sábado, 31 de outubro de 2026

O povo francês está a mostrar o caminho.

 


O povo francês está a mostrar o caminho.

31 de Outubro de 2026 Robert Bibeau


Por Normand Bibeau .

Nem um centavo para armas, todo o dinheiro para educação.

 

COLETES JOVENS E COLETES AMARELOS, UNAMO-NOS! 

31 de Outubro de 2026:

Segundo o Public Sénat, a coordenação nacional dos COLETES AMARELOS já registou quase 250 manifestações e concentrações;

Estão a ser organizados 598 locais de mobilização, pontos de encontro e acções locais;

30 bloqueios;

26 rotundas ocupadas;

10 barreiras flutuantes em acção;

5 caceloradas (protestos com panelas – NdT);

282 assentadas;

organizado sob a convocação de uma frente comum de associações: UNEF, FAGE, União Estudantil, União Sindical Estudantil, CGT, FSU, FO, LFI, Coletes Amarelos, Coletes Jovens,

Paris, Lyon, Lille, Bordéus, Marselha, Toulouse, etc., todas as cidades da França estão em estado de insurreição popular quase generalizada pelo " ACTO III " da luta contra o desvio capitalista do dinheiro dos impostos do povo, destinado a programas sociais, para a fascismo e militarização da sociedade. Tudo demonstra que o movimento de insurreição popular, longe de perder força sob o ataque de desinformação, repressão, prisões, processos judiciais, ameaças, intimidação, divisão e promessas embriagadas do Estado capitalista, está a intensificar-se e a tornar-se mais consciente, desmascarando a verdadeira natureza anti-popular do Estado burguês , da polícia, da tropa de choque, do exército, dos políticos a soldo de bilionários e dos seus meios de comunicação, tanto tradicionais quanto alternativos.

De 450.000 manifestantes em 6 de Outubro, o número subiu para 480.000 no dia 13, para 550.000 no dia 17, chegando a 800.000 em 24 de Outubro de 2026, com uma projecção estimada de 1 milhão hoje, 31 de Outubro de 2026 (ref.: lemonde.fr, 6, 13, 17, 31/10/2026; mediapart.fr, 17/10/2026; Public Sénat.fr, 30/10/2026).

Em termos de "PALAVRAS DE ORDEM", a mobilização que começou nos liceus franceses, depois espalhou-se pelas universidades e por toda a sociedade civil, passou de:

"Melhorar as condições de estudo;
contratar professores;
manutenção dos edifícios degradados;
criar 250.000 vagas adicionais no ensino superior;
reduzir o número de alunos por turma;
aumentar as bolsas de estudo e abolir
o PARCOURSUP;

PARA:

Redução do custo de vida;
queda nos preços dos combustíveis;
melhoria das condições de trabalho;
defesa dos serviços públicos;
melhorias nas pensões e no acesso à saúde.
NÃO AO ALTO CUSTO DE VIDA.

A revolta estudantil nasceu em oposição ao saque do dinheiro público pelo Estado bilionário em favor da guerra na Ucrânia, à fascistização e militarização da sociedade francesa para apoiar o LEBENSRAUM 2.0 US/EURONAZI/ OTANONAZI / UKRONAZI BANDERISTA KYIVIAN contra a Federação Russa, e a única saída revolucionária proletária para essa fascistização da sociedade é lutar até a vitória contra o desvio de fundos públicos para armamentos.

 

Nem um centavo para armas, todo o dinheiro para educação.

 

COLETES JOVENS E COLETES AMARELOS, UNAMO-NOS!

 

 

Normand Bibeau

NEM UM CENTAVO PARA O ARMAMENTO, TODO O DINHEIRO PARA A EDUCAÇÃO

 

Mais de 500.000 manifestantes marcharam hoje por toda a França;

EM PARIS, 200.000 manifestantes marcharam «obrigados, forçados, com a morte na alma» da Porte de Bagnolet até à Porte Charenton, longe do centro da cidade e da Bastilha, por ordem do tribunal da polícia fascista e após terem sofrido 10.000 controlos, a convite da intersindical da juventude que agrupa associações estudantis, sindicatos, UE, FAGE, UNEF, USL;

Em Grenoble, a manifestação com 10.000 manifestantes terminou em confrontos violentos entre os jovens e a polícia fascista;

Em LYON, 20.000 pessoas desfilaram; em BORDEAUX, 70.000 manifestantes desfilaram; em Marselha, foram 15.000; em RENNES, 13.500; em Limoges, 5.000;

Em TOULOUSE, LILLE, NANTES, «elementos radicais», segundo a polícia fascista, enfrentaram-nos com lançamento de pedras da calçada e confrontos;

10.000 «controlos» na Île-de-France realizados antes das manifestações pela polícia fascista não demobilizaram os manifestantes apesar da intimidação e ameaças, e 250.000 manifestantes marcham em Paris;

Várias centenas de jovens enfrentam a polícia na «Porte de Charenton» com pedras da calçada e cocktails molotov contra o gás lacrimogéneo, balas de borracha e cassetetes;

Um «sit-in» em Montmartre perto da basílica resiste aos assaltos da polícia;

Um ataque de polícias de mota contra um cortejo, apesar da ausência de ameaça no 9º arrondissement, provoca vidros partidos e danos;

Em Marselha, 2 cortejos enfrentam a polícia fascista que quer dispersá-los;

«Fizemo-lo no dia 6, 17, 24 e hoje, faremos novamente no dia 5 e enquanto for preciso, não vamos desistir», gritavam os manifestantes;

«forçados, obrigados e com a morte na alma», os sindicatos submeteram-se cobardemente ao percurso parisiense imposto pelo tribunal dos bilionários (da porta de Bagnolet até à porta de Charenton, longe do centro da cidade e da Bastilha); 422 detenções; um adolescente ferido; muitas detenções preventivas; tudo se decidirá a partir das 23h00 nas cidades sob recolher obrigatório. Como escrevíamos no início deste dia de mobilização popular: «[O] movimento de insurreição popular, longe de se esgotar sob o espancamento da desinformação, da repressão, das detenções, dos processos judiciais, das ameaças, da intimidação, da divisão e das promessas embriegadas do Estado capitalista, AMPLIA-SE E CONSCIENTIZA-SE, expondo a verdadeira natureza anti-popular do Estado burguês, da polícia, dos CRS, do exército, dos políticos mercenários dos bilionários e dos seus meios de comunicação mainstream e alternativos». «O governo ainda não respondeu concretamente às reivindicações da juventude […] Ao subestimar mais uma vez o nosso número, os meios de comunicação incentivam Macron a prolongar o teste de força. ‘Mais pesada será a queda’, segundo a União sindical dos estudantes do liceu, e continuamos a luta.

 

COLETES JOVENS E COLETES AMARELOS, UNÍ-VOS! NEM UM CÊNTIMO PARA ARMAMENTO!

 

Fonte: Le peuple français montre la voie – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




[PANFLETO] O DRAMA DA HABITAÇÃO SÓ ACABARÁ COM O FIM DO CAPITALISMO

[PANFLETO] O DRAMA DA HABITAÇÃO SÓ ACABARÁ COM O FIM DO CAPITALISMO

 

Há poucas coisas mais violentas do que ser expulso da própria casa, ou ter de a deixar para evitar que o façam. Também é violento demorar uma ou duas horas a chegar ao trabalho ou viver com desconhecidos numa divisão alugada. Ou nunca saber quando será o próximo aumento que nos obrigue a deixar o apartamento. Dizem-nos que a habitação é um direito, mas os direitos são concedidos pelo Estado e este problema não pode ser resolvido por nenhum governo, seja ele de que cor for. Quem nos tenta convencer de que votando em uns ou noutros podemos acabar com o aumento do custo de vida, o desemprego e a precariedade, simplesmente mente-nos. Os Estados são parte do problema, não da solução.

A situação dramática que vivemos com a habitação é um problema para a nossa classe a nível mundial: Reino Unido, França, China, Estados Unidos, por toda a parte sofremos por querer ter um tecto. Entretanto, a inflação ultrapassa de longe o magro aumento de salários e estes igualam-se para baixo: o salário médio já está muito perto do salário mínimo.

No capitalismo, o trabalho não se organiza em torno das pessoas, mas o contrário: os investimentos concentram-se nas grandes cidades e nós, o proletariado, a força de trabalho, amontoamo-nos nelas com a esperança de conseguir um salário estável. As rendas sobem nas cidades que vão bem, porque é onde está o trabalho. Também sobem nas cidades que, como vão menos bem, se vendem como mercadorias turísticas ao melhor comprador. Só nas zonas economicamente deprimidas, como essa Espanha vazia, o preço da habitação se mantém ou desce ligeiramente.

Esta tendência é imparável e acelera à medida que avança a crise do capitalismo: quanto mais trabalho a automatização expulsa da economia, maior é a concentração de quem procura emprego nas grandes cidades. O tecto do arrendamento apenas reduz a oferta de habitação e aumenta o seu preço. A construção de habitação pública não pode ter um grande impacto na oferta e, se o tivesse, seria apenas temporário: preços mais baixos chamariam de volta aqueles que já foram expulsos para os confins da área metropolitana. A regulamentação contra aumentos “abusivos” das rendas mal toca a superfície do drama da habitação, porque os aumentos “não abusivos” acompanham a descida dos salários e o aumento do desemprego, os despejos e as habitações precárias.

PSOE, Podemos, Sumar, Más Madrid, CCOO, UGT: os mesmos que sancionam e maquilham a precariedade com a reforma laboral, os mesmos que aumentam a idade de reforma às escondidas e que querem “flexibilizar” as baixas médicas para continuarmos a trabalhar doentes, dizem-nos que vão resolver o problema da habitação. Mas eles são parte do problema, e não são direitos, mas repressão o que nos aplicam quando nos rebelamos contra isso.

O drama da habitação com os seus despejos, suicídios, pessoas sem casa ou eternamente na casa da família só acabará se desenvolvermos a luta pelas nossas necessidades imediatas de forma unida, como uma mesma classe, auto-organizada e com uma perspectiva internacional e internacionalista. Isto não se pode provocar artificialmente, nem se pode fazer com um movimento parcial pela habitação. Para mudar algo teremos que mudar tudo. Faremos isso através de movimentos massivos de classe que não podemos desencadear à vontade, mas que explodem devido às contradições históricas do sistema. E, ao mesmo tempo, para que essas explosões triunfem, devem-nos encontrar preparados: preparados para empreender não a exigência de reformas ou direitos, mas uma luta revolucionária contra o Estado, o capital e os seus gestores.

Fonte:https://barbaria.net/2024/10/07/octavilla-el-drama-de-la-vivienda-solo-acabara-con-el-final-del-capitalismo/

Este panfleto foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Itália: Vamos fazer Greve até ao Fim! (Greve Geral de Todos os Sectores Contra o Aumento do Custo de Vida e as Guerras)

 


Itália: Vamos fazer Greve até ao Fim! (Greve Geral de Todos os Sectores Contra o Aumento do Custo de Vida e as Guerras)

Panfleto distribuído pela Battaglia Comunista durante as greves de 30 de Outubro em Itália.

Nós, militantes da Battaglia Comunista, apoiamos a greve marcada para 30 de outubro.

Esta é a situação em que nos encontramos: custo de vida a subir, salários cada vez mais baixos e uma inflação crescente que corrói cada vez mais o poder de compra dos operários com salário. 

E a melhor parte — por assim dizer — é que eles apresentam esses números quase com satisfação, tomando-nos por parvos! 

Guerras e mudanças climáticas são, cada vez mais, a marca dramática de hoje; mas é o futuro que esta sociedade capitalista, podre e decadente nos reserva! 

Uma sociedade que segue despojando o proletariado até ao osso com cargas de trabalho e condições laborais cada vez mais intensivas. 

Certamente, acções de protesto nas ruas ao estilo estudantil — embora compreensíveis — não são suficientes; aquele meio social é, por natureza, heterogéneo e de várias classes. 

Na sexta-feira, 30 de Outubro, o sindicato de base USB convocou uma greve geral: é a mesma história de sempre!

Mais uma greve marcada com bastante antecedência, indo solitário em comparação com o resto do arquipélago de sindicatos de base, que entretanto convocam outra greve para 4 de Dezembro e, para completar, a CGIL convoca uma para 20 de Novembro. 

Pela enésima vez, tudo isto vai criar divisão e confusão na classe operária! 

Temos de recusar ser meros objectos da exploração dos patrões; temos de desenvolver a consciência de que pertencemos a uma classe cujos interesses — imediatos e históricos — são opostos aos dos patrões, da burguesia, ou seja, daqueles que nos exploram e oprimem! 

Temos de acabar com este sistema social e económico que produz apenas pobreza, guerras e catástrofes ambientais, só para prolongar a sua existência baseada na nossa exploração.

Devemos transformar a nossa raiva e preocupação justificada em assembleias/comités de operários auto-organizados, para começar a romper o manto da resignação e para estimular e organizar outros operários rumo ao protagonismo de classe.

SIM A UMA GREVE, MAS ATÉ AO FIM, ENVOLVENDO TODOS OS OPERÁRIOS (O PROLETARIADO), SEM LIMITE DE TEMPO!

Enfatizamos e apoiamos que o programa da conquista revolucionária do comunismo deve circular mais uma vez dentro da classe, e que o trabalho de construção do partido deve ser reforçado — os únicos instrumentos reais para organizar o proletariado para se opor e derrubar o sistema capitalista!

PARA OS PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, CHEGOU A HORA DE SE UNIREM!

PCInt - Battaglia Comunista

 

Sexta-feira, 30 de Outubro de 2026

 

Fonte: Italy: Let's Strike to the Bitter End! (General Strike of All Sectors Against Rising Costs of Living and Wars) | Leftcom

Este panfleto foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Comunicado sobre a situação em França após as recentes manifestações (GIGC)

 


Comunicado sobre a situação em França após as recentes manifestações (GIGC)

31 octobre 2026Robert Bibeau14 Views0 Comments



Par le GIGC.  Communiqué sur la situation en France – 26 octobre 2026. Sur Communiqué sur la situation en France – 26 octobre 2026 – Révolution ou Guerre

 

« Cuidado com a raiva das pessoas racionais. Ao longo da manifestação parisiense, aliás, ouvem-se poucas palavras de ordem sobre o poder de compra ou o forte aumento do preço dos combustíveis, mas uma fúria poderosa expressa-se contra o Estado, contra o governo, e sobretudo contra as forças de ordem, com o universal “ACAB” (“All cops are bastards”, ou seja, “todos os polícias são uns bastardos”), mil vezes cantado, seguido de “E toda a gente odeia a polícia”. » (Le Monde, 25 de Outubro de 2026[1], artigo sobre a manifestação parisiense de 24 de Outubro de 2026)

O repórter do jornal Le Monde faz um relato bastante fiel tanto do ponto de vista do desenrolar da manifestação parisiense de 24 de Outubro quanto do seu significado político. Oficialmente, participaram 250 000 manifestantes, apesar das proibições e das mudanças de última hora no percurso feitas pela polícia. De facto, esta política de proibição total ou parcial das manifestações, sob a ameaça de uma repressão cada vez mais violenta, não conseguiu impedir que centenas de milhar de pessoas – quase tantas quanto em 17 de Outubro – se manifestassem por todo o país, incluindo locais como Lyon, onde qualquer manifestação era proibida. É ainda mais notável considerando que, após as violentas manifestações do dia 17 e ao longo da semana que levou ao dia 24, a saturação diária, sistemática e renovada em todos os media, jornais e canais de notícias em directo sobre as violências, os saques e os vândalos não cessou de crescer ao longo dos dias e isso até ao sábado da manifestação.

No entanto, a semana de bombardeamento mediático sobre as violências foi muito mais eficaz em termos ideológicos e políticos. O resultado foi que os lemas das manifestações de sábado já não eram um «todos juntos» contra o custo de vida, condições de trabalho e de estudo escandalosas e miseráveis, e a favor do aumento dos salários ou outros; mas sim em defesa do direito de manifestar, da democracia, no terreno do anti-racismo e contra a repressão policial. Este fenómeno foi acentuado pela organização de uma manifestação em Orleães contra a realização do congresso do Rassemblement national da extrema-direita nessa mesma cidade. Depois, pelo aproveitamento mediático do ataque assassino de um racista[2] contra imigrantes de «cor», que matou uma pessoa e feriu várias num subúrbio parisiense, em Trappes. Qual foi o lema mais repetido nas manifestações de 24? Siamo tutti antifascisti. O anti-fascismo tomou o lugar da luta de classes proletária. A deslocação da confrontação do terreno da defesa das condições de vida e de trabalho de 17 de Outubro para o da ameaça racista, xenófoba e repressiva tornou-se então dominante, com na rectaguarda a perspectiva da vitória de Marine Le Pen nas eleições presidenciais de 2027. Enquanto todos os meios de comunicação burgueses se admiravam na semana anterior ao dia 17 pelo facto de uma mobilização de massas acontecer em plena campanha eleitoral presidencial, a semana de 17 a 24 também conseguiu reverter a mobilização em curso e transformá-la num momento da campanha presidencial.

A grande combatividade e raiva que se manifestaram novamente nas manifestações massivas e determinadas deste sábado, dia 24, deslizaram então do terreno de classe para o terreno burguês da democracia. A linha de polarização já não era contra o Estado, mas em defesa do Estado contra a extrema-direita e a repressão policial. Como diz o jornalista do Monde, «ouvem-se poucas palavras de ordem sobre o poder de compra ou o forte aumento do preço dos combustíveis, mas uma fúria poderosa manifesta-se contra o Estado.»

Muitos, incluindo dentro do campo revolucionário, verão na raiva anti-polícia e contra o Estado um sinal positivo tanto do ponto de vista da mobilização actual como do ponto de vista histórico. Verão nisso um enfraquecimento considerável da mistificação democrática, ou mesmo as primeiras tentativas de disputar à burguesia o seu poder político. Tal como lhes será tentador ver na vontade dos coletes amarelos de se dirigir ao Eliseu e aos locais de poder durante a manifestação do dia 17, ou mesmo nos incêndios nas câmaras municipais, uma vontade e uma consciência crescentes de colocar a questão do poder político.

Nós, pelo contrário, pensamos que esta aparente radicalidade marca um retrocesso político da mobilização e o sucesso da manobra ideológica e política conduzida por todo o aparelho de Estado desde 17 de Outubro. Cada um, governo, partidos de direita e extrema-direita, partidos de esquerda, extrema-esquerda, sindicatos e sindicalismo de base, joga o seu papel de prender os trabalhadores e os futuros trabalhadores hoje estudantes ou liceais que estão nas ruas numa falsa alternativa: iliberalismo-democracia, fascismo-anti-fascismo, racismo-anti-racismo, direito de manifestação-proibição e repressão, etc. « A fúria contra o Estado » que o nosso jornalista destaca não é contra o Estado, mas em defesa do Estado democrático burguês, da República, quaisquer que sejam as consciências individuais das “pessoas sensatas” e por muito revoltadas que estejam, ou até por mais radical que seja a sua postura. Neste sentido, parece-nos que a compreensão da situação e a orientação que defendíamos com outros[3] depois do dia 17 foram globalmente confirmadas:

 «Para nós, este dia não podia senão marcar uma viragem: ou abria caminho para uma entrada mais ou menos rápida na luta de setores da classe operária, aproveitando a porta que os estudantes tinham aberto, e assim abria uma nova perspetiva para esta mobilização; ou os trabalhadores não iam além de simpatias e apoios individuais – sem dúvida numerosos, mas não coletivos – e esperavam pelo dia de ação dos sindicatos previsto para 5 de novembro, cujo objetivo, toda a gente sabe, não é mais do que controlar a mobilização, deixar escapar o vapor, voltar com todos ao âmbito sindical e assim apagar o incêndio. (...)

No momento em que escrevemos, após o dia 17 e o bombardeamento mediático e governamental sobre as violências e os saqueadores, por um lado, e a substituição de um dia de ação sindical no dia 5 de novembro em vez de uma entrada imediata dos trabalhadores na luta pelas suas reivindicações nas quais todos se reconhecem, parece pouco provável – esperemos que estejamos errados – que setores significativos do proletariado entrem numa luta imediata e massiva. Para isso, seria necessário não só que saíssem da atitude de espera e hesitação mostrada até agora, mas sobretudo que assumissem conscientemente a confrontação política com os sindicatos que se opõem, e se vão opor, a qualquer greve imediata sob o pretexto de preparar o dia 5 de novembro. Para já, resulta que as palavras de ordem e orientações do nosso folheto continuam sempre válidas no momento em que escrevemos.» (comunicado de 18 de outubro). Ver o artigo aqui : Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: Seguindo o Movimento dos Estudantes do Ensino Secundário, Vamos Todos Lutar contra a Austeridade e os Sacrifícios Planeados para Preparar uma Guerra Generalizada!

O dia 17 de facto marcou uma viragem, infelizmente não no sentido do desenvolvimento da luta no terreno proletário. Não houve qualquer entrada em luta por parte de sectores mais ou menos amplos da classe operária, o que teria permitido dar uma perspetiva de classe clara à mobilização[4]. Na sua ausência, o caminho ficou livre para a contra-ofensiva burguesa. Como já referimos, a campanha política dos media e dos partidos sobre as violências e o marco da jornada sindical de 5 de novembro são as duas mandíbulas da armadilha que se estão a fechar, impedindo qualquer alternativa de classe significativa. Não surgiu nenhuma luta operária para assumir o seu lugar, nem sequer entre os professores (certamente de férias) que, no entanto, têm as mesmas reivindicações que os estudantes do secundário, e a direcção da mobilização no terreno económico, ou seja, contra os ataques aos salários e às condições de trabalho. (Ver artigo: Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: NEM UM CÊNTIMO PARA O ARMAMENTO, TODO O DINHEIRO PARA A EDUCAÇÃO!)

O resultado é que todo o aparelho político estatal da burguesia pôde ocupar todo o terreno durante toda a semana e assim desviar a atenção das reivindicações económicas para o terreno da defesa da ordem republicana de um lado e, do outro, da democracia e do direito de manifestar. A raiva de classe, que tendia a afirmar-se até 17 de outubro – mesmo que ainda muito confusa – desviou-se para o terreno burguês e tornou-se raiva cidadã.

Não há quase dúvidas de que a participação maciça e a raiva existente obrigam as forças burguesas a intercalar outros dias, pelo menos um, de manifestação ou outro para preencher o vazio que separa 24 de Outubro de 5 de Novembro – mais de dez dias. Não há quase dúvidas também, segundo nós, de que a já anunciada para o próximo sábado virá confirmar a mudança de uma linha de confrontação que se polariza em torno das reivindicações económicas, e portanto de confrontação entre classes sociais, para uma que polariza as forças “autoritárias” anti-democráticas contra as forças democráticas. Uma dúvida? “Para o acto III, no sábado, 31 de Outubro, apelamos a concentrações e a sit-in em frente à Assembleia Nacional e em todas as câmaras municipais de França, para a defesa das liberdades públicas. Nesse dia, manifestaremos pela liberdade de manifestar, e por todas as nossas liberdades,” afirma o principal site dos coletes amarelos cuja influência é significativa. (https://www.17octobregiletjaune.net/)

Nessas condições, é claro que as orientações de luta imediata e de agitação que ainda podíamos avançar na semana passada já não são adequadas à nova situação. A perspectiva e as palavras de ordem de extensão e generalização da luta a toda a classe operária, a possibilidade de entrada em luta de sectores operários, acabam por se encontrar de facto assimiladas ou associadas ao dia de acção sindical de 5 de Novembro.

A atitude de esperar para ver, de hesitação, que apontávamos na semana passada e contra a qual alertávamos os operários, deixou toda a liberdade à burguesia para ocupar o terreno mediático e enfraquecer assim qualquer potencialidade, não só de emergência de luta operária significativa até ao dia 5, mas também de transformar esta luta num momento de generalização, de uma forma ou de outra, da mobilização operária sobre reivindicações de classe. (Ver artigo: Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: A INSURREIÇÃO POPULAR INTERPELA A VANGUARDA DO PROLETARIADO)

Uma vez afastada (salvo acidente) a ameaça de uma extensão e  generalização aos sectores da classe operária, como em Maio de 1968, por exemplo, a burguesia intensificou o seu controlo sobre o curso dos acontecimentos. Ela quase os dita directamente. Basta-lhe, sobretudo através dos sindicatos e dos dias de acção, marcar o ritmo das manifestações de acordo com o nível de combatividade e manter-se na prancha para surfar na onda de combatividade e raiva agora direccionada principalmente contra… a polícia.

Vamos evitar um esquema absoluto. Embora nos pareça improvável que uma dinâmica proletária possa impor-se agora a partir desta mobilização, da sua própria dinâmica, não podemos excluir que aconteça um evento “fortuito”, fora da mobilização, que abra a porta a uma inversão do curso actual, num clima geral de raiva e descontentamento que, esse sim, não desapareceu e que só poderia favorecer isso. Pode ser uma greve ou luta operária surgindo aqui ou ali. Pode ser um excesso da repressão ou um acidente. Ou ainda, uma redistribuição das cartas devido a um desenvolvimento de mobilizações idênticas, ou da mesma natureza, que se exprimiram posteriormente na Bélgica, em Itália, em Portugal, em Espanha, na Albânia, mesmo na Alemanha.

Porque não deixa de ser verdade que o descontentamento e a vontade de lutar tendem a generalizar-se um pouco por todo o mundo. As manifestações “contra a vida cara” multiplicam-se na Europa e muitas vezes assumem as mesmas características de massa e de confronto com a repressão policial. O mesmo acontece em muitos outros países, como aconteceu recentemente na Bolívia. Para preparar a guerra imperialista generalizada imposta pelas contradições económicas do capitalismo mundial, todas as classes dominantes são forçadas a atacar a sua população e, em particular, a sua classe operária, o seu proletariado. Manifestações, revoltas, greves em massa, ou seja, confrontos de classes, haverá e já há.

A questão não é tanto se elas acontecem, mas como torná-las eficazes do ponto de vista das reivindicações. Ora, para que sejam «eficazes», ou seja, que façam recuar os ataques da burguesia, ou mesmo apenas os travem, é preciso impor a esta última uma relação de forças. Para que esta seja, no mínimo, favorável, toda luta deve tender a envolver todo o proletariado e as camadas sociais que o rodeiam na luta em massa, o «todos juntos». Para assumir esta orientação política de generalização da luta de classes, o proletariado e as suas minorias mais combativas não podem evitar enfrentar as forças políticas burguesas, e o conjunto do aparelho de Estado capitalista, como nos mostra, mais uma vez, a mobilização actual em França. A defesa das condições de vida e de trabalho e as reivindicações de classe trazem em si a confrontação real com o conjunto do aparelho de Estado capitalista – e não com tal ou qual fracção ou órgão específico deste. O seu esquecimento, provocado pela campanha mediática de 17 a 24, leva à impotência e ao fracasso.

Em vez de reafirmar as reivindicações e a dinâmica de classe iniciais do movimento que partiu dos liceus, a manifestação massiva e combativa de 24 de Outubro veio sancionar e validar a sua relegação para segundo plano, senão mesmo o seu esquecimento.

Para os revolucionários, é da maior importância ter em conta esta inversão da dinâmica da luta, a abertura de um curso de recuo e de confusão, a fim de adaptar a sua intervenção em conformidade. Continuar a apelar à extensão desta mobilização, quando agora se situa no terreno burguês da defesa da República e da democracia, equivaleria objectivamente a reforçar a burguesia. De facto e muito provavelmente, o cariz agitador das orientações e palavras de ordem que prevaleciam até então, e que se pode resumir pela extensão e generalização da luta aos sectores operários, vai dar lugar às advertências e à denúncia das mistificações e armadilhas de ordem democrática.

No entanto, os grupos comunistas e os revolucionários devem manter-se atentos a qualquer expressão ou manutenção, mais ou menos ampla, mais ou menos localizada ou limitada, de reivindicações em defesa das condições de vida e de trabalho e apoiá-las ao máximo. Certamente, é pouco provável que tais expressões, se surgirem, consigam inverter a dinâmica actual. Mas podem ajudar a limitar o recuo e a confusão que se instalam e estabelecer uma linha de defesa mínima que permita às minorias mais claras do proletariado agrupar-se e preparar as lutas futuras.

Neste caso, a responsabilidade dos revolucionários é precisamente adaptar a sua intervenção e as suas orientações em conformidade.

 

GIGC, 26 octobre 2026

 

Notas

 

[1]. Um dia de forte mobilização sem incidentes graves: «O direito de manifestar é tão importante quanto o direito de voto» (https://www.lemonde.fr/politique/article/2026/10/25/une-journee-de-forte-mobilisation-sans-incidents-majeurs-le-droit-de-manifester-est-aussi-important-que-le-droit-de-vote_6799929_823448.html ) .

2. Provavelmente desequilibrado, mas tanto mais influenciado pelo racismo anti-imigrante propagado pelo Rassemblement national e pelos partidos de direita tradicionais.

3. Os camaradas do Grupo revolucionário internacionalista da TCI em França e os simpatizantes próximos das nossas duas organizações, ou mesmo – uma vez não sendo costume – a Corrente comunista internacional.

4. Houve de facto alguns locais de trabalho, o tecnocentro SNCF de Châtillon, o pessoal do hospital Tenon, que se puseram em greve no dia 13 de Outubro. Mas se estas mobilizações muito raras dos sectores mais tradicionalmente combativos do proletariado só podem nos alegrar, também não devem criar ilusões. Na realidade, elas escondem uma situação muito mais apática. Isto é ainda mais importante porque muitas organizações esquerdistas, ao se agarrarem a estas lutas mais do que minoritárias, tendem a pintar um quadro de uma situação que está longe da dinâmica actual - alguns chegando mesmo a falar de situações pré-revolucionárias!…

 

Fonte : Communiqué sur la situation en France suite aux manifestations récentes (GIGC) – les 7 du quebec

Este comunicado foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




sexta-feira, 30 de outubro de 2026

A inversão da prática

 


A inversão da prática

Acredita-se que esteja dançando sobre os restos do determinismo de Laplace. Mas o acaso é um conceito inteiramente negativo e vazio, e, portanto, desprovido de interesse científico. O determinismo, por outro lado, é um objecto de fascinante riqueza para aqueles que sabem como examiná-lo (René Thom, Chega de Acaso, Silencie o Ruído ).

O leitor atento que, ao folhear o texto de Bordiga de 1951, Teoria e Acção na Doutrina Marxista , chegar à concisa explicação do esquema de sucessão das formas de produção, certamente se surpreenderá com essas poucas linhas. Dois esquemas são comparados: um a representar a concepção gradualista das mudanças históricas, com uma forma sinusoidal contínua, e o outro a representar a concepção revolucionária, que, em vez disso, representa as relações de produção como fases fragmentadas (ver gráfico abaixo). A diferença entre os dois esquemas é explicada da seguinte forma:

"A primeira curva, ou a curva dos oportunistas (...) é uma curva contínua que 'admite uma tangente' em todos os pontos, ou seja, procede praticamente por variações imperceptíveis de intensidade e direcção. A segunda curva, que tinha como objectivo dar uma imagem simplista da tão difamada 'teoria da catástrofe', apresenta em cada época pontos que em geometria são chamados de 'cúspides' ou 'pontos singulares'. Nesses pontos, a continuidade geométrica, e portanto a gradualidade histórica, desaparece; a curva 'não tem tangente' ou, mesmo, 'admite todas as tangentes' – como na semana que Lenine não queria deixar passar."

Um comentário sobre esta passagem exigiria muito mais espaço do que o permitido aqui, mas contentar-nos-emos com o essencial. "Teoria da Catástrofe" evoca hoje apenas a obra de René Thom que leva esse nome e que o autor denominou, numa expressão menos jornalística e muito mais significativa, de Estabilidade Estrutural e Morfogénese . Em 1951, nem mesmo os estágios iniciais dessa obra poderiam ser conhecidos, muito menos o nome dado à teoria, que data da sua publicação (1972; foi publicada em italiano pela Einaudi somente em 1980).

Bordiga refere-se, portanto, à teoria "muito difamada" do catastrofismo revolucionário, que remonta a Marx e Engels, mas foi tomada de Hegel, que estudou filosoficamente a transição súbita de formas ou estados na física. A mudança contínua na temperatura da água é uma mudança quantitativa que não altera a natureza da água, porque ela retém as suas propriedades não mensuráveis, isto é, as suas qualidades. Mas, em certo ponto, a água transforma-se em gelo ou vapor. Se nos ativermos à aparência do fenómeno, a mudança qualitativa, que é um salto, uma ruptura na continuidade, parece não ter relação com a mudança quantitativa. Em vez disso, conclui Hegel, a relação existe (hoje diríamos que os átomos são sempre os mesmos). Marx usa o argumento para demonstrar o salto qualitativo do dinheiro, que existe há milénios, para o valor-capital, um fenómeno recente, e cita Hegel directamente. Engels retoma a discussão em Anti-Dühring ( O Capital , Livro I, Capítulo IX. Anti-Dühring , Primeira Secção, Capítulo XXII).

O leitor surpreso pode já ter-se acalmado após essa explicação inicial, mas logo após a digressão, precisa mudar de ideia: há, de facto, uma descrição sucinta da teoria das catástrofes de Thom. Por mais sensacional que a coincidência possa parecer, ela é, na verdade, bastante "normal": Bordiga não é um "vidente" que antecipou a descoberta em mais de vinte anos, mas um explorador revolucionário de descobertas burguesas. A definição encaixa-se porque, em todo caso, a escolha das palavras não poderia ter sido muito ampla. Mas a essência da teoria também se encaixa porque deriva de descobertas que estavam "no ar" e que Thom conseguiu formalizar. Bordiga certamente conhecia os antecedentes da teoria das catástrofes, pois eles remontam aos primeiros trinta anos do século e, entre outros, encontramos Poincaré, a inspiração de Thom, na origem do processo.

A teoria moderna das catástrofes interessa-nos porque, mais uma vez, desafia o dualismo entre quantitativo e qualitativo e, em última análise, encaixa-se positivamente na estrutura mais ampla da nossa teoria do conhecimento. Além disso, ela encaixa-se perfeitamente em "sistemas" determinísticos, fornecendo, assim, uma ferramenta adicional para combater teorias da dúvida e da indeterminação. Finalmente, ela pode descrever uma classe muito ampla de fenómenos: praticamente qualquer transição descontínua que ocorra num sistema composto por dois ou mais estados estáveis. Num sentido dinâmico, ela explica um sistema que pode seguir mais de um caminho de transformação estável. Um exemplo um tanto grosseiro, mas eficaz, seria um berlinde a mover-se num plano (estado estável) e eventualmente a cair (catástrofe) noutro. Uma catástrofe, propriamente dita, é, portanto, a transição repentina de um estado para outro ou de um caminho para outro (mesmo um eixo quebrando sob peso crescente é uma catástrofe). Estamos a começar a entender que a questão tem muito a ver com a estrutura da mudança social: de uma situação estável, mudanças contínuas e imperceptíveis levam a uma ruptura descontínua, ao salto revolucionário para outra forma social.

 


Os sistemas vivos, que são os mais resistentes à formalização e visivelmente não estáticos, também podem ser definidos como estando em "equilíbrio dinâmico", uma expressão que à primeira vista parece contraditória. De facto, tanto organismos individuais quanto sociedades de indivíduos absorvem e transformam energia continuamente. Nenhum estado dentro de tais sistemas pode ser estável, mas o conjunto de estados é extraordinariamente resistente a perturbações porque cada estado interage com os outros, anulando os efeitos em cascata de eventos singulares. O diagrama de Bordiga das formas sucessivas de produção (cúspides, ver gráfico) oferece uma visão geral das transições sucessivas de estado, mas a visão "fina" do processo não é explicada. Essa explicação detalhada aparece no diagrama da "inversão da práxis" (ver abaixo), novamente colocado em relação a outros diagramas que resumem as várias concepções oportunistas. Para destacar a proximidade do esquema de Bordiga com as formalizações modernas da complexidade – teoria das catástrofes, matemática do caos, fractais, bifurcações, etc. – compararemos dois procedimentos opostos: o primeiro de Ilya Prigogine (indeterminista) e o segundo de René Thom (determinista).

No exemplo de Prigogine na imagem (a), para um dado valor (l') do parâmetro de controle l, o sistema pode assumir, na bifurcação B, três estados estacionários diferentes: C, E, D. Dois deles são estáveis, enquanto um é instável. Variando o parâmetro de controlo l, podemos seguir o caminho A, B, C no gráfico à vontade. Por outro lado, variando X, mantendo o parâmetro de controlo l constante, chegamos ao ponto D. Em qualquer caso, o estado alcançado depende do histórico anterior do sistema. Esse tipo de determinismo foi comprovado tanto em culturas biológicas quanto em concentrações químicas. Prigogine observa:

"Até agora, a história tem sido usada, normalmente, para interpretar fenómenos biológicos ou sociais. Que ela possa desempenhar o mesmo papel importante em processos químicos elementares é bastante surpreendente" (Ilya Prigogine e Isabelle Stengers, The New Alliance , Cap. 5, 6: "Bifurcações e Quebras de Simetria", Einaudi 1981).

Mas na imagem (b), Prigogine observa que agora o diagrama de bifurcação, ao contrário do anterior, apresenta duas soluções simétricas e estáveis.

"Para onde irá o sistema quando atingir o ponto de bifurcação?", pergunta ele. "Há uma escolha entre duas possibilidades aqui (...) como o sistema escolherá entre esquerda e direita? Estamos diante de um elemento irremediavelmente aleatório."

 


O autor acrescenta que todo sistema, diante de múltiplas bifurcações (uma cascata) em que a "escolha" (e já temos algo a dizer sobre o termo) entre diferentes futuros possíveis é indecidível, representa uma transição para o caos. Da combinação de caos e necessidade, na presença de pequenas perturbações no sistema, pode surgir uma nova ordem. Essa é a mesma conclusão a que chegou Jacques Monod no seu famoso ensaio " O Acaso e a Necessidade" (Arnoldo Mondadori, 1970). A nossa resenha deste ensaio está disponível em: "Comment Mr. Monod terrasse la dialectique (Como o Sr. Monod desmonta a dialética)," Programme Communiste nº 58, Abril de 1973.

Na teoria de René Thom, o ponto de partida para representar a "catástrofe" mais simples assemelha-se a um diagrama de bifurcação, no qual um dos eixos é o factor de controlo usual e o outro é o comportamento geral do sistema em direcção a um "máximo" ou a um "mínimo".

 


O comportamento qualitativo deste sistema é muito simples. Para certos valores do factor de controlo, existem tanto máximos quanto mínimos, e o sistema é estável, com uma atracção em direcção aos mínimos. Num valor crítico do factor de controlo, o sistema assume um equilíbrio incerto, enquanto que, além do valor crítico, torna-se completamente instável. Este modelo contém pouca informação para explicar factos reais, mas ajuda-nos a compreender o mecanismo da teoria: tudo depende do factor de controlo. Thom acrescentou que o truque dos indeterministas é vulgar, pois nenhum sistema apresenta características isoladas correspondentes a um diagrama de bifurcação perfeitamente simétrico. Cada "história" dos caminhos possíveis individuais está relacionada com o universo de histórias adjacentes; e o próprio facto de a indecidibilidade ser resolvida com uma busca estatística pelos resultados demonstra que existe uma regularidade estatística e, portanto, um substrato determinístico. Na dinâmica dos factos sociais, a "teoria da catástrofe", tal como Bordiga a concebeu, possui múltiplos factores de controlo (veremos isso em breve), mas o diagrama de bifurcação simétrico simples, com um único factor de controlo, é suficiente para algumas considerações em relação à teoria marxista do partido.

Thom, ao criticar Prigogine, não excluiu de modo algum a possibilidade de que a dinâmica de sistemas complexos contenha pontos singulares que levam a bifurcações; ou, se a bifurcação for intransponível, à "catástrofe". Excepto que

O jogo intelectual dos teóricos do caos a partir da ordem e da ordem a partir do caos, isto é, do acaso e da necessidade, consiste em apagar mentalmente o ambiente dinâmico global — sempre dedutível de um exame suficientemente completo da base sobre a qual o sistema se desenvolve — em favor da pequena perturbação desencadeadora, que leva ao colapso da estabilidade imperfeita do sistema em direcção a um equilíbrio de energia inferior. O truque reside em fazer as pessoas acreditarem que a evolução subsequente, com os seus efeitos espectaculares, é de fato criada pela 'flutuação' desencadeadora. (...) Um exame suficientemente completo da base sobre a qual o sistema se desenvolve permite-nos prever a priori os possíveis resultados da bifurcação, que preexiste à flutuação desencadeadora. Esta última tem o papel de desencadear o processo e possivelmente determinar, com uma escolha aparentemente arbitrária dentre todos os resultados possíveis, a evolução subsequente. Mas certamente não a cria.

Pedimos desculpas ao autor por modificar ligeiramente a linguagem excessivamente técnica em benefício do leitor. Na dinâmica revolucionária formalizada por Bordiga com a estrutura da inversão da práxis, temos: 1) uma análise do fundamento sobre o qual o sistema se desenvolve, que identifica 2) quatro "parâmetros de controlo", cuja dinâmica leva a 3) uma bifurcação indecidível (continuação do capitalismo ou a ruína de todas as classes), em que todas as tangentes ou nenhuma aparecem na cúspide (a semana que Lenine se recusou a deixar passar), e, portanto, 4) a práxis é revertida porque o partido, um produto da história, torna-se seu factor subjectivo, representando a "vontade".

 


Na teoria das catástrofes de Bordiga, os quatro parâmetros de controlo (ver gráfico) são representados num diagrama bi-dimensional, enquanto na teoria de Thom são representados no que se chama de "gráfico de catástrofe em forma de borboleta", que se desdobra num espaço multidimensional. O diagrama de Bordiga demonstra que, próximo à bifurcação, na controvérsia entre Prigogine e Thom, Thom estava certo: o ambiente, o universo de determinações do qual nenhum átomo social pode escapar, polarizado pela convergência de interesses que não mais opõem indivíduos uns aos outros, mas blocos inteiros da sociedade, classes, leva o instrumento partidário a escolher . E aqui o termo não tem mais o sentido de "livre-arbítrio" que Prigogine atribui aos fenómenos dinâmicos. Não sabemos se Thom era anti-comunista como todos os seus colegas dedicados à ciência paga por universidades burguesas, mas a mente social prevalece sobre a mente individual do pesquisador, e esta é uma lição duradoura do próprio Bordiga. Além disso, o próprio Thom registrou o fenómeno com palavras quase idênticas às de Bordiga:

Muitas descobertas científicas são inegavelmente verdadeiras, mas o interesse que despertam é fraco, quase inexistente. O verdadeiro problema reside em rastrear a origem desse interesse. Em alguns casos, trata-se de uma fonte sociológica local: um resultado é interessante simplesmente porque a entidade financiadora da pesquisa apresentou ao cientista um problema que ele ou ela tem todo o interesse em resolver, ainda que apenas para impulsionar a sua carreira.

Mas há casos em que a pesquisa se enquadra na necessidade de conhecimento global, que é o verdadeiro objectivo, o necessário para "decifrar o mundo, torná-lo inteligível" ; então o interesse deixa de ser venal, porque "revelar uma estrutura subjacente que torna os fenómenos inteligíveis" significa adoptar aquele método de abstracção que, deduzido de Hegel, Marx tomou emprestado e inverteu com maestria, e que Bordiga defende em cada encontro, em cada escrito sobre os problemas do conhecimento. Substituir um complexo visível por um simples (abstracto) invisível não é uma questão de interpretar a realidade, mas de revelá-la.

A tarefa de revelar a estrutura subjacente da sociedade capitalista, que contém em si todas as invariantes das sociedades anteriores, pareceria tão impossível quanto a tarefa de ordenar em algum esquema a infinidade de movimentos e mudanças inerentes a todo o mundo ao nosso redor. Bordiga leu Leibniz e a sua "lei da continuidade" (1687), que exige uma certa ordem nas perguntas para que haja ordem nas respostas; certamente estudou os resultados da pesquisa de Poincaré e acompanhou o debate sobre a estabilidade do sistema solar (por exemplo, Duhem, 1914), do qual emerge que o problema das perturbações que levam às "catástrofes" é, em última análise, o problema da validade do determinismo.

A questão crucial a ser respondida é: se um sistema dinâmico sofre perturbações contínuas e tende a amplificá-las matematicamente até que pequenas variações iniciais produzam grandes mudanças finais, como explicar que, na prática , a maioria das formas (incluindo o capitalismo) apresente uma robustez inesperada a pequenas perturbações? Para responder em linguagem "catastrofista", diríamos: existe uma estabilidade estrutural insensível a elementos críticos individuais, mas, ao mesmo tempo, ela é desafiada por perturbações que, em estágios muito específicos, podem levar a rupturas descontínuas. A compreensão dos fenómenos torna-se possível ao reduzi-los através de processos de abstracção.

A teoria das catástrofes atraiu apoio e críticas, mas uma coisa ela demonstrou: a tarefa antes considerada impossível de explicar o número infinito de formas e comportamentos provou ser viável, uma vez que, ao submeter essas formas e comportamentos a certas restricções , encontra-se, em última análise, um número finito de tipos, de acordo com Thom e seus alunos, apenas sete.

A estrutura de Bordiga também explica a génese de teorias burguesas que avançam paralelamente ao marxismo e ficam atrás dele. Os determinantes que surgem dos impulsos fisiológicos elementares do indivíduo em direcção à actividade consciente da organização são invertidos: a actividade consciente da organização determina o comportamento das classes e as acções dos indivíduos, enquanto a influência revolucionária neutraliza a influência conservadora e permite o salto social. Antes que esse salto ocorra, as reais necessidades de produção e pesquisa inevitavelmente produzem muitas dessas capitulações ideológicas burguesas ao marxismo.

Como todo padrão de catástrofe (dos sete tipos possíveis) deve satisfazer a "restricção de Leibniz" mencionada acima, a pesquisa sobre descontinuidade em sistemas dinâmicos não pode assumir a própria descontinuidade como um dado da dinâmica. Pesquisadores que exploraram a riqueza potencial da teoria de Thom observaram que o conceito de "explicação" implícito na teoria também é relevante de uma perspectiva matemática, pois insere-a na grande tradição clássica de pesquisa sobre o "contínuo". Se essa interpretação estiver correcta, e se Bordiga tivesse vivido para conhecê-la, ele teria ficado muito satisfeito. De facto, ele escreveu em 1956 a respeito da teoria da relatividade (ênfase no texto):

"Ao substituir o tempo universal pelo tempo local, a mecânica pode ser reescrita com novas fórmulas, mas com base nos mesmos princípios de Galileu, Newton, d'Alembert, com as mesmas equações canónicas ... [Einstein] deixa inalterada a hipótese de Descartes e Leibniz, isto é, ele mede tudo com quantidades que variam gradualmente , portanto contínuas, aplicando assim o cálculo infinitesimal e sistemas de coordenadas [mesmo que] ele ainda assim peça à matemática novos aparatos" ( Relatividade e Determinismo, cit.).

Essa reivindicação de uma "ciência do continuum" é importante porque ajuda a aproximar a ciência da concepção unitária do universo, típica do marxismo. Einstein, acrescenta Bordiga, escreve "em última análise, a identidade monista e materialista da matéria e do pensamento". Assim como qualquer pessoa que trilhasse o mesmo caminho que nós.

A concepção teórica marxista "catastrófica", expressa pelo modelo de Bordiga sobre a inversão da práxis, conecta dialeticamente o "substracto", ou seja, o ambiente económico material que é a arena das relações humanas, com os efeitos da ideologia e do "pensamento". A acção do partido político, que é a superestrutura, torna-se, no ponto da catástrofe, uma força material que provoca uma mudança qualitativa no "Estado".

"A relação dialética reside no facto de o partido revolucionário ser um factor consciente e voluntário nos acontecimentos, na medida em que também é resultado deles e do conflito que contêm entre as velhas formas de produção e as novas forças produtivas. Essa função teórica e activa do partido, contudo, ruiria se os seus laços materiais com a contribuição do meio social, da luta de classes primordial, material e física, fossem rompidos" ( Teoria e Acção na Doutrina Marxista, cit.).

À luz dessas citações, uma famosa e peremptória afirmação de Bordiga torna-se mais clara: revoluções e partidos não são feitos, são dirigidos (em "Partito e azione di classe", Rassegna comunista , 1921).

Um escritor de divulgação científica que escreveu um ensaio sobre a teoria das catástrofes, ignorando a relação dialéctica entre o partido e o seu ambiente que o torna "um produto e um factor na história", fica impressionado com a atitude de Lenine em Outubro, quando chegou "a semana que não se pode perder". Este autor, à sua maneira, de forma um tanto ingénua, regista a força subversiva da inversão de práticas do Partido Bolchevique:

"Durante os eventos que antecederam a Revolução Russa, diz-se que Lenine estava muito atento ao momento oportuno para a ascensão dos bolcheviques ao poder. Segundo ele, sob as circunstâncias certas, um pequeno 'empurrão' seria suficiente para provocar uma transicção que, noutro momento, exigiria um esforço muito maior" (A. Woodstock e M. Davis, A Teoria da Catástrofe , Garzanti 1982).

Partimos de uma reflexão de Bordiga sobre o mesmo facto: é interessante encontrá-lo num livro sobre a teoria matemática das catástrofes.

 

Fonte:

https://www.quinterna.org/pubblicazioni/rivista/19/rovesciamento_prassi.htm   

Este texto foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice