Quando pela primeira vez em 2012 utilizei a expressão Não é a
Alemanha que é indispensável à sobrevivência do euro... é o euro que é
indispensável à estratégia de dominação do imperialismo germânico sobre a
Europa, logo um coro de oportunistas, adeptos da teoria da reestruturação
ou da renegociação da dívida soberana se indignaram com tamanha
audácia!
Na cabecinha de ervilha destas iluminarias, a ideia de que as chamadas dívidas
soberanas resultam de uma política que impôs a transferência das dívidas
privadas do sistema bancário, decorrentes das aventuras que a especulação
imobiliária e financeira e o chamado mercado do sub-prime originaram,
para o domínio público, aparentemente não fez caminho.
Fingem não entender que, ao exigir a renegociação ou a reestruturação
da dívida, aceitam negociar no campo daqueles que dizem combater, isto
é, o directório europeu – completamente sequestrado pelo imperialismo germânico
-, ao mesmo tempo que aceitam a provocatória premissa daqueles que, como o
chefe da quadrilha Espírito Santo, Ricardo Salgado, defendiam que o povo
português andou a viver acima das suas possibilidades!
Ora bem, o que esta gente de facto está a fazer, objectivamente, e
independentemente das intenções que anunciam, é ajudar os serventuários do
grande capital financeiro, bancário e industrial, sobretudo os grandes grupos
germânicos, a branquear as massivas transferências que realizam, quer do
rendimento do trabalho para o capital, quer dos juros que arrecadam à custa do negócio
da dívida.
Como sempre o afirmámos, a Alemanha fez do euro uma ferramenta de
dominação económica. E é por isso que a crise na Europa serve às mil
maravilhas essa sua estratégia. Na razão inversa aos danos que provocam as
medidas de austeridade que impõe, sobretudo aos países do sul da Europa, que
constituem o elo mais fraco do sistema capitalista no continente, são
colossais os ganhos que tem obtido à custa dela e das dívidas soberanas.
Basta ter em conta as taxas de juro divergentes entre os membros da
chamada zona euro, sobretudo após os primeiros anos da entrada em vigor
da moeda única. A análise dos números não deixa qualquer margem para dúvidas:
se as taxas de juro pagas pela Alemanha se tivessem mantido estáveis depois de
2008, Berlim teria pago qualquer coisa como 93 mil milhões de euros de juros em
2015! Mas, como tal não aconteceu, este ano só terá de desembolsar 48
mil milhões, ou seja, duas vezes menos do que o que estava previsto!
Basta fazer contas! A Alemanha, ao impôr elevadíssimas taxas de juro a
países como a Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha ou Itália, assegura para si
taxas que já chegaram a ser negativas, o que lhe proporcionou uma economia
(diria roubo) de 193 mil milhões de euros, enquanto aos países sob resgate
ou memorandos de intervenção de uma tróica por si dominada, é um exaurir
de recursos, um genocídio fiscal e a perda de soberania que os espera, e a
fome, a miséria e o desemprego para os respectivos povos.

Esperar que a Alemanha abandone unilateralmente a zona euro é a mesma coisa que acreditar que o leão que acabou de
filar uma gazela e se prepara para a transformar no seu lauto repasto, se
compadeça com a sorte da sua presa, apenas porque ela estrebuchou um pouco mais
do que é habitual uma presa fazer, e a deixe partir para voltar a ser livre.
Segundo estes iluminados, a
Alemanha deveria reintroduzir o seu amado marco (em nossa
opinião nunca abandonado, pois o euro não passa do marco travestido), pois os
problemas da dívida e da competitividade que países como Portugal, a Grécia,
Espanha, Itália ou, apesar das diferenças, a Irlanda, actualmente enfrentam,
voltariam a ser facilmente resolvidos, através de uma periódica desvalorização
das moedas nacionais, especialmente quando comparamos comportamentos quando aqueles
países detinham moeda própria e se confrontavam com o marco alemão em condições
idênticas às actuais.

Esta gente é a mesma que vem defendendo que os povos e os governos que se
pautam pelo estado de direito, são
honrados e pagam as suas dívidas! Escamoteando que as dívidas cujo pagamento estão
a impor aos povos, não foram contraídas por eles, nem eles retiraram qualquer
benefício delas. Quem retirou delas esses benefícios foram os grandes grupos
bancários e financeiros que, em vez de capitalizarem os bancos que geriam,
levaram a cabo uma autêntica política de casino, ao mesmo tempo que distribuíam de forma generosa, pelos seus accionistas, os fabulosos lucros que iam obtendo
à custa de um sistema que permite que a banca seja a única a poder recorrer ao
crédito do Banco Central Europeu (BCE), a taxas de juro de 1% ,e até inferiores, para depois vender esses créditos a taxas de 5%, e mais elevadas,
aos estados...para que estes possam pagar as dívidas criadas pelo sistema
bancário que lhes empresta, agora,
dinheiro!

É por isso que a nova fuhrer, a chancelerina Merkel, anda tão tranquila,
confiada e confiante. Com inimigos
deste jaez, quem precisa de amigos! Com uma oposição
desta natureza o que poderá a dama imperial temer?! Só a organização, luta e
firmeza dos povos!
O que os números agora divulgados demonstram é que não há alternativa, quer
para Portugal, quer para outros países sujeitos a resgate pela tróica germano-imperialista, do que promover uma ampla
unidade democrática e patriótica para correr com a tróica e seus agentes
locais, sair do euro e da União Europeia, recuperar as moedas nacionais e
implementar planos de restauro do tecido produtivo destruído, precisamente para
satisfazer os interesses imperiais da Alemanha.