terça-feira, 10 de março de 2026

Rassemblement National e Patronato Francês


Rassemblement National e Patronato Francês

10 de Março de 2026 Robert Bibeau


A https://www.madaniya.info/
  apresentou aos seus leitores, por ocasião das eleições municipais francesas de março de 2026, uma reportagem em três partes sobre “o entendimento cordial entre a extrema-direita francesa e o mundo empresarial”, publicada na Golias Hebdo 887, semana de 8 a 12 de Novembro de 2025, com a gentil permissão da revista https://www.golias-editions.fr/golias-hebdo/


Editorial: Um ponto de viragem histórico

O ritmo acelerou como nunca antes desde a chegada de Emmanuel Macron ao Palácio do Eliseu: nunca desde a Libertação a extrema-direita esteve tão perto do poder. Nunca desde a primeira metade do século XX beneficiou de tanta cumplicidade e apoio. No Verão de 2024, a dissolução do Parlamento, decidida pelo chefe de Estado, visava, segundo ele próprio, dar maioria ao Rassemblement National (RN), na esperança de remover o obstáculo para futuras eleições presidenciais. Embora a mobilização da esquerda tenha frustrado esse cenário, ocorreu um terremoto político: pela primeira vez, o bastião republicano não foi respeitado nem pelos eleitores de direita nem pelos líderes empresariais.

"Em resumo, entre 2011 e 2024, os empregadores passaram de uma barreira republicana baseada em princípios democráticos para uma barreira económica em 2012 e 2017, para finalmente adoptar uma estratégia de barreira anti-NFP em 2024", observa o jornalista e co-fundador do Mediapart, Laurent Mauduit, no seu livro mais recente, Collaborations (Colaborações – NdT)), no qual investiga os vínculos que a extrema direita e os círculos empresariais restabeleceram.

Essa mudança de linha entre os líderes empresariais é, sem dúvida, o elemento mais sério para o nosso sistema político pluralista, como lembra Laurent Mauduit, seguindo análises clássicas que datam da década de 1930 e posteriores (Fascismo e o grande capital, de Daniel Guérin; Poder e dinheiro, de Ernest Mandel; e, mais recentemente, Os Irresponsáveis, do historiador Johann Chapoutot).

Para sustentar a sua tese, ele baseia-se também em diversos trabalhos de pesquisadores que vêm documentando essa mudança tectónica há alguns anos, como *Finanças Autoritárias*, de Marlène Benquet e Théo Bourgeron. "Se há uma lição a ser aprendida, é que a extrema-direita nunca chega ao poder sem o consentimento da comunidade empresarial, de uma forma ou de outra", enfatiza Laurent Mauduit. No início do século XX, na Itália, aqueles que detinham o poder sobre os destinos dos principais grupos financeiros e industriais identificaram e apoiaram Mussolini já em 1915, com a aprovação de Wall Street e da City de Londres.

O mesmo ocorreu na Alemanha no final da década de 1920, onde apoiaram Hitler antes de beneficiarem das suas políticas. Na França, também, embora em menor escala, muitos líderes empresariais financiaram ligas de extrema-direita antes de colaborarem com as forças de ocupação e apoiarem o regime de Vichy.

Entre a imprensa que dissemina as ideias da RN, a ala da esquerda que fomenta o desespero social ao implementar invariavelmente políticas de austeridade, o partido de Macron cujos líderes elaboram leis de imigração destinadas a apaziguar os eleitores da RN, ou a chamada direita republicana que persegue incessantemente a extrema-direita, as responsabilidades são inúmeras, mas os grandes chefões podem inclinar a balança.

Uma investigação sobre as perigosas ligações entre o patronato e a extrema-direita.

Pierre Lagnel/Golias Hebdo/01.10.25

Cada vez mais líderes empresariais estão a adoptar o capitalismo libertário, que defende a completa desregulamentação da economia. Politicamente, eles estão a aproximar-se da extrema direita, que é capaz de impor esse modelo altamente impopular através da violência.

Há cinco semanas, Patrick Martin, presidente do Medef, declarou na Rádio Clássica que via apenas três líderes políticos capazes de enfrentar os actuais desafios económicos: "Gabriel Attal, Bruno Retailleau e Jordan Bardella".

A esquerda está ausente do ranking, mas não a extrema-direita. Esse tipo de declaração está a tornar-se cada vez mais comum entre os membros da Medef (Confederação Empresarial Francesa). Laurent Mauduit, jornalista e co-fundador do Mediapart, que recentemente publicou *Colaborações*, uma investigação sobre os laços entre a extrema-direita e o mundo empresarial, vê a declaração de Patrick Martin, em entrevista ao Golias Hebdo, como um resumo do clima actual nos círculos empresariais.

Observador atento do mundo empresarial, Laurent Mauduit decidiu iniciar a sua investigação há pouco mais de um ano, na época da dissolução do Parlamento, quando "a maioria dos líderes empresariais não só desistiu de usar a barreira republicana, como também deixou claro que uma vitória da esquerda os preocupava muito mais e seria muito mais prejudicial aos seus negócios do que uma vitória da extrema-direita".

A mensagem encontrou eco perfeito no Rassemblement National. O partido de Marine Le Pen compreendeu que, para chegar ao poder, precisava forjar uma aliança com as grandes empresas. Isso explica porque é que Jordan Bardella abandonou completamente a vertente social da plataforma de Marine Le Pen nas últimas eleições presidenciais — uma plataforma cujas medidas ele ainda defendia durante as eleições europeias, que acabaram por precipitar a decisão de Emmanuel Macron de dissolver a Assembleia Nacional. Há anos, o Rassemblement NaTional deixou de se apresentar como "anti-europeu"; agora, faz tudo para parecer "pró-empresarial" e evitar alarmar os indivíduos mais ricos.

O objectivo foi alcançado, a julgar pelas declarações de Patrick Martin e também de um dos seus antecessores à frente da Medef (Confederação Empresarial Francesa), Pierre Gattaz, que declarou ter "mais medo de Mélenchon do que de Bardella", cujo programa económico, no entanto, considera "inútil" (RMC, 8 de Setembro de 2025). Ele pode não gostar das propostas do Rassemblement National, mas considera-as "modificáveis", ao contrário das posições redistributivas da França Insubmissa (LFI). Os líderes empresariais ficaram sem Emmanuel Macron. Apoiado pela sua capacidade de implementar uma agenda pró-empresarial caricatural, o ex-ministro da Economia também era o candidato dos altos executivos, que esperavam que o seu protegido trouxesse estabilidade política, unindo os eleitorados socialista e de direita, que estavam à deriva após as presidências de Nicolas Sarkozy e François Hollande.

Mas a brutalidade das políticas adoptadas ao longo do último quarto de século deu origem ao movimento dos Coletes Amarelos. Isso fez com que alguns líderes empresariais questionassem as suas escolhas.

“Os líderes empresariais romperam relações com Emmanuel Macron quando ele decidiu, inesperadamente, dissolver a Assembleia Nacional”, destaca Laurent Mauduit. “Eles não gostam da imprevisibilidade e consideram o presidente imprevisível demais.” O Palácio do Eliseu tentou apaziguar os ânimos organizando jantares, mas nenhum executivo de alto escalão comparece mais, segundo o co-fundador do Mediapart. Os líderes empresariais agora preferem envolver-se com o Rassemblement National (RN), chegando a aparecer em público com o partido e a preparar o público, apresentando-o como uma opção viável.


Uma nova etapa do capitalismo

Esses estados de espírito entre os líderes empresariais também são sintomas de uma profunda reorganização do capitalismo mundial, como aponta a pesquisadora Marlène Benquet. Após o capitalismo socialmente comprometido dos " Gloriosos Anos Trinta " e, em seguida, o capitalismo neo-liberal, emerge agora o capitalismo libertário, que defende a desregulamentação total da  economia para oferecer novas oportunidades de acumulação de capital. Mas tal projecto encontra tanta resistência da população que os seus adeptos passam a desejar o governo arbitrário de um regime autoritário, como no Chile. Este é, aliás, um tema comum entre os ideólogos predilectos das grandes empresas, como Friedrich Hayek ou Carl Schmitt (veja a análise detalhada, com textos de apoio, de Grégoire Chamayou em *A Sociedade Ingovernável*).

Essa reaproximação é, portanto, fortemente influenciada pelo fascínio exercido sobre os líderes empresariais franceses mais internacionalizados, particularmente aqueles com subsidiárias nos Estados Unidos, pelos seus homólogos americanos de extrema-direita próximos de Donald Trump, relata Laurent Mauduit.

"Faltou-nos vigilância face a esta fermentação ultra-reaccionária que se espalhou pelo Atlântico no Silicon Valley", continua Laurent Mauduit.

Anteriormente, acreditava-se que os magnatas da alta tecnologia eram bastante progressistas em questões sociais e necessariamente próximos dos democratas em questões económicas; mas esse não é o caso.

Essa mudança de perspectiva é personificada por Peter Thiel. Ele é um dos fundadores da plataforma de pagamentos PayPal, ao lado do renomado Elon Musk, que também é investidor. Ambos são originários da África do Sul da época do apartheid e ambos defendem a liberdade absoluta e total, que definem como a ausência de qualquer restricção ou regulamentação. Essa doutrina libertária é totalmente incompatível com a democracia, uma vez que a democracia depende de regulamentações necessárias para preservar o bem comum.

A opinião de cada um é importante. O presidente da Medef, Patrick Martin, defende essa mudança ideológica do outro lado do Atlântico, afirmando que "a ascensão de Donald Trump à Casa Branca certamente tem aspectos preocupantes, mas abre-nos os olhos. (...) Rapidamente percebemos que esta é uma oportunidade para nós: pode ajudar os nossos líderes políticos na França a afastarem-se da sua tendência natural de regulamentar e padronizar tudo."

Na mesma sintonia, encontramos Rodolphe Saadé, presidente da empresa de transporte marítimo CMA-CGM, seguido por Patrick Pouyanné, CEO da TotalEnergies, que disse estar encantado com os "ventos de liberdade" que varrem a América de Trump.

O espectro da motosserra

Essa América, onde a regulamentação e a administração estão a ser drasticamente reduzidas, também atrai Luc Rémont, presidente da EDF, Xavier Niel, chefe da imprensa e fundador da operadora de telecomunicações Free, e Jean-Laurent Bonnafé, CEO do BNP Paribas.

Todos esses exemplos foram retirados do livro de Laurent Mauduit. Todos esses líderes se insurgem contra a "burocracia" ou o "excesso de impostos", reflectindo o desejo, como indicou o Le Monde, por uma reforma do tipo confiada a Elon Musk nos Estados Unidos, que cortou indiscriminadamente cargos no funcionalismo público.

O homem mais rico de França não se deixou abater. Em 28 de Janeiro de 2024, mal havia retornado de Washington, onde esteve entre os convidados de honra na posse de Donald Trump, Bernard Arnault denunciou o "imposto sobre produtos franceses" que estava a ser considerado pelo governo de François Bayrou, acrescentando: "Acabei de voltar dos EUA e vi o vento de optimismo que reinava naquele país. E quando se volta para a França, é um balde de água fria." Bernard Arnault acrescentou que "deveríamos fazer como fizeram nos Estados Unidos, nomear alguém para 'cortar' um pouco a burocracia", observa Laurent Mauduit, que traduz: o chefe da LVMH também quer reduzir a administração. "O homem mais rico de França ainda não está a pedir a motosserra do presidente argentino Javier Milei, mas já tem a espada." A tentação autoritária é mais forte do que nunca.

Entrevista

"A questão democrática já não preocupa os maiores líderes empresariais franceses."

A extrema-direita está agora à beira do poder e poderá muito bem conquistá-lo se o seu apoio continuar a crescer. Um novo sector aproximou-se perigosamente: o dos líderes empresariais.

Em Colaborações (La Découverte, 2025), o veterano jornalista económico Laurent Mauduit explora esta reaproximação e o perigo que representa para a democracia.

Entrevista por Pierre Lagnel

Que ameaças representam a criação de um império da imprensa por Vincent Bolloré e a queda de quase todos os títulos de imprensa nas mãos de alguns bilionários?

Laurent Mauduit: Antes da chegada de Vincent Bolloré ao sector de media, a imprensa já havia sido, ao longo da sua história, adquirida diversas vezes por bilionários.

Mas, até agora, pelo menos na França, isso sempre se deu através das chamadas “concentrações horizontais”, ou seja, um único líder empresarial comprava vários jornais para formar um grupo de imprensa. Robert Hersant é o arquétipo disso.

Se o grupo Bolloré ilustra hoje a extrema concentração de poder económico e cultural nas mãos de alguns bilionários, é porque Vincent Bolloré realizou uma concentração horizontal que duplicou com uma concentração vertical, ou seja, ele não comprou apenas meios de comunicação, mas também todos os tipos de empresas, a montante e a jusante, que formam o ambiente da imprensa.

Ele adquiriu veículos de comunicação como os canais de televisão do grupo Canal+, as revistas do grupo Prisma, que publica, notavelmente, a mensal Capital, e, mais recentemente, o Journal du Dimanche. Esse é o aspecto da concentração horizontal.

Em termos de integração vertical, Vincent Bolloré entrou no setor de pesquisas de opinião há muito tempo com o instituto CSA e no sector de publicidade com a Havas. Ele também adicionou a principal rede de bancas de jornal com a Hachette, o maior grupo editorial, que também controla o maior número de editoras de livros didáticos, sem mencionar uma editora tão importante quanto a Fayard.

Essa dupla concentração resultou num verdadeiro oligopólio com inúmeras ramificações. Através do seu poder, esse império mediático dita amplamente a agenda política, mesmo que o canal CNews tenha dado origem a uma imprensa tradicional marcada pela extrema direita e por nuances fascistas. Isso representa, de facto, um perigo para a democracia.

Como explicar a evolução de uma figura como Bolloré, bem como o panorama mediático?

LM: Há quinze anos, Vincent Bolloré autodenominava-se democrata-cristão, e estou convencido de que ele era sincero na época. Conforme foi progredindo na vida, ele acabou por se deixar convencer pela teoria da “grande substituição” através de Éric Zemmour, provavelmente por volta de 2014, na época da aquisição da Vivendi, empresa controladora do Canal+.

É como se, à medida que envelhecia, o empresário bretão se tivesse convencido de que essa era a sua última batalha.

Antes da sua mudança e da transformação do cenário mediático, Vincent Bolloré não tinha nenhuma participação conhecida além da Entreprise et cité, um clube de executivos fundado por Claude Bébéar, o criador da seguradora Axa.

Sempre houve rumores de que ele fosse membro da Opus Dei, mas, por definição, nada é certo. A influência de Bébéar no mundo dos negócios é significativa: esse tipo de filiação ideológica, quando existia, era mantida em segredo do público durante muito tempo. Agora, os altos executivos não a escondem mais; é uma tendência totalmente aceite nos seus círculos, diferentemente do que acontecia antes. Essa mudança representa um perigo absolutamente grave, uma regressão sem precedentes desde a aquisição do Le Figaro pelo perfumista François Coty em 1922, que na época actuava como uma ponte entre a direita e a extrema-direita e não hesitou, durante um tempo, em financiar a Action Française, enquanto expressava abertamente a sua admiração por Mussolini.

A figura de Vincent Bolloré não pode, sem dúvida, explicar essa evolução da classe empresarial por si só.

LM: Claro, esses são movimentos de placas tectónicas dentro desse ambiente, mesmo que alguns padrões sejam mais visíveis do que outros. Para dar apenas um exemplo, mencionei François Coty e a formação de um grupo de media em torno do Le Figaro.

É interessante notar que, um século depois, o actual proprietário do mesmo jornal, a família Dassault, frequenta círculos semelhantes aos da família Bolloré. Os dois impérios compartilham afinidades políticas e os seus caminhos cruzaram-se em diversas ocasiões. Eles poderiam até mesmo fundir-se um dia, caso Vincent Bolloré consiga assumir o controle do Le Figaro.

Um ponto a destacar é que Vincent Bolloré encontraria ali jornalistas de um sector da imprensa que ele agora conhece bem, visto que a família Dassault trouxe, há 20 anos, a pequena equipa que dirigia, na época, o semanário de extrema-direita Valeurs actuelles.

A família Dassault consolidou firmemente a sua posição dentro do Le Figaro e suas publicações derivadas, com a nomeação de Guillaume Roquette como director da revista Figaro e de Alexis Brézet como director do jornal diário.

Em que estado de conluio com a extrema-direita constatou a situação da associação patronal durante a sua investigação?

LM: Quando se lê os escritos deles, quando os entrevista, fica claro que a questão democrática agora deixa a maioria dos principais líderes empresariais da França completamente indiferente, com pouquíssimas excepções. Não era assim há quinze ou vinte anos. Quem se lembra do livreto intitulado "Uma Armadilha para Marine Le Pen", publicado pouco antes da eleição presidencial de 2012, coescrito por Laurence Parisot, então presidente da Medef (Confederação Empresarial Francesa)? Certamente não muitos, porque tudo foi feito desde então para apagar esse ensaio da memória.

Mesmo naquela época, membros do conselho executivo da Medef fizeram questão de salientar que esse texto não comprometia a organização patronal.

No entanto, este livro é um documento importante: é a única vez nos últimos anos em que um líder empresarial proeminente denunciou publicamente e de forma clara o perigo que a extrema-direita representa, não só para a economia, mas sobretudo para as liberdades públicas.

Agora estamos a testemunhar um paradoxo: embora os dirigentes do CAC 40 afirmem ter responsabilidades sociais e ambientais, eles eximem-se de toda a responsabilidade democrática.

Nesse sentido, devemos parar de distinguir entre os poucos altos executivos que demonstram abertamente as suas convicções de extrema-direita, como Vincent Bolloré ou Pierre-Édouard Stérin, e seus pares. Eles estão longe de serem isolados. São tolerados, aceites e até mesmo apoiados por muitos dos seus pares, particularmente pelo mais proeminente entre eles, Bernard Arnault.

Quando Vincent Bolloré comprou o Journal du Dimanche, muitos membros da equipa editorial tentaram bloquear o negócio, temendo que o seu jornal semanal se tornasse uma versão impressa da CNews. Muitos artistas, intelectuais e políticos apoiaram-no abertamente. Na época, muitos líderes empresariais distanciaram-se da aquisição e de Vincent Bolloré, temendo que o caso prejudicasse a reputação do seu sector.

Os líderes empresariais franceses mais poderosos e ricos não estiveram ausentes: desde o lançamento do novo formato do Journal du Dimanche sob a chancela da Bolloré, com muitos jornalistas da Valeurs actuelles, anúncios a promover marcas do grupo LVMH, de Bernard Arnault, têm marcado presença de forma ostensiva. Da mesma forma, altos executivos jantam abertamente com Marine Le Pen, como Henri Proglio, ex-CEO da EDF e da Veolia. Este encontro foi amplamente comentado, pois transmite uma mensagem muito clara de aceitação. Mas outros encontros, mais discretos e numerosos, ocorreram no mais alto nível, nomeadamente na Primavera de 2024, entre a própria Marine Le Pen e o presidente da Medef (Confederação Empresarial Francesa), Patrick Martin.

Esta não é a primeira vez que os chefes entram em pânico, mas porquê agora, quando transformaram toda a sociedade em seu benefício?

LM: A intransigência de grandes patrões, como Bernard Arnault, no debate público, diz muito sobre no que é que se tornou o capitalismo francês.

Em 1936, François de Wendel, membro do Banco da França e presidente do Comité des Forges (organização que representava os maiores industriais), criticou os seus pares por não terem feito o suficiente para se opor à Frente Popular antes das eleições. Contudo, durante as principais greves, ele apoiou os Acordos de Matignon para pôr fim às ocupações de fábricas. Nas décadas de 1970 e 1980, o então líder do sindicato Force Ouvrière (Força Operária), André Bergeron, iniciou negociações com os empregadores por acreditar que havia vantagens a serem obtidas. Isso significava que um acordo baseado na redistribuição de rendimento era possível.

Os acordos eram possíveis durante a era fordista porque, em essência, os empregadores também os procuravam. Mas os tempos mudaram, gradualmente ao longo dos últimos cinquenta anos com o neo-liberalismo, onde os acordos se tornaram cada vez mais raros à medida que o poder dos patrões cresceu, levando a uma fase muito mais radical hoje com a ascensão da doutrina libertária, exemplificada por Milei e a sua motosserra na Argentina.

Hoje em dia, nenhum compromisso é aceitável para os empresários que estão em pé de igualdade com os estados.

A arrogância demonstrada por Bernard Arnault em relação a Gabriel Zucman, o arquitecto do imposto universal sobre a riqueza de 2%, ilustra essa mentalidade trumpiana entre os altos executivos da actualidade. O presidente da LVMH, portanto, refere-se a Gabriel Zucman como um "pseudo-economista", embora este seja professor na Universidade da Califórnia, Berkeley, e, na França, na École Normale Supérieure.

Essas duas instituições estão entre as mais prestigiosas do mundo em termos de pesquisa e ensino superior.

Será que, para manter os privilégios exorbitantes acumulados nas últimas décadas, os patrões poderiam ser tentados por um regime autoritário que impedisse uma distribuição de riqueza um pouco menos desigual?

A conclusão a que cheguei após a minha investigação é inegável: a comunidade empresarial está, de facto, preparada para colaborar com um governo de extrema-direita, caso isso aconteça. Ao afirmar isso, é importante esclarecer que a comunidade empresarial não é um bloco homogéneo; as opiniões e afiliações partidárias dentro dela são bastante diversas. No entanto, existe um fio condutor, um denominador comum mínimo com poucas excepções: um ódio profundo à esquerda, como sempre.

Voltemos à época da Frente Popular. O choque da ascensão dessa força política ao poder marcou profundamente os empregadores franceses, muito tempo depois da guerra.

Este é o trauma que François Ceyrac, presidente do CNPF – antecessor do Medef – entre 1972 e 1981, certa vez testemunhou: “Nos círculos que eu frequentava, havia uma hostilidade violenta, uma hostilidade visceral à Frente Popular”. Segundo ele próprio, o seu avô era um “monarquista fervoroso”, enquanto ele próprio apoiou a Action Française na sua juventude.

É significativo que muitas das principais figuras empresariais da segunda metade do século XX, como Marcel Demonque, que dirigiu a empresa de cimento Lafarge, Pierre Huvelin, cuja empresa de pneus foi absorvida pela Michelin em 1981, ou Ambroise Roux, o CEO da Compagnie générale d'électricité, que comparecia à missa em memória de Luís XVI todos os anos em 21 de Janeiro, também tenham sido funcionários da CNPF.

Essa rejeição à esquerda, assim que ela adopta um programa radical, é uma constante entre os líderes empresariais. Vemos isso em 1936, como em 1968 ou 1981, e até aos dias de hoje. Essa aversão à esquerda chegou ao ponto em que os líderes empresariais romperam a barreira republicana nas eleições legislativas do Verão de 2024. No entanto, o programa da França Insubmissa e da Nova Frente Popular não é de forma alguma revolucionário. É tão sabiamente reformista que é menos ambicioso do que o de 1981.

Sobre o mesmo assunto, veja este link:

https://www.lemonde.fr/la-chronique-de-thomas-piketty/article/2025/11/08/thomas-piketty-en-votant-contre-la-taxe-zucman-le-rn-s-est-clairement-affirme-comme-le-parti-des-milliardaires


Ilustração

Marine Le Pen, então candidata presidencial do Rassemblement National, apresenta o seu programa de campanha económico à Medef (Confederação Empresarial Francesa) em Paris, em 21 de Fevereiro de 2022. ERIC PIERMONT/AFP

 

Fonte: Rassemblement National et Patronat Français – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice



Sem comentários:

Enviar um comentário