Civilização
capitalista = a ocultação estrutural dos trabalhadores produtivos
20 de Março de 2026 Robert Bibeau
“Por Khider Mesloub .
A civilização capitalista moderna
apresenta uma peculiaridade histórica notável: nunca antes uma sociedade
dependeu tanto do trabalho produtivo, ao mesmo tempo que tornou tão invisíveis
aqueles que produzem valor e riqueza. Nunca na história da humanidade as
sociedades produziram tantos bens materiais, mobilizaram tantos recursos ou
implantaram sistemas tecnológicos tão poderosos. E, no entanto, nunca antes os
indivíduos estiveram tão distantes da compreensão dos processos que tornam essa
produção possível.
A sociedade moderna vive no meio de um
mundo material de abundância sem precedentes — redes de energia, infraestrutura
logística mundial, indústrias químicas e electrónicas, agricultura mecanizada —
sobre o qual a maioria das pessoas praticamente nada sabe. Os objectos são
usados, consumidos e substituídos, mas os processos que possibilitam o seu
fabrico permanecem em grande parte invisíveis.
A civilização capitalista é a primeira na
história em que a grande maioria dos indivíduos vive num mundo material que
utiliza diariamente sem saber como ou por quem é produzido.
Quando as sociedades compreendiam o seu próprio mundo material
Durante a maior parte da história da humanidade,
as sociedades viveram num mundo material que compreendiam. Nas sociedades de
caçadores-colectores, as técnicas para garantir a subsistência — identificar
plantas, caçar, fabricar ferramentas, construir abrigos — faziam parte do
conhecimento partilhado. Nas sociedades agrícolas, a rotação de culturas, a
criação de animais, o processamento de alimentos e o fabrico de ferramentas
permaneciam visíveis e compreensíveis para a comunidade.
Mesmo quando certas actividades eram
especializadas, elas permaneciam localizadas e observáveis. O ferreiro
trabalhava na aldeia, o carpinteiro construía à vista de toda a comunidade, e
os campos circundavam as casas. A produção fazia parte da paisagem social.
Essa centralidade da actividade humana
reflectia-se até mesmo nas primeiras obras literárias. Na Grécia Antiga, um dos
textos fundamentais da tradição ocidental, Os Trabalhos e os Dias de Hesíodo, é
dedicado ao calendário agrícola, às tarefas do trabalho na terra e às condições
materiais da vida humana. A ordem do mundo está directamente ligada às actividades
produtivas. Noutras palavras, as sociedades antigas produziam pouco, mas
compreendiam o que produziam.
A ruptura introduzida pela sociedade
capitalista
A civilização capitalista transformou
profundamente a relação entre os seres humanos e as condições materiais da sua
existência. A produção concentrou-se gradualmente em gigantescos sistemas
industriais baseados numa extrema divisão do trabalho e na mundialização das
cadeias produtivas. Um objecto comum hoje pode envolver matérias-primas
extraídas de diversos continentes, componentes fabricados em diferentes regiões
do mundo, operações de montagem distribuídas por múltiplas fábricas e redes
logísticas mundiais. O produto final, então, surge como um objecto acabado,
desprovido de qualquer história aparente.
Essa dispersão espacial é agravada pela fragmentação
do conhecimento técnico. A produção moderna mobiliza campos de especialização
altamente específicos — engenharia, química industrial, electrónica, logística
algorítmica — que nenhum indivíduo consegue dominar completamente. Essa
limitação decorre da própria organização social do trabalho: a divisão
capitalista do trabalho separa a concepção da execução, concentrando o
conhecimento e a direcção nas mãos de uma minoria. Assim, mesmo os operários
muitas vezes controlam apenas um aspecto limitado de um processo mundial que
permanece fora do seu controlo.
Essa invisibilidade dos produtores também
decorre de uma transformação mais profunda do próprio trabalho. Nas sociedades
artesanais, o produtor controlava todo o processo de fabrico e mantinha uma
relação tangível com o seu trabalho. Com o capitalismo industrial, essa unidade
desaparece: a actividade humana fragmenta-se e transforma-se em trabalho abstracto,
um simples e indiferenciado gasto de energia integrado num mecanismo produtivo
que transcende aqueles que participam nele. À escala mundial, esse processo estende-se
a uma divisão internacional do trabalho que separa os espaços de concepção,
produção e consumo. O trabalho é, portanto, progressivamente separado da
própria vida social, relegado para uma esfera económica distinta e cada vez
mais distante da experiência quotidiana das sociedades.
A invisibilidade social da produção
Essa transformação tecnológica é acompanhada
por um fenómeno social: a realocação dos locais de produção. Fábricas,
infraestrutura industrial, centros de logística e instalações de energia estão
localizados nos arredores das cidades, em zonas industriais ou noutras regiões
do mundo. A sociedade contemporânea exibe locais de consumo por toda parte —
shoppings, boutiques, restaurantes — mas oculta em grande parte os lugares onde
a riqueza material é criada. A produção está a desaparecr gradualmente da
experiência quotidiana. Os indivíduos veem os bens, mas raramente aqueles que
os produzem.
Outra característica essencial do capitalismo
deve ser enfatizada: no exacto momento em que a produção se industrializa, se
colectiviza e se interliga internacionalmente, mobilizando por vezes milhares
de operários em grandes empresas, o produto desse trabalho colectivo permanece
privatizado pela classe capitalista minoritária que detém os meios de produção.
A invisibilidade cultural do trabalho
Esse apagamento não se restringe ao espaço
físico. Ele estende-se também ao âmbito simbólico. Na literatura, no cinema,
nas séries de televisão e nas narrativas contemporâneas, o mundo do trabalho
produtivo raramente figura como elemento central. As tramas desenrolam-se, na
maioria das vezes, em ambientes urbanos pertencentes ao sector de serviços:
jornalistas, advogados, polícias, artistas, estudantes, gerentes,
empreendedores. Os personagens vivem em apartamentos elegantes, frequentam
cafés ou restaurantes e trabalham em escritórios ou instituições. Eles
conversam, investigam, viajam e consomem. Mas os trabalhadores que garantem de
facto a produção material da sociedade — operários da indústria, agricultores,
trabalhadores de armazém, técnicos, operadores logísticos — estão amplamente
ausentes dessas representações. A produção material, portanto, desaparece não
apenas da experiência quotidiana, mas também das narrativas que moldam o
imaginário colectivo.
Essa invisibilidade é acompanhada por
outra transformação ideológica. Mesmo com o desaparecimento gradual dos operários
da representação social, o próprio trabalho tornou-se objecto de uma verdadeira
sacralização ideológica. Nas sociedades capitalistas modernas, a actividade
profissional é elevada ao valor supremo, ao critério central de realização
individual e integração social. O trabalho não é mais mera necessidade
material: torna-se uma norma moral e cultural. Assim, surge uma situação
singular: uma civilização que glorifica constantemente o trabalho, relegando
aqueles que o realizam para as sombras.
Essa situação contrasta fortemente com o
período industrial do século XX. Durante grande parte desse período, as
sociedades industriais ocidentais ainda viviam sob a influência de uma cultura
operária relativamente visível e valorizada. A indústria ocupava um lugar
central tanto na economia quanto no imaginário social. Grandes fábricas, minas,
estaleiros e siderúrgicas estruturavam a vida de regiões inteiras. Os operários
industriais constituíam um componente reconhecido da sociedade, com sindicatos
poderosos, organizações políticas e uma presença cultural significativa. A
figura do operário — na literatura, no cinema, na fotografia social e no
discurso político — aparecia como uma das principais representações do mundo do
trabalho.
Essa visibilidade social do trabalho
produtivo contrasta fortemente com a situação actual. Com o declínio da
indústria em grande parte do Ocidente e a transferência da produção material
para outras partes do mundo, a cultura da classe operária recuou gradualmente
da esfera pública. Ao mesmo tempo, emergiu um novo imaginário social, centrado
na inovação tecnológica, no empreendedorismo e na economia digital. A figura
dominante não é mais a do operário ou técnico de fábrica, mas sim a do fundador
de startup, do investidor ou do desenvolvedor de aplicativos.
Essa transformação do imaginário social num
ambiente de startups constitui, portanto, o oposto exacto da cultura industrial
que ainda dominava as sociedades ocidentais algumas décadas atrás. Enquanto a
indústria outrora estruturava a identidade social e política de grandes
segmentos da população, o imaginário contemporâneo valoriza actividades
amplamente desvinculadas da produção material. O trabalho produtivo está a desaparecer
gradualmente do âmbito das aspirações sociais, enquanto o empreendedor digital
se torna a figura emblemática do sucesso económico.
Essa mudança no imaginário social é muito visível nas representações culturais contemporâneas. Nas sociedades ocidentais, um novo horizonte simbólico tem-se consolidado gradualmente: o do empreendedor digital, da startup e da inovação tecnológica, apresentados como os únicos motores do progresso económico. A media e o cenário cultural estão, portanto, repletos de narrativas que glorificam fundadores de startups, investidores e figuras da economia digital, enquanto operários da indústria, da agricultura ou da logística praticamente desaparecem da narrativa social. Essa "startupização" do imaginário contemporâneo não é apenas uma moda passageira. À medida que a produção material se desloca para outras regiões do mundo, as sociedades ocidentais retratam-se cada vez mais como economias de serviços, inovação e empreendedorismo, obscurecendo a realidade fundamental sobre a qual, ainda assim, continuam a basear-se: o trabalho produtivo de milhões de homens e mulheres que garantem a produção material do mundo contemporâneo.
Assim, embora a civilização moderna se
baseie em sistemas de produção tecnológica sem precedentes, a representação cultural
da sociedade tende a apagar aqueles que produzem e as acções que tornam
possível a vida material. Noutras palavras, a modernidade capitalista não é
apenas a civilização da produção industrial; é também a primeira civilização em
que os produtores se tornam invisíveis na consciência social do mundo que
criam. A civilização capitalista baseia-se na produção, mas estruturalmente
torna os seus produtores invisíveis na consciência social e cultural,
inaugurando, assim, uma mudança antropológica sem precedentes na história da
humanidade.
A análise clássica de Karl Marx sobre o
capitalismo baseava-se numa ideia central: numa sociedade de mercado, os
produtos do trabalho aparecem como objectos autónomos. As relações sociais
entre os operários desaparecem por trás das mercadorias, e o trabalho humano
torna-se invisível nos objectos que, no entanto, são o seu resultado. Noutras
palavras, os produtos parecem possuir uma existência própria quando são
meramente a expressão do trabalho humano.
Mas o capitalismo contemporâneo parece ter
levado esse processo muito mais longe. Ele não se limita mais a ocultar o
trabalho dentro das mercadorias: tende a apagar os próprios produtores da
consciência social.
A mundialização da produção, a extensão
planetária das cadeias logísticas, o afastamento geográfico dos locais de fabrico
e a terciarização das representações culturais transformaram profundamente as
condições de visibilidade do trabalho. Nas sociedades ocidentais, os produtores
materiais – operários, agricultores, trabalhadores logísticos – desapareceram
progressivamente da paisagem social e do imaginário colectivo. Assim, a
invisibilidade já não diz respeito apenas ao trabalho contido na mercadoria:
atinge agora os próprios produtores.
O capitalismo moderno
parece assim produzir três níveis de invisibilização. O primeiro é técnico: a
divisão extrema do trabalho fragmenta os processos produtivos a tal ponto que
cada operário apenas percebe uma ínfima parte. O segundo é espacial: a mundialização
das cadeias de produção afasta os locais onde a riqueza é fabricada dos locais
onde as mercadorias são consumidas. O terceiro é cultural: as representações
dominantes valorizam as actividades terciárias, a inovação empresarial e as
finanças, enquanto os produtores materiais desaparecem progressivamente do
imaginário social. O capitalismo contemporâneo não invisibiliza, portanto,
apenas o trabalho no bem ou produto: ele invisibiliza os próprios produtores na
representação da sociedade.
Uma sociedade contada sem os seus
produtores.
Isso resulta numa representação singular
do mundo social. Os bens circulam, a infraestrutura funciona, os serviços são
prestados, mas os produtores que tornam tudo isso possível permanecem
invisíveis. A sociedade aparece como um universo de troca, comunicação e
consumo, em vez de um sistema baseado no trabalho material de milhões de operários.
Além disso, a própria popularização do
termo "sociedade de consumo" ilustra esse processo de invisibilidade.
Através do seu uso generalizado na media, no discurso político e académico,
essa expressão contribui para deslocar o olhar colectivo: a atenção concentra-se
nas práticas de consumo, nos estilos de vida e nos comportamentos de compra,
enquanto as condições materiais de produção e a origem produtiva desses bens
consumidos desaparecem do horizonte mental.
A sociedade capitalista é, portanto,
descrita pela óptica do consumo em vez da produção. O imaginário colectivo está
repleto de shoppings, vitrines, marcas e serviços, mas os locais onde os bens
são de facto fabricados — fábricas, quintas, oficinas, infraestrutura logística
— permanecem relegados à periferia da representação colectiva.
Essa inversão simbólica não é
insignificante. Ela ajuda a obscurecer o facto de que a sociedade capitalista,
antes de ser uma sociedade de consumo, é antes de tudo uma gigantesca
organização de produção. Milhões de operários, técnicos, engenheiros,
agricultores e operadores logísticos participam diariamente no fabrico,
processamento e distribuição dos produtos que abastecem as prateleiras e os
armazéns do mundo contemporâneo.
Mas na consciência social dominante, essa
imensa actividade produtiva tende a desaparecer por trás da aparente abundância
de bens disponíveis. Tudo acontece como se as mercadorias surgissem
espontaneamente no espaço social, como se os produtos consumidos caíssem do
céu, sem história, sem trabalho e sem produtores visíveis.
O resultado: nunca antes uma sociedade
desprezou tanto aqueles que produzem a sua riqueza, nem levou a inversão da
realidade social a um extremo, atribuindo a estratos improdutivos e
parasitários o papel de actor económico central e força motriz da história,
aqueles a quem agora chamamos de "tomadores de decisão" e gestores.
Uma
civilização inteiramente dependente do trabalho produtivo, mas que valoriza
cada vez mais as actividades improdutivas: esta é a realidade do capitalismo
decadente. Uma civilização que, ao relegar os seus produtores às sombras, acaba
negando as próprias condições da sua existência. Tal desenvolvimento não é uma
deriva acidental. Pelo contrário, é inerente à própria lógica do modo de
produção capitalista.
O paradoxo da civilização capitalista
Este sistema caracteriza-se por uma
contradição fundamental. Desenvolveu o poder produtivo mais considerável de
toda a história da humanidade, ao mesmo tempo que distancia a maioria dos
indivíduos da compreensão dos processos materiais que tornam essa produção
possível. Os seres humanos continuam a produzir a sociedade, mas a sociedade
que produzem tende a apagar a sua presença.
As sociedades antigas viviam num mundo que
elas mesmas criavam e compreendiam. Os gestos do trabalho, as técnicas de
subsistência e as habilidades necessárias à vida faziam parte da experiência quotidiana
e da paisagem cultural. O mundo moderno, ao contrário, tende a dissociar
radicalmente a produção da vida ordinária. As mercadorias circulam por toda
parte, mas aqueles que as produzem desaparecem do panorama social. As
mercadorias são omnipresentes, enquanto os produtores se tornam invisíveis,
tanto no mundo físico quanto no imaginário colectivo.
Essa invisibilidade não é isenta de
consequências. Quando uma sociedade deixa de vislumbrar aqueles que produzem,
acaba também por deixar de reconhecer a dignidade do seu trabalho. O trabalho
manual torna-se abstracto, distante, quase irreal na consciência social.
Essa transformação é particularmente
evidente na percepção das gerações mais jovens. Criados num mundo dominado por
serviços, consumo e ideais empreendedores, muitos jovens imaginam-se
espontaneamente como gerentes, empreendedores ou fundadores de startups. O
trabalho produtivo — industrial, agrícola ou manual — muitas vezes aparece como
uma perspectiva desvalorizada, arcaica ou socialmente estigmatizada. Assim, uma
sociedade que depende materialmente do trabalho de milhões de operários,
técnicos e agricultores testemunha um crescente desprezo na consciência social
pelas próprias actividades que tornam possível a existência colectiva.
É sob essas condições que surgiu uma
civilização única: uma sociedade que se baseia inteiramente no trabalho de
milhões de homens e mulheres, mas que tende a apagar aqueles que produzem a
consciência social.
Nunca uma sociedade humana produziu tanto
quanto a sociedade capitalista. Mas nunca os produtores foram tão invisíveis. O
capitalismo agora soma à exploração dos operários a sua invisibilidade.
No exacto momento em que o planeta se
transformou numa aldeia global, aproximando a humanidade, a sociedade
capitalista baniu escandalosamente os seus produtores da esfera social e
simbólica. É como se a burguesia, ao excluir deliberadamente os verdadeiros
produtores de riqueza do âmbito social e simbólico, tentasse repelir os ataques
dos seus destruidores históricos.
Mas
essa invisibilidade nunca é total.
A história recente ofereceu uma
demonstração impressionante disso. A crise do Covid-19 lembrou-nos brutalmente
quem realmente faz a sociedade funcionar. Essa invisibilidade começou então a
ruir. A pandemia trouxe abruptamente de volta ao foco o que tem sido chamado de
"trabalhadores de segunda linha" — operários de fábrica, pessoal de
logística, trabalhadores de armazém, agricultores, trabalhadores de manutenção
— sem os quais o mundo material não pode funcionar. Durante vários meses, a
hierarquia simbólica que estrutura a sociedade capitalista foi abalada: o
gerente passou a ser secundário em relação ao trabalhador de armazém. A crise
revelou, assim, de forma fugaz, mas clara, quem são os verdadeiros produtores
de riqueza social.
Confinados nas suas casas durante vários
meses, os gerentes e as classes dominantes descobriram que a sociedade continuava
a funcionar e a produzir, demonstrando que a verdadeira sociedade de operários
pode perfeitamente prescindir deles.
O capitalismo não explora apenas os operários:
ele torna-os invisíveis.
Então, de que é que os produtores estão à espera
para se libertarem daqueles que vivem à custa do seu trabalho para retomarem o
controle da sociedade que administram?
Khider MESLOUB
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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