terça-feira, 23 de junho de 2026

As proezas do CAC 40. O CAC 40 tal como me contaram

 


As proezas do CAC 40. O CAC 40 tal como me contaram

23 de Junho de 2026 Robert Bibeau



Por René NabaSobre as proezas do CAC 40 – Em foco

As proezas do CAC 40

Se me tivessem contado que os gestores das grandes empresas do CAC 40, tinham reduzido significativamente a sua remuneração em 2020, poderiam...


O CAC 40 tal como me contaram

Os gestores de grandes empresas, que tinham reduzido significativamente a sua remuneração em 2020, poderão receber em média 5,4 milhões de euros em 2021, ou seja, 1,6 milhões a mais do que em plena crise sanitária, e acelerar com base em critérios relacionados com o clima, segundo um estudo apresentado em conjunto pelo Hebdo des AG e pelo escritório de advogados Avanty, especializado em remuneração executiva. Em detalhe, espera-se que a remuneração dos CEOs das empresas no índice bolsista CAC 40, que tinha caído 21% para uma média de 3,8 milhões de euros no ano passado, deverá recuperar fortemente para 5,4 milhões de euros.

O CAC, que significa Continuous Assisted Listing, foi criado a 31 de Dezembro de 1987 pela Compagnie des agents de change. O índice CAC 40 é determinado a partir dos preços de quarenta acções cotadas continuamente no mercado líder entre as cem empresas cujas operações são mais abundantes no mercado.

O local histórico que a CAC 40 ocupa há muito tempo em Paris é o Palais Brogniart, Place de la Bourse 75002, Paris. Como o CAC 40 está indexado à Euronext, já não existe uma bolsa física em Paris. Apenas escritórios da Euronext existem no distrito de negócios de La Défense, onde decorrem as IPOs.

Entre as principais empresas CAC 40 estão Dassault, AIRBUS GROUP, AIR LIQUID, ATOS, BNP PARIBAS, BOUYGUES, CAPGEMINI, CARREFOUR, CRÉDIT AGRICOLE, L'ORÉAL, entre outras...

Outros índices bolsistas internacionais incluem:

·         Estados Unidos: O Dow Jones: criado em 1928, composto pelas 30 principais acções da Bolsa de Valores de Nova Iorque (NYSE). É o índice mais simbólico da Bolsa de Valores de Nova Iorque, que é composta principalmente pelo sector industrial.

·         Reino Unido: O equivalente inglês é o índice FTSE 100 – também conhecido coloquialmente como "footsie" – um índice bolsista das 100 empresas britânicas mais bem capitalizadas cotadas na Bolsa de Valores de Londres, cuja capitalização representa mais de 70% do mercado londrino.

·         Japão: O Nikkei 225 (Nihon Keizai Shimbun): criado em 1949, é composto por 225 títulos cotados na Bolsa de Valores de Tóquio.

·         República Federal da Alemanha: O DAX30 (Deutscher Aktienindex), criado em 1987, inclui as 30 empresas mais importantes cotadas na Bolsa de Valores de Frankfurt

Remuneração dos empregadores em França: Viva o Covid.

Todos os grupos CAC 40 beneficiaram de ajuda pública directa ou indirecta durante a crise sanitária. Apenas 8 deles renunciaram ao pagamento de dividendos. Mais de 60.000 cortes de empregos já foram anunciados pelos grupos CAC40, para não falar das consequências dos seus planos de redução de custos para os seus fornecedores e sub-contratados.

Os dividendos pagos pelo CAC 40 aumentaram 269% desde 2000, enquanto a sua força de trabalho em França caiu 12% no mesmo período.

A remuneração dos CEOs do CAC 40 ascendeu a €5,5 milhões em 2019, um aumento de €500.000 em relação a 2017, que já tinha subido 14% em relação a 2016, segundo um estudo publicado na quinta-feira, 29 de Outubro de 2020, pelo Observatório de Multinacionais.

No topo do ranking está Bernard Charliès, CEO da Dassault Systèmes (24,7 milhões de euros), seguido por François Henri Pinault da Kerring (16,6 milhões) e Daniel Julien, CEO da Télé performance, um estreante no ranking, com um salário de 13,2 milhões de euros.

Note-se o desempenho do CEO da Tele performance, Daniel Julien, o desconhecido do CAC 40, que arrecadou 17 milhões de euros em 2020. A sua empresa entrou no CAC 40 em 2020. O seu salário era de 3,8 milhões de euros. A esta remuneração pode acrescentar as suas 58.000 ações na empresa, cujo preço está a subir no mercado bolsista


283.900 perdas de emprego

Por outro lado, um total de 283.900 empregos desapareceram em 2020 devido à pandemia. O declínio elevou-se a 320.300 empregos no sector privado ao longo do ano, enquanto foram criados 36.200 empregos no sector público. As perdas são particularmente numerosas no sector terciário comercial (-326.000) e na indústria (-57.500).

O sector terciário não mercantil, a construção e a função pública, por outro lado, criaram empregos.
Para relembrar, o gigante do luxo Kering, que detém as marcas Balenciaga e Yves Saint Laurent em França, está sob investigação desde Fevereiro de 2019 por "branqueamento de fraude fiscal agravada", anunciou a Mediapart na quarta-feira, 16 de Dezembro de 2020.

Segundo os meios de comunicação online, esta investigação visa a parte francesa de um esquema fiscal que teria permitido ao grupo liderado por François-Henri Pinault declarar na Suíça actividades realizadas noutros países, principalmente em Itália. Diz-se que o grupo escapou "2,5 mil milhões de euros em impostos entre 2010 e 2017, incluindo pelo menos 180 milhões em França", diz a Mediapart

Para além do próprio salário, os CEOs do CAC 40 receberam em média mais de 500.000 euros em dividendos para o ano fiscal de 2019. O prémio nesta área vai para o chefe do L'Oréal, Jean Paul Agon, que recebe 4,6 milhões além do seu salário, que ascende a 9,8 milhões, ou um total de 14,4 milhões de euros. … porque "ele vale bem a pena".

·         Para aprofundar este tema: https://www.madaniya.info/2020/06/26/les-dessous-pas-si-chic-du-cac-40/

O CAC 40 na batalha presidencial dos EUA de 2020 Donald Trump contra Joe Biden

As subsidiárias americanas de grandes empresas francesas dedicaram os seus esforços financeiros a apoiar candidatos ao Congresso, evitando cautelosamente os dois candidatos presidenciais. Mas os franceses apoiaram maioritariamente os candidatos republicanos em detrimento dos democratas. No topo da lista de doadores está a SANOFI, que deu 843.844 dólares aos republicanos. O grupo farmacêutico francês está assim a mostrar generosidade com o dinheiro dos contribuintes franceses.

Em dez anos (2009-2019), a Sanofi beneficiou de facto de 150 milhões por ano em Créditos Fiscais para a Investigação, ou seja, 1,5 mil milhões em dez anos, o que equivale a dizer que o contribuinte francês subsidiou indirectamente as eleições americanas em nome do grupo farmacêutico.

Ainda no campo republicano, o 2.º lugar no ranking de contribuintes é a AXA (58.869 dólares), uma das maiores seguradoras da indústria do petróleo e gás, seguida pelo grupo siderúrgico Arcelor Mittal, Airbus. Por outro lado, três empresas francesas apostaram em candidatos democratas: BNP Paribas, Vivendi e Total.

Sem falar nas despesas de lobby do CAC 40 em Washington. Em 2019, o grupo SANOFI também lidera com $5.117.000, seguido pela Airbus, Vivendi, Arcelor Mittal e Axa.

Evasão fiscal: 425 mil milhões de dólares escondidos em paraísos fiscais

427 mil milhões de dólares escaparam às autoridades fiscais em 2020, em plena pandemia de Covid, escondidos em paraísos fiscais, um valor aproximadamente equivalente ao plano de resgate da União Europeia.

Multinacionais são responsáveis por 245 mil milhões de dólares, indivíduos por 182 mil milhões, segundo um relatório publicado em Novembro de 2020 por três ONGs: Tax Justice, Network, Public Services International e Global Alliance for Tax Justice, que reúne centenas de organizações em todo o mundo, incluindo a plataforma "Tax and Judicial Havens" em França.

Como lembrete, a Tax Justice Network, criada em 2003, é uma rede internacional independente. A Public Services International é uma federação de mais de 700 sindicatos que representam 30 milhões de trabalhadores em 154 países. A Aliança Global para a Justiça Fiscal é um movimento de organizações da sociedade civil que reúne cinco redes regionais: África, América Latina, Ásia-Austrália, América do Norte e Europa.

Pegada de carbono

Ao mesmo tempo, os seis principais bancos franceses - BNP Paribas, Crédit Agricole, Société Générale, Banque Populaire Caisse d'Epargne, Crédit Mutuel e La Banque Postale - tiveram em 2019 uma pegada de carbono que representa oito vezes as emissões de gases com efeito de estufa de toda a França.

3,3 mil milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano, comparado com 445 milhões de toneladas para França, segundo um relatório da ONG britânica Oxfam publicado em Outubro de 2020.

Paradoxalmente, o dinheiro proveniente dos depósitos bancários é assim um dos principais poluidores da atmosfera em França, a principal fonte de emissões de CO2. Ou seja, ficam com o nosso dinheiro e enganam-nos. Parabéns aos bancos, aos jogadores de três cartas.

Multas por cobrança excessiva

No mesmo sentido, foram impostas multas superiores a 2,8 milhões de euros a seis bancos franceses como parte da repressão à fraude por cobrar taxas excessivas pelos pagamentos de cartões bancários...... Sem dúvida para compensar as despesas publicitárias destinadas a atrair clientes.

Estas multas foram impostas pela Direcção-Geral para a Concorrência, Assuntos do Consumidor e Controlo de Fraude (DGCCRF) aos seguintes bancos:

BNP Paribas (multa de €1,494 milhões), La Banque Postale (€1,168 milhões), Banque Populaire du Grand Ouest (€74.446), Banque Afone (€58.200), Caisse régionale Crédit agricole Normandie (€48.276) e Caisse fédérale du Crédit mutuel Maine Anjou Basse-Normandie (€35.600).

França como potência multinacional

O poder económico decisivo da França offshore

"Mesmo que o seu investimento directo no estrangeiro tenha abrandado após 2008, a França continua a ser uma potência multinacional.

Aqui estão alguns dados para o ajudar a medi-lo

Depois dos países anglo-saxónicos, França é o país com mais multinacionais não financeiras no top 100 mundial, quando classificadas pelo tamanho dos activos estabelecidos no estrangeiro: doze comparado com 20 para os Estados Unidos, 14 para o Reino Unido, à frente da Alemanha e do Japão, e ainda mais claramente à frente da Suíça, China, Espanha ou Itália.

Outro indicador para medir a nossa internacionalização produtiva é o stock de investimento que a França detém no estrangeiro: este stock foi estimado em 1.452 mil milhões de dólares em 2017, o que por si só não significa muito.

O valor torna-se significativo quando se relaciona com o PIB para corrigir o efeito de dimensão das economias. Podemos ver que, ao eliminar os pequenos paraísos fiscais, as sedes das holdings, a França está muito à frente em termos de internacionalização das suas empresas. Deve então ser comparado com economias de tamanho equivalente. (Fonte: XERFI CANA8 - A pandemia de Covid, uma fonte de riqueza para bilionários).

Enquanto a pandemia de Covid empurrou milhões de pessoas para a pobreza, os 1.000 bilionários mais ricos do mundo regressaram ao nível de riqueza pré-crise em apenas nove meses.

Esta é a observação feita pela ONG britânica Oxfam, no seu relatório tradicional sobre desigualdade, publicado por ocasião do Fórum Económico Mundial em Davos, que decorre – praticamente devido ao Covid – de 25 a 29 de Janeiro de 2021.

Segundo a Oxfam França, as dez pessoas mais ricas do mundo, incluindo o francês Bernard Arnault, viram as suas fortunas aumentar 540 mil milhões de dólares (369 mil milhões de euros) desde o início da pandemia. "Em 2008, demorou cinco anos até a riqueza dos bilionários regressar ao nível pré-crise", aponta o relatório.

Desde a crise sanitária: A suprema ironia é que, em mais de um ano, as fortunas cotadas em bolsa de cinco grandes famílias francesas acabaram de disparar 60 mil milhões de euros. Portanto, obviamente, Arnault (LVMH), Bettencourt (L'Oréal), Hermès (grupo homónimo), Hériard Dubreuil (Rémy Cointreau) e Mérieux (bioMérieux) não vão abrir o champanhe, pois este "aumento" financeiro parece tão inadequado à luz das regras mais elementares do decoro

·         Para ir mais longe, veja este link: https://www.marianne.net/economie/economie-francaise/avons-nous-les-riches-les-plus-cons-du-monde

As grandes empresas francesas cotadas no índice SBF120 deverão pagar 52 mil milhões de euros em dividendos em 2021, segundo a IHS Markit. Isto representa uma recuperação de 42% num só ano, ainda mais impressionante tendo em conta que os dividendos pagos aos accionistas este ano são pagos como parte dos resultados de 2020, um ano marcado por uma crise particularmente brutal que viu os lucros do CAC 40 caírem para metade.

Ao mesmo tempo, a França está enfraquecida por uma dívida pública que atingiu um nível recorde de 118,2% do produto interno bruto (PIB) em Março de 2021, ou 2.739,2 mil milhões de euros, segundo o INSEE,

Encontramo-nos em 2022 para admirar as belas performances do CAC 40 de 2021, no final de dois anos de pandemia, marcados pelos estragos do Covid, pelas consideráveis destruições de emprego e pelo aumento da pobreza da população. (Golias Hebdo N°646 semana de 12 a 18 de Novembro de 2020 e Golias Hebdo N°647 semana de 19 a 25 de Novembro de 2020).

Para ir mais longe neste mesmo tema; cf. o escândalo Open Lux (os paraísos fiscais do Ducado do Luxemburgo), o terceiro maior centro financeiro da Europa depois de Londres e Zurique.

·         https://www.francetvinfo.fr/economie/impots/paradis-fiscaux/paradis-fiscaux-on-vous-resume-openlux-ces-revelations-qui-epinglent-le-luxembourg-et-des-grandes-fortunes-francaises_4289725.html

·         https://www.madaniya.info/2015/10/05/l-oligopole-bancaire-en-chiffres/

Leitor de vídeo



 

 










vídeo neste link - https://www.madaniya.info/wp-content/uploads/2022/01/20220127-CAC40.mp4?_=1


Fonte: Les prouesses du CAC 40. Si le CAC 40 m’était conté – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




As lições de Dezembro de 1995

 


Carta N°1 des “Cahiers du Marxisme Vivant”

As lições de Dezembro de 1995

O plano Juppé ou a fanfarronice domesticada

Raramente o contraste entre as promessas eleitorais e as medidas efectivamente tomadas por um governo terá sido tão gritante como neste final de 1995.

Durante toda a campanha presidencial, a direita declarou-se pronta para combater o desemprego e a exclusão e defendia que «a folha de pagamento não era inimiga do emprego». A demagogia obriga. Quanto mais a situação das massas se agrava, quanto mais o consenso social se desmorona, tanto mais o discurso dos políticos, tanto da direita como da esquerda, tem de negar que existam fatalidades económicas infinitamente mais fortes do que todo o seu voluntarismo. Não se trata apenas de angariar votos, mas de impedir que as classes populares, e muito especialmente a classe assalariada, cheguem a perder a esperança no capitalismo. Nas altas esferas da economia, este tipo de discurso suscita inevitavelmente um encolher de ombros, pois os investidores e os decisores estão bem posicionados para conhecer perfeitamente as restricções que pesam sobre eles e, sobretudo, estão bem decididos a impô-las a toda a sociedade. Daí resultam equívocos cómicos.

Nada ilustra melhor a falta de liberdade dos governantes do que o relato esclarecedor que retiramos do «Bilan du Monde de 1996»:

«Em Março, o franco tinha caído para o seu nível mais baixo de sempre, devido às incertezas políticas e à aproximação das eleições presidenciais ( ... ) À medida que as intenções de voto a favor de Jacques Chirac aumentavam, os investidores questionavam-se sobre a ortodoxia monetária e orçamental do presidente da Câmara de Paris, nomeadamente na sequência da sua crítica pública e veemente ao apelo à moderação salarial lançado pelo governador do Banco de França.  Mal eleito, Jacques Chirac procurou tranquilizar os operadores do mercado (...), mas o discurso de política geral do primeiro-ministro provocou uma nova onda de desconfiança por parte dos investidores, desapontados com a falta de clareza de uma política governamental que parecia hesitar entre relançamento e rigor". «No Outono, o franco viria a sofrer uma queda brusca, explicável pela ausência de reformas estruturais no projecto de orçamento para 1996». «Foi necessário o compromisso pessoal e solene do Presidente da República para tirar o franco desta fase difícil». (Balanço do Le Monde, p. 168)

Eis o segredo de uma reviravolta que surtiu o efeito de uma provocação e que foi atribuída, não só pela Esquerda, mas também por muitos líderes da maioria, à «falta de respeito» e de «amor» de um primeiro-ministro tecnocrata para com os cidadãos comuns!

Durante a campanha presidencial, a prioridade das prioridades, ostensivamente proclamada, era aliviar os males infligidos às massas trabalhadoras pelo desemprego e pela exclusão. Conquistado o poder, essa prioridade tornou-se exactamente o oposto: eram os capitalistas que era preciso aliviar da ameaça que os défices públicos, ou mesmo um aumento geral dos salários, representavam para o franco, bem como da frustração de ver «o sector público à francesa» fechado aos capitais em busca de investimentos lucrativos.

Está na natureza da democracia burguesa deixar a última palavra às potências da indústria e das finanças. Assim, todas as críticas mordazes dirigidas contra as «asneiras» de Juppé, tanto pelos seus rivais da esquerda como pelos seus bons amigos da maioria, não passam de pura tagarelice parlamentar, uma cortina de fumo incapaz de esconder o facto de que a democracia é a forma mais adequada às necessidades contraditórias da classe dominante.

***

O despertar de Dezembro

O vigoroso movimento social que, em três semanas, levou às ruas centenas de milhares, ou mesmo milhões, de trabalhadores dos sectores público e privado, de desempregados, de reformados e até mesmo de estudantes, não deve ser avaliado apenas pelos seus resultados. A sua importância reside no despertar que demonstrou, após mais de vinte anos de letargia.

Numa sociedade dividida em classes, aquela que detém o poder por possuir os meios de produção não só está plenamente consciente dos seus interesses, como também está bem preparada para os defender. O mesmo não se passa com a classe assalariada, da qual, aliás, os operários constituem apenas uma parte. O assalariado pressupõe o capital. Mas sem assalariados para realizar todos os trabalhos socialmente necessários, desde a produção até aos múltiplos serviços de que os homens não poderiam prescindir sem prejuízos, não haveria capital. Na visão do trabalhador isolado, porém, é o contrário que parece verdadeiro: é o capital que o faz viver, proporcionando-lhe um emprego e os meios de subsistência correspondentes!

Esta visão distorcida das relações reais serve poderosamente à classe dominante. Constitui mesmo uma garantia de sobrevivência muito mais forte do que toda a demagogia de que os políticos são pródigos e até do que todo o «arsenal repressivo» de que dispõe. É por isso que, numa sociedade burguesa, um movimento de massas nunca pode ter um resultado mais importante do que quebrar a resignação da classe explorada à sua dependência. Só então é que pode surgir uma aspiração colectiva a uma sociedade diferente, a uma civilização diferente daquelas que foram moldadas pela burguesia. Por mais que os oprimidos se contem às centenas de milhões no mundo, enquanto essa aspiração colectiva e as lutas que ela inspira estiverem ausentes, eles continuam a ser reféns da classe dominante. Durante os conflitos, cada um pode imaginar que o objectivo a alcançar é abolir a injustiça particular que lhe foi infligida. Mas, uma vez que as injustiças particulares se inscrevem na lei da miséria, da insegurança e do embrutecimento que o regime social em vigor impõe a todos, é evidente que o verdadeiro objectivo é quebrar essa lei e impor pela força a de uma sociedade totalmente nova e oposta.

O facto de estarmos longe disso não autoriza ninguém a julgar o que aconteceu e o que acontecerá no futuro sem outra perspectiva senão a de uma repetição interminável de «lutas inúteis». Num país onde 20% da população detém 68% do património, contra 12% para os restantes 60% (1), o Primeiro-Ministro achou por bem invocar «a justiça» para fazer passar a sua contra-reforma! Recebeu a resposta que merecia. Os ferroviários, cujo efectivo passou de 400 000 para 160 000 entre 1945 e 1995, foram apresentados como «privilegiados», cujo regime de reforma aos 50 anos era uma ofensa para os outros trabalhadores, que, por sua vez, têm de trabalhar mais dez anos. Quando são maquinistas, estes «privilegiados» partem para o trabalho com horários diários imprevisíveis. Conduzem sozinhos comboios cada vez mais rápidos (uma vez que a mecanização da segurança tornou o segundo agente «supérfluo»), apesar de serem responsáveis por centenas de vidas. A duração do serviço, que afasta o agente da sua residência, pode atingir 36 horas e, muitas vezes, tem de pernoitar em dormitórios onde ressoa o barulho dos comboios. Foram estes «privilegiados» que disseram «não ao plano Juppé», exigiram a sua retirada e constituíram a ponta de lança do movimento geral. Nada de surpreendente.

No entanto, mesmo nas chamadas classes populares, não faltaram pessoas que consideraram paradoxal, ou mesmo escandaloso, que fossem precisamente os trabalhadores que gozam de uma relativa segurança no emprego a entrar em greve e a manifestar-se.

O verdadeiro paradoxo está noutro lado. Longe de ser «escandaloso», é a melhor razão para ter esperança no futuro que nos foi dada há décadas. Isto deve-se ao facto de estes assalariados, cinicamente ou estupidamente estigmatizados como «devoradores do orçamento», não terem lutado pelos seus privilégios, mas sim contra os males de que toda a classe operária sofre actualmente.

É verdade que os trabalhadores do sector público têm, em relação aos do sector privado, a vantagem de não poderem ser despedidos tão facilmente por participarem em greves. Pois bem, eles valeram-se desse privilégio para tentar repelir uma ofensiva daquilo a que se chamaria «capitalismo selvagem» se se tratasse da Rússia, da Ásia ou de outras regiões semi-desenvolvidas, mas que, na França civilizada, se denomina «a modernização necessária»! Os trabalhadores do sector privado não se enganaram quanto a isso, com excepção da ralé política dos anti-grevistas ferrenhos. Os ferroviários afirmaram, aliás, claramente que, se viessem a ceder, toda a classe assalariada seria prejudicada. Não se comportaram como defensores dos direitos adquiridos, mas sim como vanguarda de todos os que não têm direitos. O seu grande mérito é ter colocado em primeiro plano a exigência de unidade da classe assalariada — sindicalizados e não sindicalizados unidos —, não apenas nas palavras, mas nos factos, multiplicando os contactos horizontais com outras categorias e praticando a mais ampla solidariedade entre os grevistas.

Perplexos, os líderes sindicais não opuseram a estes «excessos» — algo totalmente novo — a resistência a que estavam habituados nos tempos em que detinham o poder (2). O espectáculo oferecido pela CFDT Notat, que seguiu a linha tradicional da F.O., e pela F.O. Blondel, que, já tarde, reproduziu perante as câmaras as «ousadias» da CFDT dos primórdios, diz muito sobre a importância a atribuir aos rótulos sindicais.

A principal preocupação de todos estes profissionais do sindicalismo de negociação era defender as posições de força que ainda ocupavam nas mútuas, porque estas lhes permitiam financiar organizações abandonadas pelos trabalhadores.

Afinal, tal despertar social era para eles uma oportunidade inesperada. As suas práticas corporativistas, o seu autoritarismo em relação à base e o receio de que distúrbios demasiado generalizados prejudicassem a economia nacional tinham, ao longo do tempo, transformado a classe operária francesa na mais des-sindicalizada da Europa. A agitação iria talvez devolver-lhes a «representatividade» perdida, para que pudessem voltar a apresentar-se aos governos como interlocutores incontornáveis, mas ponderados e respeitadores das exigências da economia nacional. Os políticos nunca esconderam o quanto lamentavam os tempos em que os sindicatos eram poderosos e as dificuldades que lhes tinham sido criadas por «coordenações» vindas de se sabe lá onde e animadas por uma consternante falta de civismo. Não podiam deixar de aproveitar a oportunidade. A classe operária, por seu lado, sente perfeitamente que as fanfarronices televisivas de Blondel e Viànet não significam, de forma alguma, uma mudança na função que pretendem desempenhar na sociedade burguesa: os bombeiros das lutas de ontem não podem tornar-se os incendiários das lutas de amanhã.

«A classe operária não precisa deles e acaba de provar que, para ela, a des-indicalização não significava abdicação, mas sim capacidade de lutar.»

***

Uma nova geração

A sucessão das gerações só provoca mudanças profundas na mentalidade colectiva na medida em que as condições gerais em que cada uma delas nasceu, cresceu e viveu também tenham mudado profundamente.

Aquelas que entraram no mercado de trabalho durante «os gloriosos anos trinta » foram, para usar uma imagem consagrada, levadas pelo «elevador social» muito acima do nível de vida das gerações da guerra e do período pré-guerra.

É certo que o que define a condição proletária não é, na visão revolucionária de Marx que é a nossa, «o nível de vida», mas sim o assalariado. Bem ou mal remunerados, os proletários das diferentes épocas e das diferentes regiões do mundo têm em comum o facto de venderem a sua capacidade de trabalho como uma mercadoria ao capital. O capital só a compra se precisar dela para se valorizar. O proletariado define-se, portanto, como uma classe cuja existência está totalmente submetida às exigências, historicamente e conjuncturalmente variáveis, da classe que monopoliza o capital social. É evidente que um escravo continua a ser um escravo mesmo quando está bem alimentado, mas a consciência que tem da sua condição não pode ser totalmente independente do tratamento que o senhor lhe dispensa.

É por isso que os « gloriosos anos trinta » da burguesia — que, no pós-guerra, acumulou o seu capital a um ritmo sem precedentes — foram os « vergonhosos anos trinta » do proletariado, no sentido em que este perdeu a fé numa sociedade superior conquistada por uma grande revolução social, ao mesmo tempo que o anti-capitalismo, mesmo que ingénuo, ou mesmo «primitivo», das gerações anteriores...    

Vinte anos após o início da crise, a situação dos recém-chegados ao mercado de trabalho é totalmente diferente. O elevador que subia alegremente os andares não ficou irremediavelmente bloqueado, como afirmava um certo Madelin, que perdeu o cargo de ministro devido à sua falta de tacto. Trata-se antes (segundo os economistas que reprovam o alarmismo destinado a intimidar as massas) de uma esteira rolante que avança à velocidade de uma tartaruga, quer se trate de crescimento, quer de poder de compra. .

De qualquer forma, as mudanças na mentalidade colectiva de uma geração do proletariado resultam da imagem que esta formou da sociedade, não através do estudo das estatísticas, mas sim da observação e da experiência directas. O que é determinante para a mentalidade actual é que, há pelo menos vinte anos, a situação material não melhorou para quem tem emprego e que, para quem não consegue encontrar um, deteriorou-se completamente. Não é sem razão que os políticos se assustam com esta perda de confiança generalizada, mesmo que se tornem detestáveis quando afirmam, como Juppé ou Trichet (o optimista governador do Banco de França), que ela é injustificada e que pode ser restabelecida graças a esforços de persuasão que incumbem aos sábios do governo.

Na realidade, a perda de confiança está ligada ao facto de «o proletariado representar agora mais de 75% da população deste país» (3). Foi esta mutação social que deu força ao movimento de Dezembro, obrigando o Juppé de serviço a arquivar provisoriamente os seus projectos de reforma dos regimes de pensões dos funcionários públicos.

Se a repercussão deste movimento surpreendeu, foi porque, no pensamento comum, o proletariado é a classe operária empobrecida do século passado, cujo desaparecimento ainda ontem era anunciado pela multidão de «burros eruditos» que grassam nos meios de comunicação oficiais e não oficiais (4) . Não é a primeira vez que se comete um erro científico, quando se trata de fazer crer que «o marxismo já não é funcional» na sociedade contemporânea e de relegar a revolução social dos séculos vindouros para o museu das ideologias extintas. Mas a força do marxismo impõe-se mesmo aos não-revolucionários (5), uma vez que foi no artigo acima mencionado do *Le Monde* que se podia ler em Dezembro: «o termo “classe operária” é conceptualmente totalmente inadequado para designar aquilo que representa. O proletariado operário não é uma classe social, mas um dos meios sociais da classe proletária ( ... ) que, fundamentalmente, é aquela que vive da venda da sua força de trabalho».

A burguesia pode muito bem imaginar que, ao automatizar e deslocalizar as empresas em grande escala, está a enfraquecer «a classe perigosa» dos operários produtores de mercadorias. Na realidade, tudo o que faz é transformar em «classe perigosa» todos os assalariados prestadores de serviços, apagando assim a fronteira entre os «trabalhadores manuais» — há muito considerados os únicos proletários autênticos — e os «trabalhadores de escritório», relegados para a categoria tranquilizadora das «novas classes médias».

***

O peso do passado

Esforçámo-nos por demonstrar que não se devia minimizar o alcance da oposição que a nova geração do proletariado francês opôs ao governo. É, no entanto, verdade que a importância do serviço público em França explica a característica que impediu que esta oposição fosse reduzida a um mero reflexo dos funcionários contra as ameaças que pesavam sobre o seu estatuto específico. Isso não lhe retira, de forma alguma, o seu carácter exemplar para os trabalhadores de outros países, mas reflecte os limites que lhe devemos reconhecer e que são sublinhados pelo ressurgimento de duas reivindicações tipicamente reformistas: a relançamento através do consumo e a defesa do serviço público, que são os cavalos de batalha do PS e do PC há décadas.

«O relançamento do crescimento através do consumo» pressuporia o regresso das condições que tornaram possível a expansão do pós-guerra.

A primeira dessas condições reside nas enormes destruições da Segunda Guerra Mundial imperialista. A necessidade de reconstrução proporcionou, de facto, ao capital um campo de actividade inesperado antes de 1939, mas que, após trinta anos de expansão «pacífica», lhe faz agora uma falta cruel.

A segunda é, muito simplesmente, o medo que a revolução de 1917 e a agitação dos «anos loucos» inspiraram na classe capitalista e que se prolongou ao longo de toda a Guerra Fria, ou seja, durante décadas após o desaparecimento de qualquer ameaça revolucionária. Embora a actual geração da classe operária pense que se trata de um passado ultrapassado, sem influência na nossa vida actual, foi precisamente desse medo que nasceu a famosa política keynesiana, hoje continuamente oposta ao cinismo do liberalismo. O que Keynes conseguiu fazer com que a burguesia aceitasse foi, muito simplesmente, o facto de que o custo social e político das recessões cíclicas características do século anterior se tinha tornado demasiado elevado, com o aumento paralelo da massa de capitais investidos e da classe assalariada, para que se pudesse deixar aos mecanismos caprichosos do mercado a tarefa de a manter no poder. Foi, portanto, num espírito de conservação social que a burguesia, quer queira quer não, aceitou um crescimento impressionante do papel do Estado na economia, o que, no entanto, lhe custou muito caro.

O paradoxo da situação actual reside no facto de, nos países europeus, o liberalismo ser amplamente considerado uma política burguesa, enquanto a política do Estado-providência — cujos objectivos conservadores há muito foram esquecidos — continua a ser amplamente vista como uma política «proletária»!

Mesmo se nos limitássemos ao aspecto puramente económico, “o relançamento da produção pelo consumo” só foi possível nos “gloriosos anos trinta” graças a um aumento sem precedentes da produtividade do trabalho. O crescimento simultâneo dos lucros capitalistas, do número de operários e de trabalhadores dos serviços, do nível médio dos salários e das despesas do Estado pôde fazer acreditar a toda uma geração que o capitalismo, afinal, não merecia a condenação feita contra ele pelo marxismo revolucionário dos primeiros tempos da Internacional Comunista.

São milhões de homens que hoje têm de fazer o luto por essa ilusão à qual a geração anterior se agarrou. É, no entanto, claro que a produtividade não podia aumentar indefinidamente sem prejudicar o pleno emprego, sem gerar um desemprego que, ao diminuir a massa salarial e, portanto, a procura, assim como os recursos fornecidos ao Estado pelos impostos, provocaria uma recessão gigantesca que minaria as bases da protecção social. Seja quais forem, de facto, as exagerações interessadas do poder em vigor sobre a dimensão dos défices da Segurança Social, é evidente que a perda de milhões de contribuintes afectada pelo desemprego devia abrir nas suas contas um buraco que os capitalistas não se sentiriam de forma alguma obrigados a preencher, dado que a sua única razão de ser é fazer e acumular lucros.

Mais cedo ou mais tarde, a vontade de forçá-los a isso irá apoderar-se das massas assalariadas reduzidas ao desespero, não apenas em França, mas em vários países europeus também atingidos pela crise. Um movimento desses pode perfeitamente desencadear-se com a ilusão de voltar à situação mais suportável dos tempos de expansão e de restaurar um pouco de “justiça” numa sociedade “iníqua” “fazendo os ricos pagar”. Não pode nem desenvolver-se nem triunfar sem que o verdadeiro objectivo, ou seja, o salto para além do capitalismo, se imponha à consciência da sua vanguarda militante. É por isso que o jornalista que, numa revista nada menos que extremista, propôs consagrar “Karl Marx, homem do ano” não é assim tão louco quanto poderia parecer.

«O relançamento da produção através do consumo» não é apenas uma impossibilidade económica fora das condições de que acabámos de falar, um sonho vazio de conservadores e reformistas que não conseguem aceitar a ideia de que o capitalismo não é eterno. É uma reivindicação que tem a sua origem no que há de mais absurdo e anti-social no capitalismo. Antes dele, a humanidade nunca trabalhou e produziu apenas para «consumir», ou seja, satisfazer as suas necessidades. O capitalismo inverteu completamente esta relação. Para ele, a produção não tem outro objectivo senão enriquecer os detentores do capital. Apenas reconhece as necessidades humanas na medida em que estas oferecem um mercado para as suas mercadorias. O consumo das massas trabalhadoras assalariadas, dos trabalhadores independentes e dos próprios capitalistas não é o objectivo da actividade produtiva, mas uma condição, uma simples condição desta.

É por isso que, em tempos de boom, não são os ramos da actividade social capazes de satisfazer necessidades vitais que se desenvolvem, mas sim aqueles que oferecem ao capital as melhores perspectivas de acumulação. Não é por acaso que a civilização dos ' gloriosos anos trinta ' foi a civilização do automóvel e do entretenimento, cujas facturas aumentaram de forma incomparável com as de outros sectores do ramo dos bens de consumo. Mas, tal como a procura solvente não pode crescer indefinidamente, o capitalismo também não é capaz de desenvolver infinitamente as necessidades que ele próprio suscitou: no que diz respeito a automóveis, electrodomésticos, diversões, etc., a saturação acontece mais cedo ou mais tarde.

Em tempos de crise como os actuais, a população desorientada apercebe-se de que, depois de ter acedido, dentro de certos limites, ao «luxo» outrora reservado aos privilegiados, tem a maior dificuldade em satisfazer as suas necessidades vitais. Se, ao longo dos « gloriosos anos trinta », «a satisfação litigiosa substituiu a secular luta de classes», o Movimento de Dezembro demonstrou que se iniciava uma reviravolta, que a era da luta de classes se reabria de novo, ou seja, que os dias das velhas superstições alimentadas pelo reformismo anémico da Esquerda estão agora contados.

Para além da «outra política» continuamente invocada (e que supostamente «relança a produção através do consumo»), a assimilação dos serviços públicos a um sector «socialista» implantado no seio da sociedade capitalista conta-se entre as piores dessas superstições. Sugere, com efeito, que a principal tarefa do proletariado hoje é defender esse sector agora ameaçado. Se isso fosse verdade, seria preciso ir mais longe e afirmar abertamente que o objectivo do proletariado é transformar a economia privada numa economia de Estado. Já ninguém se atreve a fazê-lo, após o fiasco, tanto económico como político, da Europa de Leste e da China «comunistas».

Apesar do que se possa dizer hoje, a economia estatal resolveu, de forma muito mais eficaz do que a economia privada teria conseguido, a questão crucial que se colocava a esses países em atraso. Era-lhes necessário realizar a sua revolução industrial, ou seja, dotar-se do capital produtivo e das infraestruturas de que careciam. A exploração «normal» de um proletariado urbano reduzido e primitivo não teria sido suficiente e teria prolongado desmesuradamente os prazos da transformação. Era necessário explorar ao máximo a classe alimentadora, a mais estática e a menos controlável de toda a sociedade, ou seja, o campesinato, que representava a esmagadora maioria da população. O horror que este suposto «socialismo» inspirou no Ocidente deve-se, em última análise, ao facto de ter concentrado em poucas décadas uma massa de sofrimentos que, na revolução industrial dos países mais avançados, se tinha estendido por um século ou mais.

Que relação tem isto com as questões que se colocam ao proletariado do segundo milénio?

A infelicidade para todos aqueles que tomaram e tomam a epopeia industrialista do Oriente atrasado ou o sector público mais ou menos amplo dos países avançados como «socialismo» é que o socialismo (ou melhor, o comunismo) é, na doutrina de Marx, uma revolução do modo de distribuição da riqueza que o capitalismo impõe a todos os membros da sociedade.

Os correios, os caminhos de ferro, as telecomunicações, a distribuição de electricidade, gás e água, os hospitais e a educação: eis as actividades que se enquadram no sector público em França, com a justificação de que se trata de «actividades de interesse geral». Impõe-se uma dupla observação: a primeira é que, em essência, todas as actividades que visam satisfazer as necessidades vitais dos seres humanos são «de interesse geral». Por que razão seria escandalosa a distribuição de gás e de electricidade por empresas capitalistas, mas perfeitamente normal entregar a alimentação e a habitação a essas mesmas empresas? A segunda observação confirma a futilidade de tal distinção. Se na Itália, em França e na Austrália a totalidade ou quase toda esta área faz juridicamente parte do sector público, o seu número reduz-se quando passamos à Suécia, à Alemanha, aos Países Baixos ou ao Canadá, sendo os campeões da economia privada a Grã-Bretanha, o Japão e os Estados Unidos.

Numa sociedade capitalista, o sector público está necessariamente limitado, quer a sectores que exigem capitais demasiado avultados para as empresas privadas ou uma gestão rigorosamente centralizada, quer a serviços cuja subordinação a uma procura solvente teria um carácter escandaloso, como a educação e a saúde. É, em suma, o preço que a classe capitalista tem de pagar para garantir uma base sólida. Dito isto, é financiado pelo sector privado — incluindo capitalistas, assalariados e trabalhadores independentes — e o trabalho que nele é realizado é trabalho assalariado. Obedece, portanto, às mesmas exigências que nas empresas que geram lucro para os capitais nelas investidos.

Que os salários sejam mais altos e o emprego mais seguro não basta de forma alguma para que toda a classe operária esteja interessada em mantê-los. A classe operária interessa-se pelo socialismo, que se poderia definir de forma aproximada como uma generalização do princípio do interesse geral a todos os ramos da produção e dos serviços. Isso equivale a banir de toda a actividade social não apenas o par conflituoso do lucro e do salário, mas também o do desemprego e a duração legal excessiva do trabalho, e a pôr fim a todas as suas derivações patológicas, como a corrupção, a fraude e os produtos que degradam física e culturalmente os seres humanos.

***

Em conclusão, o que falta à nova geração é ter uma visão do objectivo a alcançar, livre de toda a confusão gerada por um expansionismo capitalista que já está em declínio há vinte anos e pelo suposto fracasso do comunismo em países onde este nem sequer estava na ordem do dia. As declarações recolhidas pelo «Libération» junto de activistas que trabalham na SNCF (edição de 23 de Janeiro) mostram que a empresa está bem ciente disso: «Seria necessário um ideal de sociedade. Não o temos, por isso temos agido ao dia, caso a caso ( ... ) Pega-se em cinco tipos da SNCF, dois da Renault, os desempregados, os jovens dos subúrbios que vão receber 4000 balles para cuidar de parques, todos pensam o mesmo, mas não há nada que os una».

«Um ideal de sociedade» é um programa de classe. «O que une» é um partido político que ousa opor-se a todas as mentiras e a todas as superstições. Não se poderia definir melhor aquilo de que o proletariado necessita do que o fez um trabalhador anónimo que, certamente, não é o único em França a ter sentido essa falta em Dezembro de 1995.

 

Notas:

1 Le Monde diplomatique , Dezembro de 1995.

2  A taxa de sindicalização em França em 1940 era de 42%, de 26% em 1970, de 21% em 1980 e de 11% em 1993. (Bilan du Monde, p.136)

3  Le monde de 7 de Dezembro, M. Cohen "Le nouveau prolétariat vous salue bien”

 4  Em 1995, 'a Marcha do Século' dedicava um programa a uma questão ao mesmo tempo ingénua e pérfida: Onde desapareceu a classe operária?

5  Em Janeiro de 1995, um comentador da agitação social de Dezembro propôs numa revista “respeitável” consagrar Karl Marx como “homem do ano 1995”

 

Fonte: Cahiers du marxisme vivant (nº 1-2 et lettres) – Barbaria

Este texto foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




segunda-feira, 22 de junho de 2026

AS LIÇÕES DE UMA RUPTURA

 


Cahiers du marxisme vivant: As lições de uma RUPTURA

Uma breve história do Partido Comunista Internacional, chamado "Bordigista"

O texto seguinte é a continuação de uma obra publicada em 1983 pelo actual grupo de Cahiers du marxisme vivant. Esta obra, deliberadamente sintética, destinava-se aos poucos grupos de militantes do pequeno Partido da época que tinham demonstrado capacidade de resistir, pelo menos parcialmente, ao "novo rumo" inaugurado por um centro (ou, para ser mais preciso, por três centros sucessivos) em plena decadência teórica e política[1]. Tentou lançar o máximo de luz possível sobre as raízes da crise, tanto próximas como distantes. Terminou com um apelo a todos os que concordaram com os seus critérios e adoptaram as suas conclusões.

Se o nosso apelo não teve a resposta que esperávamos, foi porque o nosso diagnóstico da doença não foi de forma alguma "excessivamente pessimista", como foi criticado. Todos aqueles que tentaram minimizar a crise e preservar algumas das antigas atitudes, ilusões e práticas desapareceram ou persistiram numa trajectória errática e estéril. Dez anos depois, a situação mundial passou por muitas convulsões sem que a luta de classes voltasse ao de cima, mas também vimos forças saudáveis, embora muito limitadas, a corajosamente romperem a turbulência persistente.

É por isso que parece apropriado olhar para o nosso passado como uma corrente ultra-minoritária, mas rica em experiência, conhecimento e fé, para dizer um adeus final a todos os erros que demasiadas vezes o desviaram e desfiguraram, e que ainda o podem levar à cova se não conseguirmos abrir caminho para as jovens forças do futuro.

A formação do Partido Comunista Internacionalista de Itália (1943)

Cerca de quinze anos após a sua histórica derrota e expulsão da Internacional Comunista, a Esquerda Comunista Italiana, conhecida pelas intervenções do seu líder, Amadeo Bordiga, nos primeiros congressos internacionais em Moscovo e pela sua luta contra o novo oportunismo "comunista", reconstituiu-se como um pequeno partido, chamado Partido Comunista Internacionalista.

Apesar das dificuldades que enfrentou, da sua participação limitada e do domínio esmagador do Partido Comunista ligado a Moscovo, em 1946 conseguiu restabelecer uma pequena editora regular, composta por um jornal bimestral Battaglia Comunista e, acima de tudo, uma revista notável, Prometheus. Bordiga colaborou voluntariamente sob condição de anonimato. Embora os militantes, imbuídos do papel dos grandes homens da história, o tenham assediado para o empurrar para a linha da frente, as suas opiniões estavam longe de ser unânimes. Mais tarde, Bordiga caracterizaria este período inicial da vida do pequeno grupo da seguinte forma:

"O trabalho realizado para reconstituir o partido de classe em todo o lado após o fim da Segunda Guerra Mundial foi confrontado com uma situação extremamente desfavorável, permitindo que os acontecimentos internacionais e sociais daquela terrível época (os falsos partidos operários) obscurecessem todos os termos do conflito entre as classes e convencessem um proletariado cego da necessidade de lutar pelo restabelecimento de regimes constitucionais, parlamentares e democratas em todo o mundo.

O nosso movimento estava inexoravelmente contra a maré pelo facto de a grande massa de proletários se ter lançado totalmente no letal eleitoralismo.

[…] Nos seus esforços para se organizar sobre as suas próprias bases, o nosso movimento encontrou outras dificuldades, devido a perspectivas demasiado optimistas. O fim da Primeira Guerra Mundial provocou uma poderosa vaga revolucionária e a condenação da praga oportunista graças a Lenine, ao bolchevismo e à Revolução Russa, e imaginava-se que o mesmo aconteceria após 1945 e que o partido revolucionário poderia ser rapidamente reconstituído.

Esta perspectiva, por mais generosa que fosse, foi, no entanto, um erro grave. Não teve em conta a "fome de democracia" que as ferozes façanhas do fascismo e do nazismo despertaram na classe operária, e acima de tudo a ilusão fatal de que, sem a restauração da democracia, a revolução era impossível.

O novo movimento chegou mesmo a tentar reviver a táctica de Lenine do 'parlamentarismo revolucionário', sem perceber que os seus resultados históricos o tinham condenado irrevogavelmente, embora em 1920, numa altura em que toda a história parecia prestes a ser virada do avesso, o projeto de explodir parlamentos por dentro pudesse ter parecido viável" (Teses de Nápoles, 1965, p. 211).

Embora Bordiga tenha lutado pacientemente contra estas posições, a guerra clandestina à qual a sua autoridade condenava os seus opositores continuou, no entanto, com dois ou três filosofismos como as únicas armas que afirmavam ter retirado do livro O Que Fazer?, de Lenine, e que poderia ser resumida da seguinte forma: "Sem o seu partido, a classe operária não pode ir além do sindicalismo; mas, como classe explorada, continua em todas as circunstâncias potencialmente revolucionária, garantindo à minoria mais avançada uma base social permanente. Qualquer que seja a relação de forças, esta minoria pode e deve sempre cumprir o papel decisivo que o marxismo atribui ao partido de classe, sendo a responsabilidade dos líderes naturalmente maior."

A guerra clandestina causou a cisão em 1952, mas desenvolvimentos subsequentes mostraram que a filosofia em questão era suficientemente resiliente para resistir a tudo.

A cisão de 1952 e a formação do Partido Comunista Internacional

Na Assembleia Geral em Florença em 1951, foram apresentadas as Teses características do Partido. No ano seguinte, estas teses levaram a uma ruptura com o grupo partidário conhecido como a "tendência Damen"[2]. Após recordar os princípios da secção italiana da CI (1921), reivindicados pelo Partido Comunista Internacional, as teses continuaram da seguinte forma:

"A posição do partido sobre a situação do mundo capitalista e do movimento operário após a Segunda Guerra Mundial baseia-se nos seguintes pontos:

Na primeira metade do século XX, o desenvolvimento do capitalismo viu, na esfera económica, o aparecimento [...] de monopólios e tentativas de direccionar a produção e o comércio segundo planos centralizados que chegam à gestão de sectores inteiros pelo Estado; e, na esfera política, o reforço do potencial policial e militar do Estado e formas totalitárias de governo. [Estes fenómenos] não constituem uma transição do capitalismo para o socialismo, [nem] um regresso a regimes políticos pré-burgueses. Pelo contrário, são formas de dominação cada vez mais directa e exclusiva do capitalismo mais desenvolvido sobre o poder político e o Estado.

Este processo exclui qualquer perspectiva de uma evolução pacífica e progressista do regime burguês e, pelo contrário, confirma as previsões marxistas sobre o inevitável crescimento dos antagonismos de classe.

O proletariado deve concentrar e fortalecer a sua energia revolucionária nas mesmas proporções. Para alcançar isso, o partido de classe deve rejeitar todas as exigências de regresso ao liberalismo democrático e de garantias legais, mesmo que apenas para o propósito de agitação. Deve pôr fim de uma vez por todas, mesmo às alianças transitórias entre revolucionários e partidos de pseudo-operários, bem como entre a pequena burguesia e a burguesia."

A parte seguinte, dedicada à história do movimento operário [3], mostrou que a influência contra-revolucionária exercida sobre a classe operária pelos seus principais partidos parlamentares e nacionalistas nunca tinha sido tão forte como no século XX, desde que a URSS regressara ao seio do mundo burguês. Fê-lo domando os partidos comunistas e chegando mesmo a dissolver a Internacional sob a sua bota "para fortalecer ainda mais a frente unida dos Aliados e de outras nações amigas", após o fracasso da tentativa do governo de Estaline em 1939 de fortalecer os laços com a Alemanha nazi, que a população tinha pago com a invasão e o aumento do terror.

Referindo-se às escandalosas mudanças na atitude do "comunismo oficial em relação ao capitalismo anglo-americano, definido como imperialista em 1939, depois como democrático e libertador do proletariado europeu em 1942, e novamente como imperialista em 1951", o texto enfatizava que "o capitalismo dos EUA ocupou o primeiro lugar entre as potências reaccionárias e imperialistas desde a Primeira Guerra Mundial" e que desde então o seu papel se agravara enormemente.

Tendo em conta a participação decisiva dos partidos estalinistas na Resistência Europeia, seguida pelo seu ministerialismo em tempo de paz, a ampla colaboração de classe que defendiam tanto nacional como internacionalmente na ONU, e sobretudo o apoio dado a esta política por amplos sectores da classe operária, o texto concluiu que "o renascimento revolucionário da classe seria tragicamente atrasado e seria muito mais difícil do que nos Estados Unidos no " passado".

Este "pessimismo", que sempre desagradou fortemente a certas camadas do partido, foi, no entanto, plenamente justificado por uma profecia involuntária feita por Lenine em 1916, cujo "optimismo" contrastou facilmente com o "negativismo" de Bordiga, imputando estupidamente aos indivíduos o que pertencia a dois momentos opostos na história da classe operária.

A Rosa Luxemburgo e àqueles que negavam qualquer possibilidade de guerras nacionais na era imperialista, Lenine respondeu relativamente à Europa:

"Se o proletariado fosse enfraquecido durante cerca de vinte anos; Se [uma] guerra imperialista [...] [levaria à] escravização de uma série de Estados-nação perfeitamente viáveis; se o imperialismo não europeu (especialmente japonês e americano) tivesse continuado durante vinte anos sem alcançar o socialismo, então uma grande guerra nacional na Europa seria possível. Este seria um desenvolvimento que atrasaria a Europa várias décadas." (Sobre o panfleto de Junius, O.C. vol. 22).

Tendo cumprido estes três "sims", esta "grande guerra nacional" ocorreu na verdade entre 1939 e 1945 dentro da guerra imperialista.

Assumiu a forma dos movimentos nacionais de resistência ilegais que surgiram em todos os países ocupados pelos imperialistas do Eixo. Uma parte da classe operária participou nestes movimentos ao lado das forças burguesas (muitas vezes para escapar à repressão), mas sem "definir os seus próprios objectivos". A sua acção foi assim subordinada aos objectivos imperialistas dos exércitos regulares e dos governos burgueses no exílio, dos quais os maquis foram naturalmente ordenados a entregar as armas após a vitória da poderosa ofensiva aliada. Mais uma vez, deu o seu sangue pelo capital.

Na sua parte final[4], as Teses Características abordaram o ponto da acção do partido que não só causou a cisão, como se revelou o mais espinhoso, mesmo depois de a Esquerda Comunista Italiana se ter reconstituído sobre as suas próprias bases.

Não foi a primeira vez na história que a minoria revolucionária se encontrou numa situação desfavorável. Os próprios Marx e Engels encontraram-se na mesma situação após a derrota das revoluções de 1848 e depois da Comuna de Paris, a primeira tentativa revolucionária de tomada do poder pelos despossuídos. Após o julgamento dos comunistas de Colónia em 1852, limitaram-se a dissolver a Liga dos Comunistas, salientando que "quando as circunstâncias já não permitem que uma associação funcione eficazmente e quando se trata, antes de mais, de manter o laço de união para que, quando houver ocasião, ainda possa ser utilizado, há sempre pessoas que não conseguem acomodar-se a esta situação e que querem absolutamente que algo seja feito, o que só pode ser estúpido." Doze anos depois, em 1864, tendo surgido um verdadeiro movimento, tornaram-se membros activos da Aliança Internacional dos Trabalhadores, tendo dedicado o tempo livre a que a contra-revolução os obrigava ao seu trabalho científico. Após a derrota da Comuna de Paris e a transferência do Conselho Geral da Primeira Internacional para Nova Iorque para afastar o perigo anarquista, proudhoniano e blanquista, bastou um ano para desistirem e deixarem todo o trabalho a seu favor (1873).

Havia, claro, pessoas entre nós que sugeriram seguir este exemplo, sem perceber que a Liga Comunista pertencia à era passada das "sociedades secretas" e à infância do movimento operário, e que a própria IWA ainda não era um partido puramente proletário. A dois intelectuais que pareciam ter-se juntado ao partido apenas para o convencer melhor da sua inutilidade, Bordiga teve a oportunidade de responder alguns anos depois:

"Marx e Engels distinguiram entre o partido no sentido histórico do termo, que implica a continuidade, a invariância da doutrina de classe e o partido formal ou efémero deste ou daquele período. Mas não há oposição metafísica entre as duas noções, e seria estúpido deduzir dela uma fórmula do tipo: 'Viro as costas ao partido formal e vou para o partido histórico'." [5]

A questão não podia ser resolvida da mesma forma que um século ou oitenta anos antes: o partido que fora o único a combater o oportunismo e revisionismo da Terceira Internacional tinha de permanecer vivo até ao distante "renascimento generalizado do movimento de classe que fará com que todos os resultados da experiência passada sejam seus."

"Hoje estamos no fundo da depressão e não podemos prever um renascimento do movimento revolucionário durante muitos anos. A duração desta depressão corresponde à gravidade da vaga de degeneração que atingiu o movimento operário, bem como à crescente concentração de forças capitalistas adversas."

Por isso, era necessário definir um modus vivendi que permitisse ao partido realizar a verdadeira "travessia do deserto" que se avizinhava:

"A principal actividade hoje é o restabelecimento da teoria marxista do comunismo. Continuamos a usar a arma da crítica [...]. O partido baseia a sua acção em posições anti-revisionistas, tal como Lenine refutou os argumentos da revisão social-democrata e social-patriota.

O proletariado é a última classe explorada na história e nenhum regime de exploração sucederá ao capitalismo: é por isso que a doutrina que nasceu com ele não pode ser modificada ou reformada.

O desenvolvimento do capitalismo desde as suas origens até aos dias de hoje confirmou todos os teoremas marxistas. Todas as chamadas 'inovações' dos últimos trinta anos só mostraram uma coisa: o capitalismo ainda está vivo; Só ensinaram uma coisa: tem de ser demolido.

Hoje, o partido está a realizar o trabalho de registar cientificamente factos sociais para confirmar as teses fundamentais do marxismo.

Embora esteja ciumentamente ligado à sua tarefa teórica como tarefa em primeiro plano, o partido recusa-se categoricamente a ser considerado um círculo de pensadores ou simples investigadores em busca de novas verdades, ou que perderam a verdade de ontem porque a consideram insuficiente.

Apesar do seu pequeno número de membros, o partido não deixa de fazer proselitismo ou propagar os seus princípios oral ou por escrito. Considera a imprensa como a sua principal actividade, pois é um dos meios mais eficazes de indicar às massas a linha política a seguir e de disseminar os princípios do movimento revolucionário.

A penetração do partido nas massas amplas não depende da vontade e decisão dos homens. A situação actual limita-o a uma pequena parte da sua actividade geral, mas o partido não perde uma oportunidade de penetrar todas as lacunas, bem consciente de que não haverá recuperação até que este aspecto da sua actividade se tenha desenvolvido ao ponto de se tornar dominante.

A aceleração do processo depende não só de crises históricas, mas também da actividade do partido com os meios limitados de que dispõe. É absolutamente excluído que este processo possa ser estimulado por receitas, expedientes e manobras dirigidas aos chamados grupos 'proletários', 'socialistas' ou 'comunistas' e ainda mais aos quadros e aparelhos do 'movimento operário' oficial. Este método, que caracteriza as tácticas da Terceira Internacional após a morte de Lenine, não teve outro efeito senão fazê-la perder toda a sua fisionomia de classe e desintegrá-la. O movimento trotskista da Quarta Internacional, que a reivindica e tenta revalorizá-la, considera-a erroneamente comunista. [6]

A esquerda italiana sempre lutou contra os expedientes para se manter à tona como partido e denunciou-os como um desvio do princípio incompatível com o determinismo marxista."

A corrente excluída adoptou a directiva luxemburguista e kaapedista de sabotar os sindicatos dominados por uma burocracia contra-revolucionária. O texto teve de defender a posição da Esquerda Comunista quando ainda liderava o partido (1921-1923). Esta posição permitiu-lhe não só manter laços estreitos com a classe operária após a cisão de 1921 entre comunistas e socialistas, mas também exercer uma influência revolucionária importante nela até Moscovo a eliminar num golpe de Estado e a substituir pela liderança Togliatti/Gramsci, que deveria substituir a estratégia anti-capitalista por uma estratégia anti-fascista mais alinhada com as suas próprias ideias.

"Embora nunca tenha sido imune às influências inimigas, tenha servido constantemente como veículo para desvios profundos e não seja um instrumento especificamente concebido para este fim, o sindicato não pode ser indiferente ao partido, que nunca renuncia voluntariamente ao trabalho nele, distinguindo-se claramente de todos os outros grupos políticos. Mesmo reconhecendo que hoje o seu trabalho sindical só pode ser feito esporadicamente, nunca desiste."

Numa situação em que "a relação numérica entre membros do partido e simpatizantes e membros do sindicato [tivesse] alcançado certa importância" e em que o próprio sindicato não tivesse "excluído até à última possibilidade de realizar uma actividade de classe autónoma" (ou seja, actividade política), as directivas dos anos 1920 teriam recuperado a sua força total. Neste caso, "o partido [teria assumido] a penetração e conquista da liderança."

Embora o texto como um todo indicasse claramente que se tratava de uma antecipação (legítima em 1951) de um futuro hipotético, era demasiado frequentemente entendido como a orientação do momento e, pior ainda, como o único caminho concebível para o ressurgimento revolucionário. Esta interpretação, orientada para o passado, não teve em conta o parágrafo final das características das teses:

"No actual contexto de elevado potencial contra-revolucionário, é essencial formar jovens líderes capazes de garantir a continuidade do partido revolucionário. A contribuição de uma nova geração revolucionária é uma condição necessária para o renascimento do movimento." 

* * *

Durante cerca de dez anos, o pequeno partido tentou valentemente observar este modus vivendi empírico imposto pelo equilíbrio de forças entre as classes. Isto foi ainda mais mérito da escola política onde foi formado, que, ao contrário do partido bolchevique, não tinha "revolucionários profissionais" que pudessem dedicar todo o seu tempo ao estudo, investigação, escrita para a imprensa, etc., quanto mais a realizar tarefas agitacionais. Por outro lado, mesmo que os desenvolvimentos políticos tivessem oferecido mais "lacunas" a alargar perante uma reacção compacta e concentrada, o efectivo ao nosso dispor não teria sido suficiente, especialmente fora de Itália, onde os "líderes" ainda eram pouco mais do que alunos de uma tradição revolucionária nascente e não tinham tropas muito maiores em número do que os próprios.

No entanto, não estava ao alcance de ninguém impedir que os escassos sucessos de tantos esforços reavivassem objecções e dúvidas que momentaneamente tinham desaparecido; que os impacientes queriam varrer os limites estabelecidos pelas teses não tanto para a acção externa do partido, mas para o seu impacto no equilíbrio de forças entre as classes; que uma parte da "base" estava preocupada com uma possível falta de consciência da importância do seu trabalho sindical por parte de militantes não operários, que têm a reputação de serem "demasiado teóricos". Em todo o caso, esta é a conclusão a ser retirada das teses de 1965 e 1966. Na verdade, não responderam apenas (nem sequer principalmente) ao pequeno grupo de liquidatários cujo caso tinha sido apresentado a duas Assembleias Gerais. Foi também (e acima de tudo) uma resposta bastante seca mas tranquilizadora, ao mesmo tipo de questionamento que tinha ocorrido antes da separação. Em vez de uma ameaça real (já que uma reprimenda bastava para os convencer a abandonar o partido), os liquidadores indicavam mais o despertar da guerra clandestina pré-1951. [7]

Os textos, que por vezes repetem palavra por palavra as características Teses, são eloquentes por si mesmos:

"Sempre dissemos que o partido não pode deixar de ser afectado pela situação real que o rodeia. É por isso que os grandes partidos operários que existem são necessariamente e abertamente oportunistas. Isto não significa que o nosso partido tenha de abdicar da sua resistência, mas que deve sobreviver e transmitir a chama 'no fio do tempo'. [8] É claro que será um partido pequeno, não porque o queiramos ou o escolhamos, mas por uma necessidade inescapável. […] Não queremos que o partido seja uma sociedade secreta, ou uma elite que rejeita todo o contacto com o mundo exterior por desejo de pureza. Rejeitamos qualquer fórmula do partido operário que exclua os não proletários. […] Também não queremos reduzir o partido a uma organização cultural, intelectual e académica, nem a uma seita de conspiradores na tradição anarquista ou blanquista.

É evidente que hoje o nosso Partido se caracteriza essencialmente pela restauração de princípios e doutrina, embora faltem actualmente as condições favoráveis em que Lenine desempenhou esta tarefa. No entanto, não podemos erguer uma barreira entre a teoria e a acção prática, porque para além de certo limite estaríamos a destruir-nos. Por isso, apelamos a todas as formas de actividade que sejam apropriadas no momento certo, na medida em que o equilíbrio de poder real o permita.

É um acaso da história que, nesta fase, os camaradas que se dedicam à teoria e à história do movimento pareçam demasiado numerosos e poucos que já estejam prontos para a acção. Todos sabemos que, quando a situação se radicalizar, haverá inúmeras pessoas que instintivamente tomarão o nosso lado, sem terem frequentado cursos universitários.

A nossa extrema suspeita dos falsos aliados pequeno-burgueses do proletariado não deve impedir-nos de tirar partido dos seus elementos excepcionais. O partido dedicar-se-á ao trabalho de restaurar a teoria, sem a qual morreríamos e que no futuro deverá espalhar-se em proporção ao crescimento das massas revolucionárias." [9]

"É uma velha tese do marxismo de esquerda que devemos aceitar trabalhar nos sindicatos onde estão os operários, e rejeitar a atitude individualista daqueles que detestam pôr os pés neles e até teorizam a sabotagem das raras e tímidas greves que os sindicatos actuais ousam realizar. Em muitas regiões, o partido já realizou acções sindicais nada negligenciáveis, apesar de enfrentar sérias dificuldades e forças opositoras numericamente superiores. Mesmo quando este trabalho não foi realizado de forma apreciável, devemos rejeitar a ideia de que o nosso pequeno partido deva ser reduzido a círculos fechados, sem ligações com o exterior" (Tese de Nápoles, 1965, p. 211).

  * * *

Embora rejeitando a ideia de "uma alusão direta a erros ou dificuldades que possam ameaçar o nosso trabalho actual", as "Teses" de Milão do ano seguinte continham um aviso sobre um ponto tão novo e num tom tão invulgarmente severo que, para além daqueles que tinham motivos para se sentirem atacados e de alguns camaradas particularmente atentos à surpresa, o grupo não percebeu o que estava a acontecer. O que aconteceu a seguir, depois de Bordiga se reformar por motivos de saúde, provou infelizmente que a ameaça era demasiado real; As duas passagens mais significativas deste texto:

"Vimos com os nossos próprios olhos como a posição poderosa e generosa de Lenine sobre o parlamentarismo revolucionário foi posteriormente substituída por uma prática dos deputados comunistas totalmente subordinados às piores influências da pequena burguesia e já não revolucionários de todo.

Mesmo que tal generalização ampla não esteja contida na letra do ensinamento de Lenine, que, como nós, foi formado na luta contra o oportunismo [...], tiramos dela a lição de que o partido deve evitar qualquer decisão ou escolha que possa ser ditada pelo desejo de obter bons resultados com menos trabalho e menos sacrifícios. Tal desejo pode parecer inocente, mas reflecte a tendência pequeno-burguesa para a preguiça e obedece à regra capitalista do máximo lucro pelo menor custo.

Outra característica constante do fenómeno oportunista é a combinação dos piores desvios do princípio com uma admiração superficial pelos textos clássicos dos grandes mestres e líderes. A hipocrisia pequeno-burguesa sempre aplaudiu servilmente o líder vitorioso, o poder dos textos de autores ilustres, a eloquência do grande orador, apenas para recair nas mais desprezíveis e contraditórias variações. É por isso que um corpo de teses é inútil se aqueles que o aceitam com entusiasmo literário não capturarem o seu espírito ou o respeitarem nas suas acções, e se se mantiverem puramente formal na letra dos textos para os transgredir melhor.

Na fase da luta armada, os comunistas terão uma estrutura militar e obedecerão a uma hierarquia rigorosa no interesse da causa. Esta é uma verdade que não deve ser aplicada desnecessariamente a todas as actividades partidárias. As directivas devem ser transmitidas por um único canal, mas não devemos esquecer como esta regra da burocracia burguesa é corrompida e degenerada, mesmo quando as associações operárias a adoptam. O funcionamento orgânico do partido não exige de todo que cada camarada considere este ou aquele membro designado para transmitir directivas de cima a baixo como a personificação viva da força do partido. A comunicação entre as diferentes moléculas do órgão do partido é sempre bi-direccional e a dinâmica de cada unidade está integrada na dinâmica do todo. Abusar dos formalismos organizacionais sempre foi e continua a ser uma falha estúpida e suspeita, e até perigosa."

Não demorou muito até percebermos que os novos "líderes" da pequena organização já não consideravam as "antigas" teses de 1951 como base para a filiação, mas sim um terreno repleto de armadilhas que tinham de ser superadas (na ausência de ousar eliminá-las) para "tornar o partido mais eficaz." Juntavam-se à "letra" do texto de forma mais pontual, enquanto o seu "espírito" os irritava cada vez mais. Quanto às "formalidades organizacionais", não tinham escrúpulos em "abusar delas" da forma mais mesquinha e "militar" em nome de uma "razão vital", que era "salvar o partido" que na verdade estavam a desmantelar.

A ofensiva economista e marxista-leninista leva ao desaparecimento do Partido Comunista Internacional (1980-1983)

Enquanto o partido de 1951 estivesse organizado em torno de Bordiga e do grupo de proletários revolucionários que formaram a secção italiana da CI, nenhum desvio poderia triunfar dentro dela, ou sequer expressar-se abertamente. Durante quinze anos, portanto, desfrutou de uma estabilidade notável que contrastava com as vicissitudes complexas que afectavam a corrente trotskista (Quarta Internacional), demonstrando uma grande capacidade de resistir à falta de sucesso prático a que foi forçada desde o início por um ambiente social ainda mais desfavorável à esquerda revolucionária do que o período da Terceira Internacional, mãe do reformismo eleitoral.

Quando esta geração desapareceu, o partido, ao qual se juntaram elementos de outras origens políticas e, portanto, potenciais portadores de outras influências, mudou rapidamente a sua fisionomia. Nos quinze anos que se seguiram às Teses de Nápoles e Milão, crises, deserções e exclusões desencadearam-se uma após a outra, como que a demonstrar a vitória de um duplo desvio: "marxismo-leninismo", para tomar emprestado da degenerada Terceira Internacional o absurdo epíteto com que se adorna, e uma forma de economismo, ambos combinados em proporções variadas.

Foi no final da década de 1960 que o mecanismo desta crise mortal foi desencadeado, quando, perante a perspectiva da unificação das três federações sindicais italianas, o PClnt inaugurou uma política de "defesa e reconstituição do sindicato de classes" em larga escala. Esta política baseava-se numa dupla ideia: sem organizações sindicais poderosas independentes do Estado, o partido não pode desenvolver-se; Para garantir as condições para o seu próprio desenvolvimento, deve promover tais organizações.

Tal conceção contradizia flagrantemente a concepção marxista desenvolvida no texto clássico Partido e Acção de Classe.

"Em todos os momentos, as relações económicas e sociais do capitalismo parecem intoleráveis por parte dos proletários e impelem-nos a tentar superá-las.

Através de vicissitudes complexas, as vítimas destas relações são levadas a experienciar formas de acção colectiva. Mas a sucessão destas experiências [...] leva os operários a perceber que não terão influência real sobre o seu próprio destino até unirem os seus esforços para além de todos os limites legais nacionais e profissionais e até os dirigirem para um objectivo geral [...]: o derrube do poder político da burguesia, Enquanto as estruturas políticas actuais permanecerem em vigor, a sua função será sempre aniquilar todas as tentativas da classe proletária de escapar à exploração. Os primeiros grupos de proletários que atingem esta consciência [...] intervêm nos movimentos dos seus camaradas de classe e, através do exame dos seus esforços, dos resultados obtidos, dos seus erros e desilusões, conduzem cada vez mais deles para o campo desta luta geral e final, que é uma luta pelo poder, uma luta política, uma luta revolucionária."

O significado deste texto é claro: as condições para o desenvolvimento do partido residem no movimento real do proletariado quando este sente que as relações capitalistas são "intoleráveis" e quando tenta superá-las, e não neste ou naquele tipo de organização.

Como é impossível provocar tal movimento, o materialismo marxista exclui a possibilidade de que o partido possa criar sozinho as condições para o seu próprio desenvolvimento. "Partidos ou revoluções não são criados. Partidos e revoluções são dirigidos" (Partido e Acção de Classe).

***

Igualmente séria, opondo-se ao "sindicato de classes" aos sindicatos "integrados" ou "amarelos", esta política também foi alvo de críticas da esquerda às conveniências do sindicalismo revolucionário:

"A burguesia considera que, enquanto for possível manter o proletariado no terreno das exigências imediatas e económicas que interessam a cada categoria, realiza um trabalho conservador, evitando a formação dessa perigosa consciência 'política', a única revolucionária porque visa o ponto vulnerável do adversário, a posse do poder.

Mas não passa despercebido aos sindicalistas do passado e do presente [...] que a ditadura dos líderes pequeno-burgueses sobre as massas assenta ainda mais na burocracia sindical do que no mecanismo eleitoral. […] E então os sindicalistas, e com eles um grande número de elementos motivados simplesmente por um espírito de reacção à prática reformista, começaram a estudar novos tipos de organização criando sindicatos independentes dos tradicionais. Este recurso era errado a nível teórico [...] porque, ao colocar a ênfase no produtor, não ultrapassava os limites da 'categoria', enquanto o partido de classe se dirige ao proletário cujas condições de vida e actividades se estendem para além dos estreitos limites da fábrica, a única forma de despertar o espírito revolucionário da classe. Teoricamente falso, este ficheiro também é ineficaz. […]

Uma interpretação completamente falsa do determinismo marxista [...] leva muitas pessoas a procurar um sistema de organização que, ao reunir quase automaticamente as massas, seja suficiente para as preparar para agir para a revolução. Mas a revolução não é uma questão de forma de organização" (ênfase no original, Partido e Classe).

* * *

A política de defender e reconstituir o sindicato de classe tentou triunfar sobre as dúvidas e resistência que suscitou no partido, invocando a necessidade de centralismo e, ao mesmo tempo, revelando o seu afastamento dos princípios correctos de organização. O centralismo visa garantir a máxima eficácia dos múltiplos esforços dos militantes unidos na mesma política. Mas quando a unidade orgânica do partido é quebrada pelas improvisações de um centro baseado na sua autoridade formal, o centralismo cumpre exactamente a função oposta: garantir a obediência de todos os militantes a uma única facção.

Por um momento, pareceu que o partido tinha eliminado este desvio teórico e político, pondo fim à política de "defesa e reconstrução da união de classes." Poderia esperar-se que fosse libertado do desvio do centralismo formal, tão obviamente pernicioso. Mas o desencanto foi rápido. Assim que o slogan foi publicamente retirado, assistimos ao surgimento de um conceito perfeitamente gémeo ao anterior, segundo o qual, "para garantir as condições para o seu próprio desenvolvimento", o partido teve de fazer todos os esforços para reviver nas massas um "sindicalismo consistente", supostamente capaz de lhe proporcionar a base social que lhe faltava. A única "inovação" foi que, em vez de favorecerem a forma sindical, agora pareciam optar pela forma de comités. Sem corar por terem expulso o partido, sob duras acusações de "Ordinovismo" ou "Kaapedismo", os camaradas que tinham tido a fraqueza de o preferir. [10]

Após semanas de evasão e silêncio culpado sobre as piores heresias dos promotores da política condenada, o centro voltou contra eles o centralismo burocrático que tinham ajudado a introduzir no partido, excluindo-os quase clandestinamente, sem a menor clarificação política. Assim, enquanto fora do partido os firmes apoiantes da "união de classes" se entregavam sem restricções às suas tendências sindicalistas-revolucionárias, o resto da organização progredia pela mesma linha teórica, substituindo o determinismo de Marx[11] por uma caricatura lamentável: o partido não é apenas a consciência e a vontade da classe, mas o motor sem o qual nem sequer pode agir; e o que é cada vez pior, não teve medo de atribuir a autoria desta heresia a Lenine!

A partir daí, a porta abriu-se de par em par para desvios "marxistas-leninistas" do tipo da decadente Terceira Internacional, tão orgulhosamente combatida na década de 1920 pela Esquerda: participação em consultas democráticas (referendos sobre imigrantes e divórcios), criação de organizações guarda-chuva em aliança com o confusionismo de esquerda; lançar slogans democráticos inter-classes e, internamente, campanhas de difamação contra os opositores; segredos e mentiras do partido estabelecidos como um sistema; ocultação das curvas atrás de uma fachada de continuidade; triunfalismo alternando com a "auto-crítica" do tipo estalinista-cristão, e finalmente o uso generalizado de sanções disciplinares, "promoções" e "despromovidos" de militantes mais propensos a provocar hilaridade do que conversões, e até, após um ultimato democrático, exclusão por desobediência à autoridade auto-proclamada do momento.

O partido histórico estava morto. Longe de "criar" o partido formal "compacto e poderoso" com que sonhara na sua total paranoia, o activismo só conseguiu pulverizá-lo em várias novas seitas condenadas a aumentar o patético grupo das antigas.


[1] A fragmentação das secções do sul de França em torno de Suzanne Voute ocorreu inicialmente em conjunto com os camaradas da secção de Turim que mais tarde editariam Quaderni internazionalisti e agora a revista n+1. Consulte o seu site quinterna.org (nota da Barbaria).

[2] Em 1952, o partido deu ao seu jornal o título Il Programma Comunista. Em 1964, o surgimento de secções fora de Itália levou o partido a mudar o nome para Partido Comunista Internacional, pois não tinha encontrado um adjectivo suficientemente expressivo e menos comprometido com as façanhas contra-revolucionárias do estalinismo.

[3] "Tesis características del partido (1951). III Ondas Sucessivas de Degeneração Oportunista" (p. 172-186 do resumo Em Defesa da Continuidade do Programa Comunista).

[4] "Tese Característica. IV Acção do Partido em Itália e Noutros Países em 1952" (pp. 187-191, Em Defesa da Continuidade do Programa Comunista).

[5] "Consideração da actividade orgânica do partido..." (p. 196 de Em Defesa da Continuidade...)

[6] A decadente Terceira Internacional escondeu esta divergência ao nomeá-la com um adjectivo tão impressionante quanto ambíguo

e, de forma ambígua, combatemo-lo sob o seu nome histórico de "Marxismo-Leninismo".

[7] Suzanne Voute refere-se aqui à cisão levada a cabo por Roger Dangeville (que mais tarde criou Le fil du temps) e Jacques Camatte (que constituiu a primeira série de Invariância) e que ela rejeitou por ser demasiado teórica perante as tarefas como "partido". Para uma restituição histórica destas discussões, veja o livro de Sandro Saggioro, In attesa della grande crisi. História del Partito Comunista Internazionale, il Programma Comunista (dal 1952 al 1982). Veja também a primeira parte que explica a ruptura com Damen em Né con Truman né con Stalin. História del Partito Comunista Internazionalista (1942-1952). [Nota de Barbaria]

[8] Título de uma crónica endossada por Bordiga ("Sul filo del Tempo")

[9] "Considerações sobre a Actividade Orgânica do Partido" (1965), Em Defesa da Continuidade do Programa Comunista, p. 197

[10] Isto refere-se à expulsão de várias secções francesas juntamente com as secções escandinavas do PCInt, que criticavam a concepção da organização sobre sindicatos, uma visão formalista do centralismo orgânico e o anti-kaapedismo típico dele (ou seja, a rejeição do KAPD e da esquerda germano-holandesa), enquanto as secções escandinavas fizeram um relatório numa reunião em 1971 onde reivindicaram algumas das suas contribuições no contexto da a Revolução Alemã). [Nota de Barbaria]

[11] "O partido é o produto espontâneo do movimento proletário, ele próprio gerado pelas tendências naturais e irreprimíveis da sociedade moderna" (Carta a Freiligrath, 23 de Fevereiro de 1860).

Fonte: Cahiers du marxisme vivant: Las lecciones de un estallido – Barbaria

Este texto foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice