quarta-feira, 11 de março de 2026

N+1 – AUMENTO DOS CUSTOS DE PRODUÇÃO

 


n+1 – Aumento dos custos de produção

“Aumentar os custos de produção, para poder dar, enquanto existirem salários, mercados e dinheiro, salários mais altos por menos tempo de trabalho” (Ponto “b” do Programa Revolucionário Imediato no Ocidente Capitalista, Reunião do Partido Comunista Internacional em Forlì, 28 de Dezembro de 1952).

 

HOJE

No nosso vocabulário seria mais preciso dizer preço de custo em vez de custo de produção, mas aqui também utilizaremos o termo contabilístico empregado no texto citado. Marx distingue o preço de custo, que representa a quantia de dinheiro que o capitalista adianta para obter o produto, do preço de produção ("forma de valor transformada"), que é o preço social médio ao qual todos os bens que saem da fábrica para venda são obrigados a se comparar. A soma de todos os preços de produção representa o valor total dos bens produzidos expresso em dinheiro. Mais adiante veremos que este facto é fundamental para compreender como a nova sociedade, nos países mais desenvolvidos, poderá revolucionar as antigas relações com rapidez e sem dificuldade.

No nosso artigo seguiremos o exemplo de um capitalista típico. Suponhamos, para ser “modernos” e oferecer um exemplo claro de sensibilidade aos custos de produção, um fabricante de computadores. Já é, por assim dizer, capitalista, dado que não tem qualquer controlo sobre 99 % do ciclo de produção dos bens que “produz”. De facto, não os produz de todo, pois compra todos os componentes a terceiros. Nem sequer lhe compensa montar as máquinas, já que existem empresas especializadas na montagem. Terá um escritório de representação e não precisará de muito mais, já que a administração estará a cargo de um gabinete de contabilidade, e as operações de armazém, se ainda tiver esse requisito arcaico, serão delegadas a uma empresa de serviços especializada que também poderia encarregar-se dos envios. Fica a rede de vendas que, no entanto, está nas mãos de empresas especializadas. Em última análise, poderia limitar-se a encomendar o design e a serigrafia de uma etiqueta personalizada em qualquer copiadora industrial.

Empresa de contabilidade de partida dupla

Para este capitalista -e não se trata de um caso extremo- o custo de produção é tudo, estando representado não por processos produtivos complicados e abarrotados nos quais se perde o encadeamento dos custos, mas pelo maço de facturas que de vez em quando lhe envia o contabilista, incluídas as suas próprias.

O mundo está cheio de capitalistas deste tipo hoje em dia. Poder-se-ia dizer que alguém, em última instância, tem de produzir os componentes dos computadores, e é verdade: mas algumas indústrias bem organizadas e automatizadas são mais do que suficientes. Hoje em dia, existem quatro grandes fabricantes mundiais de microprocessadores, e quase todos os outros componentes repartem-se entre uma dúzia de gigantes no total.

O capitalista do nosso exemplo terá ainda menos desejo que os seus antepassados, que dirigiam pessoalmente fábricas com milhares de operários, de perder tempo a investigar a origem do valor: bastam-lhe os cálculos do contabilista.

No entanto, para a nossa contabilidade, que é sempre social, é necessário identificar primeiro uma lei que nos permita definir o fenómeno do processo de trabalho tipicamente capitalista. O capitalista individual conforma-se com a contabilidade de partida dupla, método que remonta à contabilidade mercantil, ou seja, à época das Comunas e das Senhorias, método que estabelece simplesmente uma comparação definitiva entre ganhos e perdas; para nós, isso não é assim.

O custo de produção é esse simples número que deve ser subtraído dos rendimentos; portanto, independentemente de como seja definido nos balanços falsificados das empresas, é a bête noir do capitalista, bête que o esmaga com decisões a que não tem outro remédio senão submeter-se. O economista, que, apesar de ter adoptado métodos contabilísticos superiores aos medievais, parte dos mesmos conceitos ao manipular preços e estatísticas de preços, não corre melhor sorte. Nas finanças modernas, até manipula preços de preços de preços… talvez merecendo um Prémio Nobel por descobrir que os problemas associados a estes processos são não lineares e, portanto, insolúveis. Apesar de tudo, consegue conceber modelos brilhantes e complexos que funcionam em computadores potentes e fazem com que o seu salário seja plausível mesmo sem acertar numa única previsão. Na era capitalista, onde tudo é mercadoria, o facto de o economista poder vender-se é quase místico, mais parecido com um milagre do que com uma ciência. Afinal, ele próprio diz que a sua profissão não é uma ciência, mas uma opinião.

Como veremos, a ciência comunista consegue fazer previsões, só que não são as que todos esperam nesta sociedade. O marxismo impossibilita o trading diário, a especulação diária na Bolsa.

O poder da concepção unitária

Para fazer ciência precisamos saber o que realmente acontece por trás dos fenómenos que investigamos. Uma vez que uma lei é descoberta através desta investigação, deve ser possível transformá-la em modelos abstractos compreensíveis e utilizáveis por todos, para depois aplicar esses formalismos e verificar se se podem fazer previsões com base neles. Portanto, se queremos “fazer ciência” relativamente aos custos de produção, não podemos limitar-nos a conhecer o preço dos bens semi-acabados, da energia, dos serviços e da mão de obra utilizados para produzir outros bens: este preço depende de outros produtores em etapas anteriores de uma cadeia que nem sequer termina nas minas, pois aí também são utilizados energia, maquinaria, mão de obra, etc. É cientificamente absurdo olhar para as contas depois de os bens terem sido comercializados, transformados em dinheiro e ter-lhes sido atribuído um preço segundo um ciclo contabilístico. “Para nós, de facto, o valor dos bens produzidos num determinado ramo industrial não pode ser deduzido da procura de médias nas taxas de mercado: deve ser conhecido de antemão” (em “Vulcano della produzione o palude del mercato”? Volcão da produção ou pântano de mercado?). Apenas se estabelecermos a priori os mecanismos que produzirão o preço como uma oscilação média em torno do valor, poderemos realizar trabalho científico operando com uma lei. O valor não é uma “coisa”, nem uma nota, nem um registo numérico; é uma relação social. Portanto, para nós o cálculo, para obter resultados utilizáveis por qualquer pessoa, em qualquer situação e em qualquer país, deve ser abordado como na física: as leis da gravitação são idênticas para todos em qualquer ponto do universo, assim como as leis da troca são idênticas onde quer que a relação social seja a mesma.

Ao nosso capitalista individual não lhe interessa nada disto; ele ocupa-se do capital, quer vender computadores e obter lucros. Deveria interessar-lhe o economista, que entende de economia, mas o economista, ao ouvir falar de sociedade, acredita que é o sociólogo quem deveria estar interessado. Por sua vez, o sociólogo certamente não terá tempo para tratar do capital e da economia; bastar-lhe-á tratar das classes, no sentido de grupos demográficos e estatísticos da população.

Enquanto o mundo capitalista da produção desenvolve uma sociedade altamente integrada, onde todas as partes estão interconectadas, no mundo das ideias prevalece a maior separação entre disciplinas. Mas em todas as sociedades, como na natureza, nada nem nenhum acontecimento está separado de outro: ou seja, acontece “ao mesmo tempo”, na continuidade do tempo e do espaço; por isso os estudiosos de disciplinas separadas ainda não alcançaram o cume do marxismo. Naturalmente, com Marx, tiramos o chapéu perante os feitos técnicos e científicos da burguesia apesar da separação de campos, mas afirmamos que apenas a nova sociedade poderá unificar o conhecimento num todo inseparável, de um nível qualitativamente superior.

Capitulações burguesas

Assim, o capitalista, que com razão não ignora nem economistas nem sociólogos, compra bens, energia, serviços e operários no mercado para gerar produção (ou compra esta já terminada). Não pode fazer nada relativamente ao preço que deve pagar por tudo isto, pelo que, ao seu ver, todo o capital adiantado é, na realidade, o custo real dos bens que produz. Acrescenta o seu lucro, mas deve fazê-lo tendo em conta outra variável que não pode decidir: o preço de mercado desse bem quando é posto à venda juntamente com outros mil.

O custo de produção registado nos livros contabilísticos tem pouco impacto no preço dos bens, que é determinado pelo conjunto do comércio e pelo estado da concorrência mundial; e o capitalista sabe disso bem. Portanto, só pode colocar os seus produtos se o seu custo de produção, mais os seus lucros, lhe permitir obter um preço fixado por uma entidade externa. Tanto é assim que, em qualquer plano de negócios respeitável, primeiro enumeram-se os parâmetros do mercado existente e depois ajustam-se a eles os parâmetros de produção de um determinado bem. Na linguagem do marketing, esta abordagem denomina-se market in, em contraposição ao conceito de product out (ou seja, é o mercado em que a empresa entra que dita as leis, enquanto o produto que sai faz o que pode). Como se pode ver, não é o marxismo que entra na mente das pessoas, o que é difícil devido à ideologia dominante; são as pessoas que se veem obrigadas a capitular perante o marxismo.

Portanto, é compreensível a razão pela qual o nosso capitalista está tão assediado pela concorrência: os seus custos de produção devem sempre ser compatíveis com o estado da produção mundial. Ele está esmagado entre decisões que não dependem dele nem dos seus técnicos contratados, e portanto só pode agir sobre o seu lucro, ou seja, sobre a quantidade de trabalho gratuito que poderia extrair dos seus operários, se os tivesse. Assim como não pode reduzir os custos de produção representados pelos bens que entram no ciclo de produção, também não pode aumentar arbitrariamente os seus lucros; caso contrário, teria de subir o preço e a concorrência eliminá-lo-ia do mercado. Mesmo que tivesse a sua própria fábrica com muitos operários, ainda assim não poderia influenciar arbitrariamente o custo da mão de obra, que é um factor social que tende a variar de acordo com parâmetros que envolvem longos períodos e grandes áreas. Cada capitalista só pode variar aquelas características de todo o ciclo de produção que implicam custos que dependem dele. É completamente impotente em relação ao mercado e às fábricas dos outros.

Mas todos os outros capitalistas também estão nas mesmas condições. Na rede de relações que vertebra a produção mundial, o efeito das acções de qualquer indivíduo far-se-á sentir mais uma vez nos factores que subjazem aos custos de produção do nosso fabricante de computadores. Ele não tem a sua própria fábrica, mas obviamente escolhe no mercado quem lhe oferece componentes da qualidade exigida ao preço mais baixo. Assim, mesmo sem ser um fabricante directo, influencia o ciclo que o precede. Mas então todos os capitalistas, presos no ciclo infernal da concorrência, influenciam-se mutuamente e não podem fazer mais do que inventar tudo para sobreviver na sua guerra mútua. Não são protagonistas como acreditam, mas instrumentos completamente passivos e inúteis do seu próprio sistema, essa imensa revolução que levou o poder produtivo social aos seus limites.

A reorganização obrigatória continua

Em termos assépticos, hoje em dia poderia dizer-se que todo capitalista, preso no beco sem saída das forças do mercado, deve primeiro introduzir informação no sistema de produção. Faz isso começando pelo seu sistema local, mas não pode evitar transmitir a mensagem ao sistema mundial. A informação é gratuita e cria uma nova ordem, como já observou o velho Taylor ao introduzir a organização científica do trabalho. Assim, cada fábrica tende a ser diferente do que era antes (embora os parâmetros externamente dependentes se mantenham fixos), por exemplo, melhorando a sua organização, acelerando as operações, introduzindo os recursos que a ciência oferece; em resumo, produzindo mais mantendo os custos fixos. Tudo isto parece-lhe completamente natural ao capitalista e, de facto, no contexto capitalista é tão natural que em circunstâncias normais ninguém, nem mesmo os operários, o percebe.

Em termos menos assépticos, Marx afirmou que isso aumenta o nível de exploração da força de trabalho. Os proprietários desta mercadoria particular, o proletariado, só o percebem quando a exploração vai acompanhada de penúrias físicas, ou quando, bem organizados e dirigidos, tentam conscientemente transformar uma parte dos lucros em melhores condições de vida. Na maioria dos casos, a simples organização científica do trabalho aumenta a produtividade, mas produz os melhores resultados quando vai acompanhada de inovação tecnológica; portanto, a introdução de novos métodos vai de mãos dadas com a de maquinaria moderna. Isto não reduz os custos de produção em termos absolutos; pelo contrário, a curto prazo eleva-os; a médio prazo, no entanto, os custos diminuem em relação à mais-valia que se pode extrair dos operários através do aumento da escala de produção.

E diminuem não só por causa do entusiasmo frenético do capitalista em alcançar o seu objectivo a qualquer custo. Historicamente, a expansão da fábrica moderna expande a escala de produção de todos os bens que o capitalista deve adquirir com o capital avançado; Assim, o valor do capital adiantado também acaba por diminuir, e o objectivo de reduzir os custos de produção parece ter um resultado favorável.

Na realidade, o pesadelo do capitalista moderno mal começa: o custo de produção diminui em relação à quantidade produzida, mas como todos são obrigados a agir da mesma maneira, o aumento da escala de produção reduz o preço geral de produção, ao qual, mais cedo ou mais tarde, todos os custos de produção devem corresponder. A corrida para reduzir os custos de produção levou a um aumento do que Marx denomina a composição orgânica do capital. Ou seja, cada vez menos operários operam cada vez mais máquinas e instalações, mantendo o mesmo lucro para o capitalista.

O Estado ao Serviço do Capital

A produção tem um potencial imenso, mas o mercado é um campo com limites finitos. Portanto, o número de fábricas não crescerá proporcionalmente ao crescimento da força produtiva geral, já que algumas fábricas altamente mecanizadas serão suficientes para produzir todos os bens assimiláveis. Cada uma obterá lucros extremamente altos, mesmo que tenha de adiantar uma grande quantidade de capital em comparação com o número de operários empregados. No entanto, esta altíssima produtividade provocará desemprego e, sobretudo, um excesso permanente de população em comparação com a necessidade de mão de obra. Nesta situação, a taxa geral de lucro diminuirá.

A corrida, portanto, não tem fim: a fábrica tradicional, depois de se racionalizar e automatizar ao máximo, fragmenta-se em unidades de produção independentes, especializa os seus sectores internos e converte-os na produção em massa, transformando-os em unidades de produção independentes que já não trabalham apenas para o cliente original, mas para o mundo inteiro. Estas unidades são controladas por um único centro, mas cada vez mais, os capitalistas são expropriados deste centro e substituídos por funcionários que nem sequer têm de prestar contas às juntas de accionistas. Apresentam aos mercados não os resultados da produção, que já não interessam a ninguém, mas o desempenho da empresa perante o mercado, e apresentam estes resultados a outros funcionários de fundos de investimento anónimos ou outras formas de arrecadação financeira, que por sua vez captam capital em toda a sociedade, separando-o dos proprietários individuais e da sua vontade pessoal.

Durante a reconstrução do pós-guerra, a grande indústria podia permitir-se certa indiferença em relação aos custos de produção, dado que a economia corporativizada podia distribuir uma massa significativa de mais-valia a toda a sociedade, incluindo um financiamento substancial, directo e indirecto, à própria indústria. Agora, a indústria privada pode ser financiada pelo Estado com base em garantias específicas, mas continua a ser privada, e teria sido difícil para o executivo controlar plenamente a rede de produção na qual tinham investido abundantemente. Por esta razão, formou-se um sistema misto que integrava os planos da grande indústria com os do país em reconstrução através de um sistema bancário controlado pelo executivo (ou pelos partidos que o controlavam). A tarefa de acumulação no sector primário recaía assim sobre a grande indústria e alguns capitalistas, com a ajuda de um sistema bancário que complementava plenamente esta política económica, como demonstrado claramente pelo exemplo da Mediobanca, cujo deus ex machina [1] morreu recentemente.

A Empresa Virtual

Terminada a cucaña (pau de sebo – NdT) da reconstrução, que tinha durado demasiado mesmo para um capitalismo antigo e astuto como o italiano, a procura generalizada de poupanças de custos acabou com a antiga fábrica vertical concentrada. Fábricas quase novas, ainda em funcionamento, construídas com fundos estatais, foram desmontadas com mais fundos estatais. Há muito tempo, a antiga fábrica gerida pelos seus proprietários foi substituída em toda a parte por uma rede de produção controlada, nos casos mais flagrantes, por empresas virtuais centralizadas, empresas que cederam em outsourcing, ou seja a fornecedores externos, todo o processo de produção, mantendo apenas a gestão da marca e, obviamente, os lucros. Em alguns casos, a empresa virtual é mesmo indiferente aos custos e lucros locais, uma vez que estes já não derivam de actividades produtivas específicas, mas de sofisticadas manobras financeiras internacionais que exploram a extrema ramificação, ou melhor dizendo, a rede, dos negócios internacionais. Muitas empresas ligadas às novas tecnologias, como a Amazon, optaram por operar com prejuízos durante anos, endividando-se e investindo todos os lucros sem distribuí-los. Isto permite-lhes aproveitar o preço virtual das acções no mercado, uma pura fantasia, mas que pode ser utilizada para todo tipo de transações financeiras, comumente conhecidas como especulação. Naturalmente, isto não pode durar, e cedo ou tarde desaparecerá. Entretanto, a expansão das empresas virtuais, imersas em intrincadas redes de participações cruzadas, parece imparável.

Tentativas contra a anarquia de mercado

O reflexo ideológico fez-se sentir —e tem implicações práticas— com a divulgação das reivindicações federalistas, que não são mais do que a transposição política do que há muito tempo se tem alcançado no mundo da produção, incluída a tendência à 'des-nacionalização' entre os grandes gigantes capitalistas. Até mesmo a rede de informação representada pela Internet, propícia à redução de custos de produção, foi atacada pela indústria, que há apenas um ou dois anos ainda se mostrava um tanto reticente em confiar o negócio às vias imateriais da Internet. Agora esta última está a demonstrar ser muito útil para poupar custos de produção, pois facilita a resolução de muitos problemas antigos, como a reorganização dos fluxos internos de informação, a nova gestão electrónica de inventários (e-procurement), a optimização dos ciclos de produção e a reengenharia de processos individuais em relação aos grandes sistemas. É por isso que o chamado B2B, ou business to business, se desenvolve de forma tão formidável e silenciosa, mais do que o ruidoso comércio electrónico propagandeado em todos os meios: trata-se nada menos do que de abordar a espinha que sempre esteve cravada no coração do capitalismo, a saber, a poupança na gestão mundial do capital constante, a maior fonte de dores de cabeça para o actual modo de produção depois da luta de classes.

Um estudo da Arthur Andersen, um dos maiores fornecedores mundiais de serviços de gestão e certificação, mostra que a Internet está a eliminar o vazio que existia quando as empresas entravam no mercado, cenário de guerra de todos contra todos. No que diz respeito à gestão de fornecimentos mútuos entre empresas, e por conseguinte do sector primário de meios de produção, está a surgir um novo modelo, denominado virtual private network (VPN), uma rede que transcende os limites de uma única indústria e conecta várias. Estas indústrias, embora não estejam ligadas corporativamente, representam um sistema semelhante ao das indústrias centralizadas sob um único controlo corporativo, conseguindo assim a mesma poupança de custos.

Na prática, um processo cada vez mais semelhante ao que ocorre dentro de cada fábrica está a espalhar-se na sociedade capitalista, onde o operário ou grupo de operários que realizam uma operação parcial não produzem bens, mas partes de um objecto que só se transforma em mercadoria ao sair da fábrica e entrar no mercado. Estes operários, guiados por um plano de produção eficiente, cooperam racionalmente para atingir um objectivo, mas não geram valor algum. Agora, um processo semelhante ao interno projecta-se externamente: cada fábrica do grupo é como o operário parcial, sem produzir valor algum, excepto nos registos contabilísticos. Apenas as fábricas no seu conjunto produzem não tanto uma mercadoria, mas um conjunto de produtos (objectos, serviços, produtos) que a empresa central venderá com lucros.

Estão a trabalhar para nós

Este processo é irreversível. Já não nos enfrentamos a um fluxo de materiais gerido segundo um critério “externo” de fornecedor-cliente; hoje em dia o fluxo é gerido segundo um critério “interno” que a Arthur Andersen denomina business partnership e que com certa temeridade equipara a um modelo cooperativo capaz de substituir a concorrência pura. Os especialistas em organização denominam esta tendência des-organização ou organização espaguete, em referência específica à indústria italiana, que se acredita capaz de alcançar um desempenho extremamente elevado apesar de um ambiente desfavorável e politicamente desastroso. Neste contexto, cada unidade de produção interage com as outras e, ao não esperar instruções superiores, evita trâmites burocráticos ao mesmo tempo que assume uma capacidade de auto-organização cada vez maior.

Apesar da linguagem e dos objectivos do business, completamente triviais, estas observações levantam alguns sinais de alerta clássicos. Se o mundo da produção —que, com Marx, equiparamos a um modelo de actividade social sem a lei do valor— se impuser fora da fábrica numa tentativa desesperada de “poupar custos”, então podemos esfregar as mãos e dizer, como os nossos velhos camaradas: “trabalham para nós”.

AMANHÃ

Se ampliarmos a fábrica para além das suas paredes, teremos um sistema social de produção integrado que já não requer categorias de mercado e, portanto, deixa de ser capitalista. O complexo industrial centralizado, diversificado nos seus componentes (cuja distribuição espacial, ou seja, entre continentes, é irrelevante), já opera segundo planos pre-estabelecidos sob um único centro, ao contrário de quando as empresas não faziam parte de uma única organização.

Esta abordagem também demonstra como o comunismo trabalha para demolir as barreiras que impedem a realização da nova sociedade. Portanto, sob a perspectiva do programa imediato da revolução, mostra como mesmo hoje, ou seja, dentro de um ambiente completamente capitalista, estão a ser alcançadas tarefas que, num passado não muito distante, só poderiam ter sido conseguidas por um poder político através das suas organizações revolucionárias. A única revolução proletária vitoriosa, a russa, enfrentou imensas tarefas de realização capitalista devido ao atraso económico e social do país, mas mesmo que a revolução se tivesse estendido à Alemanha ou à França, a transição para a nova sociedade não teria estado isenta de desafios construtivos. O sistema racional existia dentro das fábricas individuais, mas ainda não tinha conseguido generalizar-se através das fábricas como o faz hoje. O sistema actual pode generalizar-se ainda mais, estendendo a ordem a toda a sociedade, como se existisse uma única grande indústria composta por unidades de produção diversificadas sob controlo central.

O modelo que descrevemos não é de todo arbitrário. Assim como existem modelos económicos e financeiros de “um único banco”, também podemos imaginar um modelo de “uma única fábrica”. Quando as fábricas estavam concentradas e competiam entre si como concentrações separadas, este modelo era difícil de imaginar. Mas hoje, com a fábrica generalizada, como foi descrito anteriormente, tornando-se a norma, qualquer pessoa pode simplesmente observar uma realidade clara e compreender as suas implicações.

Bukharin, no seu livro sobre a economia de transição, já tinha intuído o poder disruptivo da organização produtiva dos grandes monopólios industriais e financeiros da era imperialista. Baseando-se em Marx, argumentou que a sociedade global, como mercado composto por empresas e Estados, era por definição um sistema não organizado (não desorganizado, um termo que implicaria a possibilidade de organização). Esta observação é acertada, pois no mercado não se encontram produtos, mas sim mercadorias; enquanto os primeiros se contabilizam em quantidades físicas, que por isso são facilmente conhecíveis, mensuráveis e programáveis, as segundas trocam-se segundo o seu valor, ou seja, segundo o critério da concorrência, que não admite uma ordem pré-estabelecida.

Modelos para a transição

Bukharin era excessivamente optimista ao afirmar categoricamente que o capital financeiro, ao organizar o mundo da produção em grandes trusts controlados centralmente, eliminaria a anarquia da produção nos grandes países capitalistas, permitindo que a revolução proletária herdasse um sistema já estabelecido (e que a Rússia o alcançasse rapidamente; já se considerava o “socialismo num só país”). Todas as épocas revolucionárias incitam ao optimismo como lubrificante para o motor social, mas a eliminação da anarquia não pode ocorrer dentro do capitalismo: o nascimento dos trusts não dá lugar a entidades isoladas, mas a sistemas interconectados entre si, como fábricas individuais; precisamente, um sistema de trusts, que sem dúvida entram em competição entre si a um nível superior e, portanto, com a consequente guerra impiedosa, incrementa o nível de anarquia social.

O próprio Bukharin recolhe este facto quando enumera os tipos de concorrência existentes nesse sistema, e utiliza um esquema no qual fica clara não só a existência de ilhas “participadas”, ou seja, ilhas possuídas total ou parcialmente por acções, mas também uma multiplicidade de ilhas que competem entre si.

O esquema é totalmente coerente com a época em que foi traçado, a da consolidação do imperialismo segundo as linhas descritas por Lenine, baseando-se em Hobson e Hilferding. Embora continuasse a ser imperialismo, a sua estrutura era diferente da actual. Baseava-se num sólido aparelho industrial interno e numa força financeira quase exclusivamente externa num mundo ainda colonial. Por conseguinte, prestava-se bem a ser descrito com a imagem clássica do rentista puro, com poderosas canhoneiras. Além disso, os países imperialistas tinham um poder equiparável, e embora a Inglaterra se destacasse acima dos outros, cada um tinha a sua própria parte do mundo para explorar. Esta ordem mundial era indispensável como trampolim para o imperialismo moderno, mas já não existe. Na nova ordem eliminaram-se as colónias, e esse novo modelo de produção mundial que tanto comove em Seattle consolidou-se. Ao contrário do sistema rentista, compõe-se de interesses entrelaçados entre imperialismos e, até explodir sob as suas próprias contradições nacionais, é um único grande sistema de rendimento, produção, finanças e poder militar.

Agora bem, na nossa discussão sobre modelos, o elemento “produção” representa um passo em frente do comunismo como movimento real, pois impulsiona a ruptura das barreiras que actualmente o asfixiam. De facto, se o nosso modelo de fábrica única se baseasse num imperialismo puramente financeiro, como na época de Bukharin, não seria possível tratar a troca como um simples fluxo de quantidades físicas de produção (peças produzidas, valores de uso), e ver-nos-íamos obrigados a recorrer à contabilidade habitual em termos de valor (capital, dinheiro, acções, valores de todo o tipo, ou seja, valor de troca).

Mesmo considerando o valor —como numa autêntica fase de transição revolucionária em que ainda existem salários, dinheiro e bancos—, o modelo de fábrica única já elimina o conceito de capitalismo ao eliminar as diferenças de valor (preço de custo) entre diferentes fábricas, diferenças que determinam a existência do mercado e da concorrência. Portanto, esbocemos um esquema que resuma os três modelos, dois relativos à realidade real e o outro abstracto, útil para compreender a transição histórica representada pela realidade em movimento:

1) no modelo real de fábrica única, o valor das peças processadas e o seu movimento dentro de cada fábrica são irrelevantes, enquanto a sua quantidade e função são importantes; o produto final não é uma mercadoria até ser lançado no mercado;

2) No modelo da fábrica centralizada e diversificada, que também é real, entram em jogo cadeias "sinérgicas", de modo que o que antes acontecia na única fábrica agora acontece a um nível mais elevado e extenso, com o objectivo do grupo ser um balanço consolidado, no qual os balanços individuais são meras expressões contabilísticas fictícias que são somadas sem o sinal negativo ou positivo dos resultados parciais que afectam o resultado final (desde que, obviamente, o total seja positivo); existe uma indiferença generalizada ao valor gerado localmente, mesmo que seja apenas interna ao modelo e não entre modelos;

3) No modelo de fábrica única, abstracto mas não arbitrário, o mercado desaparece, deixando para trás uma única cadeia sinérgica — que neste ponto é uma rede — na qual o valor é completamente indiferente, sem diferença entre resultados locais e mundiais. Consequentemente, a indústria mantém-se, e a empresa, juntamente com todo o seu sistema de empresas, desaparece. Lembremo-nos de que neste terceiro ponto não abordamos a questão política, pois assume-se que a solução de classe já foi produzida e que operamos nesse contexto de transição onde o programa revolucionário imediato está a ser implementado. Lembremos, portanto, que o nosso argumento implica uma revolução vitoriosa nos países capitalisticamente avançados: não apenas num deles, mas pelo menos nos mais importantes.

Os balanços das empresas como papel molhado

Voltando aos pontos anteriores, observamos que na fábrica única experimentamos internamente uma indiferença total ao valor devido ao movimento de quantidades puramente físicas, enquanto na fábrica distribuída essa indiferença baseia-se num movimento contabilístico que ainda se refere a valores, mesmo que seja manipulado segundo o balanço consolidado. Onde reside o progresso para o comunismo neste caso, se ainda contabilizamos em valor?

A resposta a esta pergunta é particularmente importante porque nos remete ao que dissemos no início: que o custo de produção mundial mais a mais-valia representa o preço de produção mundial, ou seja, o valor mundial (como a soma dos preços de produção locais). Dado que a procura de uma lei do valor pretendia fornecer uma medida para escapar da névoa ideológica da economia política (uma vez que apenas critérios quantitativos podem ser utilizados para criar ciência), ao reduzir tudo a valor, podemos reconectar-nos com o tempo médio de trabalho social. E dado que, mesmo numa sociedade em transição, as únicas medidas úteis para compreender o seu ciclo de produção serão o tempo médio de trabalho e as quantidades físicas, o modelo tripartido destaca precisamente o que, do sistema actual, será útil para a sociedade futura.

O nosso “fabricante” inicial de computadores que por acaso teve sucesso e se tornou chefe da empresa multinacional de produção e finanças descrita no ponto dois, trataria os balanços das fábricas individuais como papel molhado e ao olhar o balanço geral em primeiro lugar confirmaria a lei do valor descoberta por Marx; em segundo lugar e ao mesmo tempo, negaria a lei do valor através da lei do valor, que é precisamente o processo mediante o qual Marx descreve que o comunismo se torna real: se a lei do valor revela o carácter dual e antagónico do trabalho e das mercadorias (produção social e apropriação privada), e se o modo de produção actual já demonstra a inutilidade do capitalista e da sua classe, a produção social permanecerá e a propriedade será eliminada.

O fabricante de computadores mais do que supérfluo do nosso exemplo, ao tratar o seu novo conjunto de fábricas como tratou o inicial, ou seja, concentrando-se no custo de produção através de um montante final que para ele já não tem ligação com os custos individuais, não só nega ainda mais a sua própria função, que de qualquer forma já está negada nos níveis anteriores, como também nega a função do capitalismo em geral, uma vez que já está a actuar de forma potencial na sociedade futura.

Portanto, o enfoque imediato do programa em aumentar os custos de produção revela uma implicação política muito mais significativa do que poderia parecer à primeira vista. De facto, não se trata de aumentar os custos por decreto ou algo semelhante: trata-se de libertar dentro da nova sociedade todo o potencial que o comunismo já preparou na antiga, para permitir o próximo grande salto. A indiferença em relação ao valor traduz-se automaticamente em indiferença em relação aos custos, e, por conseguinte, estes podem ser manipulados arbitrariamente no contexto das necessidades humanas. O facto de existir um período em que as trocas expressas em dinheiro ainda existam não tem importância porque o sinal do valor, impresso em papel ou gravado numa memória electrónica, já terá perdido toda a sua função histórica.

O que o capitalismo não pode alcançar

Na Rússia, antes da vitória definitiva da contra-revolução, ocorreram acalorados debates sobre a acumulação capitalista, que deveria ser dirigida pelo regime comunista. As terríveis condições da sociedade russa impediram os revolucionários da época de abordar o problema com serenidade, reconhecendo que se tratava de construir o capitalismo moderno e que era necessário não renunciar à integridade do partido, à teoria e ao poder. Assim, as primeiras concessões ocorreram precisamente na questão do valor, em relação à chamada acumulação socialista, o que é um oxímoro flagrante, uma contradição nos termos, dado que apenas o valor pode ser acumulado, e no socialismo, o valor desaparece.

Nesta situação, nem Bukharin tinha claro o destino das categorias capitalistas na fase de transição: alterna uma negação drástica da sua função com explicações insatisfatórias da sua sobrevivência. Significativamente, por exemplo, não equipara a sobrevivência do dinheiro ao mero tempo de trabalho ou às quantidades físicas como unidades de conta. Se o dinheiro ainda é considerado um signo de valor, então não faz sentido dizer que já não tem importância social; é simplesmente dinheiro. Se, como Marx demonstrou contra Gray, o bónus de trabalho, que supostamente contabiliza as horas efectivamente trabalhadas, embora não se acumule privadamente, se se acumulasse num banco, então apenas mudaria o nome: continuaríamos, inexoravelmente, perante uma forma de dinheiro e, portanto, perante o capitalismo. A diferença não reside no símbolo, mas na substância, e isso já nos é oferecido em bandeja de prata pelo próprio capitalismo, quando tenta estender o sistema fabril a toda a sociedade. O que o capitalismo jamais poderá conseguir é criar uma sociedade que funcione com a racionalidade e o plano próprios de uma fábrica, porque não pode eliminar valor sem se eliminar a si mesmo. Também não poderá reduzir drasticamente o tempo de trabalho, concentrado em cada vez menos pessoas e negado a essa sobrepopulação negativa, obrigadas a viver de trabalhos marginais ou da assistência pública.

A conquista do poder político nos países capitalistas avançados permitirá imediatamente ao proletariado e ao seu partido elevar os custos de produção, estendendo o trabalho a toda a população e reduzindo drasticamente a sua duração. Enquanto os burgueses, incapazes de fazer previsões sociais, criticam os comunistas por terem errado algumas, a mais importante de todas desenrola-se diante dos nossos olhos com toda a clareza: o capitalismo é uma casca que já não corresponde ao seu conteúdo.

Leitura recomendada:

·         Partito Comunista Internazionale, Per l'organica sistemazione dei principii comunisti, Réunion de Forlì, "Il programma rivoluzionario immediato", Quaderni Internazionalisti.

·         Partito Comunista Internazionale, Vulcano della produzione o palude del mercato? Quaderni Internazionalisti.

·         K. Marx, Il Capitale, Livro III cap. I: "Prezzo di costo e profitto", UTET, Editori Riuniti, Newton Compton.

·         Nikolai Bucharin, Teoria Económica do Período de Transição.

·         K. Marx, Per la critique dell'economia política, cap. II-B: "Teorie sull'unità di misura del denaro", Editori Riuniti.

[1] Leonardo del Vecchio, que através da sua holding entrou no capital da Mediobanca, tornando-se o maior accionista. (Nota do editor)

 

Fonte: n+1 – Elevar los costes de producción – Barbaria

Este texto foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




terça-feira, 10 de março de 2026

UMA CRÍTICA COMUNISTA AO MOVIMENTO ESTUDANTIL E AOS COLECTIVOS JUVENIS

 


Uma Crítica Comunista ao Movimento Estudantil e aos ColeCtivos Juvenis

 

A FUNÇÃO SOCIAL DA ESCOLA

Para fazer uma análise crítica do movimento estudantil a partir de uma perspectiva comunista, é necessário compreender a raiz da qual nasce o movimento estudantil, que não é outra senão a expressão social, económica e ideológica da educação sob as relações sociais capitalistas.

Desde o início do século XIX, a escola não passou da organização da reprodução social do trabalho assalariado através da obtenção de títulos formais e burocráticos (afinal, o reconhecimento estatal do conhecimento), com os quais a classe operária competia no campo do trabalho por uma melhor posição na venda da força de trabalho. Assim, a principal função da escola é a organização da divisão social do trabalho.

A escola também serve como meio de disciplinamento da futura força de trabalho, com a sua organização do horário ao modo da jornada laboral e a sua ênfase na disciplina corporal e intelectual, e como meio de reprodução da ideologia dominante mediante a ideia da meritocracia, pela qual com esforço e sacrifício suficientes por parte dos estudantes e dos seus pais poderá alcançar-se a promessa de ascensão social, enquanto aqueles que não o conseguirem será porque não o merecem. Deste modo, justifica-se a cadeia trófica do capitalismo e a sua divisão em classes sociais. Ao mesmo tempo, a escola educa na e através da disciplina e bom fazer social, ou seja, submissão, criando assim o “bom cidadão” da sociedade mercantil.

A educação pública é assim a organização e gestão da instituição escolar que cumpre estas funções através do Estado, um Estado que não vela pelos interesses do proletariado, mas que está atravessado pela lógica do capital. Nesse sentido, a defesa da educação pública, tão aclamada pelo esquerdismo, não é senão a defesa do Estado burguês, por mais que lhe seja atribuído um carácter positivo em relação à educação privada, ocultando que ambas correspondem a uma mesma função social. Não é de estranhar por isso que o Estado tutele a educação privada e o que nela se ensina, assegurando o bom funcionamento dos mecanismos de reprodução social.

Como comunistas internacionalistas, devemos defender os interesses do proletariado desde a independência de classe, isto é, desde o ataque tanto ao público como ao privado, como duas faces da mesma moeda.  

ESCOLA, UMA CONQUISTA OPERÁRIA?

Dentro do esquerdismo, as versões mais “radicais” podem entender o papel da educação burguesa como um aparelho de reprodução da ideologia do capital e como um forno de cozedura para futura mão de obra. Mesmo com uma análise geral presumivelmente acertada, falham a favor da defesa das supostas “conquistas operárias” que concederiam melhores condições para a educação (tanto para docentes, como para estudantes) e revestem uma mensagem reformista de radical. Através do reconhecimento dessas lutas por conquistar direitos ou melhorias como progressivas para a revolução, pressupõe-se um aumento da consciência revolucionária.

No entanto, a experiência histórica demonstra-nos todo o contrário. 1914 e a traição da social-democracia ao proletariado, reivindicando e apoiando a sagrada unidade nacional na primeira grande carnificina imperialista mundial, revelaram que a luta apenas por reformas não conduzia a um aumento da consciência revolucionária ou a um longo caminho rumo à tomada do poder. Pelo contrário, esta concepção pacifista, gradualista, democrática e reformista da II Internacional não conduziu senão à incorporação dos defensores das “conquistas operárias”, a social-democracia e os sindicatos, no aparelho estatal, aprisionando uma parte do proletariado com eles. As tácticas oportunistas da maioria da III Internacional apenas repetiriam os mesmos erros.

Portanto, se acontecerem, essas vitórias específicas são passageiras, dado que a concessão de direitos pelo Estado (seja no sector público de forma directa ou concertada e privado mediante legislação) é pão para hoje e fome para amanhã. A próxima crise do capital implicará os cortes correspondentes e destruirá essas supostas “conquistas”. Ao criticar a função social da escola na teoria como correia de transmissão ideológica da sociedade burguesa, mas sustentá-la na prática a partir da defesa da educação pública, segue-se o bem conhecido caminho do etapismo reformista, que separa o programa mínimo (de “vitórias” imediatas), do programa máximo (a revolução comunista).

Nós, como revolucionários, não entendemos que exista qualquer vitória para o proletariado para além da sua emancipação através da revolução comunista internacional, superando assim todas as categorias do capital que nos oprimem dia a dia. E a escola, pública ou privada, faz parte dessas categorias.

Isto de forma alguma pressupõe não nos envolvermos como comunistas nas lutas imediatas do proletariado, especialmente naquelas que tendem a um processo de generalização, extensão e auto-organização. Nelas, trabalhamos a favor da clarificação das minorias revolucionárias que surgem no seu seio, ajudando a romper a separação entre interesses imediatos e históricos do proletariado, e procuramos tornar-nos um factor activo para o futuro, quando o desenvolvimento da luta de classes criar condições mais favoráveis à direcção revolucionária desses processos.

Mas o movimento estudantil não é um movimento autónomo do proletariado, um processo de lutas que tende a expandir-se, a generalizar as suas reivindicações e a expressar-se através dos seus próprios organismos, mas um espaço interclassista construído por activistas que, de acordo com a visão leninista, tentam injectar no “proletariado” (ou em tudo o que encontrarem) a consciência desde fora:

 “Como podemos ver, as lutas autênticas do proletariado não se criam pela vontade conspirativa de alguns indivíduos. Esses processos apenas existem na mitologia que une burgueses e esquerdistas. A crise e o esgotamento histórico do capital tendem a romper os equilíbrios prévios através de movimentos de massas que actuam de um modo muito diferente das moléculas isoladas em tempos de paz social. Em tempos de paz social existem estruturas e práticas que são acordes com esses momentos. A preeminência da lógica política e sindical, a primazia da luta eleitoral e do corporativismo dos sindicatos, geram esses tempos em que prevalece o individualismo, a ambição pessoal, a tendência de cada molécula (indivíduo) a ir para onde a sua vontade imediata o leva. No entanto, os grandes movimentos de massas tendem a unir as moléculas sociais em torno de vectores de polarização social. É o que temos visto com os movimentos das praças dos últimos anos”.

(Catástrofe capitalista e teoria revolucionária)

CRÍTICA AO MOVIMENTO ESTUDANTIL

Depois de compreender a própria base material da educação capitalista, surge então a principal questão desta crítica: o que é o movimento estudantil?

Como entendido pela esquerda do capital, este é o conjunto de organizações e as suas lutas em torno dos centros educativos, como a luta dos jovens nesta área específica, a da educação, em contraste com a desenvolvida nos locais de trabalho através do sindicalismo. Em suma, poderíamos descrevê-lo como um "sindicalismo" estudantil. Assim como os operários lutam pelas suas condições de trabalho, os estudantes lutam pelas suas condições de estudante. Claramente, e para além das críticas necessárias aos sindicatos, não é o caso. Para compreender o que o movimento estudantil representa para nós, é necessário compreender a sua origem e surgimento.

O movimento estudantil nasce do processo de democratização dos estudos superiores a partir da Segunda Guerra Mundial. Este processo, que faz parte da criação dos Estados de Bem-Estar, tende a explicar-se por um medo da URSS ou do movimento operário, disfarçando de um avanço real na luta de classes a favor do proletariado o que não foi senão a necessidade de uma mão-de-obra mais especializada para o nível de desenvolvimento das forças produtivas e a capacidade do capital para o fazer, devido à grande taxa de lucro do período. Paralelamente, permitiu consolidar os mecanismos de diálogo social através dos sindicatos, dos partidos socialistas e estalinistas, todos eles órgãos da contra-revolução, para garantir a submissão ideológica do proletariado durante algumas décadas.

O acesso de uma parte do proletariado à universidade vai fazer nascer certas lutas específicas dentro dos centros universitários ao calor da vaga de luta de classes que estoura no final dos anos 60 e durante os anos 70. De facto, o imaginário de um corpo estudantil radical e combativo que temos associado a esses anos é incompreensível se não se situar no quadro de fortes movimentos de classe que se expressavam como um oceano de fenómenos, para usar a expressão de Rosa Luxemburgo, também no âmbito da universidade. No entanto, isso não deve impedir-nos de entender que também contavam com uma forte presença de organizações de esquerda, que vão ver no movimento estudantil uma presa para futuros militantes em “x” ou “y” organização, tudo isso mediante as tácticas que já criticámos antes: reivindicações específicas que possam atrair o maior número de possíveis militantes, ou seja, activismo dirigido a canalizar as exigências de um sujeito político, o estudante. Com esta categoria, gera-se a maior confusão, dissolvendo as diferenças de classe nela e criando uma disciplina separada com os seus interesses específicos.

Esta mesma confusão vê-se na ideia de “greve estudantil”, que iguala as categorias do proletariado e do estudantado e estabelece uma falsa analogia entre o antagonismo do trabalho e do capital com o do estudante e a escola. Além disso, na “greve estudantil” não só se separam as lutas operárias e aquela parte da classe operária que ainda permanece nos centros educativos, como também se separam os estudantes e trabalhadores dos centros estudantis, ou seja, o corpo docente, o pessoal administrativo, de limpeza e manutenção, etc., como um aspecto alheio às lutas dentro deles, enquanto centros de trabalho. Neste aspecto, a nossa visão é diametralmente oposta, uma vez que, como comunistas, entendemos que é preciso defender os interesses do proletariado em geral, sem fazer distinções em ramos, idades ou posição no posto de trabalho e não os separar segundo esses aspectos.

Toda esta construção em torno do estudantado gera que uma parte da juventude, ao entrar nos ambientes universitários, procure uma saída radical para este mundo e que em vez de uma perspectiva transformadora radical se depare com falsas promessas ou lutas vazias e se desgaste. Além disso, isso leva-a a fazer da militância uma concepção temporal, pois a dinâmica militante em ambientes esquerdistas termina quando o que se tem à frente é o sucesso laboral e social e o diploma já foi obtido, quando após todas essas lutas radicais da juventude o que toca é assentar-se sob o mundo do capital e passar o testemunho à próxima geração, criando falsos militantes que, no fim de contas, não são mais do que números temporários que se perdem após a conclusão dos estudos. 

DISCIPLINA JUVENIL

A ideia do sujeito “estudante”, como sujeito político separado, ou pelo menos com um quadro de actuação e organização separado do resto do proletariado, enquadra-se numa ideia ainda mais ampla de um sujeito “juventude”. Encontramos em todas as organizações de esquerda grupos específicos de juventude, o que costuma chamar-se de juventudes, aquelas pedreiras de militantes a partir das quais se poderá aceder ao partido propriamente dito. Isto não é exclusivo do actual esquerdismo, mas sim uma herança da II e III internacional. Como explicámos antes, assim como se reúne o estudantado numa luta específica, pretende-se reunir as juventudes numa organização específica para lutar pelos seus interesses imediatos. Isto pressupõe toda uma ideia do partido de massas e da táctica do frentismo.

Jovem é o imigrante recém-chegado às costas espanholas em busca de uma nova vida, jovem é o estudante que combina os seus estudos com o trabalho, jovem é o proletário russo ou ucraniano enviado para morrer na frente. Jovens também são os filhos da alta burguesia, os aspirantes a cargos de direcção em grandes empresas, jovens há policias, políticos, militares, etc.

Ser jovem não é nada e tende a explicar muito pouco, pois mesmo no lugar mais recôndito deste planeta, existem as classes. Falar de juventude isoladamente é falar em termos interclasses, tal como de sexos, raças e o resto das separações que este mundo, o do capital, nos impõe. A luta pela emancipação jamais poderá ser levada a cabo por um género, uma raça ou uma faixa etária, pois essas separações têm a sua origem não numa abstracta vontade dos homens de oprimir, mas na própria existência das classes sociais.

No entanto, o esquerdismo tende, de forma a meio termo, a aceitar este discurso. Já não se trata simplesmente de feminismo, mas de feminismo de “classe”, já não se trata de juventude, mas de uma juventude “proletária”. De alguma forma, argumenta-se que o proletariado jovem é mais proletário em virtude da sua juventude, sofre uma situação mais precária, uma maior dificuldade de aceder ao mercado de trabalho devido à sua falta de experiência, o que o leva a uma precariedade nos restantes aspectos da sua vida (habitação, poder de compra, etc.). Isto faria com que um dos eixos sobre os quais devem fundamentar-se as organizações comunistas seja o da juventude, a criação de grandes organizações juvenis.

No entanto, basta pensar na exploração do proletariado migrante, na precarização do trabalho feminino ou no proletariado de idade mais avançada, que é expulso cada vez mais cedo do mercado de trabalho, anos antes da reforma, com grande dificuldade em reintegrar-se. Não só existem outros sectores do proletariado (migrante, feminino) que vivem e têm condições muito precárias, como o proletariado de idade mais avançada sofre, de forma diferente, mas de igual modo, as consequências de uma crise que cada vez expulsa mais e mais força de trabalho, criando uma massa cada vez maior de população excedente, onde há tanto jovens como adultos. 

CARACTERÍSTICAS DA JUVENTUDE

Não podemos negar, no entanto, algumas características específicas que a juventude possui. Por um lado, sem dúvida, tem uma maior dificuldade de entrada no mercado de trabalho e de independência económica. Basta observar o actual problema da habitação e como isso afecta a capacidade de se tornarem independentes de grandes sectores da população jovem. Também acarreta menores obrigações familiares e económicas, obrigações menores que facilitam o desenvolvimento de uma actividade militante e, ao mesmo tempo, como se dizia antes, podem induzir menor seriedade na actividade que se desenvolve. Além disso, a juventude é aquele momento em que se começa a definir o sentido da vida e, por conseguinte, aquele momento — que não é o único — em que se pode fazer uma escolha de vida, como é a luta pela revolução.

As suas condições materiais tendem a tornar a juventude mais sensível à situação social e um elemento muito activo nos movimentos em que se vê envolvida. Isso pode ocorrer num sentido positivo, quando o proletariado jovem faz parte dos sectores mais radicais de um movimento de classe, ou num sentido negativo, quando nos períodos contra-revolucionários vemos a juventude ser a ponta de lança de movimentos como o estalinismo ou o fascismo. Hoje em dia encontramo-nos na erosão de um período ainda contra-revolucionário, no qual o proletariado ainda não se livrou dos fardos que negaram a sua perspectiva emancipatória ao longo de um século, embora esteja impulsionado para uma conflitualidade social crescente pela crise histórica do sistema. Neste quadro podemos entender o enquadramento de parte da juventude hoje em dia tanto na extrema-direita do capital, com organizações em Espanha como Núcleo Nacional ou Falange, como na esquerda e extrema-esquerda do capital, alimentada pela força de submissão do anti-fascismo à democracia. Também nos permite entender, para além da fotografia do momento, os processos de radicalização do proletariado jovem em busca de uma perspectiva programática capaz de enfrentar realmente este modo de produção moribundo.

TRANSFORMAR A JUVENTUDE NUM TEMA?

Estas características próprias da juventude proletária são as que fazem com que cada vez mais jovens se aproximem de posições de classe e revolucionárias.

No entanto, isso não pode levar a fazer da juventude proletária um sujeito específico ou identitário. Isso seria cair nas separações impostas pelo capital e entrar na sua própria lógica. Os comunistas não se organizam em torno do seu género, nacionalidade, idade, mas enquanto comunistas, isto é, em torno do seu programa. O Partido Comunista é uma prefiguração da sociedade futura, a sociedade comunista. O seu funcionamento é fervorosamente anti-burguês, anti-democrático, anti-individualista. Não podemos pretender que as divisões próprias do capital, que no entanto não podemos evitar
[1] penetrem de forma nociva dentro do nosso partido. É fundamental «que no partido se possa tender a dar vida a um ambiente ferozmente anti-burguês, que antecipe amplamente os caracteres da sociedade comunista, é uma antiga enunciação e exemplo para os jovens comunistas." [2]

É evidente o empobrecimento militante, em todos os sentidos, de se organizar de forma separada dos camaradas mais velhos, tanto para os jovens como para os companheiros que já não o são. Seria ingénuo negar as óbvias diferenças entre uns e outros, e é precisamente por isso que toma ainda mais valor a necessidade de uma organização conjunta, onde a experiência pode ensinar e dar exemplo a tudo aquilo que é novo, e os novos podem romper com tudo aquilo que fica ancorado ao passado, sob um mesmo programa, sob os mesmos princípios, sob a mesma forma organizativa, sob a mesma bandeira, a do marxismo invariante.

A ponta de lança do campo revolucionário sempre esteve cheia de jovens proletários. No Partido Socialista Italiano, a juventude tomou partido e provocou inúmeros debates dentro do Partido, desorientando os "velhos" que sempre subestimaram a FIGS (Juventude Socialista do PSI). Esta é precisamente a razão para não fazer da juventude um sujeito, para quebrar as separações feitas pelo capital, para criar um ambiente ferozmente anti-burguês. Porque a revolução não é uma questão de raças, géneros ou idades, é uma questão de classe, de classe, da classe proletária.

«Todo o ambiente burguês conduz ao individualismo. A nossa luta socialista e anti-burguesa, a nossa preparação revolucionária, deve direccionar-se para assentar as bases do novo ambiente. Isto é o que consideramos um programa integral para o movimento juvenil: libertar o desenvolvimento do carácter da influência exclusiva da sociedade actual; viver juntos, sejamos jovens trabalhadores ou não, respirando um ambiente diferente e melhor; cortar as pontes que nos unem a ambientes não socialistas; cortar os laços que nos impregnaram o sangue com o veneno do egoísmo e da competição; sabotar esta sociedade infame, criando oásis revolucionários destinados um dia a invadi-la por completo; cavar minas destinadas a abalar-lhe os alicerces». [3]

CONCLUSÕES

Nós, os comunistas, somos jovens, velhos, estudantes, trabalhadores com ou sem documentos, desempregados, reformados… mas a nossa participação nas lutas imediatas do proletariado não é determinada por nenhuma dessas características. Acima de tudo, participamos nas lutas de classe como comunistas.

E é nesse sentido que é necessária a crítica que desenvolvemos ao movimento estudantil ou juvenil, precisamente porque os comunistas não fazem sindicalismo estudantil nem constroem colectivos juvenis. Como se explicava anteriormente, a tarefa dos comunistas não é construir lutas. Sem um impulso espontâneo de um movimento que tenda a expandir-se, generalizar-se e auto-organizar-se, os “movimentos” construídos por activistas só podem ser movimentos parciais, cuja finalidade máxima é conseguir reformas e construir aparelhos de mediação com o Estado para as conseguir, e onde qualquer referência à luta contra o capitalismo é puramente ornamental.

Nesse sentido, o movimento estudantil é-nos alheio. Esta crítica não se dirige a propor o que o movimento estudantil deveria ser, mas a rejeitá-lo frontalmente. Porque nasce de uma categoria interclassista, o estudantado, dissolve os jovens proletários em formação nele, separando-os do resto da sua classe, e condu-los à defesa da educação estatal como uma forma de "conquista operária", quando na realidade é apenas uma forma diferente de gerir a sua miséria neste sistema. Perante o movimento estudantil, como um movimento que se organiza por si desde e para a reforma, nós intervimos como comunistas, sem separações de género, raça ou idade, onde quer que surjam lutas que tenham uma dinâmica própria, onde exista um movimento real da classe capaz de romper, ainda que potencialmente, a separação entre os interesses imediatos do proletariado e os seus interesses históricos. 

[1] Como seres determinados, não podemos fingir escapar, através de uma suposta liberdade absoluta, das determinações e formas de consciência impostas por este modo de produção. É ilusório pensar que, dentro do Partido, comportamentos sexistas, racistas ou individualistas desaparecerão. Precisamente por esta razão, é essencial combatê-la conscientemente e desenvolver formas organizacionais e métodos de trabalho que, tanto quanto possível, os previnam

[2] Um programa: l'ambiente, L'Avanguardia, 1913.

[3] Idem

 

Fonte: Una crítica comunista del movimiento estudiantil y los colectivos juveniles – Barbaria

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice