quinta-feira, 19 de março de 2026

Dia da Mulher 2026 - Mulheres Operárias Lideram o Caminho

 


Dia da Mulher 2026 - Mulheres Operárias Lideram o Caminho 

A classe operária continua a enfrentar uma enxurrada interminável de ataques por parte dos patrões. As guerras estão a eclodir por todo o lado e o custo de vida continua a subir. O capitalismo parece destinado a continuar a dominar este pântano num futuro previsível. Tal como fazemos em todos os Dias da Mulher, voltamo-nos para reflectir sobre o exemplo histórico das operárias de São Petersburgo em Fevereiro de 1917, que lideraram a investida contra a tirania do domínio burguês. Longe de serem politicamente motivadas por uma identidade reificada, elas atacavam consciente e directamente o capital, guiadas por uma consciência comunista revolucionária. Hoje, as memórias da Revolução Russa recuaram para os anais da história, mas as verdadeiras lições políticas, a possibilidade de uma sociedade livre da exploração e da misoginia, permanecem para sempre com a classe operária. É exactamente esta combatividade que precisa de ser transportada para os dias de hoje para derrotar o capital, através da actividade política consciente da classe, para a classe. O ataque implacável aos direitos reprodutivos recai sobre as operárias como parte de um ataque generalizado à classe. Em vez de recorrer à ala de esquerda do capital, a verdadeira resposta a isso foi dada pelas operárias de São Petersburgo em 1917, que conquistaram os seus direitos por si próprias no âmbito de uma revolução comunista. Para tal, porém, as operárias lutam contra o compromisso e o reformismo, que nos redireccionam de volta ao capitalismo. Isto significa não fazer concessões ao Estado capitalista, recusar alianças com a burguesia e construir combatividade através da luta comunista organizada.

Embora a Revolução Russa possa parecer distante, as condições contra as quais as operárias lutavam permanecem fundamentalmente as mesmas, e o exemplo heróico mostra-nos o verdadeiro caminho para sair da sociedade de classes. A burguesia então, como agora, usa as mesmas ferramentas para dividir a classe operária, de modo a sermos melhor explorados e menos organizados. As operárias de São Petersburgo desmantelaram a autoridade czarista, que as privava das necessidades mais básicas. No entanto, longe de ficar por aqui, essas mesmas operárias lutaram contra o Governo Provisório liberal, que procurava travar a revolução e expressavam ideias em direcção a direitos abstractos que hoje nos são familiares. As operárias, organizadas como parte de uma classe operária politicamente consciente, recusaram os restos dados por Kerensky. Durante o chamado 'período da lua-de-mel' imediatamente após a Revolução de Outubro, o aborto e o divórcio foram legalizados, e a homossexualidade foi descriminalizada através do mandato directo dos operários. Longe de nascer de debates abstractos sobre a natureza humana, esta era a vontade popular de uma classe operária politicamente consciente, que rapidamente ultrapassou todas as outras democracias capitalistas 'liberais' no sufrágio feminino. Além disso, longe de ser 'reducionista de classe', demonstrou que a consciência revolucionária representava verdadeiramente o interesse mais geral da classe, ao contrário da especulação dos esquerdistas identitários que vemos hoje em dia. Além disso, o período revolucionário demonstra como, quando as mulheres operárias perseguem os seus interesses políticos, acabam imediatamente por se deparar com feministas burguesas que procuram a emancipação das mulheres apenas no abstrato, ou seja, para si próprias. As feministas burguesas da época, tal como aquelas que hoje apoiam a guerra contra o Irão, não hesitaram em aliar-se aos reaccionários para matar o maior número possível de operários, a fim de preservar o seu domínio quando o capitalismo se viu ameaçado. Afinal, foi por isso que as sufragistas apoiaram a Primeira Guerra Mundial, e foi essa a razão pela qual Sylvia Pankhurst fundou a Federação do Sufrágio das Operárias, devido a esta divergência fundamental de interesses. Como resume Alexandra Kollontai:

"O mundo das mulheres, tal como o mundo dos homens, dividiu-se em dois campos: um, nos seus objectivos, aspirações e interesses, está do lado das classes burguesas, enquanto o outro está intimamente ligado ao proletariado... Cada um destes grupos militantes avança inconscientemente com base nos interesses da sua própria classe, o que confere uma cor de classe específica às suas aspirações e objectivos... Por mais radicais que possam parecer as exigências das feministas... [elas] não podem lutar para alcançar uma reestruturação fundamental da actual estrutura económico-social da sociedade... Sem isto, a emancipação das mulheres não pode ser completa."

Introduction to the Book The Social Basis of the Woman Question, A. Kollontai, 1908

Esta divergência fundamental de interesses transcende todas as formas de divisão impostas pelo capitalismo, mas deve ser combatida pelas operárias para que estas possam representar um verdadeiro desafio ao capital. É preciso reconhecer que as lutas por direitos abstractos podem rapidamente virar-se contra as operárias, como se demonstra de forma mais evidente em tempos de guerra. Já estamos a assistir a isto com a declaração de Carney de que a guerra com o Irão é necessária para proteger os «direitos humanos». Deveria ser óbvio que, embora a República Islâmica seja objectivamente repressiva e não poupe punições sob o seu regime reaccionário, não há direitos a conquistar nem melhoria das condições para as operárias no Canadá ao marchar para a guerra — no campo de batalha, há apenas morte e destruição. Já vimos esses mesmos grupos que protestaram pelos direitos das mulheres no Irão há anos darem uma volta de 180 graus e clamarem por uma mudança de regime, mesmo enquanto crianças em idade escolar estão a ser bombardeadas pelos EUA em plena luz do dia. Ao mesmo tempo, aqueles que protestaram contra o massacre de Israel na Palestina veem agora uma causa justa no governo iraniano, apoiando um Estado que não hesitou em matar milhares de pessoas que protestaram e entraram em greve contra a austeridade e a repressão há apenas alguns meses, um Estado que também está empenhado em arrastar o maior número possível de outros países para uma guerra total para defender a sua classe dominante. Este episódio demonstra-nos exactamente como as causas «progressistas» estão desligadas de qualquer conteúdo de classe e servem para reforçar o mandato desta ou daquela burguesia, opondo-se, essencialmente, à política comunista. O mesmo se pode dizer no Quebec da luta pelos direitos reprodutivos, que foi desviada para um debate sobre nacionalismo, o que relega as operárias às urnas e aos tribunais, o terreno preferido da burguesia, em vez da verdadeira luta generalizada que as operárias devem organizar para combater estes ataques. A força iniciada pelas operárias de São Petersburgo superou tais ilusões durante a Revolução de Outubro, que inspirou os marinheiros de Kiel a erguer também a bandeira da revolta internacionalista, pondo efectivamente fim à Primeira Guerra Mundial. Entre esses operários encontravam-se multidões de operárias desiludidas que, após décadas de luta no terreno da política feminista, perceberam que o único meio de lutar pelas suas reivindicações específicas só poderia vir sob a bandeira do comunismo, através da ditadura do proletariado e como parte do mandato geral da classe operária. Foi precisamente no momento crucial da oposição à guerra que esta política se tornou mais clara e abriu a porta à emancipação social total.

Isto leva-nos também à ligação entre a repressão dos direitos e a marcha para a guerra. Longe de ser apenas a política deste ou daquele Estado-nação, o imperialismo é uma condição permanente do capital. É o botão vermelho grande sempre pronto, que pode ser pressionado quando os lucros secam e as tensões sociais já não podem ser facilmente contidas na urna. Quer seja os EUA, Israel, Rússia, Irão, China, etc., a classe operária está constantemente a ser condicionada a marchar para a frente para um grande confronto entre os principais blocos imperialistas. Neste impasse, as operárias são tratadas como dispensários de bebés em casa para reforçar a linha da frente, enquanto os homens são tratados como carne para canhão através do recrutamento. Neste contexto, o ataque aos direitos reprodutivos não surge do nada nem é exclusivamente culpa desta ou daquela administração, mas sim a concretização de um sacrifício exigido pela burguesia como um todo. Isto também tem sido demonstrado na enésima greve que surge e é esmagada através da intervenção activa do governo (e sabotagem por parte dos sindicatos), mais uma vez sob o disfarce da sua preciosa ‘lei’. Embora seja óbvio que homens e mulheres enfrentam dificuldades particulares, embora não exclusivas (incluindo agressão sexual de homens e mulheres, como foi mostrado na Ucrânia, Gaza, Sudão, Mianmar), o imperialismo resulta na destruição geral da vida independentemente do género, pelo que a classe operária é quem mais paga o preço. É por estas razões que enfatizamos a necessidade de a classe reconhecer estes ataques como parte de uma ofensiva generalizada da burguesia, e porque uma resposta igualmente generalizada é necessária. Não através da urna, não através da negociação da qualidade democrática dos direitos mais básicos, ou cedendo ao grito nacionalista em defesa de Estados ou de direitos abstractos, mas através da consciência revolucionária organizada da classe. É por esta razão que lembramos mais uma vez as mulheres operárias de São Petersburgo, que não só marcharam para lutar pelo comunismo, mas foram as primeiras a desdobrar o estandarte, declarando ‘Abaixo a Guerra’. É por esta razão que os operários devem lutar contra a guerra total que a burguesia quer impor-nos. As mulheres operárias derrubaram o Czar e acabaram com a Primeira Guerra Mundial, mulheres operárias, abram o caminho!

Klasbatalo
Internationalist Workers' Group

Domingo, 15 de Março de 2026

 

Fonte: Women’s Day 2026 - Women Workers Lead the Way | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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