terça-feira, 4 de agosto de 2026

A farsa eleitoral de 2027 entusiasma os «bobos» da França

 


A farsa eleitoral de 2027 entusiasma os «bobos» da França

4 de Agosto de 2026 Robert Bibeau



Por Normand Bibeau.

Um leitor, o senhor DENIS MEUNIER, escreveu este comentário a propósito das eleições na França capitalista:

«Existe um homem guiado pela defesa da soberania, dos interesses e da grandeza da França, que quer livrar o país dos incompetentes, dos corruptos, dos aproveitadores e dos vassalos, que sabe que é preciso cortar os laços com a UE, a OTAN e o euro. A França tem de voltar ao trabalho (40 horas semanais, quatro semanas de férias, reforma aos 65 anos). Por outro lado, basta de reduções nas contribuições sociais e de subsídios ao emprego. Regimes de reforma uniformizados, incluindo para os políticos. Supressão das isenções fiscais (olá, jornalistas).»

Ele continua o seu sonho acordado:

«O Estado deve dedicar-se às suas funções soberanas (justiça, polícia, defesa), financiar os factores endógenos de crescimento (educação, formação, infraestruturas, energia disponível e a preços acessíveis, investigação e desenvolvimento, habitação, saúde), garantir a segurança das relações jurídicas (direito de propriedade, contratos e obrigações), distribuir os impostos e as contribuições sociais de acordo com a capacidade contributiva individual, inspirar confiança nos agentes económicos através de uma gestão equilibrada dos indicadores fundamentais (crescimento, inflação, desemprego, taxas de juro, comércio externo, endividamento, moeda) e a manutenção de um rumo a longo prazo conhecido e aceite pelos cidadãos, apoiar os mais desfavorecidos, sustentar a demografia do país, participar no desenvolvimento de relações internacionais multipolares, não invasivas e que respeitem a vida humana, nomeadamente.

Paralelamente, convém restringir ao máximo os 3D (desregulamentação, desintermediação, descompartimentação), libertar o direito das restricções normativas que paralisam a acção, aliviar a complexidade jurídica e administrativa, restabelecer as liberdades públicas (pensamento e expressão), punir severamente todos os actos passados de alta traição ao país, distribuir aos jornalistas e ao público o capital dos órgãos de imprensa e outros meios de comunicação social…

Por fim, uma última série de votos… bem-intencionados:

«A política não deve ser uma profissão nem um cargo fácil:

1. Os votos em branco e nulos devem ser considerados no cálculo do resultado eleitoral;

2. O voto deve ser obrigatório, sob pena de multa de 5.ª classe;

3. Uma eleição só pode ser validada se a participação atingir, pelo menos, 75%;

4. Não é permitido o cúmulo de mandatos e cada tipo de mandato está limitado a dois por pessoa;

5. Qualquer mandato político não pode exceder quatro anos;

6. Supressão do Senado;

7. Liberalização da ordem do dia da Assembleia Nacional.

A lista não está completa, mas já é um bom começo.»

«Conclusão: dez anos de dificuldades, mas o futuro da França será depois restabelecido.

Quem se junta à marcha?»




COMENTÁRIOS DE NORMAND BIBEAU

TODAS essas boas intenções, sem números concretos, são repetidas solenemente, com a mão no coração e a boca em forma de bico de galinha, por TODOS os políticos-papagaios burgueses desde sempre, e o mundo vai cada vez pior para o «povo», pois mal são eleitos, TODOS assumem como um dever «cívico» traí-las descaradamente, alegando que: «a situação é pior do que pensavam, enganados pelos seus «antecessores», pelo que não podem cumprir as suas PROMESSAS» e, com a aprovação fraudulenta dos meios de comunicação social mainstream dos bilionários, deitam-nas pela janela para as substituir por uma ditadura de austeridade para os pobres e de generosidade para os ricos, em nome da «filtração»: «a riqueza no topo escorre para a base» e viva a transferência dos orçamentos sociais para os do armamento: «Salvemos a pátria ameaçada por “inimigos” declarados e imaginários e que a galera siga em frente».

Desde que o «rei» de saltos altos com tachas, Micron I, assumiu o poder, com a aprovação da maioria dos deputados renegados do RN + Renaissance + LR + socialistas «caviar» e dos meios de comunicação social mainstream dos bilionários, CONTRA os da LFI e dos «comunistas», os orçamentos militares praticamente duplicaram (+99%), passando de 32,2 mil milhões de euros em 2017 para 64 mil milhões de euros em 2027, o que representa cerca de 2% do PIB em vez de cerca de 1,8%.  (fonte: euractiv.com, 8/04/2026; .fr, 13/07/2026; assemblée-nationale.fr, 19/05/2026).

Durante o mesmo período de ditadura do «cacique», Micron I, os orçamentos «sociais» (educação, saúde, protecção social e combate à pobreza) aumentaram cerca de 20%, mal conseguindo cobrir a inflação e reduzindo a sua percentagem do PIB no que diz respeito à protecção social (-0,8%); aumentaram de forma ridícula na saúde (+0,6%) e mantiveram-se estáveis na educação ( = 5%), muito aquém dos orçamentos da defesa e sempre com os mesmos votos dos deputados e a bênção dos meios de comunicação social mainstream dos bilionários: A FAVOR do empobrecimento dos orçamentos «sociais» = RN + LR + Renaissance + socialistas de luxo; CONTRA = LFI + «comunistas».  (ref.: insee.fr, 5/02/2026; budget.gouv.fr, 01/2025-2926).

Até onde os bilionários que dirigem o mundo capitalista conseguirão enganar a «populaça» ao «desviar a atenção» através da proliferação de candidatos falsos, todos «iguais como duas gotas de água» e uma propaganda goebeliana delirante, com o objectivo de transformar a «carne para os patrões» em «carne para os canhões», para que se enriqueçam em guerras sem fim? Eis que esta é a VERDADEIRA questão eleitoral.

Registo, de passagem, que falta um aspecto verdadeiramente decisivo a esta lista de «boas intenções» que faria com que fosse menos «boas intenções» (Normand propõe-nos aqui um sonho dentro de um sonho, nota do editor): « OBRIGAÇÃO DE PRESTAR CONTAS aos seus eleitores durante todo o mandato e POSSIBILIDADE DE REVOGAÇÃO A QUALQUER MOMENTO DE QUALQUER ELEITO:  («142. Todo o deputado é obrigado a prestar contas da sua actividade aos seus eleitores… PODE SER REVOGADO A QUALQUER MOMENTO, de acordo com o procedimento estabelecido pela lei, por decisão da maioria dos eleitores.» (Constituição de 1936 da URSS)).


ACABARAM-SE as ditaduras de 5 anos dos deputados e de 5 anos dos presidentes renegados: vocês renegam as vossas «promessas eleitorais»: PRESTEM CONTAS E VOLTEM ÀS URNAS SE A MAIORIA DOS VOSSOS ELEITORES ASSIM O EXIGIR, isso não passa do mínimo de DEMOCRACIA ELEITORAL; qualquer outra lei não é senão uma ditadura «temporária» disfarçada de democracia eleitoral falsa.

Tal como ensina a sabedoria popular: « JULGA-SE A ÁRVORE PELOS SEUS FRUTOS E NÃO PELA SUA FOLHAGEM» e desejamos, humildemente, aos nossos queridos «primos» franceses que saibam eleger aqueles cujos FRUTOS provam que servem o povo, em vez de se basearem na sua FOLHAGEM pérfida e traidora… (mais um desejo piedoso, NDÉ)..

 

Fonte: La mascarade électorale édition 2027 passionne les Bobos de l’Hexagone – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




O Paquistão perante o desafio do Mundo pós-ocidental ½

 


O Paquistão perante o desafio do Mundo pós-ocidental ½

 

René Naba / 9 DE dEZEMBRO DE 2019 / EM ActualitésDécryptage

Última atualização a 6 de Janeiro de 2020

Paquistão: Primeira República Islâmica da história do Mundo

Primeira República islâmica da história, o Paquistão, um país totalmente dedicado ao Islão, durante muito tempo foi uma espécie de “guarda-costas” da dinastia wahhabita, o guardião dos lugares sagrados do Islão, o incubador absoluto do terrorismo islâmico.

Mas, perante o desafio representado pelo “Mundo pós-ocidental”, materializado pelo crescimento da Ásia como o principal continente devido à sua importância económica e demográfica, o “país dos puros” tende a abandonar a sua função horrível de base de rectaguarda do jihadismo mundial para um papel mais valorizante de parceiro estratégico da China, através do projecto OBOR, a primeira potência mundial em ascensão.

Feito sem precedentes na história, revelador da mudança geo-estratégica que está a ocorrer à escala mundial, o reorientamento diplomático do Paquistão ocorre enquanto três países asiáticos entram no grupo das cinco principais potências económicas do Mundo (China, Japão, Índia); um continente que ainda reúne quatro das grandes potências nucleares (China, Índia, Paquistão, Coreia do Norte), enquanto um quinto, o Irão, alcançou o estatuto de «potência nuclear emergente» e dois países muçulmanos da Ásia, a Malásia e o Paquistão, parecem ter começado a afastar-se gradualmente da influência saudita-americana com a dupla vitória de Mahatyr Mohamad (Malásia) e de Imran Khan Niazi (Paquistão) sobre os protegidos da dinastia wahhabita na região, Najib Razak na Malásia e Nawaz Sharif no Paquistão.

Regresso ao Paquistão, um dos países-chave da estratégia saudita-americana no auge da Guerra Fria soviético-americana, nomeadamente na guerra anti-soviética do Afeganistão (1980-1989), enquanto as relações internacionais se encaminham para um mundo pós-ocidental.

Allahabad (A Cidade de Deus), Islamabad (A Cidade do Islão) e Faisalabad.

O Paquistão é um país inteiramente dedicado ao Islão, a religião fundadora da sua independência, a par da Arábia Saudita, um reino que se destacou na cena internacional pela presença no seu território dos dois grandes locais sagrados do Islão — Meca e Medina —, é certo, mas também e sobretudo pelo petróleo, o motor da economia mundial contemporânea.

Tão impregnado de islamismo que os futuros dirigentes do Paquistão escolheram a cidade dedicada a Deus — embora situada na Índia —, Allahabad (a cidade de Deus), para proporcionar uma tribuna a Mohamad Iqbal para o seu discurso fundador de um Estado muçulmano separado da União Indiana. A sua capital é dedicada ao Islão, Islamabad (a cidade do Islão), que sucederá a Rawalpindi, na antiga divisão administrativa britânica; por fim, uma terceira cidade é dedicada a Faisal, o rei da Arábia Saudita, artífice da subordinação do Islão sunita ao domínio wahhabita e grande financiador do Paquistão militarizado e nuclearizado, Faisalabad, anteriormente Lyallpur.

As raízes confraternas do extremismo: uma transposição do modelo soviético para o Islão.

A tendência para o totalitarismo no seio dos movimentos ligados ao Islão político remonta, aliás, em primeiro lugar, a um paquistanês, Abu Al Ala’ Al Maududi, o primeiro islamista do século XX a defender o regresso à Jihad. Este teólogo fundamentalista alimentava um objectivo oculto, aliás inspirado nos ingleses, que se resumia ao seguinte lema: dividir para reinar. Considerava, de facto, que o Paquistão merecia todos os sacrifícios, mesmo que isso implicasse a secessão da Índia, apesar das importantes deslocações populacionais que essa decisão acarretaria.

Fundador do partido paquistanês Jamaat-e-Islami, ele concebeu a criação de um Estado Islâmico Unido, baseado na aplicação rigorosa da lei religiosa (Sharia). Na sua visão, tal Estado deveria ser hegemónico e totalitário em todos os aspectos da vida.

A governança de Alá (Al Hakimiya) no Paquistão cabia a Deus, devendo o governo ser fiel à Sharia.

Inspirando-se no modelo estalinista em vigor na União Soviética, Maududi substituiu a ideologia marxista pela ideologia islâmica, criando, pela primeira vez, um «partido de Deus» (Hezbollah) equivalente ao partido comunista, bem como o Califado como substituto do Secretário-Geral do PC. As raízes confraternas do extremismo têm, assim, a sua origem na transposição do modelo soviético para o Islão.

Os Irmãos Muçulmanos seguiram-lhe os passos, adoptando a concepção totalitária do estalinismo para a aplicar à religião muçulmana.

Termo geral, nunca utilizado pelo Profeta nem pelos seus primeiros sucessores, o conceito da Sharia surgirá no início do século II da Hégira. Não pode ser comparado ao Talmude dos judeus, nem à Constituição da época contemporânea. Continua a ser objecto de debate.

A conquista da independência pelo Paquistão foi vivida pelos paquistaneses e por muitos muçulmanos em todo o mundo como o fim de um longo período de subjugação, tanto em relação ao Reino Unido como à Índia. Uma vitória sobre o colonialismo britânico, o seu opressor há vários séculos, o artífice da Promessa de Balfour, que implicou a divisão da Palestina. Uma vitória sobre a Índia e o fim do jugo indiano e do hinduísmo sobre a minoria muçulmana da União Indiana.

Resultado da desintegração do Império colonial britânico na Índia e da sua divisão em dois Estados, em 1947, o Paquistão considerava-se, na altura, o país muçulmano mais importante da época, antes de ser suplantado pela Indonésia após a independência das antigas Índias Holandesas. Alavanca e motor da sua ascensão à soberania internacional, o Islão ocupa um lugar central tanto na vida política como na espiritual e social do país. Constituirá o vector de influência da sua diplomacia, o argumento para a promoção da sua imagem junto do Terceiro Mundo colonizado, maioritariamente muçulmano, um Terceiro Mundo colonizado pelos ocidentais, principalmente pelos ingleses e, em menor medida, pelos franceses.

Embora a pertença ao Islão não deixe margem para dúvidas, o nome do país, Paquistão, suscita controvérsia. «País dos puros» em urdu (Pak, puro, e Stan, país), o termo poderia também provir do acrónimo composto a partir dos nomes das províncias: Punjab, Afeganistão, Caxemira, Indo-Sind e Baluchistão.

Atribuída a Sayed Ahmad Khan (1817-1898), político muçulmano, antigo magistrado e fundador de universidades, a ideia de um Estado separado foi formalizada pelo poeta e filósofo Allama Mohamad Iqbal (1877-1938) durante um discurso na sessão anual da Liga Muçulmana, em 1930, realizada em Allahabad (a cidade de Alá).

Proposta aprovada dez anos mais tarde em Lahore, a 23 de Março de 1940, pela Liga Muçulmana, então presidida por Mohamad Ali Jinnah, que viria a ser o primeiro líder do Paquistão independente.

 

Apesar da oposição dos líderes indianos, Gandhi e Nehru, os britânicos decidiram-se a favor da partição da União Indiana, mas, paradoxalmente, os dois adversários continuariam a ser membros da Commonwealth.

 

A partição da Índia provocou enormes deslocações populacionais. Mais de seis milhões de muçulmanos indianos refugiaram-se no novo Estado, enquanto um número aproximadamente igual de hindus e sikhs abandonou o Punjab rumo à Índia, num contexto de violência e massacres que causaram mais de 500 000 vítimas. A questão comunitária não será, aliás, resolvida por estes êxodos, uma vez que um terço dos muçulmanos continua a viver na Índia.

As falhas do Paquistão: um Estado bipolar marcado por uma dupla descontinuidade territorial e demográfica

 

A – Descontinuidade territorial

O Paquistão, um Estado bipolar, sofria de uma descontinuidade territorial que seria sanada por uma guerra que conduziu à independência da sua província oriental, que se tornou o Bangladesh, na sequência da secessão proclamada por Sheikh Mujibbur Rahman, líder da Liga Awami.

 

O país estava, de facto, dividido em duas regiões distintas, distantes 1 700 km uma da outra: o Paquistão Oriental, que se separaria para se tornar o Bangladesh, e o Paquistão Ocidental, composto pelo Sind, pelo Punjab Ocidental, pelo Baluchistão e pelas províncias fronteiriças do Norte.

B – Descontinuidade demográfica: A questão da Caxemira.

Com uma população maioritariamente muçulmana, representando cerca de 78 % dos seus habitantes, a Caxemira, sob a égide do seu líder nominal — o governante hindu de Jammu e Caxemira, o marajá Hari Singh, da dinastia Dogra —, reivindicou a anexação da província à Índia, desencadeando uma espiral de violência com a incursão de tribos pashtuns vindas do Paquistão e apoiadas por uma parte da população local.

Esta decisão marcou o início de uma sucessão de actos de violência que culminaria no primeiro conflito indo-paquistanês, menos de um ano após a independência de ambos os países.

Um cessar-fogo negociado sob a égide da ONU, a 1 de Janeiro de 1949, estabeleceu uma linha de demarcação temporária, denominada «linha de controlo» ou LOC (Line of Control): dois terços da Caxemira formam o Estado Federado indiano de Jammu e Caxemira, com capital em Srinagar; o Paquistão administra o último terço, que passa a chamar-se Azad Caxemira («Caxemira Livre»), com capital em Muzaffarbad, e os Territórios do Norte (capital: Gilgit).

A entrada em cena do exército.

Num contexto de exacerbação nacionalista, instabilidade política e dificuldades económicas, a morte prematura de Mohamad Ali Jinnah, em 1948, seguida do assassinato do primeiro-ministro Liaqat Ali Khan, a 16 de Outubro de 1951, pelas mãos de um fanático afegão, favoreceu a entrada do exército na cena política.

Perante a impossibilidade de acalmar a agitação no Paquistão Oriental, que se sentia abandonado, o presidente Mirza confiou o poder ao general Ayoub Khan, que revogou a Constituição e decretou a lei marcial a 7 de Outubro de 1958.

Ayoub Khan instaura a ditadura militar, lançando um importante pacote de reformas: reforma agrária (9 000 km² redistribuídos a 150 000 agricultores), plano de desenvolvimento económico, restricções à poligamia e ao divórcio.

Em 1962, foi aprovada uma nova Constituição que instituiu, nomeadamente, duas línguas oficiais: o bengali e o urdu. Islamabad tornou-se a capital nacional e Daca, no Paquistão Oriental, a capital legislativa.

No final de um período de guerra aberta em 1965 na Caxemira, o presidente Ayoub Khan e o primeiro-ministro indiano Lal Bahadur Shastri chegaram a um acordo em 1966 na «Declaração de Tashkent», sob os auspícios da União Soviética. O documento suspende provisoriamente o conflito na Caxemira. Zulficar Ali Bhutto demite-se do cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros e opõe-se a Ayoub Khan e à renúncia à Caxemira. Funda o «Pakistan People Party» (Partido Popular do Paquistão), para defender o seu programa socialista.

O presidente Ayoub Khan demitir-se-á em Março de 1969, na sequência de terríveis motins internos, e transmitirá o poder a outro militar, o general Yahya Khan, que decretará novamente a lei marcial.

A Caxemira, um ponto nevrálgico, um esporão para a diplomacia paquistanesa.

Ponto nevrálgico, a Caxemira esgotará os recursos do Paquistão, ao mesmo tempo que servirá de trampolim para a tomada do poder pelo exército.

O primeiro quarto de século da independência do país será palco de três guerras com a vizinha Índia: Primeira Guerra Indo-Paquistanesa (1947-1948); Segunda Guerra Indo-Paquistanesa (1965); Terceira Guerra Indo-Paquistanesa (1971), sem contar, posteriormente, com o conflito de Kargil (1999) e o conflito armado no Noroeste do Paquistão (2004)

A Caxemira, ferida aberta do Paquistão e sua obsessão, servirá, tal como o Islão, de estímulo à política externa do Paquistão. Esta província controversa funcionará como ponto de convergência com a Arábia Saudita, em contrapeso à aliança entre a Índia e o Egipto nasserista, no seio do Movimento dos Países Não Alinhados.

Devido ao seu posicionamento, a Índia e o Egipto eram, de facto, vistos como os dois inimigos comuns da Arábia Saudita e do Paquistão, na medida em que o indiano é hindu, não muçulmano, e o egípcio é árabe, muçulmano, republicano e nacionalista — quatro defeitos irremediáveis para os defensores de um Islão rigorista. Além disso, beneficiavam de uma aura de prestígio considerável, amplificada pelo carisma de Gamal Abdel Nasser, o artífice da primeira nacionalização bem-sucedida do Terceiro Mundo — a nacionalização do Canal do Suez — e líder da luta nacionalista árabe, a que se somava o respeito internacional conquistado pela Índia, em particular pela dupla Gandhi e Nehru, iniciadores da não-violência na sua luta vitoriosa contra o imperialismo britânico.

O Terceiro Mundo deve a sua liberdade e dignidade a três factos político-militares de grande importância que alteraram profundamente a configuração geo-estratégica do planeta:

·         Dien Bien Phu (Vietname, 1954), a primeira vitória militar de um povo de pele escura sobre uma potência nuclear, a França, membro permanente do Conselho de Segurança,

·         A nacionalização do Canal do Suez por Nasser, em 1956, a primeira nacionalização bem-sucedida de um consórcio ocidental por um país do Terceiro Mundo,

·         A tomada de Havana pelos Bardudos, em 1957, o primeiro avanço militar dos guerrilheiros latino-americanos no quintal dos Estados Unidos.

Vitórias que favoreceram o surgimento do movimento dos Não-Alinhados, abrindo caminho para a independência do Terceiro Mundo e selando com sangue, em Dien Bien Phu (Vietname-Ásia), Suez (Egipto-Mundo Árabe) e Havana (Cuba-América Latina), o nascimento da Tricontinental.

Primeira brecha em seis séculos de hegemonia ocidental absoluta sobre o resto do planeta, a Conferência de Bandung serviu de base ao Movimento dos Países Não Alinhados, promotor do neutralismo político na cena internacional, bem como ao seu modo de funcionamento, a TRICONTINENTAL. Marcou a entrada dos povos colonizados dos três continentes (África, Ásia, América Latina) na cena mundial como actores principais da História e não mais como meros coadjuvantes

Krishna Mennon, o impetuoso ministro da Defesa indiano, ficará na história por ter brandido a ameaça da dissolução da Commonwealth como retaliação à agressão tripartida franco-anglo-israelita contra Nasser, em 1956, selando nessa luta uma aliança histórica dos «Condenados da Terra», enquanto o seu rival paquistanês se apoiava na Arábia Saudita, o melhor aliado árabe dos Estados Unidos e protector de Israel.

O Paquistão, por sua vez, compromete-se plenamente com um sistema de alianças com os países sunitas conservadores pró-americanos (Turquia, Arábia Saudita, o Irão imperial), seja no âmbito do RCD (Regional Cooperation Development), o substituto do extinto Pacto de Bagdade, seja no CENTO (Central Treaty Organisation), que reúne a Turquia, o Paquistão e o Irão, actuando como elo intermédio entre a OTAN (Oceano Atlântico) e a OTASE (OTAN asiática), ou no âmbito da Organização para a Cooperação Islâmica (OCI), o principal fórum islâmico da época contemporânea reagrupando 55 países.

Índia versus Paquistão: Democracia versus Ditadura

Ao longo dos seus 70 anos de existência, a Índia justificou o seu título de «maior democracia do mundo», garantindo o acesso de civis e muçulmanos ao poder judicial supremo, apesar da violência política marcada pelo assassinato da primeira-ministra Indira Gandhi, filha de Pandit Nehru, e do seu filho Rajiv, em 2001, enquanto o Paquistão se debatia sob o jugo militar por quatro vezes durante a primeira metade do século da sua independência.

Ayoub Khan (1960), Yahya Khan (1967), Zia Ul Haq (1978) e Pervez Musharraf (2001-2009): a sucessão de governantes militares foi acompanhada pela decapitação da liderança xiita, principalmente do clã Bhutto, a par de uma islamização forçada da sociedade paquistanesa.

Zia Ul Haq contra Zulficar Ali Bhutto.

A eliminação do clã Bhutto ocorreu em duas fases: o pai, Zulficar, sob o regime de Zia Ul Haq, em 1979, na véspera da guerra anti-soviética no Afeganistão e da transformação do Paquistão numa base de rectaguarda dos talibãs;

A filha Benazir, catorze anos mais tarde, assassinada sob o regime de Pervez Musharraf, em 2007, em pleno caos resultante da dupla invasão norte-americana do Afeganistão e do Iraque, na sequência do ataque da Al-Qaeda contra os símbolos da superpotência norte-americana, a 11 de Setembro de 2001.

Grande proprietário de terras, xiita com um nacionalismo sensível, dotado de uma cultura ocidental e animado por um toque de socialismo, cuja base política assenta na grande burguesia do Sind, nomeadamente na grande cidade portuária de Karachi, Zulficar Ali Bhutto entrará em conflito com a hierarquia militar, em 1972, através de um vasto programa de nacionalizações que abrange, nomeadamente, os bancos e as indústrias de base, implementando uma ambiciosa reforma agrária. Os militares são afastados dos cargos de decisão política, mas, como sinal de apaziguamento, o orçamento da Defesa é aumentado para 6% do PIB.

A reforma de Bhutto foi recebida com uma onda de protestos por parte do lobby ultra-conservador: os empresários e os líderes religiosos, apoiados por uma coligação de nove partidos da oposição.

A ditadura militar de Zia (1977-1988).

Um tríptico decisivo — islamização, jihadismo e nuclearização do Paquistão — marcou os onze anos da ditadura de Zia Ul Haq, culminando com a execução por enforcamento de Zulficar Ali Bhutto, líder carismático do xiismo paquistanês, e com a implosão em pleno voo do ditador paquistanês, como ponto final de toda a história.

Perante o impasse institucional resultante da política voluntarista de Zulficar Ali Bhutto, o general Zia Ul Haq decidiu impor a lei marcial no país a 5 de Julho de 1977. Zulficar foi obrigado a abandonar o poder. Foi o início de uma longa descida ao inferno, que culminaria no seu enforcamento. Detido e julgado, será condenado à morte pelo alegado homicídio do pai de um dos dissidentes do Partido Popular do Paquistão.

A sua execução por enforcamento, a 4 de Abril de 1979, abre caminho ao regresso dos militares ao poder pela terceira vez na história do Paquistão, e, em pleno boom petrolífero na sequência da 3.ª Guerra Árabe-Israelita de Outubro de 1973, favorece o início de um processo de islamização do sistema político sob a égide do general Zia Ul Haq, com o seu corolário: o envolvimento na jihad afegã.

 

René Naba

Jornalista e escritor, antigo responsável pela região árabe-muçulmana no serviço diplomático da AFP, posteriormente conselheiro do direCtor-geral da RMC Médio Oriente, responsável pela informação, membro do grupo consultivo do Instituto Escandinavo dos Direitos Humanos e da Associação de Amizade Euro-Árabe. De 1969 a 1979, foi correspondente rotativo no escritório regional da Agência France-Presse (AFP) em Beirute, onde cobriu, nomeadamente, a guerra civil jordano-palestiniana, o «Setembro Negro» de 1970, a nacionalização das instalações petrolíferas do Iraque e da Líbia (1972), cerca de uma dezena de golpes de Estado e sequestros de aviões, bem como a Guerra do Líbano (1975-1990), a 3.ª Guerra Árabe-Israelita de Outubro de 1973 e as primeiras negociações de paz entre o Egipto e Israel na Mena House, no Cairo (1979). De 1979 a 1989, foi responsável pela região árabe-muçulmana no serviço diplomático da AFP [ref. necessária], tendo-se tornado posteriormente conselheiro do director-geral da RMC Médio Oriente, encarregado da informação, de 1989 a 1995. Autor de «A Arábia Saudita, um reino das trevas» (Golias), «Do “Bougnoule” ao “selvagem”, viagem pelo imaginário francês» (Harmattan), «Hariri, de pai para filho, homens de negócios, primeiros-ministros» (Harmattan), «As revoluções árabes e a maldição de Camp David» (Bachari), «Mídia e democracia: a captura do imaginário, um desafio do século XXI» (Golias). Desde 2013, é membro do grupo consultivo do Instituto Escandinavo dos Direitos Humanos (SIHR), cuja sede se situa em Genebra. É ainda vice-presidente do Centro Internacional contra o Terrorismo (ICALT), em Genebra; presidente da associação de caridade LINA, que opera nos bairros do norte de Marselha, e presidente de honra da «Car tu y es libre» (Quartier libre), que trabalha para a promoção social e política das zonas periurbanas do departamento de Bouches-du-Rhône, no sul de França. Desde 2014, é consultor do Instituto Internacional para a Paz, a Justiça e os Direitos Humanos (IIPJDH), com sede em Genebra. Desde 1 de Setembro de 2014, é responsável pela coordenação editorial do site https://www.madaniya.info  e apresentador de uma rubrica semanal na Radio Galère (Marselha), às quintas-feiras, das 16h às 18h.

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Fonte: Le Pakistan face au défi du Monde post occidental 1/2 - Madaniya

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Armamento: E tudo o Vento Levou ½

 


Armamento: E tudo o Vento Levou ½

4 de Agosto de 2026 Robert Bibeau



Por René Naba. Em Armemento : E tudo o vento levou 1/2 – En point de mire

Este artigo é dedicado às três personalidades seguintes:

Mohamad Bouazizi, falecido a 4 de Janeiro de 2011, devido aos ferimentos sofridos. A sua imolação na praça pública de Sidi Bouzid, na Tunísia, como forma de protesto contra o arbítrio tunisino, serviu de faísca para a revolta popular que provocou a queda da ditadura do General Zine El Abidine Ben Ali.

Ahmad Jaafar Kassem, autor do espectacular atentado contra o quartel-general do comando israelita em Tiro, a 11 de Novembro de 1982, no âmbito de uma operação da resistência libanesa contra a ocupação israelita do sul do Líbano.

Mountazar Al Zaïdy, jornalista iraquiano, o Spartacus dos tempos modernos, o que lançou o seu sapato contra George Bush Jr.

O Golfo, uma gigantesca base flutuante americana, uma bomba financeira para os défices dos EUA.

O colapso do dispositivo ocidental na margem árabe do Mediterrâneo com as revoltas populares na Tunísia e no Egipto, num contexto de contestação generalizada aos aliados da estratégia americana na esfera árabe-muçulmana, ao fim de uma furiosa década de "luta contra o terrorismo", assim como as revelações do site americano Wikileaks sobre a postura belicosa das petro-monarquias face ao Irão, ilustram a lógica de vassalagem dos "emirados miragem" perante a América, especialmente no campo da defesa, na medida em que incentivam os americanos a fazer guerra ao seu vizinho iraniano para neutralizar o seu potencial nuclear, em vez de dotar o mundo árabe de uma capacidade de auto-suficiência estratégica.

O contrato da ordem dos 123 mil milhões de dólares, assinado no Outono de 2010 entre a América e quatro países do Golfo, com o objectivo de reforçar a sua capacidade defensiva «perante o Irão», é um testemunho eloquente desta política de desperdício financeiro por motivos de armamento. 

Perante o Irão, a constelação das petro-monarquias do Golfo transformou-se assim numa verdadeira base flutuante americana, ao ponto de se colocar a questão da viabilidade estratégica e da pertinência política do maior contrato de armamento da história, alguma vez concluído, em tempo de paz, entre os Estados Unidos e quatro países membros da região. Um contrato singular em todos os aspectos, de cerca de 123 mil milhões de dólares, que ultrapassa as capacidades de absorção dos beneficiários, bem como as capacidades de assimilação deste armamento pelos seus operadores locais.

Se exceptuarmos a sua fraca demonstração militar no Iémen, no Verão de 2010, a Arábia Saudita nunca travou uma guerra directa contra qualquer um dos seus potenciais adversários, muito menos contra Israel, o inimigo oficial do mundo árabe, do qual é o principal opositor no plano teórico, limitando-se a financiar guerras indirectas de desestabilização, nunca contra Israel, sempre contra países árabes ou muçulmanos; Contra o Egipto nasserista no Iémen, na década de 1960, por intermédio de monarquistas, contra a Síria baasista, na década de 1970, por intermédio da Irmandade Muçulmana, ou ainda contra a Revolução Islâmica do Irão, na década de 1980, através do Iraque baasista de Saddam Hussein, ou finalmente contra a União Soviética, no Afeganistão, na década de 1980, através da sua legião islâmica sob a liderança do seu homem de confiança Osama bin Laden.

A transação, concluída por ocasião do feriado nacional da Arábia Saudita, a 23 de Setembro de 2010, envolve a modernização da frota aérea e da marinha saudita. Sessenta mil milhões de dólares serão destinados à venda à Arábia Saudita de 87 caças bombardeiros "F-15", 70 helicópteros de combate "Apache" e 72 helicópteros "Black Hawk", 36 helicópteros Little Bird AH-6, bem como bombas, mísseis, incluindo a bomba guiada por GPS, JDAM, produzida pela Boeing, e o míssil guiado por laser Hellfire. Trinta mil milhões de dólares adicionais serão destinados ao fornecimento de navios de guerra e de um sistema de defesa balística, complementar à rede de mísseis do tipo Patriot e ao recondicionamento das aeronaves antigas da força aérea e da marinha.

O contrato é complementado por uma série de acordos semelhantes com três outras petro-monarquias do Golfo (Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Sultanato de Omã), elevando o montante total da transação para 123 mil milhões de dólares. 

As petro-monarquias árabes, um dos principais fornecedores do sistema energético mundial, servem ao mesmo tempo como uma gigantesca base militar flutuante do exército americano, que se abastece ali à vontade, a preços imbatíveis. Todos, em diferentes graus, pagam o seu tributo, concedendo sem escrúpulos facilidades ao seu protector. 

A zona está, de facto, coberta por uma rede de bases aeronavais anglo-saxónicas e francesas, a mais densa do mundo, cujo simples desdobramento poderia dissuadir qualquer potencial atacante, tornando esse contrato supérfluo. Abriga em Doha (Catar), o posto de comando operacional do CentCom (o comando central americano), cuja competência se estende ao eixo de crise do Islão que vai do Afeganistão ao Marrocos; Em Manama (Bahrein), o quartel-general de base da 5.ª frota americana cuja área de operação cobre o Golfo Árabe-Pérsico e o Oceano Índico.

Como complemento, a Arábia Saudita alberga, ela própria, uma esquadrilha de AWACS (Airborne Warning and Control System), um sistema de detecção e comando aero-transportado, na região de Riade. O Kuwait, muito dedicado ao seu libertador, serve como zona de pré-posicionamento e de reabastecimento para a gigantesca infraestrutura militar americana no Iraque, o novo campo de experimentação da guerra moderna americana no Terceiro Mundo. A isso soma-se, último mas não menos importante elemento do dispositivo, Israel, o parceiro estratégico dos Estados Unidos na zona, assim como a base de apoio de Diego Garcia (Oceano Índico), a base aérea britânica de Masirah (Sultanato de Omã) e, desde Janeiro de 2008, a plataforma naval francesa em Abu Dhabi.

Além disso, foram construídas barreiras electrónicas nas fronteiras da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos para desencorajar qualquer invasão ou infiltração. A barreira electrónica saudita foi construída com o auxílio dos franceses, a de Abu Dhabi, com o auxílio da empresa israelita AGT (Asia Global Technologies), cujo contrato de três mil milhões de dólares abrange tanto a protecção das fronteiras como a protecção de quinze instalações petrolíferas do emirado, bem como o fornecimento de drones, os aviões de reconhecimento não tripulados, de fabrico israelita.

Pouco povoadas, rodeadas por vizinhos poderosos como o Irão e o Iraque, de criação recente e sem experiência na matéria, as petro-monarquias confiaram durante muito tempo a sua protecção a países amigos experientes ou, na falta deles, a empresas militares privadas, os mercenários dos tempos modernos, e os fabulosos contratos de armamento que excediam as capacidades de absorção dos locais eram geralmente vistos como apólices de seguro disfarçadas, devido às miríficas comissões que geravam.

A protecção do espaço aéreo saudita esteve durante muito tempo confiada aos aviadores paquistaneses, o território nacional do Sultanato de Omã aos beduínos da legião árabe jordaniana, ficando os mercenários ocidentais com o resto, com uma divisão de papéis entre os ingleses, principalmente presentes na sua antiga zona de influência, nomeadamente os emirados petrolíferos do Golfo, e os americanos a terem a autoridade sobre a Arábia Saudita e o resto do Médio Oriente.

A protecção do Xeque Zayed Ben Sultan Al-Nahyane, Emir de Abu Dhabi e presidente da Federação dos Emirados do Golfo, bem como a supervisão das tropas omanitas na repressão da guerrilha marxista em Dhofar, nos anos 1965-1970, esteve sob a responsabilidade da «Watchguard», uma das duas empresas de mercenários britânicas sediadas em Guernsey. Fundada em 1967 por David Sterling, um ex-comando das forças especiais aéreas britânicas (Special Air Services), é considerada um instrumento de influência da diplomacia britânica. Para além da Blackwater, que ganhou má fama no Iraque, os Estados Unidos contam com duas grandes empresas militares privadas: a Vinnell Corp, sediada em Fairfax, na Virgínia, e a BDM International. Ambas são subsidiárias da multinacional Carlyle e parecem ser os braços armados preferenciais da política americana na Arábia e no Golfo. A missão da Vinnell Corp na Arábia Saudita foi alvo de um atentado em Khobbar em 1995, com controlo total sobre a formação da Guarda Nacional Saudita, enquanto a BDM gere a formação do pessoal da força aérea, da marinha e das forças terrestres sauditas.

O Irão, um pretexto para absorver o excesso de petrodólares árabes

Israel, um pretexto para manter a dependência tecnológica árabe

Este contrato, que deverá ser submetido ao Congresso para ratificação, demonstra as «relações especiais» entre os Estados Unidos e o Reino da Arábia Saudita desde a assinatura do Pacto de Quincy em 1945. Uma relação especial, certamente, mas de vassalagem, na medida em que visa «reforçar as capacidades combativas do Reino face ao Irão» sem colocar riscos sobre Israel.

Os aviões sauditas serão, de facto, privados de armas de longo alcance para assegurar o espaço aéreo israelita e o seu desempenho, tanto no que diz respeito ao seu equipamento como à sua manobrabilidade. Serão, em qualquer caso, de menor capacidade do que o novo aparelho que os Estados Unidos planeiam vender a Israel, 20 caças-bombardeiros americanos F-35 Lightning II (JS F-35), o super bombardier de superioridade tecnológica, cujo custo unitário atinge a quantia considerável de 113 milhões de dólares cada. Israel dispõe assim de um quase-direito de supervisão sobre o equipamento militar dos aliados árabes dos Estados Unidos.

Assim, através de um subterfúgio que os cientistas políticos americanos chamam de «Politics of Fears», a política do medo, que consiste em apresentar o Irão como um bicho-papão, a Arábia Saudita vê-se obrigada a adoptar, não uma defesa em todas as frentes, mas uma postura defensiva anti-iraniana, ou seja, a reforçar o reino «contra o Irão», potência nuclear incipiente, e não contra Israel, potência nuclear de pleno direito, além de potência ocupante de Jerusalém, o 3.º local mais sagrado do Islão. 

Enquanto o mundo árabe apresenta um atraso evidente tanto na investigação científica como no desenvolvimento de novas tecnologias, e o desemprego atinge proporções raramente vistas noutros lugares do mundo, quatro petro-monarquias vão desbloquear a colossal quantia de 123 mil milhões de dólares para reduzir o desemprego… nos Estados Unidos, mantendo uma base de emprego de 75.000 postos ao longo de cinco anos, e justificar, sob a aparência de um falso equilíbrio , uma transacção qualitativamente superior entre os Estados Unidos e Israel.

Índice de uma dependência complementar em relação aos Estados Unidos, Abu Dhabi já se comprometeu a não usar tecnologia americana para desenvolver armas nucleares, renunciando a enriquecer urânio e a reciclar resíduos. Uma decisão que obriga os principados petrolíferos a importar o combustível necessário para o funcionamento dos reactores das suas centrais nucleares de produção de electricidade.

Noutras palavras, as exigências americanas acabam por preservar o monopólio da produção nuclear em benefício dos países ocidentais, da China e da Rússia, mantendo os países emergentes em estado de dependência.

Sob o pretexto da segurança de Israel, os Estados Unidos zelam particularmente por impedir que os países árabes acedam à capacidade nuclear. O Egipto teve assim de esperar trinta anos pelo visto americano para se lançar na energia nuclear civil, uma autorização concedida quando o Irão se tornou uma potência de limiar nuclear, registando um atraso científico considerável face a outros grandes actores regionais. Pior ainda, sinal do seu afastamento do conflito e da precariedade do poder de Hosni Mubarak, as forças de segurança e brigadas anti-motins ultrapassam em número as forças armadas, 1,4 milhões contra um milhão, segundo as informações fornecidas por Mohamad Hassaneine Heykal, antigo confidente de Gamal Abdel Nasser, no canal ‘Al Jazira’, a 17 de Dezembro de 2010.

Os Estados Unidos procuram também impor à Jordânia um acordo que permitiria ao Reino extrair o urânio que existe no seu solo, ao mesmo tempo que lhe proibiria de o transformar em combustível. Esta exigência limita igualmente qualquer possibilidade da Jordânia se tornar um centro regional de enriquecimento de urânio.

A Jordânia, normalmente submissa aos diktats americanos, parece estar prestes a ignorar isso. Já começou a desenvolver as infraestruturas necessárias para responder às suas ambições nucleares e planeou a construção da sua primeira central em 2019. A AREVA (França) assinou em 2010 um acordo de exploração conjunta para a extracção de urânio no centro da Jordânia, no âmbito de uma concessão concedida por 25 anos.

Embora anterior à emergência do Irão como potência nuclear virtual, a forte concentração militar ocidental no golfo árabe-pérsico é, no entanto, apresentada pelos meios de comunicação ocidentais como destinada a proteger os príncipes do petróleo contra as ambições do regime islâmico de Teerão. 

No entanto, é de notar que a única intervenção militar iraniana contra as petro-monarquias ocorreu na época em que o Irão estava dentro da órbita ocidental, na década de 1970, sem que a protecção americana tivesse sido de grande ajuda para os protegidos árabes, que nesse dia viram ser-lhes retirados três ilhéus pertencentes ao Emirado de Abu Dhabi: (o Grande e o Pequeno Thomb e a ilha de Abu Musa). É verdade que o Xá do Irão, Mohammad Reza Pahlevi, actuava na época como polícia do Golfo em nome dos americanos e que os príncipes árabes não podiam fazer outra coisa senão obedecer, por ordem americana, ao super polícia regional que lhes tinha sido atribuído.

Sob o pretexto da guerra contra o terrorismo ou da democratização do Médio Oriente, dois dos objectivos declarados da diplomacia americana, a presença militar dos EUA visa manter esta zona energética de importância estratégica sob controlo ocidental, enquanto a guerra pelo controlo das matérias-primas se intensifica tanto na Ásia como em África, ao mesmo tempo que a China realiza uma notável investida no flanco sul da Europa.

Oásis de prosperidade segura da economia ocidental face à «zona de escassez» da vertente mediterrânica rebelde do Mundo árabe, esta constelação de micro-estados oscila entre gigantismo económico e nanismo político, diante do triplo perigo resultante da sua excessiva dependência da mão de obra estrangeira, da sua grande dependência militar face aos Estados Unidos da América e das incessantes traquinices monárquicas, ao ponto de acentuar o descrédito e fragilizar as seis petro-monarquias do golfo devido ao seu completo desfasamento da luta levada a cabo pelos movimentos contestatários árabes contra a hegemonia ocidental, tanto no Líbano (Hezbollah), como no Iraque (Moqtada Sadr) e na Palestina (Hamas).

O enfraquecimento militar e económico dos Estados Unidos, a nova vitalidade da Rússia após a guerra da Geórgia, em Agosto de 2008, e o activismo chinês em África fazem os estrategas ocidentais temer a consolidação do grupo de Xangai (China, Rússia, Irão), com o efeito de alterar as relações de poder regionais, especialmente no Médio Oriente, em detrimento das petro-monarquias aliadas do campo ocidental.

A transacção militar árabe-americana de 123 mil milhões de dólares representa 1/5 do fluxo global concedido pelo Federal Reserve americano para relançar a economia americana em 2010-2011. O Irão serve assim de bicho-papão para escoar o excesso de petrodólares das reservas das petro-monarquias.

As petro-monarquias, habituadas a isto, já tinham acudido à economia americana no momento do crash bancário de 2008-2009, registando pelo caminho, sem queixas nem lamentações, uma perda líquida de 150 mil milhões de dólares ao longo do terceiro trimestre de 2008, devido aos seus investimentos nos mercados ocidentais.

As despesas com armamento árabe… Um desperdício assustador

Os grandes investimentos, especialmente na área militar, parecem ser estimulados por vezes, não tanto pelas necessidades de segurança, mas pela perspectiva apelativa de comissões e retro-comissões. No índice mundial da corrupção, a Arábia Saudita encontra-se fora de classificação. Parece que as super-faturações funcionam como uma espécie de «seguro multi-riscos» contra eventuais tentativas de desestabilização, uma recompensa disfarçada para um protector zeloso, uma espécie de mercenarismo oficioso.

Na esteira da primeira guerra contra o Iraque, a Arábia consagrou assim, em 1992 e 1993, vinte e nove mil milhões de dólares para a sua defesa contra 26,5 mil milhões para a educação nacional, uma quantia que, tendo em conta a sua baixa densidade populacional (12,3 milhões de nacionais) e a reduzida dimensão das suas forças armadas (200.000 entre exército regular e guarda nacional), equivale a uma despesa média de 75 milhões de dólares por ano para cada militar e, a nível do país, um milhão de dólares por ano por habitante, uma proporção sem paralelo em qualquer outra parte do mundo.

Para o preço do concurso norte-americano, a Arábia Saudita desembolsou a bonita quantia de cinquenta mil milhões de dólares como contribuição para o esforço de guerra, dos quais dezassete mil milhões de dólares como «bónus de desembarque» em solo saudita, em prelúdio aos ataques contra o Iraque. Ou seja, a monarquia saudita terá desbloqueado cinquenta mil milhões de dólares para a América para a autorizar a reforçar o seu domínio sobre o Reino e a disfarçar a corrupção reinante.

O General Khaled Ben Sultan, (57 anos), filho do próprio ministro da defesa, auto-proclamado de forma abusiva comandante-chefe da coligação internacional anti-iraquiana, quando na realidade não passava da interface saudita do verdadeiro comandante americano, o general Norman Schwarzkopf, conseguiu, nessas circunstâncias dramáticas para o seu país, a proeza de cobrar quase três mil milhões de dólares em comissões sobre as transações de equipamento e abastecimento das tropas da coligação, estimadas na altura em 500.000 soldados de 26 nacionalidades.

Uma tal sangria, exorbitante, e de certa forma indecente face aos desafios da época e à contribuição exigida por terceiros para a defesa do território nacional, teria em qualquer outro lugar resultado numa comparência imediata perante o tribunal militar. Não deu origem a qualquer chamada de atenção familiar, apenas a um discreto afastamento provisório do indiscreto, que para o milionário exilado em Londres se traduziu na compra do jornal «Al-Hayat». Um tratamento idêntico foi dado ao seu irmão, o príncipe Bandar Ben Sultan, embaixador da Arábia Saudita nos Estados Unidos, implicado no escândalo das retro-comissões da encomenda de aviões de combate britânicos Tornado, mais tarde promovido a presidente do Conselho Nacional de Segurança do Reino. Uma espécie de prémio pela prevaricação, por assim dizer.

Ahmad Jaafar Kassem e Montazar al Zayédi, um contraponto ao comportamento vil

Em contraste com este comportamento vil, actos de coragem darão os seus títulos de glória ao combate árabe. Tal como o caso de Mohamad Bouazizi, morto a 4 de Janeiro de 2011 na sequência da sua imolação na praça pública de Sidi Bouzid, na Tunísia, como forma de protesto contra o arbítrio tunisino, a faísca para o levantamento popular tunisino que provocou a queda da ditadura do General Zine El Abidine Ben Ali, após 23 anos de arbítrio, nepotismo e corrupção. Mohamad Bouazizi aplicou, na sua própria carne, ao preço da sua vida, a última estrofe do hino nacional tunisino, «Namoutou Wa Yahya Al Watan», «Morrermos para que viva a nação».

Ou o caso de Ahmad Jaafar Kassem, que se envolverá numa missão sacrificial, movido apenas pelo sentido de honra e amor à sua pátria, realizando uma espectacular dinamitação do quartel-general do comando militar israelita em Tiro, no sul do Líbano, causando a morte de 45 soldados israelitas e quase 200 feridos. Este número é infinitamente superior às perdas acumuladas totais infligidas aos israelitas tanto pelos 50.000 árabes afegãos da Legião Islâmica do Afeganistão como pela Arábia Saudita, cujos gastos em armas nos últimos cinquenta anos ascenderam a quase 300 mil milhões de dólares sem terem disparado um único tiro contra Israel.

Nascido a 1 de Setembro de 1963 em Deir Kanoun, no sul do Líbano, na zona fronteiriça com Israel, e falecido a 11 de Novembro de 1982 durante o ataque à sede israelita de Tiro, Ahmad Jaafar Kassir, membro da resistência islâmica do Líbano, tornou-se conhecido como o iniciador das primeiras operações de comando suicida contra as forças de ocupação israelitas no sul do Líbano, que acabarão por conduzir, em 2000, à retirada israelita do país, o primeiro recuo de Israel de um país árabe sem acordo de paz ou reconhecimento do Estado Hebraico.

Ou então o caso de Mountazar Al Zaïdy, o homem de mãos nuas, que simbolicamente quebrou as correntes que aprisionavam os seus compatriotas, atirando o seu sapato, na sua área da zona verde de Bagdade, enclave americano transformado em campo fortificado, ao homem mais poderoso do planeta, o 43º Presidente dos Estados Unidos, o neo-conservador George Bush Jr. O jornalista iraquiano, o lançador de sapatos mais famoso da história da humanidade, apareceu assim para amplos sectores do hemisfério sul, não apenas no Mundo árabe e muçulmano, mas também na América do Sul, África, Ásia-Pacífico, nos subúrbios da Europa e América do Norte, como uma personagem lendária, o Spartacus dos tempos modernos, fazendo do «bashing bush» o jogo mais popular da blogosfera, ou seja, no mundo da informação real. «Em nome das viúvas e órfãos do Iraque, recebe então este beijo de despedida, filho da mãe», desferiu ele ao invasor do seu país.

Mohamad Bouazizi, Ahmad Jaafar Kassem e Montazar Al Zaïdy retomaram para si a metáfora do fraco contra o forte, apropriando-se do mito do pequeno David enfrentando o gigante Golias, impondo respeito à opinião internacional, sem qualquer recompensa, nem prebenda, nem comissões, nem subornos, o dia a dia das transacções militares petro-monárquicas.

Para ir mais longe

O Pacto de Quincy : https://www.renenaba.com/?p=2807

Sobre comissões, retrocomissões e a comunidade de conluio

http://hybel.blogspot.com/2010/12/le-980.html

 

Fonte: Armement : Autant en emporte le vent 1/2 – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice