Dia da Mulher 2026 - Mulheres Operárias Lideram o Caminho
A classe operária
continua a enfrentar uma enxurrada interminável de ataques por parte dos
patrões. As guerras estão a eclodir por todo o lado e o custo de vida continua
a subir. O capitalismo parece destinado a continuar a dominar este pântano num
futuro previsível. Tal como fazemos em todos os Dias da Mulher, voltamo-nos
para reflectir sobre o exemplo histórico das operárias de São Petersburgo em Fevereiro
de 1917, que lideraram a investida contra a tirania do domínio burguês. Longe
de serem politicamente motivadas por uma identidade reificada, elas atacavam
consciente e directamente o capital, guiadas por uma consciência comunista
revolucionária. Hoje, as memórias da Revolução Russa recuaram para os anais da
história, mas as verdadeiras lições políticas, a possibilidade de uma sociedade
livre da exploração e da misoginia, permanecem para sempre com a classe operária.
É exactamente esta combatividade que precisa de ser transportada para os dias
de hoje para derrotar o capital, através da actividade política consciente da
classe, para a classe. O ataque implacável aos direitos reprodutivos recai
sobre as operárias como parte de um ataque generalizado à classe. Em vez de
recorrer à ala de esquerda do capital, a verdadeira resposta a isso foi dada
pelas operárias de São Petersburgo em 1917, que conquistaram os seus direitos
por si próprias no âmbito de uma revolução comunista. Para tal, porém, as operárias
lutam contra o compromisso e o reformismo, que nos redireccionam de volta ao
capitalismo. Isto significa não fazer concessões ao Estado capitalista, recusar
alianças com a burguesia e construir combatividade através da luta comunista
organizada.
Embora a Revolução Russa
possa parecer distante, as condições contra as quais as operárias lutavam
permanecem fundamentalmente as mesmas, e o exemplo heróico mostra-nos o
verdadeiro caminho para sair da sociedade de classes. A burguesia então, como
agora, usa as mesmas ferramentas para dividir a classe operária, de modo a
sermos melhor explorados e menos organizados. As operárias de São Petersburgo
desmantelaram a autoridade czarista, que as privava das necessidades mais
básicas. No entanto, longe de ficar por aqui, essas mesmas operárias lutaram
contra o Governo Provisório liberal, que procurava travar a revolução e expressavam
ideias em direcção a direitos abstractos que hoje nos são familiares. As operárias,
organizadas como parte de uma classe operária politicamente consciente,
recusaram os restos dados por Kerensky. Durante o chamado 'período da
lua-de-mel' imediatamente após a Revolução de Outubro, o aborto e o divórcio
foram legalizados, e a homossexualidade foi descriminalizada através do mandato
directo dos operários. Longe de nascer de debates abstractos sobre a natureza
humana, esta era a vontade popular de uma classe operária politicamente
consciente, que rapidamente ultrapassou todas as outras democracias
capitalistas 'liberais' no sufrágio feminino. Além disso, longe de ser
'reducionista de classe', demonstrou que a consciência revolucionária
representava verdadeiramente o interesse mais geral da classe, ao contrário da
especulação dos esquerdistas identitários que vemos hoje em dia. Além disso, o
período revolucionário demonstra como, quando as mulheres operárias perseguem
os seus interesses políticos, acabam imediatamente por se deparar com
feministas burguesas que procuram a emancipação das mulheres apenas no
abstrato, ou seja, para si próprias. As feministas burguesas da época, tal como
aquelas que hoje apoiam a guerra contra o Irão, não hesitaram em aliar-se aos
reaccionários para matar o maior número possível de operários, a fim de
preservar o seu domínio quando o capitalismo se viu ameaçado. Afinal, foi por
isso que as sufragistas apoiaram a Primeira Guerra Mundial, e foi essa a razão
pela qual Sylvia Pankhurst fundou a Federação do Sufrágio das Operárias, devido
a esta divergência fundamental de interesses. Como resume Alexandra Kollontai:
"O mundo das mulheres, tal como o mundo dos
homens, dividiu-se em dois campos: um, nos seus objectivos, aspirações e
interesses, está do lado das classes burguesas, enquanto o outro está
intimamente ligado ao proletariado... Cada um destes grupos militantes avança
inconscientemente com base nos interesses da sua própria classe, o que confere
uma cor de classe específica às suas aspirações e objectivos... Por mais
radicais que possam parecer as exigências das feministas... [elas] não podem
lutar para alcançar uma reestruturação fundamental da actual estrutura
económico-social da sociedade... Sem isto, a emancipação das mulheres não pode
ser completa."
Introduction to the Book The Social Basis of the Woman Question, A.
Kollontai, 1908
Esta divergência
fundamental de interesses transcende todas as formas de divisão impostas pelo
capitalismo, mas deve ser combatida pelas operárias para que estas possam
representar um verdadeiro desafio ao capital. É preciso reconhecer que as lutas
por direitos abstractos podem rapidamente virar-se contra as operárias, como se
demonstra de forma mais evidente em tempos de guerra. Já estamos a assistir a
isto com a declaração de Carney de que a guerra com o Irão é necessária para
proteger os «direitos humanos». Deveria ser óbvio que, embora a República
Islâmica seja objectivamente repressiva e não poupe punições sob o seu regime
reaccionário, não há direitos a conquistar nem melhoria das condições para as operárias
no Canadá ao marchar para a guerra — no campo de batalha, há apenas morte e
destruição. Já vimos esses mesmos grupos que protestaram pelos direitos das
mulheres no Irão há anos darem uma volta de 180 graus e clamarem por uma
mudança de regime, mesmo enquanto crianças em idade escolar estão a ser
bombardeadas pelos EUA em plena luz do dia. Ao mesmo tempo, aqueles que
protestaram contra o massacre de Israel na Palestina veem agora uma causa justa
no governo iraniano, apoiando um Estado que não hesitou em matar milhares de
pessoas que protestaram e entraram em greve contra a austeridade e a repressão
há apenas alguns meses, um Estado que também está empenhado em arrastar o maior
número possível de outros países para uma guerra total para defender a sua
classe dominante. Este episódio demonstra-nos exactamente como as causas
«progressistas» estão desligadas de qualquer conteúdo de classe e servem para
reforçar o mandato desta ou daquela burguesia, opondo-se, essencialmente, à
política comunista. O mesmo se pode dizer no Quebec da luta pelos direitos
reprodutivos, que foi desviada para um debate sobre nacionalismo, o que relega
as operárias às urnas e aos tribunais, o terreno preferido da burguesia, em vez
da verdadeira luta generalizada que as operárias devem organizar para combater
estes ataques. A força iniciada pelas operárias de São Petersburgo superou tais
ilusões durante a Revolução de Outubro, que inspirou os marinheiros de Kiel a
erguer também a bandeira da revolta internacionalista, pondo efectivamente fim
à Primeira Guerra Mundial. Entre esses operários encontravam-se multidões de operárias
desiludidas que, após décadas de luta no terreno da política feminista,
perceberam que o único meio de lutar pelas suas reivindicações específicas só
poderia vir sob a bandeira do comunismo, através da ditadura do proletariado e
como parte do mandato geral da classe operária. Foi precisamente no momento
crucial da oposição à guerra que esta política se tornou mais clara e abriu a
porta à emancipação social total.
Isto leva-nos também à
ligação entre a repressão dos direitos e a marcha para a guerra. Longe de ser
apenas a política deste ou daquele Estado-nação, o imperialismo é uma condição
permanente do capital. É o botão vermelho grande sempre pronto, que pode ser
pressionado quando os lucros secam e as tensões sociais já não podem ser
facilmente contidas na urna. Quer seja os EUA, Israel, Rússia, Irão, China,
etc., a classe operária está constantemente a ser condicionada a marchar para a
frente para um grande confronto entre os principais blocos imperialistas. Neste
impasse, as operárias são tratadas como dispensários de bebés em casa para
reforçar a linha da frente, enquanto os homens são tratados como carne para
canhão através do recrutamento. Neste contexto, o ataque aos direitos
reprodutivos não surge do nada nem é exclusivamente culpa desta ou daquela
administração, mas sim a concretização de um sacrifício exigido pela burguesia
como um todo. Isto também tem sido demonstrado na enésima greve que surge e é
esmagada através da intervenção activa do governo (e sabotagem por parte dos
sindicatos), mais uma vez sob o disfarce da sua preciosa ‘lei’. Embora seja
óbvio que homens e mulheres enfrentam dificuldades particulares, embora não
exclusivas (incluindo agressão sexual de homens e mulheres, como foi mostrado
na Ucrânia, Gaza, Sudão, Mianmar), o imperialismo resulta na destruição geral
da vida independentemente do género, pelo que a classe operária é quem mais
paga o preço. É por estas razões que enfatizamos a necessidade de a classe
reconhecer estes ataques como parte de uma ofensiva generalizada da burguesia,
e porque uma resposta igualmente generalizada é necessária. Não através da
urna, não através da negociação da qualidade democrática dos direitos mais
básicos, ou cedendo ao grito nacionalista em defesa de Estados ou de direitos
abstractos, mas através da consciência revolucionária organizada da classe. É
por esta razão que lembramos mais uma vez as mulheres operárias de São
Petersburgo, que não só marcharam para lutar pelo comunismo, mas foram as
primeiras a desdobrar o estandarte, declarando ‘Abaixo a Guerra’. É por esta
razão que os operários devem lutar contra a guerra total que a burguesia quer
impor-nos. As mulheres operárias derrubaram o Czar e acabaram com a Primeira
Guerra Mundial, mulheres operárias, abram o caminho!
Klasbatalo
Internationalist Workers' Group
Domingo, 15 de Março de 2026
Fonte: Women’s
Day 2026 - Women Workers Lead the Way | Leftcom
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice
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