A ocupação israelita do sul do Líbano
14 de Outubro de 2026
Robert Bibeau
Por
René Naba. Sobre A ocupação israelita do sul do Líbano – Madaniya
Israel
não apenas usou a sua força no Líbano; também perdeu a possibilidade de
transformar essa força numa vitória política decisiva.
Por
François Bacha, director do site libanês francófono Libnanews, parceiro do site
madaniya.info, com a sua amável autorização
O
cessar-fogo acordado entre Washington e Teerão alterou a perspectiva sobre a
guerra no Líbano.
Não
só suspendeu, provisoriamente, a escalada directa entre os Estados Unidos e o
Irão, como também revelou uma realidade mais perturbadora para Israel: após
semanas de guerra, de ocupação parcial, de ataques maciços e de deslocações
forçadas, o Estado hebreu não conseguiu transformar a sua superioridade militar
numa vitória política no Líbano.
O
facto decisivo reside mesmo noutro ponto: Donald Trump avançou para um acordo
com o Irão, apesar das pressões de Benyamin Netanyahu, da Arábia Saudita, dos
Emirados e dos aliados republicanos, enquanto J. D. Vance e Steve Witkoff
pressionavam para que se aceitasse um acordo. O momento decisivo desenrolou-se,
portanto, sem que Israel conseguisse impor a sua linha.
Uma
guerra travada a partir de uma posição de força, que terminou numa posição mais
restrita.
Inicialmente, Israel pensava claramente que poderia alargar a sua margem de
manobra no Líbano. A ofensiva deveria responder a vários objectivos em
simultâneo: reduzir a capacidade militar do Hezbollah, criar uma zona de
segurança no sul do Líbano, forçar o movimento xiita a uma retirada duradoura e
impor a Beirute um novo equilíbrio político mais favorável.
As análises publicadas nos últimos dias mostram que a lógica ia muito além
de simples ataques punitivos. Tratava-se de remodelar o terreno, tendo como
objectivo uma zona de segurança que se estendesse até ao rio Litani, o que, em
alguns pontos, significava uma profundidade que poderia atingir os 30
quilómetros.
Ao mesmo tempo, os deslocamentos em massa eram considerados um fenómeno
duradouro, com mais de 600 000 libaneses expulsos das suas zonas de origem no
sul. No entanto, foi precisamente neste ponto que a batalha do Líbano começou a
virar-se politicamente contra Israel.
Sim, o exército israelita avançou no terreno. Sim, destruiu aldeias,
pontes, eixos logísticos e uma parte considerável das infraestruturas do sul.
Sim, provocou deslocações em massa da população.
Mas a guerra não produziu o efeito político final pretendido. O Hezbollah
não foi eliminado. A ocupação até ao rio Litani não foi consolidada como um
facto estratégico irreversível. E, acima de tudo, no momento decisivo, a
resolução do conflito deslocou-se para um cessar-fogo negociado entre
Washington e Teerão, com Islamabad como mediador, e não para uma capitulação
libanesa ou da formação paramilitar xiita, ditada por Israel.
O cessar-fogo foi decidido sem que Netanyahu tivesse definido os seus
termos. Talvez seja esse o ponto mais humilhante para Israel.
Segundo a Axios, a decisão de Donald Trump de avançar para um acordo com o
Irão foi tomada apesar das pressões de Netanyahu, da Arábia Saudita, dos
Emirados Árabes Unidos e de aliados republicanos favoráveis a uma linha mais
dura. O mesmo meio de comunicação refere que J. D. Vance e Steve Witkov
defenderam, no círculo mais próximo do presidente, a aceitação do acordo.
O desfecho final não correspondeu, portanto, à linha preferida de Israel
nem à de várias capitais árabes hostis a Teerão.
Este facto altera profundamente a análise. Um país pode continuar a atacar,
continuar a ameaçar, continuar a falar de vitória; mas, se já não controla a
decisão política central, a sua margem de manobra reduz-se.
Foi exactamente isso que aconteceu neste caso. Netanyahu apoiou
posteriormente a pausa decidida por Trump em relação ao Irão, mas esse apoio
assemelhava-se mais a uma adesão forçada do que a um sucesso estratégico.
Tentou então salvar o que se podia, afirmando que o cessar-fogo não dizia respeito
ao Líbano.
Este gesto não é o de um interveniente que saiu totalmente vitorioso. É o
de um líder que tenta preservar uma frente residual depois de ter perdido o
controlo sobre a sequência principal.
O Líbano torna-se a prova de que Israel não converteu a sua força em ordem
política. Desde 2 de Março de 2026, o exército israelita tem travado uma guerra
de intensidade extremamente elevada no Líbano. A 8 de Abril, os balanços
disponíveis apontavam para mais de 1 500 mortos e 1,2 milhões de deslocados.
Aldeias inteiras foram esvaziadas, zonas fronteiriças devastadas, pontes
destruídas, ordens de evacuação alargadas e uma parte significativa do
território do sul foi transformada num espaço de guerra permanente.
Israel exerceu, portanto, um nível considerável de pressão militar e
humana. Mas, apesar disso, a guerra não conduziu ao efeito político total
pretendido.
O melhor indício deste fracasso é o facto de Israel se encontrar hoje numa
posição defensiva no que diz respeito à narrativa. É obrigado a repetir que o
cessar-fogo não abrange o Líbano. É obrigado a manter a pressão através de
novos avisos de evacuação, incluindo para Tiro e para os subúrbios a sul de
Beirute. É obrigado a demonstrar que continua capaz de agir, precisamente
porque o quadro diplomático que acaba de ser criado já não lhe pertence
totalmente. Uma potência vencedora não precisa de recordar a cada hora que
mantém o controlo; o simples resultado fala por si.
Quando o discurso se torna tão insistente, é muitas vezes porque o
resultado político é menos claro do que se esperava. O Hezbollah não foi
destruído, e esse era, no entanto, o objectivo mais visível. Israel pode
argumentar que infligiu pesadas perdas ao Hezbollah, destruiu parte das suas
infraestruturas e reduziu a sua liberdade de movimento em várias zonas.
Isto é verdade no plano militar imediato. Mas isso não basta para validar o
objectivo estratégico máximo. As análises mais sérias publicadas nos últimos
dias mostram bem a ambiguidade israelita: por um lado, responsáveis militares e
políticos continuam a falar do desarmamento do Hezbollah; por outro, algumas
avaliações admitem que um desarmamento completo exigiria, na realidade, uma
ocupação muito mais vasta e prolongada, considerada irrealista.
É precisamente esta mudança de rumo que revela o limite da ofensiva. O
Hezbollah, por seu lado, não parece ser um interveniente tão esmagado ao ponto
de desaparecer da equação. Pelo contrário, fontes libanesas próximas do
movimento indicaram que este tinha suspendido os seus ataques após o anúncio do
cessar-fogo, o que lhe permite apresentar-se, pelo menos provisoriamente, como
uma parte que respeitou a trégua enquanto Israel prosseguia as suas operações.
O Irão, por seu lado, insistiu para que o Líbano fosse incluído no acordo.
Esta dupla manobra confere ao Hezbollah um recurso político valioso: pode
afirmar que não foi aniquilado, que continua protegido pelo eixo regional e que
Israel não conseguiu, em território libanês, o que prometia no início da ofensiva.
A influência iraniana no Líbano sai reforçada, o que é exactamente o oposto
do objectivo israelita. Este é talvez o ponto mais importante.
A guerra deveria também reduzir a influência regional do Irão, incluindo no
Líbano. No entanto, é o efeito inverso que se verifica. Não só Teerão não
desapareceu do cenário libanês, como se referiu ao Líbano como um elemento do
cessar-fogo sem qualquer coordenação visível com as autoridades libanesas. O
Paquistão confirmou esta interpretação regional do acordo. E o Estado libanês,
apesar de estar directamente envolvido, não esteve no centro da definição do
âmbito da trégua.
Esta sequência consagra uma realidade desfavorável a Israel: a questão
libanesa continua a ser tratada, na prática, como uma componente da negociação
estratégica com o Irão.
Esta situação é ainda mais marcante tendo em conta que o canal diplomático
oficial entre Beirute e Teerão se deteriorou.
No final de Março de 2026, o Líbano solicitou ao embaixador iraniano que
abandonasse o país, mas Teerão recusou-se a acatar essa exigência e as
contestações internas revelaram que a medida não tinha provocado uma ruptura
diplomática plenamente efectiva.
Resultado: mesmo com uma relação oficial abalada, a influência iraniana não
diminuiu. Pelo contrário, manifestou-se no momento mais importante da actualidade,
o do cessar-fogo, sem que Beirute conseguisse retomar o controlo da situação.
Para Israel, que pretendia precisamente reduzir o papel iraniano no Líbano,
trata-se de um fracasso estrutural.
Beirute tinha aberto portas que Israel se recusou a atravessar.
Outro elemento alimenta a ideia de uma batalha perdida. Em meados de Março
de 2026, uma grande agência noticiosa revelou que Israel tinha rejeitado uma
oferta histórica de negociações directas apresentada pelo Líbano. O presidente
Joseph Aoun tinha-se declarado disposto a encetar discussões directas com
Israel, e duas fontes familiarizadas com a sua posição indicavam que ele
chegava ao ponto de considerar, em certas conversas privadas, um passo no
sentido da normalização.
O mesmo artigo precisava que Israel considerava, no entanto, essa oferta
como «demasiado pouco, demasiado tarde», apesar de o governo libanês partilhar
o seu objectivo de desarmar o Hezbollah, mas não poder agir contra ele sem
correr o risco de uma guerra civil.
Este ponto é capital. Mostra que Beirute, ou pelo menos a presidência
libanesa e uma parte do executivo, estavam dispostas a ir muito mais longe do
que nas fases anteriores.
O Estado libanês estava pronto para abrir canais directos e colocar em cima
da mesa concessões políticas importantes. Mas Israel considerou que poderia
obter mais através da força. Por isso, rejeitou a oferta, pensando em negociar
mais tarde a partir de uma posição ainda mais dominante.
É precisamente esse cálculo que hoje parece ter-se voltado contra ele. Ao
recusar-se a aproveitar um momento em que o Líbano oficial estava disposto a
ceder, Israel deixou a guerra prolongar-se até um ponto em que o centro de
decisão se deslocou para o eixo Washington-Teerão.
Já não é Beirute que vem ao seu encontro; é Washington que o obriga a
aceitar um cessar-fogo que não foi da sua autoria.
O Litani continua a ser um horizonte anunciado, não uma vitória
consolidada.
Um dos objectivos mais evidentes de Israel era transformar o sul do Líbano
numa profundidade estratégica duradoura, avançando até ao rio Litani ou criando
um espaço de segurança equivalente.
Análises recentes mostram que esta ambição variava consoante os sectores,
indo desde uma faixa de alguns quilómetros até uma lógica muito mais ampla, de
acordo com as declarações dos responsáveis israelitas.
O próprio facto de esta profundidade estratégica permanecer vaga nesta fase
demonstra que Israel não conseguiu transformá-la numa conquista política clara.
Uma linha da frente pode ser alcançada tacticamente sem ser consolidada
estrategicamente. Mais uma vez, a
decisão norte-americana de congelar a frente iraniana muda tudo.
Pois um avanço militar que não se traduz imediatamente num acordo político
favorável torna-se vulnerável ao regresso da diplomacia.
Ora, a diplomacia actual não é ditada por Israel. É estruturada por
Washington, Islamabad e Teerão. Quanto mais esta diplomacia se consolida, mais
se reduz a possibilidade de Israel transformar o seu avanço territorial numa
ordem duradoura.
É isto que justifica a ideia de que Israel perdeu parte da sua margem de
manobra: ainda dispõe de meios militares, mas tem menos liberdade política para
decidir sozinho o que se seguirá.
O desgaste israelita pesa agora sobre a campanha. É também necessário
analisar a guerra do ponto de vista israelita. Um dos sinais mais evidentes de
um esgotamento estratégico é o desgaste humano do exército. Fontes europeias de
referência referiam, no final de Março de 2026, um défice de cerca de 15 000
soldados no exército israelita, dos quais 8 000 combatentes, com uma pressão
crescente sobre os reservistas, pedidos de reforma antecipada entre os
militares de carreira e alertas internos sobre a sobrecarga de um aparelho
militar envolvido simultaneamente em várias frentes.
Esta tensão não significa colapso. Significa que a duração da guerra se
torna, ela própria, um problema militar e político para Israel.
A este desgaste humano junta-se o desgaste material. Várias informações
publicadas nos últimos dias mostram que os ataques iranianos colocaram sob
pressão os stocks de mísseis interceptores e, de forma mais ampla, as arquitecturas
de defesa aérea regionais.
Os meios de comunicação norte-americanos relataram que Israel aprovou um
plano destinado a acelerar a produção de mísseis interceptores Arrow, à medida
que os stocks diminuíam. Outros relatórios apontam para um debate recorrente
sobre a pressão exercida pela guerra sobre os sistemas de intercepção e sobre o
custo de um confronto em que armas relativamente baratas podem forçar respostas
defensivas extremamente dispendiosas.
Mais uma vez, não se trata de dizer que Israel está indefeso. Trata-se de
constatar que uma guerra prolongada também esgota a vantagem tecnológica, ao
obrigar ao consumo prolongado de sistemas escassos, caros e complexos de
produzir.
Israel acreditava estar a negociar numa posição de força; agora negocia
numa posição mais limitada. É aí que reside o cerne da análise. Durante
semanas, Israel agiu como se dispusesse de tempo político ilimitado: tempo para
atacar, tempo para deslocar forças, tempo para impor uma zona de segurança
profunda, tempo para aguardar o colapso da fronteira libanesa ou do Hezbollah.
No entanto, esse tempo esgotou-se. Esgotou-se porque a Guerra do Golfo
acabou por impor a Washington uma lógica de desescalada com o Irão. Esgotou-se
porque essa desescalada foi decidida apesar de Netanyahu e de vários aliados
árabes.
Esgotou-se porque o Irão conseguiu recolocar o Líbano na equação regional,
com o apoio do Paquistão.
Resultado: Israel já não negocia a partir do ponto mais alto da sua
campanha. Negocia a partir de um momento em que o seu aliado americano quer
evitar um conflito generalizado.
É por isso que a expressão «Israel perdeu a batalha do Líbano» faz sentido,
desde que se defina bem o que se entende com isso.
Não se trata de dizer que Israel perdeu cada confronto táctico ou que foi
militarmente repelido em todos os frentes. Trata-se de dizer que não conseguiu
obter o resultado político da sua superioridade militar. Destruiu sem conseguir
converter plenamente. Deslocou sem estabilizar. Atacou sem impor uma nova
ordem. E, no momento decisivo, o controlo da situação escapou-lhe parcialmente
das mãos. E isso, numa guerra, é uma derrota política. A tentativa de manter o
Líbano fora do cessar-fogo assemelha-se a uma manobra de recuperação.
A escolha israelita de excluir explicitamente o Líbano do cessar-fogo deve
ser interpretada como uma tentativa de preservar uma margem residual.
Netanyahu e o exército israelita sabem que o fim da escalada com o Irão
reduz automaticamente a sua capacidade de inscrever a guerra no Líbano num
quadro regional mais amplo de confronto.
Para compensar, afirmam que a campanha contra o Hezbollah continua, ameaçam
os subúrbios a sul de Beirute, visam Tiro e repetem que «a batalha continua».
Mas esta insistência tem também um carácter defensivo: visa impedir que o
Irão saia politicamente vitorioso de um acordo que inclua implicitamente o
Líbano.
O problema para Israel é que essa dissociação já não é totalmente credível
aos olhos de todos os intervenientes. Para Teerão, o Líbano faz parte do mesmo
sistema estratégico. Para Islamabad, a trégua também tinha um alcance libanês.
Para Paris, o Líbano deve ser plenamente incluído. E para uma parte da opinião
pública regional, o simples facto de Israel ter de justificar tão vigorosamente
a exclusão do Líbano já demonstra que essa exclusão não era um dado adquirido.
Mais uma vez, o país não se encontra numa posição de força clara; está numa
posição de argumentação defensiva.
O ganho iraniano é também a perda israelita. Tudo isto conduz a uma última
constatação. Se o Irão parece hoje, em termos geo-políticos, sair vencedor, é
também porque Israel não conseguiu impedir essa recuperação do poder
diplomático.
Teerão conseguiu que a sua proposta servisse de base para a discussão.
Conseguiu uma suspensão dos ataques norte-americanos durante duas semanas.
Conseguiu que a reabertura do Estreito de Ormuz passasse por uma negociação. E
conseguiu que o Líbano voltasse a fazer parte do debate sobre o cessar-fogo,
mesmo que Israel continue a contestar a sua inclusão. Neste jogo, cada ganho
iraniano reduz simetricamente a capacidade de Israel de alegar ter remodelado
sozinho a ordem regional.
É por isso que a batalha do Líbano não
pode ser interpretada apenas através dos quilómetros conquistados ou da
destruição infligida. Deve ser interpretada através do desfecho final: um
Líbano que continua disputado, um Hezbollah que não foi destruído, um Estado
libanês que abriu portas pelas quais Israel se recusou a passar, um cessar-fogo
decidido sem que Netanyahu tivesse definido os termos, uma influência iraniana
que sai reforçada no Líbano e um exército israelita mais desgastado do que no
início da ofensiva.
A partir daí, o diagnóstico torna-se
mais claro: Israel não só esgotou a sua força no Líbano, como também perdeu a
possibilidade de transformar essa força numa vitória política decisiva.
Ler mais em:http://libnanews.com/israel-a-perdu-la-bataille-du-liban/
Cartografia da ocupação israelita do sul
do Líbano
https://libnanews.com/infographie/sud-liban-occupation.html
Ilustração
O mapa do Sul do Líbano, zona onde se concentram os
combates entre Israel e o Hezbollah, e onde o exército israelita ordenou a evacuação
de aldeias desde 1 de Outubro de 2024. (AFP)
Fonte: L’occupation
israélienne du sud Liban – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice