sábado, 7 de março de 2026

Não há lado a escolher ao longo da linha Durand


Não há lado a escolher ao longo da linha Durand 

Os tambores da guerra voltam a tocar, desta vez ao longo da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, mas o impacto vai muito além das montanhas da Linha Durand. (1) Isto não é uma questão de fronteira; É mais um tremor dentro da crise mundial do capitalismo e um passo rumo ao massacre imperialista.

Segundo a imprensa burguesa, este conflito em particular começou quando o Paquistão acusou o governo talibã afegão de fomentar grupos terroristas como o Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP) e de os usar para ataques terroristas dentro do Paquistão. Um porta-voz talibã, por sua vez, condenou as forças de segurança paquistanesas por violação da fronteira. O que se seguiu foi um ataque aéreo vindo do Paquistão, aparentemente contra campos terroristas dentro do Afeganistão, que, segundo os talibãs, resultou em mortes de civis.

Em resposta, o exército afegão lançou bombardeamentos transfronteiriços. O Paquistão respondeu com o seu próprio apelo à 'Guerra Aberta'. Desde então, ambos os lados reivindicaram danos graves ao exército do outro, enquanto observadores independentes apontaram que os civis ao longo da Linha Durand estão a sofrer o maior impacto.

Agora, após mais de 10 dias do apelo do Paquistão à 'Guerra Aberta', os combates entre eles não dão sinais de cessar. Por detrás desta fachada de 'proteger a soberania territorial' está a realidade da crise, que não é nem acidental nem excepcional. Em tempos de decadência capitalista, a guerra não é um acidente, mas uma característica permanente. A guerra dá nova vida aos campos burgueses estagnados. Não existe um campo progressista para defender, nem um Estado progressista de 'mal menor' ao qual os operários possam declarar lealdade. O que parece ser rivalidade regional não passa de confronto entre burguesias. Com isto, os antigos acordos tácticos colapsaram sob a pressão do capital.

Quando os EUA foram forçados a retirar as suas tropas do Afeganistão após uma ocupação militar de duas décadas em 2021, o regime fantoche do país colapsou rapidamente perante a crescente insurgência etno-religiosa dos talibãs, uma força reaccionária no âmago. O Paquistão inicialmente apoiou-os e viu-os como um representante regional leal; enquanto a China, a principal potência imperialista que faz fronteira com o Afeganistão do outro lado, viu nisso uma oportunidade para oferecer rapidamente ao governo talibã um lugar no seu projecto Belt and Road, uma ferramenta de dominação imperial e exportação de capital. O governo talibã aceitou prontamente isto, ansioso por se aliar aos chineses. Os EUA, confrontados com o declínio do poder, tiveram de se adaptar relutantemente ao equilíbrio de poder em constante mudança. Desde então, a China tem desempenhado um exercício de equilíbrio entre o Paquistão e o Afeganistão.

No entanto, o Paquistão e o Afeganistão não são marionetas indefesas. O Estado paquistanês tenta consolidar a influência regional e assim provar ser um aliado mais forte tanto dos EUA como da China. O Afeganistão, apesar do desenvolvimento económico mais baixo e desigual, quer manter a autoridade e ganhar mais reconhecimento. Eles também têm os seus próprios planos na região paquistanesa de Khyber-Pakhtun, dominada pelos pashtuns, e o TTP, em seu nome, está a conduzir uma guerra por procuração dentro da região. O Estado paquistanês, como todos os Estados, vê este problema de cima para baixo e enquadra-o como um problema de refugiados, onde só afastá-los pode resolver o problema. Esses refugiados eram maioritariamente trabalhadores do Afeganistão, que dependem em grande parte de empregos mal pagos para a sua subsistência, a maioria dos quais fugiu durante a ofensiva da NATO e a insurgência e tomada de poder dos talibãs.

A China dá prioridade aos seus corredores, ao acesso aos minerais e ao avanço da sua influência económica regional, evitando conflitos directos que possam ameaçar os seus projectos. O Irão apressa-se a consolidar o poder na região, protegendo os seus interesses materiais e geo-políticos. Os EUA aproveitam o Afeganistão como local para extrair vantagens geo-políticas e punir um Estado pelo seu desafio em 2021 ao regime cliente anterior. Também oferecem apoio diplomático total ao Paquistão. A Índia procura explorar o envolvimento ocidental do Paquistão, garantindo ao mesmo tempo o apoio diplomático aos talibãs afegãos. Em todos os casos, o comportamento destes Estados reflecte a dinâmica da competição capitalista mundial, onde as estratégias nacionais estão subordinadas à busca da acumulação, controlo dos recursos e manutenção de hierarquias de classes numa escala mundial.

O conflito actual não pode ser entendido como produto de um único erro de cálculo ou de 'actores malignos'. Nos países capitalistas atrasados, a guerra surge porque a classe operária não consegue libertar-se da ideologia burguesa. Clérigos, meios de comunicação e instituições estatais mobilizam as populações em nome da religião, nacionalismo ou 'defesa da pátria', prendendo a classe operária à lógica da competição inter-burguesa. O defencismo de um lado gera chauvinismo do outro, criando um ciclo em que os operários são subordinados a antagonismos nacionais.

Escolher um país em detrimento de outro é subordinar a classe operária aos interesses imperialistas. Cada um é um actor imperial, apenas de diferentes estiradas dentro do quadro imperialista mundial. Estas diferentes posições dentro do quadro imperialista mundial não significam uma mudança no carácter de classe. O campismo (uma perspetiva política que divide o mundo em blocos rivais - geralmente ocidental vs. anti-imperialista - e defende o apoio ideológico a um desses lados - NdT), escolher um lado entre o Paquistão e o Afeganistão, Pequim e Washington, Índia ou Irão, apenas liga o proletariado à sua própria destruição.

O fundamentalismo religioso não é a causa raiz aqui, como muitos culpam; É uma cobertura para mobilizar ideologicamente as massas. Os clérigos religiosos tanto do Paquistão continental como do Afeganistão são rápidos a apoiar os seus respectivos governantes em nome da 'Guerra Santa'. Não é difícil perceber que isto fornece o traje místico perfeito para as potências militares em conflito reivindicarem a sua superioridade enquanto mascaram a violência burguesa.

Um novo estado pashtun separado do noroeste do Paquistão não resolveria nada, como proclama o TTP. O alinhamento com os EUA ou a China também não oferece alívio à classe operária. Já vimos o quão desastrosamente as massas trabalhadoras do Afeganistão se saíram quando os EUA e os Talibãs disputaram o controlo. Neste momento, estamos a assistir a como os interesses imperiais chineses se desenrolam na região do Baluchistão, no Paquistão, e a empurrá-la para mais conflitos internos, disputas sangrentas entre grupos étnicos e guerra de guerrilha assimétrica.

Por isso, rejeitamos categoricamente o campismo, o nacionalismo e a mobilização religiosa de todos os tipos. O problema não é uma questão de política. O Estado capitalista não pode resolver os problemas porque o próprio Estado representa o problema, integrado na economia imperialista mundial.

A única coisa que quebra isto é a luta de classes travada por uma classe operária consciente, unida além das fronteiras, contra blocos nacionais da burguesia dominante, contra o imperialismo, contra os gritos de guerra religiosos e contra o conceito burguês de Estados-nação.

Só a organização da classe operária internacionalmente contra todas as burguesias nacionais, burocracias, exércitos, etno-fascistas e hierarquias clericais nos pode levar para além deste ciclo de crise e massacre intermináveis. Nem a defesa da pátria, nem o campismo, o dogmatismo religioso, nem quaisquer políticas burocráticas têm força ou vontade para tal.

Dedicamos a nossa força e esperamos testemunhar a ascensão de um proletariado consciente de classe capaz de acabar com isto de uma vez por todas e trazer a libertação de todos.

Contra o massacre imperialista!
Contra o belicismo nacionalista!
Contra o dogmatismo religioso!


Perante tudo isto, defendemos a causa comunista e respondemos firmemente – não há guerra senão a guerra de classes!

Topaz & Dreamer
Class War (South Asia)
Março de 2026

Notas:

Imagem: Al Jazeera English (CC BY-SA 2.0), commons.wikimedia.org

(1) A Linha Durand é a fronteira internacional nomeada em homenagem ao diplomata britânico Henry Durand, que acordou a fronteira da 'Índia Britânica' com o Emir de Cabul em 1893.

Sábado, 7 de Março de 2026

Fonte: No Side to Choose Along the Durand Line | Leftcom

Este texto foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice



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