domingo, 5 de julho de 2026

Leitura pública, ler no autocarro

 


Leitura pública, ler no autocarro

5 de Julho de 2026 Daniel Ducharme

DANIEL DUCHARME

Esta manhã, no autocarro 430, sentei-me no banco de dois lugares situado na parte de trás do autocarro. Ao meu lado, sentadas lado a lado no banco lateral, duas mulheres estavam a ler. A primeira, uma mulher com cerca de quarenta anos, elegantemente vestida e com uma mala de computador ao ombro, estava absorta na leitura de *La poussière du temps* (“A poeira do tempo” - NdT), um romance histórico de Michel David, um autor quebequense de grande sucesso, se assim se pode dizer. Esta mulher é provavelmente consultora ou gestora numa das torres do centro da cidade. Um trabalho stressante, sem dúvida, e um chefe que deve exigir resultados trimestrais, caso contrário… Um romance sobre o Quebec de outrora, nada melhor para se afastar da modernidade que nos rodeia.

À sua esquerda estava uma jovem negra de aparência bastante comum. Também comuns eram as suas roupas, que contrastavam nitidamente, em termos de qualidade, com as da sua vizinha que lia um romance histórico. Era difícil adivinhar se se tratava de uma estudante ou de uma assistente social num lar de idosos. Ela estava a ler um livro intitulado «Caminhar pelo caminho da felicidade», um livro de má qualidade com uma capa de cores vivas, como se quisesse atrair os leitores. O tipo de livro que se compra na Jean-Coutu ou numa grande loja de conveniência. Por um instante, perguntei-me por que razão a jovem estaria a ler um livro daqueles. Estaria a passar por dificuldades na vida? Não seria feliz? Talvez tivesse acabado de passar por provações e as palavras daquele autor, sem dúvida um charlatão, lhe trouxessem algum consolo. Afinal, eu não sabia de nada. Nem sobre ela, nem sobre o autor do livro em questão.

Por fim, no banco de trás estava sentado um homem na casa dos trinta, que usava roupa justa ao corpo. Roupa na moda comprada numa loja de vestuário italiana ou algo do género. O homem exibia um ar arrogante, com o cabelo penteado para trás e o relógio chamativo. Normalmente, não se esperaria que este tipo de pessoa lesse… tal como nos surpreenderíamos ao ver um Hummer no parque de estacionamento de uma biblioteca pública. Mas, acreditem ou não, este indivíduo estava a ler o único livro do grupo de passageiros que se poderia qualificar de «literário»: «O Amor nos Tempos da Cólera», de Gabriel García Márquez.

E vocês, o que lêem no autocarro?

 

Ler no autocarro

Fonte: https://les7duquebec.net/archives/207324

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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