domingo, 16 de agosto de 2026

NÃO À GUERRA IMPERIALISTA, SIM À GUERRA REVOLUCIONÁRIA!

 


NÃO À GUERRA IMPERIALISTA, SIM À GUERRA REVOLUCIONÁRIA!

16 de Agosto de 2026 Robert Bibeau



Por Normand Bibeau e Robert Bibeau.

 

"NÃO À GUERRA IMPERIALISTA, SIM À REVOLUÇÃO PROLETÁRIA!"

O exército imperial czarista russo tinha 7,5 milhões de homens no momento da Revolução de Fevereiro de 1917 (re:soviethistory.msu.edu,1917-1991).

A desagregação do exército czarista acelerou-se ao longo de 1917, quando 195.130 soldados foram interceptados ao desertar da frente para regressar a casa até 1 de Março de 1917. Em 1 de Agosto, foram 365.137 soldados que se somaram aos 442.605 soldados detidos nas linhas ferroviárias desde o início da guerra (re:encyclopedia.1914-1918-online.net,22/04/2021).

As estimativas históricas mais credíveis apontam para cerca de 2 milhões de soldados russos que desertaram da frente no Outono de 1917 para regressar a casa (re: spartafus-educational.com).

Esta desagregação física do exército czarista vinha acompanhada de uma desagregação “disciplinar” igualmente grande, enquanto os soldados:

– recusavam obedecer às ordens e voltar para a frente de batalha;

– elegiam comités de soldados “comunistas”;

– contestavam a autoridade dos oficiais ao ponto de os julgar e executar;

– confraternizavam com os soldados “inimigos”;

– regressavam em massa às suas aldeias, onde organizavam a sua resistência armada;

– percebiam que esta guerra imperialista não era a sua guerra, mas sim dos “ricos”.

 A deserção tornou-se um movimento político colectivo liderado por revolucionários e deixou de ser um acto individual de desobediência reprimido brutalmente pela guarda pretoriana czarista, o equivalente às waffens-SS nazis, os kapos internos, escondidos longe da frente para aterrorizar, recrutar à força ou assassinar os desertores, os objectores de consciência, os revolucionários comunistas que combatiam esta guerra bárbara e desumana conduzida pela burguesia compradora e pela feudalidade russas para perpetuar a sua ditadura de classe, enriquecendo com a «carne e o sangue» do povo russo. Os soldados de Petrogrado, tal como os marinheiros do couraçado Potemkin em 1905, recusaram disparar contra os manifestantes durante a Revolução de Fevereiro, o que precipitou a queda do regime czarista. (re: marx-memorial-library.org.uk; internationalschoolhistory.com, Lesson 3, The February Revolution 1917).

O camarada LENINE, que dirigia politicamente este movimento insurreccional revolucionário, regressou à Rússia e, com os seus camaradas do Partido Comunista (bolchevique) da Rússia, assumiu a liderança organizacional do movimento insurreccional e transformou-o numa revolução socialista graças ao MARXISMO, desencadeando a gloriosa REVOLUÇÃO DE OUTUBRO que derrubou o abominável regime czarista dos feudais, dos capitalistas compradores e dos seus arautos reacccionários, os padres ortodoxos russos desta filosofia religiosa obscurantista medieval concebida para «drogar» as massas laboriosas e as submeter em benefício do czar, dos seus barões, dos padres e dos capitalistas.

Este fenómeno insurreccional de recusa à mobilização, ausência sem licença (AWOL) após a incorporação e deserções propriamente ditas está actualmente a ocorrer na Ucrânia e na Rússia, como o nosso camarada Bad descreve acertadamente. (rehttps://les7duquebec.net/archives/306254

Assim, o Ministério Público Geral UKRONAZI BANDERISTA KIEVIANO tinha registado, em Novembro de 2025, cerca de 255.000 processos por ausência sem autorização e 56.200 por deserção desde a invasão de 2022. Mais da metade dos processos por AWOL tinham sido abertos nos 10 primeiros meses de 2025, o que mostra uma aceleração muito significativa do fenómeno (re: lemonde.fr, 30/03/2026; osw.waw.pl, 25/03/2026)

O fenómeno dos "homens a fugir da mobilização antes de serem incorporados no próprio coração da população" atingiu proporções catastróficas e foi acompanhado por uma resistência organizada que se tornou cada vez mais insurrecional, como ilustrado pelo camarada Bad. Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: DESERÇÕES E RECURSO AOS LEGIONÁRIOS.

Perante esta resistência insurreiccional organizada, o Estado fascista UKRONAZI utiliza métodos de «recrutamento musculado» («busificação») aos quais a população resiste, provocando insurreições populares. A população está escandalizada por ver que os «kapos do regime, recrutadores musculados e ferozes, kapos waffens SS», escapam à frente de combate, forçando outros homens a irem ser massacrados aí.(re: rferl.org, 23/04/2026)

Para os «desertores e ausências sem permissão («AWOL»)», a situação é diferente, pois a maioria fugiu da Ucrânia para o estrangeiro ou os outros, estando armados e experientes em combate, os «kapos recrutadores, WAFFEN SS UKRONAZIS» preferem ignorá-los por medo de serem mortos eles próprios.

O Estado Banderista de Kiev Ukronazi, aterrorizado perante a resistência insurreccional dos seus "AWOL" e desertores, decidiu oferecer-lhes a reintegração no exército sem autorização; melhor ainda, ofereceu-se para os reintegrar na "Guarda Nacional", a própria unidade dos "kapos da WAFFEN SS UKRONAZIS", mobilizada para se alistar à força e enviar "para a morte certa", os ucranianos ainda mobilizáveis. (re:en.interfax.com.AU, 14/07/2026 e 15/06/2036; www.gov.uk, 10/01/2025).

A desagregação do exército UKRONAZI BANDERISTA KIEVIANO atingiu um nível tal de deliquescência sob o efeito combinado da guerra de atrito dos NEO-CZARISTAS RUSSOS e das insurreicções populares de deserções, de «AWOL» e de recusa em ser mobilizado que eles têm de recorrer em massa ao «mercenarismo», à assistência de soldados estrangeiros «disfarçados» e à expulsão de milhões de ucranianos escondidos no estrangeiro para fugir da sua guerra de enriquecimento mafiosa, bárbara e desumana.

O «mercenarismo» custa muito caro e esses soldados a soldo, com lealdade remunerada, são imprevisíveis e complexos por causa das diferenças de línguas, culturas, motivação e conhecimentos militares díspares e muitas vezes incompatíveis.

Por exemplo, os mercenários latino-americanos destacados no exército UKRONAZI foram treinados para combater «guerrilhas sul-americanas» sem aviação, sem artilharia pesada, sem mísseis balísticos hipersónicos, sem cavalaria blindada e, sobretudo, para massacrar civis indefesos, nada a ver com o exército neo-czarista russo profissional, bem equipado e habituado a uma guerra de atrito com bombardeamentos de mísseis, FAB 3000, drones Guerian e FPV, lenta, medida, sistemática e sem piedade, um verdadeiro inferno para estes mercenários a soldo.

Quanto às tropas da NATO, disfarçadas e dissimuladas como «turistas», também não estão habituadas a receber mísseis hipersónicos, FAB-3000 e multitudes de drones sobre a cabeça, tendo de se enterrar debaixo da terra e lá ficar em permanência, habituadas a massacrar «combatentes de sandálias, armados com um Kalashnikov nas montanhas ou num deserto árido do Médio Oriente, África ou Ásia».

 

Por todas estas razões, entre muitas outras, é claro que a hemorragia fatal deste exército UKRONAZI/OTANESCO moribundo é irreversível, apesar das manobras desesperadas dos seus «patrocinadores ocidentais» para o ressuscitar, tentando obrigar os «ucranianos de Mónaco» a voltar às bandeiras, e é apenas uma questão de dinheiro antes de ser declarado fora de combate e recuar além do Dniepre, no Estado coxo cortado do mar que subsistirá após o fracasso retumbante desse LEBENSRAUM EURONAZI 2.0, antes que a Polónia, a Hungria e a Roménia o devorem para se repartir, ou que o heróico povo ucraniano liderado pelos seus desertores, pelos seus «AWOL» e pelos seus insurgentes conduza uma revolução proletária vitoriosa e derrube a burguesia compradora e os seus senhores estrangeiros que o levaram à morte e à ruína.

O fenómeno de insurreições populares através da deserção, do «AWOL» e da recusa em ser mobilizado também está presente na RÚSSIA NEO-CZARISTA, mas numa medida menor do que na UCRÂNIA UKRONAZI BANDERISTA DE KIEV.

Assim, enquanto a Rússia não «declarou» guerra à Ucrânia mas sim uma «Operação Militar Especial» («OME»), uma «patente de invasão de guerra» rebuscada, digna do renegado Putin e da sua claque de oligarcas capitalistas, a Rússia nunca procedeu a «uma mobilização nacional total», mas a um recrutamento «voluntário contratual» com «altas recompensas e pressões exercidas sobre segmentos vulneráveis da população, os desempregados, os endividados, os estudantes, as minorias nacionais até mesmo criminosos comuns e detidos», em suma, os pobres e deserdados na mais pura tradição das guerras imperialistas de todos os tempos. (re:ft.com,10/08/2026;« Imperialismo, o Estágio Supremo do Capitalismo", Lenine).

O relator especial da ONU estima que mais de 50.000 soldados russos desertaram desde 2022 e que milhares de processos criminais ligados a deserções, a ‘AWOL’ e à recusa de se apresentar foram intentados, cerca de 10% das forças russas envolvidas na Ucrânia. (re:euaa.europa.eu).

A Mediazona escreve que 28.000 russos foram condenados por ‘ausência sem permissão’ em Maio de 2025 e que o fenómeno está a crescer face aos horrores da frente. Aliás, a Mediazona reporta que um grande número de soldados russos procura ser condenado para não voltar à frente, onde a morte ou ferimentos os aguardam. (re:meduza.io, 10/07/2026; 19/05/2026).

O LEBAUSRAUM EURONAZI 2.0, liderado pela burguesia ocidental contra o seu "posto de gasolina" russo, com o objectivo de a "roubar, pilhar, espoliar e explorar" a um custo menor, começou com o massacre de falantes de russo ucraniano durante uma guerra de 8 anos e os seus 15.000 mortos, 30.000 feridos e um milhão de expatriados pelos seus "mercenários UKRONAZIS" e os seus ajudantes,  Zizilensky, o actor de novelas, "pianista de piano com cauda", mentiroso eleitoral patológico, faz de "Churchill".

Esta guerra de limpeza étnica foi seguida pela guerra económica das "100.000" sanções destinadas a fazer o seu povo "sofrer" (segundo Bruno Lemaire) e por uma guerra de "drones" travada profundamente em solo russo para incitar a oligarquia russa a "derrubar o governo" através de um "golpe de Estado palaciano", como em 1991.

Este programa LEBENSRAUM EURONAZI 2.0 está a chegar à sua conclusão como um "golpe de Estado eleitoral" à la Maidan e "a Primavera Árabe", daí a intensificação dos ataques com drones contra o regime do czar Putin e a sua claque de oligarcas.

No entanto, "estatisticamente", mesmo segundo sondagens patenteadas, este "golpe de Estado eleitoral" tem muito poucas hipóteses de sucesso, apesar de o heróico povo russo perceber que esta "guerra" durante a qual o governo Putin fornece hidrocarbonetos às próprias pessoas que os massacram, NÃO É DELES e a raiva ronca dentro dela: "a razão tropeça na sua cratera".

 

Aqueles que têm experiência em combate e se recusam a matar os seus camaradas ucranianos, a obedecer a ordens e a julgar e executar os seus oficiais, multiplicam-se em grande número; o Estado fascista NEO-CZARISTA ORTODOXO RUSSO do czar Putin é ameaçado internamente, tal como o Estado czarista de Nicolau I, e não poderá recorrer a armas atómicas para ameaçar e se salvar sem cometer suicídio.

O tempo está a esgotar-se para pôr fim a esta guerra de estabelecer o estado permanente de guerra necessário para a terceira guerra imperialista de re-divisão mundial, por isso o czar Putin ordena ao seu exército que intensifique massivamente os ataques contra Odessa, as suas instalações portuárias e todos os portos do Mar Negro por onde chegam armas ocidentais destinadas ao exército ucraniano.

Assim, o Le Monde de 6 de Agosto, a Reuters de 9 de agosto e uma análise de 11 de agosto de 2026 concluíram por unanimidade que a Rússia "fechou" o transporte ucraniano no Mar Negro e destruiu instalações portuárias e infraestruturas energéticas que servem esta navegação. Um golpe duro, talvez fatal (re: lemonde.fr,08/06/2026; reuters.com,08/09/2026; responsablestatecraft.org,08/12/2026; sputnik-abkazia.ru, 08/12/2926 e outras 26 fontes).

Perante esta intensificação massiva dos ataques russos, os "patrocinadores ocidentais" ameaçam intervir eles próprios, ao que Lavrov respondeu hoje numa entrevista "eleitoral" na televisão estatal russa:

O tempo urge para acabar com esta guerra de instauração do estado de guerra permanente necessário à 3.ª Guerra Mundial imperialista de redistribuição do mundo, razão pela qual o czar Putin ordenou ao seu exército intensificar maciçamente os ataques contra Odessa, as suas instalações portuárias e todos os portos do Mar Negro por onde chegam as armas ocidentais destinadas ao exército UKRONAZI.

Assim, o Le Monde de 6 de Agosto, a Reuters de 9 de Agosto e uma análise de 11 de Agosto de 2026 concluíram unanimemente que a Rússia «fechou» a navegação UKRONAZI no Mar Negro e destruiu as instalações dos portos e as infraestruturas energéticas que servem essa navegação. Um golpe duro, talvez fatal (re: lemonde.fr, 6/08/2026; reuters.com, 9/08/2026; responsiblestatecraft.org, 12/08/2026; sputnik-abkazia.ru, 12/08/2026 e 26 outras fontes).

Perante esta intensificação maciça dos ataques russos, os «patrocinadores ocidentais» ameaçam intervir eles próprios, ao que Lavrov respondeu hoje numa entrevista «eleitoral» na TV estatal russa:

«Vamos tornar os nossos próprios métodos muito mais difíceis para destruir tudo o que alimenta a máquina de guerra de Kiev vindo do Ocidente. (Re: reuters.com, 14/08/2926; apnews.com, 14/08/2026).

A declaração de Lavrov segue a de 22 de Julho de 2026, quando disse num tom ameaçador: "Se a Europa começasse um conflito com a Rússia, então seria 'uma guerra não convencional'", leia-se: "nuclear" (re: kommersant.ru, 22/07/2026)

Obviamente, como o renegado putinista que é, Lavrov não ameaçou «cortar» o fornecimento de hidrocarbonetos russos aos «inimigos» capitalistas que fabricam as armas que matam os soldados russos, lucro é lucro, e os oligarcas russos de maneira alguma querem abdicar dos lucros que obtêm com esse comércio abjecto, imundo, renegado e criminoso. Ele prefere ameaçar atomizar a humanidade em vez de renunciar aos lucros.

Sob a ditadura mortal e genocida do capitalismo, a vida dos proletários não vale nada, o lucro capitalista é tudo, como demonstra a venda de hidrocarbonetos russos àqueles que matam os proletários russos e outros. 

Num registo mais amplo, incluindo as pérfidas agressões YANKEE$ U$/ SIONAZI$ ISRAELI$/Golfo/Turquia/Paquistanesa/NATO contra os povos mártires palestinianos, libaneses, sírios, iemenitas, sudaneses e iranianos; o rapto traiçoeiro do Presidente venezuelano Maduro; as intermináveis guerras capitalistas nos quatro cantos do planeta e a crise económica mundial, o Coronel YANKEE McGregor, antigo conselheiro militar do Secretário de Estado YANKEE sob a Tr0mp 1.0 e combatente nas Guerras do Golfo, autor de livros especializados sobre guerras modernas, não hesitou em declarar publicamente que "o U$A está à beira de uma guerra civil bolchevique" e que o mundo capitalista está à beira do colapso se os governos capitalistas não se unirem e deixarem de estar sob a bota do "estado profundo", "o pântano de Washington." Leia: Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: O estranho acordo de defesa entre a Arábia Saudita, o Paquistão e a Turquia e Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: A guerra até ao último ucraniano, ao último iraniano, ao último americano... O pior ainda está para vir! (Doug Macgregor).

Nós, revolucionários proletários, combatemos sem descanso, para que os ditadores capitalistas que levaram o mundo ao limite de uma guerra mundial pela terceira vez nos últimos 150 anos, incluindo a actual, do apocalipse nuclear, sejam derrubados, afastados do poder e trazidos de volta entre o povo, se se submeterem, ou eliminados, transformando as INSURREIÇÕES POPULARES EM REVOLUÇÃO PROLETÁRIA TRIUNFANTE PARA ESTABELECER O PODER PROLETÁRIO E ABOLIR A EXPLORAÇÃO DO HOMEM PELO HOMEM.

PROLETÁRIOS DE TODO O MUNDO, UNÍ-VOS
E SALVEM A HUMANIDADE DA DESTRUIÇÃO CAPITALISTA

LEIA: DA INSURREIÇÃO POPULAR À REVOLUÇÃO PROLETÁRIA"
de Robert Bibeau e Khider Mesloub, 220 páginas, Paris, 2026
https://www.editions-harmattan.fr/catalogue/livre/de-l-insurrection-populaire-a-la-revolution-proletarienne/77706

 

Versão em Língua Portuguesa:

Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: DA INSURREIÇÃO POPULAR À REVOLUÇÃO PROLETÁRIA

 

 

Fonte: NON A LA GUERRE IMPÉRIALISTE, OUI À LA GUERRE RÉVOLUTIONNAIRE ! – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




A inflação e o desemprego vão causar estragos (Marc Touati)

 


A inflação e o desemprego vão causar estragos (Marc Touati)

16 de Agosto de 2026 Robert Bibeau

 


 

Fonte: Inflation et chômage vont faire des ravages (Marc Touati) – les 7 du quebec

Título introdutório ao vídeo traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Os 60% de harragas argelinos e a fábula de Ceuta: A distracção de Paris e do Makhzen a favor de Telavive

 


Os 60% de harragas argelinos e a fábula de Ceuta: A distracção de Paris e do Makhzen a favor de Telavive

16 de Agosto de 2026 Robert Bibeau 

Nota: Em Mostaganem, na Argélia, os refugiados são conhecidos como Harragas e tentam travessias ilegais. Pagam a traficantes para se juntam aos migrantes africanos e árabes e transportá-los para Espanha em águas perigosas (NdT).

Por Hanane Ben

Vagas de migração em Ceuta: vingança de Israel? Segundo o El Mundo e um relatório confidencial chinês, o Mossad lançou uma operação híbrida instrumentalizando a imigração de Marrocos, cujo objectivo é sancionar directamente Espanha pelo seu apoio à causa palestiniana.

É um segredo aberto que ninguém tenta esconder mais. Por trás desta enésima vaga de migração marroquina, a mão de Israel tornou-se evidente. Perante os factos, como podemos imaginar outro cenário?

O envolvimento da entidade sionista por trás desta enésima vaga migratória marroquina é um segredo aberto. Para compreender isto, basta olhar para a história: o eixo Rabat-Telavive não esperou pela existência dos Acordos de Abraão. Já em 1965, durante a cimeira árabe em Casablanca, Hassan II registou secretamente chefes de Estado árabes para benefício dos serviços israelitas, levando à sua derrota.

Hoje, esta aliança oculta está no auge: fábricas militares israelitas prosperam em solo marroquino enquanto o sionista André Azoulay, conselheiro sombra e verdadeiro mestre dos relógios em Rabat, dita a sua política sob lealdade a Telavive.

Claro, o Marrocos sempre usou a migração como uma arma de chantagem face à União Europeia. Vimos isso em Maio de 2021, quando Rabat deliberadamente abriu as portas em Ceuta para punir Espanha por ter tratado o líder da Frente Polisário, ou ainda através da gestão intermitente dos fluxos para as ilhas Canárias.

Mas desta vez, o que está em jogo vai além de uma simples disputa bilateral: trata-se de uma expedição punitiva orquestrada pelo eixo Washington-Telavive. O objectivo? Lavar a afronta feita por Madrid. Espanha está a pagar o preço pela sua insubordinação: a recusa categórica em participar numa guerra contra o Irão, a proibição de navios de guerra com destino ao Golfo atracarem nos seus portos ou utilizarem as suas bases militares, e acima de tudo, o apoio inabalável do seu governo e do seu povo à causa de Gaza. O Marrocos é aqui apenas a ala armada de uma vingança sionista americana.

Para proteger o Mossad e mascarar a vingança do eixo americano-israelita contra Espanha, a comunicação social francesa a soldo entrou em cena, operada directamente pela entidade sionista genocida.

São os próprios arquitectos desta invasão em Ceuta que estão a transmitir esta percentagem falsa. Ao propagar massivamente o número de 60% dos harragas argelinos, estão a activar uma distracção mediática feita à medida. O objectivo é claro: desviar a atenção de Ceuta, branquear o envolvimento da entidade sionista e focar a atenção em Argel para ocultar a submissão total do regime marroquino às ordens de Telavive.

Até a Frontex, a Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeiras que deveria monitorizar o espaço Schengen e combater a imigração ilegal, acabou por ceder a esta propaganda anti-argelina ao repetir cegamente o mesmo número falso. Não há necessidade de se deter na hipocrisia grosseira de uma União Europeia que se recusa a repreender Marrocos e prefere criticar Espanha, mesmo sendo um dos seus próprios membros. É preciso dizer que o lobby marroquino dentro da UE tem um poder formidável, solidamente apoiado pelos pesos-pesados americanos e israelitas.

Por isso, esta propaganda francesa sobre uma alegada percentagem de argelinos entre os migrantes em Ceuta não é surpreendente. Ela emana dos media totalmente subserviente à entidade sionista e de uma extrema-direita que fez da crítica à Argélia o seu principal elemento comercial e a sua arma favorita de distracção.

Ao contrário desta manipulação, os media espanhóis (como El País ou El Mundo) e os do Norte da Europa (como as emissoras públicas alemãs ARD ou os diários escandinavos) mantêm-se estritamente nos factos: falam apenas sobre migrantes marroquinos. Além disso, transmitiram massivamente testemunhos condenatórios, com vídeos a apoiá-los, atestando a cumplicidade directa e a permissividade calculada do Makhzen (o Makhzen -ou Majzen- é um termo tradicional em Marrocos que se refere ao núcleo de poder do Estado e às instituições ligadas à monarquia, incluindo a realeza, a administração central, os conselheiros do rei, os serviços de segurança e as elites económicas influentes – NdT) nesta tragédia humana.

No fim das contas, os media franceses e a Frontex estão a fazer alarde inútil. As suas manipulações não convencem ninguém, visto que as imagens e vídeos que circulam falam por si. A realidade no terreno é impossível de esconder: os 72 000 migrantes são de facto marroquinos, e a cumplicidade do Makhzen, bem como a natureza desta operação, saltam à vista de todo o mundo.

Há outro detalhe crucial a destacar: essa fábula dos 60% de argelinos é uma cortina de fumo grosseira. O objectivo real desta invenção mediática é desviar o olhar da realidade geopolítica marroquina.

Ao focalizarem a atenção em Argel, tentam esconder o facto de já não se tratar apenas de uma normalização diplomática, mas de uma hegemonia total da entidade sionista sobre o reino, agora completamente à sua disposição.

Esta dominação já se traduz no terreno por um drama humanitário silencioso: milhares de famílias marroquinas são expulsas das suas terras em favor de colonos vindos de Israel, que regressam em massa para reivindicar o Marrocos como a sua alegada “primeira terra”. É a própria soberania de todo um Estado que é assim confiscada em benefício de Telavive.

As agências mediáticas francesas, marroquinas e israelitas podem agitar-se e despejar as suas torrentes de desinformação: a Argélia soberana mantém-se inabalável. Perfeitamente consciente dos alvos que são pintados nas suas costas, avança, vigilante e firme, no caminho do progresso. Não importam as conspirações externas ou as traições dos traidores internos, todas as tentativas de desestabilização se quebram na sua resiliência. A Argélia não se dobra. Continua de pé.

Fonte: Algeria54

(Enviado por A. Djerrad)

 

Fonte: Les 60 % de harragas algériens et la fable de Ceuta: La diversion de Paris et du Makhzen pour le compte de Tel-Aviv – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




sábado, 15 de agosto de 2026

As tensões transformam-se em chamas e espalham-se por todo o Médio Oriente (Alastair Crooke)

 


As tensões transformam-se em chamas e espalham-se por todo o Médio Oriente (Alastair Crooke)

15 de Agosto de 2026 Robert Bibeau



Por Alastair Crooke – 29 de Julho de 2026 – Source Conflicts Forum

O silêncio em torno do resultado da reunião de ontem com Netanyahu no Salão Oval fala por si. Nenhum reponsável do governo dos EUA veio ao aeroporto recebê-lo, e não foi estendido tapete vermelho. A visita foi acelerada. Israel está à deriva – com a sua estratégia de "Grande Israel" agora a ser afectada devido à falta de tropas e consistência.

O antigo Provedor de Justiça das IDF, Major-General Yitzak Brik, prevê (Ma'ariv, 26 de Julho) que a crise que envolve as intervenções israelitas "é apenas um prelúdio para a catástrofe que paira sobre nós":

"Em futuras guerras contra o Irão, a ameaça aumentará dez vezes, ao ponto de perder completamente a capacidade de interceptar mísseis balísticos iranianos. Estes mísseis provavelmente atingir-nos-ão: em centros urbanos, alvos estratégicos, infraestruturas de produção e económicas, institutos científicos e tecnológicos, instituições de ensino, hospitais e indústrias vitais, e esmagar-nos-ão completamente."


Trump – afinal, ao que parece – percebeu que a guerra que iniciou para esmagar o Irão se virou contra ele e o está a destruir. Na verdade, ele não tem nenhuma solução militar disponível, a não ser parar de cavar o buraco em que se está a afundar cada vez mais.

Entretanto, o Irão já não lhe permite continuar a sua manipulação regular de desencadear guerra cinética (supostamente para pressionar o Irão) e depois (nas segundas-feiras seguintes) falar sobre "negócios iminentes" para manipular os mercados do petróleo e os preços das acções. Na segunda-feira passada, uma queda curta no mercado fez com que o preço do crude Brent caísse 7,7%.

O Irão, além disso, tem a intenção de controlar o ritmo do conflito, que (de qualquer forma) está prestes a intensificar-se devido aos esforços dos Estados Unidos para aumentar a pressão sobre o país de modo que os Estados Unidos possam ostensivamente obrigar o Irão a aceitar uma «paz» ditada.

Mas, em vez de pressionar o Irão, a estratégia de Trump está a inflamar a região e corre o risco de se transformar numa escalada descontrolada.

Os últimos desenvolvimentos – incluindo o Iémen a declarar «um cerco por um cerco» contra os portos aéreos e marítimos sauditas, e os ataques a duas grandes refinarias da Aramco que destruíram o oleoduto saudita para o Mar Vermelho – levaram a Arábia Saudita a um conflito tanto com o Iémen, como também em conflito (em conjunto com o CENTCOM) com as milícias da Unidade de Mobilização Popular (UMP) iraquiana, que os sauditas culpam pela destruição da refinaria (mesmo que o Hash’d al-Shaabi o negue veementemente). Estes dois episódios mostram, no entanto, o quanto a «guerra de Trump» está a desestabilizar uma região já frágil.

Ontem, a Arábia Saudita, com os Estados Unidos, realizou ataques aéreos importantes em pelo menos seis cidades iraquianas, matando pelo menos 20 pessoas e ferindo dezenas de membros da UMP.

Porque é que a Arábia Saudita atacaria Hash'd e não o Iémen? Bem, provavelmente porque o AnsarAllah retaliaria com mísseis, destruindo o que resta da infraestrutura petrolífera da Arábia Saudita.

Ao tomar conhecimento dos ataques dos EUA às posições de Hash'd, e no espírito de "um ataque a um membro do Eixo ser um ataque a todos", O Irão seguiu em frente lançando mísseis balísticos em bases americanas na Jordânia.

Duas novas frentes – a Frente Hash'd al-Shaabi-Iraqi e a Frente Iémen-Arábia Saudita – foram assim adicionadas à fornalha regional. Mas há outros potenciais pontos críticos a ferver em segundo plano: no Líbano, o ministro da defesa israelita gaba-se de que:

"Vinte e quatro aldeias libanesas, com centenas de anos, foram destruídas. Todos os edifícios, não casa a casa, mas aldeias inteiras [foram arrasados]. A sua destruição é completa. Têm de perceber: entre 15.000 a 20.000 casas nestas 24 aldeias foram destruídas — e hoje 70 por cento de Gaza foi destruída."

Mais importante ainda, o Ministro da Segurança Nacional israelita, Ben Gvir, prometeu iniciar uma guerra de colonatos contra os palestinianos que vivem na Cisjordânia para forçar um êxodo "voluntário" dos palestinianos. Ben Gvir argumenta que a preparação para as eleições israelitas representa o melhor momento para desencadear uma crise que acredita poder forçar a evacuação de aldeias palestinianas inteiras.

Como se este caos não bastasse, a 25 de Julho, mísseis americanos atingiram o quartel-general da Guarda Revolucionária na zona de Ziba Kenar, no Mar Cáspio, na província de Gilan.

O comentador MK Bhadrakumar salienta que:

"O Mar Cáspio é uma rota de abastecimento estrategicamente vital entre a Rússia e o Irão. Bandar Anzali é para Teerão o que o porto de Odessa é para Kiev, onde recebe abastecimentos de armas ocidentais. Portanto, o ataque ucraniano a um navio comercial iraniano no Mar Cáspio, nas águas territoriais da Rússia, no sábado, o primeiro ataque deste tipo desde o início da guerra russo-ucraniana, está longe de ser um incidente. Kiev reivindicou a responsabilidade por danificar um navio iraniano, sinalizando que uma das zonas seguras mais estáveis da Eurásia está agora vulnerável às consequências directas do conflito ucraniano.

New York Times e o Wall Street Journal relatam que este ataque ucraniano prenuncia uma fusão das duas guerras — a guerra da Ucrânia com a Rússia e a guerra EUA-Israel contra o Irão. Isto sugere que o ataque ucraniano ao navio iraniano pode muito bem ser uma decisão calibrada de Washington, com a Ucrânia a agir em conjunto com o bombardeamento norte-americano da província de Gilan, no Irão.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse esta semana que o alegado ataque da Ucrânia a um navio iraniano no Mar Cáspio deve ser visto como um ataque ao próprio Irão, argumentando que o incidente sublinhou a necessidade de eliminar aquilo que descreveu como uma ameaça representada por Kiev. Acusou a Ucrânia de alargar o âmbito do que chamou de "ataques terroristas".

Então, o que se passa? Não está claro se o ataque ucraniano ao navio iraniano (que matou um marinheiro iraniano), que Kiev disse transportar um carregamento de armas, foi simplesmente um grito infantil de Zelensky para atrair a atenção e o interesse de Trump ("Daddy"), ou algo mais importante. Zelensky, em várias ocasiões, queixou-se de que a guerra no Irão está a sugar a atenção do Ocidente da "sua" guerra contra a Rússia. Foi isto uma tentativa de realinhar Trump com a guerra na Ucrânia?

Todas estas correntes convergiram em Washington com o funeral de Estado de Lindsay Graham, numa altura em que Laura Loomer – uma influenciadora MAGA em queda de audiência, mas que Trump adora e ouve – realizou uma pirueta muito pública de 180°, emergindo subitamente como a maior fã e promotora da Ucrânia (talvez em vez do falecido Lindsay Graham).

A internet está repleta de especulações de que a sua amplamente divulgada "conversão paulina" poderá marcar um ponto de viragem político significativo nos Estados Unidos. No entanto, pode também ser um momento efémero que rapidamente desaparecerá. Loomer não tem influência entre os jovens MAGA, mas ainda assim faz parte da base Trump de maiores de 65 anos que assistem à Fox News.

No entanto, argumenta-se actualmente que a mudança radical nas simpatias de Loomer marca o início de uma operação psicológica básica destinada a fazer os americanos pensar que a "América intervencionista" pode ser consistente com a "América em Primeiro Lugar" e que, por isso, é aceitável apoiar um confronto militar contra a Rússia. O Efeito Tear, por assim dizer, é apresentado como uma resposta ao verdadeiro MAGA, Pat Buchanon, que mantém a sua frase (e o título do seu livro): "Uma República – Não um Império: A Recuperar o Destino da América."

(Claro que qualquer mudança na opinião pública americana a favor do intervencionismo militar dos EUA será bem-vinda em Israel.)

Será que esta mudança pode levar Trump a tornar-se mais pro-activo em relação à Ucrânia? Não sabemos. Loomer prometeu a Trump um briefing completo sobre a sua viagem à Ucrânia e o seu encontro com Zelensky. Trump vai ouvir? Conseguiria ouvir sem prestar atenção? Quem sabe?

O ponto aqui é que a campanha de "relações públicas" para fazer a Ucrânia parecer uma "vencedora" – embora empiricamente falsa – está a ganhar força entre pelo menos um segmento da opinião americana. Michael Wolff, observador e biógrafo de longa data de Trump, nota que:

"A reviravolta de 180° de Loker em relação à Ucrânia está "obviamente já em curso [ou seja, a ganhar impulso]. Zelensky está agora na cidade... Ele vai passar tempo com Trump. E Trump, sim, como poderia ele não perceber que a vantagem está bem do lado da Ucrânia neste momento?

Num sentido geral, o aspecto da política externa desta administração tem sido um desastre completo. O caso iraniano é um desastre completo. O alinhamento com a Rússia é obviamente uma má escolha. Zelensky [anteriormente] retratado como um perdedor é agora um vencedor – tudo o resto é agora visto como "más escolhas" [da parte de Trump]. Neste contexto, ele [Trump] precisa urgentemente de um sucesso. E a Ucrânia começa a parecer o que poderá ser o seu [sucesso] — a aproveitar o funeral de Lindsay Graham para mudar para uma estratégia mais eficaz em relação à Ucrânia. A sua morte pode acabar por ser uma grande manobra de relações públicas. Bingo. Sim. A Rússia está em apuros."

Claro que é chocante como as elites ocidentais podem ser manipuladas por estas incessantes campanhas de "relações públicas". Ainda assim, os comentários de Wolff são mais do que trivialidade da coluna de mexericos. Reflectem uma psicose colectiva que está a instalar-se. Não há nada de racional nisso, mas sim movido por interesses monetários e cabalas que têm os seus próprios objectivos.

Veja o diagrama: Zelensky quer apresentar-se como um "vencedor" aos olhos da Europa e de Trump. A Europa está a instá-lo a lançar os seus mísseis profundamente na Rússia para forçar a Rússia a conceder um cessar-fogo. Trump no G7 expressa a sua aprovação para ataques na Rússia. O primeiro dente da roda dentada envolve-se em ataques com drones a refinarias russas. Com as palavras de Trump no G7, os punhos da roda dentada aumentaram ainda mais e atingiram agora o nível de ataques a vidas civis russas (ataques a hangares Wildberries e abates em campos de Verão) com mísseis de ogivas de maior alcance e mais potentes.

A Ucrânia dispara em simultâneo contra um navio iraniano no Mar Cáspio. O IRGC ameaça retaliação. O CGRI ameaça o Reino Unido (e Chipre) pelo seu envolvimento crescente na guerra contra o Irão.

A Europa pensa que a Rússia está apenas a fazer bluff e continua a lançar ataques de mísseis em profundidade contra a Rússia. No entanto, a Rússia não pode permitir que estas agressões continuem e se intensifiquem. Entretanto, o Médio Oriente está silenciosamente em chamas. O Irão não sucumbirá à coerção de Trump; (A China também não aceitará a pressão das sanções dos EUA).

Simplesmente não existe uma solução militar disponível para Trump. O melhor que pode fazer é evitar que os conflitos se transformem numa guerra única mundial.

Alastair Crooke

Traduzido por Wayan, revisto por Hervé, para o Saker Francophone. As tensões transformam-se em chamas e espalham-se pelo Médio Oriente | O Saker francófono

 

Fonte: Les tensions se transforment en flammes et se répandent dans tout le Moyen-Orient (Alastair Crooke) – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




A RESILIÊNCIA PERANTE DESASTRES: A IDEOLOGIA DO ABANDONO DA PREVENÇÃO

 


A RESILIÊNCIA PERANTE DESASTRES: A IDEOLOGIA DO ABANDONO DA PREVENÇÃO

15 de Agosto de 2026 Robert Bibeau



Por Khider Mesloub.

Com o aumento dos desastres, especialmente inundações e incêndios florestais, o discurso oficial quase deixa de ser sobre prevenção, mas sim sobre resiliência. Esta mudança semântica não é trivial. Reflecte uma mudança ideológica profunda.

Da prevenção à resiliência: uma mudança de paradigma

Esta mudança no vocabulário não reflecte apenas uma evolução das políticas públicas; Revela também uma transformação na própria concepção da acção governamental. A prevenção baseava-se na ideia de que a sociedade podia agir colectivamente sobre as causas dos desastres. A resiliência inverte esta lógica: assume que o mundo já não pode ser verdadeiramente transformado, apenas suportado. O objectivo deixa de ser prevenir o perigo, mas sim adaptar os indivíduos à sua natureza permanente.

A prevenção consiste em agir sobre as causas de um perigo para evitar a sua ocorrência; Ser resiliente é aprender a viver com isso. A prevenção visa eliminar riscos, a resiliência para organizar a sua gestão. Por outras palavras, o desastre já não é considerado uma falha das políticas públicas, mas sim um horizonte permanente ao qual todos devem agora adaptar-se.

Esta retórica de resiliência baseia-se numa pressuposição implícita: os desastres são inevitáveis. Incêndios, inundações ou desastres industriais já não são resultado de escolhas políticas, investimento insuficiente ou da lógica económica inerente ao capitalismo decadente contemporâneo, mas de uma fatalidade que teria de ser combatida. (1) A partir daí, deixou de se tratar de transformar as condições que produziam desastres, mas de preparar as populações para as suportar num espírito de resignação.

A transferência de responsabilidade do Estado para os indivíduos

Ao naturalizar o que é socialmente produzido, a resiliência elimina a responsabilidade do Estado enquanto capacita os indivíduos. Esta reversão provoca uma transferência de responsabilidade. A missão principal do Estado já não é proteger os habitantes reduzindo riscos; Pede-lhes que desenvolvam a sua capacidade de adaptação. Preparar o kit de emergência, proteger a casa, contratar novos seguros, aceitar evacuações repetidas ou reconstruir após cada desastre tornam-se as novas virtudes cívicas do capitalismo decadente. O peso da sobrevivência é transferido das instituições para os indivíduos.

A gestão de risco está, assim, a ser privatizada. Seguros privados, equipamento pessoal, dispositivos de vigilância doméstica e serviços de segurança comercial estão a tornar-se cada vez mais importantes no que antes era protecção colectiva. Sob o pretexto da autonomia, a segurança está a tornar-se uma responsabilidade individual cada vez mais dispendiosa.

A resiliência nunca põe em causa as relações de produção que criam vulnerabilidade. Ajusta as consequências sem abordar as causas. Protege a infraestrutura do lucro enquanto pede às pessoas que suportem os custos humanos, materiais e psicológicos dos desastres. O sistema capitalista de produção mantém-se intacto; Só os proletários são chamados a adaptar-se aos seus efeitos destrutivos: inundações, incêndios, crises sanitárias, etc.

Esta é a função ideológica da resiliência. Naturaliza desastres produzidos em grande parte por escolhas urbanas e políticas. Transforma o abandono da prevenção na virtude da adaptação. Ela transforma o fatalismo tecnocrático numa doutrina governamental: "Não podemos evitar crises; Vamos aprender a sobreviver a isto. A resiliência tornou-se uma ferramenta ideológica para a renúncia política e a gestão gerencial do capitalismo.

Catástrofe como novo campo de acumulação de capital

Nestas condições, a catástrofe deixa de ser um escândalo político e torna-se um modo normal de governo. Melhor ainda, abre um novo ciclo de acumulação de capital: a reconstrução de infraestruturas, a multiplicação de contratos de seguros, os mercados de segurança e cuidados psicológicos pós-traumáticos, bem como novas tecnologias de vigilância e gestão de risco. A destruição alimenta assim novos lucros.

Esta hierarquia de prioridades orçamentais revela uma contradição mais profunda. Os Estados conseguem mobilizar dezenas de milhares de milhões em poucos dias para a indústria armamentista ou gastos militares, enquanto os investimentos na prevenção de desastres, protecção florestal, modernização dos recursos de combate a incêndios ou manutenção de infraestruturas públicas continuam insuficientes. Este desequilíbrio reflecte menos uma restricção financeira do que uma escolha política relativamente aos sectores considerados estratégicos. A fraqueza das políticas de prevenção já não parece ser uma limitação que deva ser corrigida, mas sim uma situação que o discurso sobre resiliência nos convida a aceitar.

A resiliência torna-se assim o complemento ideológico desta hierarquia orçamental. Como os recursos não são principalmente dedicados à prevenção de desastres, as pessoas são convidadas a aprender a suportar as consequências.

Esta lógica faz parte do que vários autores descreveram como "capitalismo do desastre": um sistema económico que já não procura principalmente prevenir crises, mas sim organizar a sua gestão lucrativa a longo prazo para as tornar um novo campo de acumulação de capital. Os desastres deixam de ser anomalias; Tornam-se oportunidades económicas. 

Resiliência: Uma Tecnologia Governamental de Aceitação de Desastres

Esta doutrina da resiliência é agora a palavra de ordem de um capitalismo decadente que prefere administrar desastres em vez de suprimir as condições urbanas e políticas que os produzem. Não é uma política de protecção, mas uma tecnologia governamental cínica e sádica, concebida para fazer as pessoas aceitarem um mundo cada vez mais perigoso, mais desigual e mais mortal. No capitalismo contemporâneo senil, já não se trata de prevenir catástrofes; trata-se de aprender a governar por eles.

Em conclusão, a resiliência não é apenas um instrumento de gestão de risco. Constitui um modo sádico de governo destinado a fazer os proletários aceitarem a deterioração contínua das suas condições de vida, bem como a recorrência das catástrofes, administrando as suas consequências em vez de suprimir as causas que as produzem.

A verdadeira escolha política não é entre resiliência e prevenção; Opõe-se a duas concepções antagónicas da sociedade: uma aceita a adaptação permanente a desastres apresentados como inevitáveis; a outra pretende abolir as condições urbanas e políticas que os produzem. Por outras palavras, a escolha é entre resignação ou emancipação.

Em última análise, a resiliência, a tecnologia do governo para aceitar desastres, faz parte do quadro mais amplo das políticas de preparação para a guerra. Ao habituar as populações à desestabilização, privação, sofrimento, trauma e à aceitação duradoura de situações excepcionais, promove a internalização de um estado permanente de crise compatível com as exigências de uma sociedade capitalista cada vez mais orientada para o rearmamento, a economia de guerra e conflitos de alta intensidade.

Esta lógica não é um fenómeno sem precedentes. A gestão da pandemia de Covid-19 já tinha estabelecido a resiliência como um verdadeiro modo de governo coercivo. As pessoas foram chamadas a suportar confinamentos, restricções, privações, campanhas controversas de vacinação e turbulências duradouras nas suas vidas em nome da adaptação permanente à crise. Esta pedagogia da resistência já anunciava a generalização de uma política de resiliência que exige ir além do quadro de saúde. Desta perspectiva, estas várias situações de crise, sistematicamente instrumentalizadas ao serviço de um modo de governo coercivo, parecem tantos ensaios gerais para a guerra, habituando gradualmente as populações à privação, às restricções colectivas e à internalização de um estado permanente de crise.

 

Khider MESLOUB

 

(1) Leia o nosso artigo Incêndios em França: o capital prefere a reconstrução à prevenção,
publicado em Les 7 du Québec a 25 de Julho de 2026.
Resultados de pesquisa por "fogo em França" – Les 7 du Québec

 

Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: Incêndios em França: o capital prefere a reconstrução à prevenção

 

Fonte: LA RÉSILIENCE FACE AUX CATASTROPHES : L’IDÉOLOGIE DE L’ABANDON DE LA PRÉVENTION – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice