Não há lado a escolher ao longo da linha Durand
Os tambores da guerra
voltam a tocar, desta vez ao longo da fronteira entre o Afeganistão e o
Paquistão, mas o impacto vai muito além das montanhas da Linha Durand. (1) Isto
não é uma questão de fronteira; É mais um tremor dentro da crise mundial do
capitalismo e um passo rumo ao massacre imperialista.
Segundo a imprensa
burguesa, este conflito em particular começou quando o Paquistão acusou o
governo talibã afegão de fomentar grupos terroristas como o Tehrik-e-Taliban
Pakistan (TTP) e de os usar para ataques terroristas dentro do Paquistão. Um
porta-voz talibã, por sua vez, condenou as forças de segurança paquistanesas
por violação da fronteira. O que se seguiu foi um ataque aéreo vindo do
Paquistão, aparentemente contra campos terroristas dentro do Afeganistão, que,
segundo os talibãs, resultou em mortes de civis.
Em resposta, o exército
afegão lançou bombardeamentos transfronteiriços. O Paquistão respondeu com o
seu próprio apelo à 'Guerra Aberta'. Desde então, ambos os lados reivindicaram
danos graves ao exército do outro, enquanto observadores independentes
apontaram que os civis ao longo da Linha Durand estão a sofrer o maior impacto.
Agora, após mais de 10
dias do apelo do Paquistão à 'Guerra Aberta', os combates entre eles não dão
sinais de cessar. Por detrás desta fachada de 'proteger a soberania
territorial' está a realidade da crise, que não é nem acidental nem excepcional.
Em tempos de decadência capitalista, a guerra não é um acidente, mas uma
característica permanente. A guerra dá nova vida aos campos burgueses
estagnados. Não existe um campo progressista para defender, nem um Estado
progressista de 'mal menor' ao qual os operários possam declarar lealdade. O
que parece ser rivalidade regional não passa de confronto entre burguesias. Com
isto, os antigos acordos tácticos colapsaram sob a pressão do capital.
Quando os EUA foram
forçados a retirar as suas tropas do Afeganistão após uma ocupação militar de
duas décadas em 2021, o regime fantoche do país colapsou rapidamente perante a
crescente insurgência etno-religiosa dos talibãs, uma força reaccionária no
âmago. O Paquistão inicialmente apoiou-os e viu-os como um representante
regional leal; enquanto a China, a principal potência imperialista que faz
fronteira com o Afeganistão do outro lado, viu nisso uma oportunidade para
oferecer rapidamente ao governo talibã um lugar no seu projecto Belt and Road,
uma ferramenta de dominação imperial e exportação de capital. O governo talibã
aceitou prontamente isto, ansioso por se aliar aos chineses. Os EUA,
confrontados com o declínio do poder, tiveram de se adaptar relutantemente ao
equilíbrio de poder em constante mudança. Desde então, a China tem desempenhado
um exercício de equilíbrio entre o Paquistão e o Afeganistão.
No entanto, o Paquistão
e o Afeganistão não são marionetas indefesas. O Estado paquistanês tenta
consolidar a influência regional e assim provar ser um aliado mais forte tanto
dos EUA como da China. O Afeganistão, apesar do desenvolvimento económico mais
baixo e desigual, quer manter a autoridade e ganhar mais reconhecimento. Eles
também têm os seus próprios planos na região paquistanesa de Khyber-Pakhtun,
dominada pelos pashtuns, e o TTP, em seu nome, está a conduzir uma guerra por
procuração dentro da região. O Estado paquistanês, como todos os Estados, vê
este problema de cima para baixo e enquadra-o como um problema de refugiados,
onde só afastá-los pode resolver o problema. Esses refugiados eram
maioritariamente trabalhadores do Afeganistão, que dependem em grande parte de
empregos mal pagos para a sua subsistência, a maioria dos quais fugiu durante a
ofensiva da NATO e a insurgência e tomada de poder dos talibãs.
A China dá prioridade
aos seus corredores, ao acesso aos minerais e ao avanço da sua influência
económica regional, evitando conflitos directos que possam ameaçar os seus
projectos. O Irão apressa-se a consolidar o poder na região, protegendo os seus
interesses materiais e geo-políticos. Os EUA aproveitam o Afeganistão como
local para extrair vantagens geo-políticas e punir um Estado pelo seu desafio
em 2021 ao regime cliente anterior. Também oferecem apoio diplomático total ao
Paquistão. A Índia procura explorar o envolvimento ocidental do Paquistão,
garantindo ao mesmo tempo o apoio diplomático aos talibãs afegãos. Em todos os
casos, o comportamento destes Estados reflecte a dinâmica da competição
capitalista mundial, onde as estratégias nacionais estão subordinadas à busca
da acumulação, controlo dos recursos e manutenção de hierarquias de classes
numa escala mundial.
O conflito actual não
pode ser entendido como produto de um único erro de cálculo ou de 'actores malignos'.
Nos países capitalistas atrasados, a guerra surge porque a classe operária não
consegue libertar-se da ideologia burguesa. Clérigos, meios de comunicação e
instituições estatais mobilizam as populações em nome da religião, nacionalismo
ou 'defesa da pátria', prendendo a classe operária à lógica da competição
inter-burguesa. O defencismo de um lado gera chauvinismo do outro, criando um
ciclo em que os operários são subordinados a antagonismos nacionais.
Escolher um país em
detrimento de outro é subordinar a classe operária aos interesses
imperialistas. Cada um é um actor imperial, apenas de diferentes estiradas
dentro do quadro imperialista mundial. Estas diferentes posições dentro do
quadro imperialista mundial não significam uma mudança no carácter de classe. O
campismo (uma perspetiva política que divide o mundo em blocos rivais - geralmente
ocidental vs. anti-imperialista - e defende o apoio ideológico a um desses
lados - NdT), escolher um lado entre o Paquistão e o Afeganistão, Pequim e
Washington, Índia ou Irão, apenas liga o proletariado à sua própria destruição.
O fundamentalismo
religioso não é a causa raiz aqui, como muitos culpam; É uma cobertura para
mobilizar ideologicamente as massas. Os clérigos religiosos tanto do Paquistão
continental como do Afeganistão são rápidos a apoiar os seus respectivos
governantes em nome da 'Guerra Santa'. Não é difícil perceber que isto fornece
o traje místico perfeito para as potências militares em conflito reivindicarem
a sua superioridade enquanto mascaram a violência burguesa.
Um novo estado pashtun
separado do noroeste do Paquistão não resolveria nada, como proclama o TTP. O
alinhamento com os EUA ou a China também não oferece alívio à classe operária.
Já vimos o quão desastrosamente as massas trabalhadoras do Afeganistão se
saíram quando os EUA e os Talibãs disputaram o controlo. Neste momento, estamos
a assistir a como os interesses imperiais chineses se desenrolam na região do
Baluchistão, no Paquistão, e a empurrá-la para mais conflitos internos,
disputas sangrentas entre grupos étnicos e guerra de guerrilha assimétrica.
Por isso, rejeitamos
categoricamente o campismo, o nacionalismo e a mobilização religiosa de todos
os tipos. O problema não é uma questão de política. O Estado capitalista não
pode resolver os problemas porque o próprio Estado representa o problema,
integrado na economia imperialista mundial.
A única coisa que quebra
isto é a luta de classes travada por uma classe operária consciente, unida além
das fronteiras, contra blocos nacionais da burguesia dominante, contra o
imperialismo, contra os gritos de guerra religiosos e contra o conceito burguês
de Estados-nação.
Só a organização da
classe operária internacionalmente contra todas as burguesias nacionais,
burocracias, exércitos, etno-fascistas e hierarquias clericais nos pode levar
para além deste ciclo de crise e massacre intermináveis. Nem a defesa da
pátria, nem o campismo, o dogmatismo religioso, nem quaisquer políticas
burocráticas têm força ou vontade para tal.
Dedicamos a nossa força
e esperamos testemunhar a ascensão de um proletariado consciente de classe
capaz de acabar com isto de uma vez por todas e trazer a libertação de todos.
Contra o massacre imperialista!
Contra o belicismo nacionalista!
Contra o dogmatismo religioso!
Perante tudo isto, defendemos a causa
comunista e respondemos firmemente – não há guerra senão a guerra de classes!
Topaz & Dreamer
Class War (South Asia)
Março de 2026
Notas:
Imagem: Al Jazeera
English (CC BY-SA 2.0), commons.wikimedia.org
(1) A Linha
Durand é a fronteira internacional nomeada em homenagem ao diplomata britânico
Henry Durand, que acordou a fronteira da 'Índia Britânica' com o Emir de Cabul
em 1893.
Sábado, 7 de Março de 2026
Fonte: No
Side to Choose Along the Durand Line | Leftcom
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