenskyismo e pré-bonapartismo colapsa completamente. Se a ditadura do
proletariado já não é a classe operária organizada como Estado, se o
proletariado não se expressa através dos seus órgãos como força revolucionária
em relação às outras forças de classe, o que resta dela? Quando uma minoria ou
uma grande fracção composta por "advenedizos - palavra em espanhol que
significa pessoas recém-chegadas a um lugar, a uma posição ou a uma atividade,
muitas vezes com pretensões exageradas, NdT - da classe operária" (a
palavra não nos pertence, pertence ao próprio Trotsky) reage ao resto, quando
provoca modificações políticas e económicas reaccionárias, quando se organiza
como uma camada social dominante em relação à outra parte, isto é, em relação
ao verdadeiro proletariado, àqueles que permaneceram proletários, quando
permanece na liderança política, reforçando a opressão destes proletários e
fazendo compromissos com os seus exploradores, pode assumir-se que a ditadura
está nas mãos do proletariado, ou está concentrada nas mãos de um aparelho
estatal conservador, segundo o sistema burguês?4
O passo decisivo que separa a ditadura proletária do Estado burguês ainda
não foi dado. Foi franqueado. A determinação da actual degeneração pode ser
rastreada até à NEP, ao compromisso inicial entre os elementos proletários e
burgueses da revolução russa, que criou um abismo entre a revolução russa e a
revolução no Ocidente, que ofereceu uma base económica para o emburguesamento
do aparelho proletário, de funcionários, empregados, etc., e que finalmente
regressou e fixou a revolução russa numa fase infantil e burguesa. Foi a NEP
que marcou o fim da hegemonia proletária.
É claro que, para o próprio Trotsky, não se trata de "uma reacção
dentro da ditadura proletária", mas de um processo de diferenciação
económica e social dentro da classe operária. O mérito de ter previsto
plenamente este processo de diferenciação vai para Miasnikov, que em 1922,
criticando a forma como o próprio Lenine aplicou a NEP (Myasnikov não condenou
completamente a NEP como nós fazemos hoje e como os camaradas do Partido
Comunista dos Trabalhadores da Alemanha fizeram muito antes de nós), não deixou
de sublinhar o perigo da divisão da classe operária russa em duas partes.
Como apontámos acima, esta diferenciação, que leva uma parte da classe operária
a sair de posições económicas e sociais verdadeiramente proletárias, provocou
uma mudança na qualidade do aparelho governamental. Há o salto da quantidade
para a qualidade com que Trotsky, Treint e outros "dialécticos" nos
enchem. Apenas que os opositores do "Austro-Marxismo ao contrário" se
recusam a vê-lo na realidade, sob o pretexto de que deve manifestar-se como uma
reviravolta de uma peça, para um Outubro invertido, um "Termidor",
uma "semana sangrenta", um "dois de Dezembro" (vê-se que as
falsas analogias históricas não faltam e deixam o embaraço da escolha).
Neste terreno, opômo-nos a Prometeu (e isto porque
se gabava de ser a imagem fiel do pensamento bordigista) a algumas das linhas
de Bordiga contidas na Plataforma da Esquerda, onde apresentou a dupla hipótese
de um "golpe" dentro da Rússia e de uma absorção "progressista"
da vida social e política por elementos burgueses. É impossível enganar-se
quanto a esta alternativa, que contém duas proposições em contraste
óbvio. No entanto, Prometeu finge ver ali
uma única hipótese, e depois toma a liberdade de nos aconselhar a não tentar
interpretar Bordiga e Trotsky, que não têm melhores intérpretes do que eles
próprios.
Quanto a Trotsky, devemos, entre tantas interpretações incoerentes, tentar
pôr um pouco de ordem nós próprios.
Já aconteceu o salto dialéctico? Poderíamos afirmar isto segundo o próprio
Trotsky, já que ele fala do kerenskyismo ao contrário e, ao mesmo tempo, cita
(Carta ao Instituto Histórico de Moscovo) uma expressão de Lenine onde define o
kerenskyismo como um bonapartismo podre. Agora, o bonapartismo, para Trotsky,
só pode ser produzido por um salto, por um golpe de Estado, e para tal ele
procura mesmo na trupe Voroshilov um embrião do Bonaparte russo.
Mas Trotsky oscila perpetuamente entre duas imagens da crise russa, entre
duas definições – tão anti-dialécticas quanto possível – do kerenskyismo ao
contrário. Num deles, as posições invertem-se relativamente ao kerenskyismo de
1917, ou seja, que a neo-burguesia e o seu Bonaparte ocupam em 1929, sob
Estaline, a posição ascendente ocupada pelo proletariado e pelo partido de
Lenine sob Kerensky e vice-versa. Mas assimilar as formas de governo que
resultam em cada caso equivale a afirmar uma identidade de qualidade entre a
classe burguesa e o proletariado, entre o poder dos burgueses e o dos operários,
a fazer das duas classes em luta como as duas cabeças de uma figura de cartas.
Na outra, trata-se do filme de Outubro projetando-se ao contrário, ou seja, que
os atores não mudam de papéis, mantêm os seus atributos e a sua própria lógica,
salvo que esta lógica procede como os caranguejos, que a pedra volta à mão que
a lançou e que os papéis se recitam da última sílaba para a primeira. Não
teremos a crueldade de insistir mais tempo sobre os méritos deste determinismo
histórico aperfeiçoado em marcha atrás, cuja patente pertence sem dúvida ao
fabuloso autor da máquina de Chicago, que, no caso de má venda de salsichas,
devolvia o porco vivo.
Encostado
à parede pelo operário Borodaï, que pede para tocar com o dedo o que resta da
ditadura proletária, Trotsky fala de dialéctica, da heterogeneidade do partido
e da dualidade do poder. Não é preciso ser dialéctico para notar a
heterogeneidade de um partido onde os operários co-existem com uma maioria
imponente de funcionários públicos e trabalhadores rurais, e onde o número de
células podres ultrapassa largamente o das partes saudáveis. Mas a dialéctica
torna-se necessária para sintetizar os aspectos contraditórios da realidade,
para a reconstituir na sua unidade. O operário Borodaï, por outro lado, percebe
as características fundamentais desta realidade: uma classe operária
numericamente fraca, hierarquizada por consideráveis diferenças de salários e
privilégios políticos, um partido e um Estado cujo funcionamento burocrático
escapa ao controlo dos proletários através da interposição de um enorme
aparelho burguês, células e sindicatos cujo papel principal é impor, em nome da
fraseologia dos operários, a aceleração do trabalho e a punição dos
"cabeças duras"; Tudo isto constitui um estado de coisas que não tem
vários nomes. No entanto, o dialéctico Trotsky recusa-se a ver para além da bi-popularidade,
da heterogeneidade do Partido, uma dualidade de princípios da qual ele retira
arbitrariamente a noção de dualidade de poder. Recusa-se a ver que o polo
"burguês" americano-soviético e o polo "proletário"
trotskista estão ambos, de facto, integrados no aparelho governamental, no
neo-bonapartismo de Estaline que oscila entre classes.5
Aqui encontramos novamente as gozações de Prometeu, que pretende rir-se de nós à custa de Marx e de Engels em
pessoa: «Um Estado que oscila entre as classes, um Estado burguês!», exclama.
Ora bem, para Engels, o bonapartismo tem um carácter «aparente entre as
classes» (Origem da família, da
propriedade privada e do Estado). Intermediário aparente, porque todo o governo
que se apresenta como intermediário entre a burguesia e o proletariado na
realidade joga para a burguesia. «Só o chefe da sociedade de 10 de Dezembro
—observa K. Marx em O 18 Brumário—
pode salvar a sociedade burguesa.» Este é o grito da burguesia francesa em
1851. Mas isso não é tudo. Marx chega mesmo a chamar Luís Bonaparte «o homem
que personifica a burguesia». E no entanto, é o próprio Marx, e não só Engels,
quem nos afirma na mesma obra que só sob Napoleão III «o Estado se nos
apresenta pela primeira vez em plena posse da sua independência»." O mesmo
se aplica, segundo Engels, ao governo de Bismarck; também oscila entre classes,
mas também é um governo burguês. Quando Prometeu pensa que está a
gozar connosco ao atribuir-nos a opinião de que o governo de Nitti oscilava
entre classes, atribui-nos os bens dos outros. Esta é uma afirmação de Bordiga
que, acreditamos, se encontra num artigo que teve de escrever sobre O 18 de Brumário de Karl Marx.
Em suma, nos grandes mestres do materialismo histórico, o Estado
bonapartista é, no fundo, um Estado burguês do tipo mais completo, "ainda
em potencial." A história confirmou o pensamento de Marx e Engels: foi
através dos governos de Luís Bonaparte e Bismarck que a burguesia atingiu a sua
plenitude económica e, a partir daí, a sua hegemonia total.
Quanto à ditadura proletária, a teoria ensina que não pode desenvolver
socialismo nem preservar-se se não desenvolver a revolução proletária no
terreno internacional. Isto é particularmente verdade para um país
industrialmente sub-desenvolvido. No entanto, a revolução proletária não se
desenvolveu em 1919-1920 nos países ocidentais na mesma extensão que na Rússia,
e o seu fracasso levou o Partido Bolchevique a recuar no campo económico e
político. O que restava para os bolcheviques de 1921 fazerem perante uma
situação interna difícil? Em 1920, com a marcha sobre Varsóvia, fizeram uma
tentativa suprema de acelerar o desenvolvimento revolucionário no Ocidente,
embora não soubessem como tirar pleno proveito desta acção, o que Trotsky
aparentemente considera um erro. Em 1921, havia apenas duas saídas para os
comunistas russos: ou a luta desesperada e heroica contra as forças internas e
externas da reacção e a "mais provavelmente" esmagamento e morte na
luta, ou o compromisso com as forças burguesas, o abandono irresistível das
posições revolucionárias, a suave absorção das forças comunistas nas novas
relações burguesas de produção introduzidas pela NEP.
A NEP veio demonstrar esta verdade: que se o Estado burguês e a classe
burguesa devem ser aniquilados para que a política dos operários se desenvolva,
ou seja, a expropriação dos exploradores e a supressão da exploração, se por
isso é impossível que a revolução proletária co-exista com formas burguesas de
vida e governo, não é de modo algum impossível que um governo operário, sob
certas condições, se alie pacificamente a uma política burguesa e, assim,
abandone uma revolução proletária que começou, fixando-a na fase burguesa.
Enquanto não tiver modificado profundamente as condições sociais herdadas
do capitalismo, enquanto se limitar à esperança, à possibilidade concedida ao
proletariado para cumprir a sua missão histórica, a revolução e a ditadura do
proletariado podem ser lentamente extintas; A burguesia pode retomar as rédeas
através do intermediário dos homens de confiança da classe operária e, sob a
máscara da acumulação socialista, pode reintroduzir a exploração que é a sua
base para o desenvolvimento social.
Se se admite que a NEP era a única saída em 1921, reconhece-se a hegemonia
das forças burguesas na revolução russa, reconhece-se que o proletariado ainda
não tinha a consciência internacionalista revolucionária do seu papel de
classe, reconhece-se que a hegemonia do PCR não expressava a da classe operária,
antes era uma formação política onde se manifestavam as contradições de várias
classes.
Esta abordagem ao problema merece uma crítica baseada numa análise muito
profunda de todo o desenvolvimento histórico russo e internacional. É uma concepção
que tem aspetos fortes e fracos; mas que não podem ser refutadas por
considerações a priori.
Assim, esta concepção não conduz às posições social-democratas e
mencheviques que eram as de Zinoviev e Kamenev em 1917. Estes últimos eram
contra-revolucionários porque se opunham ao desenvolvimento futuro da
revolução, um desenvolvimento no qual o proletariado tinha de participar, mesmo
que fosse apenas um caminho para o estágio genuinamente proletário. Um marxista
e um comunista têm o direito de considerar o conteúdo da Revolução Russa de
1917-1921 como burguês; Se este camarada tem os interesses da revolução em
vista, não deve ser chamado de menchevique e contra-revolucionário. Também não
se pode condenar como tal certos movimentos dirigidos contra a hegemonia
revolucionária dos bolcheviques, que podem muito bem ter as fontes de classe
mais genuinamente proletárias.
A revolta dos marinheiros de Kronstadt merece hoje uma análise mais objectiva
e profunda do que as observações superficiais que Lenine lhe dedicou no seu Imposto em Espécie. A questão é se não foi um movimento mais
revolucionário do que o dos bolcheviques. Em todo o caso, os bolcheviques nunca
conseguiram provar que este movimento estava ligado às forças reaccionárias da
burguesia internacional, e nunca conseguirão convencer revolucionários
consistentes de que esses mesmos marinheiros e proletários vermelhos, a
vanguarda do movimento de classes em 1905 e 1917, de repente se tornaram, em
1921, filhos de camponeses e até de kulaks...
O recuo para as posições da NEP foi legitimado por todos os epígonos do
leninismo e até pelos elementos da Oposição Operária. Miasnikov e o Grupo
Comunista dos Trabalhadores Russos acreditavam que a posição transitória da NEP
poderia, sob certas condições, servir de base para um novo impulso das forças
socialistas na Rússia, caso o movimento revolucionário internacional fosse
retomado. Mas o compromisso inicial não pôde deixar de arrastar outros; Não
havia possível trégua entre revolução e contra-revolução, entre a marcha para o
socialismo e a marcha para o capitalismo. A NEP, económica e socialmente, não
significava, como afirmavam os leninistas, uma "alternativa" entre
socialismo e capitalismo, mas sim uma "ambiguidade": a marcha do
capitalismo sob a máscara do socialismo. Politicamente, a NEP constituía a
premissa de uma contradição fundamental entre o desenvolvimento da revolução no
Ocidente e a reconstrução da economia na Rússia. Na verdade, tornou ilusória
desde o início a conjunção entre os bolcheviques russos e as forças
revolucionárias emergentes da Europa Central e Ocidental. Miasnikov queria
aliviar as consequências da NEP estabelecendo a aliança dos bolcheviques com os
ultra-esquerdistas, em vez do compromisso dos bolcheviques com os social-democratas.
Esqueceu-se de que a própria NEP impedia os bolcheviques de procurarem aliança
com o extremismo.
O caminho da luta proletária desesperada era, portanto, a única saída
revolucionária. Implicava os mesmos deveres para os operários russos e para os
comunistas dos países ocidentais. Foi com base nessa filosofia da ofensiva que
Trotsky (o homem da revolução permanente) encontrou uma forma de condenar no
Terceiro Congresso da Internacional Comunista.
Esta filosofia da ofensiva, que nos confere a qualificação de mencheviques
do lado de Paz (Maurice Paz
-1896–1985 - foi um advogado, jornalista e político francês, conhecido por ser
um dos primeiros membros do Partido Comunista Francês - PCF - e da Oposição Comunista de Esquerda
ao lado de Leon Trotsky – NdT), é, no entanto, aquela que até os direitistas
Bukharin, Humbert-Droz, Brandler, etc., defenderam durante a revolta
revolucionária de 1920-1921; é aquela que Marx admira nas figuras viris da
revolução burguesa de 1789-93. É bem ela quem anima os artigos de Lenine e Zinoviev de Contra a Corrente (e não, claro, os de Paz e
Delfosse).
Foi esta filosofia da ofensiva que, no terreno da revolução permanente,
levou Marx a considerar a guerra revolucionária contra a Europa como a única
saída para uma revolução proletária em França em 1848. Foi também ela, sem
dúvida, quem o fez ver em Blanqui a personificação daquela "ofensiva"
que podia, já no século XIX, abalar a Europa burguesa e semi-capitalista num
sentido proletário, tal como a Europa feudal já tinha sido derrubada pelos
exércitos de Napoleão.
Mas a filosofia da ofensiva, da Revolução permanente, da guerra
revolucionária, aquela bandeira vermelha que os bolcheviques em 1917 agitaram
diante dos olhos da Europa aterrorizada, a NEP prudentemente enrolou. Os
comunistas esqueceram-se do parágrafo final de Marx em A Pobreza da Filosofia: "Só numa ordem de coisas em que já não existam
classes ou antagonismos de classe é que as revoluções sociais deixarão de ser
revoluções políticas. Até lá, na véspera de cada remodelação geral da
sociedade, a última palavra das ciências sociais será sempre: 'Combate ou
morte: luta sangrenta ou nada. É assim que a questão é colocada
invencivelmente' (George Sand)".
É possível dizer hoje que esta opção não foi colocada à Internacional
Comunista em 1921? Pode dizer-se que apenas a morte aguardava os batalhões da
revolução na luta suprema? Quem sabe se a furiosa ofensiva da revolução russa
(o que Leon Trotsky hoje chamaria de política da aventura) não teria despertado
as energias que existiam em potencial nas massas proletárias da Europa e de
todo o mundo?
E sobretudo, como é que Trotsky e os outros endireitadores e dom Quixotes
do leninismo não veem nesse momento histórico decisivo, naquele momento em que
duas saídas decidiam a hegemonia proletária na Rússia, o salto dialéctico,
aquela famosa mudança da quantidade na qualidade que ainda esperam hoje, como
os homens da Idade Média esperavam o Apocalipse? Não será porque nesse salto
dialéctico foram aquilo que continuaram a ser desde então, os reformistas
hesitantes que as forças económicas e sociais trituraram no seu mecanismo?
É por isso que hoje não veem que é falso chamar um governo de ditadura do
proletariado que, pelo seu próprio reconhecimento, desenvolve as forças da
burguesia; que é falso, após tal erro, fingir ser marxistas e dialécticos.
A análise de Marx em 1871, baseada na experiência da Comuna de Paris, é um
avanço em relação à intuição histórica contida no Manifesto Comunista. As conclusões que Marx retirou da Comuna, conclusões
de grande valor para a luta de classes no Ocidente, foram, é verdade,
distorcidas pela Social-Democracia. Lenine ajudou a restaurá-los à sua
verdadeira aparência. Mas deve salientar-se que as conclusões que retirou da
análise marxista e da experiência russa não ultrapassam as conclusões de Marx e
até marcam uma certa regressão em relação à concepção marxista e engelsiana da
ditadura do proletariado, uma regressão igualmente notória na teoria e na acção.
O leninismo não é, portanto, aqui um complemento moderno ao marxismo, assim
como a revolução russa não é, nos seus resultados, uma superação da Comuna de
Paris. O leninismo marca uma regressão em relação ao marxismo. Em Marx, a
democracia operária não está identificada com a ditadura do partido. O que se
pode retirar da concepção marxista é a necessidade da elite proletária, que não
domina a classe operária, mas é apenas uma expressão ideológica e
organizacional dela, que tende ao desenvolvimento pelo qual a revolução, o
socialismo, será identificada com a própria classe na sua totalidade. O papel
do Partido não é um papel de supremacia que tende a perpetuar-se, é um papel de
educação, que completa a consciência política da classe operária.
Se a acção do partido não contribuir para o desenvolvimento do
Estado-classe, a ditadura do proletariado, a democracia operária, etc.,
permanecem como expressões puramente teóricas. Na prática, o leninismo deu um
golpe mortal à ditadura de classes ao subestimar e negar o papel dos conselhos
de fábrica, que eram a base viva da democracia operária. Entorpeceu essa base,
cuja passividade é surpreendente hoje. Ao mesmo tempo, o leninismo tende para
uma justificação alargada do burocratismo. Em Marx, reina a mais rigorosa
intransigência relativamente a esta manifestação que ele gostaria de suprimir
completamente. Porque é que a preocupação com o perigo burocrático ocupa um
lugar tão importante na análise de Marx? Porque é que ele marca a diferença
entre o Estado burguês e o Estado dos operários nesse ponto exacto?
Evidentemente, porque Marx via neste perigo o regresso das forças burguesas ao
poder. É um elemento de grande importância teórica, porque prova que Marx não
descartou a hipótese de um regresso do poder burguês, mesmo sem o "salto
dialéctico". Se a pureza da democracia operária não atingir um máximo
possível, pode facilmente degenerar. Acreditamos que esta diferença,
aparentemente obliterada, uma diferença que só uma crítica objectiva ao
leninismo e ao marxismo pode destacar, explica a atitude dos actuais dialécticos
da escola leninista, Trotsky e os seus semelhantes. E até parece que os
epígonos leninistas, Trotsky, etc., exageram o defeito fundamental do leninismo
quando identificam o kerenskyismo ao contrário com a ditadura proletária. Pois,
embora admitisse a burocracia, Lenine não identificava a sua existência com a
da ditadura proletária, não identificava o Estado operário com o Estado
burocrático da burguesia...
E, no entanto, é a esta horrível caricatura do marxismo revolucionário que
agora chegaram, Leon Davidovich. Isto é o abandono, a traição doutrinária que
tão alegremente repreendes outros, à maneira do primeiro filisteu bolchevique
que veio. Trotsky acredita que o marxismo deve morrer com ele e com aquela
deformidade repugnante da ditadura proletária que é o "kerenskyismo ao
contrário"?... Não, a dialéctica inexorável da história não precisa das
contradições de Trotsky consigo próprio para provar que o proletariado é a
única força capaz de destruir a ordem burguesa e substituí-la pela economia
socialista, já que o homem que, perante o kerenskyismo em 1917, adoptou os
meios da violência revolucionária, hoje trata como aventureiros da política os
elementos que querem adoptar os mesmos meios contra o kerenskyismo em 1928-29,
e porque defende fortemente a reforma perante a opressão estalinista.
A história deixará Trotsky no seu reformismo, pois é aí que o espírito do
líder do Exército Vermelho finalmente encalhou, pois tais são os últimos
resultados, os últimos avanços da dialéctica em Leão Trotsky e nos seus
epígonos.
AS CONDIÇÕES HISTÓRICAS DA REVOLUÇÃO RUSSA
Na Rússia, antes da revolução de 1917, existia um proletariado industrial
de 6 milhões de operários realmente envolvidos no processo de produção.
Multiplique este valor por 2,5 para obter o número exacto do proletariado
industrial como um todo, e obtemos 15 milhões. Isto representava 8% da
população russa na altura (180 milhões). Este pequeno grupo, em 1917, derrubou
o czarismo e o capitalismo, despojou o capital e os latifundiários, e
introduziu o comunismo na indústria, transportes e comércio. Como foi possível?
Como poderia uma força tão pequena manifestar-se com efeitos tão grandes?
Apenas por causa das condições particulares de produção e das relações de
classe da Rússia.
O capitalismo estava sub-desenvolvido e, além disso, quase exclusivamente
detido por capital estrangeiro. O czarismo, a classe dos latifundiários e a
burocracia foram (tal como o capitalismo fraco) completamente destruídos pela
guerra. Mas, acima de tudo, havia uma classe que veio em auxílio do
proletariado: os camponeses pobres. Esta classe, extremamente numerosa na
Rússia (refere-se o número de 20 a 25 milhões de homens), era a herança da
servidão. Queria despojar os proprietários e distribuir as suas terras entre os
seus membros. Apenas um partido tinha vontade de os ajudar: os bolcheviques.
Foi por isso que os apoiaram. Só com a ajuda dos camponeses pobres é que os operários
industriais, em pequenos números, conseguiram pôr em prática aquilo que parecia
impossível: a construcção do comunismo. A Revolução de Outubro foi até fácil e
rápida.
Se, então, as relações de classe explicam a própria revolução, não menos
explicam a forma da revolução.
Na Rússia, os operários ainda estavam intelectualmente pouco desenvolvidos,
o analfabetismo era quase generalizado. Os camponeses pobres estavam
intelectualmente ainda mais baixos do que os operários. Por causa disto, desta
situação particular de classe, não podia ser uma ditadura de classe dos operários
e camponeses pobres. Só a ditadura de um partido (os bolcheviques) poderia
liderar a revolução, conter a contra-revolução, tomar o comando dos operários e
camponeses pobres, desempenhar o seu papel face aos estrangeiros, construir o
comunismo.
Não poderia ter sido de outra forma. As relações de classe na Rússia
tornaram a ditadura do partido absolutamente necessária e, com ela, em grande
medida, a ditadura dos líderes.
A ditadura do partido e dos líderes e o arrastar de grandes massas pouco
desenvolvidas eram consideradas algo natural no pensamento dos russos, algo que
ocorre naturalmente.
Mas as relações de classe rapidamente tiveram mais uma consequência.
Quando rebentou a contra-revolução, enquanto a revolução na Europa ainda
estava atrasada e a miséria crescia nas terríveis guerras contra a reacção e no
estrangeiro (apesar das vitórias conquistadas sobre essas potências), então
surgiu este facto: que o comunismo, construído por uma pequena classe operária
e por uma ditadura partidária com a ajuda das grandes massas camponesas, era
sobretudo nada mais do que aparência. A massa dos camponeses, a quem os
bolcheviques tinham dado a terra, e que por isso se tinham tornado
proprietários privados e não comunistas, exigia então liberdade de comércio. Os
comunistas tiveram de a conceder, fazer concessões ao capital estrangeiro,
aproveitar as minas, os poços de petróleo, as florestas, reintroduzir
parcialmente o capitalismo. Estas mesmas relações de classe (em primeiro lugar,
a preponderância do pequeno campesinato) que permitiram a um pequeno
proletariado construir o comunismo, forçaram-no em breve a abandoná-lo
parcialmente. Não só as relações de classe russas, mas também as relações de
classe mundial, obrigaram-no a fazê-lo. Como o proletariado mundial não veio em
socorro por insurreição, a Rússia ficou sozinha. E foi demonstrado que o
comunismo não pode subsistir num único país.
Relações russas e de classe mundial foram assim impostas ao comunismo
russo. O apoio de uma pequena classe, a ditadura do partido e dos líderes já
não eram suficientes.
Se o proletariado mundial não vier agora em auxílio do proletariado russo
fazendo a revolução, se a revolução mundial não acontecer, a revolução russa
perecerá.
Assim, a influência, o poder das forças produtivas, seria demonstrado
novamente de forma formidável e sem paralelo.
A revolução proletária de 1917 (foi em grande parte comunista, apesar do
papel desempenhado pelos camponeses) seria vista como apenas para empurrar a
burguesia russa e a sua democracia para o poder. Seria, portanto, no fundo, uma
revolução burguesa. Sem dúvida, os frutos que teria trazido ao proletariado
seriam inestimáveis. Porque mostrou ao proletariado mundial os caminhos e meios
para a tomada do poder: os conselhos operários e a ditadura do proletariado.
Mas são as condições de produção e as forças produtivas: a escassez do
proletariado, as grandes empresas industriais em número reduzido, a
predominância da agricultura, o enorme número de camponeses pobres e não
comunistas, que se teriam imposto na economia russa, apesar das enormes
tentativas do proletariado russo, e que a teriam levado a seguir o caminho
habitual do feudalismo ao capitalismo moderno e à democracia burguesa, para só
chegar ao comunismo depois dessa etapa.
Enquanto no passado o proletariado era usado como auxiliar pela burguesia
nas revoluções burguesas para derrubar o feudalismo e construir o Estado
burguês, desta vez teria sido o próprio proletariado, pelo seu próprio
movimento, que teria construído o Estado burguês.
Isso aconteceria se o proletariado mundial não viesse em auxílio do
proletariado russo enquanto ainda houvesse tempo. Mas o poder das forças
produtivas e das condições de produção, que dominam tudo, seria então provado
de uma forma sem precedentes.
E com isto seria verificada a correcção incontestável do materialismo
histórico.
Herman Gorter
Dezembro de 1921.
DEVEMOS CONQUISTAR OS SINDICATOS OU
DESTRUÍ-LOS?
No século passado, no início do movimento da classe operária, Karl Marx
inclinou-se a considerar, nos órgãos sindicais, as formas pelas quais a luta de
classes conduzira a uma luta política e revolucionária. As experiências do
cartismo, em particular, contribuíram para sustentar historicamente a visão de
Marx de que os sindicatos, a escola do socialismo, seriam a arena da Revolução.
Este acórdão não pode ser condenado se considerarmos o período histórico em que
foi formulado.
Mas se nos referirmos à época presente, deve notar-se que os sindicalistas
especularam indignamente sobre a antiga opinião de Karl Marx, para atribuir às
formas sindicais a exclusividade do papel revolucionário. É um facto geralmente
ignorado em França e Itália que Marx, como observador escrupuloso do
desenvolvimento da luta de classes e como incansável opositor de todas as
conclusões dogmáticas, não deixou de rever o seu ponto de vista à luz da
experiência histórica. Percebeu que os sindicatos, presos nas arenas da
resistência económica, já não eram os órgãos naturais da luta de classes, como
os epígonos da escola leninista (trotskistas, bordigistas, brandleristas, etc.)
ainda afirmam, mas que a sua função se limitava a resistir à tendência dos
capitalistas para reduzir ao mínimo os custos da existência do capitalismo.
É um facto comprovado que esta resistência dos sindicatos não pode trazer
qualquer melhoria real e geral à situação dos operários. A luta económica
dentro dos limites da sociedade capitalista só permitiria ao operário perpetuar
a sua vida de escravatura, mesmo quando as crises de desemprego não privassem
grandes massas dos seus meios de subsistência.
Por outro lado, Marx observou que os sindicatos não tinham o papel de
educadores revolucionários do proletariado. E esse era, para ele, o elemento
essencial no desenvolvimento da luta de classes rumo à vitória do socialismo. É
óbvio que nenhum revolucionário poderia perder de vista o ponto de vista
fundamental que a libertação do proletariado e da sociedade como um todo contém
em si.
O que Marx ainda não conseguia ver era o fim das organizações sindicais no
pântano da colaboração de classes. Foi isso que vimos durante e após a guerra.
Após a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa, duas tendências
confrontaram-se no movimento comunista, duas tendências que deram soluções
completamente diferentes para o problema sindical. Alguns, os leninistas,
defendiam a necessidade de conquistar os sindicatos, ou seja, substituir os
líderes reformistas por líderes comunistas, ou revolucionar os sindicatos
reformistas. Os outros, os extremistas da Alemanha, os tribunos da Holanda,
defendiam a destruição dos sindicatos. Os sindicatos, como instrumentos de luta
directa da classe proletária, foram contestados pelos conselhos revolucionários
que surgiram espontaneamente na Alemanha durante os movimentos insurreccionários
de 1918-1919.
Escusado será dizer que estas duas tendências não se manifestaram sem graus
intermédios. Ainda havia elementos, fossem comunistas ou sindicalistas, que
defendiam a saída dos sindicatos reformistas para formar sindicatos
revolucionários.
Deve notar-se que o leninismo já tinha percebido, especialmente durante a
guerra, a natureza contra-revolucionária dos sindicatos e a natureza burguesa
do seu burocratismo. É muito estranho que este estudo não o tenha impulsionado
para posições radicais. Em 1920, a escola leninista sentiu a necessidade de
conquistar a simpatia das massas e assim conduziu o movimento revolucionário
para o círculo vicioso da conquista dos sindicatos. Na realidade, a teoria de
que os sindicatos eram os órgãos naturais do proletariado não tinha
justificação histórica. Embora estes órgãos tivessem sido tais na sua origem,
já tinham dado evidências da sua degeneração durante e após a guerra. Já não
eram apenas órgãos não revolucionários, como Marx os definira, mas também
órgãos que conduziram à colaboração de classes, à vitória das forças contra-revolucionárias.
E não é sem desagrado que lemos no discurso de Bordiga no Segundo Congresso da
Comintern sobre a questão parlamentar que "o sindicato, mesmo quando é
corrupto, permanece sempre um centro operário". Esta afirmação é tão
infantil que qualquer um consegue perceber a sua óbvia inconsistência. Bordiga,
que quer legitimar a teoria leninista da conquista, legitima a possibilidade
dessa conquista mesmo por órgãos sindicais reaccionários, até por corporações
fascistas. Esta forma de abordar o problema sindical é, além disso, abstracta e
anti-histórica. Se os sindicatos são corruptos, certamente não é por causa da
existência do reformismo. O reformismo é, pelo contrário, um produto da
evolução dos sindicatos numa direcção contra-revolucionária. O revisionismo na
Alemanha desenvolve-se na Social-Democracia e domina-a, mas tem as suas raízes,
a sua força, nos sindicatos. A teoria da conquista, que admite a regeneração
sindical, parte obviamente do ponto de vista de que forças externas corromperam
os órgãos de resistência proletária e que estas devem ser expulsas para colocar
as forças revolucionárias no seu lugar. Se partirmos deste ponto de vista – que
a corrupção sindical como fenómeno histórico encontra a sua razão de ser na
natureza do sindicato – não se trata de querer reconciliar as novas formas
revolucionárias com as antigas, ultrapassadas e corruptas formas da luta de
classes. No entanto, as elites políticas revolucionárias, cujo embrião já se
encontrava na Social-Democracia internacional antes e durante a guerra e que se
manifestaram nos núcleos e partidos comunistas do período imediatamente
pós-guerra, são, segundo a teoria da conquista, os órgãos que surgiram para
revolucionar as massas na antiga organização sindical. Mas vai mais longe! Os
conselhos de fábrica, que não são produto de uma acção de conquista das massas,
os conselhos de fábrica que foram formados sobretudo na Alemanha após a guerra
e que entram na sua forma e actividade revolucionária em conflito com os
sindicatos, não têm importância para os teóricos da teoria da conquista. Na
prática, a teoria da conquista, cegando-se para o conflito entre os sindicatos
e os conselhos, rebaixou estes últimos ao nível de órgãos legalizados,
subordinados à linha contra-revolucionária da CGT alemã.
Assim, a natureza anti-dialéctica da conquista emerge da experiência
histórica do movimento alemão. Nega o conflito entre os conselhos
revolucionários e os sindicatos, ou seja, entre as forças proletárias na
fábrica e a burocracia sindical. Pretende usar as novas forças políticas para
regenerar os sindicatos; Mas toda a actividade dos conquistadores não impede
que estas formas sejam regeneradas de se corromperem cada vez mais. Não impede
a aplicação da arbitragem compulsória; além disso, as forças da conquista são
forçadas a manobrar no meio da colaboração de classes. O leninismo, que sempre
se vangloriou de estar acima de tudo no campo da destruição do Estado, não
compreendeu que os órgãos corruptos também devem ser destruídos. Contra os sindicatos,
mostrou-se totalmente reformista, se não reaccionário. A actividade
revolucionária das elites políticas do proletariado nunca deve submetê-las ao
processo histórico, nunca deve consistir em ocultar conflitos e fingir
resolvê-los por um sistema de estratégia inversa.
A falência desta estratégia leninista parece-nos hoje incontestável.
Ninguém poderia negar isto se considerarmos os resultados que acabámos de
notar. E é o auge da inconsistência que os conquistadores ainda se agarrem como
uma tábua de salvação a esta teoria que a experiência histórica condenou
definitivamente. Organizações corruptas não são conquistadas, são destruídas.
O extremismo infantil, contra o qual o leninismo, encorajado por estes
sucessos temporários, dirige os dardos da sua ironia em 1920, não foi abalado
na sua teoria da destruição pela onda de entusiasmo que, naquele momento, cegou
o espírito de muitos revolucionários. Não era uma teoria abstracta e anti-dialéctica
que quisesse aplicar sistemas anódinos à história. O leninismo, através da
grande difusão das suas teorias e concepções, conseguiu espalhar uma caricatura
do extremismo. E o próprio Bordiga contribui para desfigurar o extremismo
quando, no seu discurso no Segundo Congresso da Comintern, o assimila ao
sindicalismo. No entanto, a teoria "destrutiva" do extremismo é
precisamente anti-sindicalista. O sindicalismo idealiza as formas sindicais, vê
nelas eternamente a renovação das forças revolucionárias. No sindicato, o
socialismo alcança o seu objectivo, as suas formas perfeitas.
Em suma, para esta teoria a união é a única forma, a forma eterna, que está
sempre rejuvenescida na luta de classes. O sindicalismo identifica assim a luta
de classes com o sindicato. E nisso, não estaria longe do leninismo, se a
questão do partido não existisse para os separar.
O radicalismo ou extremismo realizou as modificações que o processo
histórico trouxe às formas da luta de classes. Ele vê bem que o que é corrupto
nunca pode ser curado. É o produto das experiências da história da luta de
classes na Alemanha; é uma força viva que surge do desenvolvimento da
revolução. Não é uma teoria abstracta, como o sindicalismo, não é um
anacronismo na revolução proletária da Europa Ocidental, como o leninismo.
Na Alemanha, o revisionismo defendia a colaboração de classes e, tendo
raízes nas organizações sindicais, invadiu todos os círculos social-democratas.
Após o início da guerra, o revisionismo triunfa. A burocracia sindical, a
aristocracia laboral, já tinham infectado a Social-Democracia e os sindicatos.
Eram produto do desenvolvimento capitalista e, ao mesmo tempo, das formas
puramente económicas que a luta de classes tinha assumido. Estas formas
puramente económicas de luta por reivindicações parciais tinham alimentado o
social-chauvinismo dentro da classe operária, a crença de que as melhorias do
proletariado eram possíveis sob o domínio capitalista. É evidente que este
preconceito levou os operários a acreditar que o seu bem-estar dependia
sobretudo da supremacia da sua pátria capitalista (este preconceito ainda é
generalizado entre os operários franceses hoje). Assim, a luta pelos meios de
subsistência levou, nas suas formas sindicais, ao limiar da colaboração de
classes. A guerra integrou o aparelho burocrático dos sindicatos no aparelho
governamental da burguesia (o que aconteceu até em França para a CGT). A
colaboração de classes foi oficialmente proclamada pelos órgãos sindicais, que
negaram a possibilidade de luta de classes durante a guerra, que empurrou os operários
para a guerra capitalista, como fiéis servos do imperialismo.
A classe operária alemã viu-se assim confrontada com um fenómeno histórico
que transformou órgãos originalmente classistas em armas dóceis nas mãos do
capitalismo. Certamente, os sindicatos lutaram pela jornada de oito horas,
pelos aumentos salariais, conseguiram aproveitar a situação económica para
extrair concessões do capitalismo que eram respeitadas mesmo em períodos de
crise. Mas essas concessões foram apenas relativas, se considerarmos o
gigantesco desenvolvimento do capitalismo e os seus lucros. Eram, como os
acontecimentos subsequentes demonstraram, extremamente precários. Os resultados
da luta pelos meios de subsistência levaram à formação de sindicatos que
incluíam milhões de operários. No topo destes órgãos forma-se um aparelho
burocrático centralizado e numeroso. Este estrato burocrático, que retirava a
sua força sobretudo da parte mais privilegiada da classe operária, a
aristocracia operária, que nunca compreendeu as aspirações das camadas mais
baixas do proletariado, não conseguiu manter o espírito revolucionário e de
classe. Pelo contrário, desligou-se completamente dos seus hábitos e ideias da
classe de onde vinha. A sua ideologia tornou-se assim capitalista e
conservadora. Na verdade, a preservação deste estrato social não era, nem é
ainda possível, excepto pela perpetuação do regime capitalista. A revolução
proletária visa suprimir tudo o que é parasitário na sociedade. Agora, o
burocratismo não passa de um fenómeno parasitário que a ascensão do capitalismo
desenvolveu, que as classes exploradoras favoreceram e sustentaram em seu
interesse. O burocratismo estatal cresceu imenso sob a dominação burguesa,
mesmo em países onde, inicialmente, era apenas um elemento desprezível. No seu
desenvolvimento, o burocratismo sindical andou de mãos dadas com o burocratismo
estatal. Na Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, estes dois elementos sociais
não têm diferença entre si. Não é extraordinário que a burocracia sindical
tenha absorvido a ideologia burguesa; que tentou, por vezes com sucesso, a
mistificação da ideologia proletária e a corrupção da própria classe operária.
Ao distanciar-se da classe operária enquanto força histórica
revolucionária, na sua colaboração com o capitalismo, a burocracia sindical
idealizou a sua condição social numa teoria de colaboração inter-classes. Era
natural que estendesse esta teoria a toda a classe operária.
Há pessoas que explicam o fenómeno da colaboração entre sindicatos e
Estados como um fenómeno transitório, como consequência de uma calma na luta de
classes. Estes elementos idealizam a união; Fazer da União uma forma eterna da
luta de classes. Falham em compreender a diferença entre todo o processo da
luta de classes e as suas formas, que nem sempre são as mesmas. Estas pessoas
estão até inclinadas a acreditar que, uma vez que negamos a idealização das
formas (que lhes é própria), negamos mesmo a luta de classes.
O próprio Trotsky não percebeu há algum tempo que as formas naturais da
luta de classes já não são os sindicatos. Afirma no seu documento de 1917 que,
em países que não a Rússia, os órgãos da revolução serão provavelmente os
comités de fábrica e até os sindicatos. Há confusão óbvia aí. Em Trotsky, o
ecletismo chega ao ponto de admitir que estas duas formas de luta de classes
são idênticas. Nesta concepção, o sindicalismo puro mistura-se com radicalismo;
A antítese histórica destas duas formas desaparece, e a ideologia burocrática é
assimilada à ideologia puramente proletária. O reformismo forma uma frente
unida com a revolução. É, além disso, surpreendente que os elementos de La Révolution Prolétarienne ainda não tenham abraçado este
argumento que Leon Trotsky lhes empresta tão levianamente. Estes elementos,
através do canal da idealização dos sindicatos, chegaram hoje à idealização do
Labour. Louzon, o líder teórico da Liga Sindicalista, chegou, com base num
determinismo geográfico (que nada tem a ver com o determinismo histórico e
materialista), a encontrar o ponto de encontro do económico e do político no
Trabalhismo inglês e belga. Resolveu de forma prática e consistente, no terreno
ideológico da Liga Sindicalista, os problemas da revolução que Loriot
teoricamente colocara no seu panfleto. Deu uma forma viva ao fantasma
ideológico de Loriot. Chambeland já fez mais. Praticamente aproximou a Liga
Sindical do Labour. Fez um pedido de desculpas muito diplomático pela
conciliação obrigatória, a posteriori. Pierre Naville, que ainda não encontrou
uma forma precisa para o seu surrealismo revolucionário, acrescenta uma nota
apologética a este quadro trabalhista: honestidade revolucionária!
Nada mais grotesco poderia ser imaginado do que este papel de liderança na
revolução atribuído ao sindicato. O sindicato que destruiu todos os movimentos
revolucionários, com o seu burocratismo colossal e infectado! O sindicato que,
na Rússia, é hoje a arma do Estado bonapartista para manter o regime triangular
nas fábricas soviéticas! O sindicato que, em Itália, já não ocorre excepto sob
a forma da pura opressão do proletariado, nas corporações!
As pessoas que idealizaram o sindicato ao ponto de o tornarem o órgão mais
sensível, até o mais revolucionário durante a ditadura do proletariado, não
consideraram os resultados de um século de luta de classes. Não viram, e ainda
não veem hoje, que a luta de classes, se por um lado criou o sindicato, hoje,
para alcançar formas superiores e revolucionárias, já não pode encontrar a sua
expressão nas organizações sindicais. Eles não compreendem que, se o ponto de
partida da luta de classes for puramente económico, o desenvolvimento da
consciência proletária historicamente excede o impulso puramente económico. A
concepção destas pessoas rebaixa a dialéctica materialista ao nível de uma
teoria puramente utilitarista. Ele não compreendeu que as formas económicas da
luta de classes contrastam com as formas revolucionárias, precisamente porque
as primeiras tendem a limitar as segundas. Certamente, a luta económica tem
oferecido e ainda oferece um campo de experiência que, de outra forma, se torna
cada vez mais restrito. As convulsões económicas são até muito frequentemente o
ponto de partida de convulsões revolucionárias (nem sempre). Esta tendência dos
movimentos económicos para se tornarem movimentos políticos é um fenómeno que
encontra a sua razão na natureza das classes. Mas esta tendência espontânea,
por si só, não podia servir para a realização da revolução. Sem isso, a
revolução teria sido realizada há muito tempo. O elemento da espontaneidade
revolucionária encontrou limites na falta de experiência da classe operária. E
esses limites devolveram as massas às suas posições económicas iniciais. Os
sindicatos têm sido e são a expressão organizada destes limites. Certamente, a
espontaneidade da luta de classes, os seus movimentos, tendem a generalizar-se,
os seus graus de poder estão, em certos períodos, num crescendo cada vez mais
acentuado. E essa espontaneidade levou, na Alemanha e em Itália (no momento da
efervescência revolucionária mais intensa), à formação mais ou menos incompleta
dos conselhos de fábrica. Em Itália, a espontaneidade do movimento
revolucionário assumiu uma forma original do ponto de vista histórico. Na
ocupação das fábricas, a espontaneidade do movimento empurrou a classe operária
para a expropriação directa das fábricas, efectuada não por decreto de um
governo constituído, mas pela acção das massas operárias mais avançadas. Além
disso, esta acção revolucionária não deve ser confundida com a acção puramente
sindical, que nunca ultrapassou a escala deslizante e uma política de tarifas,
que era absurda do ponto de vista revolucionário. O movimento dos metalurgistas
italianos ultrapassa os limites do que se acorda ser chamado económico. Aqui
poderíamos ser apontados que não existe uma economia pura do ponto de vista
marxista, que todo movimento económico é um movimento político embrionário. Já
apontámos que existe uma tendência em todo movimento económico do proletariado
para se tornar um movimento político, mas observámos que existem forças que
levam esses movimentos de volta aos limites do económico. Por outras palavras,
o elemento económico tem um duplo aspecto. Desenvolve-se com base num dilema: a
luta pelos meios de existência ou a luta pela revolução. Até agora, há apenas
muito poucos exemplos disto, o dilema encontrou uma solução histórica
revolucionária, e isso sempre aconteceu fora das formas de organização
sindical. O exemplo da ocupação das fábricas mostra-nos o caminho que a
revolução seguirá num futuro próximo em Itália. Supera na sua espontaneidade
todos os métodos anteriores de luta. Além disso, é apresentado como um fenómeno
de verdadeira unidade: deve notar-se que este movimento, inicialmente, foi uma
iniciativa da categoria dos metalúrgicos, espalhou-se entre as outras
categorias. E se este movimento não tivesse sido travado, teria alcançado toda
a classe operária. Muitas pessoas acreditam que foi produto da acção sindical
da federação metalúrgica. Angelica Balabanoff, nas suas memórias, tenta
diminuir a importância deste movimento quando alude a um movimento análogo que
teria sido provocado na realidade pelos fascistas antes da ocupação das
fábricas em Setembro de 1920. Não atribui qualquer importância ao grande
movimento de Setembro e não procura de forma alguma analisar as suas causas e
desenvolvimento. É claro que, para ela, como para tantos outros, é uma acção
puramente sindical. Deve notar-se primeiro que a ocupação de Setembro foi
precedida por dois movimentos muito significativos. O movimento dos conselhos
de fábrica em Turim e a ocupação dos Fliani e Silvestri em Nápoles. A primeira
foi empurrada para um terreno puramente reformista pelos elementos comunistas
do L'Ordine Nuovo, para o terreno do
controlo da produção. A ocupação dos Fliani e Silvestri, no seu isolamento, se
considerarmos que ocorreu em Nápoles, um pouco mais distante do verdadeiro
centro industrial, foi um sintoma muito significativo das tendências
revolucionárias que agitavam as massas italianas. Foi resolvida pela
resistência dos operários às forças policiais e pelo assassinato de um membro
do Soviete que se tinha formado dentro da fábrica ocupada.
A grande ocupação de Setembro de 1920 foi provocada pela ocupação
espontânea dos operários de algumas fábricas na Ligúria e em Milão. Foi como
resultado destes movimentos espontâneos que a Federação dos Metalúrgicos tomou
a iniciativa de ocupar as fábricas, que se teriam desenvolvido, além disso,
para além da vontade dos líderes do movimento sindical. E não foram apenas os operários
desta organização, mas a totalidade dos metalúrgicos que participaram neste
movimento... Os líderes da Federação declararam que o carácter do movimento era
puramente económico. O movimento dos conselhos, que se desenvolveu durante a
ocupação das fábricas, era de extrema preocupação para os dirigentes sindicais,
que lhe propuseram, tal como os ordinovistas em Turim, um papel reformista de
controlo sobre a produção. É muito estranho e contraditório que Bordiga tenha
levado este argumento não só para condenar o "Ordinovismo", mas para
justificar o papel clássico da CGT italiana. Bordiga demonstra, nesta
circunstância, que não compreendeu a realidade do conflito que se desenvolveu
durante a ocupação das fábricas em Itália. Evidentemente, para ele, a tradição
de classe da CGT italiana impõe-se aos conselhos, que até lhe parecem órgãos
reformistas. Escusado será dizer que a forma que os ordinovistas e reformistas
italianos tentaram dar aos comités de fábrica foi reformista. Mas a sua
verdadeira forma não era a que os reformadores tentaram dar-lhes. A sua forma
real tendia a ser realizada na hegemonia política e nisso era revolucionária. O
desenvolvimento posterior da ocupação das fábricas teria dado aos conselhos de
fábrica o papel de liderança política. Mas os limites do económico,
representados não só pela Federação Metalúrgica e pela CGT italiana, mas por
todas as organizações sindicais (Sindicato Italiano, Federação dos Navios
Longos, Sindicato dos Trabalhadores Ferroviários, etc.), todas as organizações
políticas impuseram limites económicos ao movimento ou aceitaram-nos sem opor
resistência, o que equivale à mesma coisa. Entre eles estavam também os
elementos que fundaram o Partido Comunista, quatro meses depois, em Livorno.
O movimento de Setembro de 1920 em Itália mostra mais uma vez que, se o
ponto de partida económico pode levar o proletariado a posições espontaneamente
revolucionárias, os sindicatos tendem a trazê-lo de volta ao ponto de partida.
A vitória dos conselhos em Itália marcou o fim das organizações sindicais. E,
no entanto, deve notar-se que o desenvolvimento da aristocracia operária tinha
sido extremamente fraco em Itália. E a burocracia sindical era, comparada com a
de outros países, relativamente limitada, embora não fosse menos corrupta nem
menos astuta.
As organizações sindicais que lideravam socialistas de extrema-esquerda,
anarquistas e sindicalistas revolucionários, não eram menos do que os outros
órgãos que se opunham ao avanço da revolução, que a devolveu aos limites do
económico, provocando a ofensiva reaccionária e a derrota do proletariado. Estas
organizações, onde o maximalismo verbal dos líderes expressava geralmente o
medo das massas revolucionárias, foram organizações contra-revolucionárias no
processo revolucionário da luta de classes em Itália. O caminho da revolução em
Itália, como noutros lugares, não é o dos sindicatos. A tentativa de renovar a
experiência sindical, após o fim ignominioso deste movimento, é um anacronismo
contra-revolucionário. Colaborar na restauração de órgãos onde a revolução já
descobriu inimigos significa trabalhar na direcção da contra-revolução.
Prometeu observou correctamente
que negamos qualquer forma de organização de massas em Itália. Devemos notar
que, desde a nossa saída da facção Bordigista, começámos a pensar, a reflectir
com uma mente mais livre. Sem qualquer compromisso disciplinar que nos forçasse
a um cretinismo dogmático, tivemos de encarar a realidade de frente.
Pareceu-nos um pouco diferente do que nos tinham feito ver. E a realidade que
vimos e examinámos não é o sonho do nosso pensamento, é, bem, a história do
movimento de classes em Itália. Existem, como sabemos, organizações de massas
em Itália: são as corporações fascistas, que são, tanto quanto os sindicatos na
Alemanha, Rússia, etc., as prisões da consciência de classe, do espírito
proletário. As corporações são para os sindicatos o que o fascismo é para o
reformismo. Ou seja, duas coisas perfeitamente análogas e complementares. Estes
são os elementos mais recentes da experiência no espontâneo: onde os sindicatos
não alcançaram, através da evolução gradual e corrupção devido a uma
aristocracia laboral muito forte e burocracia sindical, colaboração progressiva
de classes ou fascismo económico, não deixaram de desempenhar um papel contra-revolucionário.
(continua)
ANARQUISTAS, SOCIAIS-DEMOCRATAS E GREVE GERAL
Para o pensamento anarquista, a especulação directa sobre a Revolução é um
facto superficial e acessório. O essencial é a forma abstracta e anti-histórica
de apresentar a greve geral como um meio que condiciona toda a luta proletária.
Para os anarquistas, existem apenas duas premissas materiais para as suas
especulações revolucionárias: o sonho utópico e a boa vontade e coragem para
tirar a humanidade do vale da miséria onde o capitalismo a mantém. Do sonho
destaca-se a razão, já com sessenta anos de vida, de que a greve geral é o meio
mais rápido, seguro e fácil de saltar para uma melhor ordem social. É no sonho
que a especulação pela qual a luta económica é apresentada como a única
verdadeira "acção directa das massas" e, consequentemente, a única luta
revolucionária, encontra a sua justificação (aqui está o novo capricho dos
"sindicalistas" franceses e italianos). O que se revelou fatal para
os anarquistas não foi apenas o aspecto utópico dos seus métodos improvisados
de luta no sonho, mas a realidade imprevista que os transferiu do terreno da
especulação revolucionária para o da prática, onde se tornaram de facto agentes
da reacção.
Aqueles que quiseram fixar na Alemanha, através da deliberação de uma direcção,
o dia exacto para desencadear a greve geral, e aqueles que igualmente, nos
congressos sindicais de Colónia, tentaram (proibindo a propagação desta solução
do problema) fazer desaparecer a greve geral do mundo, colocam-se no mesmo
terreno e consideram o problema de forma igualmente abstracta e anti-histórica.
Estas duas tendências, retomando a concepção anarquista, pretendem que a greve
geral é um simples meio técnico de luta que se pode desencadear ou proibir à
vontade. A greve geral é para eles uma espécie de canivete que se guarda e de
que se usa quando se quer.
Os opositores da greve geral fingem ter em conta o terreno histórico e as
condições materiais da situação actual na Alemanha, em oposição aos
"românticos da revolução" que voam nas nuvens e não querem ter em
conta a realidade e as suas possibilidades e impossibilidades. "Factos e
números, factos e números", gritam como a personagem do romance de
Dickens. O que os opositores sindicais da greve geral querem dizer por
"terreno histórico" e "condições materiais" é, por um lado,
a fraqueza do proletariado, por outro, a força do militarismo
germano-prussiano. A inadequação das organizações operárias, a situação do
tesouro e a ameaça das baionetas prussianas, estes são os "factos e
números" nos quais estes líderes sindicais baseiam a sua política prática
num dado momento. Agora, as caixas sindicais e as baionetas prussianas são
fenómenos muito materiais e históricos, mas a concepção baseada nestes
elementos não é um materialismo histórico no sentido de Marx, mas sim um
materialismo policiesco no sentido de Puttkamer. Os representantes da polícia e
do Estado capitalista têm em conta a verdadeira força do proletariado
organizado e, ao mesmo tempo, da força material das baionetas e, tendo
considerado dois conjuntos de cifras, nem sempre tiram a conclusão clara que aqui
vemos: o movimento operário revolucionário é sempre provocado pelos instigadores
e cabecilhas dos motins, pois temos nas nossas prisões e com as nossas
baionetas um meio suficiente de controlar este desagradável "fenómeno
passageiro".
A classe operária consciente de classe na Alemanha há muito compreende o
papel burlesco da teoria da polícia, uma teoria que afirma que todo o movimento
operário moderno é o produto artificial e arbitrário dos actos e acções de um
punhado de líderes e agitadores inconscientes.
Mas é precisamente a mesma concepção que se revela quando corajosos
camaradas se unem para alertar o proletariado alemão contra a perigosa
propaganda de alguns "românticos da revolução" e contra a sua concepção
da greve geral; Ou quando, por outro lado, abre caminho a uma campanha
emocionada daquelas pessoas que se iludem sobre a possibilidade de uma greve
geral resultante de acordos confidenciais entre a liderança do partido e a
comissão geral das organizações sindicais.
Se as greves gerais dependessem da "propaganda incendiária" dos
românticos da Revolução ou das decisões confidenciais ou públicas dos líderes
do partido, não teríamos tido uma única greve geral na Rússia. Em nenhum país
houve tão poucos sonhos como na Rússia (como provei já em Março de 1905
no Sachs Arbeiter Zeitung). Na Rússia, não se
tratava nem de propagar, nem sequer de "discutir", a greve geral. E
os exemplos isolados de decisões e acordos da liderança do partido russo, que
deveriam ter provocado a greve geral, falharam, como a última tentativa em Agosto
deste ano após a dissolução da Duma.
Se a revolução russa nos ensina algo, é acima de tudo isto: que a greve geral não é um produto artificial, programado e decretado, mas
um fenómeno histórico que necessariamente ocorre num dado momento com base nas
relações sociais existentes. Este problema não podia ser considerado e discutido
através de especulações abstractas sobre a possibilidade e impossibilidade, a
utilidade ou a influência prejudicial da greve geral, mas apenas através do
exame das condições sociais e históricas, de onde resulta esse fenómeno
particular da fase actual da luta de classes. Por outras palavras, não se trata
de um juízo subjectivo determinado pelo que é desejável, mas de uma análise das
fontes da greve geral do ponto de vista da necessidade histórica.
Na liberdade da análise lógica e abstracta, pode-se também demonstrar a
absoluta impossibilidade e o certo desastre ou, pelo contrário, a possibilidade
total e a vitória indiscutível da greve geral. O valor da demonstração é,
portanto, o mesmo em ambos os casos, ou seja, nulo. Tal como o medo da
propagação da greve geral que provoca tantos anátemas contra os alegados
culpados desse crime, é o simples resultado de um quid pro quo educado. É tão
impossível propagar a greve geral como meio abstracto de luta como propagar a
revolução. "Revolução" e "greve geral" são ideias que
representam simplesmente uma forma externa da luta de classes e que têm
significado e conteúdo apenas em relação à totalidade das situações políticas.
Qualquer pessoa que proponha fazer da greve geral, como forma de acção
proletária, o objecto de uma agitação predestinada, e espalhe esta
"ideia" para conquistar a classe operária, segundo ele, acabaria
gradualmente por desperdiçar o seu tempo numa actividade absurda e sem sentido.
Seria o mesmo se alguém quisesse tornar a ideia de revolução e luta de
barricadas um objecto de agitação. A greve geral tornou-se hoje o ponto central
do interesse vital da classe operária alemã e internacional, pois é uma nova forma
de luta e, como tal, o sintoma de uma profunda revolução nas relações e
condições da luta de classes. É uma boa prova do saudável instinto
revolucionário e da consciência viva das massas operárias alemãs que, apesar da
amarga resistência dos seus líderes sindicais, se voltam para este novo
problema com tanto interesse. Não é possível responder a esse interesse, a esta
nobre sede intelectual e a este entusiasmo revolucionário pela acção, que é
produzido entre os operários, por uma ginástica cerebral abstracta sobre a
possibilidade e impossibilidade da greve geral. Pelo contrário, deve ser
respondida esclarecendo o desenvolvimento da revolução russa, o significado
internacional desta revolução, a nitidez dos contrastes de classes na Europa
Ocidental, as perspectivas futuras da luta de classes na Alemanha e o papel e
as tarefas das massas na luta que se avizinha. Só nesta forma a discussão da
greve geral pode contribuir para alargar o horizonte do proletariado, aguçar a
sua consciência de classe, aprofundar o seu pensamento e fazer brilhar o seu
poder de acção.
Se nos colocarmos neste ponto de vista, veremos todo o ridículo dos métodos
usados pelos opositores da greve geral para condenar aqueles que não resolveram
o problema seguindo à risca a resolução de Jena. Os "homens políticos de
bom senso prático" estão em pleno acordo ao declarar que esta resolução
combina a questão da greve geral com a questão do sufrágio universal, o que
lhes permite acreditar que, primeiro, a greve geral deve ser assegurada por
este meio um carácter defensivo e, em segundo lugar, que está subordinada ao
parlamentarismo e que a transforma num mero acessório do parlamentarismo.
A verdadeira substância da resolução de Jena sobre esta questão é que uma
tentativa de reacção contra o sufrágio universal marcaria, na situação actual,
o início de um período de lutas políticas tempestuosas em que a greve geral
seria certamente aplicada pela primeira vez como meio de luta. O campo de acção
social e histórica da greve geral não podia ser delimitado ou limitado por um
congresso partidário. É um empreendimento tão limitado quanto a proibição de
discussão sobre esta questão levantada no congresso sindical em Colónia. Na
resolução do Partido de Jena, a Social-Democracia Alemã registou oficialmente a
grande mudança que a revolução russa trouxe às condições internacionais da luta
de classes, e destacou a sua possibilidade de desenvolvimento e adaptação às
novas exigências da próxima fase da luta de classes. Aqui reside a importância
do Congresso de Jena. No que diz respeito à implementação da greve geral na
Alemanha, será a história que decidirá, como já decidiu na Rússia; na qual a
social-democracia é, sem dúvida, um factor importante nas suas decisões, mas
apenas um entre outros.
Na discussão actual na Alemanha, a greve geral é considerada algo muito
simples, claro e claramente especificado. Fala-se de uma greve geral política.
É proposto um único e grandioso desdobramento das forças do proletariado
industrial, preparado antecipadamente e libertado num determinado momento.
Deveria ser o resultado de um plano bem estabelecido, com base num entendimento
entre a liderança do partido e a das organizações sindicais, um plano em que o
equilíbrio material da greve geral já estivesse predeterminado.
Se compararmos este esquema teórico com a greve geral na realidade, tal
como ocorre na Rússia há cinco anos, teremos de concordar que o plano que forma
o substracto da discussão actual na Alemanha quase não corresponde às numerosas
greves que ocorreram na Rússia; por outro lado, essas greves têm um aspecto tão
variado que é impossível falar «da» greve das massas ou de uma greve das massas
esquematizada de forma abstracta. Todos
os momentos da greve geral, bem como o seu carácter, não são diferentes nas
várias cidades e regiões do território nacional, mas o seu carácter geral mudou
repetidamente durante a revolução. As greves das massas tiveram e ainda têm na
Rússia a sua história particular. Quem fala da greve geral na Rússia deve,
antes de mais, ter à frente a sua história.
Rosa Luxemburg
17 de Abril de 1912
O Trabalhador Comunista
Órgão de los Grupos Comunistas Operários
Número 1
Agosto de 1929
Tradução e edição:
Colectivo Comunista dos Operários
Fonte original em francês:
https://archivesautonomies.org/IMG/pdf/gauchecommuniste/gauchescommunistes-av1939/gauchecommuniste-italienne/louvriercommunisme/ouvriercommuniste-n01.pdf
NOTAS:
1O termo "velha
toupeira" (francês: "la vieille taupe"/”a velha toupeira”) é uma
referência directa a uma expressão usada por Karl Marx. Na tradição marxista,
"a velha toupeira" simboliza o trabalho subterrâneo lento mas inexorável
da revolução. Marx usa-a em vários textos, sendo o mais famoso O 18 Brumário de Luís Bonaparte (1852), onde escreve:
"Mas a revolução é meticulosa. Passo a passo, ela cruza o caminho do
seu desenvolvimento... e a velha toupeira da revolução continua a cavar"
A imagem evoca uma toupeira que se enterra silenciosamente sob a
superfície, invisível, mas que acaba por emergir para derrubar a ordem
estabelecida. É uma metáfora para o processo revolucionário que avança nas
profundezas da sociedade, muitas vezes impercetível para os contemporâneos, mas
que acaba por causar uma irrupção.
Neste texto, os autores de L'Ouvrier Communiste usam esta
expressão para afirmar que a história já julgou o conflito entre Gorter e
Lenine: "a velha toupeira" (a revolução como processo histórico)
mostrou que Gorter estava certo e Lenine errado. É uma forma literária e
militante de dizer que factos históricos confirmaram a crítica da esquerda
comunista ao leninismo. É um termo com forte carga simbólica na linguagem da
esquerda revolucionária, e que aparece frequentemente nos textos da tradição
conselhista e da esquerda comunista. [nota do tradutor]
2A Reichswehr foi o nome dado ao exército alemão durante o período da República de
Weimar, de 1919 a 1935. [nota do tradutor]
3Aqui, "canvassing" não se refere ao seu significado
mais literal de vender livros ou merchandising porta a porta. É usado num
sentido político e metafórico, muito comum na
linguagem da esquerda revolucionária no início do século XX, para descrever uma
função de "transmissão",
"disseminação" ou "propaganda" de ideias e slogans, mas de
forma superficial, mecânica e sem profundidade crítica. A crítica feita no
texto é que os sindicatos reformistas, ao focarem-se em pequenas reivindicações
económicas, tornam-se meros "vendedores"
ou "distribuidores" de pequenas melhorias, em vez de serem
órgãos da consciência revolucionária. Em vez de elevar a consciência de classe,
limitam-se a "colportar" (distribuir, transmitir e porta em porta -
NdT) exigências parciais que não questionam o sistema, actuando assim como um
travão ao desenvolvimento revolucionário do proletariado. [nota do tradutor]
4. Gostaríamos de salientar, a este respeito, que a palavra "casta", que usamos para caracterizar esta enorme
camada de novatos, estimada em mais de 2 milhões por Sizoff num artigo
recente em *The Class Struggle*, foi injustamente
criticada pelos epígonos marxistas (trotskistas-bordigistas) de Prometeu .
A palavra "casta" é adoptada pelo
próprio Marx em O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, quando afirma
que Napoleão, o Pequeno, foi forçado a depender, no restante das outras
classes, de uma casta artificial. É claro que, na Rússia, esta não é a casta
artificialmente criada por Luís Bonaparte. Aqui, existe uma base objectiva para
o desenvolvimento desta casta, para que se torne uma classe. Esta base objectiva
é o capitalismo de Estado (que a escola bukharin chama de indústria socialista
e que Prometeu não hesita em
chamar de indústria socializada) e a sua relação com o mercado livre criado
pela NEP. Esta base económica confere a esta casta o carácter de uma classe em
desenvolvimento, bastante diferente da casta nascida da "ideia
napoleónica". Mas a diferença entre a casta de 1851 em França e a casta de
1929 na Rússia não deve obscurecer o que têm em comum: certos privilégios
garantidos por uma determinada organização estatal. Notamos que Prometeu se
agarra tenazmente ao nosso estilo: também tentou ridicularizar a nossa
expressão "capitalismo puro". Ele não percebe que adoptámos esta
expressão para parodiar Varga, que a usa com muita frequência nos seus relatos
sobre a situação económica.
Aqui estamos a lidar com as duas tendências políticas entre as
quais oscila o bonapartismo de Estaline, e não com a pessoa dos camaradas que
foram vítimas da sua opinião.
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Este
artigo foi publicado no L'Ouvrier
Communiste pelo Colectivo
Comunista dos Operários. Guarda o link permanente.
Fonte: https://colectivoobrerocomunista.wordpress.com/2026/08/24/loc-1/?fbclid=IwY2xjawT6wytwZG9mAWV4dG4DYWVtAjEwAGJyaWQRMDFFcXVOVjJVVENuTkxrdlhzcnRjBmFwcF9pZBAyMjIwMzkxNzg4MjAwODkyAAEec10-pacj7RK0DqBvRCh3wGsSyPmU3z5IFBuxDP3tVOR5GK-_fw2BL6H0rDw_aem_IZwx9D-pzXpqnOWm9l2dDg
Este documento foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice