DA INSURREIÇÃO POPULAR À REVOLUÇÃO PROLETÁRIA
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| Robert Bibeau e Khider Mesloub |
CAPÍTULO 1. CONTRA A BOLCHEVIZAÇÃO DAS ORGANIZAÇÕES
O século XX começou
com uma guerra mundial seguida de uma revolução europeia e terminou com uma
miríade de guerras locais, seguidas por um período de reacção política e crise
económica. Como e porquê esta série de crises e guerras?
1. Até hoje, nunca
houve uma revolução proletária vitoriosa nesta terra de
miséria. Para os proletários revolucionários, uma revolução é
um movimento social de classe pelo qual a classe dominante de um modo de
produção é derrubada e substituída por um novo poder, uma nova classe social
dominante e um novo modo de produção hegemónico.
2. Assim, o movimento da "primavera
Árabe" nunca foi um movimento revolucionário. Pelo
contrário, tratou-se de uma série de revoltas populares destinadas a sacudir o
jugo de uma facção da classe capitalista árabe para exigir que esta tivesse em
conta o sofrimento e as necessidades das populações nacionais empobrecidas nos
vários países abalados por estas revoltas populistas. Sabemos agora que uma
facção nacionalista burguesa, agrupada sob a égide da "Irmandade
Muçulmana", tentou liderar estas revoltas e apresentar-se como
alternativa aos capitalistas compradores que governavam os vários países árabes
em apuros. Na maioria dos casos, a Irmandade Muçulmana fracassou diante da
resistência concertada das facções plutocráticas totalitárias já existentes e
fortemente apoiada pelas potências imperialistas "democráticas"
(sic).
3. No caso da revolução proletária que se
aproxima, o objectivo será derrubar o poder burguês, portanto o Estado burguês
totalitário, e substituí-lo temporariamente não pela ditadura de um partido,
mas pela da classe proletária e derrubar o modo de produção capitalista (MPC)
para substituí-lo pelo modo de produção proletário comunista.
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Ditadura do
proletariado
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A ditadura do
proletariado refere-se à forma de poder político de classe durante a fase de
transicção entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista. Foi durante
a revolução de 1848 que a expressão completa da "ditadura de classe
do proletariado" apareceu pela primeira vez. Anteriormente, Marx e
Engels falavam apenas do "proletariado organizado em classe
dominante". Para Marx, o termo proletariado não significa "povo
pobre", mas aqueles que trabalham e produzem mais-valia, cuja ponta de
lança é constituída pela classe operária. A "ditadura do proletariado"
é o exercício do poder político pela classe operária como um todo, e no seu
próprio interesse. As suas referências à "ditadura do proletariado"
mostram que, com isso, ele quis dizer o exercício do poder político pela
classe operária dentro de um quadro democrático popular onde a burguesia não
teria o tempo livre para organizar a contra-revolução. A ditadura proletária
será necessária durante o período histórico de transicção do capitalismo de
classe para o comunismo sem classes sociais e sem propriedade.
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4. Durante o Século XX, as tentativas de
"revolução proletária" fracassaram em favor das "revoluções socialistas" (socialismo =
forma totalitária de monopólio estatal do capitalismo) que hoje servem de
florete no quadro da propaganda burguesa. A classe capitalista decadente está
muito preocupada com o facto de os trabalhadores procurarem uma alternativa à
sua alienação e miséria de classe. Esta profunda miséria provocada por uma
sucessão interminável de crises económicas e guerras.
5. A primeira revolução proletária
internacional está a chegar. Ainda esperamos que assim seja e pode ser a
surpresa do Século XXI. Uma surpresa esperada pela classe proletária para o
desespero da classe capitalista pronta para todas as conspirações, guerras e
desvios para manter o poder e manter o seu moribundo modo de produção.
6. Não são os líderes
políticos que desencadeiam insurreições populares ou revoluções proletárias. Uma
insurreição popular é desencadeada pela multidão como um estrondo ensurdecedor,
espontâneo e anárquico que abala toda a estrutura social global. Se a classe
operária – ponta de lança da classe proletária – tomar a liderança do movimento
popular, transformá-lo-á numa revolução proletária. A vanguarda proletária apoiará
a classe nas suas lutas. As questões da organização da classe proletária na sua
luta revolucionária internacional para derrubar o Estado e o capital e
construir – não o socialismo, mas o modo de produção comunista moderno – devem
ser resolvidas no decurso do processo revolucionário. O modo de organização do
movimento revolucionário proletário será o Conselho de Classe ou Soviete. Desenvolver-se-á
à medida que a revolta de massas progride.
7. Uma insurreição, depois uma revolução
proletária, exige uma classe proletária numerosa, moderna, assalariada, a
trabalhar em fábricas avançadas altamente sofisticadas – digitalizadas –
mecanizadas – robotizadas – eficazes – eficientes – produtivas – fordistas e
tayloristas, a taxas infernais, sob a administração da classe capitalista e sob
a ditadura social do Estado dos ricos que patrocinam fantoches políticos de
esquerda e direita. Sem uma classe proletária tão desenvolvida, superexplorada
e empobrecida, nenhuma revolução proletária é possível. As massas camponesas,
os ajuntamentos de pequenos burgueses frustrados, empobrecidos e zangados,
descritos como a "classe média", não são a lenha das revoluções
proletárias. Devemos desconfiar dessas classes e segmentos de classe e alertar
a classe proletária para as tendências reformistas e conciliatórias dessas
fracções de classe "conspiratórias" e anárquicas, rápidas a depor as
armas.
8. Tal proletariado a lutar numa economia
industrial e financeira tão moderna, mundializada e globalizada não existia na
Rússia em 1917, Albânia (1945), China (1949), Coreia (1950), Cuba (1959),
Vietname (1973), qualquer outro país, ou qualquer outra revolta de "Revolução
Democrática Popular ou Nova Revolução Socialista
Democrática" (sic).
9. A maioria das insurreições deste período
foram referidas como Revolução Democrática Popular – ou
como uma luta de libertação nacional anti-colonialista e
anti-imperialista, que foram nomes apropriados na maioria dos casos
estudados. No entanto, estas não foram de modo algum revoluções comunistas
proletárias.
10. Uma revolução democrática popular marca o palco
da revolução nacional burguesa capitalista (assim é com
as lutas de libertação nacionalistas anti-coloniais e supostamente
anti-imperialistas). Estas «revoluções» não visavam derrubar um modo de
produção capitalista obsoleto e substituí-lo pelo modo de produção proletário
comunista. Todas estas "revoluções nacionalistas" marcaram a fase
histórica em que certas burguesias nacionais questionaram os laços económicos e
políticos coloniais em colónias como na Argélia, Canadá,
Austrália, Argentina, Venezuela, África do Sul, etc.; ou em colónias de
exploração como o Congo, Cuba, Senegal, Líbia, Síria, Afeganistão,
Camboja, Filipinas, etc. Os capitalistas nacionais, ligados por laços
financeiros a uma ou mais potências coloniais dominadoras, revoltaram-se e
exigiram o estabelecimento de novas relações de produção nas quais teriam a
participação mais proeminente na gestão dos assuntos neo-coloniais locais e na
partilha das riquezas saqueadas. Assim, a luta anti-apartheid na África do Sul,
não sendo liderada pelo proletariado sul-africano, resultou na partilha dos
poderes económicos (financeiros, industriais e comerciais), políticos
(legislativos e executivos), administrativos, judiciais, militares entre os
diferentes grupos da burguesia, brancos, negros, indianos e asiáticos presentes
na África do Sul. O proletariado sul-africano de minas, fábricas e agricultura
não viu nada mudar na sua vida miserável de escravo assalariado (1).
11. Onde quer que ocorressem, as revoluções democráticas desses
povos eram burguesas, camponesas, às vezes anti-feudais, muitas
vezes nacionalistas e anti-coloniais, mas nunca anti-capitalistas ou
proletárias. Em todos estes países, a classe proletária revolucionária não era
maioritária.
12. As revoluções democráticas destes povos não visavam
cortar completamente os laços económicos e políticos que ligavam estas colónias
à sua "pátria" e aos impérios coloniais ocidentais. Estas
revoluções democrático-burguesas – mesmo quando lideradas por partidos que se
diziam "comunistas", "socialistas", "vermelhos"
ou "revolucionários" – procuraram redefinir as relações económicas,
políticas, jurídicas e administrativas que a burguesia nacional mantinha com a
burguesia imperialista hegemónica dos países dominantes agrupados sob uma ou
outra aliança imperialista. Quando a Revolução Bolchevique, tendo cortado os
seus laços com os países do imperialismo mundial, quis prosseguir com a
industrialização acelerada das Rússias soviéticas, o poder estatal soviético
teve que restabelecer pontes com os países imperialistas e reavivar o comércio
com os países capitalistas avançados.
13. Na maioria dos países colonizados, a burguesia nacional envolveu-se na
efígie do socialismo, ou mesmo do comunismo, que amalgamou com as suas próprias
vestes nacionais chauvinistas para recrutar o povo – incluindo a classe
operária – para usar esta carne para canhão nacional, esta força militante
arregimentada e formatada, em defesa dos interesses de classe de um ou outro
dos clãs de guerra "patrióticos".« . Estas guerras de
libertação nacional visavam apenas impor uma camarilha nacional como
beneficiária e intermediária na exploração mundializada dos trabalhadores –
camponeses – operários – pequenos comerciantes – e pequenos burgueses
nacionais.
14. Em alguns casos particulares, como a Rússia (1917), Albânia (1945), China
(1949), Coreia (1950), Vietname (1973), as forças "comunistas"
assumiram a liderança das insurreições populares que não podiam ser
insurreições proletárias, uma vez que o proletariado desses países era fraco,
fortemente minoritário, inexperiente e alienado, absolutamente não galvanizado
para destruir o poder do Estado e para a construção de uma sociedade comunista
internacionalista. Ao usurpar a direcção de classe da revolução, o Partido
Bolchevique viu-se obrigado a continuar essa usurpação e a substituir os
sovietes de camponeses, operários e soldados – e a apoderar-se da governação do
aparelho de Estado que só podia ser capitalista, porque não se pode fazer da
economia histórica um modo de produção e passar por cima de uma etapa da
evolução económica e social nacional. saltando do feudalismo para o comunismo
sem passar pelo capitalismo produtivista avançado, mecanizado, robotizado e
imperialista. Analisaremos este ponto em detalhe nas páginas seguintes.
Os partidos comunistas
bolcheviques, albaneses, chineses, coreanos, cubanos e vietnamitas viram-se na
posição de ter que construir a economia capitalista industrial altamente
científica para constituir as forças produtivas e criar as bases materiais,
industriais, comerciais e comunicativas do capitalismo. A revolução proletária
mundial exige a implantação de um proletariado mundial moderno e esta classe só
pode desenvolver-se sob o jugo da burguesia e sob o modo de produção
capitalista e as relações de produção que compreendem a propriedade privada ou
estatal burguesa dos meios de produção. Os partidos comunistas no poder
(incluindo os dos países do Comecon), à frente das condições
objectivas da revolução proletária, construíram as bases económicas e políticas
capitalistas da revolução proletária que se avizinha.
15. Foi o
caso da URSS (1921, a NEP, depois os sovietes), da Albânia em 1945, da China em
1949, da Coreia em 1950, de Cuba em 1959, do Vietname em 1960-1973, etc. Em
todos estes países, os "comunistas" (reais ou auto-proclamados)
viram-se a compensar a fraqueza organizativa e estrutural da classe burguesa
nacional e a ordenar a construção do modo de produção capitalista em cada um
dos seus Estados-nação. O proletariado não tem pátria, tem apenas
as suas cadeias (nacionais, em particular) para quebrar.
16. A Segunda Guerra Mundial, a que os "camaradas"
soviéticos chamaram, com razão, A Grande
Guerra Patriótica Multinacional,
merece uma análise cuidadosa. Esta segunda guerra imperialista revela o
amadurecimento das condições objectivas da revolução proletária ao
mesmo tempo que revela o definhamento das condições subjectivas da revolução
mundial que se avizinha.
17. A revolução proletária mundial está a chegar. A
burguesia mundial, nesta questão como noutras, mente descaradamente e a sua
propaganda pretende confundir tudo. A era das revoluções proletárias não ficou
para trás. A História ensina pelo exemplo e pelo contra-exemplo. O
actual estado de desenvolvimento do modo de produção capitalista, das
suas forças produtivas, dos seus meios de produção,
distribuição-comercialização e comunicação, num contexto de intensificação e
aprofundamento da crise económica sistémica do capitalismo, prenuncia
um futuro tremor sísmico de classe que abalará os pilares do templo mundial.
CAPÍTULO 2. DA REVOLUÇÃO DE OUTUBRO AO PÓS-GUERRA FRIA
18. As autoridades ideológicas e políticas nunca são as
instâncias dominantes da luta de classes. No entanto, numa
situação de insurreição, estes organismos podem tornar-se decisivos. Em todos
os momentos, é a autoridade económica da luta de classes entre capital e
trabalho, entre a burguesia e o proletariado, que é dominante. Qualquer análise
concreta de uma situação social e política concreta deve, portanto, começar
pela análise do contexto económico da luta.
19. Toda organização proletária evolui de acordo com as directrizes impostas
pela progressão da luta de classes, primeiro na frente económica, depois nas
frentes política e ideológica. Nenhuma organização política domina o movimento
proletário espontâneo e uma organização revolucionária deve ajustar-se aos fluxos
e refluxos do movimento revolucionário impulsionado pela autoridade económica.
É esta incapacidade de compreensão e ajustamento que explica a anemia –
isolamento – sectarismo e dogmatismo do movimento de esquerda comunista mundial
face às exigências da actual fase pré-revolucionária.
20. Após a derrota da Revolução Russa, a "bolchevização" das
organizações comunistas e da Internacional Comunista impôs-se
ao movimento como a aceitação dessa derrota. A "bolchevização" das
organizações não foi a razão para a derrota da revolução na Rússia e em vários
outros países. A "bolchevização" foi o resultado
do definhamento da onda insurreccional espontânea e do beco sem saída
revolucionário para o qual os proletários da Europa e da China foram forçados.
21. Para compreender o caminho percorrido pelo Partido Bolchevique,
pela Internacional Comunista e pelos partidos
comunistas nacionais, é necessário analisar as transformações iniciadas
na instância económica da luta de classes durante a Grande Guerra de 14-18.
Assim, um país feudal atrasado no plano económico, industrial, comercial,
financeiro, e sobretudo do ponto de vista do desenvolvimento das forças sociais
produtivas (camponesas e artesanais), não pode, de forma alguma, dar origem a
um Estado, uma sociedade de transicção, que caminhe para o modo de produção
comunista. Isto é ainda mais verdade se esta sociedade atrasada estiver isolada
e sitiada por países capitalistas agressivos e intervencionistas.
22. Destes prolegomena, segue-se que a tomada do poder pelo Partido Bolchevique
na Rússia e, em seguida, a campanha de conquista dos territórios de todas as
Rússias pelo Exército Vermelho foram os erros
fundamentais que desencadearam a degeneração do movimento revolucionário bolchevique. Se
a construção de uma sociedade dita "socialista" de transicção para o
modo de produção comunista tivesse sido possível na URSS em 1917, o "estalinismo",
como alguns lhe chamam, e todas as outras variantes de oportunismo e reformismo
teriam sido rejeitadas pelo proletariado revolucionário. Mas, precisamente, o
proletariado russo era muito minoritário (7 milhões de indivíduos no máximo),
enquanto as massas camponesas eram a maioria (mais de 35 milhões de muzhiks,
semi-escravos e analfabetos, trabalhando o solo com o arado) num país ainda não
saído do feudalismo e governado por um monarca despótico contando com uma
aristocracia reaccionária. Os outros Estados e territórios agrupados em torno
da Federação das Rússias Soviéticas estavam num estado de atraso económico
ainda mais profundo e depredação social. Em muitos desses países feudais, o
proletariado nem sequer existia. As condições objectivas da revolução
proletária ficaram aquém das condições subjectivas, ideológicas e políticas. A
vontade revolucionária do Partido Bolchevique e de Lenine não conseguiu
compensar este atraso económico, político, social e ideológico.
23. Com excepção de
algumas raras correntes comunistas de esquerda, a maior parte das correntes
políticas oposicionistas não conseguiu diagnosticar o impasse em que se encontrava
a revolução bolchevique, que se encaminhava para a criação de um poderoso
Estado burocrático monopolista, destinado a conduzir a Federação Russa à
passagem obrigatória para o modo de produção capitalista monopolista. As muitas
oposições de esquerda e de direita sugeriam que apenas a direcção
revolucionária estava errada e que podia ser rectificada. Sugeriam que uma
infinidade de decisões estavam erradas e que uma vigorosa mudança
organizacional e administrativa seria suficiente para endireitar o navio
embriagado do Império Soviético em construção
24. Este foi o erro de Trotsky em particular,
que propôs a sua própria linha oportunista em vez da de Estaline. A
mesma atitude por parte de Zinoviev, Kamenev, Pyatakov, Radek, Rykov, Bukharin e
todas as oposições. O "estalinismo", para usar a
expressão usada por estes opositores, foi a resposta oportunista de uma
revolução encurralada por uma economia e uma sociedade arqueadas em relação às
necessidades de uma revolução proletária comunista.
25. De facto, o uso do termo "estalinismo" revela um
desvio idealista na análise materialista dialéctica da situação económica,
política e social da Rússia soviética. A história da humanidade não é a
história dos grandes homens onipotentes. A história da humanidade é a história
das massas populares organizadas e actuando nas classes sociais. O chamado
"estalinismo" foi a resposta do modo de produção, das
relações de produção e das classes sociais (maciçamente camponesas e
analfabetas) de todas as Rússias incapazes de dar origem ao modo de produção
comunista enquanto ainda não tinham conhecido o capitalismo monopolista
produtivista, mecanizado, electrificado e digitalizado. Não houve revisionismo
estalinista. Houve o revisionismo bolchevique (que Estaline concretizou) e
quando Kruschev desmascarou Estaline a ideologia revisionista bolchevique
manteve-se em vigor até ao seu colapso em 1991 – tendo cumprido a sua missão
histórica. A revolução proletária está agora na ordem do dia na Rússia
imperialista... seja qual for o nome do imperador.
26. Não obstante as correntes sectárias e dogmáticas, demos crédito ao Partido
Bolchevique e a Estaline por terem conseguido, melhor do que ninguém, liderar o
império de toda a Rússia feudal na construção de um poderoso capitalismo monopolista
totalitário de Estado. Imaginem o que teria sido se o czar e a sua corte feudal
tivessem recuperado o poder. Imaginem os destacamentos de cavalaria e os seus
soldados de infantaria a esmagarem os panzers das divisões nazis. Porque a
Alemanha teria atacado e ocupado a Rússia e as suas dependências sob o domínio
czarista com a mesma certeza com que o fez na República Soviética. Porque o
imperialismo alemão teria precisado tanto do trigo da Ucrânia, do petróleo de
Baku, dos minerais dos Urais e dos escravos assalariados da Rússia czarista.
27. A revolução proletária não foi traída pelo Sr.
Trotsky, nunca ocorreu, porque estava paralisada nesta estreita economia
feudal, isolada e sitiada. A Revolução de Outubro esteve à frente da história.
As condições subjectivas superaram as condições objectivas. O oposto do que
observamos um século depois na América, na Europa, na China imperialistas. Como
e porquê esta reversão? Foi antes e durante a Segunda Guerra Mundial que esta
viragem, esta liquidação das condições da revolução proletária internacional,
começou.
28. O Partido Bolchevique, através do seu controlo legal sobre o aparelho de
Estado soviético, tornou-se o principal veículo para a promoção social
e a construção da classe burguesa burocrática totalitária das repúblicas
soviéticas. Foi através do Partido, e através do Estado controlado pelo
Partido, que se construiu a superestrutura de classe burguesa indispensável
para a construção do modo de produção e troca capitalista (MPC), ao mesmo tempo
em que essa construção criou as bases materiais necessárias para que essa
classe se consolidasse. Esta classe exibirá abertamente o seu poder em
diferentes fases do desenvolvimento histórico do capitalismo na URSS. Primeiro,
durante a imposição da Nova Economia Política (NEP-1921), depois na época da
"dessovietização" da URSS (os sovietes foram transformados em
conchas vazias despojadas de todo o poder). Em segundo lugar, na preparação do
país para o confronto mundial de que fez parte o processo de "bolchevização"
das organizações comunistas nacionais e internacionais. Depois veio a revolta
palaciana organizada pela camarilha em torno de Kruschev, seu
porta-voz. Este "golpe de Estado", solidamente apoiado
pela burguesia dentro do Partido, foi levado a cabo sem que os funcionários
membros do Partido Comunista (bolchevique) vacilassem. Depois, o culminar desta
descida ao inferno marcou a liquidação definitiva da ordem jurídica totalitária
"soviética" orquestrada por Gorbachev, porta-voz dos
apparatchiks do Partido instalados no poder do Estado e com pressa de se
apoderarem dos meios de produção e das trocas públicas. Apesar da evidência
dessas evidências observáveis para aqueles que têm olhos para ver, a "bolchevização"
(que começou no final dos anos vinte), e sua regra de chumbo levou a melhor
sobre qualquer dissensão nas organizações comunistas, mesmo entre a Oposição
que se refugiou no dogmatismo e no sectarismo mais obtuso. Mais tarde, os maoístas em
Pequim e os "hojistas" em Tirana foram incapazes de
compreender os profundos fundamentos sociais e económicos da revolta do palácio
Kruschevite e as suas consequências, que também prevaleceram.
29. Pior ainda, grande
parte das energias dos pequenos grupos da esquerda comunista da
oposição, desde a década de 1920 até aos nossos dias, foram desperdiçados a
destruir-se e a excomungar-se uns aos outros. Porque é que o proletariado
internacionalista se há-de amarrar a estes barcos à deriva, que se debatem em
recifes ideológicos tão distantes do marxismo dialéctico?
30. A 'bolchevização' do PC(b), da Internacional
Comunista e dos partidos comunistas nacionais foi a resposta da
nova burguesia estatal soviética à agressão económica, política e ideológica
que sofria por parte das burguesias capitalistas envolventes e
concorrentes." Como Arthur Koestler mostra muito bem em "Zero
e Infinito", a dialéctica dos expurgos sucessivos foi sustentada pelo
facto de que o Partido e a Pátria do Socialismo, a URSS, (sic) estavam cercados
de inimigos. Era preciso dar a impressão de uma fortaleza sitiada para
consolidar a "fé" no Partido e criar nostalgia de uma comunidade
perdida: um patriotismo organizativo. Esta ficção funcionou bem,
uma vez que muitos opositores se denunciaram, fizeram a sua autocrítica ou
assinaram "confissões" para defender o partido. Mas o que é incrível
é que as tácticas que funcionaram perfeitamente dentro dos partidos comunistas
estalinizados do período entre guerras tendem a ser facilmente perpetuadas nas
organizações revolucionárias de hoje" (1).
Acrescentamos que a
vaga de organizações marxistas-leninistas e maoístas que surgiu durante a crise
económica sistémica mundializada dos anos setenta também se afundou nas
salgalhadas da "bolchevização", no Tribunal dos Milagres do
sectarismo, do comunitarismo e do dogmatismo que, no entanto, Lenine tinha
criticado duramente: É dever dos militantes comunistas verificar por si
próprios as resoluções dos níveis superiores do Partido. Quem na política
aceita a sua palavra é um indecrável." (Lenine citado em Concepção do
Líder Genial. Internacionalismo, nº 25, 1947.) (2)
31. A organização proletária revolucionária baseia-se na necessidade e no dever
de debater questões económicas, políticas, sociais, organizacionais, teóricas,
ideológicas e morais no seio das organizações e no direito de formar fracções
dentro da organização, como escrevem os camaradas da esquerda comunista: Toda
a história do movimento operário, e os seus momentos mais ricos comprovam-no,
não passou de um confronto contínuo de grupos e tendências. (3) A
organização proletária revolucionária não é, nem pode ser, uma organização de
massas composta por centenas de milhares de membros, enquanto a omnipotência do
totalitarismo capitalista monopolista de Estado é galopante. Quando a economia
capitalista experimenta recuperações em prosperidade relativa – o movimento
revolucionário proletário experimenta recuos significativos. Quando a economia
capitalista monopolista de Estado experimenta surtos de crise, o movimento
revolucionário proletário experimenta surtos significativos de febre
revolucionária. É então desejável que as organizações proletárias
revolucionárias consigam ascender ao auge ideológico e político da missão
histórica da classe revolucionária.
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32. Em 1945, a vitória da economia política capitalista monopolista do Estado
soviético sobre a economia política e militar imperialista alemã não
transformou esta Segunda Grande Guerra Imperialista numa guerra pela defesa da
"pátria" dos proletários. O proletariado não tem "pátria",
tem apenas as suas correntes para quebrar, especialmente as suas cadeias
"patrióticas e nacionalistas". Do ponto de vista do Império
Soviético, o Partido "Nacional" bolchevique tinha razão em
chamar este conflito de Grande Guerra Patriótica Multinacional,
porque essa luta não era a batalha do proletariado soviético internacionalista
(sendo criado nas fábricas estatais sob os slogans produtivistas e stakhanovistas).).
Este conflito foi o da resistência dos povos multinacionais soviéticos e
burgueses que lutavam ferozmente para preservar o seu novo Estado-nação
industrializado e modernizado, criado aceleradamente por "comunistas"
desorientados. Uma etapa necessária e incontornável para a preparação da
revolução proletária que se avizinha.
33. Do
ponto de vista marxista proletário, a guerra civil nacionalista patriótica da
2ª República Burguesa Espanhola foi o prelúdio da Grande Guerra
Patriótica Soviética de
1941. Em 1936-1939, foram os soldados monárquicos patrióticos espanhóis,
liderados por Franco, que
assassinaram os seus irmãos de classe republicanos nacionalistas patrióticos
apoiados pelas potências imperialistas do Ocidente (incluindo a URSS). Foram as
tropas republicanas do governo burguês de Madrid que exterminaram os seus
irmãos de classe apoiados pelas potências imperialistas do Eixo.
34. O movimento operário mundial estava às vésperas do Tratado de
Não-Agressão Germano-Soviético (1939 – primeira reviravolta de
alianças) e cinco anos antes da Operação Barbarossa (1941 – segunda reviravolta
de alianças); sete anos antes da dissolução da Internacional Comunista (1943)
e nove anos antes dos acordos imperialistas de Ialta e Potsdam (1945) e da
divisão do mundo entre potências imperialistas triunfantes e sempre
concorrentes – como viria a atestar mais tarde a Guerra Fria imperialista.
Tantos acontecimentos económicos, políticos, militaristas e diplomáticos que em
nada contribuíram para a revolução proletária, digam o que disserem os exegetas
do estalinismo (4).
35. Após os acordos imperialistas de Ialta e Potsdam (1945), o império soviético
expandiu-se ainda mais, para as portas do Adriático, para o Elba, para o
Báltico, sobre parte da Finlândia e para as Ilhas Curilas, após a entrada não
provocada na guerra contra o imperialismo japonês (5). Sabemos agora o que
aconteceu a estas conquistas de curta duração para o império russo-soviético.
Em 1989, foi destruído o anacrónico Muro de Berlim, símbolo do
declínio desta frágil aliança económica (Comecon 1949-1991)
enredada nas suas contradições económicas primeiro, depois políticas, sociais e
militares. Todos devem concluir que o capitalismo monopolista de Estado
soviético provou ser menos eficiente – menos produtivista – menos capaz de
valorizar e fazer circular o capital de forma acelerada, menos capaz de
produzir mais-valia e lucros para alimentar a acumulação, do que o capitalismo
monopolista "liberal" financeirizado, mundializado e
globalizado no qual a nova Rússia imperial estava integrada (6).
36. Em 2008, a variante dita "liberal" das relações de
produção capitalistas foi abalada por tremores sísmicos de alcance
internacional que são o início dos maiores que estão por vir. Este inevitável
colapso será infinitamente mais catastrófico, porque este modo de produção
decadente está no fim do seu declínio e só pode prever a sua sobrevivência
através de guerras termonucleares, virais, sísmicas e climáticas.
37. A Segunda Guerra Mundial
foi a resposta do modo de produção capitalista à crise económica de 1929, tal
como a Primeira Guerra Mundial foi a resposta do modo de produção capitalista à
crise económica do final do século XIX. A conquista de novos mercados foram os
objetivos da primeira onda de "mundialização" (1870-1914) sob a
hegemonia imperial britânica.
Este período será
marcado pela formação de monopólios, pela acumulação de capital nas mãos de
alguns plutocratas, pela fusão do capital industrial e do capital bancário e
por uma prolongada crise financeira e económica, a "Longa Depressão"
(1873-1891). Este último foi o produto deletério de uma "idade de
ouro" económica que fez a felicidade dos rentistas que não puderam
contribuir para a reprodução ampliada do capital desde a crise de sobreprodução
(relativa) que grassava no mundo capitalista (na fase imperialista). Esta longa
e grave depressão, que começou com uma grave crise bancária, foi precedida por
um duplo movimento de especulação imobiliária e especulação bolsista,
facilitado pela liberalização bancária da década de 1870 em vários países
europeus.
38. Sob o modo de produção capitalista (MPC) uma guerra nunca é
fundamentalmente ideológica, étnica, racial, religiosa, moral, social,
nacional. Sob o modo de produção capitalista, uma guerra é sempre o resultado
das profundas contradições económicas que se reflectem nas relações de produção
das classes sociais antagónicas. É então que estas guerras económicas de rapina
e divisão de zonas de influência e mercados assumem o aparecimento de conflitos
étnicos, culturais, religiosos, morais, sociais e nacionalistas.
39. Hoje, o ressurgimento da crise económica sistémica do capitalismo moribundo
está a levar as potências de uma aliança imperialista (atlântica) a lançar uma
série de guerras de pilhagem e controlos de mercado no Médio Oriente, rico em
petróleo, a fim de garantir o seu domínio sobre as fontes de combustíveis
fósseis. Matam e substituem os velhos intermediários nacionalistas locais
demasiado gananciosos ou desviantes. Entraram em confronto com outra potência
imperialista quando tentaram substituir o subalterno Bashar al-Assad na Síria.
Esta sucessão de guerras localizadas de rapina levou ao deslocamento das
relações sociais de produção nesses países integrados no conjunto económico
imperialista mundializado e globalizado.
O vazio de governação
do Estado burguês provocado por estas guerras contínuas, nesta frágil área
geográfica e em grave crise económica, provocou a emergência de alternativas
tribais, étnicas, gregárias, religiosas, nacionalistas, apresentadas por
diferentes segmentos da burguesia e da oligarquia principesca local (o Estado
Islâmico, Iémen dividido, o Estado Curdo, o Estado Bantustão-Palestiniano, o
Sudão cristão, Líbano segmentado, Iraque dividido, etc.) apoiados por
diferentes potências internacionais. Ao contrário do que afirmam os
"teóricos da conspiração" burgueses – "caos e anarquia" não
são os objectivos desejados, mas são, no entanto, os resultados obtidos dessas
atividades bélicas mantidas e financiadas dentro e fora das áreas tribais. As
guerras e a diplomacia nunca são mais do que extensões da política, ela própria
uma extensão da economia em crise sistémica (7).
**********
40. Voltemos
à Segunda Guerra Mundial, que é amplamente discutida nos noticiários por
ocasião das comemorações do 70º aniversário da vitória imperialista
soviética sobre o imperialismo alemão. Sem dúvida, o imperialismo soviético sofreu
o ataque mais significativo do exército alemão. Acredita-se que quatro a seis
milhões de soldados tenham sido destacados em toda a planície soviética,
incluindo as unidades de elite do Terceiro Reich. É compreensível que assim
fosse. Era a partir da riqueza confiscada à União das Repúblicas Soviéticas que
o Império Alemão pretendia abastecer o seu exército, reanimar a sua economia,
revitalizar a sua indústria, preparar-se para contrariar a invasão
americano-britânica na Frente Ocidental e continuar a sua agressão contra o
Norte de África. O capitalismo monopolista de Estado totalitário russo
conseguiu mobilizar as forças dos povos multiétnicos na Grande Guerra
Patriótica para
salvaguardar o poder do Partido Bolchevique sobre o aparelho de Estado totalitário
e repelir o invasor estrangeiro que veio saquear, explorar, pressionar, matar e
sangrar a pátria multinacionalista.
41. A missão foi cumprida e a barbárie inimiga desencadeada contra as nações de
toda a Rússia foi repelida à custa de múltiplos sacrifícios (entre 22 e 26
milhões de mortos e milhões de feridos). Após a guerra, a União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas, sob os acordos negociados com os seus aliados
imperialistas, protegeu as suas fronteiras por um glacis (fortificação – NdT)
de países escravizados. Estes países, a começar pela Jugoslávia titoísta e pela
Roménia de Ceausescu, viriam mais tarde a tentar libertar-se deste domínio
imperialista restritivo, acreditando que jogar nas mesas soviética e
americano-britânica poderia beneficiá-los. Hoje, Vladimir Putin,
digno sucessor dos apparatchiks soviéticos, continua esta política de
manutenção de um glacis de países sujeitos às portas do império cercado. As
guerras no Cáucaso, nos Balcãs e na Ucrânia atestam-no amplamente.
42. Sem dúvida, a Rússia está em modo defensivo e está sob ataque da Aliança
Atlântica Imperialista (OTAN). Este é o preço que deve pagar pelo conluio com a
nova potência imperialista chinesa "emergente", cuja sombra paira
sobre o horizonte da economia política mundial. Tudo isto não impede que a
Rússia e a China imperialistas expandam a sua zona de influência em África, na
América do Sul e no Sudeste Asiático (8).
43. A esquerda comunista não tem de apoiar a propaganda russa ou a propaganda
americana sobre os acontecimentos em torno da Segunda Guerra Mundial
imperialista na Frente Oriental. O que a classe operária precisa de saber é que
nesta guerra, como na que a precedeu, serviu de carne para canhão para a defesa
dos interesses das várias burguesias e oligarquias nacionais. Tal foi a
natureza imperialista desta Segunda Guerra Económica, Política e Militar e, tal
como ontem, os capitalistas nacionalistas fizeram campanha pela defesa do
totalitarismo "democrático" contra o totalitarismo
"fascista". Desde o preço destes acontecimentos catastróficos até à
utilização da bomba atómica por uma das alianças beligerantes. Temos de retirar
lições para a esperada revolução proletária e contra a planeada guerra
termonuclear.
44. Esclareçamos de passagem que, tendo em conta o nível de desenvolvimento dos
meios de produção, das forças produtivas e das relações sociais de produção
entre as potências beligerantes, a derrota das potências do Eixo era
inevitável. Assim, a Alemanha mostrou-se incapaz de montar um projecto
científico-militar como o Projeto Manhattan (bomba atómica),
pelo qual o imperialismo norte-americano se posicionou como a primeira potência
tecnológica hegemónica do século vindouro. Quanto ao Japão, basta referir que
não produziu novos porta-aviões ou grandes couraçados durante a guerra –
atestando que o seu enorme esforço de guerra absorveu todas as forças vitais
desta economia que mal tinha entrado na economia mundializada. O imperialismo
norte-americano, por sua vez, acelerou muito a produção da sua marinha, a arma
preferida na Guerra do Pacífico. O enorme poder económico e militar americano
aliado ao poder soviético formou a dupla invencível desta Segunda Guerra
Mundial imperialista. O período do pós-guerra – a "Guerra Fria"
– levará cinquenta anos a decidir entre as capacidades de cada uma destas
potências dominantes para sobreviver à crise sistémica do capitalismo na fase
imperialista.
45. Para concluir, duas superpotências hegemónicas não podem coexistir
pacificamente, militarmente, diplomaticamente ou de outra forma. Se a URSS
sobreviveu durante setenta anos ao lado do campo imperialista atlântico, é
porque a União das Repúblicas "Socialistas" soviéticas foi a forma
económica, política, jurídica, ideológica do modo de produção e troca
capitalista monopolista nesta parte do mundo.
Parece hoje que a
potência imperialista russa encontrou cúmplices (BRICS) com quem fazer uma
aliança para prosseguir o seu destino económico e social burguês. Infelizmente,
para os herdeiros dos construtores do capitalismo monopolista "soviético",
independentemente do seu aliado imperialista, o modo de produção capitalista
mundializado e globalizado está moribundo e vai arrastá-los para o fundo com o
resto da sociedade capitalista numa alhada.
***********
46. Rapidamente, que a classe proletária revolucionária se retire desta
salgalhada e volte ao essencial. Ou seja, compreender melhor o mundo económico,
político e ideológico actual para iluminar o caminho da revolução proletária
que se avizinha. Como fez a esquerda comunista italiana nos anos trinta,
afirmamos que o programa da classe proletária revolucionária hoje é:
a) Não trair os
princípios do internacionalismo proletário. Neste período de crise sistémica do
capitalismo na fase imperialista decadente, as lutas de libertação nacional são
reaccionárias e anti-proletárias.
b) Não há frente única
com os patriotas sociais, os "antifascistas" e os burgueses
"democráticos" pró-ditaduras. A classe proletária é a única classe
social-revolucionária consistente e qualquer outra classe ou fragmento de
classe que queira contribuir para a insurreição proletária deve colocar-se sob
a liderança da classe proletária.
c) A classe proletária
não tem de federar ou assumir as reivindicações reformistas de outras classes
ou sectores de classes sociais empobrecidas no decurso da crise degenerativa
sistémica do capitalismo.
d) Por todo o lado no
mundo globalizado e mundializado, a única maneira de parar o impulso para a
guerra e o totalitarismo estatal burguês é promover a insurreição popular e a
revolução proletária mundial. Não há espaço para lamúrias oportunistas ou
especulações reformistas. Chegou a hora de a tropa ser convocada para liderar
escaramuças que preparam a insurreição geral.
e) Façamos um balanço
dos fracassos da vaga revolucionária dos anos vinte, da Revolução Bolchevique
em particular; a vaga revolucionária do pós-guerra, em particular a Revolução
Chinesa (1949); a vaga pré-revolucionária dos anos sessenta e setenta, em
particular a Guerra do Vietname (1973); elaborar as lições apropriadas para que
sirvam de base ideológica marxista para os novos partidos e organizações que
inevitavelmente surgirão no ressurgimento do movimento proletário espontâneo
que apenas começou[9].
f) Como conseguirá a
classe proletária revolucionária transformar o movimento insurrecional popular
espontâneo numa revolução proletária consciente para cumprir a sua missão
histórica agora – ou daqui a cinquenta anos? Esta
é a nossa preocupação (10).
A contradição fundamental do capitalismo
47. Quando o desenvolvimento dos meios de produção –
compreendendo as forças produtivas vivas [trabalho] – se torna
conflituoso com as relações de produção (financeiras, bancárias, monetárias,
sociais, etc.), todo o modo de produção corre o risco de implodir. No Grundrisse,
Marx descreveu este postulado da seguinte forma:
« A partir do
momento em que o trabalho na sua forma imediata [viver e produzir mais-valia]
deixou de ser a principal fonte de [criação de] riqueza [reprodução do
capital], o tempo de trabalho [trabalho necessário e excedente] cessa
e deve deixar de ser a sua medida [da reprodução do capital]
e, portanto, o valor de troca também deixa de ser valor de uso. Assim, a
produção [o modo de produção] baseada no valor de troca [comercial]
entra em colapso. Mais tarde, Marx acrescenta: "A partir de então, o
processo de produção deixa de ser um processo de trabalho, no sentido de que o
trabalho constituiria a sua unidade dominante. Nos muitos pontos do sistema
mecânico, o trabalho já não aparece como um ser consciente, sob a forma de poucos
trabalhadores vivos, dispersos, submetidos ao processo global das máquinas,
eles formam apenas um elemento do sistema, cuja unidade não reside no
trabalhador vivo, mas na maquinaria viva (activa) que, em relação à actividade
isolada e insignificante do trabalho vivo, aparece como um organismo
gigantesco. (K Marx. Grundrisse (1857). Capítulo 3, Capital, Edição 10/18, p.328.)
48. O que entender dessa lei própria do modo de produção
capitalista? Este mecanismo concreto e objectivo de desintegração do valor de
troca das mercadorias em geral e da mercadoria mais valiosa de todas – a força
de trabalho – leva à inevitável divisão entre a mercadoria
fetiche – o dinheiro – e todas as outras mercadorias
comercializadas que supostamente representa.
49. Aqui reside exactamente a fonte de todos os surtos de febre
financeira (bancária, bolsista, monetária) e das sucessivas crises do modo de
produção capitalista. Aqui, pelo menos na fase imperialista do capitalismo,
reside a profunda manifestação da contradição entre o capital-mercadoria [meios
de produção e troca] e o trabalho-mercadoria [força de trabalho
viva], que perde gradualmente o seu valor de troca e mesmo a sua utilidade
material e, portanto, o seu valor de uso. Preste atenção, no entanto, robots,
máquinas, computadores, chips, softwares que devem substituir o trabalho vivo
são meios de produção realizados pelo trabalho assalariado digno e contêm uma
grande quantidade de valor de mercado [são caros]. Estas máquinas de todo o
tipo e de todas as espécies são capital constante (Cc) que tornam obsoleta uma
parte do trabalho humano vivo (Cv) substituindo-o por trabalho morto –
cristalizado – petrificado que, no entanto, traz um aumento da produtividade do
trabalho vivo e leva à deterioração da composição orgânica do capital Cv/Cc,
portanto, uma diminuição na taxa média de mais-valia e lucro.
50. É preciso perceber o drama shakespeariano que se desenrola
perante o capitalista. A própria fonte de todo o valor-mercadoria - de todo o
valor de troca -, o próprio fundamento do modo de produção capitalista - a
força de trabalho, a única mercadoria com o poder de transmitir valor a outras
mercadorias - vê o seu valor aniquilado. A fonte de todo o valor [de toda a
riqueza] seca e já não pode transmitir o que possui cada vez menos em
"mais-valia", em "mais-valia" não paga. O capital está a
serrar o ramo em que se empoleirava para proclamar a sua eterna omnipotência
(sic).
Valor de uso e valor de troca
51. Sob o modo de produção capitalista na fase imperialista
decadente do capitalismo, não é o valor-de-uso que determina o valor-de-troca,
mas sim o contrário: é o valor-de-troca de mercado que atribui valor-de-uso a
qualquer mercadoria (com a condição de que a sua produção conduza à realização
de mais-valia). Pior ainda, a contradição entre trabalho e capital aprofunda-se
ainda mais, na medida em que o capital reduz o seu consumo global de trabalho
assalariado vivo, do qual depende totalmente para a sua valorização e
reprodução. O capital vê-se assim obrigado a intensificar a extracção de
mais-valia relativa e absoluta de cada hora de trabalho vivo consumido. Este
processo de intensificação da extracção - o confisco - de cada vez mais
mais-valia leva o capitalismo ao ponto de reduzir o tempo de trabalho
necessário para além do mínimo social exigido para a sua reprodução alargada.
Assim, pelo próprio processo da sua alienação, a força de trabalho dos
trabalhadores está ameaçada de extinção. A materialização desta contradição
fundamental entre capital e trabalho conduz o sistema à sua auto-destruição. A
força de trabalho viva - o proletariado mundial - não tem alternativa: ou
definha pouco a pouco e desaparece para sempre, levando consigo o modo de
produção capitalista, ou ressuscita em insurreição, recusa o seu destino
abjecto e empenha-se na revolução proletária pela sua sobrevivência.
A importância da "financeirização" da economia
nesse processo de perda sistémica?
52. Expliquemos agora como a financeirização - a inflação - o
crédito - a monetarização do processo de produção - a troca - a realização do
capital na fase imperial vieram a subsumir esta contradição fundamental e a
elevá-la a alturas sem precedentes.
Na ausência de grandes e crescentes massas de valores de uso a transformar
em valores de mercado e a realizar em valores financeiros (dinheiro, acções,
obrigações, títulos de dívida, derivados bolsistas) - a valorizar de facto,
para perpetuar o ciclo económico da reprodução ampliada do capital - o sistema
bancário e financeiro mundializado começou a emitir dinheiro falso - valor
monetário nulo - "crédito, criando depósitos para gerar novo crédito"
- uma devassa de ajustamentos e perturbações financeiras, monetárias e
bolsistas em pânico(1).
53. Vejamos apenas algumas estatísticas (quadro 1) que marcam a
descida aos infernos de um banco que, em 2008, foi sacrificado, durante a crise
do subprime, para dar o exemplo aos outros bancos, que, de qualquer modo, não
podiam e nunca poderão fazer outra coisa. É o modo de produção que já não pode
cumprir a sua missão de reprodução alargada tanto da força de trabalho, o
capital vivo (CV), como do capital constante, o capital morto (CC).
No entanto, estas duas componentes fundamentais do processo de produção
capitalista são inseparáveis, e a extinção de uma leva ao desaparecimento da
outra. A partir do momento em que o capital deixa de poder assegurar a
reprodução prolongada da força de trabalho que lhe dá vida, o MPC entra num
beco sem saída que só pode fazer com que perca a confiança e o apoio da classe
operária e provoque a sua destruição. São os capitalistas que levarão o
proletariado à insurreição, e não as actividades de alguns agitadores de
esquerda.
O quadro 1 mostra
claramente que, se em 2008, aquando da falência do Lehman Brothers,
a situação financeira mundial era catastrófica, quatro anos mais tarde (2012) a
situação tinha-se agravado do ponto de vista financeiro. Não podemos esquecer
que as finanças são apenas o reflexo contabilístico, bancário e monetário da
estrutura económica global da economia nacional e internacional. Mas não
esqueçamos que a lei da depreciação do valor de mercado da força de trabalho
viva, criadora de mais-valia e de lucro, não podia ser de outra forma.
|
Tabela 1
|
2008
|
2012
|
|
Volume de derivados OTC negociados em
milhares de milhões de dólares (EUA)
|
US$ 516 trilhões
|
US$ 708 trilhões
|
|
Dívida dos países da OCDE (países
ricos)
|
75%
|
105%
|
|
Défice dos países da OCDE em % do PIB
|
3,5%
|
5,5%
|
|
Alavancagem
de crédito de bancos
"demasiado grandes para falir" (sic)
|
31 para o Lehman Brothers
|
De 13 a 85 anos
|
|
Balanços do Fed e do BCE (empréstimos
inúteis trocados por dinheiro do nada)
|
$900 mil milhões
$1.400 MM
|
$3.000 mil milhões $
3.000 mil milhões
|
|
Taxas
de crescimento dos países da OCDE
|
0,5
|
-0,1
|
|
Taxa
de crescimento mundial
|
2,7
|
3,2
|
|
Taxas
de desemprego nos países da OCDE
|
5,9
|
8
|
|
Reservas cambiais mundiais
|
US$ 4 trilhões
|
US$ 11 trilhões
|
|
Reservas cambiais da China
|
US$ 1 trilhões
|
US$ 3 trilhões
|
Fonte: The Wall Street
Journal, "Crise financeira: uma lição de um resgate, um drama em cinco
atos"
Vamos fazer mais daquilo que não funciona
54. E agora a fumaça e os espelhos, os oportunistas, os reformistas,
os esquerdistas burgueses que querem salvaguardar o modo de produção
capitalista, estão a sugerir que façamos mais daquilo que não está a funcionar
para pôr o paciente de pé e prolongar a sua agonia ad infinitum.
« O novo banco de desenvolvimento dos BRICS não é uma
alternativa ao FMI e ao Banco Mundial (BM),
mas um complemento, pois responde a desafios que têm sido ignorados pelas
instituições financeiras internacionais. O FMI só tem trabalhado no interesse
dos especuladores e as enormes quantidades de dólares, euros, libras e ienes
que saem das tipografias estão agora a sair em vagas nos países BRICS,
desestabilizando as suas economias. Portanto, é necessário que os BRICS
desenvolvam as suas próprias instituições financeiras, para financiar projectos
de desenvolvimento de longo prazo. Parte deste novo sistema é o Sistema de
Reserva Monetária, que tem essencialmente em conta as lições da crise asiática
de 1997, durante a qual as moedas asiáticas caíram 80% numa única semana devido
à especulação. Também responde aos ataques cruéis lançados recentemente pelos
fundos de retorno absoluto contra os países da América Latina" e o analista
financeiro acrescenta: "Este sistema paralelo pode muito rapidamente
tornar-se a tábua de salvação após o colapso do sistema financeiro
transatlântico: porque um crash pode ocorrer a qualquer momento, maior do que o
de 2008, que se seguiu ao colapso do Lehman Brothers. Tal quebra poderia ser
causada pelo "Grexit", a expulsão da Grécia do
euro pelo FMI e pela Troika. Todo o sistema bancário europeu e, provavelmente,
americano entraria em colapso nesse processo; tal acidente poderia também ser
causado pela falência da Ucrânia; ou simplesmente estourando a bolha de
derivativos que atualmente está em 2 triliões de dólares, uma quantia que nunca
pode ser paga. (2)
|
BRICS : um reagrupamento de países emergentes (1)
|
|
O Brasil, a Rússia,
a Índia e a China formaram inicialmente o BRIC em 2009, após uma série de
reuniões e acordos. A primeira cimeira dos BRIC realizou-se em Ekaterinburgo,
na Rússia, a 16 de Junho desse ano, onde os chefes de Estado acordaram em
reforçar o diálogo e a cooperação entre eles. No ano seguinte, em Brasília, Brasil,
em Abril de 2010, realizou-se a segunda cimeira, onde os líderes destes
países sublinharam a necessidade de um sistema intergovernamental mundial
multidimensional. Depois, na sua terceira reunião, em Nova Iorque, em
Setembro de 2010, os BRIC acordaram a entrada da África do Sul.
A África do Sul
conseguiu aderir, após um esforço sustentado devido à sua política externa
activa, a esta coligação de Estados, transformando-a de "BRIC" em
"BRICS". Na quarta cimeira, em Março de 2012, em Nova Deli, na Índia,
foi feito o primeiro anúncio da criação de um Novo Banco de Desenvolvimento
(NDB), que foi formalizado na quinta cimeira, em Durban, na África do Sul, em
2013, com a intenção clara de os BRICS se tornarem independentes do Fundo
Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial (BM), dos Estados Unidos e da
União Europeia.
O acordo para a sua
criação, após a resolução de divergências sobre questões organizacionais, foi
finalmente alcançado em 2014, na sexta reunião dos BRICS em Fortaleza, no
Brasil. Os países BRICS representam 40% da população mundial, ou seja, mais
de 3,1 mil milhões de pessoas. Os BRICS reúnem países com diferentes níveis
de desenvolvimento e diferentes estratégias. O Brasil é o maior país da
América do Sul, tanto em termos de população (cerca de 213 milhões) como de
superfície, ocupando 1/3 da América do Sul. É também o quarto país mais rico
das Américas em termos de PIB.
No entanto, carece
de infra-estruturas adequadas (redes rodoviárias e ferroviárias inadequadas,
infra-estruturas portuárias insuficientes, etc.) e, juntamente com as
desigualdades económicas extremas (1 em cada 4 cidadãos vive em pobreza
absoluta), não pode emergir como uma superpotência económica. De acordo com o
Índice de Competitividade Mundial do Fórum Económico Mundial, o Brasil ficou
em 108.º lugar entre 137 economias em 2017 em termos de qualidade geral das
suas infra-estruturas. Os escândalos de corrupção também são frequentes no
país.
A Rússia, o maior
país transcontinental com influência mundial e uma grande economia, possui
também o maior arsenal nuclear do planeta e um enorme poder militar, que
utilizou na Síria e agora na Ucrânia. A Rússia oferece o melhor nível de vida
aos seus habitantes, em comparação com o resto dos países BRICS, com 3,5% do
PIB gasto em educação e 3,1% em saúde pública. Apenas 0,2% da população vive
abaixo do limiar de pobreza. No entanto, a economia russa sofre do problema
crítico da corrupção - que existe em todos os países, em maior ou menor grau
- bem como de uma falta significativa de infra-estruturas bancárias, devido a
mercados financeiros subdesenvolvidos e a dificuldades na obtenção de
empréstimos e de capital de investimento.
A Índia é uma
potência mundial emergente com uma economia em constante crescimento. É
actualmente a quinta maior economia do mundo em termos de PIB, enquanto o seu
território abriga a maior população do mundo, atingindo quase 1,4 biliões de
pessoas. O crescimento do PIB do país tem sido um dos mais altos do mundo na
última década, atingindo um crescimento anual entre 6% e 7%. No entanto, a
Índia tem um dos rendimentos per capita mais baixos do mundo, ao mesmo tempo
que enfrenta enormes problemas sociais devido à pobreza. Entre os BRICS, a
Índia tem as percentagens mais elevadas do PIB gastas em educação e cuidados
de saúde, com 2,7% e 1,2%, respetivamente.A China, com uma população de 1,4
mil milhões de habitantes, está a crescer rapidamente com penetração
económica na Ásia, América Latina, África e outras partes do mundo. É o
gigante económico do Leste com uma taxa de crescimento anual de 6,6%,
ameaçando assim a hegemonia económica dos EUA. A China é o maior exportador
mundial desde 2014. Ao mesmo tempo, a China continua a ser um país de
rendimento médio, uma vez que o seu rendimento per capita ainda é apenas cerca
de um quarto da dos países de alto rendimento e cerca de 375 milhões de
chineses vivem abaixo da linha da pobreza de 5,50 dólares por dia.
A África do Sul,
devido à sua posição geográfica no extremo sul do continente, que lhe dá
acesso a dois oceanos, é um país central. A África do Sul é o maior parceiro
comercial da China em África. Centenas de empresas chinesas, públicas e
privadas, estão actualmente activas no país.
A economia
sul-africana é a segunda maior do continente africano, atrás da da Nigéria. Tem
riqueza natural em ouro, prata e carvão, mas também uma das maiores taxas de
desigualdade do mundo. Os 10% mais ricos da população possuem cerca de 71% do
património líquido, enquanto os 60% mais pobres possuem 7% da riqueza
líquida. É um país que tem um peso político particular em África como único
Estado africano membro do G20.
Os BRICS são,
portanto, um campo de oposição ao Ocidente, seja expresso politicamente,
através da aliança EUA-União Europeia, seja militarmente, com a OTAN, ou
economicamente, com organizações económicas internacionais de origem
americana, como o FMI, o Banco Mundial (BM), a Organização Mundial do
Comércio (OMC) ou a Organização Mundial da Saúde (OMS). A orientação
estratégica dos BRICS tende a contrariar a arquitectura financeira
internacional dominada pelos Estados Unidos.
Após quinze anos,
durante os quais muitos questionaram a viabilidade do sistema, os equilíbrios
mundiais existentes levaram ao alargamento do bloco. Muitos países
expressaram o seu desejo de se tornarem membros do BRICS, como Argentina,
Egipto, Venezuela, México, Irão, Vietname, Bangladesh e outros.
Dados comparativos entre BRICS+ e OTAN (2)
Os números do FMI
acabam de ser publicados a 12 de Abril de 2023. De seis em seis meses, são
feitas actualizações nestas previsões para reflectir os resultados reais. De
acordo com as minhas observações ao longo de mais de uma década, estas
actualizações produzem muitas vezes resultados mais favoráveis do que o
esperado.
No ano 2, o PIB dos
2000 países que criariam os BRICS representava 5,18% do PIB mundial em
paridade de poder de compra (PPC). Hoje, a participação desses 1 países subiu
para 5,32% do PIB mundial e o FMI prevê que essa participação continuará a
aumentar, porque o crescimento dos BRICS liderado pela China e Índia é muito
mais forte do que o dos países ocidentais.
|
PAÍSES BRICS
|
PIB/PPC 2023 em milhares de milhões de PPC $
|
PREVISÃO DO FMI PARA 2028
|
|
1
|
CHINA
|
33 010
|
44 030
|
|
2
|
ÍNDIA
|
13 030
|
19 310
|
|
3
|
RÚSSIA
|
4 990
|
5 750
|
|
4
|
BRASIL
|
4 020
|
4 860
|
|
5
|
ÁFRICA DO SUL
|
990
|
1 180
|
|
TOTAL BRICS
|
56.040 – 32,1% PIB Global
|
75.130 – 33,6% PIB Global
|
|
PIB MUNDIAL
|
$174.470 mil milhões PPP
|
P$223,270 bilhões
|
Já na sua cimeira
anual, em Agosto de 2023, na África do Sul, os BRICS provavelmente começarão
a expandir-se gradualmente, seleccionando os melhores candidatos para
integrá-los como membros permanentes. Cerca de vinte candidatos estariam nas
fileiras, alguns dos quais já se candidataram oficialmente.
|
PAÍSES CANDIDATOS BRICS
|
PIB/PPC 2023
|
PREVISÃO DO FMI PARA 2028
|
|
1
|
INDONÉSIA
|
4 400
|
6 170
|
|
2
|
MÉXICO
|
3 130
|
3 760
|
|
3
|
ARÁBIA SAUDITA
|
2 300
|
2 940
|
|
4
|
EGITO
|
1 800
|
2 610
|
|
5
|
IRÃO
|
1 690
|
2 060
|
|
6
|
NIGÉRIA
|
1 370
|
1 750
|
|
7
|
ARGENTINA
|
1 270
|
1 550
|
|
8
|
EMIRADOS ÁRABES UNIDOS
|
890
|
1 200
|
|
9
|
ARGÉLIA
|
621
|
756
|
|
10
|
BIELORRÚSSIA
|
217
|
249
|
|
11
|
TUNÍSIA
|
162
|
201
|
|
TOTAL PAÍS CANDIDATO
|
17.850 (10,2% do PIB mundial)
|
23.246 (10,4% do PIB mundial)
|
Do lado ocidental, o
declínio continua inexoravelmente, ou pelo menos a participação das economias
ocidentais no PIB mundial (PPP). Só o PIB dos EUA era de 50% do
PIB mundial no final da guerra, em 1945. Em 20, representava apenas 3,2000
por cento. Actualmente, tem apenas 15,4% e esta percentagem
está a diminuir de ano para ano. Os europeus representaram também 20,3% do
PIB mundial em PPP no ano 2000. Hoje essa participação é de
apenas 000,14% e continua a diminuir de ano para ano.
Claramente, o campo
ocidental não tem mais o peso económico que ainda tinha há 23 anos atrás e
que lhe permitia dominar de cabeça e ombros a economia e as finanças
mundiais.
Especialmente porque
a operação de desdolarização do comércio mundial iniciada pela Rússia e
implementada por todos os países do BRICS ainda não produziu os seus
primeiros resultados. Um número crescente de países está a mobilizar-se dia
após dia para o comércio não baseado no dólar para escapar às pressões, mesmo
sanções e extraterritorialidade da legislação norte-americana, associadas à
utilização do dólar nas transacções. Esta desdolarização, que apenas começou,
poderá ter efeitos na economia mundial numa escala sem precedentes, impulsionando
economias sem dólares e precipitando o declínio de Estados que se agarram às
"regras" agora obsoletas do passado.
A guerra na Ucrânia,
que vem depois da fase aguda da crise do Covid, terá precipitado as coisas. A
operação especial terá desempenhado plenamente o seu papel, obtendo, através
da economia, mais do que pela força das armas, um enfraquecimento duradouro
da coligação ocidental e da ideologia neo-conservadora e mundialista da sua
governação.
|
31 PAÍSES DA NATO
|
2023: PIB/PPP em bilhões de dólares
|
2028: PREVISÃO DO FMI
|
|
1
|
EUA
|
26.850 (15,4% do PIB mundial)
|
32.350 (14,5% do PIB mundial)
|
|
2
|
ALEMANHA
|
5 550
|
6 570
|
|
3
|
Reino Unido
|
3 850
|
4 600
|
|
4
|
FRANÇA
|
3 870
|
4 610
|
|
5
|
TURQUIA
|
3 570
|
4 580
|
|
6
|
ITÁLIA
|
3 200
|
3 700
|
|
7
|
CANADÁ
|
2 390
|
2 870
|
|
8
|
ESPANHA
|
2 360
|
2 840
|
|
9
|
POLÓNIA
|
1 710
|
2 190
|
|
10
|
PAÍSES BAIXOS
|
1 290
|
1 530
|
|
11
|
ROMÉNIA
|
784
|
1 030
|
|
12
|
BÉLGICA
|
766
|
895
|
|
13
|
REPÚBLICA CHECA
|
537
|
674
|
|
14
|
PORTUGAL
|
460
|
556
|
|
15
|
NORUEGA
|
453
|
543
|
|
16
|
HUNGRIA
|
427
|
554
|
|
17
|
DINAMARCA
|
432
|
510
|
|
18
|
GRÉCIA
|
418
|
492
|
|
19
|
FINLÂNDIA
|
338
|
397
|
|
20
|
ESLOVÁQUIA
|
226
|
285
|
|
21
|
BULGÁRIA
|
216
|
276
|
|
22
|
CROÁCIA
|
163
|
205
|
|
23
|
LITUÂNIA
|
137
|
170
|
|
24
|
ESLOVÉNIA
|
111
|
140
|
|
25
|
LUXEMBURGO
|
94
|
115
|
|
26
|
LETÓNIA
|
76
|
98
|
|
27
|
ESTÓNIA
|
62
|
80
|
|
28
|
ALBÂNIA
|
54
|
71
|
|
29
|
MACEDÓNIA
|
44
|
58
|
|
30
|
ISLÂNDIA
|
27
|
33
|
|
31
|
MONTENEGRO
|
17
|
22
|
|
NATO
|
60.482 (34,7% do PIB mundial)
|
72.944 (32,7% do PIB mundial)
|
|
+1
|
AUSTRÁLIA
|
1 720
|
2 100
|
|
NATO + AUKUS
|
62.202 (35,7% do PIB mundial)
|
75.044 (33,6% do PIB mundial)
|
|
MUNDO
|
174 447
|
223 270
|
|
+1?
|
SUÉCIA (Candidato à NATO)
|
708
|
870
|
OBSERVAÇÕES
(1) https://queonossosilencionaomateinocentes.blogspot.com/2023/04/brics-o-adversario-que-assusta-o.html
(2) https://queonossosilencionaomateinocentes.blogspot.com/2023/04/economia-mundial-braco-de-ferro.html
https://reseauinternational.net/banques-asiatiques-une-connexion-monetaire-autre-que-le-dollar/
https://reseauinternational.net/lavrov-denonce-les-activites-desesperees-de-loccident-pour-semer-la-discorde-au-sein-des-brics/
Fonte: Dados do FMI de 12 de Abril de 2023. Fonte secundária: Economia
mundial: cabo de guerra BRICS/NATO em números – Notícias França-Iraque:
notícias do Golfo ao Atlântico (france-irak-actualite.com)
Resultados da pesquisa por
"BRICS" – Les 7 du Quebec
|
55. Sob as
leis da economia política capitalista, numa fase imperialista, ou seja, numa
fase de economia política inter-relacionada e mundialmente integrada, uma
metade dos beligerantes (comerciantes) não pode sucumbir sob o peso das suas
contradições económicas enquanto a outra metade continua a prosperar. Os fundos
de investimento, os bancos, as instituições internacionais e as empresas
multinacionais dos países BRICS+ serão arrastados ao
mesmo tempo que os do campo imperialista atlântico, regidos pelas mesmas leis
da economia política. Em breve, realizar-se-ão reuniões no topo da pirâmide
financeira para selar o destino da finança internacional, que se encaminha para
o colapso mundial (3). Há muito tempo que prevemos a desvalorização drástica
das moedas mundiais, que irá defraudar os capitalistas credores, os
capitalistas devedores e milhões de pequenos aforradores. Esta perspectiva
cataclísmica aproxima-se agora. Os capitalistas vão incitar os pequenos
burgueses a atacá-los e a juntarem-se à insurreição proletária. Esperemos que a
nossa classe os mantenha sob rédea curta e que tenha cuidado com estas
conversões de última hora.
56. Uma
terceira guerra mundial acabará por ser a única solução para estas contradições
económicas insolúveis. A destruição das forças produtivas, dos meios de
produção e do excedente (relativo) de mercadorias tornar-se-á a única solução
que a mecânica do sistema imperialista competitivo poderá impor aos sátrapas
(subalternos políticos e financeiros) (4). Os esquerdistas acabarão por
compreender que a classe proletária não tem utilidade para as suas querelas
gregárias, sectárias e dogmáticas e que exige uma direção unida (5).
Observações
(1) https://www.youtube.com/watch?v=efIiQtfR7BI
(2) http://www.solidariteetprogres.org/zepp-larouche-lima-nouvelle-route-de-la-soie.html
(3) http://www.infowars.com/secret-meeting-in-london-to-end-cash/
(4) http://www.les7duquebec.com/actualites-des-7/usa-otan-et-la-guerre-nucleaire/
(5) http://www.publibook.com/librairie/livre.php?isbn=9782924312520
57. Desde os primórdios dos tempos, a espécie humana conheceu
quatro modos diferentes de produção. O modo primitivo de
produção sem classes sociais (caçador-colector); o modo de produção escravocrata
(escravos e homens livres); o modo de produção feudal (servos
e senhores); o modo de produção capitalista (proletários e
burgueses). O mundo um dia experimentará um novo modo de produção sem classes
sociais, o comunismo. Por enquanto, estudaremos a evolução do modo
de produção capitalista (MPC).
58. Ao longo da história, seguindo os caprichos da
luta de classes – impulsionada pelas contradições inerentes a cada modo de
produção – a evolução levou cada sistema de produção da sua fase de emergência
revolucionária, à sua fase de crescimento e maturidade, à sua fase de
degenerescência imperialista que o conduziu à decadência. Nomeadamente, houve o
Império Médio (China), o Império Romano, o Império Bizantino, o Império
Espanhol, o Império Português, o Império do Congo, o Império Maia, o Império
Inca, o Império Austro-Húngaro, o Império Russo, o Império Otomano, o Segundo
Império Francês, o Império Britânico, o III Reich alemão e o Império Americano.
Embora semelhantes em vários aspectos (poder militar, hegemonia sobre o
comércio, guerra de expansão, pilhagem de recursos internos e externos,
exploração da força de trabalho, etc.), estes impérios diferem de acordo com as
características do seu modo de produção (tecnologias, meios de produção,
transporte e troca, relações sociais de produção e, consequentemente, de
cultura (religião, língua, costumes, laços sociais, etc.).
59. O imperialismo moderno caracteriza-se por cinco processos
económicos emaranhados. O imperialismo moderno é:
(1) monopolização da propriedade dos meios de produção,
troca e comunicação;
2) o imperialismo moderno é a concentração da riqueza –
riqueza social – capital – nas mãos de alguns trusts e cartéis internacionais
que deram origem à oligarquia financeira mundial de que
tomamos a medida na revista Forbes http://;
3) o imperialismo moderno é também a integração de todos
os sectores industriais, comerciais e financeiros numa única economia política
mundializada e interconectada, seguindo uma vasta cadeia de suprimentos mundializada onde
o capital (fiduciário) é exportado e trocado tanto quanto as mercadorias;
4) o imperialismo moderno é a financeirização do capital e
do comércio;
5) Finalmente, o
imperialismo moderno caracteriza-se pela terciarização de
empregos cada vez mais precários e parasitários.
|
Lenine e as suas teses sobre o imperialismo
As 5 características
do capitalismo na fase imperialista
|
|
1) a concentração da
produção e do capital atingiu um grau de desenvolvimento tão elevado que
criou monopólios, cujo papel é decisivo na vida económica.
2) Fusão do capital bancário e do capital industrial e criação, com
base nesse "capital financeiro", de uma oligarquia financeira.
3) a exportação de capitais, ao contrário da exportação de
bens, reveste-se de particular importância; [não confundir com
fuga de capitais e optimização fiscal em paraísos fiscais].
4) Estabelecimento de uniões monopolistas internacionais de capitalistas
concorrentes que partilham o mundo, os seus recursos e mercados.
5) Partilha territorial do mundo entre as grandes potências
capitalistas. O imperialismo é o capitalismo que atingiu uma fase de
desenvolvimento em que se afirmou o domínio dos monopólios e do capital
financeiro, em que a exportação de capitais adquiriu uma importância
primordial, em que se iniciou a divisão do mundo entre trusts
internacionais [isto é, onde os trusts estão a sobrepor-se aos Estados e,
portanto, onde os Estados e os responsáveis desses Estados são os
representantes, os mensageiros de trusts e monopólios e onde se completou
a divisão de todo o território do globo entre os maiores países capitalistas.
Fonte Lenine – "O
imperialismo, estágio supremo do capitalismo".
Resumo por escolha de citações, por Med. – Faculdade Popular de Filosofia e
Ciências Sociais المدرسة الشعبية للفلسفة والعلوم الاجتماعية.
|
60. Quer isto dizer que "enquanto o imperialismo
tiver uma reserva de acumulação nos países economicamente mais atrasados, onde
grande parte da população ainda vive da agricultura de subsistência à margem da
grande indústria, o modo de produção capitalista [na sua fase imperialista
moderna] terá uma reserva de potencial de crescimento para a expansão das suas
forças produtivas, dos seus meios de produção, para a acumulação de mais-valia
e lucros a reinvestir na sua reprodução alargada"? Podemos deduzir
desta reflexão feita por Marx em 1859 que "a classe capitalista
monopolista mundial poderá continuar a usar uma parte dos lucros saqueados nos
países dominados do Terceiro Mundo para corromper a aristocracia operária e a
pequena burguesia dos países imperialistas em declínio ou ascendentes no
Ocidente"? [i] Basta observar os
repetidos ataques da grande burguesia em todos os países do Ocidente contra o
que reformistas de esquerda e de direita chamam de "ganhos sociais"
da "classe média" através de uma infinidade de medidas ditas
de "austeridade" para entender que o tempo presente não é mais
para o Estado de bem-estar social. para os
pequeno-burgueses empobrecidos a quem é dito que apertem o cinto e se curvem
aos seus senhores capitalistas que, apesar da enorme reserva de trabalhadores
do Terceiro Mundo, já não conseguem manter as suas taxas de lucro e, assim,
assegurar a reprodução alargada (do capital) do moderno sistema imperialista de
exploração e expansão.
61. A corrente kautskyista do pensamento
economista aplica mecanicamente os apofatemas publicados por Marx no final do
século XIX e esquece-se de confrontar as suas compreensões dos escritos de Marx
com a realidade concreta que os rodeia. A crise económica do imperialismo
moderno é sistémica, global e mundial, apesar de ainda existirem recursos e
forças produtivas para aproveitar e explorar. É necessário reler os preceitos
de Marx e notar que ele enfatiza que um modo de produção – uma formação social
– "nunca pode [ser definitivamente derrubado] até que todas as
forças produtivas que ele é grande o suficiente para conter sejam desenvolvidas", o que não se refere de forma alguma à disponibilidade de
recursos naturais e trabalhadores assalariados a serem explorados. mas à
capacidade deste modo de produção, desta formação social, de assegurar o seu
desenvolvimento e exploração para os fins próprios do sistema de economia
política vigente na formação social em causa.
62. Os economistas vulgares negam que, sob o imperialismo
moderno, o desenvolvimento económico continue de forma desigual, combinada e
aos saltos e que esse processo produza uma divisão internacional do trabalho
mundialmente integrada, na qual alguns países ou "entidades" têm a
função de extrair recursos do solo, do mar, da natureza, enquanto outros têm a
"missão" de transformá-los. Para condicioná-los, e a outros países, e
outros empregados, outras "entidades" têm a vocação para os consumir
a fim de provocar as condições do próximo ciclo de reprodução estendida para um
novo ciclo de valorização dos lucros impulsionando um novo ciclo de acumulação.
63. Observamos, com Lenine, que o modo de
produção capitalista no seu estágio imperialista moderno desenvolveu todas as
forças produtivas, não potencialmente disponíveis, mas que é amplo o suficiente
para conter e tornar frutífero, isto é, para se reproduzir e valorizar para
acumular de acordo com um ciclo que os capitalistas gostariam de eternizar. A
ascensão inexorável da crise sistémica do capitalismo leva-nos a crer que o
capitalismo não durará para sempre e que as previsões de Marx se justificam. O
modo de produção capitalista, na sua fase imperialista decadente, tem de ser
derrubado, mas não entrará em colapso por si só. A classe proletária
revolucionária terá de dar o golpe final se não quisermos que a humanidade se
auto-destrua numa sucessão interminável de guerras termonucleares e biológicas
genocidas. https://queonossosilencionaomateinocentes.blogspot.com/2023/07/armas-biologicasbacteriologicasvirais.html
[i] V. Gouysse (2013) Classes
sociais sob o imperialismo. http://marxisme.fr/imperialisme_et_classes_sociales.htm
Sem teoria revolucionária não pode haver revolução proletária...
Sem revolução proletária nenhuma teoria revolucionária
64. Em qualquer modo de produção, quando as relações sociais de
produção impedem o desenvolvimento dos meios sociais de produção, especialmente
das forças produtivas vivas (força de trabalho proletária), é porque esse modo
de produção em crise sistémica teve o seu tempo e que está a ser preparada uma
revolução social e económica.
tag.
65. A teoria revolucionária não precede a prática
revolucionária. É no cadinho quotidiano da luta de classes revolucionária que
os princípios e regras da teoria revolucionária internacionalista proletária
são forjados, experimentados, temperados e verificados. A prática precede a
teoria e valida-a.
.
66. Toda revolução social é um processo pelo qual a classe
portadora das novas relações sociais de produção – que libertará os meios de
produção e as forças produtivas – estabelece o seu domínio económico, político,
social e ideológico sobre toda a sociedade. A revolução proletária não escapará
a este princípio, mas os seus factores de realização e conteúdo serão
diferentes das revoluções sociais anteriores. As revoluções sociais anteriores
(da escravidão ao feudalismo e do feudalismo ao capitalismo) estavam na
encruzilhada de dois modos de produção dominados pela escassez e
essas revoluções (feudal e depois burguesa) tinham a função de substituir a
dominação de uma classe exploradora – a nobreza – pela dominação de outra
classe exploradora – a burguesia – encarregada de resolver a contradição
fundamental do sistema anterior e estabelecer um novo modo de uma produção
eficiente baseada em duas novas classes antagónicas e interdependentes
(burguesia e proletariado).
67. No entanto, o objectivo da revolução proletária será
substituir relações de produção baseadas na escassez (relativa) por relações de
produção baseadas na abundância. É nisto que porá fim a todas as formas de
propriedade, privilégio e exploração de classe, porque se tornou inútil
assegurar a reprodução da humanidade (1).
tag.
68. Estas diferenças conferem à revolução proletária as
seguintes características:
A) Será uma revolução social de dimensão mundial que só poderá atingir os
seus objetivos se se realizar no momento em que o velho modo de
produção decadente tiver atingido o seu pleno desenvolvimento económico, no
momento em que já não lhe será possível conter mais capital valioso e forças
produtivas exploráveis com lucro (produção de mais-valia). Marx sublinhou que
um modo de produção – uma formação social – não desaparece... «nunca antes
de se desenvolverem todas as forças produtivas que é suficientemente grande
para conter» (2). Lenine retomou este axioma marxista neste escrito:
"O socialismo é impossível sem a técnica da grande indústria capitalista,
uma técnica organizada de acordo com a última palavra da ciência
moderna; é impossível sem uma organização metódica regulada pelo Estado e que
imponha a dezenas de milhões de homens a estrita observância de um padrão único
na produção e distribuição dos produtos. Nós, marxistas, sempre dissemos isso;
Quanto às pessoas que não compreenderam sequer esta verdade (como os
anarquistas e uma boa metade dos socialistas revolucionários de esquerda)..." (3).
A revolução proletária só pode, portanto, ocorrer quando o modo de produção
capitalista atingiu o estágio imperialista decadente, ou seja, o estágio em que
não pode mais valorizar, reproduzir ou acumular mais capital. O capitalismo
atingiu hoje este limite sistémico e apela à revolução proletária para libertar
a humanidade.
B) Será a primeira revolução que só poderá atingir os seus objectivos
generalizando a todos os países – a mais ou menos longo prazo – uma vez que,
abolindo a propriedade, a revolução proletária terá de abolir todas as leis,
fronteiras e quadros jurídicos e administrativos sectoriais, regionais,
nacionais e internacionais burgueses que estruturam e impõem o poder do capital
internacional.
C) Pela primeira vez na história, a classe revolucionária será a velha
classe explorada no modo de produção anterior. A classe revolucionária
proletária não poderá contar com a sua riqueza acumulada ou com o poder
económico na sua conquista do poder político. A classe proletária não terá
nenhum interesse económico específico a defender, a não ser o interesse da
humanidade a perpetuar. Será a primeira revolução na história em que a tomada
do poder político precederá a tomada da economia social, daí o seu nome de
economia proletária internacionalista.
D) Pela primeira vez, a classe revolucionária dominante e dirigente será a
classe explorada. Isto implica que a luta como classe alienada que luta pela
sua emancipação não pode, de forma alguma, ser dissociada da luta como classe
revolucionária. Como o marxismo sempre afirmou contra as teorias socialistas
utópicas e reformistas pequeno-burguesas, o desenvolvimento da luta
revolucionária é condicionado pelo aprofundamento e generalização da luta de
classes do proletariado internacional.
tag.A insurreição será proletária, a
revolução proletária será internacionalista
69 No decurso deste movimento, que vai desde revoltas populares
espontâneas, em muitos países e regiões ao mesmo tempo, à insurreição
globalizada, à revolução proletária internacionalista e, depois, à consolidação
da ditadura mundial do proletariado (não a ditadura de um aparelho partidário
burocrático), o papel impulsionador e dirigente da classe proletária irá
gradualmente impor-se – distanciando-a de todos os contaminantes
pequeno-burgueses. camponeses, populistas, cidadãos, comunitaristas e
comunalistas, e outras denominações por trás das quais a esquerda burguesa
esconde as classes pseudo-revolucionárias e fragmentos de classe que procuram
desviar a revolução para que ela sirva aos seus interesses e não aos da classe
proletária revolucionária. Lenine escreveu textos importantes sobre a
necessidade absoluta de nunca ligar a Revolução Bolchevique à carruagem do
campesinato russo ou da pequena burguesia menchevique.
"Numa perspectiva
revolucionária, o proletariado como um todo, e no primeiro escalão as suas
grandes concentrações, continua a ser a única força social capaz, pelo seu
papel central nas relações de produção, de unificar as reivindicações
sectoriais ou categóricas de outras camadas sociais, de as impedir de degenerar
em revoltas empresariais, de as dirigir para o caminho da luta pelo poder e da
tomada em mãos da produção pelos próprios produtores [...]. As explosões
operárias existem, repetem-se, e o capitalismo não consegue evitá-las há mais
de um século. Trata-se de um facto obstinado, cujo retorno está inscrito na
própria estrutura das relações de produção capitalistas. A partir daí, a
questão não é desesperar porque a classe operária não é quotidianamente
revolucionária, mas procurar em que circunstâncias excepcionais pode tornar-se
revolucionária, como se preparar para ela e contribuir para ela." (4)
70. Para identificar as condições da revolução proletária, é
necessário especificar as condições de evolução do modo de produção capitalista
(MPC) e nunca esquecer que em tempos normais a instância económica da
luta de classes é dominante, enquanto no contexto de crise insurreccional as
autoridades ideológicas e políticas podem ser decisivas. Não se tornam
tão mecânica ou espontaneamente. É no plano da consciência revolucionária da
classe proletária "para si", combinada com a existência de
organizações revolucionárias – possivelmente agrupadas num partido político de
classe internacionalista – que depende esta evolução da insurreição desorganizada
através da luta de resistência na instância económica espontânea para a
luta revolucionária de classe consciente visando a conquista do poder político
primeiro, económico depois e ideológico finalmente.
tag.
71. É com um contra-exemplo – retirado da obra de um intelectual
de esquerda – que continuamos este estudo das condições necessárias para uma
insurreição proletária espontânea e para uma revolução proletária consciente e
bem-sucedida para a construção de um novo modo
de produção. Refutamos o argumento revisionista de que:
" O modo de produção "puro", tal como Marx o
construiu a partir da formação social inglesa do século XIX não existe na
realidade. Constitui um objecto abstrato formal, um arquétipo com o qual
nenhuma formação social concreta coincide. E por uma boa
razão, Nicos Poulantzas considera no seu
livro Poder Político e Classes Sociais uma formação social como "a sobreposição específica de
vários modos de produção 'puros'". Nicos Poulantzas
acrescenta: "A própria formação social constitui uma unidade
complexa dominada por um modo de produção sobre os outros que a compõem". (...) "A crise revolucionária que
estamos a estudar não é, portanto, a crise de um modo de produção, porque entre
modos de produção há transformação e não crise (sic). A única crise que pode
ser discutida é a de uma determinada formação social onde as contradições do
modo de produção ganham vida e se actualizam através das forças sociais reais
nelas envolvidas. Toda a história é feita de acções de personalidades que são
forças actuantes (sic)" (5).
Quando uma formação social – produto de um modo de produção dominante –
constitui, como escreve este autor, "a sobreposição específica de vários
modos de produção – uma unidade complexa e dominante (...)"
é porque este modo de produção capitalista (MPC), nesta formação social
burguesa específica, ainda não atingiu o seu estágio supremo – imperialista
"puro" e decadente – neste momento em que nenhuma solução emerge
dessa ganga económica, Pútrido, social, político e ideológico (cultura,
moralidade, etc.) que só encontra a sua "salvação" na sua
auto-destruição assassina. Por outras palavras, isto significa que a primeira e
a segunda condições fundamentais para uma revolução proletária bem sucedida não
estão preenchidas.
.
72. No que diz respeito ao papel das "personalidades
revolucionárias, forças activas (...)", nós, proletários revolucionários,
afirmamos que as personalidades são forjadas e colocadas na vanguarda do
movimento social na medida em que correspondem às necessidades das tarefas
históricas da época. Não são os partidos políticos nem os líderes carismáticos
e populistas que forjam a história das classes sociais, são as classes sociais
que moldam os seus líderes de acordo com as necessidades e contingências do
momento histórico... caso contrário, as massas repudiam-nos.
.
A contradição fundamental conduz à crise económica que conduz à insurreição
popular
73. O desenvolvimento sistémico e sistemático do modo de
produção capitalista «puro» implica o desenvolvimento total da principal
contradição do MPC, a saber, a contradição entre capital e trabalho, a
contradição entre a classe burguesa e a classe proletária, a contradição entre
a propriedade privada dos meios de produção e de troca e as forças sociais
produtivas. Esta contradição empurra o sistema capitalista para a frente e
dá-lhe vida e movimento até ao dia em que o capital deixa de preencher as
condições para a sua valorização – para a sua reprodução alargada – daí a
impossibilidade de se realizar como lucro capitalista. O capital desvalorizado
– não enriquecido pela mais-valia – é capital morto e é capitalismo moribundo,
formação social "pura" em putrefação degenerativa. A isto chama-se
crise económica sistémica do capitalismo na fase imperialista.
.
74. A incapacidade do modo de produção capitalista de realizar o
seu ciclo de reprodução leva as forças do capital a imaginar soluções falsas
como a propagação do crédito em abundância (ver Quadro 2); emitir uma
quantidade de dinheiro aberto sem valor (ver https://queonossosilencionaomateinocentes.blogspot.com/2023/07/o-colapso-do-sistema-economico-mundial.html ),
e impor (ou ter imposto através de governos subservientes) medidas de
austeridade, programas, políticas a fim de modificar a distribuição do capital
entre a aquisição da força de trabalho viva necessária (salários) e a
"remuneração" do capital (lucro). Sabendo que as despesas do Estado
burguês são essencialmente despesas destinadas a assegurar as condições para a
valorização do capital, é todo o orçamento do Estado que é mobilizado por estas
medidas de austeridade generalizada que é necessário contestar. O tempo muito
curto do Estado social teve o seu dia – este é o tempo do Estado
policial e da austeridade que criará as condições para a insurreição
proletária espontânea.
75. Aqui está em ordem uma explicação. Todos terão observado os
movimentos de protesto e manifestações populares que se multiplicam e ganham
força, como os movimentos de estudantes, trabalhadores empobrecidos,
desempregados negligenciados, beneficiários de assistência social pobres e
abandonados, migrantes, fome e miséria, expatriados e refugiados de guerras
imperiais genocidas, agricultores empobrecidos, camponeses sem terra, de
trabalhadores do serviço público demitidos, ecologistas utópicos, feministas e
pequeno-burgueses a caminho de uma proletarização acelerada, de meios burgueses
falidos, e assim por diante. Estes movimentos de protesto são necessários, mas
insuficientes. Enquanto a classe proletária como classe consciente "para
si" não se tiver posto em marcha para a defesa das suas condições de vida
e de trabalho; Enquanto a classe proletária não tiver unido forças em vastos
movimentos de greve geral, nada sairá de toda esta agitação que os comunistas
não devem tentar liderar. A classe proletária revolucionária só está
interessada nas actividades revolucionárias da sua própria classe e não em
federar e "unificar as exigências sectoriais ou categóricas de outras
camadas sociais (para) evitar que degenerem em revoltas corporativas (...)",
que essas reivindicações (corporativistas) são-no desde o início e não pode ser
de outra forma. Todos estes movimentos de protesto a nível local, nacional e
até internacional (Ocupados, Indignados, Praças Vermelhas, Coletes Amarelos, etc.)
são úteis na medida em que criam certas condições para a insurreição proletária
que se avizinha e que agora examinaremos.
76. Ao contrário do que afirmam os economistas da esquerda
académica, sindical e populista, não é importante para o bom funcionamento do
regime capitalista monopolista que o poder de compra dos assalariados seja
minado pelos cortes nos salários directos pagos aos trabalhadores e pelas
restricções impostas pelo Estado burguês às transferências sociais. e reduzir
os gastos do governo com bens e equipamentos. O Estado poderia facilmente
enviar um cheque multibilionário directamente aos banqueiros e o capital
realizaria o seu lucro. Basta pensar que, durante a crise do "subprime"
e dos derivados do mercado bolsista nos Estados Unidos em 2008 e 2009, o
governo norte-americano não pagou os seus créditos e subsídios aos pequenos
proprietários de casas para que estes mantivessem o seu poder de compra e
pagassem as suas hipotecas em atraso. O governo dos EUA pagou milhares de
milhões de dólares directamente a bancos, trusts e grandes corporações
industriais multinacionais e, assim, conseguiu estancar temporariamente a
hemorragia dos lucros. O mesmo se aplica à crise da dívida soberana e à crise
da dívida privada que estão a pesar sobre toda a economia imperialista
globalizada e mundializada. Se não fosse o capital internacional a deixar de
ser capaz de se valorizar, todas estas dívidas combinadas poderiam muito bem
continuar a acumular-se sem que o sistema económico e social capitalista
entrasse em colapso. É quando um modo de produção já não consegue reproduzir-se
– quando, pelo seu funcionamento natural, caminha para a sua paralisia
degenerativa que a situação de crise endémica assume proporções pandémicas. É
então que um modo de produção já não cumpre a sua missão de reprodução da
espécie e que deve desaparecer.
77. Todas essas dívidas acumuladas, esse crédito gigantesco e
insolvente, não têm importância do ponto de vista da reprodução ampliada do
modo de produção capitalista. Nenhuma importância no sentido de que não é
determinante, não constitui a essência do sistema. Este crédito – este nada de
valor de uso – é apenas um indicador do nível de paralisia a que chegou o
sistema financeiro que deveria regular o funcionamento de todo o sistema de
reprodução e acumulação expandida de capital. Ninguém identificou um limiar
numérico de endividamento para além do qual um sistema financeiro entra em colapso.
Quando chegar o dia, o capital internacional apagará essa dívida sobrestimada
com uma canetada, como fez a Alemanha em 1923-1924, quando o Império Alemão
desvalorizou o marco (6). O mesmo se aplica ao franco francês em 1945-1948 e
1949 (7).
78. Isto significa que a primeira e mais importante das
condições necessárias da insurreição proletária foram adquiridas... a
existência de um proletariado mundial inflaccionado e de uma crise económica
desastrosa. Que os esquerdistas empolgados parem de mexer como a mosca do porco
em torno da equipa proletária – a tempestade acabou e o navio burguês está a ir
directo para ela. Temos de abandonar esta agitação infantil – estas
manifestações, muitas vezes inúteis, para denunciar isto e indignarmo-nos com
isso, para assinar petições contra a pobreza e para nos ofendermos com a
injustiça dos ricos, para denunciar a evasão fiscal e a concentração da riqueza
nas mãos de plutocratas condescendentes. Que a pequena burguesia lute para
realizar esses protestos reformistas implorando justiça ao Estado dos ricos.
Enquanto o faz, a pequena burguesia dá-se importância e crê-se numa posição
vantajosa para o próximo caos dos pobres. Se a pequena burguesia é uma
subclasse numericamente importante sob o modo de produção capitalista na sua
fase imperialista, é também uma subclasse destinada a definhar à medida que a
crise sistémica se aprofunda, o que o pequeno-burguês percebe confusamente, e
ele está indignado, aquele que tem uma estima tão grande pela sua pessoa. Não
compreende que os políticos e as suas milícias não se apercebam do seu mérito e
do seu poder de incómodo que já manifestou durante os acontecimentos de Maio-68
na Europa (8). (Ver resultados da pesquisa para "Maio de 68" – Les 7
du Quebeque e também o Maio de 68, movimento proletário internacional
ou revolta pequeno-burguesa? – Les 7 du Quebeque e https://queonossosilencionaomateinocentes.blogspot.com/2023/05/como-e-que-historiografia-oficial-do.html ).
79. Assim, o modo de produção capitalista, na sua fase
imperialista, continua a sua descida ao inferno impulsionado pela tendência de
queda da taxa média de lucro e, ao contrário da mística veiculada pela pequena
burguesia de esquerda e de direita, nenhum Estado-nação pode
inverter esta tendência inscrita nos genes do modo de produção capitalista.
(Ver: QUESTÃO NACIONAL
E REVOLUÇÃO PROLETÁRIA SOB O IMPERIALISMO – Les 7 du Quebec –
ver PDF com a versão em língua portuguesa). O Estado burguês não pode ser o
meio de solução para a crise sistémica do capitalismo e das suas políticas de
austeridade porque o Estado burguês não pode ser senão o organizador e
administrador da reprodução do capital, assegurando em primeiro lugar a
reprodução da força de trabalho. Um organizador cada vez mais essencial como o
desenvolvimento caótico do sistema. Pior, qualquer fortalecimento do papel do
Estado-nação burguês só pode ser um fortalecimento da espoliação dos operários
dos meios da sua existência, um fortalecimento da ditadura burguesa e o domínio
sobre eles do capital estatista e privado e seus representantes, fantoches
políticos que Marx chamou de "os funcionários do capital".
Porque só aprovam e fazem cumprir leis que facilitam a exploração e a
espoliação. Esta mística utópica faz-se sob os gritos de "democracia
participativa, cidadã, laica e republicana no e pelo Estado sagrado através dos
nossos valores nacionais colectivos" (sic) e outros disparates
demagógicos do mesmo género. Este estatismo fascista que sobrevoa as lutas de
classes não é fruto do acaso, manifesta uma tendência para o totalitarismo inerente
à própria essência do Estado burguês sobre o qual repousa o destino da pequena
burguesia perturbada e o destino da grande burguesia desesperada nesta época em
que o imperialismo atingiu a sua plena maturidade e se sente ameaçado (9).
tag.
A Terceira Condição da Revolução Proletária
80. A contradição fundamental de o modo de produção capitalista
estar plenamente desenvolvido como examinamos anteriormente, a classe
capitalista mundial não encontrará outro meio de sobreviver senão envolver-se
em guerras pela partilha de zonas de influência, pela partilha de sectores de
recursos, zonas de exploração do trabalho e pela partilha de mercados. Para que
cada uma das alianças imperialistas concorrentes espere reavivar o processo de
reprodução ampliada do seu capital. Estas guerras de pilhagem serão travadas
primeiro à margem das zonas de influência de cada uma das alianças, nos Balcãs,
no Cáucaso, na Ucrânia, na Ásia Central, no Médio Oriente e em África para uma
das alianças; Nicarágua, Venezuela, Colômbia, Equador, Bolívia, Brasil, África,
Nepal, Vietname, Mianmar, Coreia e Mar da China para a outra aliança. O mundo
vive sob esta conjuntura de guerras locais mais ou menos latentes, mais ou
menos controladas desde o fim da Segunda Guerra Mundial (observamos nada menos
que uma centena de guerras locais entre 1945 e 2023). Depois, as condições de
reprodução e acumulação de capital deterioram-se ainda mais, uma vez que estas
guerras genocidas em nada farão para reavivar a valorização do capital, as
várias alianças imperialistas virão a confrontar-se directamente, será a
Terceira Guerra Mundial que forjará a terceira condição objectiva para a
eclosão da insurreição proletária.
tag.
A revolução impedirá a guerra ou a guerra conduzirá à revolução
81. Ao longo do último século, os comunistas esperaram que a
revolução proletária pudesse impedir a eclosão de uma guerra mundial e ficaram
duas vezes desapontados. É difícil admitir, mas apenas a angústia causada por
uma guerra mundial assassina – genocida – apocalíptica –; O empobrecimento da
classe operária e das massas camponesas nos países subdesenvolvidos – a
destruição dos meios de produção – o deslocamento das relações sociais
burguesas de produção convencerá o proletariado, tantas vezes enganado e
traído, tantas vezes desprezado, tão profundamente alienado a apresentar-se no
palco da história para impor a sua alternativa revolucionária à depredação
capitalista.
.
82. As organizações da esquerda e da direita burguesas não têm
controle sobre o processo espontâneo de insurreição proletária. A
responsabilidade dos proletários revolucionários, rejeitando a bolchevização
das suas organizações, o sectarismo e o dogmatismo que o acompanha, e
respeitando o direito de fracção dentro das organizações; será compreender o
processo insurreccional espontâneo e desordenado, apreciar adequadamente o seu
desenvolvimento e, no momento oportuno, propor uma direcção revolucionária
através de palavras de ordem apropriadas. Acima de tudo, nenhuma palavra de
ordem reformista como farão dezenas de organizações da esquerda burguesa
oportunista entusiasmadas com a ideia de partilhar o prato de manteiga do poder
burguês "reformado".
83. Lenine teve que resignar-se ao compromisso de palavras de
ordem reformistas como o slogan "Pão, Paz e Terra", porque
a maior parte das forças revolucionárias bolcheviques eram muzhiks, pequenos
burgueses, oficiais do exército e funcionários do Estado. Em 1917, o
proletariado russo, uma minoria, carecia de experiência e maturidade
revolucionária. Tal compromisso seria inadequado nas condições da próxima
insurreição proletária. Seria um crime e uma traição à revolução.
84. A próxima insurreição proletária mundial não ocorrerá nas
condições de um modo de produção em transição entre o feudalismo camponês e o
capitalismo. A próxima insurreição proletária espontânea terá lugar nas
condições extremas do imperialismo decadente, moribundo e desesperado.
Guerra Mundial, depois insurreição proletária internacional
85. A guerra mundial imperialista é, portanto, uma condição da
crise que provocará as revoltas sociais, que por sua vez desencadearão a
insurreição popular, que esperamos que provoque o advento da revolução
proletária internacionalista. Esta é a ordem para o estabelecimento da
revolução mundial e esta é a terceira condição para uma insurreição proletária
bem-sucedida, transformando-se de revoltas localizadas em revolução proletária
planetária.
tag.
86. A sociedade de transição entre o modo de produção
capitalista e o modo de produção comunista não pode ser construída num ou em
alguns países isolados, como demonstra o fracasso do "campo socialista".
Essa construção terá que ocorrer sob a ditadura do proletariado num grande
número de países simultaneamente, caso contrário os capitalistas travarão
guerras de agressão contra a jovem entidade proletária ou entidades ainda
instáveis e desorganizadas. Mas como transformar uma insurreição proletária
espontânea e globalizada numa revolução proletária internacional?
87. Já vimos anteriormente que este cenário revolucionário foi
realmente realizado em 1917 como parte da Revolução Bolchevique que atingiu
todas as Rússias. No entanto, esta Revolução não foi uma Revolução proletária
comunista, porque a insurreição popular que a precedeu se baseou na classe
camponesa em revolta. A primeira condição fundamental de uma revolução
proletária mundial é que ela provém de uma insurreição que, se não é proletária
no início, depois se torna proletária, é cooptada por outras classes ou
segmentos de classes sociais não revolucionários, interessadas apenas em
defender os seus interesses particulares. O Partido Bolchevique substituiu a
classe proletária e impôs a ditadura partidária para levar a cabo o derrube do
Estado feudal czarista. Provou assim a impossibilidade de impor a revolução
anti-capitalista a uma sociedade ainda não firmemente comprometida com o
caminho do capitalismo monopolista na fase imperialista.
88. Quem diz classe proletária pensa no modo de produção
capitalista Estado monopolista amplamente desenvolvido, produtivista, moderno,
mecanizado, digitalizado, informatizado, de altíssima produtividade,
globalizado e interdependente em todo o mundo num processo de desenvolvimento
desigual (de um país para outro) e combinado (de um sector económico para
outro, de uma zona industrial para outra). Em suma, a classe proletária é a
classe social que expressa pelo seu desenvolvimento internacional o nível de
desenvolvimento do capitalismo na sua fase imperialista decadente. Marx
explicou que, sob o capitalismo, as duas classes sociais antagónicas –
proletariado e burguesia – estavam intimamente ligadas uma à outra na fase
ascendente – durante a fase do clímax – e na fase declinante – imperialista –
do modo de produção capitalista. Os ideólogos marxistas acrescentavam que apenas
a classe proletária desenvolvida, moderna, educada e treinada, consciente e
combativa seria a classe social total e plenamente revolucionária até o fim. Os
muzhiks russos analfabetos, os camponeses analfabetos dos campos de arroz da
China, do Vietname, do Camboja, os camponeses famintos das terras altas do
Nepal, os fellahs egípcios empobrecidos, os pastores tuaregues do Sahel, os
agricultores indianos empobrecidos, os camponeses sem terra de Cuba ou da
Amazónia, etc., não podem, de forma alguma, desencadear uma insurreição
proletária mundial.
A Quarta Condição para uma Revolução Proletária Comunista
89. A crise económica sistémica, as guerras genocidas e a guerra
nuclear generalizada, a insurreição popular espontânea, resultarão, como
escreveu Lenine, "na impossibilidade de as classes dominantes manterem
o seu domínio de forma inalterada [...] dando a entender que a base (social)
não quer mais viver como antes e que a alta [burguesia] não pode mais fazê-lo."
Além disso, "o agravamento, mais do que habitual, da miséria e da
angústia das classes oprimidas conduzirá mais do que o habitual a revoltas
populares em série. Daí a acentuação da actividade popular das massas"
e possivelmente a revolução proletária consciente para a construção do modo de
produção comunista (10). Todos
terão notado que Lenine indica "as classes dominantes" e as
"classes oprimidas", no plural, precisamente porque o partido
bolchevique estava a tentar liderar uma revolução proletária numa sociedade em
transição entre o antigo modo de produção feudal (nobreza contra servos) e o
novo modo de produção capitalista (burguesia contra proletariado). As próximas
grandes vagas de insurreições populares que gradualmente se transformarão em
revoluções proletárias não terão lugar nestas complicadas condições económicas
e sociais.
90. A lamentável experiência de conluio sob a forma de
"frentes unidas" interclasses entre segmentos da burguesia dita
"democrático-liberal" (sic) e da classe proletária (da Frente Popular
à Segunda Guerra Imperialista, passando pela Guerra Espanhola
burguesa-republicana e pela Guerra Popular (camponesa) na China) ensinou-nos a
rejeitar este tipo de compromisso oportunista em que a classe proletária se
coloca ao serviço de uma parte do totalitário burguês liberal" – para
ajudá-la a impor a sua hegemonia sobre os outros fragmentos da burguesia
totalitária "não liberal" (sic) e impor a sua dominação a toda a classe
operária, esta última servindo apenas como carne para canhão nesse mercado de
tolos frentistas. Nenhum sindicato "interclassista antagónico" se
sustenta. Todos os segmentos da burguesia são iguais, durante as eleições
burguesas "democráticas"; perante os seus banqueiros arrependidos;
diante dos seus oficiais para esmagar o proletariado revoltado.
.
91. A reciprocidade destas premissas é óbvia: quanto mais o
proletariado agir com determinação e confiança, guiado por palavras de ordem
relevantes e revolucionárias (sem compromisso), mais terá a oportunidade de
atrair sob a sua direcção as camadas intermédias da classe dominante isolada e
desmoralizada. Por outro lado, a desintegração dos aparelhos de governação
capitalista (de que o Estado burguês é a peça central) é obrigatória, daí a
necessidade de os proletários revolucionários rejeitarem qualquer recurso,
qualquer apelo ao reforço das leis e da governação do Estado burguês, ou a
favor da dissolução desta ou daquela aliança. Não estamos a lutar para tirar
este ou aquele país desta ou daquela aliança imperialista. Estamos a lutar para
esmagar todas as alianças imperialistas (atlânticas, ocidentais, pacíficas ou
orientais). (Veja: https://queonossosilencionaomateinocentes.blogspot.com/2023/07/da-nato-aos-brics-passando-pela-ocs-o.html e https://queonossosilencionaomateinocentes.blogspot.com/2023/07/isto-e-nato-sua-historia-sua-razao-de.html ). Esta é a razão pela
qual os proletários revolucionários não participam em comícios para exigir que
o Estado burguês saia da NATO, fortaleça o Estado nacional burguês, abandone o
Euro ou o NAFTA, e não assinamos petições para exigir a clemência do Estado e o
reforço das chamadas medidas de "segurança", na realidade medidas de
terrorismo de Estado. O Estado burguês é a fonte de todas as inseguranças
contra o povo e de todas as formas de terrorismo de pequena e grande escala.
tag.
Sem um partido proletário revolucionário nenhuma revolução proletária
Sem revolução proletária nenhum partido
proletário revolucionário
92. Alguns marxistas "bolcheviques" consideram "o
partido revolucionário" como a principal condição para a conquista do
poder pela classe proletária... "O partido revolucionário como
vanguarda unida e temperada da classe proletária", ou um
agrupamento de organizações proletárias revolucionárias, terá a tarefa de
assegurar que a classe proletária tome plena consciência de sua missão
histórica, que não é corrigir as injustiças do capitalismo, nem parar a
destruição ecológica do planeta, mas criar um novo modo de produção – comunista
– que pare a destruição do capitalismo. planeta. Quanto a Lenine, ele faz dessa
condição o ponto de diferenciação entre a revolução proletária comunista e a
crise revolucionária insurreccional sem futuro: "A revolução não surge
de todas as situações revolucionárias, mas apenas no caso em que, a todas as
mudanças objectivas elencadas, se acrescenta uma mudança subjetiva, a saber: a
capacidade, no que diz respeito à classe revolucionária, de levar a cabo acções
de massas suficientemente vigorosas para quebrar completamente o velho governo,
que nunca cairá, mesmo em tempos de crise, se não for derrubado. » (10).
Fonte:
Tradução para Língua Portuguesa por Luis Júdice