Salários, emprego e as trombetas desafinadas da burguesia
Publicamos aqui uma
tradução dos nossos camaradas na Battaglia Comunista sobre a condição da classe
operária em Itália. Grande parte dela será também uma leitura familiar para operários
fora de Itália.
Introdução
O artigo seguinte é uma
atualização de um artigo anterior publicado no Prometeo n.º 28 em 2022. (1) As
declarações da Primeira-Ministra Meloni na véspera do Dia do Trabalhador
levaram-nos a "reabrir o assunto." Não que a mensagem de auto-promoção
da Meloni fosse diferente do que ela tem vindo a dizer há cerca de dois anos:
ou seja, a habitual imagem descarada de uma realidade que não existe, tirando a
enxurrada de disparates disparadas pela televisão e pelos ecrãs dos telemóveis.
Não só a "Terra Prometida" promovida pelo Primeiro-Ministro não
aparece no radar da classe operária, como, pelo contrário, parece mais distante
do que nunca.
Este artigo refere-se
principalmente a dados do final de Março, mas dados divulgados por volta de 1
de maio apenas confirmam, se não agravam, o quadro sombrio que o proletariado
enfrenta. Um número, entre muitos, é o encargo fiscal sobre os recibos
salariais, que mais uma vez desmente aquilo que o governo
"soberanista" apresenta como uma das suas maiores conquistas para a
classe operária: a suposta redução das deduções fiscais (ver abaixo). A própria
OCDE, essa "Bíblia" tanto para a direita como para a esquerda
capitalista, diz o seguinte:
“Em 2024, segundo o relatório "Taxing Wages 2025" da OCDE, o
encargo dos impostos sobre o trabalho para um único trabalhador aumentou 1,61
pontos percentuais, atingindo 47,1% dos custos laborais e mantendo-se bem acima
da média da OCDE (34,9%). O italiano é o aumento mais significativo entre os
países da OCDE. A Itália ocupa o quarto lugar pelo tamanho do calço, ou seja, a
diferença entre o custo do trabalho suportado pelo empregador [empreendedor,
dizemos...] e o rendimento líquido recebido pelo trabalhador. (2)
A razão para esta aparente
incongruência com a propaganda tóxica do governo é facilmente explicável: os
(escassos) aumentos contratuais resultantes da renovação de uma parte dos
contratos de trabalho desencadearam a taxa de imposto mais elevada, de modo que
o que é dado com uma mão é retirado com a outra — pelo Estado, o supremo
defensor dos interesses dos empregadores e da burguesia. Nada mau para um
governo favorável à classe operária. ...
Emprego: Propaganda versus Realidade
A 1 de Abril, o ISTAT(3) publicou
uma actualização sobre as tendências de emprego em Itália. A taxa de desemprego
tinha descido para 5,9% em Fevereiro, a mais baixa desde 2007, quando era de
5,8%. Além disso, havia mais 567.000 pessoas empregadas em comparação com o
mesmo mês de 2024, elevando a taxa de emprego para 63%. A única nota
discordante dizia respeito à população inactiva, que, com um aumento de 0,3%,
atingiu os 32,9%. Como é bem sabido, "pessoas inactivas" são
definidas como aquelas que, apesar de não terem emprego ou estudar, já não
procuram trabalho porque foram desencorajadas a fazê-lo.
No geral, portanto, esta
parece ser mais uma medalha que o governo maravilhoso pode prender no peito,
excepto que outros dados divulgados alguns dias antes fazem com que a medalha
corra o risco de se assemelhar a uma piada do Dia das Mentiras contra a classe operária.
De facto, na última semana de Março, primeiro a OIT e depois o ISTAT divulgaram
dois documentos que rapidamente esvaziaram a vulgaridade do governo.
Comecemos pelo segundo,
o relatório ISTAT (Condições de Vida e Rendimento Familiar), que, essencialmente,
não diz nada de novo ou sensacionalista, mas confirma uma tendência de longa
data que está a afectar gradualmente milhões de pessoas da classe operária que
veem as suas condições de vida piorarem. Os números mostram que, em 2024,
13.525 milhões de pessoas estavam em risco de pobreza (para além dos quase seis
milhões que sobrevivem em pobreza absoluta), ou seja, 23,1% da população,
comparado com 22,8% em 2023. Estão em risco de exclusão social — como regista
banalmente a linguagem estatística fria — pois, simplesmente, mesmo que trabalhem,
têm dificuldade em chegar ao fim do mês (mesmo quando o fazem sem se
endividar), porque os salários são baixos, muitas vezes nem remotamente
suficientes para sobreviver semana após semana, mesmo quando cumprem as
cláusulas dos contratos nacionais. O contrato de segurança privada,
assinado—nem é preciso dizer—pelos sindicatos, é notório, prevê um salário por
hora bem abaixo do limiar de €9 por hora indicado como salário mínimo viável.
Mas mesmo que trabalhe num sector que ofereça salários hora mais elevados, pode
estar muito perto da pobreza se o emprego ficar preso às muitas formas de
trabalho legal ou ilegal e precário. Este tipo de laço aperta o pescoço de
milhões de operários, predominantemente mulheres, jovens e imigrantes.
Não é por acaso que são
os segmentos mais desfavorecidos (ou seja, esmagados) da classe operária, um
facto que qualquer inquérito sobre emprego, de onde quer que venha, regista
regularmente. Em suma, o emprego é o mais alto desde o virar do século — como
disse a primeira-ministra, com o seu habitual desprezo pelo ridículo — mas
estes são geralmente "empregos de merda", para usar o termo
coloquial: salários muito baixos, inseguros, onde a opinião dos patrões não tem
limites.
Além disso, e mais uma
vez, o aumento "espectacular" do emprego não se deve aos poderes
milagrosos de Meloni, mas faz parte de outra tendência internacional,
certamente europeia, que acelerou há pelo menos uma década. Em 2014, o
desemprego na Zona Euro era de 12%, dez anos depois era de 6,5%, o que significa,
segundo o instituto que forneceu os dados, mais 20 milhões de empregos. Então,
tudo bem? Depende de como se vê. Do ponto de vista dos patrões, tanto
"públicos" como privados, sim, mas do ponto de vista da classe operária,
certamente menos. Na verdade, o que importa não é a quantidade, mas a qualidade
do emprego, que é geralmente inversamente proporcional à primeira. A burguesia
mais "consciente", digamos, ou aqueles sem interesses eleitorais a
proteger, notam isto, também porque está ali para todos verem: "A Europa
avançou para um modelo ligeiramente mais americano, onde todos têm um emprego,
mas um emprego podre." Este emprego "podre" caracteriza-se por
precariedade e baixos salários, tanto à hora como mensais, devido à redução
forçada do total de horas de trabalho:
“'Minijobs' na Alemanha, contratos de horas flexíveis, trabalhadores em
plataformas de entrega ao domicílio (Deliveroo, Uber Eats, etc.)... Por todo o
Velho Continente, as reformas do mercado de trabalho multiplicaram-se, com o
objectivo de simplificar os despedimentos [o Jobs Act, portanto, não é uma
prerrogativa italiana], reduzir o apoio aos desempregados e facilitar as
obrigações dos empregadores.(4)
O mercado de trabalho
italiano e as pressões políticas que o governam não são excepção a este quadro.
Isso é de esperar, dado que ambos são resultado da lógica do capital e, hoje,
da sua crise estrutural que se prolonga há décadas. Em suma, trata-se da
aplicação burguesa de um antigo lema do movimento laboral, principalmente numa
vertente radical-reformista: "Menos trabalho, trabalho para todos."
Para além do amargo sabor de piada, não é surpreendente que esta redução
forçada de horas trabalhadas seja acompanhada pelo fenómeno crescente de
empregos duplos ou até triplos na Europa — tal como nos EUA — para garantir um
salário digno. Em resumo, para reiterar mais uma vez, a maior taxa de emprego
obtém-se precisamente através da compressão dos salários e do agravamento das
condições de trabalho, ou seja, pela exacerbação da exploração, tudo em
detrimento das ilusões reformistas.
Além disso, há outro
aspecto importante que ajuda a explicar o aumento do emprego, e é outro
indicador das dificuldades com que o capital tem lutado há mais de meio século.
Este é o chamado "inverno demográfico", ou seja, o declínio progressivo
dos nascimentos nas últimas décadas, juntamente com o envelhecimento da
população. São duas faces da mesma moeda, talvez mais pronunciadas em Itália,(5) mas um
fenómeno presente em todas as regiões do chamado capitalismo avançado.
Amalgamar o
"inverno demográfico" com a queda da taxa de lucro — a raiz das
dificuldades — pode parecer um exagero ideológico, mas, ao examinar mais de
perto, a relação emerge de forma mais clara. Para além das indiscutíveis
mudanças "culturais" das últimas décadas, a diminuição da taxa de
natalidade está intimamente ligada tanto à progressiva redução dos serviços
sociais — a depredação dos salários indirectos — como ao aumento da insegurança
no emprego com os salários baixos, se não muito baixos, como referido acima.
(Embora salários baixos não sejam prerrogativa dos precários.) As mulheres são
especialmente afectadas pelo trabalho involuntário a tempo parcial, algo que
obviamente impacta negativamente a possibilidade de estabelecer as condições
mínimas para "começar uma família", como costumavam dizer.
Para além de serem
evidentes, existem inúmeros estudos académicos "oficiais" que demonstram
como a crise do processo de acumulação é um obstáculo à própria reprodução da
força de trabalho.
A longa citação que se
segue descreve o dilema em que muitos casais se encontram, muitas vezes mesmo
quando ambos estão a trabalhar:
“O rendimento de um casal operário com uma criança de um ano pode não ser
suficiente para cobrir os custos de habitação, alimentação, transporte e
creche. Isto chama-se armadilha dos dois rendimentos(6) e
torna-se cada vez mais comum [...] para famílias de baixos rendimentos onde
ambos os pais estão empregados, e particularmente na faixa média, os custos
cresceram mais rapidamente do que o rendimento total da família desde o final
da década de 1970. Por outras palavras, o poder de compra dos operários
diminuiu. (7)
Em muitos casos, várias
formas de assistência social às famílias são fundamentais, mas, desnecessário
dizer, não são suficientes para contrariar o ataque de décadas dos capitalistas
ao proletariado, um ataque tão intenso que provoca um colapso da taxa de
natalidade. É precisamente a burguesia, agente do capital, que também se opõe à
vida a partir desta perspectiva. Para dar outro exemplo, é notório que os
empreendedores (chefes), antes de contratarem uma mulher, frequentemente a
intimidam perguntando se pretende ter filhos, ou fazem-na assinar um formulário
de demissão em branco, para a poderem despedir sem complicações burocráticas
caso engravide.
No entanto, ainda mais
do que o "inverno demográfico", embora real, há outro elemento que
explica o aumento do emprego em Itália: deve-se quase exclusivamente ao facto
de os maiores de cinquenta e sessenta anos serem forçados a continuar a
trabalhar porque as várias reformas das pensões têm acorrentado cada vez mais
pessoas ao "remo" das galés dos empregadores (nomeadamente, os do sector
público). Para dar alguns números: "Em Fevereiro, o número de pessoas
empregadas aumentou 47.000 em comparação com Janeiro e atingiu um novo recorde
de 24.332 milhões, enquanto, em termos anuais, o crescimento é de 2,4%, equivalente
a +567.000 novos empregos." Mas o "aumento de 567.000 pessoas
empregadas em comparação com Janeiro deve-se a +542.000 de pessoas com mais de
50 anos e 52.000 mais jovens entre os 15 e os 24 anos estarem empregados. Os
principais grupos em idade activa estão a diminuir em 17 mil pessoas empregadas
(35-49 anos) e 10 mil pessoas empregadas (25-34 anos), respectivamente. [...]
Além disso [...] anualmente, o emprego feminino está a crescer quase o dobro da
taxa (+3,1%) do emprego masculino (+1,8%), mesmo que a taxa de 54,2% permaneça
cerca de 13 pontos abaixo da média europeia". (8)
O inefável Ministro dos
Transportes, cuja simples menção nos deixa enjoados, construiu a sua carreira
política sombria com a promessa de abolir as piores — mas em linha com as
anteriores — reformas das pensões. Entretanto, escusado será dizer, o
desmantelamento da lei "Fornero"(9) desapareceu
sem deixar rasto e, de facto, existe um risco real de que a idade de reforma
aumente ainda mais.
Finalmente, e quanto à
abolição do chamado rendimento dos cidadãos, que eliminou o apoio ao
rendimento, ainda que modesto, para 800.000 indivíduos/unidades familiares?
Estatísticas "Contraditórias" Não Apagam os
Dados Subjacentes
O documento da OIT sobre
os salários mundiais(10) quase
parece ter preparado o terreno para o documento ISTAT, porque aqui também, o
panorama salarial em Itália choca com o sorriso triunfalista exibido
descaradamente — obviamente — por aqueles que hoje estão sentados nos bancos da
maioria, mesmo tendo feito nada senão pegar no testemunho dos seus
antecessores.
Segundo a OIT, entre
2008 e 2024, os salários em Itália caíram 8,7% (o pior número), comparando,
diz-se, com um aumento de 5% em França e 15% na Alemanha. Especificamente, após
a forte queda entre 2009 e 2012, na sequência da crise dos subprime, os
salários registaram uma queda de 3,3% em 2022 e 3,2% em 2023. Só em 2024 foi
registado um aumento de 2,3%, mas foi insuficiente para recuperar as perdas dos
anos anteriores. Portanto, assumindo que estes dados estão correctos, o chamado
corte das contribuições fiscais (originalmente iniciado por Draghi) nem sequer
serviu para travar a queda salarial, revelando-se assim pelo que é: uma
"pequena ajuda", sim, mas para os empregadores, que evitam gastar
esse (pouco) dinheiro para aumentar os salários. O crescimento em 2024 não pode
ser explicado pelo "corte", mas deve-se a outras razões. A primeira é
que muitos contratos foram renovados por serem "acessíveis", ou seja,
compatíveis com a rentabilidade — embora com atrasos consideráveis, enquanto
mais de 50% da força de trabalho (aproximadamente sete milhões de pessoas)
ainda aguarda renovação. Aliás, quase se poderia dizer que, se o aumento
proposto pelo governo para os funcionários do sector público for de 6%, seria
melhor não se preocupar em negociar: pelo menos evitaria ser mantido cativo por
um governo tão preocupado com a classe operária!
Outro elemento
igualmente importante, talvez ainda mais, é a queda da inflação, que no período
de dois anos de 2022-23 ultrapassou os 17% (certos dados mostram quase 20%);
mas, no final, o impacto nos salários tem sido mais severo, dado que o índice
IPCA sobre o qual se calculam os aumentos salariais exclui o preço do
combustível, gás e electricidade, despesas que estão longe de ser
insignificantes, como todos sabem. Portanto, a classe operária italiana
(incluindo os imigrantes, obviamente) parece ter sofrido a maior perda,
enquanto noutros países, como já mencionado, os salários parecem ter realmente
aumentado. Uma oportunidade de ouro para o reformismo radical acusar a classe
dominante italiana — isto é, a burguesia e o seu pessoal político voraz e
charlatão — de particular mesquinharia em comparação com os seus homólogos
estrangeiros. Certamente não negamos que o ataque aos salários tenha sido
severo, até particularmente severo, mas não estamos totalmente convencidos pelo
aumento de que outros segmentos da classe operária mundial parecem ter
beneficiado. Embora existam, sem dúvida, especificidades em diferentes áreas
geográficas, o sistema capitalista domina o mundo inteiro, assim como a sua
crise de décadas. É precisamente esta crise que força os ramos
"nacionais" da burguesia mundial a adoptar a mesma estratégia em
relação ao proletariado e, se em certas partes do mundo os salários aumentaram
— partindo de níveis muito baixos, senão mínimos — noutras, particularmente no
"centro", seguiram na direcção oposta. Neste artigo, não vamos
aprofundar as razões deste fenómeno nem referir-nos às nossas publicações.
Aqui, basta recordar que, desde o final da década de 1970, a quota dos salários
no PIB global tem vindo a diminuir de forma constante, enquanto, inversamente,
a dos lucros tem aumentado, confirmando assim que salários mais baixos são o factor
mais imediato e eficaz que contrabalança a diminuição da taxa média de lucro.
Alguns dados que confirmam esta tendência já são apresentados no artigo da Prometeo citado na introdução. Aqui, para confirmar que nada mudou — nem
poderia mudar — referimo-nos a dois gráficos(11) desenhados
por uma economista do BCE (Isabel Schnabel), que mostram, mais uma vez, como a
participação dos salários no PIB está a diminuir de forma constante, enquanto a
dos lucros segue a tendência oposta. Além disso, o declínio da "quota
salarial" é paralelo ao da "densidade sindical", ou seja, o
declínio progressivo da adesão sindical e das greves. O gráfico é acompanhado
pela observação, em certos aspectos correcta, de que, dada a perda de força do
sindicato, os salários não podem deixar de diminuir.
Devemos acrescentar, no
entanto, que a crise do capital, que levou os empregadores a atacar a classe operária
de frente, reduziu de facto o peso dos sindicatos como resultado da dramática
convulsão e, no Ocidente, da dispersão de grandes concentrações de operários
que alterou a composição da classe operária. No entanto, os sindicatos
continuam a ser um aliado valioso para os patrões, como no passado. De facto,
os sindicatos apoiaram em grande parte a ofensiva burguesa, paralisando ou
limitando uma verdadeira resposta "operária" (no sentido mais amplo),
para não comprometer a "coesão social" — ou seja, a paz social
fundada na subjugação do proletariado e da "economia do país", isto
é, do capital. Assim, o "mistério" das estatísticas de aumento
salarial da OCDE desde o final de 2022 mantém-se. Na altura, disputas
"industriais", difíceis de definir como baseadas na classe, excepto
com mil distinções, acompanharam o crescendo da ofensiva dos empregadores e do
Estado. Chefes como benfeitores? Para eles próprios, certamente, e de facto as
estatísticas internacionais, incluem executivos e gestores até aos mais altos
níveis entre os "empregados", cuja "compensação"
estratosférica esconde a queda dos salários, sem a qual pareceria, como de
facto é, ainda mais em benefício exclusivo do capital e dos seus responsáveis.
Precisamos de
compreender exactamente quais são os critérios metodológicos para estes
inquéritos, porque correm o risco de gerar confusão em vez de clareza. Voltemos
ao documento da OIT, cuja linguagem é algo desconcertante. Por exemplo, a
introdução afirma que há "crescimento dos salários reais a nível mundial a
partir de 2022 [mas] os salários reais em muitos países ainda não recuperaram a
perda de poder de compra causada pela crise do custo de vida." Isto
levanta imediatamente a questão: "Pode haver crescimento, mas que tipo de
crescimento real é se não recuperou o que se perdeu anteriormente?"
Considerações banais? Talvez, mas é como celebrar um funeral bonito.
No entanto, estes não
são os únicos dados que levantam algumas questões, pois a página 14 afirma que
"Com menos de 1% dos trabalhadores classificados como baixos rendimentos,
Itália é um dos países com menor desigualdade salarial." Esta é uma afirmação
ousada, tendo em conta que outras investigações académicas e, como é óbvio,
reformistas apresentam números bastante diferentes. Uma digressão antes de
continuar: por "baixos rendimentos", alguns institutos de
investigação referem-se a "aqueles com rendimentos abaixo de 60% da
mediana nacional (líquido de transferências sociais)"(12) e,
segundo a Eurostat, em Itália este valor é "9%, acima dos 8,7% registados
em 2023." (13) Para a
OIT, no entanto, na página 15, a definição refere-se a "aqueles que ganham
menos de 50% do salário mediano por hora." Esta indicação dos salários por
hora é importante porque fornece uma referência específica, em contraste com
inquéritos que registam o aumento da quota/massa salarial, sem especificar se
isso se deve a um aumento das horas trabalhadas ou do número de empregados
(mesmo que seja de baixos salários e redução do tempo). Neste último caso, pode
haver um aumento da massa salarial mesmo na presença de salários baixos, abaixo
do valor da força de trabalho. Dito isto, mesmo os dados da Eurostat (assim
como a OIT) parecem não concordar com outro estudo conjunto sobre
"Trabalho e Salários em Itália", segundo o qual a percentagem de
trabalhadores pobres é maior e, como era de esperar, tem "uma forte conotação
de género: a percentagem de trabalhadoras de baixo salário (19,2%) é quase o
dobro da dos homens (10,5%)." (14) A
maior prevalência de baixos salários entre a força de trabalho feminina — uma
força histórica do capital, que utiliza formas de opressão com raízes milenares
em seu benefício — acrescenta mais uma peça ao quebra-cabeça do crescimento do
emprego vangloriado pela primeiro-ministro. Este crescimento afecta, em termos
percentuais, mais os homens do que as mulheres, o que nos remete de volta às
considerações “estranhas” do relatório da OIT. Na página 15, o relatório da OIT
identifica correctamente a disparidade salarial que afecta as mulheres: "Quase
52% dos trabalhadores de baixos salários são mulheres. Em Itália, as
trabalhadoras representam 43,2% de todos os trabalhadores empregados. Esta
proporção sobe para 51,9% entre os trabalhadores de baixos salários." Até
agora, tudo bem (por assim dizer), mas depois o documento afirma que
"entre os países de rendimentos elevados, a sobre-representação de
trabalhadoras na faixa inferior da distribuição salarial é mais modesta em
Itália do que a média dos países deste grupo, estimada em 55,9%." Depois
de afirmar que esta "sobre-representação" afecta todos os países do
mundo (um facto bem conhecido), na página 16 diz: "A diferença salarial de
género em Itália é de 9,3%, uma das mais baixas entre os países da União
Europeia", onde se situa nos 14,3%. Agora, mais uma vez, é natural apontar
a discrepância com outros dados (INPS 2022) que mostram uma diferença de €7.300
entre o salário anual médio de homens e mulheres (€24.500 contra €17.300), ou
seja, aproximadamente 30%, o que se reflecte obviamente nos "benefícios de
pensão, que são em média 36% mais baixos". (15)
No meio desta selva de
dados, o facto subjacente, declarado ou não, permanece que o chamado
crescimento salarial, vangloriado por vários políticos, não recupera o que se
perdeu nos últimos três ou quatro anos. Na melhor das hipóteses, os salários —
ou melhor, o proletariado — têm de acompanhar o custo de vida. Na maioria das
vezes, têm de travar uma batalha de rectaguarda que pelo menos tenta limitar os
danos. Segundo a OCDE, no final de 2024 os salários em Itália eram 7,2% mais
baixos do que nos primeiros quatro meses de 2021; mas na República Checa
estavam a -11,8% e na Suécia a -8,6%. (16) No
mesmo período, a Zona Euro como um todo registou -4% e a "média entre os
38 países da organização regista -0,6%". (17)
Se Atenas chora, Esparta
não ri, e se incluirmos a Alemanha em "Esparta", segundo outros
institutos de investigação, a situação pouco se assemelha aos +15% reportados
pela OIT.
Num artigo publicado no
seu blogue a 22 de Fevereiro, o economista Michael Roberts descreve a situação
da seguinte forma:
“Os salários reais na Alemanha mantêm-se abaixo dos níveis pré-pandemia. Um
quarto dos alemães tem rendimentos insuficientes para sobreviver, segundo o
Instituto Económico Alemão ... O declínio da economia alemã expôs a questão
subjacente de um mercado de trabalho 'duplo', com toda uma camada de
trabalhadores temporários a tempo parcial para empresas alemãs com salários
muito baixos. Cerca de um quarto da força de trabalho alemã recebe agora um
salário de 'baixo rendimento', usando uma definição comum de alguém que é
inferior a dois terços da mediana, o que é uma proporção superior à dos 17
[talvez 27?, ed.] Países europeus, exceoto a Lituânia. (18)
O que há a dizer, a não
ser que soa ao relatório do ISTAT do final de Março?
O factor que piorou as
condições do proletariado em Itália, Alemanha e noutros locais é a inflação,
amplificada pela especulação. Agora, para além disto, há uma economia de guerra
que agrava o ataque de décadas desencadeado pelos patrões contra os
trabalhadores assalariados que, como um economista da OCDE modestamente
reconhece, estão a mostrar "uma atitude responsável nas exigências
salariais." (19) Por
outras palavras: a habitual política derrotista e cúmplice do sindicalismo em
relação ao sistema capitalista, também conhecida como "o bem do
país."
Esperar que os
sindicatos tirem a classe da situação difícil que surge dos estudos burgueses
e, acima de tudo, que ela vivencia diariamente, é como pedir ajuda ao cocheiro
que nos está a levar para o cadafalso.
CB
Battaglia Comunista
16 May 2025
Notas:
(2) Claudio
Tucci, Porque i salari in Italia restano bassi? Inflazione, cuneo fiscale e
produttività, Il Sole 24 ore+, 2 maggio 2025.
(3) Istituto
Nazionale di Statistica (Instituto Nacional de Estatística)
(4) En Europe, le
grand chambouement du marché du travail, lemonde.fr
(5) "entre
2013 e 2023 ... No grupo etário dos 15 aos 34 anos [...] o número total de
jovens passou de 12,9 para 12 milhões (-927 mil) e o número de adultos entre os
35 e os 49 anos diminuiu 2,6 milhões (de 14,2 para 11,6 milhões). Mas, no mesmo
período, o número de adultos com mais de 50 anos aumentou 1,9 milhões, de 11,8
para 13,7 milhões. Neste grupo etário, existem contratos mais
permanentes", Giorgio Pogliotti, Lavoro, stanno davvero aumentando i posti
stabili in Italia?, Il Sole 24 ore+, 14 de Março de 2025
(6) Se ambos os
pais trabalham e não têm apoio dos avós, não podem cuidar da criança, por isso
uma delas, normalmente a mulher, é forçada a deixar o emprego ou têm de pagar a
outra pessoa para cuidar da criança. Em todo o caso, o rendimento familiar é
significativamente reduzido...
(7) Marianna
Filandri, Lavorare non basta, Laterza, 2022, p. 29. Na página 30, ela continua a
dizer que, "Em 2020, segundo o ISTAT, a presença de um menor no núcleo
[familiar] aumentou a probabilidade de estar em pobreza absoluta de 7,7 para
11,5%".
(8) Giorgio
Pogliotti, Lavoro, l'occupazione in Italia cresce grazie agli over 50: ecco
perché, Il Sole 24 ore+, 2 de Abril de 2025
(9) A lei de
2012, nomeada em homenagem a Elsa Fornero, então Ministra do Trabalho,
transferiu os trabalhadores para um regime de contribuição definida, deixou de
indexar pensões acima de um determinado nível de rendimento para a inflação e
aumentou a idade de reforma para 67 anos. O objectivo era angariar liquidez e
tranquilizar os mercados sobre o compromisso com a disciplina dos gastos na
terceira maior economia da zona euro. Tudo isso agravou as condições dos operários
em relação ao capital.
(10) Relatório
Global sobre Salários 2024-25: A desigualdade salarial está a diminuir
globalmente?, ilo.org Para estatísticas
sobre Itália, Le tendenze dei salari e delle disuguaglianze salariali in Italia
e nel mondo, ilo.org
(12) Patrizia
Pallara, Poveri pur lavorando: lo dice Eurostat, collettiva.it, 28 de Abril
de 2025.
(13) Pallara,
loc. cit.
(14) Rinaldo
Evangelista e Lia Pacelli, Lavoro e salari in Italia, in Menabò n. 236, Abril
de 2025.
(15) Esmeralda
Rizzi, Diferença salarial de género: una discriminazione che não si
ferma, collettiva.it, 15 de Fevereiro
de 2025.
(16) Giorgio
Pogliotti, Stipendi reali, com'è messa l'Italia rispetto agli altri paesi europei?,
Il Sole 24 ore+, 27 de Março de 2025
(17) Il Sole 24
ore+, loc cit
(18) thenextrecession.wordpress.com
(19) Il Sole 24
ore+, loc cit.
Terça-feira, 17 de Março de 2026
Journal of the Communist
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Fonte: Wages,
Employment, and the Out-of-Tune Trumpets of the Bourgeoisie | Leftcom
Este artigo foi
traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice
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