Preconceitos sobre os Hummer
21 de Junho de
2026 Daniel Ducharme
DANIEL DUCHARME
No meu bairro, na ponta da ilha, há um tipo que anda à noite num Hummer, aquele monte de sucata quadrado que faz lembrar os carros de assalto, os Panzers alemães da Segunda Guerra Mundial. O Hummer é um veículo automóvel, uma espécie de jipe, se assim se pode dizer, mas mais feio, maior, mais poluente e mais caro, tanto na compra como na manutenção, do que a média dos veículos. O tipo que conduz este mastodonte de ferro cor de amarelo-canário tem a pele negra, o cabelo em tranças, usa óculos de sol (mesmo à noite) e ouve rap a um volume tal que faz tremer os alicerces das casas do bairro.
Como não pensar que se trata de um
traficante de droga ligado a um gangue de rua? Sem dúvida que sou vítima dos
meus preconceitos… mas não consigo imaginar este homem sentado atrás de uma
secretária a analisar pedidos de subsídios para um ministério qualquer. Talvez
esteja enganado. Talvez este homem, afinal, seja simplesmente um mecânico numa
oficina de Montréal-Nord e tenha comprado este Hummer por uma ninharia,
assumindo a responsabilidade de o pôr em condições. O que sabemos, no fundo,
uns dos outros? O que é que ele pensa de mim, aquele tipo, quando me cruza com
o seu carro enorme enquanto eu avanço penosamente na minha bicicleta? Como é
que ele me vê? Como um tipo que analisa pedidos de subsídios num ministério
qualquer… Um coitado que tenta manter-se em forma com os meios que tem à
disposição. O pior é que ele não estaria longe da verdade…
Um pouco mais tarde, nesse mesmo mês,
avistei outro Hummer no meu bairro. Esse era vermelho vivo e era conduzido por
um senhor baixinho, de óculos, vestido com um fato às riscas. Com cerca de
cinquenta anos, tinha todo o ar de um executivo de uma instituição financeira.
Talvez um contabilista, não sei. Como não pensar que este senhor de estatura
pequena procura uma sensação de poder ao volante daquele carro de ferro? Uma
sensação que, sem dúvida, nunca experimenta na sua vida quotidiana, de tal
forma que é manipulado pela sua esposa, uma mulher mal-humorada de quem já não
gosta há muito tempo, mas de quem não se atreve a separar-se, provavelmente por
medo de retaliações. Ao volante do seu Hummer, adquire um poder inversamente
proporcional ao que tem em casa, um espaço onde não controla nada, nem sequer a
compra da torradeira que a mulher acaba por escolher por ele. Sem dúvida que o
mesmo se passa no escritório, naquela torre no centro da cidade onde, por mais
executivo que seja, recebe ordens de superiores arrogantes, jovens ambiciosos e
sedentos de poder que nunca perdem a oportunidade de o menosprezar, ele, aquele
quinquagenário de óculos que parece tudo o que se quer, menos um tipo fixe a
quem se convida para um happy hour nas noites de pagamento. Então, um dia, sem
dizer nada à sua querida esposa, comprou aquele Hummer. Comprou-o contra a
vontade de todos, disposto a assumir todas as consequências. E agora, passeia
pelas ruas do seu bairro, à noite, depois do jantar.
Para este quinquagenário de óculos,
passear num Hummer constitui, sem dúvida, o acto mais rebelde que alguma vez
realizou ao longo da sua vida. Mas o que sentirá quando cruzar o homem alto e
negro de cabelos trançados? E ele, o tipo fixe que parece um traficante, não se
sente ridículo quando se apercebe de que um senhor baixinho e envelhecido, com
ar de funcionário público, conduz o mesmo tipo de veículo que ele?
Todos temos os nossos preconceitos, não
é?
Fonte: https://les7duquebec.net/archives/206783

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