sábado, 3 de outubro de 2026

A Maldição de Camp David

 


A Maldição de Camp David

A 19 de Maio de 2011, o Presidente Barack Obama defendeu as linhas gerais de um acordo para o conflito israelo-palestiniano com base em...

Por: René Naba - em: Israel Palestine Politics - em 5 de Junho de 2011


A 19 de maio de 2011, o Presidente Barack Obama defendeu as linhas gerais de um acordo para o conflito israelo-palestiniano com base na criação de um Estado palestiniano e no regresso às fronteiras de 1967.

A oferta de paz dos EUA, no entanto, vem acompanhada de condições restrictivas draconianas: o Estado palestiniano terá de ser desmilitarizado como resultado das negociações entre os dois lados e não pode ser formado com base numa declaração unilateral de independência do lado palestiniano.
renenaba.com regressa no momento ao tratado de paz egípcio-israelita, por ocasião da comemoração do 44.º aniversário da guerra de Junho de 1967

Este artigo está associado a uma crónica na Oumma.TV: «O povo árabe não é um povo de segunda», cuja transmissão está prevista para o mesmo dia

Atrevamo-nos a afirmar: Camp David foi um enorme engano e o tratado de paz egípcio-israelita, uma maldição para o Egipto, o mundo árabe e provavelmente para a paz regional.

Maquiavélico na sua concepção, este tratado foi mau nos seus efeitos, mau nas suas consequências, tanto para o Egipto, como para o seu signatário egípcio e para o seu sucessor que o endossou.

Anwar Sadat, o negociador do tratado de paz israelita-egípcio de Washington de 25 de Março de 1979, foi assassinado dois anos depois, a 6 de Outubro de 1961. O seu sucessor, Hosni Mubarak, acabou, por sua vez, queimado ao fim de trinta e dois anos de um reinado calamitoso para si próprio e desonroso para a dignidade do seu país, que submeteu durante todo esse tempo à lógica da vassalagem israelo-americana. O efeito estilístico não é apropriado para um tema de grande gravidade. A declaração pode parecer sacrílega, mas a observação não deixa de ser óbvia após trinta e dois anos de paz egípcio-israelita.

O efeito de estilo não tem lugar num assunto de grande gravidade. A afirmação pode parecer sacrilégio, mas a constatação impõe-se não obstante após trinta e dois anos de paz egípcio-israelita.

Ignorando as regras elementares da polémica, o tratado quebrou a unidade da frente dos «países do campo de batalha» (Egipto, Síria, Jordânia, Palestina-OLP, Líbano), materializada na guerra de 1948, assim como na expedição de Suez em 1956 e na guerra de Outubro em 1973, e respondeu plenamente ao objectivo subjacente da diplomacia israelo-americana.

 

Ao marginalizar o Egipto, libertou o flanco Sul de Israel e levou a guerra para o Norte, prolongando-a contra o Líbano e a Palestina, além de aliviar o orçamento militar israelita para o dedicar à tecnologia de ponta.

Na sua corrida desenfreada pela paz, Sadate recusou-se a ver a corda do laço da armadilha que a diplomacia ocidental tinha armado em torno do pescoço do Egipto, iludido pela ideia de que estava a moldar a história, deslumbrado pelos holofotes da fama, numa busca solitária pela glória em partilha com um dos líderes da direita mais radical israelita, o organizador da invasão do Líbano em 1982, Menahem Begin.

Assinado sem respeito pelo parceiro leal da Síria, o tratado de 1979 foi seguido pela assinatura de um tratado semelhante pela Jordânia, dois arranjos que deixariam a Síria tragicamente isolada de Israel. Damasco quebrou o seu isolamento por uma aliança atrasada com o Irão e pelo desejo de manter as cartas libanesas e palestinianas sob o seu controlo, num contexto de manobras regionais de distracção que levaram à guerra inter-faccional libanesa de 1975-1990. Em suma, "tratados de paz" que desencadearam uma loucura assassina de quinze anos.

Ao executar um salto mortal, Sadate expulsa, em Julho de 1972, quinze mil conselheiros soviéticos (os guardiões do seu arsenal), para se lançar de cabeça nos braços dos americanos, entregando-se a eles de mãos e pés atados, sem qualquer contra-prestação. Um ano depois, em Outubro de 1973, enquanto os americanos organizavam uma ponte aérea para abastecer o seu aliado israelita, Sadate só deve a sua salvação à intervenção expressa do argelino Houri Boumediene, que desbloqueia mil milhões de dólares para o fornecimento de material soviético na frente egípcia do Sinai.

Uma abordagem colectiva árabe teria impedido Israel de jogar com as contradições árabes. Este jogo realizava-se alternando ofertas de negociação ora à Síria, ora aos palestinianos, numa estratégia dilatória destinada a consolidar o povoamento do planalto do Golan e da Cisjordânia, assim como a judaização da cidade sagrada de Jerusalém. Mas o Egipto não se importa nada com isso.

O tratado de paz, uma noção enganadora

A Paz (pax em latim) geralmente refere-se a um estado de calma ou tranquilidade, como a ausência de perturbação, agitação ou conflito. Por vezes, é considerada um ideal. Sinónimo de calma e concórdia, remete para uma forma de tranquilidade interior que reina nos Estados, nas famílias, nas sociedades e sugere uma reconciliação, uma tranquilidade da alma, do coração, uma situação tranquila de um Estado, de um povo, de um reino, de uma família.

Se nos atermos a esta definição, a palavra é enganosa quando aplicada à Paz entre o Egipto e Israel. De facto, aqui equivale mais à submissão, pois é verdade que a paz de Camp David não significou o fim das hostilidades, mas sim o seu deslocamento para outras zonas, particularmente o Líbano, o Iraque, a Síria, a Tunísia, o Sudão e a Palestina, com a aprovação mais ou menos tácita, por vezes a resignação do maior Estado árabe.

Celebrado em todo o campo ocidental como anunciador de uma nova era de paz e prosperidade na zona intermédia entre a Ásia e a Europa, o tratado seria vivido ao nível da opinião árabe e muçulmana como uma sucessão de rejeições e humilhações para o orgulho nacional do Egipto. No plano estratégico, as provocações flagrantes de Israel foram percebidas como um enfraquecimento da segurança do espaço nacional árabe. 

Para se ter uma ideia: o tratado de Washington de 21 de Março de 1979 foi seguido da anexação de Jerusalém como «capital eterna e indivisível do Estado hebraico» a 30 de Julho de 1980; da destruição da central nuclear iraquiana de Tammouz a 7 de Junho de 1981; depois da anexação do planalto sírio do Golan a 14 de Dezembro de 1981; antes de culminar com a invasão israelita do Líbano a 5 de Junho de 1982, o cerco de Beirute e a destruição das infraestruturas da OLP no Líbano.

Observa-se uma pausa por ocasião do processo de reintegração do Egipto no seio do campo árabe em 1984, favorecida pela guerra Irão-Iraque, antes de recomeçar com intensidade através de uma sucessão contínua de operações de assédio contra aqueles que eram justamente os «irmãos de armas» dos egípcios: ataque à sede de Yasser Arafat, em Tunes, a 8 de Outubro de 1985; depois o assassinato do seu braço-direito, Abou Jihad (também conhecido como Khalil Al Wazir); o responsável militar da central palestiniana, ainda em Tunes a 15 de Abril de 1988; e o responsável do serviço de informações palestiniano, Abou Iyad (também conhecido como Salah Khalaf), novamente em Tunes a 14 de Janeiro de 1991; finalmente, os dois líderes do Hamas, Cheikh Ahmad Yassine e Abdel Aziz Al-Rantissi, em assassinatos extra-judiciais, esvaziando a liderança palestiniana dos seus dirigentes mais experientes e representativos, abrindo caminho à promoção de uma personalidade sem destaque, o burocrata Mahmoud Abbas.

Tal como uma longa ladainha, tal como um longo lamento da impotência árabe, os golpes de punho israelitas suceder-se-ão a um ritmo sustentado, sob o pretexto de «guerra contra o terrorismo»: segunda guerra do Líbano em 2006, guerra contra o enclave palestiniano de Gaza em 2008, ataque de destruição de uma central nuclear no norte da Síria a 6 de Setembro de 2007, ataque aéreo ao Sudão em Janeiro de 2009, construcção do Muro do apartheid, judaização crescente de Jerusalém. À sombra da paz egípcia, a máquina de guerra israelita não conheceu nem trégua nem descanso, mas avançou na colonização gradual de toda a Palestina. À sombra do tratado de paz, a Palestina, nos seus dois segmentos, a Cisjordânia e Gaza, torna-se ao longo dos anos, a maior prisão do mundo, o maior campo de concentração a céu aberto, com um muro de separação em betão armado, que cerca e aprisiona perto de três milhões de pessoas, dezenas de cidades e vilarejos. Um muro três vezes mais longo do que o muro de Berlim e duas vezes mais alto, com uma altura de oito metros e um comprimento de setecentos e cinquenta quilómetros.

Até mesmo Israel é afectado nos seus fundamentos a ponto de viver uma situação «esquizotípica»: um Estado de direito, certamente, mas exclusivamente em relação aos seus cidadãos de religião judaica, um Estado de apartheid em relação à componente palestiniana da sua população, uma zona de não-direito e de privilégios nas suas colónias e na cena regional, a ponto de muitos observadores (não apenas árabes, não apenas muçulmanos) tenderem a considerá-lo como o Estado fora da lei Nº1 na cena internacional. Estas diatribes racistas anti-árabes são tão representativas que transformaram o bestiário israelita numa marca de fábrica da linguagem governamental israelita. O refúgio dos judeus, dos sobreviventes dos campos de morte e dos perseguidos, o país do Kibutz socialista e da fertilização do deserto, dos pensadores livres e dos anti-conformistas, tornou-se também, ao longo dos anos, um bastião da religiosidade rigorista, dos iluminados e dos falsos profetas, de Meir Kalhana (Liga da Defesa Judaica) a Baruch Goldstein (o autor do massacre de Hebron, a 25 de Fevereiro de 2004), a gangues mafiosas e a reincidentes, de Samuel Flatto-Sharon a Arcadi Gaydamak.

Um fenómeno amplificado pela decomposição do espírito cívico, gangrenado pela ocupação e pela corrupção de negócios nos círculos dirigentes, materializado pelo naufrágio do partido trabalhista (o «partido dos pais fundadores»), e pela cascata de demissões no mais alto nível do Estado, seja por assédio sexual ou por questões relacionadas com dinheiro ilícito.

A promoção de Avigdor Libermann, uma ilustração caricatural do «Direito de retorno»

A ascensão de Avigdor Libermann ao centro do palco político israelita constitui, a este respeito, uma ilustração caricatural do «Direito de retorno» na sua extravagância mais gritante, na medida em que confere a um antigo segurança de discotecas em Moscovo – pelo único facto de ser judeu, e em detrimento dos habitantes originais do país – uma parte do destino do Médio Oriente. Constitui, assim, a marca da aberração do projecto sionista nas suas manifestações mais extremas, o claro fracasso do projecto ocidental. Quase cem anos após a sua fundação, o Lar Nacional Judeu aparece, assim, retrospectivamente, como a primeira operação de relocação de grande escala efectuada com base etno-religiosa, com o intuito de sub-contratar ao mundo árabe o anti-semitismo recorrente da sociedade ocidental. A Palestina, neste contexto, tornou-se um imenso desabafo de todas as frustrações acumuladas desde os subúrbios de Kiev (Ucrânia) e de Tbilisi (Geórgia) até ao mais profundo de Brooklyn (Estados Unidos).

Segundo um relatório da organização de esquerda israelita «A Paz Agora», publicado a 29 de Janeiro de 2009 no jornal Le Monde, as construcções nos colonatos aumentaram cinquenta e sete por cento durante o ano de 2008. Sessenta e um por cento destas novas estruturas foram erguidas dentro do perímetro da «barreira de segurança», e trinta e nove por cento fora dela, ou seja, na Cisjordânia. Isto torna cada vez mais difícil a criação de um Estado palestiniano viável e contínuo, nota «A Paz Agora».

O número total de colonos passou de duzentos e setenta mil em 2007, para duzentos e oitenta e cinco mil em 2008, sem contar com os colonatos na periferia de Jerusalém, que totalizam uma população de quase duzentos mil habitantes. Em Abril de 2001, uma comissão internacional presidida por Georges Mitchell havia recomendado a suspensão da colonização.

Numa operação de falsificação talvez única na história, as principais colónias de povoamento na Cisjordânia foram construídas não em terras do Estado, como os israelitas quiseram fazer acreditar aos seus patrocinadores americanos, mas em terras privadas, em violação do sagrado princípio da propriedade privada, um dos princípios fundamentais do liberalismo económico (1). 

Quase setecentos e sessenta e três bloqueios militares atravessam os territórios palestinianos ocupados. Desde a Naksa (a guerra de 1967) e a ocupação dos territórios palestinianos, quarenta e dois por cento dos homens palestinianos foram detidos pelo menos uma vez. Mais de duzentas mesquitas foram profanadas e destruídas, sendo substituídas por bares e discotecas.

Quase toda a Palestina está anexada, o comando palestiniano dizimado, Gaza destruída, Beirute destruída duas vezes (1982 e 2006), sem que o Egipto mexa um dedo. Nada retarda ou freia a voracidade de Israel, nem o seu belicismo. O trabalho de minagem israelita foi constante, a humilhação egípcia continua. 

Da estupefacção à consternação e indignação: os ataques israelitas a alvos árabes e palestinianos, desrespeitando as leis internacionais, para satisfazer objectivos estratégicos de expansão do sionismo em terra árabe, e ao mesmo tempo testar a credibilidade egípcia, são sentidos como punhaladas do Egipto aos seus antigos irmãos de armas. Anouar El Sadate pagou com a vida por esta traição. Hosni Mubarak sofre o preço do generalizado repúdio do seu povo, fazendo uma saída lamentável da cena política e da história.

Roda dentada da diplomacia americana, negligenciando a emergência de duas novas potências regionais (a Turquia sunita e o Irão xiita), por rejeição da sua aliança israelo-americana, Hosni Mubarak participava com zelo numa política suicida para o mundo árabe: a «bunkerização» de Israel e a «ostracização» do Irão, enquanto a prudência exigia procurar uma paridade estratégica com Israel para criar as condições equitativas de uma resolução final de todo o litígio israelo-árabe.

 Curiosamente, em trinta e dois anos de aplicação do tratado de paz egípcio-israelita, ninguém se atreveu a exigir de Israel o respeito pelos seus compromissos, que previam num segundo ponto a realização de uma paz completa entre israelitas e palestinianos. Uma exigência confirmada pela Conferência de Annapolis, a 29 de Novembro de 2008.

A hecatombe dos pilares do Ocidente

Não só Israel não cumpriu nenhuma das obrigações deste tratado, como também neutralizou os efeitos dos acordos provisórios previstos pelos Acordos de Oslo (Novembro de 1993), dos quais o primeiro-ministro Benyamin Netanyahu esvaziou o conteúdo na sua primeira passagem pelo governo em 1995, multiplicando as condições impeditivas. Subordinando a resolução do problema, numa primeira fase, à resolução do dossier nuclear iraniano, fingindo ignorar que o conflito palestiniano é anterior em sessenta anos à questão nuclear iraniana, avança, numa segunda fase, uma condição inverosímil e contrária à realidade histórica: o reconhecimento de Israel como "o Estado do Povo Judeu", com vista a isentar o Estado Hebreu de toda responsabilidade moral na tragédia palestiniana, de qualquer prejuízo em relação ao povo palestiniano, de qualquer indemnização aos refugiados palestinianos.

Ninguém também se espantou com os procedimentos dilatórios postos em prática para impedir a proclamação da independência da Palestina, enquanto países pequenos, com litígios mais recentes (como o Kosovo e o Sudão do Sul), alcançaram a independência, com o apoio ocidental, em muito menos tempo do que a Palestina (dez anos para o Kosovo), mesmo tendo este Estado o reconhecimento de quase cem Estados membros da Organização das Nações Unidas.

No final de trinta e dois anos de Tratado de Paz, de uma década de «guerra contra o terrorismo», muitos líderes pró-ocidentais do terceiro mundo árabe-muçulmano foram eliminados de forma violenta da vida política, Anuar el Sadate do Egipto, o falangista Bachir Gemayel, o bilionário saudo-libanês Rafic Hariri, a paquistanesa Benazir Bhutto, outros foram forçados a deixar o poder, o egípcio Hosni Mubarak e o tunisino Zine El Abidine Ben Ali; enquanto outros estavam sob a tutela americana: Hamid Karzai (Afeganistão), Noury Al Malki (Iraque), Mahmoud Abbas (Palestina), até mesmo a dinastia wahabita, e, naturalmente, o seu filho querido, Saad Hariri.

O tratado de paz israelo-egípcio de Março de 1979 foi compensado pela queda da dinastia Pahlavi, a invasão americana do Iraque com a expulsão de um poder sunita na antiga capital dos Abássidas provocou um sismo duplicado pela eliminação do chefe do clã saudita-americano no Líbano (Rafic Hariri) pelo desmembramento do Sudão, a queda do reduto do fundamentalismo na África do Norte, a capitulação de Barack Obama perante o diktat israelita nas negociações de paz israelo-palestinianas e a queda do governo pró-americano de Saad Hariri no Líbano. Ao entronizar Rafic Hariri como «mártir do Ocidente» e o seu herdeiro político como «o reduto da democracia em terra árabe», espera-se que os líderes ocidentais não se venham a arrepender.

A servilidade em relação à América não constitui de forma alguma, uma garantia absoluta de perduração. A paz dos bravos foi a rendição de um vencido… A história é impiedosa com aqueles que a insultam.

Notas

1 – Ilustração simbólica do desenraizamento e da vontade dos israelitas de arrancar os palestinianos da sua terra ancestral, só em 2006, os israelitas desenraizaram treze milhões quinhentos e sessenta e dois mil oitocentos e noventa e seis árvores, destruíram setecentos e oitenta e sete silos, setecentas e oitenta e oito quintas com os seus animais (catorze mil oitocentas e vinte e quatro cabras e ovelhas, doze mil cento e cinquenta e uma vacas, dezasseis mil quinhentas e quarenta e nove colmeias de abelhas), destruindo quatrocentos e vinte e cinco poços, duzentas e sete casas, sem falar nos assassinatos extra-judiciais e outras invenções jurídicas da maravilhosa eficácia israelita tão celebrada em todo o mundo ocidental.

Fonte: La malédiction de Camp David - En point de mire

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Inteligência Artificial e Robótica, último recurso do Capital


Inteligência Artificial e Robótica, último recurso do Capital

3 de Outubro de 2026 Robert Bibeau



Por Normand Bibeau.

O capitalista mais rico e, portanto, o mais poderoso do mundo capitalista, o infernal Elon Musk, teve a audácia abominável de proclamar, por ocasião da grande massa dos capitalistas, mestres do mundo "ocidental" e dos seus políticos "Kapos", aristocratas sindicais, escritores a soldo dos media tradicionais, ONGs subsidiadas pela UNSAID, pela CIA ou por um think tank falso, ou uma associação religiosa obscurantista e medieval e a nata da burguesia, no "Fórum Económico Mundial em Davos 2026", sobre o tema da IA robótica:



"HAVERÁ MAIS ROBÔS DO QUE PESSOAS". (re: Elon Musk, Davos 2026, re:podscam.fm, 23/06/2026; elonmuskarchive.org, 22/01/2026). Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: Inteligência artificial: o mais recente fetiche de um capitalismo em decadência

Dando origem a receios do que acontecerá ao "povo" quando se tornar lúmpen-proletariado, excluídos do processo de valorização do capital através da extracção de "mais-valia" e, consequentemente, inúteis como "carne para patrões" e dificilmente "melhores" como "carne para canhão".

Esta previsão levou Stuart Russell, um guru burguês da IA, a dizer:

"Se a tecnologia pudesse criar um gémeo de cada pessoa na Terra [...] Quantos de nós teriam emprego? Acho que a resposta é – 0- zero»

Já em 2019, o FEM declarou odiosamente que "25%" da força de trabalho do "sector privado" seria reduzida ao desemprego devido à IA/robótica e deveria ser "requalificada", abstendo-se de dizer como. (re: weforum.org, 22/01/2019)

A facção "oriental" da burguesia mundial, para não ficar atrás, na sua missa anual dos BRICS, realizada em Nova Deli, a 12 e 13 de Setembro de 2026, na presença de bilionários chineses, russos e indianos, petro-monarquias árabes e seus políticos KAPO, aristocratas sindicais, cronistas a soldo dos media tradicionais e instituições de caridade, concluiu que:

 


A «IA-automação» levará a: «alguns trabalhadores podem perder o emprego na transição […] trabalho humano e competências redundantes», oferecendo aos «trabalhadores (…) redundantes», votos piedosos e promessas de bêbado para pavimentar o futuro infernal dos lumpens-proletários da IA.

 

Em suma, a burguesia mundial, tanto "Ocidental" como "Oriental", do Norte global e do Sul global dos BRICS, do Leste e do Ocidente, lambe os lábios e esfrega as mãos ao pensar em substituir o seu inimigo jurado antagonista de classe, o proletariado trabalhador mundializado, por robôs dóceis e servís, totalmente condicionados pela IA e pela ideologia dominante.

Pode ler os comentários aqui:
https://les7duquebec.net/archives/306866#comments

 

Fonte: L’Intelligence Artificielle et la robotique les derniers recours du Capital – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice



«A UE está acabada e a China agora pode desligar a economia americana» (Yanis Varoufakis)

 


«A UE está acabada e a China agora pode desligar a economia americana» (Yanis Varoufakis)

2 de Outubro de 2026 Robert Bibeau


Por Glenn DIESEN. Sobre Glenn Diesen English – YouTube - https://i0.wp.com/les7duquebec.net/wp-content/uploads/2026/05/gleen.webp?resize=300%2C169&ssl=1 

A hegemonia dos Estados Unidos morrerá quando Pequim decidir converter os BRICS+ num sistema de Bretton Woods... mas os chineses não têm pressa. Estão a construir a infraestrutura. Fonte: Yanis Varoufakis: "A UE acabou e a China pode agora desligar a economia americana"

Glenn Diesen: Bem-vindos de volta a todos. Hoje temos connosco Yanis Varoufakis, professor de economia, antigo Ministro das Finanças da Grécia e fundador do DiEM25, o Movimento Democracia na Europa. Obrigado por voltares ao programa.

Yanis Varoufakis: Muito obrigado por me receberem, Glenn.

Glenn Diesen: O discurso sobre a União Europeia tornou-se muito polarizado, especialmente nos últimos anos. Ou seja, ou tudo é muito bom, ou tudo é muito mau. E em torno destas posições, temos narrativas opostas sobre esta postura binária. No entanto, pode argumentar-se que a cooperação europeia é necessária e ideal, nem que seja apenas pelo poder da negociação colectiva e pela assistência na gestão das relações. Mas seria um pouco céptico quanto a tal desenvolvimento autoritário, belicismo e à crescente perda de utilidade geo-económica da UE. Ainda assim, o bloco parece estar a mudar muito, tal como o apoio que recebe. Gostaria de saber: como avalia hoje a UE e a direcção que ela está a tomar?

Yanis Varoufakis: Tenho muito receio de que se torne cada vez mais farsesco. Ouviu von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, ontem mesmo. Num ambiente festivo, enquanto fazia de anfitriã com Carney, o Primeiro-Ministro canadiano, tomou a liberdade de comprometer a União Europeia a conceder ao Canadá a "adesão associada"; O que, sabes, poderia ter sido uma ideia interessante se existisse como conceito. Ela inventou-o no momento. Ou seja, estas pessoas inventam coisas à medida que avançam. Parece-me que estão num estado muito sério de confusão.

Mas deixa-me começar pelo início, com algo que disseste na tua introdução. Quando comecei a debater a União Europeia dentro da Europa, aqui na Grécia e nos Estados Unidos, arrependi-me de o debate ter sido polarizado. Usou esta palavra: polarização ou os efeitos polarizadores do debate na Europa. E essa polarização era entre euro-cépticos — pessoas com bons argumentos contra uma entidade governamental pan-europeia; são os burkeanos, os euro-cépticos britânicos e outros euro-cépticos que acreditam firmemente que, para um governo ser democrático, deve haver uma correspondência um a um entre uma cultura, uma língua, um parlamento e um Estado. E que isso não poderia acontecer a nível europeu porque não havia demos europeu.

E se não tiveres uma demo europeia, como vais ter uma democracia europeia? Portanto, se acabares com uma burocracia, será autoritária. Este é o argumento euro-céptico que muitas pessoas na Europa apoiam.

Esse não era o meu argumento, porque acredito genuinamente que a demo é algo que criamos. És mais historiador do que eu: a história do nacionalismo europeu nos séculos XVIII e XIX mostra que uma nação é um produto histórico, é algo que se forja. Os americanos não eram uma nação antes de criarem os Estados Unidos; a maioria nem sequer falava inglês. Portanto, a ideia de que "não existe demos europeu e, portanto, nunca poderá haver federalização europeia democrática" é um argumento respeitável, mas não um que eu tenha adoptado.

Depois, do outro lado, temos aquilo a que chamo os "euro-leais", sabem, os vários think tanks como Bruegel e outros; pessoas muito inteligentes, mas para quem a União Europeia não pode fazer nada de errado. Mesmo quando estraga as coisas, eles têm uma visão panglossiana segundo a qual é a melhor Europa possível e, por isso, devemos apoiá-la. Portanto, havia os euro-cépticos e os euro-lealistas. Nunca me alinhei com nenhum dos dois. Eu era euro-crítico, mas no sentido da palavra grega antiga "crítico": alguém que faz as perguntas difíceis. Queria que a União Europeia se tornasse uma federação democrática.

Fui criado fora da UE, fora do Mercado Comum. Cresci sob uma ditadura fascista — que, aliás, fazia parte da NATO mas não do Mercado Comum Europeu. Os meus pais, o meu círculo social, todos aspirávamos a fazer parte da família democrática europeia. Soube — especialmente quando comecei a ler história — que o Mercado Comum Europeu, a União Europeia como é chamada hoje, foi criado como um cartel das grandes empresas.

Não foi criado de uma forma que se assemelhe a um estado democrático ou a qualquer tipo de estado. Não foi o resultado de um processo socio-económico e político que gerasse tensões entre diferentes classes sociais, cujo resultado teria sido a criação de algum tipo de Estado para aliviar e regular essas tensões. Não foi assim que a União Europeia começou.

Começou da mesma forma que a OPEP: a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, como um cartel. E tinha um nome de cartel: chamava-se Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Era um cartel de carvão e aço, depois incorporaram a indústria de produtos eléctricos, e mais tarde cooptaram os agricultores através do Tratado de Roma — os grandes agricultores do norte da Europa, não do sul.

Mas ainda tinha esperança de que, de crise em crise, a União Europeia se desenvolvesse; que se transformaria de um cartel em algo que pudesse tornar-se uma federação democrática com o tempo. Mesmo quando me tornei ministro das finanças, a razão pela qual fui eleito para representar o povo grego no parlamento e ser o seu ministro das finanças foi porque a União Europeia exigia uma enorme "libra de carne" ao povo grego.

Eram bárbaros na forma como nos tratavam.

No entanto, apesar de me ter afectado muito de perto e de ter sido eleito para confrontar os poderes factuais em Bruxelas, Frankfurt, mantive a esperança de que, através deste tipo de "desobediência governamental" (em oposição à desobediência civil) — eu era um ministro das finanças desobediente ao Eurogrupo — através deste choque, poderíamos transformar a União Europeia.

Poderíamos ter um Green New Deal para a Europa. Trabalhei muito mesmo depois de me demitir, depois de ter sido esmagado pela União Europeia. Continuei a manter este europeísmo radical e progressista. Mencionou o DiEM25: criámo-lo para concorrer às eleições para o Parlamento Europeu em 2019 com base num programa — o Green New Deal para a Europa — que transformaria esta União Europeia oligárquica, neo-liberal, propensa à austeridade e liderada por banqueiros numa União Europeia dos povos.

E, claro, ficámos arrasados. Ursula von der Leyen foi eleita supostamente para tornar efectiva e aprovar — lembrem-se do Pacto Verde — o trilião de euros que iria gastar na transição ecológica. Nada disto aconteceu. Isto foi ignorado, esquecido. E agora temos o rearmamento, temos o keynesianismo militar e uma União Europeia que representa um perigo claro e presente para os europeus e para o resto do mundo.

Para resumir: já não tenho esperança nesta União Europeia. Acredito que esta União Europeia não perdeu a oportunidade de perder todas as oportunidades de se transformar, e agora é tão tóxica... Está rachada. Veja o que está a acontecer ao seu esqueleto principal: o eixo franco-alemão. A Alemanha é hoje totalmente ingovernável; A Alternative für Deutschland, que é profundamente anti-europeia, racista e quase fascista, está a crescer cada vez mais. Em França, tens Le Pen, que nunca escondeu o seu anti-europeísmo.

Portanto, mesmo que o centro radical restaure o seu controlo, será ao emular a extrema-direita neo-fascista e abraçar ainda mais austeridade, o que cria mais forças deflaccionárias. Quando digo forças deflaccionárias, refiro-me à deflacção salarial, não tanto à deflacção dos preços. E sabemos que esta é a receita para a ascensão do nazismo e do fascismo. Assim, esta União Europeia acabou por ser o degrau sobre o qual o capitalismo europeu falhado avançou para um novo tipo de fascismo.

Glenn Diesen: Lembro-me que nos anos 60 — eu não era nascido — o académico britânico David Mitrany escreveu que a UE teria dois futuros diferentes. Disse que poderia ser funcionalista ou federalista. Via o funcionalismo essencialmente como a procura da função que a UE poderia ter para melhorar a segurança, a economia, a democracia, e que essa função ditaria a forma da UE. Enquanto o modelo alternativo, argumentava ele, era o federalismo, em que primeiro decidíamos uma forma (a centralização do poder) e isso começava a ditar a função.

A sua preocupação na altura — já passaram 60 anos — era que a UE começasse a assemelhar-se à União Soviética com esta concentração de poder. Mas a razão pela qual menciono isto é que já não vejo claramente o modelo económico da UE. Vê que os problemas económicos vão além das estruturas da UE?

Yanis Varoufakis: Pelo que percebo — e isto vai incomodar seriamente os europeístas — a Europa nunca teve o seu próprio modelo económico desenhado por si própria. Os europeístas gostam de imaginar a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, o Mercado Comum e a União Europeia como um modelo europeu, um modelo social europeu. Isto nunca aconteceu. Este foi sempre um design americano imposto e implementado pelos Estados Unidos da América.

Pensávamos que era o nosso trabalho. Não há dúvida de que, após a Segunda Guerra Mundial, a grande maioria dos europeus queria uma Europa unida que tornasse a guerra irrelevante e a paz inevitável. Não há dúvida: havia sede pela União Europeia. Mas se olharmos para o cartel das grandes empresas que foi criado... Quem o desenhou? Passei vários anos académicos a investigar isto.

Escrevi um livro há muito tempo chamado The Global Minotaur. Depois escrevi outro intitulado E os fracos sofrem o que devem?. Como parte da minha investigação, li extensivamente na Biblioteca do Congresso, em Washington, D.C., transcrições das reuniões das comissões do Senado de 1946 a 1950. E esse era o plano da União Europeia. Não foi desenhado na Europa, foi desenhado em Washington.

Como bem sabe, quando os Estados Unidos estavam a emergir da Segunda Guerra Mundial, os defensores do New Deal eram pessoas que tinham sofrido imenso entre os jovens após o desastre de 1929 e a Grande Depressão. O seu grande receio era que a Grande Depressão regressasse em 1949. Falavam de 1949 porque era 20 anos depois de 1929.

O receio era que, uma vez terminada a guerra, todas essas encomendas desaparecessem. E para além da queda da procura agregada resultante do fim da guerra, haveria o regresso dos soldados, do trabalho masculino. Haveria um aumento da oferta de mão de obra e uma redução da procura de mão-de-obra, o que causaria um colapso: 1949 seria outra versão de 1929. E estavam determinados a não deixar que isso acontecesse.

Por isso, a primeira tarefa que tinham era como reutilizar as fábricas que fabricavam balas, metralhadoras, porta-aviões e bombardeiros para fabricar electrodomésticos, aviões comerciais, carros, etc. Foi um problema técnico que ultrapassaram muito rapidamente graças ao que John Kenneth Galbraith descreveu como a "tecno-estrutura".

A segunda questão era: de onde virá a procura pelos produtos destas fábricas? Porque estas fábricas, uma vez convertidas de uso militar para civil, podiam produzir muito mais carros, máquinas de lavar, frigoríficos e unidades de ar condicionado do que os americanos precisavam.

A resposta foi: temos de vender aos europeus. Mas o problema era que os europeus não tinham dinheiro. Estávamos em cinzas e os nossos sistemas monetários destruídos. Não havia forma de a Europa fornecer a procura agregada necessária que a economia dos EUA não tinha. Por isso decidiram "dolarizar-nos", dando-nos acesso ao dólar americano, e esse foi o sistema de Bretton Woods.

Mas para funcionar, tiveram de criar algo parecido com a União Europeia. Portanto, o cartel do carvão e do aço foi uma ideia americana. Tinha uma dimensão económica e uma dimensão militar/geo-política. A dimensão política e diplomática era garantir que franceses e alemães não lutassem mais. Ou seja, para ligar as suas grandes empresas: criar um cartel de aço e carvão co-propriedade de alemães, franceses, italianos do norte, holandeses e belgas. Foi o núcleo da Comunidade Económica Europeia. E cooptar os agricultores franceses para que não causem problemas quando mercadorias atravessam fronteiras, dando-lhes uma parte dos lucros monopólicos do cartel.

Era um projecto americano, e o Plano Marshall destinava-se a financiá-lo, a pô-lo em marcha, com banqueiros de Wall Street a entrarem para complementar todos esses fundos com crédito.

Veja-se o "milagre económico alemão". Claro que os engenheiros alemães sempre foram brilhantes, desde a época do Kaiser. Mas o que aconteceu? Lembrar-se-á que, após a Segunda Guerra Mundial, os Aliados — especialmente britânicos e franceses — concordaram entre si que a Alemanha seria desindustrializada e transformada num parque temático bucólico. Chegaram ao ponto de fazer explodir pelo menos 1700 fábricas. Foram os americanos que, a certa altura, quando desenharam Bretton Woods, disseram: "Não, não, não. Não podemos fazer isso.

Precisamos que a Alemanha seja a fábrica da Europa, desta nova Europa que estamos a criar. E colocaremos o povo francês para a administrar. É por isso que a OCDE está em França. É por isso que os franceses tiveram muito mais acesso à liderança das instituições da Comunidade Europeia.

Quando dizemos "modelo económico da Europa", estamos a falar de um plano americano. E a razão pela qual não concordo com a ideia de que, nos anos 60, a Europa tinha de escolher entre "federação" e "funcionalidade" é que a Europa nunca teria optado pela federação. Não chegou lá na década de 1960. A Alemanha estava muito feliz por ser a fábrica da Europa e a França estava muito feliz por liderar o serviço diplomático, a OCDE, os primórdios da Comunidade Europeia em Bruxelas e que o francês era a língua dominante.

O que aconteceu foi que o sistema de Bretton Woods foi dinamitado, e foram os próprios americanos que o dinamitaram. Porquê? Porque já não era sustentável. E porque é que já não era sustentável? Porque todo o objectivo do sistema de Bretton Woods desde os anos 40 era manter e reproduzir os excedentes americanos: as exportações líquidas das fábricas americanas que iriam para a Europa, e os europeus receberiam dólares para as comprar (ou seja, financiamento do comprador). Mas de 1968 a 1969, devido à Guerra do Vietname e às tensões sociais internas, os Estados Unidos tornaram-se um país deficitário.

Como eram um país em défice, não conseguiam manter taxas de câmbio fixas, por isso destruíram-nas. Os europeus ficaram completamente estupefactos. Lembrem-se de quando o Secretário do Tesouro de Richard Nixon (que fez explodir Bretton Woods a 15 de Agosto de 1971), um texano chamado John Connally, visitou Bona, Paris e Londres com uma mensagem simples: "O dólar é a nossa moeda, mas a partir de hoje este é o vosso problema."

O dólar desvalorizou-se e, de repente, o franco francês e o marco alemão deixaram de ter uma taxa de câmbio fixa. Foi um desastre para o cartel. Pense bem: já é difícil para a OPEP concordar como um cartel quando não tem o problema da moeda, porque cada barril de petróleo é cotado em dólares. Imagine se o petróleo saudita estivesse listado numa moeda, o indonésio noutra e o iraniano na terceira; Não haveria forma de manter o cartel.

Assim, os europeus, que dependiam deste modelo que os americanos lhes tinham concedido, entraram em pânico no final dos anos 60 e início dos anos 70 à procura de formas de fixar as taxas de câmbio novamente. Os americanos já não se importavam, porque seguiram o seu próprio caminho com o dólar e a financeirização através de Wall Street.

Os europeus, desde 1970 (lembram-se do Relatório Werner?), começaram a tentar fixar as taxas de câmbio para criar um Bretton Woods europeu, mas não tinham a experiência dos americanos, nem os seus excedentes, nem o governo federal necessário para isso. Continuaram a tentar: primeiro a Cobra Monetária, depois o Sistema Monetário Europeu (EMS)... Todos falharam. Os EMS tornaram George Soros muito rico em 1992, quando ele explodiu. Por isso, a certa altura, desistiram e disseram: "Ok, teremos uma moeda única."

Mas criaram uma federação monetária (uma moeda única) sem federação fiscal nem federação política. E é isso que se quer criar um sistema permanente de austeridade, investimento muito baixo, investimento negativo e estagnação. É por isso que, nos próprios alicerces da União Europeia, existe este processo de estagnação e desintegração, razão pela qual pessoas como von der Leyen soam tão loucas hoje.

Glenn Diesen: Mencionou a moeda comum, e é frequentemente criticada por não ter uma base económica clara e por ser tratada antes como um projecto político. Como é que as pessoas comuns podem compreender a falha fundamental do euro?

Yanis Varoufakis: Não sou contra ter um sistema monetário como projecto político. O dinheiro é político. Qualquer pessoa que pense que o dinheiro é apolítico precisa de reconsiderar seriamente a sua compreensão do que é o dinheiro. Não há nada mais político do que dinheiro. Por isso, não os culpo por tentarem criar um sistema monetário como projecto político; O que estou a dizer é que o fizeram de uma forma estúpida. Deixe-me ser directo: sou demasiado velho para entrar em nuances.

O que fizeram foi loucura, estupidez. Vou responder à tua pergunta sobre qual é a falha fundamental em termos não técnicos, para que todos compreendam.

Pense em qualquer país do mundo: tem dois pilares gigantes que sustentam a sua economia: o banco central e o Ministério da Economia ou do Tesouro, e apoiam-se mutuamente. É como um gigante com duas patas. O Tesouro emite dívida em nome de toda a economia; O banco central emite a moeda, e por isso protegem-se mutuamente. Quando há um problema bancário ou monetário, o Tesouro vem em seu auxílio; está a acontecer nos Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, Canadá, Austrália, em todo o lado.

O que fizemos na Europa? Colocámos a carroça à frente dos bois — ou seja, antes de termos união fiscal e política, criámos uma única perna: o Banco Central Europeu — não existe Tesouro. Não existe um tesouro comum.

É assim que explico isto aos meus alunos e às pessoas na rua (os taxistas compreendem isto muito bem, não é preciso formação académica): criámos um banco central sem estado nem tesouro, e temos cerca de 20 tesouros e estados sem banco central.

Quando a City de Londres ou os países escandinavos em 1992 tiveram bancos falidos, ou na Coreia do Sul em 1998 a dívida privada explodiu, o banco central veio em auxílio do Tesouro e do sistema bancário. O Estado pode nacionalizar os bancos para os salvar, mantê-los abertos e manter os multibancos a funcionar porque o banco central apoia o Estado.

Na Europa, criámos um Banco Central Europeu com estatutos que o proíbem de ajudar os Estados a gerir uma crise bancária. Isto é absurdo. Porque se recusares à França, Alemanha ou Grécia a ajuda do banco central para salvar o seu sistema bancário, a alternativa é que um Estado sem acesso à impressora tenha de se endividar, fazer com que os seus contribuintes mais fracos contraiam empréstimos para transferir perdas bancárias dos balanços dos bancos para os balanços do Estado. E depois tens uma catástrofe.

Para dizer de forma mais simples e alegorica: ao criar o euro como fizemos (e repito, não sou contra uma moeda comum se for bem feita), foi como remover os amortecedores do carro e depois levá-lo por um caminho cheio de buracos. Foi isso que fizemos.

Glenn Diesen: Essa analogia resume muito bem. Queria mudar um pouco de assunto para o aspecto tecnológico e a política industrial. Referiste que a UE é, em grande parte, um cartel de origem americana, mas nos anos 80 a UE tinha uma certa política industrial que rivalizava com a dos Estados Unidos. Edward Luttwak, por exemplo, escreve extensivamente sobre como, nos anos 80, os europeus, através de tarifas e subsídios, ajudaram a construir indústrias automóveis e aeronáuticas muito poderosas. Mas já no início dos anos 1990, houve declarações preocupadas da Comunidade Europeia de que esta estava "em perigo de se tornar uma colónia tecnológica dos Estados Unidos e do Japão" porque não acompanhava o desenvolvimento digital.

Hoje, 30 anos depois, vemos que o desenvolvimento tecnológico avança rapidamente em muitos países, enquanto a UE não tem plataformas tecnológicas próprias. Não é contraditório dizer que a UE carece de um eco-sistema digital limpo. Pode-se argumentar que a relação próxima com os Estados Unidos tem sido um problema porque aceitámos uma total dependência das suas plataformas. Como vê a UE hoje?

Porque já não se trata apenas de tecnologias digitais; A tecnologia digital está a ser transferida para todas as indústrias. A indústria tradicional onde os europeus eram fortes está a cair. O sector automóvel alemão é o melhor exemplo: se não se adaptarem às novas tecnologias, não sobreviverão (o que agrava ainda mais o problema energético). Qual é o risco de a UE se tornar uma colónia tecnológica da América ou de outra pessoa?

Yanis Varoufakis: Não há riscos. Já somos uma colónia.

Glenn Diesen: (Risos) Bem...

Yanis Varoufakis: É como dizer, "Qual é o risco de não haver oxigénio na Lua?" Não há oxigénio na Lua. Acabou. Estamos fritos. Mas deixa-me recuar um pouco mais, Glenn. Falou sobre política industrial nos anos 80. Não acredito que esta seja a razão pela qual as nossas indústrias na Europa, especialmente as alemãs, eram tão poderosas nos anos 80. Volto ao que disse sobre a ruptura de Bretton Woods pelos Estados Unidos. Este sistema baseava-se nos Estados Unidos a produzir o excedente que comprávamos com os seus dólares. Isto terminou em 1971.

A partir da década de 1980, esta reciclagem de excedentes e défices foi amplamente invertida. Os americanos passaram de ser o país livre de défices das décadas de 1950 e 1960 para serem os reis do défice. Um défice orçamental federal enorme, especialmente depois de Reagan, com os cortes fiscais e os gastos militares. A economia dos EUA tornou-se um gigantesco aspirador que absorveu as exportações líquidas da Alemanha, Itália, Japão e, mais tarde, China. E como é que ela pagou tudo isto? Com notas chamadas dólares. Imprimiam dólares e pagavam com eles.

A razão pela qual a indústria química ou automóvel alemã, ou Siemens, voou tão alto foi porque os americanos lhes forneciam uma enorme procura: compravam tudo o que produziam. E, neste contexto, a Volkswagen e outros estavam a regular as suas próprias indústrias (lembrem-se do escândalo da tecnologia criada para enganar os testes de emissões). Houve muito investimento na criação de poder monopolista e na subversão das regulamentações. Funcionou magnificamente para os europeus até 2008.

Mesmo nos anos 90, perante esta vaga de exportações para os Estados Unidos, a Comissão Europeia (e quando a capital da Alemanha se mudou de Bona para Berlim, também Paris) ficou encantada por adoptar as ideias de Margaret Thatcher sobre o mercado único, que destruíram efectivamente toda a política industrial e permitiram ao capital industrial fazer o que quisesse; o que era aceitável desde que os americanos comprassem tudo o que a Europa produzia.

Mas o que aconteceu a todos os dólares que o capital alemão, francês ou italiano acumulou ao vender aos Estados Unidos? Não se pode fazer muito com dólares na Europa. Por isso, esses capitalistas (alemães, franceses, armadores gregos...) enviaram esses dólares para Wall Street. E o que fizeram com esse dinheiro em Wall Street? Compraram dívida americana. Financiaram o governo federal dos EUA comprando acções e imóveis. Assim, a reciclagem de excedentes e dívidas foi revertida.

Isto foi engenhoso, e foi a razão pela qual os Estados Unidos se tornaram o primeiro império hegemónico a tornar-se mais poderoso à medida que se endividava. Isto nunca tinha acontecido na história da humanidade. Mas, de repente, o papel dos banqueiros de Wall Street tornou-se gigantesco, porque eram responsáveis por reciclar o dinheiro de outras pessoas em dívida do governo dos EUA, na indústria imobiliária e na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Por isso, tiveram de ser totalmente desregulados. E, uma vez desregulados, aprenderam o truque de pegar num dólar enviado por um capitalista alemão e, por engenharia financeira, convertê-lo em 100 dólares.

Isto criou enormes bolhas que rebentaram em 2008. E o que acontece quando estas bolhas rebentam em 2008? Compare o que aconteceu nos Estados Unidos com o que aconteceu na Europa. Se o público quiser saber por que razão os Estados Unidos não estão na situação da Europa, considere a seguinte cena:

Em Nova Iorque ou Washington, o mercado bolsista colapsou, a Lehman Brothers morreu, o tecto do capitalismo está a desmoronar-se. Ben Bernanke (então chefe da Reserva Federal), primeiro o Presidente Bush e depois Obama, juntamente com as pessoas do JP Morgan e do Goldman Sachs, sentam-se à mesa e colocam a pergunta pertinente: "Como nos salvamos a nós próprios?" E tiveram a ideia do TARP: deram 800 mil milhões de dólares aos banqueiros, e depois outros planos que, segundo os meus cálculos, deram aos banqueiros 11 mil milhões para os salvar.

Não fizeram nada pela classe trabalhadora ou média, mas salvaram os banqueiros. E não taxaram ninguém para isso: criaram o dinheiro do nada usando os mesmos truques de Wall Street que causaram a queda, desta vez para o resgatar com a participação activa do banco central. Isto foi o que aconteceu em Washington: a casta dominante questionou-se sobre como se salvar e agiu.

Na Europa, como vi, 28 primeiros-ministros, ministros e banqueiros centrais estão a reunir-se e a colocar uma questão muito diferente. A questão não era "como nos salvamos?", mas: "Como podemos fingir que as regras da União Europeia que já não funcionam continuam a funcionar?" Se responderes a esta pergunta, não estás a salvar-te: estás a criar uma catástrofe.

O que fizeram foi impor austeridade a todos. Austeridade massiva, porque o Banco Central não podia salvar ninguém (ao contrário dos Estados Unidos). Criaram uma enorme austeridade. Pediram emprestado aos europeus mais pobres (eslovenos, eslovacos, malteses) para o entregar ao Estado grego, que estava falido; não para a entregar ao povo grego, mas para a entregar ao Deutsche Bank. Portanto, o esloveno ou o eslovaco estava, na verdade, a emprestar dinheiro para resgatar o Deutsche Bank. Isto é um crime contra a lógica.

Para justificar, começaram com uma austeridade massiva na Grécia, depois na Irlanda, Portugal, Espanha, Itália, França e, finalmente, Alemanha. Wolfgang Schäuble disse-me explicitamente: "Faço-te engolir a austeridade porque quero importá-la para a Alemanha, precisamos de baixar os salários."

Portanto, aqui está o que acontece: por um lado, temos bancos falidos, estados falidos e uma procura agregada a cair drasticamente. Depois, dão luz verde ao Banco Central Europeu para imprimir milhares de milhões de euros. Mas esses triliões não vão para as pessoas comuns que precisam deles. Não, nunca se dá dinheiro a quem precisa, dá-se a quem não precisa.

O telefone toca e o CEO da Volkswagen atende: é alguém do Deutsche Bank a quem o BCE deu milhares de milhões a taxas de juro zero (ou mesmo a -0,8%). O tipo do Deutsche Bank diz ao da Volkswagen: "Queres um milhar de milhões grátis a juros zero?" O relatório da Volkswagen diz: "Claro, dinheiro grátis". Mas depois não investe, porque olha pela janela e vê consumidores empobrecidos que não podem comprar carros do tipo Tesla de alto valor acrescentado. Então o tipo da Volkswagen fica com o dinheiro, não investe nada em produção, vai a Frankfurt e compra acções da própria Volkswagen. As acções sobem, o salário e o bónus dele (ligado ao preço das acções) sobem, e ele ri-se enquanto vai ao banco. Mas não é um investimento.

Para dar uma resposta curta ao motivo pelo qual estamos num estado tão mau na Europa: porque não investimos há 20 anos. A indústria alemã assemelha-se agora às máquinas de escrever eléctricas Olivetti do final dos anos 1970. Eram lindas, mas quando o computador pessoal saiu, tornaram-se obsoletas. Não havia corte salarial no mundo que pudesse salvar Olivetti quando o Partido Comunista surgiu. Agora temos veículos eléctricos nos quais os alemães se esqueceram de investir. E aí está: Kaputt, fim do jogo.

Glenn Diesen: Gosto dessa explicação. Coloca problemas de legitimidade mais amplos para a UE, porque se a autoridade vem das regras e do aspecto legal, abre uma caixa de problemas futuros. A minha última pergunta foi sobre algo que impacta a economia: estas guerras no estrangeiro. No que diz respeito à guerra contra o Irão, a UE tem um envolvimento menos directo; começou com algum entusiasmo inicial, mas agora vemos os europeus a tentar distanciar-se, não querendo responsabilidade directa pelo desastre que se aproxima. Mas na guerra com a Rússia, diria que os europeus têm um papel significativo. O ponto comum entre as duas guerras é a energia: primeiro cortámo-nos do acesso à energia russa, e agora vemos petróleo saudita a queimar e as primeiras exportações cortadas parecem ser para os europeus.

Como é que isto afectará o futuro da Europa? Poder-se-ia pensar que encontrar uma arquitectura de segurança comum com os russos ou estabilizar o Médio Oriente seria do nosso interesse, mas não fazemos nenhuma das duas coisas.

Yanis Varoufakis: Por volta de 2009-2010, quando a crise da zona euro estava a rebentar e eu me envolvia em debates políticos (e depois, como ministro das finanças), sempre que tinha oportunidade de falar com um responsável europeu, dizia: "Olhem, pessoal, está claro que temos uma recessão massiva (chamei-lhe depressão depois da crise financeira de 2008). Como devemos responder?

Claramente, precisamos de estimular o investimento. É isso que se faz numa recessão massiva: estimular investimento, não tanto gastar (foi o New Deal de Roosevelt; Hitler também estimulou o investimento, o mau investimento, investindo em tanques e caças, e o resultado foi a morte de dezenas de milhões de pessoas, mas perante uma Grande Depressão, é preciso responder com investimento."

E eu perguntei: "Qual é a única coisa que esta União Europeia deve fazer?" Se olhares para o mapa da Europa, tens todos estes estados espalhados. Supõe-se que sejamos uma União Europeia, mas qual é o principal insumo para tudo o que produzimos? Energia. E não temos uma união energética. Não deveríamos criar uma união energética? Estava a tentar ser técnico: temos muito vento no norte, ondas no Golfo da Biscaia e na costa de Portugal, muito sol na Grécia... Não deveríamos ter um plano para colectar e aproveitar toda esta energia gratuita como europeus e interligar a electricidade solar grega para a Alemanha?

Mas isto requer uma união energética. Ainda não temos uma união energética, Glenn. A Alemanha tem as suas próprias centrais, a Grécia tem a sua, a Itália tem a sua... Importamos GNL do Texas e do Novo México, desligámo-nos da Rússia e não temos plano.

Mesmo sobre a própria guerra, já a discutimos várias vezes: qual é o plano para vencer a guerra? Digamos que queremos tomar Moscovo e colocar Putin num bunker como Hitler (porque fazem estes paralelos absurdos entre Hitler e Putin). Assumindo que acredita que Putin é o novo Hitler, qual é o plano para tomar Moscovo? Não há plano. Eles não fazem ideia de onde vão arranjar o dinheiro. Mesmo os 800 mil milhões de dólares do programa de reestruturação e rearmamento de von der Leyen são dinheiro emprestado que ninguém quer emprestar porque não têm almofadas fiscais para o absorver.

Como é que vão ajudar a Ucrânia? Eles pediram emprestados 90.000 mil milhões, esse é o limite deles. O orçamento da UE está sob forte pressão e a França quer reduzir as suas contribuições, não aumentá-las. Por isso, não têm um plano para a guerra. Se lhes perguntares qual é o plano para a paz, eles também não o têm. Eles não têm plano para a união energética. Não têm nenhum plano e vão de anúncio em anúncio, que parecem cortinas de fumo. Cada anúncio é menos credível do que o anterior.

Agora vão trazer o Canadá para a União Europeia, o que é pre-determinado e absurdo. Vão trazer o Canadá para o mercado único e cobrar aos canadianos pela sua participação na criação de normas sobre as quais não terão autoridade? Isto é absurdo. Tudo o que sai da boca de Kaja Kallas ou von der Leyen só nos lembra que a União Europeia é fruto da nossa imaginação colectiva.

Glenn Diesen: Sim, também perdi esse plano. Mesmo em guerra, se tens uma estratégia, como os derrotas, que recursos mobilizas? E o que significa derrotar a maior potência nuclear do mundo que sente que está a lutar pela sua existência? Tenho muitas perguntas e não há respostas...

Yanis Varoufakis: Especialmente se não estiver disposto a enviar tropas para o terreno.

Glenn Diesen: Exactamente. Tenho dúvidas de que haja alguém a liderar esta discussão. Tinha uma última pergunta. Já discutimos anteriormente como as obrigações foram recicladas para comprar obrigações dos EUA, mas actualmente o mercado obrigacionista nos EUA está a passar por muitos problemas. Inicialmente, vimos que adversários dos Estados Unidos, como a China ou a Rússia, deixaram de comprar obrigações. Mas agora vemos que até aliados (não só os japoneses, mas também os europeus) estão a passar de compradores a vendedores. Para onde está a ir e como analisa as consequências? Isto parece desmontar os ganhos dos últimos 50 anos.

Yanis Varoufakis: Estive a pesquisar os números e a analisar os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA a 10 anos, a taxa de inflação dos EUA e a taxa de juro do Federal Reserve. Ontem, estavam exactamente iguais a Setembro de 2001. Historicamente, não há uma diferença tão grande. O que está a acontecer é que, nos últimos 15 anos (devido à flexibilização quantitativa), nos habituámos a taxas de juro extremamente baixas e a forças deflaccionárias.

Mas não acho que os europeus vão deixar de comprar obrigações. O que é que eles vão fazer? Quando a BMW ou a BASF vendem produtos aos americanos e ganham dinheiro, o que fazem com esses dólares? Convertê-los em euros? Em nenhuma circunstância. Vão comprar vales, vão continuar a comprar vales. Os chineses deixaram de comprar títulos do Tesouro dos EUA, mas não venderam as suas reservas; Ainda têm um stock enorme.

E agora há outro interveniente em jogo: stablecoins (stablecoins denominadas em dólares americanos). Os japoneses reduziram para metade os seus vouchers, mas sabe o que fizeram com o dinheiro? Compraram a Tether e a Circle, criptoactivos denominados em dólares. E o que fez a Tether com o dinheiro recebido dos japoneses? Comprar obrigações dos EUA.

Glenn Diesen: Portanto, o sistema continua a funcionar. (Risos)

Yanis Varoufakis: O sistema continua a funcionar até deixar de funcionar. Mas não deixará de funcionar por causa de algo que os europeus ou os russos fariam; só deixará de funcionar quando os chineses decidirem desvincular-se do sistema do dólar americano. E não decidiram: têm 4,5 mil milhões de dólares investidos em dólares. Se tivesse 4,5 mil milhões de dólares numa conta bancária suíça, desvincularia do sistema bancário suíço?

Glenn Diesen: Acho que não. Embora se veja que, embora russos e chineses estejam a distanciar-se um pouco dos EUA, continuam a trabalhar com estas stablecoins americanas (como o sistema de pagamento russo A7 ligado à Tether para contornar sanções). Talvez não se desacople completamente, mas só vai transformar-se...

Yanis Varoufakis: Sem dúvida. Deixe-me fazer uma previsão sobre quando a hegemonia dos EUA morrerá: morrerá quando Pequim decidir converter os BRICS+ num sistema de Bretton Woods.

Lembrem-se de como descrevi o sistema de Bretton Woods: um sistema de taxas de câmbio fixas ou quase fixas onde a potência hegemónica excedente (que agora seria a China) recicla os seus excedentes para outros países dentro deste novo BRICS+ e mantém taxas de câmbio fixas usando o poder dos seus próprios excedentes.

Quando a China decidir fazer isso — desempenhar nos BRICS+ o papel que os Estados Unidos desempenharam em Bretton Woods após 1944 — então os Estados Unidos estarão em sérios apuros, e eles sabem disso. Esta é uma das razões fundamentais pelas quais as tensões com os chineses estão a aumentar.

Glenn Diesen: Porque é que ainda não o fizeram? Na cimeira dos BRICS na Índia, muitos comentaram que estão a avançar muito lentamente...

Yanis Varoufakis: Como os chineses têm um horizonte de 300 anos, não têm pressa. Estão a construir a infraestrutura: com o mBridge, com a alternativa baseada em blockchain ao SWIFT, com a moeda digital do banco central chinês... Estão a construir a infraestrutura com robótica melhorada por IA que irá aumentar a produtividade agrícola na Indonésia, Malásia e outros grandes países do BRICS+. Estão a construí-lo e ainda não estão prontos para sacudir o ninho das vespas; Querem garantir que a infraestrutura está pronta antes de avançarem nessa direcção.

A minha interpretação (ou especulação) é que estão à espera que os americanos atravessem o Rubicão. Os americanos ainda não o atravessaram. O Trump 2.0 ameaçou no ano passado tarifas de 150% aos chineses e tentou impor algumas delas.

Eles responderam suavemente dizendo: "Nesse caso, esqueçam o acesso a metais críticos", e ele recuou. Por isso, estão à espera do próximo passo do presidente dos EUA (não necessariamente de Trump, os democratas são igualmente maus; lembrem-se que foi Biden quem introduziu o absurdo Chip Act para sinalizar aos chineses que não lhes seria permitido avançar tecnologicamente, que foi o maior erro geo-económico da história).

Acredito que os chineses aplicam o velho provérbio: "Nunca interrompas o teu inimigo quando ele comete um erro". Deixaram-no cometer um erro e outro. Em algum momento, estarão prontos para dar o passo.

Glenn Diesen: Yanis, muito obrigado por teres dedicado tempo a explicar-nos como os chineses podem acabar por desligar a economia dos EUA. Mais uma vez, obrigado pelo seu tempo.

Yanis Varoufakis: Obrigado. Isto não significa que eu esteja certo, é especulação minha, mas é o melhor que posso fazer tendo em conta os factos como os vejo.

 https://rebelion.org/la-ue-esta-acabada-y-china-ahora-puede-desconectar-a-la-economia-estadounidense/


  Glenn DIESEN

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Fonte: «L’UE est finie et la Chine peut désormais déconnecter l’économie américaine» (Yanis Varoufakis) – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice