Não arde Paris somente…
…Notas sobre os coletes amarelos
Introdução
Se há uma imagem que é
costumeiramente repetida no movimento dos coletes amarelos é a de manifestações
que rompem um cordão policial, ou expulsam a polícia de choque a pedradas, ou
simplesmente organizam uma barricada de maneira a bloquear a via e saquear as
lojas de luxo, enquanto de pulmões abertos, cheios de adrenalina, cantam com
orgulho o hino La Marseillaise. É uma boa imagem para expressar a natureza
confusa e contraditória do movimento. Em qualquer manifestação poderão ser
encontradas reivindicações do Referendo de Iniciativa Cidadã (RIC) e da saída
da União Europeia para defender a economia nacional, ao mesmo tempo em que
algumas bandeiras francesas e regionais ondulam aqui e ali com certa parcimónia.
Tudo isto convive no movimento com agressões constantes à propriedade privada
através de saques e piquetes de greve, a criação de laços de solidariedade, a
apropriação de espaços de encontro e associação proletária: em definitivo, o
questionamento prático da democracia. Ao mesmo tempo, é visto em toda parte uma
forte reivindicação da nação e dos seus símbolos, dentre os quais a Revolução
Francesa exerce ao mesmo tempo o papel de símbolo de orgulho patriota e de sublevação
contra a tirania e a miséria.
Os coletes amarelos são – se alguém
ainda duvidava – um movimento proletário. Como em todo movimento proletário,
nele se expressa o proletariado realmente existente e o mundo que ele antecipa.
O primeiro advém da confusão actual, da nossa fraqueza enquanto classe, da
falta de memória que os vencedores nos expropriaram como vencidos. Porém, parte
também da defesa instintiva, inevitável, de algumas necessidades que o capital
deve negar para poder produzir-se. Esta defesa das suas necessidades empurra o
proletariado a negar, por sua vez, ao capital e seu domínio sobre nossas vidas,
e não somente nisso, já que nesse processo o proletariado também se nega, se
reafirma como comunidade de luta contra a sua própria existência isolada,
cidadã, democrática. Esta contradição essencial ao capitalismo, inerente à sua
própria reprodução, é o que determina a possibilidade da revolução. Faz dela
algo material, físico, alheia às nossas vontades e consciências individuais. É
assim que o proletariado antecipa no seu combate um mundo diferente, ao mesmo
tempo em que segue arrastando uma parte da merda deste, que fará parte da base
da sua própria derrota se não consegue superá-la no processo.
Seja como for, esta
contradição não pode ser esquecida por nenhuma análise militante que postule
seriamente as características do movimento, seus avanços, limitações e o papel
que exercem nele as minorias revolucionárias. Há dois enfoques, duas caras da
mesma moeda, que ressurgem geralmente nas análises que são feitas da nossa
classe e que nos incapacitam de compreender essa contradição. O primeiro é
idealista e reduz o movimento ao que diz e pensa de si mesmo, omitindo o que
faz para continuar com a bandeira que agita e que abandona assim que a menor exigência
social-democrata aparece nos seus panfletos. O segundo é objectivista e
pretende compreender a natureza do movimento a partir de sua composição
sociológica. Com o bisturi na mão, toma indivíduo por indivíduo e coloca-o numa
ou outra coluna de acordo com a sua renda, a sua posição no sistema produtivo,
o bairro em que vive ou os estudos que teve. Uma vez desmembrado, costura tudo
muito estatisticamente e pretende ver nisso a totalidade: temos aqui, sob esse
prisma ideológico, um movimento pequeno-burguês que conseguiu cooptar um
proletariado embrutecido em prol da defesa da economia nacional. Voilá: o
movimento dos coletes amarelos. O necessário já foi
dito.
Junto com esses
enfoques, que geralmente vêm combinados, apareceu nos últimos meses outro de carácter
anti-fascista, que retoma a visão idealista e objectivista que acabamos de
demonstrar para se indignar com tantas bandeiras francesas e tanta
Marseillaise. Reduz o movimento aos grupelhos de extrema-direita que o cortejam
e recorda-se com nostalgia das boas procissões de antigamente, claramente das
esquerdas, nas quais a CGT entregava os manifestantes encapuzados à polícia e
os “insubmissos” mélenchonistas[1]
empunhavam –ali sim, sem problemas- as suas bandeiras francesas por uma nova
república.
Felizmente, o
movimento dos coletes amarelos é outra coisa. Agora
é certo, que afirmemos o carácter proletário do movimento, apesar de todas as
ideologias e bandeiras que flutuam entre os seus protagonistas, não quer dizer
que as mesmas não tenham importância ou que não serão determinantes no fim.
Pelo contrário, partindo da prática real que determina o movimento e lhe
confere o seu carácter de classe, percebemos e criticamos todas essas forças do
inimigo que actuam para prendê-lo, neutralizá-lo e dar-lhe uma direcção que se
contrapõe às mesmas necessidades e interesses que determinam o próprio
movimento. Sem essa compreensão da realidade não se faz outra coisa a não ser
projectar imagens distorcidas do movimento para reduzi-lo a um movimento
pequeno-burguês, de classe média, cidadão, de defesa do “verdadeiro povo
francês”, dirigido por grupos de direita, etc. Com certeza nós não iremos
colaborar nessa projecção espectacular que se une com todos os esforços da
burguesia em liquidar esse movimento. A nossa intenção é, justamente,
contribuir em impulsionar a potência proletária que a luta dos coletes amarelos contém e denunciar todas as forças que criam obstáculos no desenvolvimento
dela.
O que o movimento faz
No final de Outubro de 2018, começa a
sentir-se um mal-estar geral pelo anúncio do governo Macron de uma subida dos
impostos sobre a gasolina. Diante da tentativa da burguesia de fazer-nos pagar
pela catástrofe ecológica e social na qual se baseia o seu domínio, começam a
produzir-se bloqueios de estradas e piquetes organizados em volta das rotundas.
O movimento ecologista, uma corrente social-democrata onde quer que existam,
chama a mudar o carro pela bicicleta se dói tanto o aumento do preço da
gasolina. Claramente, ir trabalhar de bicicleta às seis da manhã e a 40
quilômetros de distância não é tão fácil. Tampouco é fácil fazer de bicicleta,
no comércio mais próximo, que está a 10 quilómetros de distância, a compra do
mês para toda uma família, mas isso não parece incomodá-los.
O começo do movimento,
centralizado pela primeira vez nas mobilizações de 17 de Novembro, confunde
toda a gente. A massividade das manifestações e dos bloqueios de estradas
assusta a burguesia. As rotundas convertem-se em lugares de reunião e
discussão. Também se produzem as primeiras tentativas de separar o
proletariado. Fala-se de uma revolta do campo contra a cidade, da
pequena-burguesia das províncias – poujadista2 por essência – contra a burguesia boémia[2], da reacção fanática do petróleo contra os ecólogos
progressistas de boa fé e, com maior intensidade que todos os anteriores, dos
brancos contra os negros e árabes, da France blanche-d’en-bas[3]
contra a migração abarrotada nos subúrbios das grandes cidades. Ao mesmo tempo,
tanto Le Pen como Mélenchon tentam capitalizar o movimento e declaram o seu
apoio – quando esse começar a desenvolver-se e chegar aos seus picos de maior
combatividade, ater-se-ão a um silêncio desconfortante.
Mas os esforços são em
vão. Se algo caracteriza esse movimento é a sua vitalidade, a sua capacidade de
resistência ante a repressão física e ideológica, ao menos a mais directa. As
seguintes manifestações ou “actos”, uma a cada sábado, serão verdadeiras
manifestações proletárias – nem convocadas e nem convocáveis por nenhum aparelho
do Estado – que vão superar rapidamente a luta contra o imposto na gasolina. O
movimento começa a generalizar-se. Começa a falar-se de uma vida muito cara,
salários muito baixos, uma miséria e precariedade permanente que não deixam
ninguém respirar e põem em dúvida a possibilidade de sobreviver neste mundo.
Porém, não há só o falatório. Alguns bloqueios de rodovia tornam-se piquetes
contra as grandes plataformas de distribuição de mercadorias, geralmente em
consonância com uma parte dos trabalhadores. As primeiras manifestações
produzem-se nos bairros mais ricos das grandes cidades e convertem-nas em
cenários ideais para o ataque directo à propriedade privada. Na ilha La
Réunion, “departamento ultramarino” francês, a luta adquire uma intensidade
maior, ainda que mais breve devido à maior repressão. Durante duas semanas os coletes amarelos fecharão o porto, gerando um desabastecimento na ilha que vem acompanhado
de saques organizados e distúrbios, assim como do encerramento de comércios,
escolas e universidades. A situação torna-se tão incontrolável que o governo
tem de impor o recolher obrigatório e mandar o exército para acabar com a
mobilização.
Frente às expressões
racistas e anti-imigração que surgem no começo de uma parte do movimento, e que
servem de megafones para os grupos de extrema-direita, as lutas em La Réunion
vão dar um exemplo de unidade de classe por cima das raças. Depois das
primeiras manifestações o Comité Adama Traoré[4] chamará a participar no Acto III, a manifestação de 1 de Dezembro,
que se converterá numa batalha generalizada contra a polícia. Barricadas,
saques, carros incendiados e ataques a comércios e bancos assolam os bairros
ricos de Paris. O Arco do Triunfo, um dos maiores símbolos nacionais da
República, é saqueado no seu interior e na sua fachada escreve-se: “Os coletes
amarelos triunfaram”, “Macron renuncie”, “Aumentar a renda mínima” ou “Justiça
para Adama”. É um escândalo completo. Ao mesmo tempo, as forças policiais
atacam sem piedade os manifestantes. Somente nesse dia em Paris, atiram-se mais
balas de borracha que no ano de 2017 inteiro. O número de feridos é 250, com
vários olhos e mãos feridos e um homem em coma, além de mais de 300 detidos,
uma cifra que aumentará a quase 2.000 no Acto IV. Depois desta manifestação, o
movimento estende-se aos colégios e vários deles são bloqueados pelos
estudantes, especialmente na zona norte dos subúrbios parisienses. Durante as
próximas semanas centenas de institutos serão paralisados ou pelo menos terão as
suas actividades seriamente perturbadas.
A cenoura e castigo
Em 5 de Dezembro,
Macron retira o aumento de imposto na gasolina e no dia 6 o ministro do
interior, Castaner, anuncia que 90.000 polícias de choque serão mobilizados
para o Acto IV, assim como tanques como os usados no despejo da ZAD em
Notre-Dame-des-Landes. No dia seguinte um vídeo é espalhado no qual a polícia
humilha algumas dezenas de estudantes de colégios em Mantes-La-Jolie, colocando-os
de joelhos com as suas mãos atrás da cabeça. A repressão da manifestação de 8
de Dezembro é tão brutal que cada vez mais se torna insustentável a estratégia
do governo de distinguir os casseurs – os violentos – dos “bons e pacíficos
cidadãos com coletes amarelos”. O movimento começa
a organizar-se contra a repressão. Estendem-se as redes de apoio legal aos
detidos e criam-se grupos de médicos de rua, pessoas com algum conhecimento de
primeiros socorros que se distinguem na manifestação para ajudar os feridos. E
o facto é que o movimento hoje, com três meses desde o seu começo, conta com
mais de 3.000 feridos, entre os quais se encontram várias dezenas de pessoas
que tiveram o olho ferido por uma bala de borracha, ou que tiveram a mão
arrancada por uma granada de atordoamento. O nível da repressão supera
enormemente os limites do que se está acostumado na região europeia, e isso
impulsionou um desenvolvimento massivo da solidariedade com os feridos. Em
muitas manifestações, um grande número de pessoas leva bandagens nos olhos ou
na cabeça com manchas de sangue falso, como forma de denúncia da violência
policial.
Em 10 de Dezembro, Macron anuncia um
aumento do salário mínimo, que acaba por ser um aumento das ajudas a alguns
trabalhos precários. No dia seguinte, produz-se um atentado em Estrasburgo, que
é reivindicado pelo Estado Islâmico, o que Macron tentará utilizar como maneira
a reprimir o movimento, pedindo que não houvesse manifestação naquele sábado e
aproveitando a ocasião para incrementar a presença de forças policiais na rua.
No entanto, continuam a ocorrer as mobilizações e o governo tem que desembolsar
300 euros de bónus para cada polícia de maneira que não desistam do seu
compromisso na repressão dos demonstradores, que oscilam entre enfrentamentos
violentos com a tropa de choque e chamadas à solidariedade com o movimento.
Ao contrário das
muitas vozes que anunciam o fim do movimento com a subida das ajudas e a
retirada do imposto, assim como pela dura repressão e os milhares de detidos,
os coletes amarelos não perdem a sua
vitalidade. O ano de 2019 começará com uma manifestação no dia 5 de Janeiro, na
qual vários manifestantes utilizam maquinaria de construção para derrubar a
porta do ministério da Secretaria de Estado, podendo entrar no edifício e gerar
diversos danos. O secretário de Estado tem de ser evacuado. Os sindicatos
tentarão capitalizar com o movimento, chamando uma greve no dia 5 de Fevereiro,
mas a adesão será mínima e a presença dos coletes amarelos bem escassa. Dias
depois, no sábado, dia 9 de Fevereiro, convoca-se uma manifestação que retoma a
linha de não ser comunicada às autoridades, de modo a combater a tendência à
democratização e pacificação dos actos anteriores, os quais haviam
correspondido com uma realocação para fora dos bairros ricos e uma diminuição
nos saques. E funciona. Se qualquer coisa é repetida durante esse acto XIII é
que, para serem escutados, o enfrentamento é necessário.
O movimento aprende. As demonstrações seguintes
retornarão aos bairros ricos do leste
parisiense e terão o seu ponto de culminação no acto XVII de 16 de Março. Essa
convocação é feita durante o fim do “Grande Debate”, um processo de democracia
participativa aberto por Macron para tentar – em vão – acalmar o movimento. No
começo o “Grande Debate” é simplesmente um motivo para ridicularização, porém a
essa altura já começa a tornar-se irritante. O acto XVIII tem como slogan
“Ultimatum”, o qual adquire um sentido bem literal: Paris irá tornar-se o
cenário de uma batalha generalizada como não se havia visto até então. Tenta-se
novamente tomar o Arco do Triunfo, e quando a polícia consegue impedir a raiva
proletária dirige-se contra as lojas de luxo e restaurantes nos Champs-Élysées,
que arderão durante toda a noite.
A burguesia também
aprende. A situação estará tão incontrolável que Macron, dias depois, depõem o
chefe da polícia e coloca no seu lugar Didier Lallement, bem conhecido pelas
suas habilidades repressivas. Ao mesmo tempo, a polícia de choque é reforçada
com soldados da Operação Sentinela, um corpo militar criado após o ataque ao
Charlie Hebdo em Janeiro de 2015 e especializado na luta contra o terrorismo.
Daí em diante, toda a manifestação produzida nas proximidades dos Champs-Élysées
é proibida e duramente reprimida. Contudo, e ainda que a presença da polícia
aumente nas ruas e a repressão recrudesça, nas semanas seguintes chama-se um 1º
de maio “amarelo e negro”, em referência à acção conjunta de coletes amarelos e do black bloc, e Paris tornará a arder. Actualmente o número de detidos
eleva-se a 8.700 pessoas –segundo o Ministério do Interior – e quase 2.000
condenados, dos quais por volta de 40% com cumprimento de tempo em prisão. A
isso é preciso somar a colocação em prática da lei anti-casseurs, que
escandaliza até mesmo algumas fracções da burguesia ao permitir detenções
preventivas das pessoas suspeitas de poderem cometer um crime – um aceno
horrível ao filme Minority Report – A Nova Lei – durante a demonstração.
Claro que toda esta
revolta não surge de nada novo, nem é uma criação única e absolutamente
espontânea dos coletes amarelos. Na verdade, a forte
combatividade e a capacidade de resistência e apoio mútuo que demonstra o
movimento provêm de um aprendizado prévio do proletariado na França. Assim,
mantêm-se vivas a recordação da revolta dos banlieues de 2005 e as formas de
organização que se desdobraram naquele momento[5]. Por outro lado, as lutas contra as Reformas Trabalhistas
em 2016 geraram uma série de experiências e aprendizagens ao interior dos black
blocs que não são subestimadas, ao mesmo tempo em que se abriam às pessoas que
não haviam participado antes e faziam-se chamadas as militantes de outros
países como Alemanha ou Itália a juntarem-se a algumas convocatórias, como foi
o caso do 1º de Maio de 2018[6].
Paralelamente, no curso destes meses vai-se
além das rotundas e formam-se assembleias por todo o país. As de Saint-Nazaire
e Commercy vão funcionar como motor desse processo, fazendo várias chamadas à
criação de assembleias e à apropriação de espaços de encontro e associação
proletária, fundamentais não somente para discussão e reflexão comum, mas
também para construção de laços de solidariedade com os detidos e feridos. Ao
mesmo tempo e diante da necessidade de mecanismos de centralização do
movimento, inicia-se um processo de coordenação entre distintas assembleias que
dará lugar a uma “assembleia de assembleias” no fim de semana do dia 26 e 27 de
Janeiro, e uma segunda do dia 5 ao 7 de Abril.
O que o movimento diz
O que o movimento diz
e pensa de si mesmo é heterogéneo e confuso. Isso é natural e revela o seu
caráter massivo e genuíno, ao mesmo tempo em que revela a situação de fraqueza
que partilha a nossa classe nesse período. A ausência de memória proletária e a
força actual do cidadanismo faz com que os coletes amarelos se identifiquem mais
como o povo contra “os de cima” do que como proletariado contra a burguesia e
seus cães. Isso não lhes impede de lutar como tal, como vimos, já que o seu
próprio desenvolvimento empurra-os para o enfrentamento com o Estado e a
propriedade privada, porém, sem dúvidas, é uma bandeira que pesa sobre as nossas
cabeças e que abre as portas às distintas formas de recuperação burguesa.
Ao mesmo tempo, é importante não fazer
um bloco homogéneo a partir da ala maioritária do movimento, esquecendo toda
luta ao interior do mesmo para clarificar e impor os nossos interesses. Sem
dúvida a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, inclusive num
processo de luta contra essa mesma classe. Contudo, a vitalidade de um
movimento mede-se também pelas minorias que tentam demonstrar e combater as
armadilhas da (social)democracia, ao mesmo tempo em que aprofundam a
radicalidade do próprio movimento contra o sistema. Por isso é importante
destacar vozes como as dos coletes amarelos de Paris Leste, onde se diz claramente
que:
“Não somos a “comunidade
de destino”, orgulhosa da sua “identidade”, cheia de mitos nacionais, que não
foi capaz de resistir à história social. Não somos franceses.
Não somos essa massa
de “gente humilde” disposta a juntar-se com os seus amos enquanto forem “bem
governados”. Não somos o povo.
Não somos este
conjunto de indivíduos que devem a sua existência somente ao reconhecimento do
Estado e a sua perpetuação. Não somos cidadãos.
Nós somos aqueles que
são obrigados a vender a sua mão de obra para sobreviver, aqueles dos quais a
burguesia obtém a maior parte dos seus benefícios dominando-nos e
explorando-nos. Nós somos os espezinhados, sacrificados e condenados pelo
capital, na sua estratégia de sobrevivência. Somos essa força colectiva que
abolirá todas as classes sociais. Somos o proletariado”[7].
Porém, antes disso, se
há algo que caracteriza os coletes amarelos positivamente é o seu
rechaço a toda forma de representação. Este é de facto um dos factores que
nutre a sua vitalidade como movimento. Em primeiro lugar, o rechaço aos grandes
meios de comunicação é total. Denuncia-se o seu papel na propaganda ideológica
do governo e produzem-se enfrentamentos e inclusive expulsões dos jornalistas
dos grandes meios que se deixam ser vistos nas demonstrações.
Ao mesmo tempo, há uma
profunda recusa à representação política e sindical. O rechaço aos sindicatos é
tão mais notável porque eles têm um grande peso na política francesa. Nos
últimos anos de mobilizações, nunca se havia visto tal deslegitimação, embora a
criação de cortèges de tête nas lutas contra a Reforma Trabalhista em 2016
vinha anunciando uma busca de autonomia em relação a eles, embora de forma
minoritária. Isso é certo mesmo se a declaração da greve “geral” por parte da
CGT em 5 de Fevereiro, como uma tentativa de canalização sindical da luta, teve
apoio por parte das vozes mais visíveis do movimento. A greve da CGT pôs em
evidente contradição àqueles que haviam anteriormente rejeitado a presença dos
sindicatos e agora davam boas-vindas à suas convocações como se elas fossem uma
maneira de estender a luta ao local de trabalho. No entanto, como dissemos
antes, a greve teve pouquíssima adesão e o número de coletes amarelos no passeio sindical dessa tarde foi bastante escasso. Nas manifestações os
sindicatos, com excepção do esquerdista SUD- Solidaires, e esse timidamente,
não se atreviam a aparecer com faixas ou adesivos. De fato, há poucas faixas
pré-fabricadas, e as diferentes reivindicações que cada colete amarelo decide
escrever nas costas com um simples marcador cumprem a sua função. A necessidade
de defender a autonomia do movimento está muito presente entre os manifestantes
e as tentativas de capitalizá-lo politicamente têm sido um verdadeiro fracasso,
assim como a inscrição de uma “lista eleitoral dos coletes amarelos” para as eleições parlamentares europeias ou a organização dos governos
municipais para recolher “cadernos de queixas” – um aceno aos cahiers de
doléances da Revolução Francesa – com o objectivo de organizar o “Grande
Debate”.
Porém, essa rejeição
de representação tem a sua contrapartida. Apesar de conter esse cordão
sanitário contra o enquadramento burguês clássico, ela contém ao mesmo tempo uma
negação da comunidade de luta, do nosso ser proletário colectivo. Ela não
deriva da comunidade de luta, mas do indivíduo isolado que representa a si
mesmo e, portanto, nega a expressão colectiva e suas distintas formas de
materialização. É o terreno que dá abertura para a democracia, especialmente a
democracia directa. Esconde, de um lado, a ideia de que somente o indivíduo
pode representar-se a si mesmo e de que, no fundo, a única maneira de organizar
esse conjunto de indivíduos isolados é com formas de democracia directa,
votações, processos formais examinados ao detalhe, reivindicações vazias para
que nenhum indivíduo fique de fora: em definitivo, expressa-se no assembletismo
mais limitante para a acção do movimento. Doutro lado, esta rejeição encontra a
sua expressão ideológica num discurso populista pelo qual o povo tem de fazer
valer a sua soberania ao refundar uma nova forma de democracia. É aqui onde o
Referendo de Iniciativa Cidadã mostra-se como um excelente instrumento de
recuperação. “Adeus à guerra dos egos e à guerra de poder. Com o RIC ninguém
mais tem o poder, é toda a população que o possui”, diz Maxime Nicolle, um dos
quais a imprensa declarou “líder” do movimento. Se a ideologia democrática é em
si mesma uma das forças burguesas mais arraigadas, uma das últimas barreiras
que teremos de superar no processo de constituição de classe, esta ganha nova
energia no contexto de debilidade em que nos encontramos, na dificuldade de
reconhecermo-nos como proletários e de sentirmo-nos uma só classe a nível
mundial. Assim, a defesa democrática da soberania vê-se reforçada na
identificação da catástrofe capitalista com o “fenómeno da mundialização/globalização”
e o recuo nacionalista que é dado como resposta por parte da social-democracia,
seja mais a direita ou mais a esquerda[8]
Apesar da presença maioritária
do RIC, não quer dizer que não existam vozes que avisam do risco de recuperação
que contém. Assim o fazem, por exemplo, os coletes amarelos de Toulouse ao falar
de “RICu- peração” no seu periódico Le Jaune [O amarelo]:
“O RIC aproveitou essa
ilusão. Há que se dizer que, à primeira vista, a proposta era atractiva.
Dizia-nos que, com isso, finalmente poderíamos ser escutados directamente, que
poderíamos recuperar o poder sobre as nossas vidas. Nós decidiríamos tudo. E
mesmo sem lutar, sem arriscar a vida nas rotundas e nas manifestações, somente
votando, nos nossos computadores nas nossas salas de estar, usando pantufas e
próximos de uma aconchegante lareira! Mas no comércio, quando se tem um produto
para vender, mente-se: “Sim, assim que tivermos o RIC, poderemos conseguir
tudo”. Isso é falso. Para começar, pedir à burguesia a sua opinião para saber
se estão de acordo com aumentar os nossos salários! é o cúmulo! Um voto contra
os interesses dos capitalistas como, por exemplo, o aumento do salário mínimo
por hora seria simplesmente rechaçado. Lembremo-nos do referendo de 2005 [sobre
a Constituição Europeia]. E isso sem mencionar a intensa propaganda que
sofreríamos se votássemos contra, sozinhos em frente das nossas telas”[9].
O peso do
nacional-popular no movimento, um complemento necessário de um discurso
democrático, reflecte-se na ausência da sua consciência internacionalista. É
paradoxal, já que os coletes amarelos foram retomados por
proletários de outros países para expressar a sua própria luta contra as
condições de miséria existentes. Isso ocorreu especialmente na Bélgica, onde a
identificação é mais imediata pela proximidade territorial e linguística, porém
também no Egipto, onde o governo, temeroso de uma extensão do movimento, teve
de proibir a venda de coletes amarelos diante do apelo
realizado por diferentes grupos para celebrar o aniversário da revolta de 2011
vestidos de coletes amarelos para expressar que é
uma mesma luta. Também apareceram coletes amarelos durantes os protestos na
Bulgária e na Sérvia – igualmente contra o aumento da gasolina – e os do
Iraque, que se iniciaram pela intoxicação de dezenas de milhares de pessoas
devido à má purificação da água. Contudo, em lugares como Alemanha, Holanda ou
Espanha os coletes amarelos foram usados por
grupos de extrema-direita – e também por alguns grupos social-democratas – sem
muito êxito de mobilização. Nesse contexto, apesar da natureza
internacionalista do movimento, que é reconhecida por proletários de outras
regiões do mundo, o movimento francês parece reorientado em si mesmo, no seu
plano nacional, e as referências ao proletariado de outros países brilham pela
sua ausência, ao contrário do que ocorreu durante a vaga internacional de lutas
de 2011-2013.
Isto permite
contextualizar a convivência – que com o decorrer da mobilização tem diminuído
– no movimento com grupos de extrema-direita, junto com as expressões iniciais
racistas e contra a imigração. Embora, actualmente, a presença dessas forças
seja muito relativa, inflaccionada pela propaganda que lhes dá a imprensa, esse
não é o caso das chamadas pela defesa da indústria e comércio nacional,
simbolizadas pelo pequeno comércio, e transmitidas pelo apelo a um Frexit.
Nessas, onde muitos veem o peso da classe média ou da pequena burguesia, que
estaria a dirigir o movimento ou, ao menos, a conseguir introduzir as suas
próprias reivindicações, nós não vemos senão um proletariado que apenas
desperta e que demonstra ao mesmo tempo –um sinal de nossa época – uma clara
capacidade de auto-organização e de enfrentamento com o Estado e a propriedade
privada, e uma enorme dificuldade para reconhecer-se a nível mundial numa
classe contra um só inimigo: as relações sociais capitalistas encarnadas e
defendidas pela burguesia[10].
Porém, de novo, no
interior do movimento ocorre uma luta contra essas tendências nacionalistas, de
tal forma que no curso dos últimos meses cada vez são mais fracas, e cada vez
mais se pode ouvir mais vozes que reivindicam a natureza internacional do
proletariado. Assim, por exemplo, no final de Dezembro celebrou-se uma
assembleia de centenas de pessoas em Caen, num edifício ocupado por imigrantes
não documentados durante a greve dos ferroviários de 2018, numa clara
identificação da luta dos coletes amarelos e do proletariado
imigrante contra o mesmo Estado e o mesmo sistema capitalista. Por outro lado,
Le Jaune adverte no seu segundo número contra as tentativas de separar o
proletariado:
“Depois vêm outros
propor-lhes soluções para gerir a crise que acabam por esmagar os proletários
que vêm de fora para continuar a explorar os daqui: gestão dura dos fluxos
migratórios (feito), caça aos não documentados dentro do território (feito),
Frexit, etc. Propõem-nos que nos tranquemos com chaves duplas e que bloqueemos
a porta, como se o lobo capitalista não estivesse já entre as ovelhas
francesas. Quando se propõem uma resposta nacional a um problema mundial é
porque se está preparado para defender-se à custa do resto dos remadores de
galera dessa Terra, e isso é precisamente o que os capitalistas do mundo todo
esperam de nós nesses tempos tumultuosos: estarmos divididos e sermos
controláveis”[11]
Ainda assim, embora
isso tenha um papel que não pode ser subestimado nas limitações do movimento, é
a própria democracia que, de uma forma imediata, se apresenta como o principal
factor de recuperação. Pode-se ver uma amostra disso com o efeito gerado pela
legalização das manifestações, que começou a acontecer a partir do Acto IX (12
de Janeiro), já que até então as convocatórias eram espontâneas e anónimas. A
legalização supõe que tem de haver pessoas responsáveis ante as autoridades
pelos danos produzidos nela, por isso mesmo os próprios convocadores têm um
vivo interesse em pacificar e manter a ordem durante a manifestação. Além
disso, isso obriga os coletes amarelos a seguir um trajecto
previsto e conhecido pela polícia e a estabelecer um serviço de ordem. Como já
dissemos antes, empurradas pela ala mais democrática do movimento, as
manifestações em Paris irão deslocar-se dos bairros ricos do leste, salvando as
lojas de luxo das expropriações proletárias, mas também afastando os
manifestantes dos símbolos do poder, como os Élysées ou a sede patronal. Nessas
demonstrações, a ideologia cidadã começa a pesar e os próprios manifestantes
viram-se contra os grupos que quebram as montras ou até mesmo as pintam.
Esta tendência do movimento a apagar-se
democraticamente, contudo, foi contestada pouco depois pelo Acto XIII (9 de Fevereiro),
que, como já explicamos, foi convocado com a vontade explícita de romper com
esta tendência à legalização, ou seja, de não declarar o trajecto à polícia e
nem ter convocadores legais, nem serviço de ordem, assim como para voltar aos
bairros ricos numa nova retoma de combatividade. A partir de Janeiro e nos
meses que seguem, os coletes amarelos viverão fluxos e refluxos que expressarão
com toda claridade tanto um carácter mais combativo e de negação da ordem
estabelecida, como momentos de pacificação e democratização nos quais a ala maioritária
que descrevíamos antes se consegue impor.
No mesmo terreno de
canalização democrática, outro dos riscos do movimento é que se deixe prender
por uma ideologia assembletária. O processo de criação de assembleias e suas
tentativas de coordenação são muito positivos, já que respondem a uma
necessidade do movimento de dotar-se de estruturas de associação mais estáveis,
defender-se da repressão, pensar juntos e criar mecanismos de centralização de
escala nacional. Geralmente isso implica, como no caso de Saint-Nazaire, na
ocupação de espaços para reunir-se e fazer as assembleias. Contudo, a pressão
por fornecer reivindicações concretas, unanimemente reflectidas num papel que
representa os coletes amarelos a nível nacional,
pesa sobre este esforço de centralização e pode ter o efeito, finalmente, de
retirar os demonstradores das ruas de maneira a discutir por horas sobre a
maneira de formular uma frase que represente toda a gente. O papel positivo que
a organização consciente de debates e discussões desempenha no interior de um
movimento não deve ser subestimado de nenhuma maneira, mas é realmente
necessário reconhecer que a separação entre a palavra e o feito, a burocratização
das assembleias e as acrobacias verbais para fornecer uma ampla representação,
implicam na morte dessas assembleias como expressões organizacionais do movimento
e sua passagem à contra-revolução. De facto, é com esse tipo de sentimento que
muitos coletes amarelos saíram da segunda
“assembleia das assembleias” (5-7 de Abril), onde a unidade de acção que se
expressa nas manifestações se viu completamente diluída, e tudo se converteu em
malabarismos para criar algumas folhas de exigências concretas onde “há espaço
para toda a gente”.
Algumas perspectivas
provisórias
As tarefas e actividades
que assumimos como revolucionários não estão inscritas nem baseadas em
possibilitismos, mas vêm determinadas pelas próprias necessidades – imediatas e
históricas – da luta da nossa classe. Estamos conscientes de que o mais
provável é que o movimento dos coletes amarelos seja liquidado, seja
porque todos os limites que criticamos acabem por se apoderar do movimento, ou
pelo próprio desgaste e recuo dos protagonistas. No entanto o nosso actuar
consciente e voluntário pela revolução social, pela abolição do capitalismo,
impulsiona-nos a assumir esse movimento como mais um pequeno episódio na luta
histórica contra o capital. E no seio de todos esses episódios as minorias
revolucionárias são as que tratam de impulsionar o movimento até às suas
últimas consequências.
Este pequeno texto faz parte desse impulso,
como uma necessidade da nossa classe de fazer o balanço dessa luta, de
expressar a sua verdadeira acção frente às falsificações de todos os
porta-vozes do capital, de demarcar e contrapor-se a todas as forças do nosso
inimigo, de aprofundar nas forças e limites que temos.
Se há algo de peculiar
nesse movimento é que tem vindo a marcar certa mudança nas características das
lutas dos últimos anos. Desde a Argentina à Grécia, desde o norte da África à
própria França, do Brasil aos subúrbios dos Estados Unidos etc., temos vivido
diversos momentos de lutas importantes com a característica comum que se
apresentavam como fortes erupções que cessavam rapidamente. O proletariado saía
violentamente à rua empurrado pela agudização da catástrofe capitalista e
contrapunha-se com fúria aos inimigos mais visíveis do capital, porém passados
os primeiros momentos, os primeiros dias, as primeiras semanas, quando já não
bastava o instinto de classe, quando não se sabia muito bem como prosseguir, a
burguesia apresentava todo tipo de medidas – alternância política, gestionismo,
repolarização entre fracções burguesas, repressão, guerra imperialista…– que
restabeleciam a ordem. É certo que estas medidas de apaziguamento encontravam
maior resistência por parte do proletariado, porém não ao nível de resistência
e permanência dos protestos dos coletes amarelos depois de setes meses
do início do movimento. Com fluxos e refluxos o movimento resistiu até agora à
repressão, as diversas tentativas de canalização e não se deixou seduzir com
migalhas que têm vindo a ser oferecidas pelo Estado francês.
Em contrapartida, a
burguesia, que até então era capaz de encerrar as lutas nos seus Estados
nacionais, vê como estão a romper-se esses muros de contenção que lhe permitiam
enfrentar as lutas parte por parte. É certo, como dizíamos que o proletariado
na França tem muitas dificuldades para assumir explicitamente o carácter
internacionalista da sua luta, contudo noutras regiões do mundo a identificação
com a luta dos coletes amarelos expressa abertamente
esse carácter internacionalista. Essa realidade mostra claramente que as
condições de vida do proletariado mundial tendem a homogeneizarem-se à medida
que avança a catástrofe capitalista. Porém, o processo acabou de começar.
É óbvio que, como dizíamos num texto de
alguns anos atrás, hoje é de uma importância capital que as minorias
proletárias daqui e dali avancem nesse indispensável processo de coordenação e
centralização internacional, que quebremos as divisões país por país, ou pior
ainda, cidade por cidade. Por isso temos que reconhecer que nunca foi tão
minúscula a força das minorias revolucionárias, que nunca o proletariado teve
tanta desorientação, que nunca houve uma contraposição tão grande entre a
necessidade de revolução e a incapacidade de assumir essa necessidade. É
evidente que dar a volta a essa situação é uma necessidade vital para a
perspectiva revolucionária.
De qualquer maneira,
está fora de questão que o movimento dos coletes amarelos faz parte de um
processo de despertar da nossa classe a nível internacional, após a derrota da vaga
de lutas dos anos 70. Diante da perspectiva factível de que esse movimento
morrerá cedo ou tarde, se uma recuperação burguesa à altura e intensidade
vivida e atingida por ele não for produzida, ele deixará para trás novos laços
de solidariedade, talvez algumas estruturas, experiências de luta das quais irão
derivar lições, um novo número de pessoas que, após a sua radicalização no
movimento, aderirão à actividade das minorias revolucionárias apesar do retorno
à normalidade. A nossa classe aprende. Ela constrói a sua própria memória. Ela
desperta.
Não esperaremos sentados por um suposto
proletariado metafísico que, libertado de todo o pecado terreno, puro no mais
profundo da sua alma, saia à rua para anunciar o fim do capitalismo e a chegada
de um novo mundo. Não esperamos tampouco que o próprio capitalismo se devore a
si mesmo para poder gerir o desastre. Deixemos essas profecias religiosas para
todos os militantes devotos, para todas as sagradas famílias da esquerda e
extrema-esquerda do capital. O proletariado não descerá do céu, o capitalismo
não se abolirá a si mesmo, senão que, como sempre, de vez em quando, a
alternativa revolucionária aparece e aparecerá na luta da nossa classe,
intoxicada pela nocividade capitalista, por todo o veneno que segrega essa
sociedade. Nesse combate contra tudo o que nos impede de viver, contra tudo o
que nos impossibilita afirmarmo-nos como ser humano, como comunidade humana,
onde os pulmões podem tomar um pouco de oxigénio entre tanta poluição e onde a
comunidade humana se prefigura como comunidade de luta frente à comunidade do
dinheiro. O proletariado está forçado a destruir o capitalismo pela raiz se não
quiser que esse destrua todo o nosso mundo. Esse proletariado profano e
corrompido não descerá do céu, porém tomará o céu de assalto.
Consequentemente, nós actuamos e
compelimos todos os companheiros e grupos a defenderem os nossos interesses de
classe e a combater o enquadramento burguês nesses protestos; à estruturação e
organização contra todas as tentativas de canalização democráticas e
nacionalistas; a fortalecer e estender os contactos entre nós, a criar redes
organizativas em todos os níveis; estruturas para defender-nos da repressão e
para discutir sobre como assumir tal ou qual tarefa.
28 de Maio de 2019
Proletarios
Internacionalistas
http://www.proletariosinternacionalistas.org
proletariosinternacionalistas@riseup.net
“Os nossos coletes já não são trajes de
segurança rodoviária, tranformaram-se antes num sinal de união para aqueles que
desafiam mundialmente a ordem vigente. Se cintilam, não é para alertar às
autoridades de alguma emergência ou mal-estar social. Não os usamos para exigir
algo ao Poder. O amarelo dos nossos coletes não é o amarelo que o movimento dos
trabalhadores costuma atribuir à traição. A cor desta peça de roupa é a da lava
da ira que o vulcão da revolução social, inactivo durante muito tempo, está a começar
a expelir de novo. É amarelo somente porque abraça o vermelho. Sob este nome de
“coletes amarelos”, um titã apenas desperta, ainda atordoado do coma em que
esteve imerso durante mais de quarenta anos. Este colosso já não sabe o seu
nome, já não recorda a sua gloriosa história, e já não conhece o mundo onde
está a abrir os seus olhos. Contudo, na medida em que se reactiva, descobre a
magnitude do seu próprio poder. Sussuram-lhe palavras os falsos amigos,
carcereiros dos seus sonhos. Repete-as: “francês”, “gente” e “cidadão”! Porém,
ao pronunciá-las, as imagens que regressam confusamente das profundidades da sua
memória semeiam uma dúvida na sua mente. Essas palavras têm sido utilizadas nas
sarjetas da miséria, nas barricadas, nos campos de batalha, durante as greves,
nas prisões. Porque estão na linguagem de um adversário formidável, o inimigo
da humanidade que, há séculos, gere com maestria o medo, a força e a
propaganda. Esse parasita mortal, esse vampiro social, é o capitalismo! […]
Nós somos os espezinhados,
sacrificados e condenados pelo capital, na sua estratégia de sobrevivência.
Somos essa força colectiva que abolirá todas as classes sociais. Somos o
proletariado.”[12]
Proletários
Internacionalistas. www.proletariosinternacionalistas.org proletariosinternacionalistas@riseup.net
Janeiro de 2020.
_________________________________________
[1] Referência ao
movimento França Insubmissa, liderado actualmente por Jean-Luc Mélenchon.
Estender mais sobre isso
[2] Do francês bourgeois
bohème, “burguês boémio”, que faz referência à burguesia progressista e
cultivada das cidades
[3] A “França branca de
baixo”, o lixo branco francês
[4] Trata-se de um grupo
organizado contra a violência policial nas banlieues, com um discurso próximo
ao racialismo. Tem seu nome em memória de Adama Traoré, um jovem de 24 anos que
em 2016 foi assassinado pela polícia enquanto estava detido
[5] Ver o nosso livro La Llama del subúrbio [A chama do subúrbio] em
www.proletariosinternacionalistas.org.
[6] Dizemos isso sem
esquecer todas as limitações que têm os black blocs, como uma prática militante
hiperespecializada que, ao dar muita importância à confrontação física com a
polícia, cai facilmente no espectáculo da violência –vazia de conteúdo de
classe e, portanto, facilmente recuperável-, como temos presenciado nas
sucessivas contra cimeiras das últimas duas décadas –ver a esse respeito o
artigo “Contra las cumbres y anticumbres” da revista Comunismo nº47 em https://drive.google.com/file/d/1lF2Fi-
BkCLyTZCrJcU8Qmq8qTgfUX1UFC/view?usp=sharing. Assim também é
advertido por um panfleto distribuído durante o 1º de Maio deste ano: os
saques, os ataques à propriedade urbana, o enfrentamento com a polícia, “nada
mais normal e lógico, nada mais são e saudável, e incluso seria desanimador se
não ocorresse. Porém, também seria desanimador (por outros motivos,
certamente), assim como danoso para a continuação do movimento de oposição à
ordem de coisas presente, que simplesmente ocorresse isso e que acabasse ali,
que nos limitássemos a uma violência de classe que poderia transformar-se em
espectáculo da violência, que não fossemos mais longe, que não aprofundássemos
a ruptura, o abismo que nos separa deles, nós, a humanidade em luta e eles, os
capitalistas e seu mundo, feito de miséria, de exploração, de guerra e de
sofrimento” (“Coletes amarelos (ou não). Por um 1º de maio combativo. Acção
directa anti-capitalista” em: https://lille.indymedia.org/IMG/pdf/gilets_jaunes_ou_pas_mayday.pdf)
[7] Texto retirado
de Guerra de Clases nº9, Inverno
de 2018-2019: https://www.autistici.org/tridnivalka/category/other-langua-
[8] Veja o texto de
Barbaria, “Más allá de la extrema derecha” [Além da extrema-direita] em: https://barbaria.net/2018/12/20/mas-
[9] O texto original pode
ser encontrado em: https://jaune.noblogs.org/files/2019/01/Jaune1-web.pdf e a
sua tradução para castelhano no número mencionado mais acima de Guerra de clases
[10] Dizemos isso não
porque a pequena-burguesia não exista como “classe” sociológica, senão porque
esta jamais cumpriu o papel de classe no sentido de movimento histórico, de
força social, de partido. As duas únicas forças sociais são burguesia e proletariado,
revolução e contra-revolução, constantemente contrapostas como os dois polos da
contradição capitalista.
[11] 12 Esse texto em
francês pode ser encontrado em: https://jaune.noblogs.org/files/2019/02/Jaune-2.pdf.
[12] Texto retirado de Guerra de Clases nº9, Inverno de 2018-2019: https://www.autistici.org/tridnivalka/category/other-langua-
Fonte: https://barbaria.net/2023/12/31/nao-somente-arde-paris/