sexta-feira, 6 de novembro de 2026

O que fazer depois desta jornada de 5 de Novembro? Será que ainda é possível alargar a mobilização a todos os assalariados? E, se sim, como?

 


O que fazer depois desta jornada de 5 de Novembro? Será que ainda é possível alargar a mobilização a todos os assalariados? E, se sim, como?

6 de Novembro de 2026 Robert Bibeau



Par le GIGC.  Sur https://igcl.org/Que-faire-apres-cette-journee-du-5-1593

 

O que fazer depois desta jornada de 5 de Novembro? Será que ainda é possível alargar a mobilização a todos os assalariados? E, se sim, como? 

Na rádio RTL, os produtores do programa «Quitte ou double» (“Tudo ou nada”) não conseguem acreditar. Enquanto há 20 anos os participantes corriam todos os riscos para ganhar o prémio máximo, agora demonstram uma grande cautela. A razão? Um custo de vida cada vez mais elevado, que já não permite as «loucuras» de outrora.1

A prioridade agora é o preço da gasolina, as rendas — em suma, despesas que não param de aumentar, enquanto os salários continuam estagnados. Paralelamente, os capitalistas continuam a enriquecer cada vez mais. O lucro líquido da Total, num ano, aumentou 125%², tirando partido das guerras (Irão/EUA, Ucrânia/Rússia…) onde as vítimas se acumulam cada vez mais.

A situação é a mesma em todo o lado, e é ela que está na origem imediata dos protestos que têm lugar por toda a Europa e em todo o mundo. Por todo o lado, a burguesia está a cortar nos orçamentos sociais em benefício dos orçamentos militares e a preparar-se para uma guerra imperialista generalizada.

É por isso que o governo francês, tal como os outros, não faz nada, ou quase nada, face às reivindicações tanto dos estudantes do ensino secundário como dos trabalhadores assalariados. As escassas promessas não devem enganar ninguém: a situação não pára de piorar para os operários, e não são os capitalistas que poderão remediar isso.

É neste contexto que se insere a mobilização lançada pelos alunos do ensino secundário a 18 de Setembro contra a miséria crescente. Muito rapidamente, o movimento alastrou-se aos estudantes universitários e ganhou amplitude. Esta luta, de grande envergadura, foi, no entanto, violentamente reprimida pelo Estado e pelos seus capangas fardados: já se perderam a conta aos mutilados, aos feridos... Embora o movimento apresentasse reivindicações de classe amplamente partilhadas e assumidas pelos seus professores, não podia deixar de permanecer limitado enquanto se restringisse ao meio escolar e universitário. Os alunos do ensino secundário e os estudantes universitários encontravam-se perante um impasse: ou a expansão para os operários, ou um lento declínio.

E, de facto, o movimento parecia, pouco a pouco, estar a perder fôlego por volta de Outubro. Mas a manifestação do dia 17, convocada pelos estudantes e pelos antigos Coletes Amarelos, mudou o panorama. Uma parte dos assalariados entrou em luta. É certo que não se tratou de uma greve; mas as palavras de ordem que foram entoadas nesse dia («Contra o custo de vida elevado», etc.) colocaram o confronto de forma ainda mais concreta no terreno da luta de classes. Assim, muito mais do que os «motins» ou «pilhagens» que foram destacados em demasiadas ocasiões, é o carácter de classe que deve ser sublinhado quando se trata de analisar o dia 17 de Outubro. É claro que ainda estávamos longe, ao contrário do que afirmam alguns grupos de esquerda como a «Revolução Permanente», de «jornadas revolucionárias³»; mas parece ter-se aberto uma perspectiva de alargamento e aprofundamento da luta.

No entanto, não podemos deixar de constatar os limites — pelo menos, por enquanto — desta mobilização. Em primeiro lugar, a campanha mediática sucedeu à repressão policial (Ver artigo: Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: Criminalizam a violência de estudantes franceses do ensino médio, mas justificam a violência genocida em Gaza e a guerra de extermínio.). A atenção centrou-se exclusivamente nos «saqueadores», nos «actos de violência», etc. As reivindicações dos manifestantes e os horrores cometidos pela polícia foram ignorados. Registaram-se duas mortes e já se perderam a conta aos feridos. Seja como for, o foco deslocou-se. De uma luta no terreno da classe, passámos para um debate sobre a «violência» ou a «não violência», sobre o «fascismo» ou o «anti-fascismo», sobre a «protecção da democracia»... Assim, o Estado, órgão de dominação dos capitalistas, ocupou directamente o terreno. A fracção macronista-gerencial da burguesia pode ter, durante algum tempo, perdido o controlo da situação; mas a classe dos exploradores, no seu conjunto, soube sempre manter o controlo.

Notas

1. https://www.lemonde.fr/politique/article/2026/11/02/face-aux-mobilisations-sociales-le-gouvernement-envisage-une-revalorisation-du-smic_6805226_823448.html?lmd_medium=lm&lmd_campaign=partager   

2. https://www-mediapart-fr.ezpaarse.univ-paris1.fr/journal/economie-et-social/291026/les-profits-de-total-bondissent-la-droite-et-l-extreme-droite-applaudissent

3. https://www.revolutionpermanente.fr/Qui-sont-les-casseurs-et-ou-est-la-greve-generale

A nova polarização, portanto, que se seguiu a 17 de Outubro, marcou um retrocesso para o movimento. As palavras de ordem «democráticas» ou «anti-fascistas» foram, durante muito tempo, e continuam a ser, um veneno mortal para o proletariado. Em nome desses princípios abstractos, somos levados a aliar-nos a uma facção da burguesia. Ora, os operários não devem nem podem fazer alianças com os seus exploradores: para se libertarem do peso das suas correntes, que não param de se tornar mais pesadas, só podem contar consigo próprios. É preciso, portanto, recusar qualquer aliança com partidos burgueses; a única política a seguir é uma política de classe. Defender a «democracia» (e os partidos burgueses que se reivindicam dela) contra o «fascismo» é já atirar-se para a boca do lobo capitalista, pensando salvar-se do perigo do fascismo e da extrema-direita.

Posicionar-se no campo do anti-fascismo, entoando «Siamo tutti antifascisti» e outros cânticos semelhantes, equivale a defender a democracia e o Estado democrático capitalista e a esquecer as reivindicações em defesa das nossas condições de vida e de trabalho. Não é preciso que os fascistas cheguem ao poder para termos um Estado totalitário: os capitalistas e os seus diversos órgãos (sindicatos, polícia, etc.) já detêm um poder exorbitante sobre a classe operária. Se a extrema-direita de Marine Le Pen vier a chegar ao poder, será no terreno da luta de classes, da defesa das nossas condições de vida — e não da defesa da democracia — que os operários poderão impor uma relação de forças capaz de fazer recuar tanto os ataques económicos, que qualquer futuro governo intensificará, como a repressão estatal.(ver artigo sobre a armadilha “antifas” Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: Preparativos para as Guerras Mundiais de 1914 a 2026 (o mito das guerras justas) NDE)

Mas os dias que se seguiram ao dia 17, e em particular as manifestações massivas de 24 e 31 de Outubro, não foram marcados apenas por essa fraqueza. Os sindicatos também participaram activamente no fracasso do movimento. Desde o início, a coligação sindical convocou uma manifestação para 5 de Novembro, longe, muito longe do momento em que a situação política era explosiva. Não nos iludamos: longe de ser um erro, esta estratégia é, na realidade, inerente aos órgãos sindicais. Estes estão, já há muito tempo, directamente integrados no Estado burguês: sem sequer nos lançarmos em grandes considerações teóricas[1], a forma como geriram as mobilizações anteriores, com dias de greves intermitentes espalhados pelo calendário, já o demonstra suficientemente bem. Foi, portanto, o Estado como um todo, com os seus cães de guarda mediáticos, a sua polícia enfurecida, os seus sindicatos inimigos de classe, que partiu para a ofensiva logo a 18 de Outubro. Para completar o quadro, os esquerdistas (anarquistas, trotskistas) também participaram no declínio do movimento, entre o discurso radical e a ocupação do espaço político remanescente. Em suma, neste grande concerto, cada um desempenhou o seu papel.

Os operários devem, ou organizar a greve renovável, ou reunir-se em comités de luta ou outras estruturas para preparar as condições necessárias para as mesmas. Esperar que os sindicatos a organizem é inútil e ilusório. Não farão mais após este dia de greve de 5 de Novembro do que fizeram antes. Por que razão adiaram para 5 de Novembro o seu apelo à greve, quando era necessário fazê-lo, pelo menos, já a 13 de Outubro? Por que razão não houve qualquer apelo à greve dos professores, quando estes partilhavam as mesmas reivindicações que os alunos do ensino secundário relativamente ao número de professores, à sobrelotação das turmas e às instalações insalubres? A luta, portanto, só pode sobreviver se se alargar e se assentar em reivindicações económicas e políticas unitárias de classe: aumento dos salários, rejeição dos cortes sociais, dos despedimentos, etc.

A greve de 5 de Novembro pode marcar o canto do cisne de um movimento social que, no entanto, permanecerá memorável; mas pode abrir a porta a novas oportunidades para os operários, se estes conduzirem uma política autónoma, se organizarem em comités de luta e se confrontarem directamente com os capitalistas através da arma da greve. Esta última opção é objetivamente favorecida pela multiplicação das manifestações de rua na Europa «contra o custo de vida elevado» e na maioria dos continentes. Depois da Bélgica, da Itália, da Espanha, de Portugal e de outros países, é a vez da primeira potência capitalista e imperialista da Europa, a Alemanha, a ser afetcada por manifestações em massa contra o custo de vida elevado e os cortes nas despesas sociais em benefício dos orçamentos militares.(Ver este artigo: Que o Silêncio dos Justos não Mate Inocentes: Tácticas de luta e palavras de ordem de mobilização na revolta popular na França)

A mobilização em França não passa de um primeiro confronto entre os capitalistas e o proletariado à escala internacional. Quer consiga ou não, nos próximos dias, alargar-se e generalizar-se a sectores significativos da classe operária, isso nada altera as lições que devemos retirar para lutar com a máxima eficácia possível contra o capital e a burguesia, que nos preparam para uma guerra generalizada como única solução para as suas contradições históricas.

Não aos ataques às nossas condições de vida e de trabalho!

Não à miséria em nome da defesa da nação e para preparar a guerra!

Só a extensão e a generalização das lutas nos permitirão obrigar a burguesia e o seu Estado a travar, ou mesmo a retirar, os seus ataques.

Para preparar a ampliação e a extensão das lutas e greves, reunamo-nos num comité de luta! É todos juntos, numa luta unida, que abriremos o caminho para a destruição desta sociedade que mergulha a humanidade na barbárie, na miséria, nos massacres e na guerra generalizada!

 

Grupo Internacional da Esquerda Comunista (suplemento a «Revolução ou Guerra», https://igcl.org ) a 3 de Novembro de 2026

 

1.     ver o ponto 12 da nossa plateforma política (https://igcl.org/+Plateforme-politique-du-GIGC+ )

 

MANIFESTATIONS EN FRANCE  LE 17 OCTOBRE 2026

 


 

Fonte: Que faire après le 5 novembre ? L’extension de la mobilisation à l’ensemble des salariés est-elle possible? – les 7 du quebec

Este panfleto foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Eleições intercalares nos EUA, declínio do imperialismo, insurreição na Europa (Douglas Macgregor)

 


Eleições intercalares nos EUA, declínio do imperialismo, insurreição na Europa (Douglas Macgregor)

5 de Novembro de 2026 Robert Bibeau

 


 

Fonte: Élections de mi-mandat aux USA, déclin de l’impérialisme, insurrection en Europe (Douglas Macgregor) – les 7 du quebec

Título introdutório ao vídeo traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Criminalizam a violência de estudantes franceses do ensino médio, mas justificam a violência genocida em Gaza e a guerra de extermínio.

 


Criminalizam a violência de estudantes franceses do ensino médio, mas justificam a violência genocida em Gaza e a guerra de extermínio.

5 de Novembro de 2026 Robert Bibeau



Por Khider Mesloub .

 

Algumas formas de indignação não derivam da moralidade, mas da defesa de interesses de classe. Trata-se de indignações selectivas e calculadas, distribuídas de acordo com a posição social de quem perpetra a violência e os interesses políticos de quem a condena. Na França, essa farsa encontra uma expressão particularmente marcante no discurso de certas figuras políticas e comentaristas, nomeadamente aqueles que aparecem diariamente na CNews e na BFMTV .


Os mesmos círculos políticos e mediáticos que se indignam com uma lata de lixo incendiada por estudantes do ensino médio encontram justificativas para as operações genocidas israelitas que transformaram Gaza num vasto campo de ruínas. Aqueles que clamam por repressão implacável contra adolescentes que quebraram algumas montras invocam a segurança de Israel para minimizar a destruição em massa e os crimes que uma comissão de inquérito das Nações Unidas concluiu constituírem genocídio.


Uma janela quebrada provoca as suas imprecações. Milhares de vidas palestinianas destruídas suscitam a sua indulgência, até mesmo as suas justificativas. Uma barricada erguida em frente a uma escola secundária inspira os seus sermões sobre civilização. A devastada Gaza inspira as suas dissertações sobre os imperativos estratégicos de Israel. A violência residual e menor praticada por estudantes do ensino médio é apresentada como uma ameaça à República. A violência massiva e sistemática do exército israelita é considerada uma necessidade de segurança.

Essa contradição não é apenas moral. É profundamente política. Revela a função ideológica de parte do aparelho mediático francês: criminalizar o protesto social quando este surge de baixo, enquanto legitima a violência estatal quando exercida a serviço de uma ordem política e geo-política à qual as classes dominantes estão vinculadas.

Porque por trás dos grandes discursos sobre a não violência esconde-se uma realidade bem menos edificante: não é tanto a violência que escandaliza esses guardiões da ordem burguesa, mas sim o questionamento da ordem que defendem.


Quando centenas de milhares de soldados israelitas, apoiados por um poderoso aparelho estatal e por uma parcela da opinião pública israelita, participam de uma ofensiva militar genocida contra os palestinianos, destruindo as suas casas, hospitais, escolas e a infraestrutura essencial à sua sobrevivência, alguns políticos e comentadores franceses, particularmente no canal CNews, invocam imperativos de segurança para justificar ou minimizar essa violência mortal. Mas quando alguns estudantes franceses do ensino médio ateiam fogo a uma lata de lixo ou quebram a montra de uma loja, esses mesmos defensores da ordem exigem imediatamente repressão implacável e punições exemplares. Tal é a sua moral flexível: clemência diante da devastação de um povo, intransigência diante de uma lata de lixo em chamas.

CNews: Promotores de jovens rebeldes

Basta que alguns estudantes do ensino médio ergam barricadas, virem latas de lixo ou confrontem as forças policiais para que os estúdios de televisão se transformem em tribunais improvisados. No CNews, onde os comentários políticos frequentemente se concentram em temas como insegurança, autoridade e ordem pública, a violência que ocorre durante os protestos torna-se uma oportunidade para reafirmar a necessidade da repressão.

O exemplo de Éric Zemmour (o fascista, nota do editor) é revelador. Quando questionado em Outubro de 2026 sobre a violência que acompanhou os protestos de estudantes do ensino médio, ele exigiu a reinstalação da lei anti-vandalismo de 1970 e pediu punição severa para os responsáveis ​​pelos danos. A mensagem é clara: diante da juventude rebelde, deve haver mais repressão, mais sanções, mais autoridade.

A violência social, mesmo a violência marginal, torna-se o foco do debate. As reivindicações desaparecem. As causas da raiva caem no esquecimento. A falta de recursos na educação, a precariedade estudantil, os futuros profissionais incertos e as crescentes desigualdades são ofuscados por imagens de montras partidas. A mobilização deixa de ser analisada como uma expressão de antagonismo social. Ela é reduzida a uma série de distúrbios públicos.

Essa redução é ideologicamente decisiva. Ela permite que a questão da delinquência seja substituída pela das relações de classe. O estudante do ensino médio deixa de ser um jovem que enfrenta a deterioração das suas perspectivas futuras. Ele torna-se um vândalo. O trabalhador em luta deixa de ser um empregado que contesta as condições da sua exploração. Ele torna-se um agitador. A questão social é, assim, expulsa do debate público em favor da questão da segurança. E essa operação está longe de ser neutra. Ela contribui para a deslegitimação dos movimentos sociais, identificando-os com as suas manifestações mais marginais. Permite que o Estado seja apresentado como o garante natural da paz civil, mesmo que as políticas que implementa contribuam para a reprodução das desigualdades e dos antagonismos sociais. O jovem que quebra a montra de uma loja é retratado como violento. A ordem social que destrói o seu futuro é retratada como simplesmente realista. Essa é a primeira ilusão.


Os defensores da ordem estão a descobrir as virtudes da violência israelita.

Mas o aspecto mais revelador emerge quando esses mesmos círculos políticos e mediáticos franceses abordam a questão israelo-palestiniana. A firmeza categórica que prevalece diante da violência das manifestações francesas dá lugar a uma surpreendente compreensão dos imperativos militares israelitas. A defesa de Israel torna-se um princípio político primordial. A segurança desse Estado é invocada para explicar, minimizar ou justificar operações cujas consequências para a população palestiniana são, no entanto, devastadoras.

O contraste é impressionante. Quando se trata da violência cometida durante as manifestações francesas, alguns comentadores recusam-se a ouvir qualquer justificativa. As circunstâncias sociais não devem desculpar nada. As dificuldades económicas não devem explicar nada. A raiva popular jamais deveria levar ao menor dano à propriedade. Mas quando a violência genocida é perpetrada pelo exército israelita, o raciocínio muda. Ameaças à segurança, ataques inimigos, necessidades militares e interesses estratégicos são invocados. O contexto, proibido aos manifestantes, torna-se indispensável para o Estado israelita genocida.


A violência de baixo para cima é desprovida das suas causas. A violência de cima para baixo é envolta em justificativas. Uma lata de lixo em chamas é apresentada como um acto de barbárie. Um bairro pulverizado em Gaza torna-se uma operação militar que exige contextualização. Essa diferença de tratamento não é um mero erro retórico. Ela levanta a questão da função política do discurso mediático francês.

Gaza: Quando a violência genocida encontra o interesse nacional

Em Gaza, contudo, esses não são incidentes isolados de violência ou surtos descontrolados de violência. Desde Outubro de 2023, a população palestiniana tem sofrido uma prolongada campanha militar, bombardeamentos massivos, deslocamento forçado, destruição de infraestrutura essencial e uma catástrofe humanitária de imensas proporções. Em Setembro de 2025, a Comissão Internacional Independente de Inquérito, mandatada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, concluiu que Israel cometeu genocídio contra os palestinianos de Gaza.

Quando um político ou colunista francês invoca incessantemente a necessidade militar sem examinar rigorosamente as consequências infligidas aos civis palestinianos, transforma a explicação em legitimação. Quando exige a condenação imediata da violência social francesa, mas expressa inúmeras reservas sobre a destruição em Gaza, revela uma hierarquia implícita na aplicação dos seus princípios. O problema, portanto, não é meramente a solidariedade política com Israel. É uma questão dos seus limites morais e legais.


Os guardiões da ordem burguesa

Para compreender essa contradição, precisamos ir além da indignação moral e examinar as relações sociais que a produzem. Os principais meios de comunicação franceses não constituem um universo externo às relações de classe. Eles operam dentro de uma sociedade capitalista onde a propriedade dos meios de produção, a concentração económica e os interesses de grandes corporações exercem considerável influência sobre a produção e a circulação de informações. A concentração da propriedade dos meios de comunicação nas mãos de poderosos grupos económicos não significa que todo o jornalista obedeça mecanicamente ao seu proprietário. Mas cria estruturas de poder, dependências e orientações editoriais que merecem análise. Sob essa perspectiva, a CNews é um estudo de caso particularmente revelador. Canal pertencente ao grupo mediático Bolloré, ela dedica espaço significativo a discursos sobre autoridade, identidade nacional, imigração, insegurança e a repressão de movimentos de esquerda. A sua linha editorial pode ser interpretada como uma contribuição para a defesa de uma concepção conservadora da ordem social.

A expressão "cães de guarda", emprestada de uma tradição crítica de intelectuais e da media, designa precisamente essa função ideológica: apresentar os interesses particulares de grupos dominantes como se incorporassem o interesse geral.

Diz-se que o trabalhador que exige um aumento salarial ameaça a economia. O grevista que bloqueia uma fábrica supostamente mantém a sociedade como refém. O estudante do ensino médio que confronta a polícia supostamente ameaça a República. Mas as restricções económicas impostas aos trabalhadores, as políticas de austeridade, os despedimentos e as intervenções coercitivas do Estado são apresentadas como necessidades naturais da vida social.

A exploração não seria violência. Seria uma relação económica. O emprego precário não seria violência. Seria uma adaptação ao mercado de trabalho. A repressão não seria violência. Seria a manutenção da ordem. Somente a resistência dos oprimidos se tornaria verdadeiramente violenta.

A ideologia dominante começa precisamente onde a violência das relações sociais deixa de ser nomeada, enquanto a resistência a essas relações é imediatamente criminalizada.

A violência de classe nem sempre usa uniforme.

A burguesia não exerce o seu domínio apenas por meio da coerção policial. Ela também o reproduz através de mecanismos económicos, instituições políticas e representações ideológicas.

De uma perspectiva marxista, o Estado não pode ser compreendido como um árbitro perfeitamente neutro, posicionado acima das classes sociais. Ele intervém numa sociedade estruturada pela propriedade privada dos meios de produção, pela exploração do trabalho assalariado e pela competição entre interesses opostos. A violência de classe, portanto, não se limita à brutalidade policial ou às intervenções policiais. Ela manifesta-se nas condições materiais impostas aos trabalhadores: despedimentos, erosão das protecções sociais, insegurança no emprego, dificuldades de acesso à habitação e cortes nos serviços públicos. Esses fenómenos não são juridicamente equivalentes à violência física. No entanto, produzem sofrimento considerável e contribuem para a perpetuação das relações de dominação.

Quando os trabalhadores se mobilizam contra essas condições, o seu protesto torna-se imediatamente visível. Ele interrompe o trânsito, perturba a produção, bloqueia fábricas e desafia a autoridade do empregador ou do governo. É então que os defensores da ordem descobrem a violência. Não nas relações sociais que produzem a raiva, mas na própria raiva. Não nos mecanismos que degradam a vida dos trabalhadores, mas nos gestos pelos quais eles expressam a sua recusa. A violência estrutural permanece invisível porque está incorporada no funcionamento ordinário da sociedade capitalista. A violência dos protestos torna-se espectacular porque interrompe esse funcionamento. Essa assimetria está no cerne da reprodução ideológica do capitalismo. Ela explica por que alguns comentários da media concentram-se mais na desordem causada pelos movimentos sociais do que nas violentas contradições económicas que os geram.

A ordem burguesa nunca se apresenta como uma relação de dominação. Ela apresenta-se como paz. E qualquer desafio a essa "paz" burguesa torna-se um acto de violência.


A propriedade capitalista santificada, a vida palestiniana relativizada.

A comparação entre a violência marginal das manifestações francesas e a destruição em massa em Gaza também revela o lugar central ocupado pela propriedade no imaginário político burguês. Uma montra quebrada constitui um ataque à propriedade imediatamente identificável. Ela tem um dono, um valor de mercado, um custo de reposição. A sociedade capitalista possui uma linguagem precisa para descrever esse ataque: degradação, vandalismo, saque, destruição. Mas as consequências humanas de uma política económica ou de uma guerra não podem ser reduzidas a uma simples contabilidade de mercado.

Em Gaza, a destruição não afecta apenas edifícios. Ela atinge as próprias condições materiais da existência colectiva: habitações, escolas, hospitais, redes de abastecimento, infraestrutura de saúde e memoriais. Ela mina a própria possibilidade de uma população viver, trabalhar, receber atendimento médico, educar os seus filhos e manter a sua estrutura social. Uma montra pode ser substituída. Mercadorias podem ser reproduzidas. Infraestrutura pode ser reconstruída. Mas vidas destruídas não podem ser restauradas. É por isso que a desproporção entre certas indignações da media e a gravidade da violência que alegam condenar justifica uma crítica radical.

Quando uma violação limitada da propriedade provoca uma condenação mais imediata do que a destruição em massa de vidas humanas palestinianas, a hierarquia das reacções públicas põe em questão os valores que são de facto privilegiados.

A questão não é negar a legitimidade da protecção da propriedade. Trata-se de recusar que essa protecção se torne um absoluto moral quando o desafio vem de baixo, enquanto a protecção das pessoas é subordinada a cálculos estratégicos quando um exército aliado usa a violência. A montra da loja torna-se sagrada porque representa a propriedade. A vida palestiniana é relativizada porque está presa em dinâmicas de poder.

CNews e a fabricação de um inimigo interno pela media

Nesse contexto ideológico, a figura do inimigo interno ocupa um lugar central. O estudante rebelde do ensino médio, o trabalhador em greve, o activista radical, o manifestante que se recusa a submeter-se aos ditames da autoridade podem ser apresentados sucessivamente como ameaças à coesão nacional. Essa representação permite que o conflito seja deslocado da esfera social para a da ordem pública. Em vez de examinar os interesses antagónicos que permeiam a sociedade, os trabalhadores cumpridores da lei são colocados contra os agitadores. Em vez de questionar as condições materiais que alimentam as mobilizações, exige-se a restauração da autoridade. Em vez de discutir reivindicações, pede-se sanções. O discurso recorrente da CNews, focado na segurança, pode ser analisado dentro dessa estrutura. Ele contribui para uma visão de mundo na qual a estabilidade social aparece como um valor superior, enquanto formas conflituosas de protesto são frequentemente vistas como ameaças.

Mas essa estrutura ideológica torna-se mais complexa quando se trata de Israel. Aqueles que defendem as suas operações militares genocidas não retratam o Estado israelita como um disruptor da ordem internacional. Em vez disso, ele é apresentado como um Estado ameaçado que busca restaurar a sua segurança.

A violência assume então um significado diferente. Na França, é vista como uma perturbação da ordem. Em Israel e nos territórios palestinos ocupados, quando perpetrada pelo exército israelita, é apresentada como uma resposta à desordem. O mesmo princípio de autoridade serve, portanto, para condenar a dissidência social interna e para defender o poder militar do aliado sionista.

Não se trata necessariamente de uma coordenação consciente entre todos os actores envolvidos. É uma possível coerência ideológica entre discursos que priorizam a estabilidade das instituições, a autoridade do Estado e a segurança das potências aliadas ocidentais. E é essa coerência que merece ser revelada.


A sua indignação pertence a uma classe, a sua moral a um grupo.

Os auto-proclamados defensores da civilização gostam de apresentar as suas condenações à violência como a expressão de uma moralidade universal. Mas uma moralidade universal não pode depender do status social do perpetrador da violência, nem do poder militar do Estado que a pratica. Ela não pode ser inflexível com um estudante do ensino médio e condescendente com um exército genocida. Não pode ser implacável com uma montra quebrada e hesitante com bairros palestinianos reduzidos a escombros. Não pode condenar inequivocamente uma barricada e oferecer múltiplas explicações para a destruição em massa do território ocupado, Gaza e Cisjordânia.

Isso não significa que a violência cometida durante manifestações seja sempre legítima. Alguns actos de violência prejudicam pessoas e propriedades e podem ser condenados. Trata-se de rejeitar a inversão de proporções.

A violência ocasional dos movimentos sociais franceses não pode ser elevada à categoria de escândalo civilizacional por aqueles que, simultaneamente, minimizam os crimes em massa cometidos contra a população palestiniana.

Porque a questão fundamental não é simplesmente a da violência. É a do poder de definir a violência legítima. Quem detém esse poder? Quem dita as palavras? Quem selecciona as imagens? Quem decide que uma lata de lixo em chamas constitui uma grande ameaça à "democracia", enquanto bombardeamentos massivos podem ser analisados ​​como operações de segurança? Numa sociedade capitalista, essa capacidade de impor as categorias do debate público é uma questão central na luta ideológica.

A classe dominante não controla apenas os recursos económicos. Ela também possui meios consideráveis ​​para influenciar as representações sociais, definir padrões de respeitabilidade e moldar os limites do que é aceitável.

Assim, é provável que a violência em protestos seja criminalizada não apenas pelo que destrói materialmente, mas também pelo que desafia politicamente.

A violência estatal, por outro lado, pode ser legitimada não apenas por aquilo que alega proteger, mas também pela ordem que ajuda a manter. A sua indignação, portanto, nem sempre é proporcional à gravidade da violência, mas sim ao perigo que essa violência representa para os interesses dominantes.


Os moralistas da montra e os defensores das ruínas

É preciso, afinal, colocar a questão com toda a sua crueza. Que valor tem a moral de um responsável político francês que exige sanções exemplares contra adolescentes que cometeram actos de vandalismo, mas que se mostra infinitamente mais indulgente em relação às operações de um exército israelita acusado de genocídio?

Que valor tem o universalismo de um editorialista francês que invoca a civilização perante um caixote do lixo incendiado, mas invoca as necessidades estratégicas perante uma Gaza devastada? Que valor tem a defesa dos direitos humanos quando se torna subordinada aos interesses diplomáticos dos poderosos Estados ocidentais?

O problema não é que estes responsáveis políticos e comentadores franceses condenem a violência dos estudantes do ensino secundário. O problema é que alguns aplicam a essa violência um rigor moral que não manifestam com a mesma constância perante os crimes cometidos contra os palestinianos. Esta contradição revela os limites de uma moral política que pretende elevar-se acima das relações de classe e dos interesses geo-políticos, mas que continua profundamente marcada por eles.

Os alunos do ensino secundário franceses que contestam a ordem social são intimados a respeitar escrupulosamente a lei. Os Estados aliados (Estados Unidos e Israel) que exercem violência militar em grande escala beneficiam de discursos que invocam as necessidades de segurança. Os primeiros têm de responder pelos seus actos. Os segundos encontram defensores dispostos a explicar as suas operações mortíferas. Os primeiros são acusados de ameaçar a civilização. Os segundos são apresentados como os seus protectores.

É esta inversão ideológica que o discurso marxista permite desmascarar. Pois por trás das proclamações sobre a não-violência esconde-se uma questão muito mais decisiva: a da violência constitutiva das relações de dominação, do seu exercício pelos Estados e da sua legitimação pelos aparelhos ideológicos.


A burguesia francesa não condena a violência em si mesma. Condena, em primeiro lugar, aquela que ameaça a sua ordem e pode justificar aquela que contribui para a preservar. É por isso que uma montra partida pode suscitar torrentes de indignação, enquanto as ruínas de Gaza dão origem, em certos comentadores, a intermináveis apelos em defesa da segurança de Israel. É por isso que a violência marginal da juventude revoltada pode ser transformada num perigo nacional, enquanto a violência maciça exercida por um Estado aliado ocidental é envolta na linguagem da necessidade. É por isso que alguns promotores da contestação social tornam-se defensores da razão de Estado.

Uma montra partida escandaliza-os porque perturba a ordem burguesa. A devastação de Gaza encontra justificações aos seus olhos, porque a sua destruição é apresentada como parte da defesa de uma ordem geo-política aliada. E é aí que reside a contradição fundamental. Não numa simples incoerência moral, mas na função política dessa moral.

A indignação deles tem classe. O universalismo deles tem fronteiras. A não violência deles tem excepções. E as excepções revelam os interesses que os sermões deles alegam ocultar.

Khider MESLOUB

 

Fonte: Ils criminalisent les violences des lycéens français mais justifient la violence génocidaire à Gaza et la guerre d’extermination – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice