A luta e o debate que se está a
desenvolver em torno do chamado Spitzenkandidaten só interessam à
classe operária e aos povos dos países europeus – sobretudo os que fazem parte
da chamada União Europeia – na medida em que revelam as profundas contradições
que se estão a gerar no seio do imperialismo europeu.
Neste contexto, é irrelevante que
o novo presidente da Comissão Europeia seja o candidato proposto pelas famílias políticas maioritárias no
Parlamento Europeu ou venha a ser designado pela própria Comissão Europeia,
ainda que essa eleição venha a ser sujeita à aprovação do Parlamento Europeu.
O que é relevante ter presente é
no que é que a resolução dessas contradições se vai traduzir, pois o resultado será sempre o mesmo – qualquer que seja o
proposto, escolhido e eleito, terá sempre de ser um reaccionário da confiança
do imperialismo germânico e dos seus lacaios menores, como Portugal, que, na
actual situação de crise da União Europeia e da intensificação dos preparativos
da guerra mundial imperialista, cumpra o papel de mandarete dos interesses das
potências economicamente dominantes.
Na
actual fase da luta entre as diferentes potências imperialistas europeias,
assistimos a um aprofundamento da exigência do Parlamento Europeu em ter mais
poderes do que o Conselho Europeu, reclamando que a Comissão se submeta a este
fórum, como se se tratasse de um executivo face a uma Assembleia eleita. Como
se essa alegada democratização
providenciasse, por um lado, melhor eficácia para a anunciada convergência e, por outro, facilitasse
os jogos de bastidores que levassem a matemáticas eleitorais mais favoráveis
aos diferentes blocos imperialistas em presença.

Face a este aparente empate técnico, Populares, Socialistas,
Liberais e Verdes, avançaram com a constituição de cinco Grupos de Trabalho
que, alegadamente, terão por missão definir a agenda e o programa que a
Comissão deve ter presente quando convidar
quem considere dever a presidir à mesma.
O
programa em causa, a implementar nos próximos 5 anos, deve contemplar, por
ordem da importância que os grupos de trabalho lhe atribuíram, os seguintes
temas:
·
O ambiente. Onde, ao
que se sabe, caberão temas como a biodiversidade, a energia, a mobilidade, o
combate às alterações climáticas e o desperdício. Uma hipocrisia, no quadro de
um sistema capitalista e imperialista, assente no lucro a todo o custo, e que
tem considerado todo e qualquer investimento nesta área como um óbice a esse
desiderato. Sempre defendemos que, só no quadro de novas relações de produção
comunistas, em que os meios de produção estejam ao serviço da classe operária e
do povo e por ela sejam geridos, é que se poderá falar e praticar uma
verdadeira política do ambiente;
·
A política económica.
Nomeadamente a política económica e social, o emprego, o comércio
internacional, a concorrência e política industrial e o aprofundamento da União
Económica e Monetária. Ou seja, mais do mesmo! Ou pior! O que a divisão
europeia do trabalho imposta pela Alemanha e seus aliados ditou nos mandatos
anteriores teve o resultado que se conhece. Uma cada vez maior divergência das
economias europeias, com aqueles que mantiveram o poder industrial e financeiro
intactos a dominarem e a sufocarem – através de garrotes como a dívida e o euro
– os países mais pobres que, para aderirem à ilusão de uma Europa convergente
aceitaram destruir todo o seu tecido industrial, agrícola e piscícola, como foi
o caso de Portugal.
·
Para dar alguma
consistência de modernidade ao
programa, incluíram a digitalização, a inovação e a inteligência artificial.
Não no sentido de melhores benefícios para os povos da Europa comunitária, mas
na perspectiva de redução dos chamados custos
de contexto. Isto é, o objectivo não será o de proporcionar maior qualidade
de vida e disponibilidade para a cultura e lazer para os trabalhadores, mas sim
criar mais desemprego e maiores lucros.
·
Lei e Direitos Fundamentais. Uma parte do programa que, a par dos temas económicos e
ambientais, maiores factores de divisão no seio do imperialismo europeu poderá
provocar. Estamos a falar, como é óbvio, da segurança, do combate ao
terrorismo, das fronteiras e da emigração. A história recente demonstrou à
exaustão que, apesar das divergências formais entre os chamados europeístas e os designados populistas/nacionalistas, ambos tiveram
– face à crise dos refugiados – comportamentos absolutamente vergonhosos e
criminosos. Escamoteando que foram as guerras promovidas e financiadas pelo
imperialismo europeu– incluindo o fornecimento de armamento pesado e sofisticado
– que provocaram o êxodo das populações, em fuga da guerra, da fome e da
miséria que esses conflitos geraram nos seus países.
·
Política Externa. Um
tema que nunca esteve presente em anteriores mandatos da Comissão Europeia. O
imperialismo alemão a considerar que se encontra num estádio confortável de
domínio sobre os imperialismos europeus menores para poder desenvolver e
colocar em prática uma política comum externa (assente na sua conhecida
concepção de espaço vital), que
englobe a defesa e a eventual criação de um exército europeu, responsável por
assegurar a paz na Europa e a defesa
dos interesses do imperialismo europeu – mormente os da Alemanha e da França –
em África.
Seja
qual for o método ou o candidato a designar para a Presidência da Comissão Europeia,
o que a classe operária e os povos europeus dos países que integram a UE podem
esperar não é a paz, não é a convergência, não é a prosperidade e dignidade
para quem trabalha e vive neste espaço.

Finalmente,
não deixará de ser esclarecedor para os operários e trabalhadores portugueses
verem um apaixonado envolvimento por parte dos recém eleitos deputados europeus
pelo PCP e pelo BE, na discussão em torno da escolha democrática do candidato em melhores condições para representar os
interesses do imperialismo europeu.
Obrigada uma vez mais pelo teu excelente texto...
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