terça-feira, 10 de março de 2026

Yasmina Khadra: o escritor do consenso

 


Yasmina Khadra: o escritor do consenso

10 de Março de 2026 Robert Bibeau


Por Khider Mesloub. 

No cenário literário francófono contemporâneo, dominado pelas instituições parisienses de consagração, Yasmina Khadra surge como um escritor unanimemente celebrado. A media elogia-o, as editoras promovem-no, os programas de televisão convidam-no e os leitores aclamam-no.

A formação de um escritor em Paris

Essa unanimidade, contudo, deveria despertar a curiosidade crítica. Pois a história da literatura francesa revela uma constante: obras que realmente desafiam a ordem estabelecida jamais encontram um consenso tão confortável. Essa consagração, porém, não surgiu espontaneamente: é produto de um sistema literário centrado em Paris, a verdadeira capital da legitimação francófona. Yasmina Khadra é, em muitos aspectos, um escritor de fabricação francesa: moldado, promovido e, em seguida, consagrado pelos círculos editoriais e mediáticos parisienses. Portanto, devemos questionar a natureza precisa dessa literatura que agrada a todos, não incomoda ninguém e desenvolve-se sem problemas no cenário editorial francês.

Por trás dos floreios estilísticos, das narrativas oníricas e das fábulas morais, a obra de Yasmina Khadra revela a sua verdadeira função: produzir um discurso ficcional perfeitamente alinhado com a ideologia dominante do sistema literário francês — uma arte do consenso, uma obra de acomodação. Essa conformidade ideológica está, sem dúvida, ligada à posição privilegiada que Yasmina Khadra ocupa hoje no mundo editorial francófono.

No panorama literário contemporâneo, Yasmina Khadra ocupa uma posição singular: romancista prolífico, aclamado pela media e abraçado pelos círculos editoriais parisienses, é apresentado como uma das grandes vozes da literatura francófona. Mas, para além desse reconhecimento institucional, permanece uma questão raramente levantada: o que resta, de facto, da sua obra quando se removem a ênfase estilística, o pathos romântico e as fábulas morais que a permeiam? Sob o verniz da prosa lírica, emerge um estilo de escrita surpreendentemente coerente com a ideologia dominante no campo literário francês: uma literatura de consenso, onde as tragédias do mundo são reduzidas a dramas humanos abstractos e onde a emoção toma o lugar do pensamento.

Existe um contraste notável entre o Yasmina Khadra dos livros e aquela que encontramos na televisão ou em entrevistas de rádio. Duas figuras parecem co-existir sem nunca se fundirem. De um lado, o autor de romances líricos, repletos de floreios estilísticos e pronunciamentos morais; do outro, um homem com um discurso simples, por vezes rudimentar, falando em francês coloquial, desprovido dos efeitos estilísticos que caracterizam os seus romances. Essa dissociação é intrigante: alimenta a suspeita de um profundo abismo entre a sua persona literária e a sua realidade intelectual.

Porque Yasmina Khadra não é um intelectual no sentido universal e enciclopédico do termo. Ele não produz conceitos nem análises estruturadas do mundo contemporâneo. Não pertence a nenhuma tradição filosófica ou teórica. O seu domínio reside noutro lugar: a manipulação hábil da língua francesa. Khadra é um gramático, no sentido de que domina os mecanismos narrativos e estilísticos do francês. Mas esse domínio linguístico não basta para torná-lo um pensador. Faz dele um artesão das palavras. Khadra é um marabu literário, um encantador romancista convencido de que pode curar os males da sociedade através da magia das palavras.

Moralidade versus história

Essa limitação torna-se ainda mais evidente considerando que a obra de Yasmina Khadra é dominada por uma estética onírica, algo que o próprio autor reconhece. Em entrevista ao jornal regional La Provence, ele afirmou: "Eu agarro o leitor pela mão... os diálogos são reelaborados pelo poder das imagens oníricas". Tudo está contido nessa palavra: imagens oníricas. Khadra situa-se no reino dos contos de fadas. Os seus romances assumem a forma de fábulas morais, narrativas saturadas de emoção e pathos, concebidas para cativar o leitor muito mais do que para iluminar a realidade.

Na obra de Yasmina Khadra, a escrita tende a transformar conflitos históricos em tragédias morais abstractas. Guerras, violência política e dramas colectivos tornam-se histórias individuais mitificadas. A dimensão histórica e política, então, dilui-se em favor de uma moralidade consensual e infantilizante: conflitos e dinâmicas de poder são metamorfoseados em parábolas.

Alguns críticos falam em moralismo. Mas talvez seja algo completamente diferente: uma imaginação profundamente imbuída de religiosidade. As narrativas khadrianas baseiam-se frequentemente em padrões emprestados de tradições místicas: pecado, provação, sacrifício, redenção. O mundo aparece como um teatro moral onde os indivíduos são confrontados com a sua consciência, em vez de com as estruturas históricas e as relações sociais que determinam o seu destino.

Essa dimensão mística e confessional da imaginação de Khadra é ainda mais confirmada no seu último romance, * O Prior de Belém *. Ao situar a sua trama no mundo das comunidades religiosas e figuras místicas do Oriente Próximo, Khadra amplia essa tendência de transformar conflitos históricos e geo-políticos em narrativas de natureza moral e mística, onde a interpretação religiosa suplanta toda a análise histórica. O mundo não aparece mais como um campo de forças sociais e políticas, mas como um teatro moral povoado por figuras de fé, sacrifício e redenção. Essa orientação confirma o lugar central ocupado na sua obra por uma visão mística da realidade, onde a moralidade e a fé relegam toda a análise histórica para um segundo plano.

Essa abordagem aos conflitos, tratando-os em termos morais em vez de históricos, já aparece noutro romance de Yasmina Khadra. Em O Ataque , o autor retrata um médico palestiniano que descobre que a sua esposa é a autora de um atentado suicida. Essa escolha narrativa não é insignificante. Ao rotular essa mulher como "terrorista", o romance adopta imediatamente a terminologia do discurso sionista, amplamente utilizada no vocabulário político dominante no Ocidente.

A questão palestiniana é, portanto, transposta do âmbito histórico e colonial para o da culpa moral e do terrorismo. Através desse recurso narrativo, o romance acaba por cometer um verdadeiro ataque à verdade histórica: um conflito colonial é reduzido a uma tragédia individual. Essa mudança do registo político para o psicológico e moral constitui a verdadeira força motriz da narrativa. O conflito, então, surge menos como uma realidade colonial e geo-política do que como uma tragédia íntima estruturada em torno da figura do "terrorismo", correndo o risco de obscurecer os seus fundamentos históricos e políticos.

Esse método de despolitizar o conflito através da moralização ou de uma interpretação confessional do drama reaparece hoje em O Prior de Belém . O conflito israelo-palestiniano é reconfigurado ali dentro de uma estrutura religiosa: os confrontos geo-políticos são reduzidos a dramas de consciência, enquanto as relações de poder se dissolvem numa narrativa de pecado e redenção. É precisamente essa escolha narrativa que merece ser examinada.

No momento em que a Palestina continua a ser um dos epicentros mais trágicos do mundo contemporâneo, Yasmina Khadra escolhe aí situar o cenário do seu romance O Prior de Belém, ao mesmo tempo que contorna cuidadosamente a realidade política que dilacera esta terra palestiniana ensanguentada há mais de oitenta anos. Enquanto Gaza se transforma num cemitério a céu aberto, implacavelmente bombardeada pelo exército israelita, e enquanto a questão palestiniana é primordialmente uma questão de história colonial e territorial, Khadra privilegia uma ficção mística com uma inclinação ecuménica, centrada num mosteiro e em jornadas espirituais. Mesmo quando o conflito aparece em segundo plano, Yasmina Khadra reconfigur-o a partir da perspectiva de uma tensão sectária, como se a tragédia histórica da Palestina decorresse sobretudo de um mal-entendido entre judeus e muçulmanos. Na obra de Yasmina Khadra, essa transição do político para o religioso revela um deliberado apoliticismo literário: a realidade concreta do conflito dissolve-se na sua narrativa numa meditação ecuménica onde as estruturas de dominação e as dinâmicas de poder se dissipam, dando lugar a uma fábula moral. Esse apoliticismo, portanto, aparece menos como uma mera postura literária do que como uma estratégia deliberada de evasão, através da qual o escritor contorna a própria realidade política que afirma iluminar.

A confessionalização dos conflitos

Essa orientação explica em parte o sucesso de Yasmina Khadra no cenário literário ocidental. A sua obra encaixa-se perfeitamente na estrutura ideológica dominante do mercado literário ocidental, saturada de moralismo compassivo: humanismo consensual, primazia dos destinos individuais, denúncia abstracta da violência e supressão de análises políticas das relações de poder. Conflitos armados transformam-se em dramas humanos abstractos, por vezes reduzidos a meros mal-entendidos religiosos. Essa moralização da violência torna essas narrativas perfeitamente compatíveis com o panorama editorial ocidental.

A função ideológica dessa literatura consensual é particularmente evidente no romance *Os Virtuosos *, de Yasmina Khadra. O livro foi publicado num momento oportuno em que a França reavivava a memória das suas tropas coloniais: o reconhecimento tardio dos Harkis, a reabilitação dos Tirailleurs (artilheiros – NdT) senegaleses e o lançamento simultâneo do filme *Tirailleurs*. Cultura e política pareciam convergir, portanto, num único projecto memorial voltado para o reforço da narrativa nacional e para a preparação das mentes para as novas guerras anunciadas pelo Estado imperialista francês. Nesse clima de militarização simbólica, o romance de Khadra retrata o destino de um pastor argelino alistado nas tropas coloniais e enviado para lutar nas trincheiras de 1914-1918. O maior massacre imperialista do século XX é transfigurado num afresco romântico que exalta a coragem guerreira, o fervor patriótico e o sacrifício em combate. A guerra, longe de ser examinada como um sistema capitalista de destruição em massa, torna-se, na escrita de Khadra, uma provação moral quase redentora. Assim, sob o disfarce de uma narrativa humanista, a violência militar é paradoxalmente reabilitada na história de Khadra. Com este romance, *A Virtuosa *, Yasmina Khadra vê-se, contra a sua vontade, reduzido ao papel de mero porta-voz de um imperialismo francês em busca de uma narrativa de guerra galvanizadora. Essa postura está, sem dúvida, ligada à aceitação, por parte do escritor, da distinção de "Cavaleiro" da Ordem Nacional da Legião de Honra, concedida pelo governo francês durante a presidência de Nicolas Sarkozy.

A postura megalomaníaca de Khadra

Esse reconhecimento institucional está intrinsecamente ligado à forma como o escritor constrói e promove a sua própria imagem pública. Essa representação do escritor como uma figura moral é acompanhada por uma persona pública singular. Yasmina Khadra não apenas ocupa o cenário literário; ele cultiva com afinco a sua própria auto-promoção. Em diversas entrevistas, ele refere-se a si mesmo na terceira pessoa e não hesita em se apresentar como "o maior escritor cuja voz ressoa no mundo hoje", alegando ser "mais famoso que a Argélia" ou declarando que não consegue imaginar "um escritor que o supere no âmbito do romance". No caso de Yasmina Khadra, essa retórica de excepcionalidade fomenta a imagem de um autor investido de uma missão quase profética e, por vezes, beira uma forma de megalomania literária. Revela também uma concepção singular de grandeza literária, onde a visibilidade mediática e o renome internacional parecem servir como consagração literária. Contudo, a história da literatura demonstra justamente o contrário: grandes escritores raramente se distinguem proclamando a sua própria grandeza.

Poder-se-ia objectar que o valor de uma obra não é sinónimo da personalidade do seu autor. Isso é verdade. Mas quando, no caso de Yasmina Khadra, a própria persona pública do escritor pretende atestar a sua grandeza literária, torna-se difícil não questionar a discrepância entre essa auto-proclamação e a realidade da obra.

O sucesso de Khadra, portanto, faz parte de uma tendência cultural mais ampla. Centros de consagração literária – Paris em particular – valorizam prontamente narrativas que traduzem as tensões do mundo numa linguagem moral e despolitizada, em vez de uma análise das relações de poder e das estruturas históricas que as produzem.

Dessa perspectiva, a figura de Yasmina Khadra apresenta-se profundamente contraditória: um ex-soldado que se tornou romancista de moralismo consensual, um crítico tímido da violência do mundo capitalista, porém consagrado pelas instituições culturais francesas, um autor celebrado pela sua escrita, mas raramente pela profundidade do seu pensamento. Essa tensão torna-se evidente quando se deixa de procurar nele um pensador.

Em última análise, Yasmina Khadra é, talvez, antes de tudo, um contador de histórias. Um mestre da linguagem, capaz de cativar o leitor e enfeitiçá-lo com contos repletos de emoção e lirismo. Mas a literatura não se limita à arte de contar histórias: ela também pode ser um veículo para a compreensão do mundo.

É precisamente nessa área que a obra de Khadra revela as suas limitações. O escritor Jean Bothorel escreveu: "Consenso é alienação alegre". É essa alienação alegre que a literatura consensual de Yasmina Khadra destila.

Ainda é necessário questionar o que esse consenso parisiense realmente abrange, porque celebridade não é necessariamente sinal de pensamento profundo.

Na obra de Yasmina Khadra, por trás da habilidade estilística e da eficiência narrativa, o pensamento permanece singularmente pobre: ​​um odre de vinho elegantemente moldado, mas na sua essência estranhamente vazio.

 

Khider MESLOUB

 

Fonte: Yasmina Khadra : l’écrivain du consensus – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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