segunda-feira, 30 de março de 2026

Análise à greve na Air Canada

 


Análise à greve na Air Canada 

A breve mas notável greve dos comissários de bordo da Air Canada, com 99,7 de votos a favor, começou a 16 de Agosto e durou apenas 3 dias. A indústria aérea, sendo uma operação de alto valor, sensível ao tempo e logisticamente exigente, era especialmente vulnerável à pressão de apenas uma parte da sua força de trabalho em greve. Mesmo com estas vantagens, a greve não conseguiu manter-se por muito tempo e foi, como tantas outras greves, declarada ilegal e forçada a arbitragem contra a vontade de 99,1 por cento dos seus membros sindicais que votaram contra as ofertas e a favor da continuação da greve. Apesar de o sindicato ter ousado agir contra essa ordem, foi apenas por um breve momento. A vontade de agir contra o Estado não seria sustentada e era apenas mais uma táctica para atrasar as negociações. Tal greve pode demonstrar o poder da classe operária e a eficácia da táctica da greve, ao mesmo tempo que destaca a supremacia total da lei que actua contra esse poder através do governo e sobre os sindicatos.

Contrato Anterior

Em 2015, o CUPE assinou um contrato de 10 anos com a Air Canada em condições desfavoráveis. Uma série de golpes sofridos pelo sector aéreo, que começou com o colapso financeiro na década de 70, seguido pelos atentados de 11 de Setembro e pelo COVID-19, deixou as companhias aéreas numa corrida frenética para reduzir custos e salários, tendo os comissários de bordo sido obrigados a arcar com grande parte desses encargos. Mais notavelmente, as companhias aéreas começaram a utilizar um sistema de remuneração «brake-to-brake» (de travão a travão), padrão no sector, no qual os comissários de bordo seriam pagos apenas pelo tempo em que o avião estivesse em movimento, sendo todas as tarefas em terra não remuneradas. Este trabalho não remunerado, que na realidade representava horas por dia e podia variar muito, forçou efectivamente os comissários de bordo novos e particularmente azarados a viver com o que era próximo (o CUPE afirma mesmo que, em alguns casos, abaixo) do salário mínimo. Este contrato anterior, como tantas vezes acontece, estava agora a ficar muito abaixo da inflação e tornou-se verdadeiramente insustentável durante a inflação em grande escala e o aumento constante dos custos reais durante a pandemia do COVID-19. Outras companhias aéreas tinham histórias quase idênticas e os comissários de bordo cujos contratos tinham expirado em anos anteriores tinham negociado com sucesso melhores condições. As companhias aéreas Delta, United e American concordaram todas, em arbitragem estatal, com um salário ajustado à inflação e com o pagamento do trabalho em terra para os seus comissários de bordo, o que provavelmente inspirou a liderança do CUPE no que diz respeito a esta greve.

A Greve

A 13 de agosto, o CUPE emitiu um aviso de 72 horas à Air Canada depois de 99,7 por cento dos comissários de bordo terem votado a favor da greve. Imediatamente, a Air Canada enviou um recurso ao Conselho de Relações Industriais do Canadá que, sob a liderança de Patty Hajdu, exerceu o seu direito legal de declarar a greve ilegal. A Air Canada, numa acção preventiva típica, impôs um bloqueio aos trabalhadores e preparou-se para os cancelamentos e atrasos, o que enviou uma mensagem clara aos grevistas. Assim que a greve teve início, foi imediatamente decretada uma ordem de regresso ao trabalho e foi fixado um prazo até às 14h00 do dia 17 de Agosto. A Air Canada chegou mesmo a anunciar que os voos seriam retomados nessa altura. Uma táctica suja destinada a ameaçar os grevistas com a indignação pública por promessas quebradas, que tem sido uma táctica eficaz em muitas outras greves do CUPE, como as do sindicato dos professores e do sindicato dos trabalhadores dos correios. No entanto, isto não funcionou. O CUPE declarou que a greve continuaria, alegando que o CIRB estava a agir contra a própria lei. Isto não é verdade; o CIRB está perfeitamente dentro da lei para destruir todos e quaisquer movimentos laborais como bem entender. No entanto, a ameaça de litígio provavelmente não se destinava a ser literal e esta questão nunca chegaria a tribunal, mas sim a servir apenas para atrasar e aumentar ainda mais o custo da greve. Esta acabou por ser uma táctica eficaz. No dia seguinte, foi emitida uma segunda declaração de regresso ao trabalho para o meio-dia do dia 18. Num acto de postura invulgar, Mark Hancock, o presidente do CUPE, declarou: «Se isso significar que pessoas como eu vão para a prisão, que assim seja. Se isso significar que o nosso sindicato seja multado, que assim seja». No entanto, acabou por ser apenas uma postura e o estilo de greve e negociação do CUPE sob a liderança de Hancock foi mantido.

O Fim da Greve

A 19 de Agosto, menos de 72 horas após o início da greve, o CUPE anunciou que acabaria por aceitar a arbitragem que lhe tinha sido imposta pelo CIRB. Esta decisão não implicava qualquer garantia quanto aos objectivos declarados pelo sindicato e, apesar das declarações de Hancock, visava certamente evitar as multas e a eventual pena de prisão com que se ameaçava caso a greve ilegal se prolongasse por um período de tempo significativo. Neste curto período de tempo, as estimativas do custo efectivo da greve variam entre 300 e 420 milhões de dólares, demonstrando o poder da classe operária para paralisar os seus senhores, caso não fosse impedida pelas restricções do Estado e dos seus sindicatos obedientes. As negociações têm sido mantidas em sigilo até agora, tendo apenas os contratos submetidos a votação sido tornados públicos, mesmo para os próprios trabalhadores. Na sua táctica para isolar os trabalhadores, pouco foi confirmado nestes muitos meses. O CUPE afirmou ter conseguido um aumento salarial parcial para os comissários de bordo e deu a entender que o salário seria indexado à inflação, mas o primeiro contrato foi rejeitado por 99,1% dos votos do sindicato. Para além disso, como é habitual no CIRB e em arbitragens semelhantes, os procedimentos são confidenciais.

O Futuro e os Limites das Negociações Sindicais

Esta greve foi notável em alguns aspectos e pouco notável noutros. No que diz respeito às negociações contratuais propriamente ditas, prevê-se que o acordo seja muito semelhante ao das greves das companhias aéreas acima referidas, com aumento salarial, redução da gestão e remuneração do trabalho em terra. Outros sindicatos de companhias aéreas com contratos prestes a expirar estão também atentos, e os trabalhadores da Air Transat estão a preparar uma greve à data da redacção deste artigo. O que foi verdadeiramente excepcional foi a militância demonstrada pelos próprios grevistas, que se opuseram abertamente às exigências do Estado, ainda que apenas por um tempo. Esta energia, canalizada através do sindicato, esmoreceu e tornou-se irrelevante, uma vez que o poder dos trabalhadores mais uma vez lhes rendeu apenas concessões mínimas. Quando o primeiro contrato foi proposto, quase idêntico ao contrato agora esperado, 99,1% dos trabalhadores rejeitaram o acordo. É claro que, sem a ameaça da lei, sem a ameaça de detenção e de multas exorbitantes, os trabalhadores não teriam qualquer problema em usar o seu poder para tirar o que querem dos parasitas burgueses. Apenas o poder combinado do Estado e das empresas, que agem sempre em conjunto, é suficiente para subjugar a força dos trabalhadores e conduzi-los como gado para os seus manipuladores sindicais.

 

Sábado, 28 de Março de 2026

 

Motim

Motim é o boletim de Klasbatalo.

 

Fonte:  Air Canada Strike Analysis | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice



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