sábado, 7 de março de 2026

TRAJECTÓRIA ACELERADA PARA A GUERRA... E TENTATIVAS DE RESPOSTA PROLETÁRIA


TrajeCtória acelerada para a guerra... e tentativas de resposta proletária

 

Ucrânia, Gaza, Venezuela, Colômbia, Equador, Irão, Sudão, Estados Unidos... mas também a Gronelândia... assinala o claro aumento das zonas de guerra e a intensificação da violência social e criminal, que agrava uma situação económica já precária. Esta proliferação de áreas de conflito armado, chamadas de baixa ou média intensidade, mas que na maioria dos casos resultam em catástrofes "humanitárias" em grande escala, ilustra inequivocamente a aceleração da trajectória capitalista rumo à guerra generalizada. O mundo capitalista está a preparar-se económica, política e militarmente para surtos belicistas de maior escala.

A reconstituição e reorganização de blocos e alianças, bem como o reforço da divisão do planeta em zonas de controlo e influência, expressam uma preparação belicista e uma perspectiva militar concreta perante um conflito que pode ser iminente. Por isso, é a nível mundial que existe uma tendência para preparar a aceleração do curso rumo às guerras.

No Médio Oriente, África e Ásia, áreas que durante muito tempo estiveram no centro dos interesses imperialistas e conflitos entre os dois antigos grandes protagonistas, os Estados Unidos e a URSS, surgem e intervêm novas potências que estão a surgir entre as grandes: China, Índia, Coreia do Sul, Japão... Esta nova situação põe fim à antiga bipolarização "Este-Ocidente" para redesenhar uma situação plural com múltiplas crises. Neste jogo, é a China de Xi Jinping que se revela como uma das mais empreendedoras, intensificando as suas reivindicações territoriais, especialmente em torno de Taiwan, e esforçando-se por estruturar um quadro internacional livre da hegemonia ocidental.

Esta dinâmica acelera a fragmentação da anterior "governação mundial" ao agravar todas as contradições capitalistas dentro dos blocos militares já constituídos, como a NATO: interesses divergentes no Mediterrâneo, conflito sobre a Gronelândia, posicionamento ambíguo da Turquia; principal ameaça: Rússia ou China; tendência para a autonomia europeia... Chegou o momento de reposicionar estrategicamente e ordenar os lados que poderão enfrentar-se num futuro relativamente próximo.

A persistência dos conflitos na Ucrânia, Gaza e Sudão, juntamente com o recente ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, bem como a instabilidade social estrutural do país, continua a enfraquecer os equilíbrios regionais. Estes focos de tensão geram graves crises humanitárias e mantêm uma pressão constante sobre o equilíbrio internacional cada vez mais instável. O regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos marca uma aceleração profunda deste paradigma, já delineado no tempo de Biden. A administração anterior antecipou o distanciamento da UE e a centralidade da guerra comercial com a China. Intervenções directas, particularmente na Venezuela, bem como caprichos territoriais em relação à Gronelândia, ilustram uma diplomacia transacional (dar e receber) e imprevisível. Do ponto de vista do investimento, o principal motor continua a ser a inteligência artificial, embora enfrente cada vez mais limitações de capacidade energética e riscos crescentes de ameaças cibernéticas e outros tipos de pirataria privada e estatal.

A actual política "trumpiana" está na linha da frente desta tendência mundial de redesenhar violentamente esferas de influência. Desta forma, quebra os antigos equilíbrios da era da "guerra fria" (1945-1991), com os seus códigos pacificados e das "Nações Unidas". Esta nova política pro-activa marca, tanto fora como dentro dos Estados Unidos, o regresso sem desculpas a um autoritarismo alegado e à repressão aberta como principal modo de acção política.

Claro que as "manobras sujas" de todos os tipos nunca cessaram (operações clandestinas e golpes baixos), mas desde o rapto e exfiltração de Maduro, mostram claramente, como indica o nome da operação "Resolução Absoluta", a direcção combativa generalizada que está a ser tomada. A era dos discursos orwellianos com duplo sentido, "falar de paz para se preparar para a guerra", está cada vez mais a dar lugar à afirmação marcial do rearmamento, que, claro, é acompanhada por repressões e pelo ressurgimento de nacionalismos agressivos.

As políticas "trumpistas" são cada vez mais imitadas por outros países, como demonstra a mais recente crise entre a Colômbia e o Equador, onde, no dia seguinte ao pedido do presidente colombiano Petro para libertar Jorge Glas[1], o presidente equatoriano Noboa respondeu impondo tarifas alfandegárias de 30% às importações colombianas. Como resultado, a Colômbia suspendeu acordos cruciais, como o trânsito de petróleo (46 milhões de barris colombianos transitaram pelo oleoduto OCP desde 2013[2]) ou o fornecimento recíproco de electricidade. A escalada das medidas retaliatórias levanta receios de uma grave desestabilização económica para ambos os países. Assim, a economia é usada, mais do que nunca, como a principal arma da guerra. As políticas "trumpistas" também chegam a Cuba.

Em geral, trata-se de uma situação mundial que gera instabilidades geo-políticas, económicas e sociais cada vez mais difundidas. Esta vulnerabilidade não era observada desde 1945 e hoje provoca um aumento dos riscos de crises em todas as áreas: financeira, militar, social, climática... O famoso investidor americano Ray Dalio prevê que, a partir de agora, os Estados Unidos se tornarão um verdadeiro barril de pólvora:

Segundo Ray Dalio, o último colapso deste tipo ocorreu entre 1930 e 1945, "que levou ao estabelecimento da ordem monetária, política interna e geo-política internacional do pós-guerra, que hoje vemos a desmoronar-se." […] Uma fase 6 apresentada como "a mais difícil e dolorosa", pois corresponde ao momento em que "o país fica sem dinheiro e normalmente ocorre um conflito terrível sob a forma de revolução ou guerra civil", com as únicas opções reais disponíveis, uma gestão pacífica ou violenta, derivada directamente das decisões impostas pelos líderes no poder. […] Um terreno fértil para estabelecer a ascensão do populismo, com o surgimento de "líderes com uma personalidade forte, anti-elitistas, que pretendem lutar pelo povo comum". […] Este risco de taxa de câmbio é também reforçado pelo aumento da dívida, com o efeito acelerado associado de uma intensificação da criação monetária a conduzir a uma inflação mais elevada. O resultado: a ordem monetária e política estabelecida é corroída, as desigualdades são acentuadas e as tensões continuam a intensificar-se, a ponto de questionar as relações de poder que existiram até agora." [3]

O ano de 2026 reforça assim a transição para uma ordem mundial complexa, na qual a gestão sistémica dos riscos geo-políticos, financeiros, militares e climáticos é imposta como um imperativo estratégico para todos os Estados. A economia mundial enfrenta, portanto, um crescimento instável e uma crise da dívida soberana. Esta instabilidade produz, em geral, como reacção:

·         Proteccionismo, que é imposto como política comum a todos os Estados após a introdução de novas tarifas impostas pelos Estados Unidos. Estas tarifas representam um sério risco inflaccionário e ameaçam interromper permanentemente o comércio de bens e as cadeias de abastecimento mundiais. Deve notar-se que, historicamente, a concorrência exacerbada levou a políticas proteccionistas que levaram a guerras imperialistas locais e mundiais.

·         Nacionalismo, que continua a ser a cobertura ideológica privilegiada para o proteccionismo. Isto desenvolve-se ainda mais fortemente à medida que confronta outro nacionalismo, que também se tornou mais agressivo. O seu desenvolvimento é simétrico e complementar. Constitui um dos elementos ideológicos indispensáveis no caminho para a guerra.

·         endurecimento generalizado das políticas migratórias e a erosão das chamadas "conquistas sociais", que minam cada vez mais o que eram considerados "direitos adquiridos" da mítica "social-democracia" e das mais recentes "redes sociais". Este endurecimento é acompanhado, regra geral, pelo reforço repressivo do Estado como "resposta" à insegurança social.

Se uma resposta proletária for delineada, esta desenvolve-se de forma antagónica aos pontos característicos do caminho para a guerra e como reacção à ofensiva estatal. No início do ano, dois primeiros esboços desta resposta manifestaram-se claramente, primeiro no Irão e depois nos Estados Unidos:

·         Entre o final de Dezembro e o início de Janeiro no Irão, a força das revoltas foi novamente violentamente esmagada por uma repressão massiva, bestial e implacável.

"O que está a acontecer hoje no Irão não é um evento excepcional nem uma explosão súbita. Esta voz é a de uma vida que, durante anos, foi esmagada pela pressão e que já não suporta a repressão ou o silêncio. As pessoas que saíram às ruas não são instrumentos de conspirações nem peões das potências mundiais; são produto da pobreza absoluta, da repressão contínua, da discriminação diária e de um apartheid entrelaçado no próprio tecido da sua existência. Estes protestos não vêm de fora; emergiram do coração dos lares, das ruas e de seres humanos que já não querem apenas sobreviver, mas viver as suas vidas ao máximo." [4]

E, como Marx já tinha apontado em 1848, em ligação com mais uma derrota proletária:

"Os massacres infrutíferos desde Junho e Outubro, o tedioso banquete expiatório de Fevereiro e Março, o próprio canibalismo da contra-revolução convencerão os povos de que, para encurtar, simplificar e concentrar a agonia assassina da velha sociedade e os sofrimentos sangrentos do nascimento da nova sociedade, só há um caminho: terrorismo revolucionário"

·         Pouco depois, nos Estados Unidos, pelo contrário, foi o início da repressão que acendeu o rastilho e provocou a violenta revolta de uma parte do proletariado e das classes subordinadas num confronto frontal com o Estado federal e as suas forças armadas. Esta tentativa de reacção mostra que a única solução para a ofensiva estatal é desenvolver a arma da luta de classes e da unificação.

"Na sexta-feira, mais de 100.000 pessoas em Minneapolis, Minnesota, enfrentaram temperaturas congelantes e uma sensação térmica de -30 graus Fahrenheit (-34 graus Celsius) para se juntarem às manifestações do "Dia da Verdade e Liberdade" contra o assassinato de Renée Nicole Good por um agente do Immigration and Customs Enforcement (ICE) e a ocupação federal em curso da cidade. A manifestação reuniu amplas secções da classe trabalhadora — profissionais de saúde, professores, carteiros e muitos outros — bem como numerosos estudantes e membros da classe média. Imigrantes e nativos do país desfilaram lado a lado." [5]

A intensificação da trajectória para a guerra, acompanhada por uma repressão cada vez mais generalizada, é a perspectiva do ponto de vista do capital mundial. Perante esta guerra e a catástrofe repressiva prevista, o proletariado tem as chaves para a resposta através do desenvolvimento da sua luta, independentemente de todas as estruturas políticas, sindicais ou nacionais, e isto com métodos de acção directa, sem qualquer ilusão democrática e numa direcção revolucionária. A guerra imperialista, alimentada pelas rivalidades desenfreadas entre as potências capitalistas, deve ser contrariada por uma guerra de classes, movida pelos interesses de uma classe social, o proletariado, que está alienada de toda a riqueza social. Portanto, a classe explorada deve, na prática, manifestar-se em solidariedade com todas as lutas sociais – actualmente, infelizmente, demasiado limitadas – em todo o mundo, esforçando-se por as radicalizar e expandir. Esta é a única forma de pôr fim à barbárie capitalista e ao massacre mundial que paira sobre as nossas cabeças como a espada de Dâmocles, e que é capaz de aniquilar toda a humanidade.

28 de Fevereiro de 2026

"Quem tem ferro, tem pão"

Blanqui: Brindis de Londres (1851)

 

Matériaux Critiques

Liga dos Comunistas Internacionalistas

Equilíbrio e Avanço

Grupo Barbaria

e outros camaradas internacionalistas

______

[1] Jorge Glas, um equatoriano de nacionalidade colombiana, já condenado por corrupção, foi alvo de uma controversa rusga à embaixada do México em Quito em 2024. Em Junho de 2025, foi condenado a mais 13 anos de prisão por desvio de fundos. Vice-Presidente sob a presidência de Rafael Correa.

2] Comunidade Andina das Nações (CAN), uma crise em que os "famosos" princípios da livre circulação de bens não foram tidos em conta.

[3] H. Bernard: Ce célebre investisseur américain prédit un effondrement de l'ordre monétaire et politique actuel, 27 de Janeiro de 2026

4] Pensée et Combat Collective – 17 de Janeiro de 2026

5] https://www.wsws.org/es/articles/2026/01/26/fce1-j26.html

 

Fonte:  Trayectoria acelerada hacia la guerra… e intentos de respuesta proletaria – Barbaria

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice



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