terça-feira, 7 de julho de 2026

Romeu e Julieta na sua versão wahabita

 


Romeu e Julieta na sua versão wahabita

Nota do editor www.madaniya.info  Arábia Saudita / Decapitação: Romeu e Julieta na sua versão wahabita Da decapitação...

Por: René Naba - em: Saudi Arabia Politics - em 7 de Julho de 2015


Nota do editor www.madaniya.info

Arábia Saudita / Decapitação: Romeu e Julieta na sua versão wahabita

Da decapitação como modo de regulação social.

Cem pessoas foram decapitadas no primeiro semestre de 2015 na Arábia Saudita por crimes de direito comum, um recorde mundial absoluto de todos os tempos, sem o menor protesto por parte dos aliados da dinastia wahhabita: os Estados Unidos, que albergam a sede das Nações Unidas; a França, a pátria dos Direitos Humanos; e o Reino Unido, a pátria do Habeas Corpus, enquanto, para dar resposta às suas necessidades, o Reino lançou um concurso público para o recrutamento de novos carrascos. Relato de uma decapitação.

Título original do artigo: A virilidade da dinastia wahabita e a honra manchada de sangue,
Jaafar Al Bakli (escritor, Tunísia), versão francesa adaptação: René Naba para madaniya.info

http://www.al-akhbar.com/node/222003

Preâmbulo do autor:

  • O presidente egípcio Anwar Sadat ajudou a preparar o filme "Assassinato de uma Princesa", que foi exibido em Maio de 1980. Foi ele quem escolheu Soussane (Suzanne) Badr para interpretar o papel da princesa decapitada. Salah Jahine, cartoonista e argumentista egípcio, desempenhou um papel a pedido do presidente egípcio, enquanto na altura estava confinado a filmes de humor tolo como "Khali Balak Min Zouzou" (Cuidado com Zouzou).
  • Maomé foi o filho mais violento, teimoso e reactivo dos filhos de Abdel Aziz, o fundador do Reino. Por isso, era referido pelo apelido de Abu Al Charreyne, "o pai dos dois males".

In Memoriam: O Trágico Fim dos Amantes de Verona na sua Versão Saudita

Relato do dia de sexta-feira, 17 de Julho de 1977, em Jeddah:

«Os soldados sauditas saíram a correr do seu veículo e posicionaram-se em círculo, formando um cerco hermético, de modo a bloquear todo o acesso à praça pública, situada junto ao parque de estacionamento próximo do edifício «Al Mamlaka» (O Reino), em Jeddah, paralisada sob um sol escaldante. Era meio-dia daquela sexta-feira, 15 de Julho de 1977.

Os soldados começaram então a dispersar os curiosos que começavam a aglomerar-se à volta da praça, pressentindo que algo estava para acontecer. De repente, as portas de um camião abriram-se abruptamente. Duas pessoas algemadas foram tiradas à força, com brutalidade. Dois jovens.

·         O jovem estava atordoado, em pânico. Vestia uma jallabiya suja, rasgada na zona do peito.

 

·         A jovem… Os seus tremores eram perceptíveis através da sua longa abbaya preta. Ambos estavam perturbados… Como duas presas presas na armadilha do seu predador.

Os soldados arrastaram o jovem para o meio do círculo formado na praça. Ele debatia-se e resistia-lhes com obstinação, apesar das algemas que o mantinham imobilizado. A jovem, sem forças, lançava gritos sem voz, ajoelhada ao seu lado… À espera do senhor da morte.

1- O Carrasco

Então, surgiu um homem negro de grande estatura, com um rosto antipático e marcado pela desgraça. Esbelto e ágil como uma raposa, aproximou-se por trás do casal ajoelhado. Na sua mão, brilhava sob os raios do sol a lâmina de uma espada larga e afiada.

O jovem, em lágrimas, clamava pela sua inocência. Ao seu lado, a jovem senhora, com a garganta seca e o olhar perdido.

A morte voltou a rondar. Atrás do casal. Nas suas costas. Brandindo a sua arma, girando-a, o carrasco posiciona-se à altura da cabeça do jovem curvado, ajoelhado e acorrentado. Fixa então a ponta da sua espada na parte inferior das costas do jovem, que se arqueia imediatamente devido à dor da punhalada. A sua nuca fica tensa, rígida, com as veias cheias de sangue, como se estivesse pronta para a decapitação.

O homem negro empunha então rapidamente a sua espada e abate-a sobre a nuca esticada. Com um golpe de espada, corta as veias cheias de sangue. As veias explodem e salpicam sangue no rosto e no corpo do jovem, bem como nas roupas do carrasco.

 

A ponta da espada na parte inferior das costas era tão dolorosa que o corpo amarrado endireitou-se com vigor, como se o condenado, apesar da dor violenta, tentasse levantar-se para fugir.

Apesar da violência do golpe de espada, a cabeça não foi decapitada. O carrasco desferiu imediatamente um segundo golpe… A cabeça separou-se então do corpo, rolou como uma bola antes de parar de repente, encharcada de sangue… Com os olhos esbugalhados e bem abertos, a língua para fora da boca.

O corpo permaneceu por um momento imóvel, de joelhos, tomado por um tremor. Depois inclinou-se antes de tombar, cair e ficar imóvel.

A jovem ficou paralisada perante aquele espetáculo. Um grito agudo escapou-lhe da garganta quando o carrasco abateu a espada. Ficou instantaneamente imóvel, como embalsamada.

2- O pai da princesa

Vestido com uma dichdecheh branca, com o bigode tingido e óculos escuros a cobrirem-lhe todo o rosto, um homem idoso e imponente fez então a sua entrada em cena. Aproximou-se do círculo da morte e parou exactamente à altura da jovem senhora. Ela voltou o olhar na sua direcção e murmurou algumas palavras, como se implorasse pela sua clemência. Os óculos, maiores do que o rosto, ocultavam qualquer sinal de emoção.

Os dedos trémulos deslizaram então até ao cinto para de lá retirar um revólver. O olhar severo mergulhou no olhar desesperado da jovem e disparou, sem hesitação, contra a cabeça juvenil.

3- A princesa

Ela tinha 19 anos naquele dia e chamava-se Macha’el Bint Fahd Ben Mohamad Ben Abel Aziz. O seu suposto amante, decapitado diante dos seus olhos, chamava-se Khaled Al Mohalhal, sobrinho materno do General Ali Al Chaer, embaixador da Arábia Saudita no Líbano e, posteriormente, ministro da Informação do Reino.

O homem que alvejou a princesa foi o seu próprio pai. Um parente próximo, segundo se afirma, tinha-lhe atribuído esta terrível missão… «Lavar a mancha da vergonha com sangue».

4- O avô da princesa: Abou Al Charreyne "O pai dos dois males"

O avô da princesa, Mohamad, era conhecido pelo apelido de Abou Al Charreyne, «O pai dos dois males», devido à sua impetuosidade. Segundo testemunhos (1), ele próprio tinha insistido para que o seu próprio filho, o pai da princesa, executasse a sua neta.

 

Mohamad era, na altura, presidente do conselho de supervisão da família reinante, encarregado de resolver os litígios no seio da dinastia, na sua qualidade de filho mais velho de Abdel Aziz ainda vivo. Mohamad era também o irmão mais velho do rei Khaled, na altura rei da Arábia, a quem se tinha dedicado, cedendo-lhe a sua ordem de sucessão para permitir que o seu irmão mais novo reinasse em seu lugar. Quarto filho do rei Abdel Aziz — depois de Turki, falecido ainda jovem, e de Saoud e Faysal, que chegaram a reinar —, Mohamad, o mais violento, o mais teimoso e o mais impetuoso dos filhos do rei, não temia ninguém.

 

Por essa razão, foi apelidado de Abou Al Charreyne, «Pai dos dois males». O próprio Saoud, na época em que era príncipe herdeiro, sofreu muito com a grosseria de linguagem do seu meio-irmão. Mohamad desempenhou, aliás, um papel essencial na revolução palaciana que culminou na destituição de Saoud, em Novembro de 1064.

 

Abdel Aziz aproveitou a brutalidade do seu filho mais novo para lhe confiar, apesar da sua tenra idade, cargos de comando em conflitos secundários do exército saudita. Aos 15 anos, como recompensa, conquistou o cobiçado cargo de governador de Medina, a cidade do Profeta, cujo destino viria a presidir durante 40 anos.

5- A sexualidade desenfreada de Mohamad... Poligamia e homofilia

Para além das disputas familiares a que estava habituado, Mohamad destacou-se por uma vida sexual desenfreada, multiplicando casamentos e divórcios a tal ponto que era difícil contabilizar o número das suas esposas. Cinco delas receberam o título de princesa; as restantes, a coorte das divorciadas e das abandonadas, voltaram ao anonimato assim que a separação se consumou. A sua prole está à altura do seu activismo nesta área: 29 filhos, 17 rapazes e 12 raparigas.

Para além da poligamia, Mohamad demonstrou grande atracção pela homofilia, um novo mundo que descobriu por ocasião da sua primeira estadia em Londres, em Maio de 1937. Com 27 anos, Mohamad acompanhava o príncipe herdeiro Saoud para representar o Reino da Arábia Saudita nas cerimónias de entronização do rei Jorge VI.

É costume que a coroa britânica receba com deferência os seus convidados de honra, especialmente os provenientes do Oriente. Os dois príncipes sauditas não foram excepção à regra, tendo sido alvo de uma atenção especial.

É também costume os ingleses identificarem os pontos fracos dos seus anfitriões para os cativar e colocá-los sob o seu domínio. Foram — e continuam a ser — elaborados relatórios sobre cada anfitrião antes da sua visita: alguns ficaram deslumbrados com o fausto da vida em Londres. Os dois príncipes beduínos, por seu lado, entregaram-se de corpo e alma aos prazeres da vida, nunca antes vistos no seu país e geralmente proibidos. Mais tarde, graças à bonança petrolífera, a peregrinação a Londres, Paris, à Riviera e às Ilhas Baleares passaria a ser uma etapa obrigatória para todos os beneficiários dessa bonança. Um ritual sagrado.

6- Uma dinastia libidinosa: Rei Saud: 43 esposas, 115 filhos/Rei Abdel Aziz: 38 esposas, 63 filhos

Saud demonstrou uma clara preferência pelas mulheres, independentemente das circunstâncias, superando, neste aspecto, todos os seus irmãos. De acordo com os documentos oficiais, o segundo rei da Arábia casou-se com 43 mulheres, deixando uma prole numerosa de 115 filhos: 53 rapazes e 62 raparigas.

A atracção pelo sexo parece ter sido a marca distintiva da dinastia libidinosa dos Al Saoud. Abdel Aziz tinha, assim, o costume de passar uma noite de amor com uma mulher — uma única noite de amor —, antes de a dispensar. As mais afortunadas tinham direito a várias noites consecutivas antes de serem rejeitadas e relegadas ao anonimato.

Nem a esposa do seu irmão Mohamad (2), nem a viúva do seu irmão Saad, nem mesmo a viúva do seu inimigo íntimo, Saoud Ben Rachid, governador de Hael, foram poupadas ao seu ardor. Mal tinha conquistado Hael, quando se apoderou da viúva de Ibn Rachid, Fahida Bint Al Assi Ben Kleib Ben Chreim Al Rachid, para lhe dar um filho que não é outro senão… Abdallah, o actual rei da Arábia.

Abdel Aziz honrou assim, sem interrupção, as suas 38 mulheres, para além de um número incalculável de desconhecidas, enriquecendo o reino com uma prole de 63 filhos. Um número que não tem em conta nem os filhos que morreram na infância, nem os nados-mortos.

O mais estranho é que o rei Abdel Aziz, meio cego, paralítico e em cadeira de rodas, conseguiu a proeza de continuar a ter filhos: Moukren, Hazloul, Hammoud, Abta e Tarfa são fruto dos seus amores aos setenta anos, um dos milagres do fundador do Reino (4).

7- Rei Abdullah: 21 esposas, 63 filhos

A virilidade não se limita ao pai fundador do Reino. O rei Abdallah, recentemente falecido, demonstrou as suas grandes capacidades reprodutivas ao gerar, aos 75 anos, um filho, Bandar, nascido em 1999, da sua esposa, a princesa Haifa El Mehanna. Bandar é o 63.º filho do rei Abdallah, fruto de 21 esposas. O problema com Mout’eb (o rei Abdullah) é que sofria de amnésia selectiva. Tinha filhos, mas esquecia-se de parte da sua prole. Algumas das suas filhas negligenciadas começaram assim a clamar por ajuda, implorando a Deus, antes de decidirem recorrer à justiça e aos programas de televisão dos canais europeus (5).

8 - 500.000 dólares por 15 minutos de conversas com Kristen Stewart e 1 milhão de dólares por uma noite com Brigitte Nielsen

A obsessão sexual não era exclusividade dos pais fundadores do Reino. Filhos e netos herdaram os mesmos impulsos. O seu feito residia na competição a que se entregavam em torno dos dólares derramados sobre as beldades de Hollywood. Histórias intermináveis. Inimagináveis. Sobre a sua estupidez e a sua inconsistência.

Harvey Winston conta que um príncipe saudita lhe ofereceu 500 000 dólares pela honra de conversar com a sua ídola, Kristen Stewart. A actriz aceitou, mas com a condição de que o príncipe fizesse uma doação de meio milhão de dólares para o fundo de ajuda às vítimas do tufão Sydney.

Mark Young, por seu lado, publicou um livro intitulado «Saudi Bodyguard», no qual este britânico, há muito destacado para a protecção dos palácios da família Al Saoud, desde 1979, narra as depravacões da dinastia, «os seus desvios, a prostituição a que alguns se entregam, os roubos e pilhagens, os vícios no álcool, nas drogas e no jogo». Relatos acompanhados de fotografias que confirmam a sua pertença à guarda de segurança da família real saudita.

9- A fantasia de Khaled Ben Sultan e Brigitte Nielsen

A história mais singular de que Mark Young foi testemunha é a do antigo vice-ministro da Defesa, Khaled Ben Sultan, antigo contacto saudita do general norte-americano Norman Schwarzkoff durante a 1.ª Guerra do Golfo (1990-1991) e proprietário do jornal «Al Hayat».

Fascinado pela beleza de Brigitte Nielsen, na altura esposa do actor norte-americano Sylvester Stallone (também conhecido como Rambo), o generalíssimo, segundo o relato de Young, terá arquitectado vários planos para passar uma noite de amor com a bela loira dinamarquesa. Chegou ao ponto de oferecer um milhão de dólares por essa noite que prometia ser escaldante.

10- Abdel Aziz, ou a transformação de um príncipe de juventude turbulenta num pregador wahhabita

O filho mais novo do Rei Fahd, por sua vez, apaixonou-se pela actriz de televisão Yasmine Bleeth, de origens judaicas. Abdel Aziz Ben Fahd gastou com ela uma quantia tão avultada que teria sido suficiente para erradicar definitivamente o problema das solteironas do Reino.

Companheiro de festas do antigo primeiro-ministro libanês Saad Hariri, as suas travessuras parisienses valeram-lhe uma proibição de entrada num grande hotel de luxo da capital francesa. No final de uma juventude agitada, Abdel Aziz demonstrou contricção e arrependimento: Deixou crescer a barba e tornou-se pregador wahhabita, financiador do canal takfirista «Wissal» (o laço).

… O príncipe voltou a colocar o revólver no cinto depois de ter lavado a mancha de vergonha que manchava a família real saudita, matando a sua filha com um tiro na cabeça. Depois, voltou-se na direcção do seu carro sumptuoso, escoltado pelos seus guardas. Os soldados precipitaram-se para o local onde a jovem princesa tinha caído, banhada no seu próprio sangue, e cobriram o seu corpo frágil com um cobertor.

Outros soldados apressaram-se a colocar o corpo num veículo de transporte, enquanto outros se dirigiam para o jovem decapitado. A hemorragia persistia; ajudaram-se uns aos outros para o transportar para outro camião… Um soldado estendeu a mão para recolher a cabeça que jazia não muito longe do corpo: os olhos do decapitado estavam bem abertos, a língua de fora da boca e o sangue escorria, escorria, escorria.

… Os amantes de Verona, na sua versão saudita, teriam completado 57 anos em 2015, idade de serem avós, idade de iniciar os seus netos nas descobertas da vida. Nas alegrias da vida.

O código beduíno decidiu de outra forma: a honra manchada deve ser lavada com sangue. Tal é a lei implacável dos seres lascivos. Uma decapitação e um tiroteio como preço de um amor juvenil. Um preço exorbitante.

Notas

1- Em 1980, o canal ATV transmitiu um docudrama britânico intitulado «A Morte de uma Princesa», que narrava o assassinato da princesa Macha’el e do seu companheiro. A transmissão deste documentário provocou uma grave crise diplomática entre Londres e Riade. O rei Khaled ordenou a expulsão do embaixador do Reino Unido na Arábia Saudita, em resposta a esta «ingerência flagrante da televisão britânica num assunto familiar saudita». Os actores egípcios que interpretaram as personagens do filme foram proibidos de permanecer na Arábia Saudita para sempre. A actriz Suzanne Abou Taleb, que interpretou o papel da princesa, teve de mudar o seu nome para Saoussane Badr para contornar as consequências do veto saudita.

2- Hussa Bint Ahmad Ben Mohamad Al Sideiry era uma das esposas de Abdel Aziz. Deu à luz um filho a quem deram o nome de Saad, que faleceu ainda na infância, o que levou o rei a divorciar-se da sua esposa. Hussa casou-se em segundas núpcias com o próprio irmão de Abdel Aziz, o príncipe Mohamad Ben Abdel Rahman. Hussa deu à luz um menino, chamado Abdallah, filho do seu segundo marido. Mais tarde, mudando de ideias, Abdel Aziz voltou a sentir atracção pela sua primeira esposa. Ordenou ao seu irmão mais novo que se divorciasse dela para que pudesse casar-se novamente com ela. Do seu segundo casamento com a sua esposa Hussa, Abdel Aziz teve 14 filhos (7 rapazes e 7 raparigas), dos quais os mais famosos foram o rei Fahd, o príncipe Sultan (Defesa), Nayef (Interior) e Salmane (governador de Riade), ou seja, os três últimos príncipes herdeiros do reino.

3- A união de facto era legal na Arábia Saudita até 1962. Nessa data, o rei decretou a sua abolição. Assim, as criadas circassianas, magrebinas, sudanesas e arménias são as mães de muitos príncipes sauditas. Por exemplo, Bandar Ben Sultan, o antigo «cappo di tutti cappi» do jihadismo mundial, é filho de uma criada sudanesa, e Moqren, o efémero príncipe herdeiro de Salmane, é filho de uma escrava iemenita. G. Rives Chandlers, embaixador dos Estados Unidos na Arábia Saudita (1946-1951), relata nas suas memórias uma história curiosa sobre o rei Abdel Aziz. Ao perceber que o diplomata americano vivia solteiro na Arábia, sem a sua esposa, que tinha ficado nos Estados Unidos, o monarca sentiu compaixão por ele e propôs-lhe uma das suas criadas como companhia para «alegrar as suas noites». Chandlers recusou a oferta, naturalmente, mas contou esta história aos seus colegas diplomatas ocidentais destacados em Jidá.

4- Perto do fim da sua vida, o rei Abdel Aziz sofria de uma doença grave. As doenças crónicas levaram-no a apresentar aos médicos americanos, colocados à sua disposição gratuitamente pelo consórcio petrolífero ARAMCO (Arab-American Company), pedidos improváveis:

1.º pedido: pôr fim à dor aguda que paralisava os seus joelhos ao ponto de causar perda de mobilidade, forçando-o a permanecer sentado e privando-o de estar de pé.

Segundo pedido: Restaurar as suas capacidades reprodutivas.

O Dr. A.I. Wait, médico adstricto à embaixada norte-americana em Jeddah, realizou um exame médico completo (check-up) a Abdel Aziz. Conseguiu curar a cegueira do rei, causada pelo tracoma, bem como o reumatismo que lhe paralisava as articulações. Em 1950, o coronel Wallace Graham, médico pessoal do presidente Harry Truman, constatou que o rei Abdel Aziz começava a perder as suas faculdades mentais, confinado à sua cadeira de rodas devido ao reumatismo que o obrigava a permanecer sentado durante grande parte do dia.

5- Em 2014, eclodiu um escândalo na Arábia Saudita quando duas filhas do rei, Sahar e Jawaher, alertaram a opinião pública, através da sua conta no Twitter e de uma entrevista ao canal britânico «Channel Four», para a sua situação de cativeiro. Em prisão domiciliária em Jeddah há 12 anos, na companhia das suas outras duas irmãs — Hala e Maha —, estava-lhes proibido sair de casa sem a companhia dos seus guardas. Desde Março de 2014, as quatro filhas do rei estão proibidas de sair de casa e privadas de abastecimento alimentar. Para sobreviver, decidiram contentar-se com uma refeição por dia, a fim de poupar as suas reservas alimentares. Elas afirmam que esta decisão foi tomada pelo próprio rei, em retaliação à decisão da sua mãe, Ounoud Al Fayez, de apresentar «uma queixa contra o seu ex-marido, guardião dos Lugares Santos», em Estrasburgo, exigindo ao «Rei do Humanismo», segundo a imprensa saudita, aceder ao pedido das suas filhas de abandonarem a sua gaiola dourada e se juntarem à mãe, refugiada em Londres.

Versão árabe

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Ilustração

  • Cena da decapitação da Princesa Misha'al Bint Fahd Al Saud e do seu amante a 15 de Julho de 1977 na praça pública de Deddah.

 

Fonte: Roméo et Juliette dans sa version wahhabite - En point de mire

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




domingo, 5 de julho de 2026

Leitura pública, ler no autocarro

 


Leitura pública, ler no autocarro

5 de Julho de 2026 Daniel Ducharme

DANIEL DUCHARME

Esta manhã, no autocarro 430, sentei-me no banco de dois lugares situado na parte de trás do autocarro. Ao meu lado, sentadas lado a lado no banco lateral, duas mulheres estavam a ler. A primeira, uma mulher com cerca de quarenta anos, elegantemente vestida e com uma mala de computador ao ombro, estava absorta na leitura de *La poussière du temps* (“A poeira do tempo” - NdT), um romance histórico de Michel David, um autor quebequense de grande sucesso, se assim se pode dizer. Esta mulher é provavelmente consultora ou gestora numa das torres do centro da cidade. Um trabalho stressante, sem dúvida, e um chefe que deve exigir resultados trimestrais, caso contrário… Um romance sobre o Quebec de outrora, nada melhor para se afastar da modernidade que nos rodeia.

À sua esquerda estava uma jovem negra de aparência bastante comum. Também comuns eram as suas roupas, que contrastavam nitidamente, em termos de qualidade, com as da sua vizinha que lia um romance histórico. Era difícil adivinhar se se tratava de uma estudante ou de uma assistente social num lar de idosos. Ela estava a ler um livro intitulado «Caminhar pelo caminho da felicidade», um livro de má qualidade com uma capa de cores vivas, como se quisesse atrair os leitores. O tipo de livro que se compra na Jean-Coutu ou numa grande loja de conveniência. Por um instante, perguntei-me por que razão a jovem estaria a ler um livro daqueles. Estaria a passar por dificuldades na vida? Não seria feliz? Talvez tivesse acabado de passar por provações e as palavras daquele autor, sem dúvida um charlatão, lhe trouxessem algum consolo. Afinal, eu não sabia de nada. Nem sobre ela, nem sobre o autor do livro em questão.

Por fim, no banco de trás estava sentado um homem na casa dos trinta, que usava roupa justa ao corpo. Roupa na moda comprada numa loja de vestuário italiana ou algo do género. O homem exibia um ar arrogante, com o cabelo penteado para trás e o relógio chamativo. Normalmente, não se esperaria que este tipo de pessoa lesse… tal como nos surpreenderíamos ao ver um Hummer no parque de estacionamento de uma biblioteca pública. Mas, acreditem ou não, este indivíduo estava a ler o único livro do grupo de passageiros que se poderia qualificar de «literário»: «O Amor nos Tempos da Cólera», de Gabriel García Márquez.

E vocês, o que lêem no autocarro?

 

Ler no autocarro

Fonte: https://les7duquebec.net/archives/207324

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




sábado, 4 de julho de 2026

Burguês

 


Burguês:

Não é o fruto;

É o desfruto,

O móbil.

Não é o desfruto

Do fruto.

É a fruta

Do desfrute

O que te aplaca

A expectativa!

4 Jul 2026

Pedro Leite Pacheco

S. Miguel, Açores

Colónias, um sabor de paraíso ou um sabor residual de inferno?

 


Colónias, um sabor de paraíso ou um sabor residual de inferno?

imagem: O porto de Bordéus pintado por Claude-Joseph Vernet (1714-1789) primeiro papel do arquivo especial que France Afrique preparou na ocasião...

Por: René Naba - em: Analyse France - a 13 de Março de 2010


imagem: O porto de Bordéus pintado por Claude-Joseph Vernet (1714-1789)

Primeiro artigo do relatório especial sobre a France Afrique, preparado por ocasião do quinquagésimo aniversário da independência de África, oferecendo uma retrospectiva dos vários aspectos ocultos da história de França........uma história tal como deveria ter sido ensinada às crianças em França.

Como a vida era bela nos tempos áureos das colónias e no seu antegozo do paraíso: cinquenta e dois milhões de pessoas (1), colonos em busca de um meio de subsistência, aventureiros em busca de fortuna, militares em busca de pacificação, administradores em busca de prestígio, missionários em busca de conversão, todos em busca de promoção, emigraram do «Velho Mundo», em pouco mais de um século (1820-1945), à descoberta de novos mundos, precursores distantes dos trabalhadores imigrantes da era moderna.

À taxa média de 500.000 expatriados por ano durante 40 anos, de 1881 a 1920, 28 milhões de europeus abandonaram a Europa para povoar a América, incluindo 20 milhões nos Estados Unidos, oito milhões na América Latina, sem contar com a Oceânia (Austrália, Nova Zelândia), Canadá, o continente negro, o Magrebe e a África do Sul em particular, bem como os limites da Ásia. os postos comerciais sem litoral de Hong Kong, Pondicherry e Macau. 52 milhões de expatriados, ou seja, o dobro da população estrangeira total residente na União Europeia no final do século XX, um número aproximadamente equivalente à população francesa.

Principal fonte demográfica do planeta durante cento e vinte anos, a Europa conseguirá a proeza de moldar à sua imagem dois outros continentes — a América, nas suas duas vertentes, bem como a Oceânia — e de impor a marca da sua civilização à Ásia e à África. «Senhora do mundo» até ao final do século XX, fará do planeta o seu campo de tiro permanente, a sua própria válvula de segurança, o trampolim para o seu prestígio e expansão, o escoadouro de todos os seus males, um depósito para o seu excedente populacional, um campo de trabalhos forçados ideal para os seus agitadores, sem outra limitação senão a imposta pela rivalidade intra-europeia pela conquista das matérias-primas.

O Fardo do Homem Branco e os Zoos Humanos

Ao longo de cinco séculos (século XV – século XX), 40 por cento do mundo habitado (2) terá, assim, estado, em maior ou menor grau, sob o jugo colonial europeu. Assumindo o testemunho da Espanha e de Portugal, pioneiros do movimento, a Grã-Bretanha e a França, as duas principais potências marítimas da época, viriam a deter, por si só, até 85 por cento do domínio colonial mundial e 70 por cento da população do planeta no início do século XX, saqueando, ao longo do caminho, Portugal e Espanha do ouro da América do Sul, a Inglaterra das riquezas da Índia e a França do continente africano.

 

A Grã-Bretanha reivindicaria essa responsabilidade a título do «fardo do homem branco», exaltado por Rudyard Kipling (3), a França, em nome da sua «missão civilizadora», corpus filosófico inalterável do pensamento francês durante décadas, para além das divisões políticas e religiosas, tema que será objecto de todas as variações numa extravagante antologia literária e numa profusão de iniciativas igualmente extravagantes, das quais as mais inverosímeis terão sido os «zoológicos humanos» das exposições coloniais.

Anões braquicefálicos, corcundas dolicocéfalas, gigantes macrocefálicos, negros albinos, nativos calipígios (4), canibais canacos (povo originário da etnia melanésia da Nova Caledónia NdT), todas as variações da morfologia humana foram assim exibidas durante cerca de cinquenta anos nas principais cidades francesas, sem a menor restricção, para exaltar o esplendor colonial de França e teorizar, como consequência, a inferioridade dos metics.

À razão de um evento a cada 18 meses, 38 exposições etnológicas, incluindo 30 só para o Jardin d'Acclimatation em Paris, foram organizadas alternadamente em Paris, Marselha e Lyon durante mais de meio século, de 1877 a 1931, numa vasta iniciativa que foi tanto uma operação de relações públicas como uma acção psicológica.
A contundir? O efeito foi imediato: um milhão de bilhetes pagos, um valor enorme para a época, para a primeira exposição (5) organizada por Etienne Geoffroy de Saint-Hilaire no Jardin d'Acclimatation em 1877, cinquenta milhões de espectadores para o "Diorama Vivo em Madagáscar" organizado por ocasião da Exposição de Paris de 1900, cujo ponto alto deveria ser a Torre Eiffel, 34 milhões de bilhetes pagos em apenas seis meses para a Exposição de Paris de 1931, uma média de 166.000 visitantes por dia.

A julgar pelos franceses ávidos de emoções fortes numa época que eles próprios, no entanto, classificaram como «belle époque»: o entusiasmo pelas «aldeias negras» iria crescendo, atraindo no total cerca de 100 milhões de espectadores, e o «barbarin» permanente das famílias abastadas e saciadas, que podiam ser explorados e submetidos a trabalhos forçados à vontade, seria o símbolo supremo de distinção social, o non plus ultra da vida social, sem que se saiba, quase um século depois, se esse frenesim correspondia a uma sede de descoberta, a uma necessidade sórdida de voyeurismo ou ainda a um impulso mórbido de patologia colectiva.

Quase ninguém resistirá à miragem da obra pacificadora da França. Nem mesmo um visionário como Alexis de Tocqueville, por outro lado um teórico tão lúcido da «Democracia na América», que legitimará os massacres como «necessidades fúteis às quais todo o povo que queira fazer guerra aos árabes será obrigado a submeter-se», nem Jules Ferry, pai da escola laica, a matriz da III.ª República, que reivindicaria para «as raças superiores (…) o direito de civilizar as raças inferiores», nem mesmo um humanista venerável da estatura de Léon Blum, primeiro chefe do governo socialista da França moderna, artífice das primeiras conquistas sociais sob o governo da Frente Popular (1936) (6).

Poucas vozes dissidentes serão ouvidas no coro laudatório da França colonial. Guy De Maupassant, como pioneiro, ironicamente comentou a "concepção singular de honra nacional" dos franceses. Louis Aragon, André Breton e Paul Eluard apelaram ao boicote das exposições coloniais, denunciando este esquema intelectual num manifesto intitulado "Não visitem a exposição colonial". Foi um esforço desperdiçado: a exposição de 1931 gerou 33 milhões em lucros em apenas seis meses.

Símbolos esquecidos da era colonial, totalmente reprimidos da memória colectiva ocidental, embora tenham despertado o entusiasmo de milhões de espectadores em Paris, Londres, Hamburgo e Nova Iorque e até em Moscovo, "uma etapa importante na transição gradual do racismo científico para o racismo popular", as "exposições antropozoológicas", ao colocar em perspectiva a "espectacularização do outro" através de uma mistura habilidosa de indivíduos exóticos e animais selvagens, deram origem a muitos estereótipos que ainda estão em vigor na era contemporânea. Assim, contribuirão poderosamente para moldar a identidade ocidental e a imaginação dos ocidentais (7).

Na memória viva dos povos, as feridas nunca saram. Décadas depois, muito depois da capitulação de Montoir (1940) e Dien Bien Phu (1954), num dos pontos altos da comunhão francesa no final do século XX, o triunfo do Mundial de 1998, quando as exposições etnológicas há muito tinham caído completamente no esquecimento pelos franceses, um Kanak de origem, portador de nacionalidade francesa, será responsável por reviver a dolorosa memória desta cicatriz vívida. Para "enviar os franceses de volta à sua própria imagem".

Com a boca irremediavelmente fechada em frente às câmaras de televisão do mundo, perante milhares de espectadores estupefactos, Christian Karambeu, o futebolista da Nova Caledónia que venceu o Mundial 98 e contribuiu para a glória de França, não vai cantar o hino nacional francês como abertura da competição, como lhe aconteceu em todos os jogos.

Nem uma única vez, em nenhuma competição internacional, por mais prestigiada que fosse, em nenhuma circunstância, em nenhum caso, sob nenhum pretexto, ao longo de toda a sua carreira desportiva, ele se desviou desta regra. Christian Karambeu nunca entoou «A Marselhesa», que o kanak baniu do seu repertório como sinal de protesto silencioso contra a exibição de um dos seus antepassados nos «zoológicos humanos» da época do apogeu colonial. Como uma vingança do destino, uma afronta aos traficantes de escravos de outrora, Christian Karambeu, o futebolista campeão do mundo em 1998, casou-se com um símbolo universal da beleza eslava, a bela Adriana, modelo estrela da década de 2000. Dores silenciosas: as feridas da memória nunca cicatrizam.

Este quadro paradisíaco da época abençoada das colónias irá desmoronar-se com a Grande Guerra. Primeira grande ruptura geo-estratégica da era contemporânea, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), um banho de sangue humano e um desperdício económico, provocará, no plano geo-estratégico, um declínio progressivo da Europa em benefício dos Estados Unidos; no plano demográfico, uma inversão dos fluxos migratórios; e, no plano da psicologia dos europeus, a dura aprendizagem do fenómeno exógeno, da cultura da alteridade, a negação do egocentrismo — uma verdadeira revolução mental.

Com 1,4 milhões de mortos e 900 000 inválidos, a França lamentará a perda de 11 por cento da sua população activa devido à Primeira Guerra Mundial, a que convém acrescentar os danos económicos: 4,2 milhões de hectares devastados, 295 000 casas destruídas, 500 000 danificadas, 4 800 km de vias férreas e 58 000 km de estradas a restaurar, 22 900 fábricas a reconstruir e 330 milhões de m³ de trincheiras a aterrar (8).

 

Os primeiros trabalhadores imigrantes, os kabyles, chegaram a França já em 1904 em pequenos grupos, mas a Primeira Guerra Mundial provocou um efeito acelerador, levando a um recurso maciço aos «trabalhadores coloniais», aos quais se somariam os reforços dos campos de batalha contabilizados noutra rubrica.

Durante a primeira década do século XX, a França já contava com 1,1 milhões de estrangeiros em 1906, ou seja, 2,7 por cento da população. Vinte anos depois, o número duplicou para 2,5 milhões de estrangeiros, dos quais 1,3 milhões eram trabalhadores da Europa, da Ásia e de África, recenseados em 1926.

O nativo distante dá lugar ao imigrante local. De uma curiosidade exótica exibida nos zoológicos humanos para glorificar a acção colonial francesa, a melanodermia tornou-se gradualmente uma característica permanente da paisagem humana da vida quotidiana metropolitana, a sua presença sentida como uma restricção, agravada pela diferenciação dos estilos de vida entre imigrantes e pessoas metropolitanas, pelas flutuações económicas e pelas incertezas políticas do país anfitrião

Paradoxalmente, no período entre guerras (1918-1938), a França favorecia o estabelecimento de uma "República Xenófoba", a matriz da ideologia de Vichy e da "preferência nacional", apesar da necessidade de mão-de-obra ser evidente. Embora tenham ajudado a tirar a França das suas ruínas, os trabalhadores imigrantes eram mantidos sob suspeita, seguidos dentro de um grande "arquivo central". Sujeitos a um imposto por vezes equivalente a meio mês de salário, uma fonte adicional de rendimento para o Estado francês, serão também percebidos como portadores de um triplo perigo: perigo económico para os seus concorrentes franceses, perigo para a saúde da população francesa na medida em que estrangeiros, particularmente asiáticos, presume-se que africanos e norte-africanos fossem portadores de doenças, uma ameaça à segurança do Estado francês (9).

As cotações do mercado bolsista dos trabalhadores coloniais

Quase duzentos mil "trabalhadores coloniais" (200.000) foram importados do Norte de África e do continente negro por verdadeiras corporações de escravos, como a "Société générale de l'immigration" (SGI), para compensar a força de trabalho francesa, principalmente nas indústrias da construcção e têxtil, para substituir os soldados franceses que tinham ido para a frente. No grupo de trabalhadores imigrantes, que inicialmente vieram principalmente de Itália e Polónia, os norte-africanos receberão atenção especial das autoridades públicas.

Um "Gabinete para a Vigilância e Protecção dos Nativos do Norte da África encarregado da repressão de crimes e ofensas" foi criado a 31 de Março de 1925. Um gabinete especial apenas para norte-africanos, precursor do "serviço de assuntos judaicos" que o governo de Vichy criou em 1940 para a vigilância de cidadãos franceses da "raça judaica" ou da fé judaica durante a Segunda Guerra Mundial. O título do cargo diz muito sobre a opinião do governo francês e as suas intenções para com ele. O fenómeno viria a aumentar com a Segunda Guerra Mundial e os gloriosos anos trinta do período pós-guerra (1945-1975) que se seguiram à reconstrucção da Europa, onde a necessidade de "carne para canhão" e uma força de trabalho abundante a baixos preços provocaram um novo fluxo migratório de igual importância ao anterior.

Até a imigração ilegal, que foi perseguida implacavelmente no final do século com o episódio das "cartas da vergonha" (1986-1988) e dos "indocumentados" (1993-1996), ganhou na altura o favor das autoridades públicas: "A imigração ilegal não é inútil, porque se mantivéssemos a aplicação rigorosa das regras, faltar-nos-ía mão-de-obra", declarou Jean Marcel Jeanneney, um economista de renome, na altura Ministro da Indústria do General de Gaulle, numa entrevista ao jornal "Les Echos" a 29 de Março de 1966, confirmou publicamente uma verdade óbvia de que os políticos permanecerão em silêncio durante muito tempo por considerações eleitorais.

Um luxo de requinte: o recrutamento decorria de acordo com critérios de afinidades geográficas, ao ponto de se formarem verdadeiros casais migratórios, em particular entre a Renault e os trabalhadores cabilianos, as minas de carvão francesas e os trabalhadores do sul de Marrocos, bem como na Alemanha, entre a Volkswagen e os imigrantes turcos.

À semelhança de uma cotação bolsista num mercado de gado, os trabalhadores coloniais eram mesmo objecto de uma classificação em função da sua nacionalidade e raça, com distinções subtis consoante o seu local de origem, nomeadamente entre os argelinos, onde os cabilianos beneficiavam de um preconceito mais favorável do que os outros grupos da população argelina (10).

Assim, em Nantes, numa escala de valor de 20, os chineses situavam-se no fundo da hierarquia. A sua produtividade era avaliada em 6 numa escala em que os marroquinos estavam classificados em 8, os argelinos, os cabilianos e os gregos em 10, e os italianos e espanhóis em 12. Em Bordéus, os marroquinos, italianos, cabilianos e espanhóis estavam classificados com 90 numa escala em que os portugueses se situavam em 75, os senegaleses em 50, os chineses em 40 e os indochineses em 30, enquanto os franceses se encontravam, em ambas as classificações, naturalmente no topo da hierarquia com uma pontuação inigualável de 20 em 20. Uma pontuação nunca antes registada por nenhuma outra nacionalidade, em nenhum outro lugar, em nenhuma outra competição.

A vingança dos indochineses e dos povos coloniais

Nesta classificação, a nota do indochinês não deixa de intrigar: 30 por cento, ou seja, 3 em 10, a nota mais baixa da hierarquia; o indochinês era considerado irrecuperável pelos franceses, sendo a sua nota eliminatória em qualquer prova, apesar de todos os pontos de recuperação e de todos os esforços para o readmitir. Essa nota intrigaria um jovem annamita que se encarregaria de fazer justiça mais tarde, em nome do seu povo. Aproveitando a sua longa estadia em França, intercalada com viagens pelo Império Francês, pelo Magrebe e pela África Negra (1911-1920), Nguyen Ai Quoc dedicaria tempo a familiarizar-se com a mentalidade francesa e as práticas coloniais. De regresso ao seu país, escandalizado com o «imposto de sangue» que representava para os povos coloniais o seu recrutamento para o teatro de operações europeu, o indochinês, metódico, começará por elaborar «O Julgamento da Colonização Francesa» (11) antes de passar à acção, infligindo ao seu antigo senhor e ao novo senhor da nova ordem internacional uma severa derrota militar.

Juntamente com os seus dois companheiros de luta, Pham Van Dong e Vô Nguyen Giap, dotará o seu país de um dos mais gloriosos palmarés militares do século XX, contribuindo grandemente para alterar a geo-estratégia do planeta através dos reveses que infligiu sucessivamente às principais potências militares da época: primeiro o Japão, em 1945, depois a França em Dien Bien Phu, em 1954, e, por fim, os Estados Unidos da América, vinte anos mais tarde,, em 1975, em Saigão, com perdas acumuladas de cerca de 67.000 soldados, 15.000 para França e 52.000 para a América.

Um dos principais actores da história do século XX, Nguyen Ai Quoc, com o nome predestinado de "patriota", é agora conhecido mundialmente – e para toda a eternidade – sob o nome de Ho Chi Minh, "aquele que ilumina", pai do Vietname moderno, a antiga Indochina Francesa, cuja segunda capital se chama "Cidade de Ho Chi Minh". Em homenagem à sua luta pela independência e reunificação do seu país, cuja carreira de opinião unânime merece melhor do que 3 em 10.

A menos que seja atribuída a um problema sério da percepção óptica do recrutador ou ao peso dos estereótipos que distorceram o julgamento francês, a nota indochinesa permanece inexplicável e a posteriori largamente injustificada. Ho Chi Minh, empenhado no seu trabalho, reabilitou a reputação dos trabalhadores coloniais indochineses em França. Mas, como contraponto, ninguém alguma vez se atreveu a questionar a bolsa de valores francesa, nem sequer como um exercício salutar de introspecção.

A rendição de Sedan perante a Alemanha em 1870-71 deu origem à III República; a rendição de Montoire (12) perante Hitler em 1940, à IV República (1946); a de Dien Bien Phu e da Argélia em 1955, à V República (1958), com o seu leque de grandes instituições: Sedan à criação da «Sciences Po», o Instituto de Estudos Políticos de Paris, e Montoire à fundação da ENA, a Escola Nacional de Administração (1945). O país das «grandes escolas», dos concursos que formam as elites, dos escribas e dos clérigos — cinco milhões de funcionários públicos em França no ano 2000, o maior contingente da União Europeia, ou seja, 20 por cento da população activa (13) — não tolera um regresso ao seu passado. Apenas concebe as perspectivas de futuro. Nunca retrospectivas, sempre perspectivas. Uma fuga para a frente?

Antevisão do paraíso para o colono, as colónias terão deixado um travo a inferno para o colonizador francês.

Referências

1- Gildas Simon, "Géodynamique des migrations internationales dans le monde-PUF", op. cit. citado

2- Ignacio Ramonet, "Cinco séculos de colonialismo", em "Manière de voir N°58 bimestral do Le Monde Diplomatique Julho-Agosto de 2001 "Polémicas sobre a história colonial".

3- Rudyard Kipling, jornalista e romancista inglês (1865-1936), de origem anglo-indiana, tinha uma veneração pelo Império Britânico, pelos valores míticos de energia, altruísmo e pelos aspectos emocionantes da aventura imperialista. Autor do famoso poema "Se" (Si).... "Se conseguires ver a obra da tua vida destruída e, sem dizer uma palavra, começares a reconstruir-te... então serás um homem, meu filho."

4- Uma das mais famosas «Vénus Callipyge», imortalizada pelo cantor popular francês Georges Brassens, é a «Vénus Hottentote». Nascida em 1789, ano da Revolução Francesa, na África Austral, então sob o domínio dos colonos holandeses, os bóeres, Saartjie Baartman, filha de um pastor originária da África do Sul, da etnia dos hotentotes, foi levada por um cirurgião britânico por volta de 1810 para Londres, onde foi rebaptizada como Sarah Saartmann. Dotada de nádegas muito largas e de órgãos sexuais fora do comum, foi exibida como uma atracção de feira em Londres e em Paris, levando uma vida infernal e dedicando-se à prostituição até à sua morte, aos 27 anos, em Paris, em 1815.

A pedido de Geoffroy Saint-Hilaire, foi dissecada por Georges Cuvier, que concluiu tratar-se de «algo curioso e caprichoso», cujos órgãos lembravam «os de um macaco». O seu esqueleto, os seus órgãos e um molde do seu corpo ficaram expostos ao público no Musée de l’Homme até 1974. Alvo de um imbróglio diplomático entre a França e a África do Sul, os restos mortais da Vénus Hotentote foram finalmente devolvidos à África do Sul a 29 de Abril de 2002. Ver, a este respeito, «O enigma da Vénus Hotentote», de Gérard Badou, Ed. JC Lattès, Fevereiro de 2002.

5- De 1877 a 1912, trinta exposições etnológicas foram realizadas no Jardin d'Acclimatation em Paris, depois nas Exposições Universais de Paris de 1878 e 1889, cujo ponto alto para a exposição de 1889 foi a inauguração da Torre Eiffel, bem como a visita a uma "aldeia negra". Seguiram-se as exposições de Lyon (1894), as duas exposições coloniais em Marselha (1906 e 1922) e, finalmente, as grandes exposições de Paris de 1900 (diorama sobre Madagáscar, 50 milhões de espectadores) e 1931, cujo comissário-geral era ninguém menos que o Marechal Lyautey. cf. "O Espetáculo Comum dos Zoológicos Humanos" e "1931. Tous à l'Expo" de Pascal Blanchard, Nicolas Bancel e Sandrine Lemaire, Manière de voir N°58 Juillet Août 2001, op. cit.

6- "Quando Tocqueville legitimou os talhantes" por Olivier le Cour Grandmaison e "Uma história colonial reprimida" por Pascal Blanchard, Sandrine Lemaire e Nicolas Bancel - Relatório geral sobre o tema "Os impasses do debate sobre a tortura na Argélia" - Le Monde Diplomatique, Junho de 2001.

Ibidem para Guy de Maupassant na mesma edição do Le Monde Diplomatique de Junho de 2001: "Quando falamos de canibais, sorrimos com orgulho ao proclamar a nossa superioridade sobre estes selvagens... Uma cidade chinesa deixa-nos invejosos: para a tomar, vamos massacrar cinquenta mil chineses e mandar massacrar dez mil franceses. Esta cidade não nos servirá de nada. Isto é apenas uma questão de honra nacional. Portanto, a honra nacional (honra singular) impele-nos a tomar uma cidade que não nos pertence, a honra nacional satisfeita pelo roubo, pelo roubo de uma cidade, será ainda mais satisfeita pela morte de cinquenta mil chineses e dez mil franceses. Gil Blas - 11 de Dezembro de 1883.

Alexis de Tocqueville legitimou a carnificina, considerando "o facto de capturar homens, mulheres e crianças desarmados como necessidades infelizes às quais qualquer povo que queira fazer guerra aos árabes será obrigado a submeter-se." Por sua vez, Jules Ferry afirmou num discurso no Palais Bourbon a 29 de Julho de 1995 que "há um direito para as raças superiores porque há um dever para com elas. Têm o direito de civilizar as raças inferiores." De forma semelhante, Léon Blum invocou o seu "amor a mais" pelo seu país "para negar a expansão do pensamento e da civilização franceses." "Admitimos o direito e até o dever das raças superiores de atrair para si aqueles que não atingiram o mesmo grau de cultura", escreveu no jornal "Le Populaire" a 17 de Julho de 1925.

7- "Zoológicos humanos, da Vénus aos reality shows" Ed. La Découverte March 2002, um livro produzido sob a direcção de um grupo de historiadores e antropólogos membros da Association connaissance de l'Afrique contemporaine (Achac-Paris), Nicolas Bancel (historiador, Universidade de Paris XI), Pascal Blanchard (historiador, investigador do CNRS), Gilles Boetsch (antropólogo, Director de Investigação do CNRS), Eric Deroo (cineasta, investigador associado no CNRS) e Sandrine Lemaire (historiadora, Instituto Europeu de Florença).

8- "A República Xenófoba, 1917-1939 da Máquina do Estado ao "Crime de Secretaria", as Revelações dos Arquivos" por Jean Pierre Deschodt e François Huguenin, Ed.JC Lattès, Setembro de 2001.

9- "A República Xenófoba... da Máquina do Estado para o Crime de Secretaria", op. cit.

10- "Uma Teoria Racial dos Valores? Desmobilização dos trabalhadores imigrantes e mobilização de estereótipos em França no final da Grande Guerra" por Mary Lewis, professora na Universidade de Nova Iorque, em "L'invention des populations", trabalho colectivo sob a direcção de Hervé Le Bras (Éditions Odile Jacob).

11- Ho Chi Minh: O Julgamento da Colonização Francesa – Nguyen Ai Quoc (Ho Chi Minh) - Introdução de Alain Ruscio. Le temps des cerises, Paris 1999. Ho Chi Minh morreu a 6 de Setembro de 1969, quatro anos após o início da 2.ª Guerra do Vietname, que foi vitoriosamente encerrada com a captura de Saigão, capital do Vietname do Sul pró-americano, em Abril de 1975, pela dupla Phan van Dong e o General Giap.

12- O armistício foi assinado simbolicamente a 22 de Junho de 1940 em Rethondes, no mesmo local, no mesmo vagão, que o armistício de 11 de Novembro de 1918. No entanto, o encontro em Montoire a 24 de Outubro de 1940 entre Pétain e Hitler selou a colaboração entre França e a Alemanha nazi. Se o armistício constituiu uma cessação das hostilidades, a reunião em Montoire representou simbolicamente a viagem de Pétain a Canossa e, de facto, constituiu uma capitulação na medida em que Pétain apoiava a colaboração com o regime nazi, embora a Alemanha, renegando as suas promessas, tivesse anexado a Alsácia-Lorena em Agosto de 1940.

13- De 1975 a 1998, a França registou um aumento de 1,2 milhões de funcionários públicos, elevando o total da função pública para cinco milhões de pessoas (20,2% da população activa, 27% com empresas públicas), levando a uma divisão social e a uma desigualdade de direitos entre cidadãos da mesma sociedade, entre um sector privado na linha da frente no desemprego e uma função pública inflacionada com emprego garantido para toda a vida e o direito à greve) cf. "Jacques Chirac e o Declínio Francês 1974-2002, Trinta Anos de Vida Política Primeira Avaliação" por Yves Marie Laulan Edição François Xavier de Guibert. Novembro de 2001.

Um alto funcionário, o professor Philippe Even, decano da Faculdade de Medicina Necker Enfants Malades (1988-2000), chocado com as consequências fatais do mais recente hospital parisiense «O Hospital Europeu Georges Pompidou», inaugurado no ano 2000, criticará com estas palavras esses «altos funcionários hierárquicos que confiscam a nação em benefício da sua legião, do seu partido, hábeis em paralisar ou enterrar qualquer decisão política para preservar a sua posição, o seu futuro ou a sua casta (…).

Durante muito tempo sem experiência no terreno, agarrados ao modelo socio-económico que aprenderam, sabendo um pouco de tudo e pouco de cada coisa, um conhecimento teórico que permite a redacção dessas famosas «notas de síntese para os ministros», tanto mais simplificadoras quanto a análise se manteve a uma boa distância do terreno (…), cultivando falsos segredos e falsas confidências, sufocados pela sua paranoia em relação a conspirações, sem nunca terem uma ideia de que se pudessem arrepender e, no entanto, cheios de uma ambição dissimulada sob a máscara do rigor, da virtude republicana, da falsa modéstia, da eterna prudência, antes de irem para cargos de aposentadoria», em «Os escândalos dos hospitais de Paris e do Hospital Pompidou», Philippe Even, editora Le Cherche Midi, Outubro de 2001.

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Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice