sábado, 4 de julho de 2026

Colónias, um sabor de paraíso ou um sabor residual de inferno?

 


Colónias, um sabor de paraíso ou um sabor residual de inferno?

imagem: O porto de Bordéus pintado por Claude-Joseph Vernet (1714-1789) primeiro papel do arquivo especial que France Afrique preparou na ocasião...

Por: René Naba - em: Analyse France - a 13 de Março de 2010


imagem: O porto de Bordéus pintado por Claude-Joseph Vernet (1714-1789)

Primeiro artigo do relatório especial sobre a France Afrique, preparado por ocasião do quinquagésimo aniversário da independência de África, oferecendo uma retrospectiva dos vários aspectos ocultos da história de França........uma história tal como deveria ter sido ensinada às crianças em França.

Como a vida era bela nos tempos áureos das colónias e no seu antegozo do paraíso: cinquenta e dois milhões de pessoas (1), colonos em busca de um meio de subsistência, aventureiros em busca de fortuna, militares em busca de pacificação, administradores em busca de prestígio, missionários em busca de conversão, todos em busca de promoção, emigraram do «Velho Mundo», em pouco mais de um século (1820-1945), à descoberta de novos mundos, precursores distantes dos trabalhadores imigrantes da era moderna.

À taxa média de 500.000 expatriados por ano durante 40 anos, de 1881 a 1920, 28 milhões de europeus abandonaram a Europa para povoar a América, incluindo 20 milhões nos Estados Unidos, oito milhões na América Latina, sem contar com a Oceânia (Austrália, Nova Zelândia), Canadá, o continente negro, o Magrebe e a África do Sul em particular, bem como os limites da Ásia. os postos comerciais sem litoral de Hong Kong, Pondicherry e Macau. 52 milhões de expatriados, ou seja, o dobro da população estrangeira total residente na União Europeia no final do século XX, um número aproximadamente equivalente à população francesa.

Principal fonte demográfica do planeta durante cento e vinte anos, a Europa conseguirá a proeza de moldar à sua imagem dois outros continentes — a América, nas suas duas vertentes, bem como a Oceânia — e de impor a marca da sua civilização à Ásia e à África. «Senhora do mundo» até ao final do século XX, fará do planeta o seu campo de tiro permanente, a sua própria válvula de segurança, o trampolim para o seu prestígio e expansão, o escoadouro de todos os seus males, um depósito para o seu excedente populacional, um campo de trabalhos forçados ideal para os seus agitadores, sem outra limitação senão a imposta pela rivalidade intra-europeia pela conquista das matérias-primas.

O Fardo do Homem Branco e os Zoos Humanos

Ao longo de cinco séculos (século XV – século XX), 40 por cento do mundo habitado (2) terá, assim, estado, em maior ou menor grau, sob o jugo colonial europeu. Assumindo o testemunho da Espanha e de Portugal, pioneiros do movimento, a Grã-Bretanha e a França, as duas principais potências marítimas da época, viriam a deter, por si só, até 85 por cento do domínio colonial mundial e 70 por cento da população do planeta no início do século XX, saqueando, ao longo do caminho, Portugal e Espanha do ouro da América do Sul, a Inglaterra das riquezas da Índia e a França do continente africano.

 

A Grã-Bretanha reivindicaria essa responsabilidade a título do «fardo do homem branco», exaltado por Rudyard Kipling (3), a França, em nome da sua «missão civilizadora», corpus filosófico inalterável do pensamento francês durante décadas, para além das divisões políticas e religiosas, tema que será objecto de todas as variações numa extravagante antologia literária e numa profusão de iniciativas igualmente extravagantes, das quais as mais inverosímeis terão sido os «zoológicos humanos» das exposições coloniais.

Anões braquicefálicos, corcundas dolicocéfalas, gigantes macrocefálicos, negros albinos, nativos calipígios (4), canibais canacos (povo originário da etnia melanésia da Nova Caledónia NdT), todas as variações da morfologia humana foram assim exibidas durante cerca de cinquenta anos nas principais cidades francesas, sem a menor restricção, para exaltar o esplendor colonial de França e teorizar, como consequência, a inferioridade dos metics.

À razão de um evento a cada 18 meses, 38 exposições etnológicas, incluindo 30 só para o Jardin d'Acclimatation em Paris, foram organizadas alternadamente em Paris, Marselha e Lyon durante mais de meio século, de 1877 a 1931, numa vasta iniciativa que foi tanto uma operação de relações públicas como uma acção psicológica.
A contundir? O efeito foi imediato: um milhão de bilhetes pagos, um valor enorme para a época, para a primeira exposição (5) organizada por Etienne Geoffroy de Saint-Hilaire no Jardin d'Acclimatation em 1877, cinquenta milhões de espectadores para o "Diorama Vivo em Madagáscar" organizado por ocasião da Exposição de Paris de 1900, cujo ponto alto deveria ser a Torre Eiffel, 34 milhões de bilhetes pagos em apenas seis meses para a Exposição de Paris de 1931, uma média de 166.000 visitantes por dia.

A julgar pelos franceses ávidos de emoções fortes numa época que eles próprios, no entanto, classificaram como «belle époque»: o entusiasmo pelas «aldeias negras» iria crescendo, atraindo no total cerca de 100 milhões de espectadores, e o «barbarin» permanente das famílias abastadas e saciadas, que podiam ser explorados e submetidos a trabalhos forçados à vontade, seria o símbolo supremo de distinção social, o non plus ultra da vida social, sem que se saiba, quase um século depois, se esse frenesim correspondia a uma sede de descoberta, a uma necessidade sórdida de voyeurismo ou ainda a um impulso mórbido de patologia colectiva.

Quase ninguém resistirá à miragem da obra pacificadora da França. Nem mesmo um visionário como Alexis de Tocqueville, por outro lado um teórico tão lúcido da «Democracia na América», que legitimará os massacres como «necessidades fúteis às quais todo o povo que queira fazer guerra aos árabes será obrigado a submeter-se», nem Jules Ferry, pai da escola laica, a matriz da III.ª República, que reivindicaria para «as raças superiores (…) o direito de civilizar as raças inferiores», nem mesmo um humanista venerável da estatura de Léon Blum, primeiro chefe do governo socialista da França moderna, artífice das primeiras conquistas sociais sob o governo da Frente Popular (1936) (6).

Poucas vozes dissidentes serão ouvidas no coro laudatório da França colonial. Guy De Maupassant, como pioneiro, ironicamente comentou a "concepção singular de honra nacional" dos franceses. Louis Aragon, André Breton e Paul Eluard apelaram ao boicote das exposições coloniais, denunciando este esquema intelectual num manifesto intitulado "Não visitem a exposição colonial". Foi um esforço desperdiçado: a exposição de 1931 gerou 33 milhões em lucros em apenas seis meses.

Símbolos esquecidos da era colonial, totalmente reprimidos da memória colectiva ocidental, embora tenham despertado o entusiasmo de milhões de espectadores em Paris, Londres, Hamburgo e Nova Iorque e até em Moscovo, "uma etapa importante na transição gradual do racismo científico para o racismo popular", as "exposições antropozoológicas", ao colocar em perspectiva a "espectacularização do outro" através de uma mistura habilidosa de indivíduos exóticos e animais selvagens, deram origem a muitos estereótipos que ainda estão em vigor na era contemporânea. Assim, contribuirão poderosamente para moldar a identidade ocidental e a imaginação dos ocidentais (7).

Na memória viva dos povos, as feridas nunca saram. Décadas depois, muito depois da capitulação de Montoir (1940) e Dien Bien Phu (1954), num dos pontos altos da comunhão francesa no final do século XX, o triunfo do Mundial de 1998, quando as exposições etnológicas há muito tinham caído completamente no esquecimento pelos franceses, um Kanak de origem, portador de nacionalidade francesa, será responsável por reviver a dolorosa memória desta cicatriz vívida. Para "enviar os franceses de volta à sua própria imagem".

Com a boca irremediavelmente fechada em frente às câmaras de televisão do mundo, perante milhares de espectadores estupefactos, Christian Karambeu, o futebolista da Nova Caledónia que venceu o Mundial 98 e contribuiu para a glória de França, não vai cantar o hino nacional francês como abertura da competição, como lhe aconteceu em todos os jogos.

Nem uma única vez, em nenhuma competição internacional, por mais prestigiada que fosse, em nenhuma circunstância, em nenhum caso, sob nenhum pretexto, ao longo de toda a sua carreira desportiva, ele se desviou desta regra. Christian Karambeu nunca entoou «A Marselhesa», que o kanak baniu do seu repertório como sinal de protesto silencioso contra a exibição de um dos seus antepassados nos «zoológicos humanos» da época do apogeu colonial. Como uma vingança do destino, uma afronta aos traficantes de escravos de outrora, Christian Karambeu, o futebolista campeão do mundo em 1998, casou-se com um símbolo universal da beleza eslava, a bela Adriana, modelo estrela da década de 2000. Dores silenciosas: as feridas da memória nunca cicatrizam.

Este quadro paradisíaco da época abençoada das colónias irá desmoronar-se com a Grande Guerra. Primeira grande ruptura geo-estratégica da era contemporânea, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), um banho de sangue humano e um desperdício económico, provocará, no plano geo-estratégico, um declínio progressivo da Europa em benefício dos Estados Unidos; no plano demográfico, uma inversão dos fluxos migratórios; e, no plano da psicologia dos europeus, a dura aprendizagem do fenómeno exógeno, da cultura da alteridade, a negação do egocentrismo — uma verdadeira revolução mental.

Com 1,4 milhões de mortos e 900 000 inválidos, a França lamentará a perda de 11 por cento da sua população activa devido à Primeira Guerra Mundial, a que convém acrescentar os danos económicos: 4,2 milhões de hectares devastados, 295 000 casas destruídas, 500 000 danificadas, 4 800 km de vias férreas e 58 000 km de estradas a restaurar, 22 900 fábricas a reconstruir e 330 milhões de m³ de trincheiras a aterrar (8).

 

Os primeiros trabalhadores imigrantes, os kabyles, chegaram a França já em 1904 em pequenos grupos, mas a Primeira Guerra Mundial provocou um efeito acelerador, levando a um recurso maciço aos «trabalhadores coloniais», aos quais se somariam os reforços dos campos de batalha contabilizados noutra rubrica.

Durante a primeira década do século XX, a França já contava com 1,1 milhões de estrangeiros em 1906, ou seja, 2,7 por cento da população. Vinte anos depois, o número duplicou para 2,5 milhões de estrangeiros, dos quais 1,3 milhões eram trabalhadores da Europa, da Ásia e de África, recenseados em 1926.

O nativo distante dá lugar ao imigrante local. De uma curiosidade exótica exibida nos zoológicos humanos para glorificar a acção colonial francesa, a melanodermia tornou-se gradualmente uma característica permanente da paisagem humana da vida quotidiana metropolitana, a sua presença sentida como uma restricção, agravada pela diferenciação dos estilos de vida entre imigrantes e pessoas metropolitanas, pelas flutuações económicas e pelas incertezas políticas do país anfitrião

Paradoxalmente, no período entre guerras (1918-1938), a França favorecia o estabelecimento de uma "República Xenófoba", a matriz da ideologia de Vichy e da "preferência nacional", apesar da necessidade de mão-de-obra ser evidente. Embora tenham ajudado a tirar a França das suas ruínas, os trabalhadores imigrantes eram mantidos sob suspeita, seguidos dentro de um grande "arquivo central". Sujeitos a um imposto por vezes equivalente a meio mês de salário, uma fonte adicional de rendimento para o Estado francês, serão também percebidos como portadores de um triplo perigo: perigo económico para os seus concorrentes franceses, perigo para a saúde da população francesa na medida em que estrangeiros, particularmente asiáticos, presume-se que africanos e norte-africanos fossem portadores de doenças, uma ameaça à segurança do Estado francês (9).

As cotações do mercado bolsista dos trabalhadores coloniais

Quase duzentos mil "trabalhadores coloniais" (200.000) foram importados do Norte de África e do continente negro por verdadeiras corporações de escravos, como a "Société générale de l'immigration" (SGI), para compensar a força de trabalho francesa, principalmente nas indústrias da construcção e têxtil, para substituir os soldados franceses que tinham ido para a frente. No grupo de trabalhadores imigrantes, que inicialmente vieram principalmente de Itália e Polónia, os norte-africanos receberão atenção especial das autoridades públicas.

Um "Gabinete para a Vigilância e Protecção dos Nativos do Norte da África encarregado da repressão de crimes e ofensas" foi criado a 31 de Março de 1925. Um gabinete especial apenas para norte-africanos, precursor do "serviço de assuntos judaicos" que o governo de Vichy criou em 1940 para a vigilância de cidadãos franceses da "raça judaica" ou da fé judaica durante a Segunda Guerra Mundial. O título do cargo diz muito sobre a opinião do governo francês e as suas intenções para com ele. O fenómeno viria a aumentar com a Segunda Guerra Mundial e os gloriosos anos trinta do período pós-guerra (1945-1975) que se seguiram à reconstrucção da Europa, onde a necessidade de "carne para canhão" e uma força de trabalho abundante a baixos preços provocaram um novo fluxo migratório de igual importância ao anterior.

Até a imigração ilegal, que foi perseguida implacavelmente no final do século com o episódio das "cartas da vergonha" (1986-1988) e dos "indocumentados" (1993-1996), ganhou na altura o favor das autoridades públicas: "A imigração ilegal não é inútil, porque se mantivéssemos a aplicação rigorosa das regras, faltar-nos-ía mão-de-obra", declarou Jean Marcel Jeanneney, um economista de renome, na altura Ministro da Indústria do General de Gaulle, numa entrevista ao jornal "Les Echos" a 29 de Março de 1966, confirmou publicamente uma verdade óbvia de que os políticos permanecerão em silêncio durante muito tempo por considerações eleitorais.

Um luxo de requinte: o recrutamento decorria de acordo com critérios de afinidades geográficas, ao ponto de se formarem verdadeiros casais migratórios, em particular entre a Renault e os trabalhadores cabilianos, as minas de carvão francesas e os trabalhadores do sul de Marrocos, bem como na Alemanha, entre a Volkswagen e os imigrantes turcos.

À semelhança de uma cotação bolsista num mercado de gado, os trabalhadores coloniais eram mesmo objecto de uma classificação em função da sua nacionalidade e raça, com distinções subtis consoante o seu local de origem, nomeadamente entre os argelinos, onde os cabilianos beneficiavam de um preconceito mais favorável do que os outros grupos da população argelina (10).

Assim, em Nantes, numa escala de valor de 20, os chineses situavam-se no fundo da hierarquia. A sua produtividade era avaliada em 6 numa escala em que os marroquinos estavam classificados em 8, os argelinos, os cabilianos e os gregos em 10, e os italianos e espanhóis em 12. Em Bordéus, os marroquinos, italianos, cabilianos e espanhóis estavam classificados com 90 numa escala em que os portugueses se situavam em 75, os senegaleses em 50, os chineses em 40 e os indochineses em 30, enquanto os franceses se encontravam, em ambas as classificações, naturalmente no topo da hierarquia com uma pontuação inigualável de 20 em 20. Uma pontuação nunca antes registada por nenhuma outra nacionalidade, em nenhum outro lugar, em nenhuma outra competição.

A vingança dos indochineses e dos povos coloniais

Nesta classificação, a nota do indochinês não deixa de intrigar: 30 por cento, ou seja, 3 em 10, a nota mais baixa da hierarquia; o indochinês era considerado irrecuperável pelos franceses, sendo a sua nota eliminatória em qualquer prova, apesar de todos os pontos de recuperação e de todos os esforços para o readmitir. Essa nota intrigaria um jovem annamita que se encarregaria de fazer justiça mais tarde, em nome do seu povo. Aproveitando a sua longa estadia em França, intercalada com viagens pelo Império Francês, pelo Magrebe e pela África Negra (1911-1920), Nguyen Ai Quoc dedicaria tempo a familiarizar-se com a mentalidade francesa e as práticas coloniais. De regresso ao seu país, escandalizado com o «imposto de sangue» que representava para os povos coloniais o seu recrutamento para o teatro de operações europeu, o indochinês, metódico, começará por elaborar «O Julgamento da Colonização Francesa» (11) antes de passar à acção, infligindo ao seu antigo senhor e ao novo senhor da nova ordem internacional uma severa derrota militar.

Juntamente com os seus dois companheiros de luta, Pham Van Dong e Vô Nguyen Giap, dotará o seu país de um dos mais gloriosos palmarés militares do século XX, contribuindo grandemente para alterar a geo-estratégia do planeta através dos reveses que infligiu sucessivamente às principais potências militares da época: primeiro o Japão, em 1945, depois a França em Dien Bien Phu, em 1954, e, por fim, os Estados Unidos da América, vinte anos mais tarde,, em 1975, em Saigão, com perdas acumuladas de cerca de 67.000 soldados, 15.000 para França e 52.000 para a América.

Um dos principais actores da história do século XX, Nguyen Ai Quoc, com o nome predestinado de "patriota", é agora conhecido mundialmente – e para toda a eternidade – sob o nome de Ho Chi Minh, "aquele que ilumina", pai do Vietname moderno, a antiga Indochina Francesa, cuja segunda capital se chama "Cidade de Ho Chi Minh". Em homenagem à sua luta pela independência e reunificação do seu país, cuja carreira de opinião unânime merece melhor do que 3 em 10.

A menos que seja atribuída a um problema sério da percepção óptica do recrutador ou ao peso dos estereótipos que distorceram o julgamento francês, a nota indochinesa permanece inexplicável e a posteriori largamente injustificada. Ho Chi Minh, empenhado no seu trabalho, reabilitou a reputação dos trabalhadores coloniais indochineses em França. Mas, como contraponto, ninguém alguma vez se atreveu a questionar a bolsa de valores francesa, nem sequer como um exercício salutar de introspecção.

A rendição de Sedan perante a Alemanha em 1870-71 deu origem à III República; a rendição de Montoire (12) perante Hitler em 1940, à IV República (1946); a de Dien Bien Phu e da Argélia em 1955, à V República (1958), com o seu leque de grandes instituições: Sedan à criação da «Sciences Po», o Instituto de Estudos Políticos de Paris, e Montoire à fundação da ENA, a Escola Nacional de Administração (1945). O país das «grandes escolas», dos concursos que formam as elites, dos escribas e dos clérigos — cinco milhões de funcionários públicos em França no ano 2000, o maior contingente da União Europeia, ou seja, 20 por cento da população activa (13) — não tolera um regresso ao seu passado. Apenas concebe as perspectivas de futuro. Nunca retrospectivas, sempre perspectivas. Uma fuga para a frente?

Antevisão do paraíso para o colono, as colónias terão deixado um travo a inferno para o colonizador francês.

Referências

1- Gildas Simon, "Géodynamique des migrations internationales dans le monde-PUF", op. cit. citado

2- Ignacio Ramonet, "Cinco séculos de colonialismo", em "Manière de voir N°58 bimestral do Le Monde Diplomatique Julho-Agosto de 2001 "Polémicas sobre a história colonial".

3- Rudyard Kipling, jornalista e romancista inglês (1865-1936), de origem anglo-indiana, tinha uma veneração pelo Império Britânico, pelos valores míticos de energia, altruísmo e pelos aspectos emocionantes da aventura imperialista. Autor do famoso poema "Se" (Si).... "Se conseguires ver a obra da tua vida destruída e, sem dizer uma palavra, começares a reconstruir-te... então serás um homem, meu filho."

4- Uma das mais famosas «Vénus Callipyge», imortalizada pelo cantor popular francês Georges Brassens, é a «Vénus Hottentote». Nascida em 1789, ano da Revolução Francesa, na África Austral, então sob o domínio dos colonos holandeses, os bóeres, Saartjie Baartman, filha de um pastor originária da África do Sul, da etnia dos hotentotes, foi levada por um cirurgião britânico por volta de 1810 para Londres, onde foi rebaptizada como Sarah Saartmann. Dotada de nádegas muito largas e de órgãos sexuais fora do comum, foi exibida como uma atracção de feira em Londres e em Paris, levando uma vida infernal e dedicando-se à prostituição até à sua morte, aos 27 anos, em Paris, em 1815.

A pedido de Geoffroy Saint-Hilaire, foi dissecada por Georges Cuvier, que concluiu tratar-se de «algo curioso e caprichoso», cujos órgãos lembravam «os de um macaco». O seu esqueleto, os seus órgãos e um molde do seu corpo ficaram expostos ao público no Musée de l’Homme até 1974. Alvo de um imbróglio diplomático entre a França e a África do Sul, os restos mortais da Vénus Hotentote foram finalmente devolvidos à África do Sul a 29 de Abril de 2002. Ver, a este respeito, «O enigma da Vénus Hotentote», de Gérard Badou, Ed. JC Lattès, Fevereiro de 2002.

5- De 1877 a 1912, trinta exposições etnológicas foram realizadas no Jardin d'Acclimatation em Paris, depois nas Exposições Universais de Paris de 1878 e 1889, cujo ponto alto para a exposição de 1889 foi a inauguração da Torre Eiffel, bem como a visita a uma "aldeia negra". Seguiram-se as exposições de Lyon (1894), as duas exposições coloniais em Marselha (1906 e 1922) e, finalmente, as grandes exposições de Paris de 1900 (diorama sobre Madagáscar, 50 milhões de espectadores) e 1931, cujo comissário-geral era ninguém menos que o Marechal Lyautey. cf. "O Espetáculo Comum dos Zoológicos Humanos" e "1931. Tous à l'Expo" de Pascal Blanchard, Nicolas Bancel e Sandrine Lemaire, Manière de voir N°58 Juillet Août 2001, op. cit.

6- "Quando Tocqueville legitimou os talhantes" por Olivier le Cour Grandmaison e "Uma história colonial reprimida" por Pascal Blanchard, Sandrine Lemaire e Nicolas Bancel - Relatório geral sobre o tema "Os impasses do debate sobre a tortura na Argélia" - Le Monde Diplomatique, Junho de 2001.

Ibidem para Guy de Maupassant na mesma edição do Le Monde Diplomatique de Junho de 2001: "Quando falamos de canibais, sorrimos com orgulho ao proclamar a nossa superioridade sobre estes selvagens... Uma cidade chinesa deixa-nos invejosos: para a tomar, vamos massacrar cinquenta mil chineses e mandar massacrar dez mil franceses. Esta cidade não nos servirá de nada. Isto é apenas uma questão de honra nacional. Portanto, a honra nacional (honra singular) impele-nos a tomar uma cidade que não nos pertence, a honra nacional satisfeita pelo roubo, pelo roubo de uma cidade, será ainda mais satisfeita pela morte de cinquenta mil chineses e dez mil franceses. Gil Blas - 11 de Dezembro de 1883.

Alexis de Tocqueville legitimou a carnificina, considerando "o facto de capturar homens, mulheres e crianças desarmados como necessidades infelizes às quais qualquer povo que queira fazer guerra aos árabes será obrigado a submeter-se." Por sua vez, Jules Ferry afirmou num discurso no Palais Bourbon a 29 de Julho de 1995 que "há um direito para as raças superiores porque há um dever para com elas. Têm o direito de civilizar as raças inferiores." De forma semelhante, Léon Blum invocou o seu "amor a mais" pelo seu país "para negar a expansão do pensamento e da civilização franceses." "Admitimos o direito e até o dever das raças superiores de atrair para si aqueles que não atingiram o mesmo grau de cultura", escreveu no jornal "Le Populaire" a 17 de Julho de 1925.

7- "Zoológicos humanos, da Vénus aos reality shows" Ed. La Découverte March 2002, um livro produzido sob a direcção de um grupo de historiadores e antropólogos membros da Association connaissance de l'Afrique contemporaine (Achac-Paris), Nicolas Bancel (historiador, Universidade de Paris XI), Pascal Blanchard (historiador, investigador do CNRS), Gilles Boetsch (antropólogo, Director de Investigação do CNRS), Eric Deroo (cineasta, investigador associado no CNRS) e Sandrine Lemaire (historiadora, Instituto Europeu de Florença).

8- "A República Xenófoba, 1917-1939 da Máquina do Estado ao "Crime de Secretaria", as Revelações dos Arquivos" por Jean Pierre Deschodt e François Huguenin, Ed.JC Lattès, Setembro de 2001.

9- "A República Xenófoba... da Máquina do Estado para o Crime de Secretaria", op. cit.

10- "Uma Teoria Racial dos Valores? Desmobilização dos trabalhadores imigrantes e mobilização de estereótipos em França no final da Grande Guerra" por Mary Lewis, professora na Universidade de Nova Iorque, em "L'invention des populations", trabalho colectivo sob a direcção de Hervé Le Bras (Éditions Odile Jacob).

11- Ho Chi Minh: O Julgamento da Colonização Francesa – Nguyen Ai Quoc (Ho Chi Minh) - Introdução de Alain Ruscio. Le temps des cerises, Paris 1999. Ho Chi Minh morreu a 6 de Setembro de 1969, quatro anos após o início da 2.ª Guerra do Vietname, que foi vitoriosamente encerrada com a captura de Saigão, capital do Vietname do Sul pró-americano, em Abril de 1975, pela dupla Phan van Dong e o General Giap.

12- O armistício foi assinado simbolicamente a 22 de Junho de 1940 em Rethondes, no mesmo local, no mesmo vagão, que o armistício de 11 de Novembro de 1918. No entanto, o encontro em Montoire a 24 de Outubro de 1940 entre Pétain e Hitler selou a colaboração entre França e a Alemanha nazi. Se o armistício constituiu uma cessação das hostilidades, a reunião em Montoire representou simbolicamente a viagem de Pétain a Canossa e, de facto, constituiu uma capitulação na medida em que Pétain apoiava a colaboração com o regime nazi, embora a Alemanha, renegando as suas promessas, tivesse anexado a Alsácia-Lorena em Agosto de 1940.

13- De 1975 a 1998, a França registou um aumento de 1,2 milhões de funcionários públicos, elevando o total da função pública para cinco milhões de pessoas (20,2% da população activa, 27% com empresas públicas), levando a uma divisão social e a uma desigualdade de direitos entre cidadãos da mesma sociedade, entre um sector privado na linha da frente no desemprego e uma função pública inflacionada com emprego garantido para toda a vida e o direito à greve) cf. "Jacques Chirac e o Declínio Francês 1974-2002, Trinta Anos de Vida Política Primeira Avaliação" por Yves Marie Laulan Edição François Xavier de Guibert. Novembro de 2001.

Um alto funcionário, o professor Philippe Even, decano da Faculdade de Medicina Necker Enfants Malades (1988-2000), chocado com as consequências fatais do mais recente hospital parisiense «O Hospital Europeu Georges Pompidou», inaugurado no ano 2000, criticará com estas palavras esses «altos funcionários hierárquicos que confiscam a nação em benefício da sua legião, do seu partido, hábeis em paralisar ou enterrar qualquer decisão política para preservar a sua posição, o seu futuro ou a sua casta (…).

Durante muito tempo sem experiência no terreno, agarrados ao modelo socio-económico que aprenderam, sabendo um pouco de tudo e pouco de cada coisa, um conhecimento teórico que permite a redacção dessas famosas «notas de síntese para os ministros», tanto mais simplificadoras quanto a análise se manteve a uma boa distância do terreno (…), cultivando falsos segredos e falsas confidências, sufocados pela sua paranoia em relação a conspirações, sem nunca terem uma ideia de que se pudessem arrepender e, no entanto, cheios de uma ambição dissimulada sob a máscara do rigor, da virtude republicana, da falsa modéstia, da eterna prudência, antes de irem para cargos de aposentadoria», em «Os escândalos dos hospitais de Paris e do Hospital Pompidou», Philippe Even, editora Le Cherche Midi, Outubro de 2001.

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Fonte: Les colonies, avant-goût du paradis ou arrière-goût d’enfer? - En point de mire

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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