sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Estarão a Europa e a Rússia à beira de um conflito nuclear? (Scott Ritter)

 


Estarão a Europa e a Rússia à beira de um conflito nuclear? (Scott Ritter)

 

Por Robert Bibeau 9 de Outubro de 2026

 

RESULTADO DAS VIAGENS DE S. RITTER À RÚSSIA EM JUNHO/SETEMBRO DE 2026, DURANTE AS QUAIS SE ENCONTROU COM ALTOS RESPONSÁVEIS RUSSOS, EMINENTES ACADÉMICOS E ESPECIALISTAS EM QUESTÕES MILITARES E DE SEGURANÇA.

 

Por Scott Ritter, 5 de Outubro de 2026, Blogue Pessoal

 

Há já algum tempo que se assiste a uma vaga de discursos irresponsavelmente agressivos provenientes da Europa, que se prepara abertamente para um conflito com a Rússia até ao final desta década. Estes discursos inscrevem-se no contexto do conflito em curso entre a Rússia e a Ucrânia, que já vai no seu quinto ano, um conflito que a Europa e os Estados Unidos reconhecem abertamente como sendo uma guerra por procuração entre o Ocidente no seu conjunto e a Rússia. A resposta russa consistiu em intensificar os seus esforços militares contra a Ucrânia, ao mesmo tempo que advertiu a OTAN de que qualquer tentativa de ameaçar o território russo, e em particular o enclave russo de Kaliningrado, implicaria uma resposta da Rússia mobilizando todas as suas capacidades militares, incluindo as armas nucleares. A situação actual na Europa reproduz, em muitos aspectos, as condições que reinavam no continente no Verão de 1914, quando a mobilização militar e os preparativos para a guerra criaram uma dinâmica que culminou num conflito que nenhum político desejava seriamente travar. As consequências da guerra de 1914 foram um desastre para a Europa; as de uma guerra hoje seriam fatais para a civilização tal como a conhecemos.


Ao analisar o actual panorama geopolítico da Europa e da Eurásia, é possível identificar quatro pontos de atrito militar entre a Rússia, os Estados Unidos e a Europa. Trata-se da Ucrânia, do Ártico, de Kaliningrado e do espaço extra-atmosférico. Embora cada um destes pontos represente um conjunto de problemas distintos a nível político e militar, os quatro estão inextricavelmente ligados por uma mentalidade russofóbica comum na Europa e nos Estados Unidos, que considera a Rússia como um problema de segurança por si só. Além disso, tanto a Europa como os Estados Unidos agem de acordo com uma lógica estratégica baseada num pensamento de soma zero, que apresenta a Rússia como estando estruturalmente motivada a prejudicar tanto a Europa como os Estados Unidos, acabando assim com qualquer possibilidade de cooperação com a Rússia que pudesse resolver muitos, ou mesmo todos, os problemas subjacentes que o Ocidente interpreta colectivamente como uma ameaça. Por seu lado, a Rússia age de acordo com uma mentalidade que tem origem numa psicologia de vitimização perpétua que remonta a vários séculos e num fundamento histórico de resistência à agressão que privilegia uma resolução diplomática até ao momento em que o confronto militar se torna a única solução.

 

Ucrânia: A (percebida) falha na armadura soviética/russa

O actual conflito na Ucrânia entre a Rússia e o Ocidente não teve início em 2022 com a invasão russa, mas representa antes a conclusão lógica de uma estratégia dos Estados Unidos e da OTAN que visava explorar o ultra-nacionalismo da Ucrânia ocidental para criar um clima de instabilidade destinado a enfraquecer a União Soviética, e posteriormente a Rússia, a partir de dentro. Para compreender esta mentalidade, é necessário, em primeiro lugar, analisar a psicologia subjacente ao conceito de nacionalismo ucraniano. Para a Rússia, a Ucrânia faz parte de uma grande família de povos eslavos que inclui os russos e os bielorrussos; na verdade, esta noção é também partilhada por milhões de ucranianos. Basta observar a integração da Ucrânia nas raízes culturais e históricas da Rússia ao longo do tempo para compreender a realidade deste sentimento.

Para o Ocidente, esta realidade coloca um problema, pois sugere a existência de um único Estado eslavo dotado de enormes vantagens geográficas e de recursos naturais inigualáveis, o que, por sua vez, cria um potencial económico colossal que entra em concorrência com as noções ocidentais de supremacia mundial. A Alemanha nazi procurou aniquilar esse potencial eslavo através da implementação do Generalplan Ost, um verdadeiro genocídio cultural e físico da raça eslava. Os Estados Unidos e o Reino Unido (e, mais tarde, a OTAN, incluindo uma Alemanha Ocidental recém-militarizada) prosseguiram esta política de aniquilação eslava, encorajando a resistência anti-soviética liderada pela Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), nomeadamente através do apoio militar aos guerrilheiros que operavam na Ucrânia e eram fiéis a Stepan Bandera, um antigo aliado da Alemanha nazi cujas forças cometeram atrocidades em grande escala contra judeus, polacos e russos durante a Segunda Guerra Mundial. No final da guerra, a organização de serviços secretos alemã encarregada de gerir as operações da OUN foi assumida pelo exército norte-americano e, posteriormente, sob a égide da Agência Central de Inteligência (CIA), utilizada para liderar a resistência armada anti-soviética até 1954-1955. A agência continuou a prestar apoio activo à OUN, apoiando-se na diáspora ucraniana, ao longo da década de 1990.

O papel dos serviços secretos ocidentais, liderados pela CIA e pelo Serviço Especial de Inteligência britânico (SIS), na Ucrânia pós-soviética centrou-se exclusivamente na promoção do nacionalismo ucraniano em detrimento da Rússia. A campanha política levada a cabo pelos serviços secretos ocidentais contra a população de língua russa da Ucrânia veio à tona quando o presidente ucraniano Leonid Kuchma, que tinha cumprido dois mandatos, se demitiu em 2005, após ter implementado políticas destinadas a melhorar as relações entre a Ucrânia e a Rússia. Kuchma tinha dado o seu apoio a Viktor Yanukovych, de língua russa. Para o Ocidente, uma presidência de Yanukovych teria comprometido o seu objectivo estratégico de afastar a Ucrânia da Rússia. Daí resultou a «Revolução Laranja», que levou à anulação da vitória eleitoral de Yanukovych em favor de nacionalistas ucranianos defensores de uma política decididamente anti-russa, a qual orientou a Ucrânia para a União Europeia e a incitou a solicitar a adesão à OTAN. Esta última evolução foi vista pela Rússia como uma linha vermelha cuja transposição conduziria inevitavelmente a um conflito militar entre a Rússia e a Ucrânia. A eleição de Yanukovych em 2010 foi considerada um revés para as ambições ocidentais na Ucrânia e levou o Ocidente a apoiar um golpe de Estado violento em Fevereiro de 2014, na sequência do qual Yanukovych foi afastado do poder e substituído por nacionalistas ucranianos pró-ocidentais.

É preciso compreender bem que um confronto físico entre a Ucrânia e a Rússia sempre foi o objectivo do Ocidente no seu conjunto. Os esforços para assumir o controlo do espaço político russo tinham, em 2014, fracassado. O chamado «reinício» (reset) de 2009 não passava de uma fachada política para uma operação de mudança de regime destinada a substituir Vladimir Putin, que liderava a Rússia desde que sucedeu a Boris Yeltsin no final de 1999 e que, ao longo da década seguinte, tinha colocado a Rússia no caminho de uma recuperação económica e nacional que o Ocidente, a funcionar num modo de «jogo de soma nula», simplesmente não podia tolerar. Os esforços concertados do presidente Obama para interferir nas eleições legislativas russas de 2011 e nas eleições presidenciais de 2012 não conseguiram afastar Putin do poder. Os acontecimentos ocorridos na Ucrânia em 2014 e posteriormente devem ser considerados sob esta perspectiva; nada acontece no vácuo.

O conflito na Ucrânia nunca poderia ter sido evitado, apesar dos esforços concertados da Rússia para conduzir uma diplomacia que visasse precisamente esse objectivo. A derrota do exército ucraniano em 2014-2015 perante os separatistas apoiados pela Rússia no Donbass levou à adopção dos acordos de paz de Minsk. É agora um facto comprovado que nem a Ucrânia, nem os seus dois parceiros europeus (a França e a Alemanha), nem os Estados Unidos tiveram alguma vez a intenção de levar a bom termo o processo de Minsk. Pelo contrário, o processo de Minsk tinha como objectivo ganhar tempo para a OTAN, para que esta pudesse constituir um novo exército ucraniano capaz de fazer frente à Rússia. De facto, entre 2015 e 2022, foi exactamente isso que os Estados Unidos e a OTAN fizeram, ao treinarem mais de 80 000 soldados ucranianos, incluindo milhares de nacionalistas ucranianos classificados como neo-nazis pelo Congresso norte-americano, de acordo com as normas militares da OTAN. O objectivo declarado deste treino era permitir que a Ucrânia tomasse posse física do Donbass e da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014 na sequência do golpe de Estado apoiado pela CIA em Kiev. Quando a Ucrânia começou a concentrar estas tropas treinadas pela OTAN na região do Donbass, no início de 2022, a Rússia lançou uma acção preventiva que, mais de cinco anos depois, é agora uma guerra por procuração abertamente reconhecida contra o Ocidente no seu conjunto, incluindo os Estados Unidos e a OTAN.

O objectivo declarado dos Estados Unidos e da Europa na prossecução deste conflito por procuração com a Rússia não é nada menos do que a derrota estratégica da Rússia. O que é que isto significa concretamente? Em primeiro lugar, esta guerra por procuração nunca teve como objectivo conduzir a uma vitória militar ucraniana contra a Rússia. O objectivo era, antes, arrastar a Rússia para um conflito que esgotasse o seu potencial militar, destruísse a sua economia e levasse a sociedade ao colapso, a ponto de o governo de Vladimir Putin ser afastado do poder. Toda esta política assenta no pressuposto de que Vladimir Putin deve ser afastado do poder. Nesse sentido, qualquer solução que não atinja esse objectivo é rejeitada de imediato, um padrão de comportamento que reflecte a mentalidade de soma zero que anima a elaboração das políticas ocidentais. Consequentemente, todas as saídas possíveis que a Rússia se mostrou disposta a considerar, desde o comunicado de Istambul de 2022 até ao compromisso de Anchorage de 2025, foram rejeitadas pelo Ocidente, revelando assim a realidade de que, para o Ocidente, a diplomacia não passa de uma ferramenta para ganhar tempo, a fim de reforçar ainda mais a Ucrânia no plano militar, com o objectivo de prolongar o conflito entre a Ucrânia e a Rússia até ao desfecho desejado: o colapso da Rússia. Em suma, um cenário idêntico ao de Minsk.

A Rússia revelou-se surpreendentemente resiliente perante este esforço concertado do Ocidente destinado a levá-la ao colapso enquanto Estado-nação viável. Não só a economia russa sobreviveu às sanções ocidentais, como, graças a uma diplomacia russa eficaz que soube tirar partido dos erros diplomáticos ocidentais para construir uma ampla base de apoio à escala mundial, prosperou ao encontrar nos mercados do Sul oportunidades de mercado que compensaram amplamente a perda dos mercados europeus e americanos. A sociedade russa, apanhada de surpresa por uma guerra para a qual não estava preparada, uniu-se firmemente em torno do presidente Putin, tal como sublinharam os resultados das recentes eleições legislativas. E, longe de esgotar a Rússia no plano militar, o conflito ucraniano permitiu-lhe aperfeiçoar a sua base industrial de defesa, produzindo quantidades significativas de equipamento militar e armamento de ponta que, na sua maioria, superam de longe os produzidos pelo Ocidente no seu conjunto, tanto em qualidade como em quantidade. Quando este material é combinado com efectivos experientes em combate, o resultado é que a Rússia possui hoje a força militar mais apta para o combate do mundo, superando de longe tudo o que a OTAN ou os Estados Unidos podem mobilizar no terreno.

Em suma, a estratégia ocidental dirigida contra a Rússia falhou: o exército russo é hoje uma ordem de grandeza mais forte, a sua economia é muito mais diversificada e autónoma, e a sua população está muito mais unida do que estava em 2022. Além disso, a Rússia não mostra quaisquer sinais de fraqueza em nenhuma frente — seja ela económica, diplomática, social ou política.

Não se pode dizer o mesmo nem da Europa nem dos Estados Unidos. Apesar da retórica belicosa proveniente da Alemanha e da Polónia, e apoiada pelas declarações de oficiais militares norte-americanos, tanto no activo como na reserva, a realidade é que a guerra por procuração entre o Ocidente no seu conjunto e a Rússia sempre foi concebida para ser apenas isso: uma guerra por procuração. Nunca houve um plano realista que visasse transformar este conflito num confronto directo entre a Rússia e a OTAN, nem que fosse apenas porque a OTAN simplesmente não tem capacidade para mobilizar forças suficientes para conduzir um conflito de alta intensidade durante um período prolongado. O poder militar da OTAN atrofiou-se significativamente nas décadas que se seguiram ao fim da Guerra Fria, o que exigiria um investimento a longo prazo para se recuperar — um esforço que a Europa não parece, actualmente, capaz de garantir. Os próprios Estados Unidos estão envolvidos num processo de retirada global, procurando afastar-se da Europa em vez de retomar uma postura do tipo «Guerra Fria», que não é viável nem do ponto de vista político nem do ponto de vista económico.

Enquanto a Rússia parece fechar a porta a qualquer possibilidade de acordo negociado com o Ocidente sobre a Ucrânia, a Europa e os Estados Unidos defrontam-se com a realidade perturbadora de que os seus objectivos estratégicos na Ucrânia não se concretizarão. A Rússia continuará a exercer pressão a favor de uma solução militar que satisfaça todos os seus objectivos declarados, incluindo uma desnazificação concertada que ponha fim ao nacionalismo ucraniano particularmente virulento que sempre alimentou os esforços ocidentais na Ucrânia contra a Rússia.

Em suma, não haverá guerra entre a Europa e a Rússia por causa da Ucrânia. A Europa apoiará a Ucrânia até que esta esgote os seus recursos — humanos e económicos —, e depois assistirá, impotente, à consolidação da posição da Rússia sobre o que restar da nação ucraniana. «Até ao último ucraniano» parece ser um conceito que a Ucrânia e os seus apoiantes ocidentais levaram muito a peito.

O Ártico: o gatilho económico de um potencial conflito

Num mundo racional, o Ocidente no seu conjunto recompor-se-ia após a sua derrota iminente na Ucrânia e procuraria colmatar as suas perdas consideráveis. Mas num mundo de soma zero, isso não é possível. Uma vitória russa na Ucrânia requer, na mente desses russofóbicos ocidentais que ainda sonham com o colapso da Rússia de Vladimir Putin, uma «vitória» que reequilibraria o panorama geo-político. Dado que uma das consequências do fracasso da estratégia ocidental na Ucrânia é a dizimação económica da Europa, os desafios económicos assumem, sem surpresa, uma importância acrescida na definição de uma postura geo-política pós-Ucrânia em oposição à Rússia.

Um dos principais desafios que a Europa enfrenta actualmente consiste em definir uma política económica e externa coerente em relação à China. A diplomacia europeia neste domínio revelou-se desastrosa, levando ao colapso de sectores críticos da economia europeia (a indústria automóvel, por exemplo) devido a noções mal concebidas de «redução de riscos» (um termo de origem norte-americana destinado a disfarçar a verdadeira intenção de tal política, nomeadamente a «desvinculação»). Mas não se pode, de forma alguma, falar de «redução de riscos/desacoplamento» quando não existe qualquer mercado alternativo viável para substituir aquele que as políticas nacionais procuram abandonar.

O objectivo estratégico da Europa de isolar a Rússia da China voltou-se contra ela: hoje, é a Europa que se encontra cada vez mais isolada, enquanto as relações russo-chinesas, inclusive no plano económico, são sólidas e não param de se reforçar. Uma das áreas-chave da cooperação russo-chinesa é o desenvolvimento da Rota do Nordeste ou, como é frequentemente designada na China, a «Rota da Seda do Gelo», uma via navegável de 5 500 quilómetros que se estende desde o Estreito de Bering, a leste, até ao Mar de Barents, a oeste. A utilização desta via navegável tornou-se cada vez mais viável — e rentável —, permitindo que os porta-contentores façam a viagem entre a China Oriental e portos europeus, como Roterdão, com uma poupança de tempo de cerca de 20 dias em relação ao itinerário actual que passa pelo Canal do Suez, utilizado pela maioria das companhias marítimas.

A Passagem do Nordeste situa-se exclusivamente em águas territoriais russas. Atravessa também a zona ártica, o que significa que, durante grande parte do ano, a sua acessibilidade depende dos quebra-gelos russos. Esta passagem é, além disso, regida pelas normas jurídicas e de segurança russas. O potencial económico do Ártico era, no passado, da competência exclusiva do Conselho do Ártico, cujos membros se reuniam regularmente para coordenar as políticas com impacto na economia, na segurança e na ecologia da região ártica. No entanto, em 2022, na sequência da invasão da Ucrânia, a Rússia foi excluída do Conselho do Ártico. Além disso, na sequência da adesão da Finlândia e da Suécia à OTAN, o Conselho do Ártico adoptou uma posição exclusivamente alinhada com a OTAN, sendo que as suas políticas reflectem os objectivos e metas estratégicas do conjunto dos seus membros, nomeadamente a derrota estratégica da Rússia.

As alterações climáticas modificaram as realidades geo-políticas da região ártica: o derretimento das calotas glaciares não só abriu vias de comunicação marítimas anteriormente inacessíveis e/ou restritas devido às condições meteorológicas, como também tornou fisicamente possível e financeiramente viável a exploração económica de importantes recursos minerais expostos pelo recuo do gelo. Normalmente, o Conselho do Ártico procuraria regulamentar o acesso ao Ártico, a fim de equilibrar as preocupações económicas e ecológicas num quadro de segurança em que os interesses de todas as partes fossem tidos em consideração.

Mas num mundo de soma zero, a penetração económica russo-chinesa no espaço ártico é considerada uma ameaça para o Ocidente no seu conjunto, exigindo uma resposta militar. Esta realidade foi sublinhada durante a recente Cimeira Europeia sobre o Ártico, organizada pela Finlândia em meados de Setembro. Os líderes da União Europeia, invocando alegações infundadas de «ameaças significativas e de longo prazo» da Rússia à segurança euro-atlântica, comprometeram-se a reforçar o seu dispositivo de segurança no Ártico — ou seja, a militarizar o Ártico, colocando a tónica na mobilidade militar, na conectividade transfronteiriça e nas infraestruturas necessárias nas regiões mais setentrionais do Ártico.

O facto é, no entanto, que a OTAN não está à altura da Rússia no que diz respeito à segurança no Ártico. Aquilo de que a Cimeira Europeia do Ártico se limitou a falar em termos gerais — nomeadamente, a militarização do Ártico —, a Rússia já o implementou na íntegra e continua a aperfeiçoá-lo. Embora os países da OTAN sejam capazes de realizar actos de provocação, como a recente apreensão de um navio de investigação russo ao largo da ilha norueguesa de Svalbard, a norte da Noruega, a rapidez com que o governo norueguês teve de intervir para garantir que nenhuma acção semelhante fosse levada a cabo nas águas territoriais norueguesas sublinha o facto de que a Noruega não está disposta a provocar qualquer tipo de confronto directo com a Rússia no Ártico. A verdadeira ameaça para o Ocidente no Ártico não reside nas forças militares eficazes da Rússia, mas no facto de a Rússia, em conjunto com a China, estar a impor uma nova realidade económica baseada no trânsito, o que lhes conferirá, no futuro, uma influência extraordinária, tornando os transportadores e as rotas marítimas tradicionais não competitivos face à nova «Rota da Seda do Gelo» que a Rússia e a China já implementaram. A capacidade de transportar contentores de forma sustentável para a Europa por metade do custo das rotas marítimas actuais muda completamente o panorama em todos os aspetos e cria uma nova realidade à qual o Ocidente não conseguirá recuperar o atraso durante algum tempo, ou talvez nunca.

Kaliningrado: Uma presa fácil ou uma fortaleza inexpugnável?

A psicose da armadilha do «tudo ou nada», na qual o Ocidente se aprisionou perante a Rússia, obriga a NATO a forjar uma vitória — real ou percebida — capaz de compensar os seus fracassos na Ucrânia e a sua impotência no Ártico. A este respeito, o enclave russo de Kaliningrado surgiu como o suposto calcanhar de Aquiles da Rússia. O antigo comandante das forças terrestres da OTAN na Europa, o general norte-americano Chris Donahue, gabou-se abertamente, em Julho passado, de que as forças da OTAN seriam capazes de sobrecarregar as defesas russas em Kaliningrado num curto espaço de tempo. A Alemanha e a Polónia defenderam uma intensificação dos exercícios militares da OTAN perto das fronteiras de Kaliningrado, cujo objectivo seria suscitar preocupação suficiente entre os dirigentes russos para os levar, em reacção, a retirar tropas da zona da operação militar especial e a redistribui-las para Kaliningrado. Vários analistas ocidentais especializados em questões militares e de segurança apresentaram avaliações indicando que a postura militar real da Rússia em Kaliningrado é muito mais fraca do que se admite publicamente. E muitos responsáveis políticos ocidentais fizeram declarações que sugerem que a Rússia se prepara para levar a cabo actos de agressão contra a OTAN, utilizando o enclave de Kaliningrado como base de operações.


Mas a realidade é que, embora a Rússia seja perfeitamente capaz de defender Kaliningrado contra qualquer agressão da OTAN, o exército russo não está actualmente posicionado no enclave de Kaliningrado de forma a conduzir operações ofensivas sustentadas, independentemente da sua dimensão, contra qualquer um dos seus vizinhos da OTAN —

Mas a verdadeira ameaça que paira sobre Kaliningrado não provém de uma eventual ofensiva terrestre lançada pela OTAN. Assumiria, antes, a forma de um bloqueio naval do enclave. Desde 2022, as linhas ferroviárias que ligam Kaliningrado à Rússia estão sujeitas a restricções severas impostas pela Lituânia no que diz respeito ao trânsito de mercadorias com destino e provenientes da Rússia; a questão do cumprimento das sanções da União Europeia contra a Rússia está no cerne deste assunto. Os veículos matriculados na Rússia também não estão autorizados a transitar pela Lituânia e pela Polónia. A Rússia compensou esta perda de conectividade aumentando o alcance e a amplitude do serviço de ferries entre a Rússia e São Petersburgo. Embora a Rússia tenha conseguido manter o seu crescimento económico graças a este esforço de abastecimento, a verdade é que esta linha de vida assegurada pelas balsas é muito dispendiosa e que muitas mercadorias, como o combustível, são subsidiadas pelo governo russo para controlar os preços. Se a OTAN viesse a impor restricções navais ao tráfego marítimo com destino e proveniência de Kaliningrado, tal como sugerido por alguns dos seus membros, a viabilidade económica do enclave ficaria ameaçada. É devido a esta vulnerabilidade que o governo russo advertiu a OTAN de que qualquer tentativa de submeter Kaliningrado a um bloqueio naval, ou qualquer outro acto de agressão militar, seria combatida por todas as capacidades militares da Rússia, incluindo as armas nucleares.

Esta demonstração de poder nuclear parece ter moderado o entusiasmo de alguns dos mais fervorosos defensores da OTAN, que pensavam colher o que consideravam ser um fruto maduro; agora que ficou claro que qualquer conflito que envolvesse um ataque da OTAN contra Kaliningrado não seria tratado isoladamente, mas constituiria, pelo contrário, um conflito de proporções existenciais, os tambores de guerra calaram-se.

O espaço: a última fronteira

O último tema que figura na lista de pontos susceptíveis de gerar tensões entre a Rússia e o bloco americano-europeu é o espaço. Os sensores espaciais desempenharam um papel crucial na recolha de informações utilizadas para apoiar as operações militares na Ucrânia e, no caso da Ucrânia, para atingir alvos estratégicos em profundidade no território russo. Da mesma forma, o sistema comercial norte-americano de comunicações por satélite Starlink assumiu um papel essencial nas comunicações militares ucranianas, nomeadamente ao desempenhar um papel crucial para permitir que os drones ucranianos realizassem ataques de longo alcance contra as infraestruturas energéticas russas.

Os Estados Unidos anunciaram recentemente terem destacado «armas de controlo espacial em órbita» à volta da Terra. Embora as características técnicas destas armas não tenham sido especificadas, alguns indícios sugerem que se trata de armas de natureza não cinética, que utilizam tecnologia reversível, como a guerra eletrónica, para «cegar» temporariamente um satélite alvo. O presidente norte-americano Donald Trump aludiu à utilização de uma arma espacial para apoiar os ataques militares norte-americanos contra alvos iranianos relacionados com o programa nuclear em junho de 2025. (ndz: ver este artigo intitulado «O Pentágono anuncia o desenvolvimento de armas espaciais», publicado recentemente neste blogue)

A Rússia está a implementar a sua própria constelação de satélites, semelhante à Starlink, conhecida como Rassvet, que, quando estiver totalmente operacional, proporcionará à Rússia capacidades de comunicação por satélite equivalentes às da Starlink. A Ucrânia, consciente de que o Rassvet permitirá à Rússia orientar mais eficazmente os seus drones para os seus alvos, apelou aos Estados Unidos para que neutralizassem a rede de satélites russa. A Rússia indicou que destruiria todo o sistema Starlink em retaliação, recorrendo a meios cinéticos susceptíveis de ameaçar outros satélites a operar em órbita terrestre.

A militarização do espaço representa um perigoso ponto de escalada, sobretudo tendo em conta a capacidade dos Estados Unidos de cegar temporariamente satélites. No mundo de soma zero em que os Estados Unidos e a Europa evoluem, a necessidade de serem vistos como um contrapeso a uma vitória russa na Ucrânia, bem como o facto de a Rússia contrariar os esforços de escalada da OTAN no Ártico e contra Kaliningrado, poderá revelar-se uma tentação demasiado forte na mente dos líderes ocidentais, incapazes de elaborar um modelo de comportamento nas suas relações com a Rússia que não assente em metas e objetivos russofóbicos que exijam a derrota estratégica da Rússia.

ConclusÃO

Ao longo das últimas décadas, os Estados Unidos e a Europa criaram uma armadilha política com o objectivo de utilizar a Ucrânia como alavanca para provocar o colapso da Rússia e do governo de Vladimir Putin. Essa «armadilha» reside na mentalidade de jogo de soma zero que rege a implementação desta política, vinculando a viabilidade política e económica daqueles que a prosseguem ao seu sucesso. O fracasso iminente na Ucrânia tornou necessária a procura de novos vectores capazes de fazer avançar o objectivo político de alcançar uma vitória estratégica sobre a Rússia, incluindo opções destinadas a alargar a zona de conflito entre o bloco americano-europeu e a Rússia ao Ártico, aos países bálticos e ao espaço extra-atmosférico. A Rússia tem contrariado eficazmente cada uma destas tentativas que, consideradas isoladamente, parecem constituir problemas controláveis com um potencial de escalada limitado. No entanto, consideradas no seu conjunto, encerram um risco de mal-entendido e/ou de erro de avaliação, alimentado pelos imperativos políticos internos das nações que compõem o bloco americano-europeu. A este respeito, nações que exercem uma influência considerável nas decisões tomadas por este bloco, tais como os Estados Unidos, a França e a Alemanha, estão actualmente a passar por transformações políticas susceptíveis de alterar a postura política existente, incluindo as políticas que visam a derrota estratégica da Rússia como resultado desejável. Em tudo isto, o inimigo não é a Rússia, mas sim a lógica do «tudo ou nada» do Ocidente colectivo, que o mantém prisioneiro de um modelo político incapaz de ser implementado com sucesso e que, se for prosseguido de forma agressiva, conduzirá à sua queda colectiva.


 

Nota do autor: Tive a oportunidade de visitar a zona da operação militar especial, na região ártica, nos campos petrolíferos e em Kaliningrado, além de participar em fóruns e reuniões de alto nível em Moscovo e em São Petersburgo. As opiniões aqui expressas constituem a minha avaliação pessoal, baseada nesses encontros, e não representam, de forma alguma, uma posição oficial da política russa.

Este artigo é fruto do jornalismo independente que pratico há vários anos, deslocando-me à Rússia com o único objectivo de compreender a realidade russa e de a dar a conhecer a um público ocidental refém de meios de comunicação social generalistas russófobos. Assumo a totalidade das minhas despesas, o que significa que as viagens necessárias à redacção deste artigo não teriam sido possíveis sem o generoso apoio dos assinantes e seguidores que fizeram donativos para esse fim. Continuarei a escrever artigos e a publicar vídeos sobre estas viagens anteriores. Continuarei também a planear e a preparar futuras viagens à Rússia, nomeadamente a prevista para Novembro, durante a qual assistirei a uma conferência sobre questões humanitárias e continuarei a encontrar e a entrevistar pessoas interessantes e bem informadas. Agradeço a todos aqueles que contribuíram para este trabalho, no passado, no presente e no futuro.

 

Fonte: L’Europe & la Russie sont-elles au bord d’un conflit nucléaire ? (Scott Ritter) – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Uns dias de protesto não vão parar o rolo compressor capitalista! Contra todas as guerras imperialistas: luta de classes!

 


Uns dias de protesto não vão parar o rolo compressor capitalista! Contra todas as guerras imperialistas: luta de classes!

 

Folhetos distribuídos pelo TCI durante a recente greve do setor público em França e manifestações no terceiro aniversário de 7 de outubro em Itália.

 

Alguns dias de protesto não vão parar o rolo compressor capitalista! A única resposta à degradação das nossas condições de vida é a luta autónoma e organizada do proletariado!

 

Fomos avisados. A burguesia está desesperadamente à procura de 54 mil milhões de euros em poupanças para o seu orçamento de 2027. Foi isto que o governo Lecornu anunciou com grande alarido no dia 17 de Setembro. Cuidado com o que dizes: não é um orçamento de 'austeridade', mas sim de 'rigor' e 'justiça', segundo o ministro!

O neo-linguajar da burguesia pouco faz para esconder a dura realidade com que a classe operária se depara, presa entre o aumento do custo de vida e a diminuição dos salários. O objectivo é claro: fazer a classe operária pagar não só pela redução do défice do Estado para satisfazer os mercados financeiros e as agências de rating, de modo a limitar o aumento da taxa de juro da dívida, mas sobretudo empurrar os operários a aceitar estes sacrifícios em nome do interesse nacional, ou seja, o interesse da burguesia, que é avançar para o rearmamento e a re-militarização. É neste contexto que o orçamento prevê um aumento de mais de seis mil milhões de euros em despesas militares. A burguesia procura transformar a economia francesa numa economia de guerra, com o apoio de todos os partidos políticos, desde a extrema-direita à extrema-esquerda, para se preparar para os futuros conflitos inter-imperialistas entre os blocos Atlântico e Russo-Chinês. Vemos os primeiros sinais com os conflitos na Ucrânia ou no Irão, manifestações perigosas da marcha para a guerra em que todas as burguesias imperialistas se estão a precipitar, com o objectivo de redistribuir os despojos a seu favor.

Perante estas crises, a burguesia quer intensificar os seus ataques de austeridade contra os operários: congelar os salários dos funcionários públicos, congelar os apoios à habitação e vários outros benefícios, desindexar as pensões, reduzir as baixas médicas e os despedimentos por acordo mútuo, atrasar o acesso a certos benefícios para as populações imigrantes. Segundo estes senhores, o capital contribuiu demasiado para a solidariedade colectiva: agora é a nossa vez de pagar.

E aqui os sindicatos, como de costume, procuram conter o movimento. Propondo dias simbólicos de greve, e apenas para o serviço civil, e alguns protestos sonolentos sem futuro, isolados do resto da classe operária por palavras de ordem puramente corporativistas, estas organizações dividem e enfraquecem a classe. A luta deve ser levada a cabo fora destas instituições reaccionárias, organizando-nos em Assembleias Gerais e em comités de greve, procurando generalizar e estender a luta a todos os sectores em torno de palavras de ordem unitárias, incluindo toda a classe operária, tanto no sector público como no privado. 

Não devemos apenas defender-nos contra os ataques da burguesia às pensões, à saúde, aos subsídios de desemprego, devemos acima de tudo tomar as nossas lutas nas nossas próprias mãos para impor uma nova dinâmica de poder, obter uma redução do tempo de trabalho e um aumento dos salários.

Em todo o mundo, a guerra de classes levada a cabo pela burguesia contra a classe operária está a intensificar-se. Na Alemanha, Finlândia, Estados Unidos, Argentina, Canadá ou Bélgica, todos os governos, sejam de esquerda ou de direita, procuram reanimar a economia explorando o proletariado até ao osso, sendo o impulso de restaurar a rentabilidade do capital o seu único guia.

Mas não vamos deixar que passem por cima de nós. Perante a degradação das nossas condições de vida e de trabalho, intrinsecamente ligada à crise estrutural do capital, devemos resistir a estes ataques. Em Espanha, os operários da Airbus mostram-nos o caminho ao confrontar o capital assim como os sindicatos colaboracionistas, tal como os operários na Bolívia e na Índia alguns meses antes. Mesmo que este renascimento da actividade da classe operária seja hesitante e não esteja isento de limites, mostra, no entanto, que a classe operária, como classe revolucionária, é a única capaz de resistir à decadência do capitalismo e à sua queda na barbárie.

Para nos prepararmos para os futuros conflitos de classe decisivos, devemos organizar-nos hoje e participar na construção do partido internacional do amanhã, o partido de classe necessário ao proletariado para a sua vitória. É esta tarefa que nos propomos cumprir, apesar das dificuldades, conscientes da urgência da situação.

Guerra contra a guerra, guerra contra a burguesia!

Grupo revolucionário internacionalista

 

Contra Todas as Guerras Imperialistas: Luta de Classes!

Agora já se passaram três anos de massacre e violência sangrenta em Gaza e na Cisjordânia enquanto o mundo observa. Ou melhor, a burguesia internacional – os seus Estados e blocos imperialistas – está profundamente implicada na carnificina desencadeada por Israel após o horrível massacre perpetrado pelo Hamas a 7 de Outubro de 2023. O governo fascista-fundamentalista de Israel sabia o que estava para acontecer, mas deixou que acontecesse, procurando um pretexto para ocupar a Faixa de Gaza e a Cisjordânia – assumindo efectivamente o controlo de ambos – com o objectivo final de exterminar os palestinianos. 

O Hamas – uma força fascista-islamista – tem usado consistentemente os fundos das burguesias do Médio Oriente não para o povo de Gaza, mas para avançar a sua própria estratégia político-militar. O dia 7 de Outubro foi mais uma confirmação – e a mais mortal de todas – já que o Hamas não podia ignorar que o ataque iria desencadear a fúria genocida de Israel.

O sofrimento indescritível dos palestinos despertou, com razão, a indignação de muitos contra a gangue criminosa liderada por Netanyahu e pelo seu chefe em Washington; no entanto, a alternativa não é a criação de um estado palestiniano. Tal estado serviria apenas como um braço do bloco imperialista rival – China, Rússia e Irão – que não é menos opressivo. Representaria o domínio da classe burguesa palestiniana, ansiosa por explorar “o seu próprio” proletariado sem partilhar os despojos – ou partilhando o mínimo possível – com outras burguesias.

Ainda assim, só uma guerra mais ampla poderia realmente concretizar o cenário de “dois povos, dois estados”. Seria uma guerra em que, como sempre, a classe operária e os despossuídos pagariam a conta, enquanto a burguesia colhe os lucros.

A perspectiva de uma guerra expandida – ou mesmo generalizada – é mais real do que a de um Estado palestiniano. A crise estrutural do capitalismo está a conduzir os eventos nesse sentido, e os conflitos – do Sudão à Ucrânia, e por todo o Médio Oriente – surgem precisamente das dificuldades que a burguesia enfrenta em revitalizar a sua economia, apesar da intensificação da exploração, da precariedade e do empobrecimento a que sujeita a classe operária mundial. E apesar do saque e da devastação acelerada do eco-sistema. 

Não, o fim da barbárie na Palestina e em todo o lado não passa pela criação de um novo Estado burguês, mas pela luta contra as causas profundas desta selvajaria: contra o capital e todos os Estados. 

Só a classe assalariada tem poder para fazer isto, pois a sociedade burguesa assenta na sua exploração.

Uma luta contra a exploração e a opressão em todas as suas formas – fora e contra a 'Esquerda' burguesa, e fora e contra o sindicalismo, seja ele integrado no Estado ou os chamados sindicatos 'de base', que são inevitavelmente forçados a curvar-se aos ditames do capital. 

A luta de classes tem de vir de baixo, organizada através de corpos de luta que surgem directamente da própria luta. Ao lado de um partido revolucionário, alimentado por estas lutas e actuando como seu guia político. 

Este tem de ser o nosso caminho; a alternativa é um mergulho desenfreado rumo ao abismo.

NÃO à guerra imperialista, SIM à guerra de classes!

Battaglia Comunista

Quarta-feira, 7 de Outubro de 2026

 

Fonte: A Few Days of Protest Will Not Stop the Capitalist Steamroller! Against All Imperialist Wars: Class Struggle! | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




A ameaça da inteligência artificial está na sociedade comercial que desvaloriza o pensamento humano


A ameaça da inteligência artificial está na sociedade comercial que desvaloriza o pensamento humano

8 de Outubro de 2026 Robert Bibeau

Por Normand Bibeau e Robert Bibeau.

No seu artigo, o camarada Mesloub demonstrou-nos dialeticamente que a IA burguesa é apenas "[O] último fetiche de um capitalismo em decadência". Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: Inteligência Artificial e Robótica, último recurso do Capital

Considerando que:

"[O] sistema social historicamente exaurido transforma esse poder colectivo da humanidade num instrumento para a valorização do capital e acaba por se apresentar como o elemento obsoleto do processo. Assim, a ameaça fundamental não está na inteligência artificial, que se tornaria superior aos seres humanos, mas na sociedade de mercadorias que passa a desvalorizar o pensamento humano a ponto de torná-lo supérfluo ou obsoleto. Esse sistema tem um nome: capitalismo.» (Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: Inteligência Artificial e Robótica, último recurso do Capital)

Como explicamos no nosso comentário:

A "IA" pelas suas fontes "filtradas e exfiltradas"; os seus algoritmos patenteados e aprendizado tendencioso" de forma alguma escapam à luta de classes entre a burguesia e o proletariado, tanto pela sua posse quanto pelo seu propósito de "regurgitar" na forma de uma "avaliação ou conclusão fundamentada", a ideologia da classe dominante dos exploradores de todos os tempos para perpetuar a sua ditadura de classe.» (re: Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: Inteligência Artificial e Robótica, último recurso do Capital ).

Os bilionários capitalistas e os "nacional-socialistas chauvinistas", mestres do mundo imperialista, seus KAPOS a soldo e seus lacaios políticos, enganam a humanidade explorando, pilhando, roubando, explorando-a e mentindo descaradamente que a "IA", por ser uma "máquina automática",  está acima da luta de classes e que fornecerá a "solução" final para a tendência descendente da taxa de lucro, às crises sistémicas de sobreprodução, às guerras imperialistas intermináveis tornando o proletariado "supérfluo" antes de atomizá-lo numa guerra mundial termonuclear apocalíptica (Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: Inteligência Artificial e Robótica, último recurso do Capital).

NADA poderia ser mais FALSO, como Marx e Engels demonstraram cientificamente na sua obra revolucionária proletária, e especialmente no Livro III, Secção III, Capítulos XIII e XV, do DAS CAPITAL. (re: marxists.org, Capital Volume Três)

Marx distinguiu duas partes constituintes principais do capital investido pelos capitalistas no processo de produção:

·         Capital constante ('c'): capital investido em máquinas, edifícios, matérias-primas, energia, etc. Do ponto de vista económico, "IA" é apenas uma "máquina", admitidamente muito sofisticada, mas apenas uma máquina e, consequentemente, capital constante;

·         capital variável ("V"): capital "investido" no aluguer da força de trabalho, o escravo assalariado, o proletário.

A distinção económica fundamental é que o "capital constante" ("c"), que não passa de "trabalho morto", cristalizado na forma de mercadorias que não cria nenhum novo valor capaz de produzir "mais-valia" ("s") e "lucros" ("p+"), ele apenas transmite à mercadoria produzida "o seu próprio valor" na forma de "custo de produção" e, é apenas o "capital variável" ("V"), ou seja, salários, que cria novo valor enquanto sempre é menor que os seus próprios "custos de produção":

p+ = s/c + v ou lucro = mais-valia dividido por capital constante + capital variável

que constitui a fórmula económica fundamental a partir da qual se demonstra que o investimento, por maior que seja, na "IA" capitalista, que é capital constante a ser adicionado ao capital variável para determinar o lucro, nunca resolverá a "tendência da taxa de lucro a cair" e apenas agravará as crises de sobreprodução e as guerras sistémicas do capitalismo ao reduzir os assalariados/escravos consumidores ao desemprego.

A anarquia da produção capitalista condena inexoravelmente os capitalistas a aumentar a produtividade do trabalho para produzir mais barato que os seus concorrentes, a fim de tomar participação de mercado e acumular riqueza = capital.

Para isso, fazem com que os seus escravos assalariados produzam "máquinas" cada vez mais eficientes e caras que exigem mais matérias-primas, energia, transporte, logística, manutenção, aumentando constantemente a participação do capital investido em capital constante (c) e reduzindo a participação do capital variável (v) na composição orgânica do capital.

Essa lei fundamental do capitalismo dá origem a uma das suas contradições fatais. Ao ter que aumentar constantemente a sua competitividade para dominar o mercado, o capitalismo substitui o capital variável, seus escravos assalariados, os únicos produtores de mais valia, por máquinas que não produzem mais valia, o que aumenta a participação do capital constante (que não produz mais valia) e, assim, leva a uma tendência da taxa de lucro a cair, e, consequentemente, a lucratividade da empresa e sua única razão capitalista de existir.

Um cálculo matemático simples comprova isso claramente:

Situação A: c = 50; v = 50; s = 50; então p+ = 50 / 50 + 50 = 50%;
Situação B: c = 90; v = 10; s = 10; então p+ = 10 / 90 + 10 = 10%,

Esse exemplo simplificado do cálculo exposto por Marx em O Capital permite-nos visualizar matematicamente como ocorre a tendência da taxa de lucro a cair, algo que nenhum economista, nem qualquer "IA" burguesa, jamais conseguiu refutar cientificamente.


(Veja nosso artigo apresentando estes conceitos económicos: CRISE ECONÓMICA E AUSTERIDADE ORÇAMENTÁRIA – os 7 de Quebec https://les7duquebec.net/archives/306630 - dentro em breve haverá uma versão em Língua Portuguesa )


Marx refutou as "explicações" capitalistas da sua demonstração da "tendência da taxa de lucro a cair" pelo aumento do capital constante em relação ao capital variável, no Capítulo XIV do Livro III do Capital, onde explica que os capitalistas podem, temporariamente, "contrabalançar" o efeito, mas apenas até certo ponto e por um determinado tempo:

«Prolongando a jornada de trabalho e aumentando a intensidade da exploração do trabalho, o que têm a ignomínia de chamar de "ganhos de produtividade" e, ao reduzir os custos necessários para a reprodução da força de trabalho, o que têm a desumanidade de chamar de "poupanças" ao cortar a saúde, educação e lazer dos proletários e seus descendentes. Cortes no orçamento que estudantes do ensino médio estão a rejeitar por toda a França neste momento: Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: A revolta estudantil em França, todos seguindo a infame e abjecta propaganda de "criar RIQUEZA" para os ricos, a única forma de acumular o capital essencial para a expansão e sobrevivência do sistema capitalista.

Marx expôs as monstruosidades desumanas que a burguesia implementou para superar "a tendência da taxa de lucro a cair":

O aumento do grau de exploração dos escravos assalariados; a compressão abaixo do seu valor salarial; diminuição dos custos do capital constante pelo « roubo, saque e pirataria» dos países sub-desenvolvidos; a exploração da «sobre-população relativa»; a criação de uma «sobre-população relativa» por emigração forçada através da escravatura e guerras sem fim; o comércio exterior sujeito a guerras tarifárias injustas; a destruição acelerada da natureza para extrair os recursos naturais ao menor custo e ao preço da sua aniquilação, tudo passa por aí e, a longo prazo, nenhum desses cataplasmas muda o curso da «queda tendencial da taxa de lucro».

Outra consequência científica que MARX descobriu ao estudar o modo de produção capitalista:

«As crises da sobreprodução sistémica e endémica do capitalismo que resultam inexoravelmente do aumento do capital constante e da redução correlativa do capital variável, ou seja, transformando os proletários no lumpenproletariado e destruindo-os através de drogas, álcool, ociosidade e, por fim, guerras intermináveis."

A «IA» capitalista não é mais do que a nova táctica dos capitalistas para reduzir os custos do capital variável, substituindo os escravos assalariados clericais (trabalhadores de colarinho branco nos escritórios) por robôs, porque a «IA» capitalista tem apenas um verdadeiro objectivo sob a ditadura dos capitalistas: aumentar a rentabilidade do capital através da automação/robotização.

Como MARX demonstrou cientificamente: a «IA» capitalista aumenta o capital constante cujo custo é transferido integralmente e sem majoração para a mercadoria produzida, pois o seu custo equivale ao da sua manutenção, substituição e desenvolvimento, o que significa:

P = + c + v + s = P – ou lucro = + capital constante + – capital variável + – mais valia = menos lucro

Como na situação «B» do nosso cálculo anterior, o aumento do capital constante levou a uma redução matemática da percentagem de lucro.

O modo de produção capitalista (MPC), que se baseia na «mercadoria», obriga-o a valorizá-la através da sua transformação em «dinheiro» pelo mercado, sendo comprada por um consumidor. Ora, esses «consumidores» só podem ser os capitalistas, que também são proletários, pequenos burgueses, lumpenproletários e toda a sua descendência, que têm de satisfazer as suas necessidades para sobreviver e reproduzir-se, a fim de garantir o ciclo da produção.

Uma das consequências directas do aumento da «automação/robotização» da produção e do consumo pela «IA» capitalista é a redução do capital variável (v), ou seja, o despedimento dos escravos assalariados e, por consequência, dos escravos consumidores.

O sistema capitalista (o modo de produção capitalista – MPC) depara-se com outro paradoxo: há mais mercadorias para consumir, mas com menos consumidores com capacidade para o fazer, uma vez que perderam o salário com o qual poderiam consumir, surge uma crise de sobreprodução e, sob o regime capitalista, não há nenhuma maneira de resolver esta contradição, a não ser adiar o seu prazo:

1- consumindo sem fim e desperdiçando sem limites pelos capitalistas que têm os meios: castelos em Espanha, barcos caríssimos, aviões privados, viagens ao espaço, sexo, droga e rock and roll, nada é demasiado caro para os bilionários mestres do mundo e os seus Kapos obedientes

– 0,001% ou 56.000 bilionários possuindo 3 vezes mais riqueza planetária só para eles do que os 4,5 mil milhões de humanos mais pobres, que consomem ~0,5% do consumo mundial contra cerca de 12% para 2,8 mil milhões de humanos mais pobres;

– o 1% mais rico ou 56 milhões de humanos que possuem ~36% da riqueza planetária total e recebem 20% dos rendimentos mundiais consomem sozinhos tanto quanto os 2,8 mil milhões mais pobres, com cada grupo a representar ~12% do consumo mundial (re: datacatalog.worldbank.org, 21/09/2026 e 32 outras fontes);

2- investindo nos sectores financeiros (dívida de 90.000 mil milhões de dólares U$ para 25% da dívida mundial);

3- investindo nos sectores de alta rentabilidade como os complexos financeiros, militar-industriais e petroquímicos (dívidas das empresas capitalistas não financeiras = 110.000 mil milhões de dólares US = 27% da dívida mundial;

4- endividando os Estados com opção sobre as riquezas públicas para obter o dinheiro necessário para consumir ou fazer consumir (Estados mundiais = dívida total de 110.000 mil milhões de dólares US ou 30% da dívida mundial);

5- endividando os consumidores comuns com opção sobre a sua vida e o seu futuro (consumidores mundiais = 65.000 mil milhões de dólares US ou 18% da dívida mundial); para uma dívida planetária mundial de 365.000 mil milhões de dólares US ou 311% do Produto Interno Bruto mundial, em aumento estratosférico constante (re: Financial Times, ft.com, 30/09/2026; Institute of International Finance (IIF), 1.º semestre de 2026; reuters.com, 25/02/2026)

Mas quando o limite do crédito é atingido e os custos da nova revolução industrial se impõem, Shylock exige a sua libra de carne fresca: «[A] libra de carne que exijo dele foi comprada a caro preço; é minha e eu a terei» (folger.edu: O Mercador de Veneza) e os bilionários patenteiam conflitos étnicos, linguísticos, religiosos, raciais, clânicos, nacionalistas chauvinistas que geram guerras locais, depois regionais e finalmente mundiais de destruição dos excedentes de mercadorias, dos excedentes de meios de produção e dos escravos assalariados (que para o Capital não são mais que meios de produção). O sistema capitalista rejuvenece alimentando-se da carne e do sangue dos seus filhos, Cronos protege a sua ditadura. Assim como os planetas se atraem sob o efeito da gravitação a ponto de colidirem e transformarem, a burguesia e o proletariado atraem-se sob o efeito da tendência da taxa de lucro e da mercantilização colidirem e transformarem mutuamente através da revolução proletária, este é o único futuro da humanidade se quiser evitar seu desaparecimento: "TUDO O QUE NÃO AVANÇA RECUA" E DESAPARECE.


PROLETÁRIOS DO MUNDO INTEIRO CRIEM A VOSSA PRÓPRIA "IA" MATERIALISTA
e derrubem a ditadura da burguesia IDEALISTA
para estabelecer a vossa ditadura de classe, porque o futuro da humanidade está em jogo.

 

 


Fonte: La menace de l’intelligence artificielle réside dans la société marchande qui dévalorise la pensée humaine – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice