A crise do Estreito de Ormuz, uma série de choques que
deverão acelerar o Grande Reinício "multipolar"
2 de Junho de 2026 Robert Bibeau
O artigo abaixo reforça a minha tese,
que foi apresentada em particular em The War in Iran is a Covid 2.0 e The Non-War in Iran is a War on Oil and on American Imperialism.
Olivier Demeulenaere
A crise do bloqueio dos EUA em Ormuz
enfraquece a estratégia mundial de sanções de Washington
por Samuel Geddes
A decisão de Donald Trump de atacar o Irão sem motivo, provocando assim a
sua inevitável retaliação ao restringir severamente o tráfego pelo Estreito de
Ormuz, desencadeou o maior choque energético da história, ofuscando em grande
parte todas as crises petrolíferas das décadas de 1970, 1980 e 2020 juntas.
Ao mesmo tempo, a sua teimosia em não concordar em cortar as perdas
terminando imediatamente a guerra levou agora a uma cascata de crises
financeiras, económicas e industriais que se desenrolarão à escala mundial
durante o resto do ano e além, seja o que for que faça daqui para a frente.
Quer a guerra termine amanhã ou retome com a mesma intensidade, um buraco de
mais de meio trilião de barris de petróleo está a alargar-se nas cadeias de abastecimento
mundiais, muitas das quais ficarão irremediavelmente destruídas no processo.
A primeira vaga decisiva ocorrerá dentro
de algumas semanas, quando a época de viagens aéreas de Verão no hemisfério
norte estiver em pleno andamento. A Lufthansa da Alemanha cancelou 20.000 voos
em antecipação à escassez de combustível para aviação. Estas carências,
combinadas com a duplicação dos preços dos combustíveis, vão paralisar o vasto
eco-sistema das companhias aéreas de baixo custo, que são as menos
capazes de absorver flutuações violentas de preços.
Ciente da iminente crise dos
transportes, o Reino Unido aliviou a dimensão das suas próprias sanções às
exportações de energia russas impostas no início da guerra na Ucrânia em 2022.
A 19 de Maio, Downing Street emitiu licenças
para importar querosene e gasóleo originalmente provenientes da Rússia, desde
que tivessem sido refinados num terceiro país.
Mesmo na altura da sua imposição, o
regime de sanções euro-americano contra a Rússia era, na melhor das hipóteses,
desigual. A China e a Índia, enquanto economias sistémicas mundiais, conseguiram
ignorá-las e continuar a importar energia russa sem consequências. A Índia de
Modi, que agora se inclina definitivamente para o Ocidente, nem sequer fingiu
ser subserviente à moralidade ocidental em troca de qualquer envolvimento com
Moscovo, e intensificou devidamente as suas trocas bilaterais, lançando assim
as bases do nascente corredor económico Norte-Sul destinado a ligar a Eurásia e o Oceano Índico através do
Irão. Mesmo potências regionais profundamente alinhadas com o Ocidente, como a
Turquia, nunca esconderam verdadeiramente a sua intenção de não ceder às ordens
de Washington e Bruxelas relativamente aos seus fornecedores.
Enquanto o Estreito de Ormuz bloqueia
agora a maioria das exportações dos países do Golfo Pérsico, resultando num
défice de magnitude sem precedentes, a escassez de energia está a forçar as
economias nacionais a envolverem-se numa corrida frenética para satisfazer as
suas necessidades. A Coreia do Sul procurou compensar parte do seu défice com importações
russas que até agora evitou. O Japão está igualmente exposto às incertezas da
situação mundial e acabará inevitavelmente por obter do primeiro a chegar, seja
dos Estados Unidos, da Rússia ou até do Irão.
Washington, para preservar a ilusão decadente do seu estatuto de
superpotência económica, envolveu-se na farsa de conceder "isenções"
às sanções para clientes russos. Após 28 de Fevereiro, o governo dos EUA chegou
mesmo a levantar absurdamente as sanções sobre a vasta capacidade marítima de exportação
do Irão para conter o aumento dos preços mundiais resultante da sua agressão
contra esse país. Esta medida, se teve algum efeito, apenas mitigou as
consequências e é uma ferramenta que não pode ser implementada várias vezes.
Para além das implicações estratégicas da necessidade de permitir níveis quase
recorde de exportações dos seus dois adversários geo-políticos mais amargos,
Washington expôs-se ao ridículo internacional ao reduzir os seus próprios
regimes de sanções para conter as consequências devastadoras da guerra em que
se envolveu sem pensar.
O Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bensent, fez uma demonstração pouco
convincente de força ao sancionar várias "refinarias de chá" chinesas
suspeitas de processar importações de petróleo iraniano, mas as consequências
da visita falhada de Trump a Pequim demonstraram amplamente que a República
Popular da China está cada vez menos intimidada por estas encenações. As
repercussões das tarifas de Trump em 2025 sobre o resto da economia mundial
causaram uma recessão económica imediata nos Estados Unidos que, se as
estatísticas ainda estivessem a ser recolhidas, poderia ter revelado que o país
estava em recessão muito antes da decisão fatídica de assassinar o falecido
líder iraniano. Os custos imediatos e crescentes da crise de Ormuz apenas
minimizam a ameaça representada pelas sanções dos EUA como instrumentos de
coerção, bem como a capacidade de Washington de as aplicar sem causar danos
graves a si próprio.
À medida que 2026 entra na sua segunda metade, a maioria das economias
nacionais enfrentará desafios existenciais. As viagens aéreas serão suspensas
indefinidamente? Será necessário o racionamento de energia para preservar
funções vitais da sociedade? Sectores inteiros terão de ser postos em segundo
plano ou simplesmente sacrificados? As empresas estratégicas vão falir? Quando
estas questões deixarem de ser hipóteses para o futuro nas próximas semanas,
qualquer pretensão de adesão à política de sanções dos EUA será abandonada em
favor da sobrevivência nacional.
Se a situação implicar aceitar o controlo total do Irão sobre o estreito de
Ormuz e pagar os impostos ou taxas que ele exigir, ou mesmo comprar energia
iraniana sem restricção nem medo do desagrado americano, ou sacrificar as
relações bilaterais com a América de Trump em troca de acesso às riquezas da Ásia Ocidental, o resultado final verá
sem dúvida o colapso definitivo da economia mundial globalizada tal como a
conhecemos desde pelo menos 1945.
Nenhuma medida de desemprego parcial, de confinamento ou de manipulação dos
mercados salvará o sistema comercial dominado pelo Ocidente daquilo que se
prepara para atingir o mundo ainda mais duramente do que a guerra na Ucrânia ou
a pandemia de Covid.
Neste momento, não importa se as sanções dos EUA são mantidas ou levantadas
para Teerão ou Moscovo. Terão sido aplicadas até à sua conclusão lógica – com
tal escala, carácter asfixiante e irracionalidade que a comunidade
internacional não terá outra escolha senão retirar-se da órbita americana por
instinto de sobrevivência.
fonte: Al Mayadeen via Olivier Demeulenaere
Este artigo foi traduzido para Língua
Portuguesa por Luis Júdice

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