Submissão ou guerra? Capitalismo e a tendência para
uma guerra imperialista generalizada, e a resposta internacionalista
por Admin
As tensões militares e
a guerra já não se limitam a regiões específicas do mundo; espalharam-se por
todo o mundo — do Médio Oriente à América Latina, e do Sudeste Asiático à
Europa. Esta expansão das guerras e a intensificação do militarismo à escala mundial
não podem ser reduzidas apenas às decisões ou ao aventureirismo de líderes
ditatoriais, irracionais ou imprudentes como Khamenei ou Trump. Antes, é, acima
de tudo, um reflexo das condições objectivas do sistema capitalista e da forma
como este continua e se reproduz na sua fase de declínio histórico.
O capitalismo não
oferece à humanidade nada além da intensificação da guerra, da barbárie e da
destruição, e a guerra tornou-se uma parte inseparável da lógica de existência
do sistema. Incapaz de oferecer uma perspectiva humana à maioria da sociedade,
o capitalismo produz apenas violência, devastação e o massacre da classe operária.
Por esta mesma razão, guerras, tensões militares e crises sociais espalham-se
inevitavelmente e generalizam-se por todo o mundo.
No período do declínio
do capitalismo, evitar a guerra já não é uma escolha política, mas sim uma
impossibilidade estrutural, pois o próprio capitalismo é a fonte da violência,
destruição e guerra, e a lógica da sua sobrevivência exige a expansão contínua
desta devastação e guerra à escala mundial.
Os imperialistas
ocidentais, liderados pelos Estados Unidos, transformaram, em prol dos seus
interesses imperialistas, o Médio Oriente num teatro de massacre e destruição.
A incapacidade das potências imperialistas rivais — sejam imperialistas orientais
ou potências regionais como a República Islâmica do Irão — de desempenhar um
papel decisivo neste momento não diminui em nada o seu carácter reaccionário e
criminoso. O antagonismo entre estas potências imperialistas é uma luta entre
estados capitalistas rivais pela hegemonia, influência e posição geo-política.
Nas condições actuais,
os Estados Unidos, contando com o apoio de outras potências imperialistas
ocidentais, prosseguem uma política de "rendição ou guerra", como um
bando de bandidos — uma política que reflecte os seus imperativos estratégicos
dentro de uma ordem mundial em transformação. O objectivo principal desta
política é obrigar a burguesia islâmica a recuar das suas ambições regionais,
enfraquecer a sua posição e restringir a sua margem de manobra. [1]
Se, no decurso desta
contenção, surgir a possibilidade de a reintegrar na órbita do imperialismo
ocidental, tal cenário seria considerado preferível. No entanto, caso este
projecto falhe, a opção de uma guerra sangrenta e devastadora permanecerá em
cima da mesa como a solução final.
Trump lançou a sua
campanha eleitoral sob o lema "sem novas guerras" e priorizando os
"interesses da América" — uma consigna que, à primeira vista, parecia
estar em desacordo com o início de uma nova guerra. No entanto, este Trump
muito belicoso, após confrontos militares e durante o cessar-fogo após a Guerra
dos Doze Dias entre os Estados Unidos, Israel e Irão, apresentou-se como um
"pacificador" e, de forma populista, afirmou que uma guerra que
poderia ter durado anos e devastado o Médio Oriente tinha chegado ao fim.
Foi ainda mais longe,
afirmando que a "destruição do Médio Oriente" nem ocorreu — uma
afirmação que contradiz fortemente as políticas belicistas que ele próprio
defende. Não é Trump quem perdeu o contacto com a realidade; antes, as suas
ilusões reflectem o caos e a instabilidade do próprio sistema capitalista.
Apenas alguns meses depois de se apresentar como um "pacificador",
regressou novamente disfarçado de belicista. Há alguns meses, o belicoso Trump
declarou:
"Esta é uma guerra que poderia ter durado
anos e destruído todo o Médio Oriente, mas não aconteceu, e nunca o fará!" [2]
A noção de que as
disputas do Ocidente com o Irão se limitam apenas às incertezas em torno do
programa nuclear iraniano é tanto superficial como simplista. A questão central
não é o "dossier nuclear", mas a posição do Irão na distribuição do
poder, influência e acções dentro da ordem capitalista-imperialista mundial. O
Irão, tal como a Turquia, a Arábia Saudita e Israel, tem ambições hegemónicas
regionais — ambições enraizadas na lógica da competição imperialista em vez das
características ideológicas de um regime religioso.
Esta realidade não se
limita à era da burguesia islâmica. Durante o período da burguesia do Xá, a
mesma tendência para se afirmar como potência regional era evidente. Por outras
palavras, uma mudança na forma de governo não implica necessariamente uma
alteração na posição ou nos interesses de classe da burguesia iraniana no
âmbito das relações mundiais. [3]
Não se deve esquecer
que, durante uma parte significativa da sua história de vários milhares de
anos, o Irão desempenhou o papel de uma grande potência mundial durante cerca
de nove séculos. Este legado histórico moldou o horizonte intelectual e as
ambições da burguesia iraniana — não por nostalgia, mas como base política e
económica — independentemente da forma de governo no poder. Por esta razão,
mesmo que uma burguesia diferente substituísse a burguesia islâmica, estas ambições
imperialistas não desapareceriam; em vez disso, seriam reproduzidos em novas
formas, talvez empregando diferentes línguas, ferramentas e aliados.
A diferença
fundamental é que, antes de 1979, a burguesia iraniana era reconhecida como um
dos principais aliados do Ocidente no combate ao avanço do bloco de Leste no
âmbito da Guerra Fria na região. Naquela altura, as burguesias ocidentais não
só toleravam as ambições imperialistas do Irão — como alegações de desempenhar
o papel de potência regional — como também as reconheciam como parte do seu
quadro estratégico mais amplo.
Mas hoje, o Ocidente e
os seus aliados não estão dispostos a reconhecer as ambições imperialistas da
burguesia islâmica como sendo de uma potência regional, preferindo antes que o
Irão permaneça fraco, contido e obediente. Esta abordagem pode também ser
analisada no âmbito dos objectivos de longo prazo da burguesia ocidental para
travar a expansão da influência chinesa e isolar a Rússia dentro da ordem mundial
em reorganização.
Se o Irão não tivesse
ambições regionais, é bastante possível que mesmo a sua aquisição de armas
nucleares não tivesse enfrentado uma oposição séria do Ocidente — como é
claramente ilustrado pelo exemplo do Paquistão. O acordo de 2015 sobre o Plano
de Acção Conjunto Abrangente (JCPOA) com as principais potências mundiais foi,
até certo ponto, implicitamente um reconhecimento da reivindicação do Irão de
desempenhar o papel de potência regional. No entanto, a retirada de Trump do
JCPOA em 2018 demonstrou que o imperialismo ocidental, particularmente os
Estados Unidos, já não reconhecem tal direito para o Irão — uma posição que
outras potências ocidentais seguiram posteriormente na prática. [4]
Com as tensões a
intensificarem-se entre os Estados Unidos, Israel e os seus aliados, por um
lado, e a República Islâmica do Irão, por outro, surge com verdadeira urgência
a questão de saber se esta situação levará a uma nova guerra. A realidade é
que, após o cessar-fogo resultante da Guerra dos Doze Dias, embora actualmente
não haja um confronto militar directo, a guerra não cessou de forma alguma; em
vez disso, apenas as suas formas e instrumentos mudaram.
Hoje, a guerra já não
significa necessariamente um confronto militar clássico. Durante anos, governos
ocidentais, liderados pelos Estados Unidos e seus aliados, travaram uma forma
de guerra económica em grande escala contra o Irão através da imposição de
sanções extensas e paralisantes — uma guerra cuja principal consequência não
foi o enfraquecimento da soberania política, mas a destruição dos meios de
subsistência da classe operária e das massas trabalhadoras. Estas sanções fazem
parte da lógica imperialista do capital mundial, na qual a pressão económica se
torna uma ferramenta para a subjugação política e a reprodução das relações de
dominação no quadro da competição imperialista.
Neste contexto, também
deve ser compreendida a política conhecida como a "guerra do
petróleo". Esta política está, ao mesmo tempo, alinhada com os interesses
dos países árabes que fazem fronteira com o Golfo[5], pois
as sanções ao petróleo iraniano contribuem para melhorar a sua posição no
mercado energético mundial. A par da guerra do petróleo, a ciberguerra e a
sabotagem organizada tornaram-se uma das principais arenas de confronto entre
Estados e imperialismos rivais — um confronto que, acima de tudo, reflecte a
competição entre centros de poder dentro da ordem capitalista mundial.
Com o crescimento da
tecnologia, as formas de guerra também evoluíram. Enquanto no passado a
destruição de infraestruturas, redes de comunicação e a capacidade produtiva
dos rivais era realizada principalmente através de ataques militares directos,
hoje esses objectivos podem ser alcançados através de ciberataques, vírus
informáticos, interrupções em redes críticas e uma combinação de operações de
inteligência e sabotagem. [6] Estes
desenvolvimentos mostram que a guerra, na prática, já começou, mesmo sem
tanques e bombas — uma guerra cujas principais vítimas não são os Estados, mas
a classe operária e as camadas mais baixas da sociedade, enquanto o risco de
escalar para um confronto militar directo aumenta a cada dia que passa.
Parece que os Estados
Unidos procuram um acordo semelhante ao "modelo da Líbia" — um modelo
que também conta com o apoio de outras potências imperialistas ocidentais e dos
seus aliados nos países do Golfo. No entanto, a equipa negociadora americana
não apresentou todas as suas exigências de forma explícita e única durante a
primeira ronda de negociações, adoptando uma abordagem cautelosa. No entanto,
os principais pontos das exigências dos Estados Unidos podem ser resumidos da
seguinte forma:
1. Zero por cento de
enriquecimento de urânio, a remoção completa do urânio enriquecido do Irão e o
acesso total da Agência Internacional de Energia Atómica a todos os locais
nucleares.
2. Redução do alcance de
mísseis do Irão para 300 quilómetros e limitações nas suas capacidades de
mísseis.
3. Cessação do apoio às
forças e grupos proxy na região.
4. Levantando a questão
dos direitos humanos.
Embora a burguesia
islâmica tenha declarado que não aceitará o enriquecimento de urânio a zero por
cento, dada a sua posição extremamente fraca actualmente, é possível que o
enriquecimento seja temporariamente suspenso e que o urânio enriquecido, por
exemplo, seja transferido para a Rússia. A posição actual mais fraca do Irão
resulta menos de um enfraquecimento das suas capacidades militares ou de uma
redução do poder das suas forças proxy do que de um colapso económico sem
precedentes — um colapso no qual os imperialistas ocidentais desempenharam um
papel central tanto na sua formação como no seu aprofundamento.
Esta profunda crise
económica gerou um descontentamento generalizado e sem precedentes dentro da
sociedade — um descontentamento que não só corroeu severamente a legitimidade
política das autoridades governantes, como também criou as condições materiais
e sociais necessárias para revoltas e agitação popular.
Outro ponto importante
é que os Estados Unidos e os seus aliados ocidentais, nos seus esforços para
manter a superioridade militar e garantir a segurança de Israel, procuram impor
limites ao alcance de mísseis do Irão para eliminar qualquer possibilidade de
uma ameaça directa a Israel. No entanto, as autoridades no poder no Irão
rejeitaram firmemente quaisquer restricções ao seu programa de mísseis,
considerando-o um elemento fundamental da defesa nacional e um meio de
dissuasão contra agressões estrangeiras. Mesmo que abandonassem as suas
ambições nucleares, não limitariam o seu programa de mísseis. [7]
A burguesia islâmica
rejeitou firmemente qualquer movimento para abandonar o apoio às suas forças
proxy, considerando-as um componente vital da sua dissuasão contra ataques de
Israel e dos Estados Unidos. No entanto, a influência regional da República
Islâmica diminuiu visivelmente, e as suas forças proxy em toda a região enfrentam
desafios crescentes. A Síria caiu efectivamente fora da esfera de influência do
Irão. No Líbano, o Hezbollah sofreu pesadas perdas após confrontos recentes com
Israel, com uma proporção significativa da sua liderança morta. O grupo
enfrenta agora sérias dificuldades em obter armas e recursos financeiros, e a
sua influência nas esferas política e militar da região diminuiu.
Após o bombardeamento
das instalações nucleares do Irão, Trump afirmou que essas instalações tinham
sido completamente e totalmente destruídas e que o mundo tinha sido libertado
dos perigos colocados pelas autoridades no poder no Irão — uma afirmação que
fez de forma abertamente populista, afirmando que uma grande ameaça tinha sido
eliminada permanentemente, e afirmou:
"Há pouco tempo, os militares dos EUA
realizaram ataques massivos de precisão às três principais instalações
nucleares do regime iraniano: Fordo, Natanz e Isfahan... Esta noite, posso
relatar ao mundo que os ataques foram um sucesso militar espectacular. As
principais instalações de enriquecimento nuclear do Irão foram completamente e
totalmente obliteradas." [8]
A questão chave é
esta: se as instalações nucleares do Irão foram completamente destruídas, qual
é a necessidade de um novo acordo em primeiro lugar? Na verdade, esta é
precisamente a questão que Laurence Norman, repórter do Wall Street Journal, colocou a Trump:
"Trump afirmou que tinha obliterado o
programa nuclear do Irão no Verão passado. Então porque é que ele precisa de um
acordo?" [9]
A realidade é que o
militarismo tornou-se hoje um fenómeno mundial. Quase todos os governos, sem
excepção, estão a aumentar os seus orçamentos de guerra — apresentados sob o
enganador rótulo de "despesa em defesa" — orçamentos financiados directamente
pela apropriação dos meios de subsistência e do bem-estar da classe operária.
Esta tendência não resulta das escolhas de governos belicistas, mas sim um
reflexo das condições históricas específicas do capitalismo mundial na sua fase
de declínio. É o próprio capitalismo mundial que conduz os Estados para tensões
militares e estende a guerra, enquanto modo de existência, a todos os cantos do
mundo.
Nestas condições, os
exercícios militares tornaram-se uma parte inseparável da ordem capitalista.
Por exemplo, o exercício "ORION 2026", liderado pela França no
Mediterrâneo de 8 de Fevereiro a 30 de Abril de 2026, envolve uma participação
extensa de países ocidentais e seus aliados, incluindo França, Alemanha,
Espanha, Bélgica, Itália, Suíça, Grécia, Noruega, Luxemburgo, Países Baixos,
Reino Unido, Polónia, Roménia, Estónia, Croácia, Brasil, Canadá, Coreia do Sul,
Estados Unidos, Japão, Qatar, Singapura e Marrocos. [10] Tais
exercícios servem como exercícios práticos para a gestão de futuras guerras
imperialistas.
Como referido, o
militarismo pode ser observado em todos os cantos do mundo. Mesmo em regiões
que parecem estar à margem de grandes conflitos, a lógica da guerra afirma-se.
Por exemplo, é razoável perguntar por que razão o Azerbaijão, no Cáucaso do
Sul, deveria realizar um exercício conjunto com os Emirados Árabes Unidos
chamado "Peace Shield 2026" — e isso, além disso, em solo
emirati? [11]
No mais recente
documento da Estratégia de
Defesa Nacional
de 2026 do Pentágono, os Estados Unidos voltaram a alertar para a possibilidade
de o Irão reconstruir as suas capacidades militares convencionais e para
renovar os esforços de aquisição de armas nucleares. O documento enfatiza que,
juntamente com Israel, os EUA infligiram golpes pesados ao Irão, resultando num
enfraquecimento significativo da posição regional da República Islâmica. [12]
O documento afirma
ainda que as forças proxy do Irão, incluindo o Hamas, o Hezbollah, os Houthis e
outros grupos, sofreram perdas severas.
Por outras palavras, o
Irão encontra-se actualmente numa das posições mais fracas que ocupou nos
últimos anos e, do ponto de vista estratégico, esta situação oferece condições
mais favoráveis para conter as suas ambições imperialistas. Na lógica do
imperialismo, conter estas ambições significa fortalecer a posição dos Estados
Unidos e dos seus aliados na competição crescente entre as potências mundiais.
Neste contexto, J.D.
Vance, o Vice-Presidente dos EUA, afirmou que Donald Trump está relutante em
que um cenário semelhante à Guerra do Iraque se repita e prefere que o caminho
da diplomacia seja seguido — a menos que, do ponto de vista de Washington, não
haja outra opção senão recorrer à acção militar:
"O
Presidente Donald Trump procurará resolver a questão do Irão por 'meios não
militares', mas avisou que, se Trump concluir que a acção militar é a única
opção, 'ele vai escolher essa opção.'"[13]
As recentes
negociações nucleares entre o Irão e os Estados Unidos realizaram-se indirectamente
em Mascate, Omã, a 6 de Fevereiro de 2026, com o governo omanita a actuar como
mediador. As discussões centraram-se no programa nuclear do Irão e na questão
das sanções dos EUA. O Irão enfatizou que as negociações devem permanecer
estritamente confinadas ao processo nuclear e ao levantamento das sanções, e
que questões de mísseis ou regionais não estão na agenda. Em contraste, embora
expressasse a sua vontade de resolver a disputa, a parte americana apelou ao
desmantelamento completo das actividades nucleares do Irão.
A próxima ronda destas
negociações está agendada para os próximos dias. No entanto, a opinião pública
mantém-se céptica em relação às negociações, pois durante a ronda anterior
Israel lançou ataques militares enquanto as discussões ainda estavam em curso,
e, em última análise, os Estados Unidos puseram fim à Guerra dos Doze Dias
através de bombardeamentos extensivos — uma experiência que deixou uma profunda
desconfiança em relação ao processo de negociação.
Num gesto simbólico, a
aeronave que transportava a equipa de negociação iraniana anunciou o Deserto de
Tabas como ponto de partida para o seu voo para Omã[14] —
um movimento que, em vez de transmitir uma mensagem diplomática, equivalia a
uma tentativa ideológica de projectar "autoridade" dentro da lógica
do confronto imperialista. Por outro lado, após a conclusão das negociações, a
delegação americana procurou mais uma vez mostrar o poder militar dos EUA ao
aparecer no convés do porta-aviões Abraham Lincoln. A
presença a bordo de figuras como Steve Witkoff, Jared Kushner e o comandante do
CENTCOM é melhor compreendida dentro deste mesmo enquadramento: uma
demonstração nua de poder. Esta demonstração recíproca de força provocou uma
reacção indignada na imprensa iraniana, com alguns comentadores a apelarem para
que o Ministro dos Negócios Estrangeiros ou outros responsáveis da República
Islâmica aparecessem a bordo de navios navais iranianos:
"A proposta específica é que o Ministro
dos Negócios Estrangeiros do Irão, dentro de um quadro formal e inteiramente
diplomático, realize um gesto simbólico recíproco." [15]
O Ministro dos
Negócios Estrangeiros da burguesia islâmica afirmou que os Estados Unidos não
conseguiram alcançar os seus objectivos durante a Guerra dos Doze Dias e,
consequentemente, foram forçados a pedir um cessar-fogo. Continuou afirmando
que a República Islâmica é agora "mais poderosa" e que qualquer
ataque ao Irão seria recebido com uma resposta "forte e chocante".
Tal como os seus rivais imperialistas, a burguesia islâmica procura
apresentar-se como uma potência preparada e dominante no palco internacional,
exagerando as suas capacidades de dissuasão e ameaçando uma resposta
"chocante". Neste quadro, declarou:
"Os EUA foram derrotados na guerra dos 12
dias e não conseguiram alcançar nenhum dos seus objectivos. No final, foi
forçado a abordar-nos em relação a um cessar-fogo. Os nossos mísseis balísticos
estão no local. Voltámos a focar-nos nas nossas forças e estamos prontos com
maior poder... Esta é a mensagem mais clara que podemos transmitir aos EUA." [16]
O Ministro dos
Negócios Estrangeiros da burguesia islâmica procurou observar as considerações
diplomáticas, afirmando que, caso as hostilidades escalassem, o Irão teria como
alvo apenas bases dos EUA e não tem intenção de atacar países vizinhos. Neste
quadro, declarou:
"Se os Estados Unidos atacarem, não
atacaremos o seu território; em vez disso, responderemos às suas bases na
região. Não atacaremos países vizinhos; vamos atacar apenas bases americanas na
região." [17]
A burguesia islâmica
enfatizou que o Irão não será o iniciador da guerra. Neste contexto, o seu
Ministro dos Negócios Estrangeiros afirmou que a República Islâmica não tem
intenção de atacar países vizinhos. No entanto, em resposta a ameaças dos
Estados Unidos, o Líder Supremo da burguesia islâmica alertou que, se a guerra
for imposta, o seu alcance não permanecerá limitado e poderá escalar para um
conflito regional. Sobre este assunto, disse:
"Se os EUA iniciarem uma guerra, toda a
região será atraída para o jogo." [18]
Em resposta às
declarações do Líder Supremo da burguesia islâmica — que tinha avisado que
qualquer ataque ao Irão levaria a uma guerra regional — Trump afirmou que os
Estados Unidos possuem o exército mais forte do mundo e enfatizou que, caso
ocorram hostilidades, o tempo mostraria quem está certo. Neste quadro, afirmou:
"Porque é que ele não disse isso? Claro
que podia dizer isso. Temos os maiores e mais poderosos navios do mundo ali,
muito perto, a poucos dias. Esperemos que façamos um acordo. Se não fizermos
acordo, vamos descobrir se ele estava certo ou não." [19]
O ritmo da guerra
vindo de todas as direcções — particularmente dos Estados Unidos e seus aliados
— pinta um quadro sombrio dos dias que se avizinham. No entanto, as autoridades
islâmicas não são menos belicosas na sua retórica e demonstrações de
militarismo do que os seus homólogos ocidentais. Ambos os lados deste
confronto, através de ameaças e demonstrações de poder, reproduzem uma única
lógica que normaliza a guerra como ferramenta para avançar os seus interesses
imperialistas.
Neste contexto, e
simultaneamente com a chegada do grupo de ataque do porta-aviões Abraham Lincoln e de outro
equipamento militar norte-americano no Médio Oriente, foi inaugurado um novo
mural na Praça da Revolução, em Teerão. O mural retrata um porta-aviões
americano como alvo de um ataque, com um rasto sangrento pintado sobre o mar,
inspirado na bandeira dos Estados Unidos. Da mesma forma, o mural na Praça da
Palestina, em Teerão, com o slogan "Israel como Alvo", foi
acompanhado pela frase "Tu começas, nós acabamos" em hebraico, árabe,
persa e inglês.
Tais murais demonstram
que a guerra não começa no campo de batalha, mas no domínio da propaganda,
simbolismo e mobilização ideológica — uma esfera em que os governos procuram
despertar emoções e retratar o inimigo para preparar a sociedade a aceitar os
custos da guerra.
Os Estados Unidos
mantêm aproximadamente 19 bases militares em todo o Médio Oriente. É importante
notar que nem todas estas bases estão equipadas com sistemas avançados de
defesa aérea; algumas dependem exclusivamente de sistemas defensivos de curto
alcance, que são largamente ineficazes contra mísseis balísticos. Por esta
razão, nos últimos meses, os EUA têm dado prioridade ao reforço das defesas
aéreas das suas bases na região.
O objectivo principal
desta medida é evitar uma possível resposta retaliatória do Irão e minimizar a
extensão dos danos no caso de um conflito prolongado. Neste contexto, os
Estados Unidos estão a implementar sistemas adicionais de defesa aérea para
proteger as suas forças, bem como Israel e os seus aliados árabes, incluindo a
Jordânia, Kuwait, Bahrein, Arábia Saudita e Qatar.
O exército dos EUA já
implantou uma série de sistemas de defesa aérea na região, incluindo contra-torpedeiros
capazes de interceptar e neutralizar ameaças aéreas. No entanto, os Estados do
Golfo estão bem cientes de que o programa de mísseis do Irão continua a ser
capaz de causar danos significativos aos interesses dos Estados Unidos e dos
seus aliados. Por esta razão, reforçar a rede regional de defesa aérea não é
uma questão de escolha para Washington, mas uma necessidade estratégica dentro
do quadro do equilíbrio de poder e da lógica de dissuasão no Médio Oriente.
A burguesia islâmica
tem procurado consistentemente calibrar a sua resposta às greves dos Estados
Unidos e de Israel para não provocar uma reacção generalizada e incontrolável;
Ou seja, tem como objectivo evitar uma escalada para uma "guerra
existencial". A razão para esta abordagem é clara: para a burguesia
islâmica, manter o poder político é a maior prioridade. Consequentemente,
enquanto o objectivo dos Estados Unidos e dos seus aliados for apenas
enfraquecer a República Islâmica através de tensões militares limitadas, a
resposta de Teerão permanecerá largamente controlada e calculada, para evitar
um confronto em grande escala. Num cenário assim, ambos os lados — segundo a
lógica predominante das guerras imperialistas — acabarão por se declarar
"vitoriosos".
No entanto, se o objectivo
dos Estados Unidos e dos seus aliados for ultrapassar a contenção e o
enfraquecimento e avançar para uma guerra existencial contra a burguesia islâmica, a situação assume
um carácter fundamentalmente diferente para os governantes do Irão. Num cenário
assim, a sobrevivência política da burguesia islâmica estaria directamente
ameaçada, e a sua resposta poderia escalar para uma guerra em grande escala. No
entanto, a realidade material do equilíbrio de poder indica que o Irão não tem
capacidade para competir com a força militar dos Estados Unidos num conflito
convencional. Por esta razão, a estratégia provável da República Islâmica
nestas circunstâncias seria estender o conflito sob a forma de uma "guerra
assimétrica" por todo o Médio Oriente e até além, incluindo o Cáucaso do
Sul e a Ásia Central.
A burguesia islâmica
possui maior experiência e manobrabilidade no domínio da guerra assimétrica.
Num cenário assim, não seriam apenas os alvos militares directos dos Estados
Unidos que seriam atingidos; forças e redes leais à República Islâmica
procurariam alargar o âmbito da violência e instabilidade por toda a região.
Para além dos mísseis modernos, o Irão tem milhares de mísseis antigos de curto
alcance armazenados e provavelmente tentaria mobilizar essas reservas em caso
de conflito de grande escala. O quão bem-sucedido seria para isso é outra
questão. No entanto, mesmo o impacto de um número limitado destes mísseis em
cidades como Dubai, Doha, Manama, Baku e outros centros regionais chave seria
suficiente para gerar medo e instabilidade. Esta perspectiva é a principal
fonte de preocupação para os governos dos estados do Golfo.
Entretanto, Israel
goza do mais alto nível de protecção defensiva: uma rede multi-camadas concebida
para contrariar todos os tipos de ameaças. Em contraste, as bases americanas na
região estão dispersas e menos bem protegidas do que as de Israel. É
precisamente por esta razão que, nos últimos dias, os Estados Unidos procuraram
melhorar significativamente os sistemas de protecção e defesa aérea das suas
bases na região.
No âmbito da guerra
assimétrica, cada uma das forças proxy do Irão é capaz de alargar de forma
independente o âmbito da violência e da instabilidade. Estas forças estão
plenamente conscientes de que, sem a sua "fonte inspiradora" e
principal apoiante — a burguesia islâmica — a sua existência política e militar
não teria significado nem função; Por esta razão, tal confronto assume também
um carácter existencial para eles. É este entendimento partilhado que tornou
todas estas forças agudamente conscientes dos perigos que se avizinham.
Entre as forças proxy
do Irão, o Ansar Allah do Iémen tem sido menos enfraquecido do que outros
grupos e ainda mantém uma capacidade operacional significativa.
Simultaneamente, com a escalada das tensões imperialistas entre os Estados
Unidos e o Irão, esta força anunciou que, em caso de ataque ao Irão, retomará
as operações no Mar Vermelho — uma acção que, segundo estes intervenientes, vai
além de uma mera ameaça de fechar o Estreito de Bab al-Mandab. Tal ameaça não
só visa directamente os interesses económicos e militares das potências mundiais,
como, no âmbito da guerra assimétrica, também alargaria o âmbito das tensões
imperialistas e aprofundaria o caos em partes mais amplas do mundo.
Além disso, o Secretário-Geral
do Hezbollah do Líbano, Naim Qassem, afirmou que qualquer ataque ao Irão seria
considerado um ataque ao próprio Hezbollah, alertando que tal acção poderia
desencadear uma nova guerra em toda a região. Estas posições indicam que,
dentro da lógica da guerra assimétrica, uma cadeia de reacções é desencadeada
que pode mergulhar toda a região num ciclo renovado de violência e
instabilidade.
A coligação xiita no
parlamento iraquiano apoiou Nouri al-Maliki para o cargo de Primeiro-Ministro,
uma figura amplamente considerada abertamente alinhada com o Irão. Em resposta
a esta posição, Trump ameaçou que, caso Nouri al-Maliki fosse nomeado
Primeiro-Ministro do Iraque, os Estados Unidos cortariam todo o apoio ao país.
A coligação xiita vê esta ameaça como uma mensagem política clara, destinada a
colocar o Iraque firmemente sob a tutela dos EUA.
Os Estados Unidos
possuem alavancas significativas de pressão para avançar os seus interesses
imperialistas. Um dos principais instrumentos é o controlo sobre as receitas do
petróleo do Iraque — receitas que constituem cerca de 90 por cento do orçamento
do governo iraquiano e que estão principalmente detidas no Banco da Reserva
Federal de Nova Iorque. Na prática, isto dá a Washington controlo sobre o
acesso de Bagdade aos seus dólares do petróleo. O acordo para armazenar as
receitas petrolíferas do Iraque neste banco foi estabelecido após a invasão dos
EUA em 2003 e a queda de Saddam Hussein, e continua a servir como um dos
principais instrumentos de pressão política e económica.
Neste contexto, nos
últimos dias, grupos paramilitares apoiados pelo Irão no Iraque têm, um após
outro, declarado a sua prontidão para apoiar o Irão no caso de qualquer
potencial ataque dos Estados Unidos ou de Israel. Entre estes grupos estão o
Kata'ib Hezbollah, o Movimento Najbah — um ramo das Forças de Mobilização
Popular — e a Organização Badr. Estes grupos alertaram:
"Qualquer
ataque ao Irão atrairá toda a região para um confronto mais amplo, envolvendo
também o Iraque e os estados do Golfo."[20]
O grupo iraquiano
Saraya Awliya al-Dam divulgou um vídeo que mostra parte do seu arsenal de
mísseis num dos seus túneis subterrâneos. [21] O
grupo já tinha enfatizado anteriormente que tais acções militares são
realizadas no âmbito do que denomina "resistência legítima" e em
resposta à presença contínua de forças estrangeiras em solo iraquiano. A
recente revelação deste arsenal de mísseis deve ser entendida no mesmo
contexto: uma acção que coincide com o aumento das tensões regionais e o
aumento das ameaças militares dos EUA, servindo um propósito claro ao
demonstrar poder e enviar uma mensagem de dissuasão.
No mesmo contexto
regional, no Bahrein, um segmento da população xiita estreitamente alinhado com
a burguesia islâmica tornou-se uma ferramenta no meio das tensões
imperialistas. Durante certas manifestações anti-governamentais, foram entoadas
palavras de ordem como "Ao seu dispor, Ó Khamenei", destacando como as
reivindicações sociais e políticas estão a ser cada vez mais atraídas para
alinhamentos regionais de poder, com os movimentos de protesto a tornarem-se
arenas de competição entre Estados e potências imperialistas.
Uma das medidas que a
burguesia islâmica poderia adoptar no caso de uma guerra em grande escala seria
o encerramento do Estreito de Ormuz. Embora tal acção tivesse consequências
extremamente graves para o abastecimento energético mundial, os seus efeitos
seriam distribuídos de forma desigual. Embora os Estados Unidos tenham apenas
uma dependência directa limitada do petróleo que transita por esta rota, o
maior impacto recairá sobre a China, já que cerca de 50 por cento das suas
importações de petróleo passam pelo Estreito de Ormuz.
Por esta razão, a
ameaça de fechar o Estreito de Ormuz não é dirigida directamente aos interesses
dos EUA. Antes, para além de exercer um impacto severo nas economias dos
Estados árabes do Golfo, faz parte da complexa dinâmica da competição
imperialista mundial — um instrumento capaz de perturbar as cadeias de
abastecimento de energia e expor toda a economia mundial a crises.
No actual contexto do
equilíbrio imperialista de poder, a Europa está a experienciar um declínio[22] —
um que é evidente mesmo no caso da questão nuclear do Irão. Há cerca de vinte
anos, as três principais potências europeias — Reino Unido, França e Alemanha —
desempenharam um papel activo e decisivo nas negociações nucleares ao lado dos
Estados Unidos. Hoje, no entanto, estes países foram efectivamente excluídos do
processo de tomada de decisões, o seu papel reduzido a seguir as políticas dos
EUA e a participar na pressão sobre o Irão — uma situação que reflecte o
enfraquecimento da posição da Europa dentro do equilíbrio imperialista mundial
de poder.
Apesar das diferenças
que surgiram entre a Europa e os Estados Unidos nos últimos anos, na maioria
dos casos — embora não todos — a Europa continuou a operar dentro da órbita de
Washington. O objectivo principal destas políticas é pressionar o Irão para a
integração na ordem pró-Ocidente; e, se isso falhar, reduzir o Irão a um Estado
fraco, contido e sem poderes. Seguindo esta lógica, durante a guerra de doze
dias entre os EUA e Israel contra o Irão, a Europa deixou de lado a fachada de
"pacificação" e assumiu abertamente o papel de força belicista.
Neste contexto,
Friedrich Merz, o Chanceler da Alemanha, não só elogiou os ataques de Israel,
como também afirmou que Israel está a realizar o "trabalho sujo e
difícil" em nome de todos. Anunciou recentemente que a Alemanha está
preparada para aumentar a pressão sobre Teerão e para participar activamente em
negociações destinadas a paralisar o programa nuclear iraniano. Estas posições,
acima de tudo, demonstram o alinhamento da Europa com a estratégia imperialista
dos EUA e a sua incapacidade de desempenhar um papel independente nos assuntos mundiais.
Merz escreveu:
"Queremos
trabalhar com os Estados do Golfo para promover a paz na região. No entanto, os
desenvolvimentos no Irão atrapalham. A violência tem de parar. Estamos
preparados para aumentar ainda mais a pressão e envolver-nos em conversações
destinadas a pôr fim rápido ao programa nuclear do Irão." [23]
Em resposta a esta
troca verbal e propagandística, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da
burguesia islâmica acusou Friedrich Merz de "imaturidade política" e
afirmou que a Alemanha tinha recorrido a suplicar para regressar à mesa de
negociações com o Irão. Estas declarações fazem parte de um concurso recíproco
retórico e de propaganda, no qual ambos os lados procuram controlar a opinião
pública interna enquanto projectam uma imagem de autoridade e força no palco
internacional:
"Merz está a implorar para ser autorizado
a voltar às mesmas negociações." [24]
No âmbito da União
Europeia, a França tem sido consistentemente um dos países que enfatiza
repetidamente a protecção dos seus interesses imperialistas e, ao seguir este
caminho, por vezes foi punida ou humilhada pelos Estados Unidos. No entanto, na
questão da pressão sobre o Irão, a França continua a seguir uma política de
alinhamento com os Estados Unidos.
Neste contexto,
Jean-Noël Barrot, o Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, durante a sua
visita a Beirute a 6 de Fevereiro de 2026, afirmou que, caso as tensões entre o
Irão e os Estados Unidos escalem a nível regional, os grupos apoiados pelo Irão
no Médio Oriente devem exercer "máxima contenção" para evitar uma
instabilidade generalizada na região. Disse o seguinte sobre este assunto:
"Se, no entanto, assistirmos a uma
escalada regional, seria apropriado que os grupos apoiados pelo Irão exercessem
a maior contenção de toda a região para não agravar a situação... Isso
desestabilizaria profundamente o Próximo e Médio Oriente." [25]
Outro indicativo claro
do declínio da posição europeia é a retoma das negociações militares entre a
Rússia e os Estados Unidos — conversações que tinham sido suspensas após o
início da guerra na Ucrânia. À medida que o tratado New START — um acordo
bilateral que limita as ogivas nucleares dos dois países — se aproxima do seu
fim, as forças armadas dos EUA anunciaram que Washington e Moscovo concordaram
em realizar negociações militares de alto nível, um desenvolvimento que poderá
sinalizar um movimento para a normalização das relações entre as duas grandes
potências.
Donald Trump tinha
anteriormente pedido que este tratado fosse substituído por um acordo
"melhor" que também incluísse a China, mas Pequim até agora rejeitou
tais negociações. Para comparação, a China possui cerca de 600 ogivas
nucleares, enquanto os Estados Unidos e a Rússia têm perto de 4.000 cada.
Apesar de todos estes
desenvolvimentos, o Secretário-Geral da NATO continua a elogiar de forma
desagradável, procurando garantir que a China e a Rússia não tenham acesso aos
recursos económicos da Gronelândia:
"A Rússia é o principal adversário da
NATO, e a China também está a reforçar. Temos de garantir que os russos e os
chineses não tenham acesso à economia da Gronelândia em termos militares." [26]
A questão que surge é
se, no caso de uma guerra entre os Estados Unidos e o Irão, a Rússia e a China
apoiariam directa e militarmente o Irão. Por outras palavras, estes países
entrariam genuinamente no campo de batalha na defesa do Irão? Se o Irão, a
China e a Rússia tivessem formado um bloco, tal apoio militar seria logicamente
garantido. No entanto, a experiência e as evidências sugerem que a existência
de acordos e declarações de cooperação por si só não garante apoio prático ou
militar em crises reais; pelo contrário, tais arranjos são frequentemente de
natureza política e propagandística. Mais precisamente, tal bloco não existe actualmente.
Alguns meios de
comunicação, incluindo o Middle East
Monitor,
afirmaram que "o Irão, a China e a Rússia assinaram um acordo estratégico
trilateral". [27] No
entanto, esta afirmação é imprecisa: nem a imprensa interna iraniana noticiou
tal acordo, nem os funcionários da burguesia islâmica fizeram tal afirmação.
A realidade é que o
Irão e a China têm um projecto de cooperação e uma parceria estratégica de 25
anos, mas este acordo permaneceu em grande parte no papel e não foi totalmente
implementado. O Irão e a Rússia assinaram também um acordo abrangente de
cooperação estratégica que regula as relações entre os dois países nos domínios
da política, segurança, economia, energia e cooperação mais ampla nos próximos
vinte anos. No entanto, a experiência da guerra dos doze dias demonstrou que
tais acordos têm eficácia prática limitada em condições de intensa crise
militar, e que os seus resultados e consequências são correspondentemente
limitados ou ineficazes.
É claro que cada uma
das potências imperialistas persegue os seus próprios interesses, e que a China
e a Rússia não irão entrar em guerra com os Estados Unidos em nome do Irão.
Cada um procura proteger os seus próprios interesses imperialistas, mesmo que
nenhum deles queira perder o Irão. Na sua condição enfraquecida e dependência
destas potências, o Irão pode, até certo ponto, ajudar a salvaguardar os seus
interesses económicos e estratégicos.
Embora o Tratado de
Parceria Estratégica Abrangente entre a Rússia e o Irão tenha sido ratificado e
estabeleça um quadro legal para a cooperação a longo prazo entre os dois países
— incluindo disposições relativas à cooperação técnica e militar e à interacção
militar — não constitui uma aliança militar mútua. Andrey Rudenko,
Vice-Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, enfatizou no seu discurso à
Duma Estatal que, em caso de tensões militares entre o Irão e os Estados
Unidos, a Rússia não tem obrigação de prestar assistência militar ao Irão.
Afirmou:
"No caso
de tal cenário, a Rússia não está obrigada a prestar assistência
militar." [28]
A China, na véspera
das conversações entre Teerão e Washington, também anunciou que apoia o direito
do Irão de defender os seus interesses e se opõe à "coerção
unilateral". Um comunicado emitido pelo Ministério dos Negócios
Estrangeiros da China afirmou:
"A China apoia o Irão na salvaguarda da
sua soberania, segurança, dignidade nacional e direitos e interesses legítimos." [29]
O Irão está a lidar
com uma profunda crise estrutural na esfera económica. Por um lado, a crise mundial
do capitalismo manifesta-se em países periféricos com intensidade e
destrutividade muito maiores; por outro, a política de "pressão
máxima" seguida pelos imperialistas ocidentais — particularmente os
Estados Unidos — através de sanções devastadoras levou as condições de vida da
classe operária e das camadas mais baixas a níveis catastróficos. Como
resultado, o colapso da economia iraniana não se manifesta como uma recessão
temporária, mas como uma crise profunda, destrutiva e abrangente — a ponto de o
poder de compra dos trabalhadores iranianos ter caído para um dos níveis mais
baixos a nível mundial.
Este colapso económico
gerou um descontentamento generalizado, profundo e sem precedentes dentro da
sociedade — descontentamento que, em termos de escala e intensidade, é sem
paralelo na história contemporânea do Irão. Por esta razão, o maior receio da
burguesia islâmica não advém do perigo de uma guerra externa, mas de convulsões
internas, revoltas sociais e da possibilidade de a ordem existente ser
derrubada dentro da própria sociedade.
Nessas condições, a
burguesia islâmica criminosa, apesar da oposição dentro do aparelho
governamental às negociações, foi obrigada a envolver-se no processo de
negociação. Estas negociações representam uma tentativa de conter a crise,
reduzindo ou suspendendo algumas das sanções e, como resultado, prevenindo a
escalada e a erupção do descontentamento social — descontentamento que poderia
desafiar os próprios alicerces da ordem existente.
Pode argumentar-se que
a expansão militar e a guerra sempre foram características inseparáveis do
capitalismo no seu período de declínio. Em particular, após o colapso do Bloco
de Leste, a intervenção militar e a guerra constituíram pilares centrais da
política externa dos Estados Unidos, visando garantir e reproduzir a sua hegemonia
mundial.
No entanto, existe uma
diferença fundamental entre a situação actual e o período das Guerras do Golfo,
do Afeganistão e do Iraque. Nesses momentos, os Estados Unidos conseguiram,
através da demagogia política, da retórica "humanitária" e da linguagem
dos direitos humanos, mobilizar sectores da opinião pública mundial e dos seus
governos aliados para o seu lado, alinhando-os em seu apoio. Além disso,
durante esse período, a Rússia encontrava-se na sua posição mais fraca desde o
colapso da União Soviética, e a China ainda não tinha emergido abertamente como
uma potência mundial auto-afirmativa.
Mas hoje a
configuração das potências mundiais mudou. As rivalidades imperialistas
tornaram-se mais multipolares, mais instáveis e mais incontroláveis do que no
passado. A questão não é apenas que Trump perdeu o equilíbrio e faz declarações
cada vez mais bizarras de um momento para o outro — desde transformar o Canadá
num "quinquagésimo primeiro estado" e anexar a Gronelândia como um
"quinquagésimo segundo estado" até ameaçar desencadear um banho de
sangue no Médio Oriente. O que está por trás destas declarações é uma
selvajaria mais profunda: um sistema capitalista que tem saído cada vez mais do controlo e agora
reproduz brutalidade e caos.
Desta perspectiva, a instabilidade
e a falta de equilíbrio de Trump como Presidente da maior economia e potência
militar do mundo não são uma aberração individual, mas sim um reflexo das
condições de crise e caos do capitalismo no período actual.
Acreditamos que as
condições de guerra — ou mesmo um clima de ameaça constante de guerra — não
oferecem terreno favorável para o crescimento e desenvolvimento da luta de
classes. O que realmente cria a base para a expansão da luta de classes é o
agravamento das crises económicas juntamente com a elevação da consciência de
classe, e não uma atmosfera de mobilização nacionalista e histeria de guerra.
As consequências do
militarismo não devem ser procuradas apenas em países directamente envolvidos
em guerra. Os seus efeitos podem ser vistos mesmo na chamada "Europa
civilizada": na erosão dos padrões de vida da classe operária, na expansão
da austeridade, na restricção das "liberdades sociais" e na crescente
militarização do espaço público. O militarismo não se limita ao campo de
batalha; pelo contrário, penetra nas relações sociais e na vida quotidiana da
classe operária.
Numa altura em que os
governantes do capital tocavam os tambores da guerra, a classe operária, em vez
de lutar contra a escravatura salarial, a vida abaixo do limiar da pobreza, o
congelamento salarial, o desemprego em massa e dezenas de outros problemas
estruturais, é chamada como "carne para canhão" para defender a
"pátria do capital". A guerra empurra a luta de classes para as
margens e oculta a contradição entre trabalho e capital por detrás da fachada
da "unidade nacional".
No período actual, o
capitalismo expande o militarismo dia após dia e transformou-o num fenómeno mundial.
A militarização da sociedade como um todo tornou-se parte do tecido comum do
capitalismo contemporâneo. Este militarismo, juntamente com todas as
instituições do Estado capitalista — dos sindicatos às escolas, do sistema
judicial aos aparelhos ideológicos — funciona como um instrumento nas mãos da
classe dominante para obstruir o crescimento da consciência de classe e impedir
o despertar do "gigante adormecido", a classe operária mundial. Karl
Liebknecht explica este ponto de forma clara:
"O
militarismo manifesta-se como uma ferramenta pura nas mãos das classes
dominantes, concebida para dificultar o desenvolvimento da consciência de
classe através da sua aliança com a polícia e o sistema de justiça, com a
escola e a igreja, e ainda para garantir a uma minoria a qualquer custo, mesmo
contra a vontade consciente da maioria do povo, a sua posição dominante no
Estado e a sua liberdade de exploração."[30]
Mesmo que esta ronda
de negociações entre os Estados Unidos e o Irão resultasse num acordo, é
improvável que provoque uma redução real das tensões ou do militarismo num
futuro próximo, uma vez que tanto os Estados Unidos como a República Islâmica
do Irão estão a perseguir e a promover os seus próprios interesses
imperialistas. Desta perspectiva, qualquer acordo potencial não é o ponto final
da crise, mas apenas um instrumento temporário para gerir as tensões
imperialistas.
Neste quadro, o
imperialismo iraniano desempenhou um papel tenso, desestabilizador, destrutivo
e provocador de guerra a nível regional — um papel enraizado na lógica da
competição imperialista e não limitado às características ideológicas da
burguesia islâmica. Por outro lado, os Estados Unidos desempenharam o mesmo
papel a nível mundial e continuam a
fazê-lo, desde fomentar a agitação e instabilidade política até à incitação
belicista e intervenções militares directas.
Ambos os Estados, ao
adoptar políticas que intensificam a competição imperialista e expandem as
tensões militares, desempenharam um papel decisivo na desestabilização da ordem
mundial. Assim, mesmo que sejam alcançados acordos temporários, a lógica que
sustenta estas políticas permanecerá inalterada, e é altamente provável que
esta trajectória propensa a crises e orientada para a guerra continue no
futuro.
Nestas circunstâncias,
o papel dos internacionalistas é mais vital do que nunca. Este papel não pode
limitar-se a emitir meras declarações; Requer um envolvimento activo e
organizado na defesa do internacionalismo proletário. Pois no ambiente actual, devastado pela
guerra e polarizado, tanto as tendências da direita como da esquerda do capital
desempenham um papel em obscurecer e desviar a consciência de classe e, ao
lançar pó aos olhos da classe operária, desviam-na.
As tendências
burguesas — seja sob a bandeira de defender a democracia, opor-se a Trump ou
opor-se a Khamenei — servem activamente para confundir a classe operária. A
esquerda do capital e as chamadas forças pró-democracia, por sua vez, tentam —
através de palavras de ordem e apelos aparentemente radicais — atrair os operários
para movimentos burgueses anti-guerra e frentes inter-classes, movimentos que,
em última análise, permanecem dentro do quadro da ordem capitalista.
Tal ofuscação impede a
formação de uma luta independente, consciente e baseada nas classes. A tarefa
histórica da classe operária não é apoiar uma facção ou outra da classe
dominante, mas sim promover uma luta independente contra todo o sistema
capitalista. A classe operária deve lutar não pela "pátria", nem pela
"democracia burguesa", nem em defesa deste ou daquele Estado, mas
pelos seus próprios interesses e objectivos de classe.
A história mostrou que
a única força capaz de travar a maquinaria burguesa do massacre — isto é, a
guerra — é a classe operária. Durante a Primeira Guerra Mundial, foi a ameaça
de revolução na Alemanha que obrigou a burguesia a aceitar um armistício. Esta
experiência histórica demonstra que os criminosos de guerra não recuam por preocupação
humanitária ou racionalidade política, mas apenas sob a pressão de uma ameaça proletária real — uma retirada
destinada a reagrupar-se e preparar uma guerra de classes contra o próprio
proletariado.
Esta lógica histórica
mantém-se válida. Onde quer que a classe operária tenha entrado em palco como
uma força independente, organizada e consciente, conseguiu desafiar a máquina
da guerra e destruição capitalistas. Embora a classe operária mundial não
esteja actualmente nessa posição ou equilíbrio de forças, o desenvolvimento da
luta de classes, a elevação da consciência de classe e a organização proletária
independente podem novamente abrir este horizonte para o proletariado — um
horizonte em que nem Estados nem acordos entre potências imperialistas, mas a acção
independente da classe operária, determinará o destino da guerra e da paz.
Só a classe operária mundial
pode transformar as guerras do capitalismo numa guerra contra o próprio
capitalismo e, ao desmontar este sistema à escala mundial, eliminar os
fundamentos materiais do militarismo, das tensões militares e das guerras
imperialistas. A verdadeira paz só é possível quando as lutas de classes se
estendem para além das fronteiras nacionais e as guerras do capitalismo se
transformam numa luta contra o próprio capitalismo. Por esta razão, acabar com
o militarismo e a guerra, e alcançar uma paz duradoura para a humanidade, só é
possível através do derrube mundial do capitalismo — um objectivo que só pode
ser alcançado através de uma
revolução proletária mundial.
Os
trabalhadores não têm pátria!
Abaixo a
guerra imperialista!
Viva a guerra
entre as classes!
Voz Internacionalista
10 de Fevereiro de
2026
Notas:
[1] Israel, pelo
menos desde a Guerra dos Doze Dias, colocou abertamente uma política de
"mudança de regime" no Irão na sua agenda. Esta política começou com
o atentado à Prisão de Evin e continua agora sob a forma de um projecto
conhecido como a "Revolução Nacional" — um projecto que, ao destacar
e promover o filho do carrasco Pahlavi, procura marginalizar a burguesia
islâmica por todos os meios possíveis. Esta abordagem faz parte do plano mais
amplo de Israel do "Novo Médio Oriente". O facto de Israel conseguir
seguir tal política — ou seja, avançar o projecto Novo Médio Oriente — entre os
seus aliados ocidentais e parceiros regionais não é sinal de coesão estratégica,
mas sim um reflexo do caos, contradição e profunda crise dentro da estratégia
do imperialismo ocidental e da sua rede de aliados regionais.
[2] Truth
Social.
[3] Esta questão é
explorada em detalhe nos seguintes folhetos:
§ Tensões Imperialistas Entre o Irão e os Gangsters
Democráticos: Posição e Deveres Internacionalistas
§ Tensões e Acordos Imperialistas: Posição e Perspectiva
Internacionalista
[4] Para mais
detalhes, por favor consulte o artigo "Escalada das Tensões Imperialistas: Só a Classe Operária
Pode Oferecer um Futuro."
[5] Normalmente
usamos o termo "o Golfo" em vez de "o Golfo Pérsico" para
evitar qualquer ambiguidade nacionalista. Até à década de 1970, documentos
internacionais referiam-se a ele como o "Golfo Pérsico"; nessa
altura, a burguesia do Xá no Irão detinha uma posição forte como aliada próxima
das potências ocidentais e conseguia promover a sua propaganda a nível
internacional. O termo "Golfo Árabe" surgiu na década de 1960,
coincidindo com a ascensão do nacionalismo árabe, quando alguns países árabes
da região procuraram enfatizar a sua identidade árabe. Nas últimas décadas,
após tensões políticas entre a República Islâmica do Irão e os países
fronteiriços do Golfo, estes Estados têm insistido cada vez mais no uso do
termo "Golfo Árabe".
[6] Ali-Mohammad
Norouzadeh, chefe do Centro para a Gestão de Ameaças no Espaço de Troca de
Informação da burguesia islâmica, afirmou que, no período de quinze dias de 10
a 24 de Janeiro, foram identificadas mais de quatro milhões de actividades
cibernéticas direccionadas à infraestrutura do país.
[7] Em resposta à
exigência do Ocidente por restricções ao programa de mísseis do Irão, o país
apresentou o seu mais recente míssil, uma versão melhorada do Khorramshahr-4.
[8] O
discurso de Trump.
[9] Laurence Norman.
[10] ORION
2026.
[11] Exercício operacional-táctico
Peace Shield.
[12] A Estratégia
de Defesa Nacional de 2026.
[13] J.D. Vance.
[14] Num gesto
simbólico, a aeronave que transportava a equipa de negociação iraniana anunciou
o Deserto de Tabas como ponto de partida para o seu voo para Omã —
uma região onde, durante a Operação "Garra de Águia" a 25 de Abril de
1980, unidades de operações especiais da Força Delta dos EUA encontraram uma
tempestade de areia enquanto tentavam resgatar reféns americanos. A operação
terminou em completo fracasso, resultando na morte de oito militares
norte-americanos e na destruição de uma quantidade significativa do seu
equipamento.
[15] Tabnak.
[16] Ministro
dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi.
[17] BBC.
[18] Sky News.
[19] Sky News.
[20] BBC.
[21] Saraya
Awliya al-Dam.
[22]É muito importante
distinguir entre o declínio do poder burguês europeu e a posição do
proletariado europeu. Embora, no contexto da nova desordem mundial, a posição
dos países europeus — ou mais precisamente, das burguesias europeias — esteja
em declínio, isso não implica de forma alguma um declínio no papel ou posição
da classe operária europeia. O enfraquecimento do poder económico e político da
burguesia europeia a nível mundial não diminui necessariamente a posição da
classe operária europeia e pode até criar condições para o surgimento de novas
formas de luta de classes. Para obter uma compreensão mais abrangente desta
distinção e analisar as tendências actuais, recomenda-se o livreto "O Equilíbrio Mutável das
Potências Imperialistas e a Recomposição da Ordem Mundial: A Necessidade de uma
Organização Proletária Independente" — uma publicação que recorre a dados estatísticos, eventos históricos
e à memória histórica da classe operária.
[23] Friedrich Merz.
[24] Abbas Araghchi.
[25] O Darien
Times.
[26] MSN.
[27] Monitor
do Médio Oriente.
[28] Tass.
[29] Declaração do ministério dos
Negócios Estrangeiros de Pequim.
[30] Militarismo e Anti-Militarismo –
Karl Liebknecht.
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Fonte: Submission
or War? Capitalism and the Tendency Towards Generalised Imperialist War, and
the Internationalist Response - Internationalist Voice
Este texto
foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice