terça-feira, 7 de julho de 2026

Romeu e Julieta na sua versão wahabita

 


Romeu e Julieta na sua versão wahabita

Nota do editor www.madaniya.info  Arábia Saudita / Decapitação: Romeu e Julieta na sua versão wahabita Da decapitação...

Por: René Naba - em: Saudi Arabia Politics - em 7 de Julho de 2015


Nota do editor www.madaniya.info

Arábia Saudita / Decapitação: Romeu e Julieta na sua versão wahabita

Da decapitação como modo de regulação social.

Cem pessoas foram decapitadas no primeiro semestre de 2015 na Arábia Saudita por crimes de direito comum, um recorde mundial absoluto de todos os tempos, sem o menor protesto por parte dos aliados da dinastia wahhabita: os Estados Unidos, que albergam a sede das Nações Unidas; a França, a pátria dos Direitos Humanos; e o Reino Unido, a pátria do Habeas Corpus, enquanto, para dar resposta às suas necessidades, o Reino lançou um concurso público para o recrutamento de novos carrascos. Relato de uma decapitação.

Título original do artigo: A virilidade da dinastia wahabita e a honra manchada de sangue,
Jaafar Al Bakli (escritor, Tunísia), versão francesa adaptação: René Naba para madaniya.info

http://www.al-akhbar.com/node/222003

Preâmbulo do autor:

  • O presidente egípcio Anwar Sadat ajudou a preparar o filme "Assassinato de uma Princesa", que foi exibido em Maio de 1980. Foi ele quem escolheu Soussane (Suzanne) Badr para interpretar o papel da princesa decapitada. Salah Jahine, cartoonista e argumentista egípcio, desempenhou um papel a pedido do presidente egípcio, enquanto na altura estava confinado a filmes de humor tolo como "Khali Balak Min Zouzou" (Cuidado com Zouzou).
  • Maomé foi o filho mais violento, teimoso e reactivo dos filhos de Abdel Aziz, o fundador do Reino. Por isso, era referido pelo apelido de Abu Al Charreyne, "o pai dos dois males".

In Memoriam: O Trágico Fim dos Amantes de Verona na sua Versão Saudita

Relato do dia de sexta-feira, 17 de Julho de 1977, em Jeddah:

«Os soldados sauditas saíram a correr do seu veículo e posicionaram-se em círculo, formando um cerco hermético, de modo a bloquear todo o acesso à praça pública, situada junto ao parque de estacionamento próximo do edifício «Al Mamlaka» (O Reino), em Jeddah, paralisada sob um sol escaldante. Era meio-dia daquela sexta-feira, 15 de Julho de 1977.

Os soldados começaram então a dispersar os curiosos que começavam a aglomerar-se à volta da praça, pressentindo que algo estava para acontecer. De repente, as portas de um camião abriram-se abruptamente. Duas pessoas algemadas foram tiradas à força, com brutalidade. Dois jovens.

·         O jovem estava atordoado, em pânico. Vestia uma jallabiya suja, rasgada na zona do peito.

 

·         A jovem… Os seus tremores eram perceptíveis através da sua longa abbaya preta. Ambos estavam perturbados… Como duas presas presas na armadilha do seu predador.

Os soldados arrastaram o jovem para o meio do círculo formado na praça. Ele debatia-se e resistia-lhes com obstinação, apesar das algemas que o mantinham imobilizado. A jovem, sem forças, lançava gritos sem voz, ajoelhada ao seu lado… À espera do senhor da morte.

1- O Carrasco

Então, surgiu um homem negro de grande estatura, com um rosto antipático e marcado pela desgraça. Esbelto e ágil como uma raposa, aproximou-se por trás do casal ajoelhado. Na sua mão, brilhava sob os raios do sol a lâmina de uma espada larga e afiada.

O jovem, em lágrimas, clamava pela sua inocência. Ao seu lado, a jovem senhora, com a garganta seca e o olhar perdido.

A morte voltou a rondar. Atrás do casal. Nas suas costas. Brandindo a sua arma, girando-a, o carrasco posiciona-se à altura da cabeça do jovem curvado, ajoelhado e acorrentado. Fixa então a ponta da sua espada na parte inferior das costas do jovem, que se arqueia imediatamente devido à dor da punhalada. A sua nuca fica tensa, rígida, com as veias cheias de sangue, como se estivesse pronta para a decapitação.

O homem negro empunha então rapidamente a sua espada e abate-a sobre a nuca esticada. Com um golpe de espada, corta as veias cheias de sangue. As veias explodem e salpicam sangue no rosto e no corpo do jovem, bem como nas roupas do carrasco.

 

A ponta da espada na parte inferior das costas era tão dolorosa que o corpo amarrado endireitou-se com vigor, como se o condenado, apesar da dor violenta, tentasse levantar-se para fugir.

Apesar da violência do golpe de espada, a cabeça não foi decapitada. O carrasco desferiu imediatamente um segundo golpe… A cabeça separou-se então do corpo, rolou como uma bola antes de parar de repente, encharcada de sangue… Com os olhos esbugalhados e bem abertos, a língua para fora da boca.

O corpo permaneceu por um momento imóvel, de joelhos, tomado por um tremor. Depois inclinou-se antes de tombar, cair e ficar imóvel.

A jovem ficou paralisada perante aquele espetáculo. Um grito agudo escapou-lhe da garganta quando o carrasco abateu a espada. Ficou instantaneamente imóvel, como embalsamada.

2- O pai da princesa

Vestido com uma dichdecheh branca, com o bigode tingido e óculos escuros a cobrirem-lhe todo o rosto, um homem idoso e imponente fez então a sua entrada em cena. Aproximou-se do círculo da morte e parou exactamente à altura da jovem senhora. Ela voltou o olhar na sua direcção e murmurou algumas palavras, como se implorasse pela sua clemência. Os óculos, maiores do que o rosto, ocultavam qualquer sinal de emoção.

Os dedos trémulos deslizaram então até ao cinto para de lá retirar um revólver. O olhar severo mergulhou no olhar desesperado da jovem e disparou, sem hesitação, contra a cabeça juvenil.

3- A princesa

Ela tinha 19 anos naquele dia e chamava-se Macha’el Bint Fahd Ben Mohamad Ben Abel Aziz. O seu suposto amante, decapitado diante dos seus olhos, chamava-se Khaled Al Mohalhal, sobrinho materno do General Ali Al Chaer, embaixador da Arábia Saudita no Líbano e, posteriormente, ministro da Informação do Reino.

O homem que alvejou a princesa foi o seu próprio pai. Um parente próximo, segundo se afirma, tinha-lhe atribuído esta terrível missão… «Lavar a mancha da vergonha com sangue».

4- O avô da princesa: Abou Al Charreyne "O pai dos dois males"

O avô da princesa, Mohamad, era conhecido pelo apelido de Abou Al Charreyne, «O pai dos dois males», devido à sua impetuosidade. Segundo testemunhos (1), ele próprio tinha insistido para que o seu próprio filho, o pai da princesa, executasse a sua neta.

 

Mohamad era, na altura, presidente do conselho de supervisão da família reinante, encarregado de resolver os litígios no seio da dinastia, na sua qualidade de filho mais velho de Abdel Aziz ainda vivo. Mohamad era também o irmão mais velho do rei Khaled, na altura rei da Arábia, a quem se tinha dedicado, cedendo-lhe a sua ordem de sucessão para permitir que o seu irmão mais novo reinasse em seu lugar. Quarto filho do rei Abdel Aziz — depois de Turki, falecido ainda jovem, e de Saoud e Faysal, que chegaram a reinar —, Mohamad, o mais violento, o mais teimoso e o mais impetuoso dos filhos do rei, não temia ninguém.

 

Por essa razão, foi apelidado de Abou Al Charreyne, «Pai dos dois males». O próprio Saoud, na época em que era príncipe herdeiro, sofreu muito com a grosseria de linguagem do seu meio-irmão. Mohamad desempenhou, aliás, um papel essencial na revolução palaciana que culminou na destituição de Saoud, em Novembro de 1064.

 

Abdel Aziz aproveitou a brutalidade do seu filho mais novo para lhe confiar, apesar da sua tenra idade, cargos de comando em conflitos secundários do exército saudita. Aos 15 anos, como recompensa, conquistou o cobiçado cargo de governador de Medina, a cidade do Profeta, cujo destino viria a presidir durante 40 anos.

5- A sexualidade desenfreada de Mohamad... Poligamia e homofilia

Para além das disputas familiares a que estava habituado, Mohamad destacou-se por uma vida sexual desenfreada, multiplicando casamentos e divórcios a tal ponto que era difícil contabilizar o número das suas esposas. Cinco delas receberam o título de princesa; as restantes, a coorte das divorciadas e das abandonadas, voltaram ao anonimato assim que a separação se consumou. A sua prole está à altura do seu activismo nesta área: 29 filhos, 17 rapazes e 12 raparigas.

Para além da poligamia, Mohamad demonstrou grande atracção pela homofilia, um novo mundo que descobriu por ocasião da sua primeira estadia em Londres, em Maio de 1937. Com 27 anos, Mohamad acompanhava o príncipe herdeiro Saoud para representar o Reino da Arábia Saudita nas cerimónias de entronização do rei Jorge VI.

É costume que a coroa britânica receba com deferência os seus convidados de honra, especialmente os provenientes do Oriente. Os dois príncipes sauditas não foram excepção à regra, tendo sido alvo de uma atenção especial.

É também costume os ingleses identificarem os pontos fracos dos seus anfitriões para os cativar e colocá-los sob o seu domínio. Foram — e continuam a ser — elaborados relatórios sobre cada anfitrião antes da sua visita: alguns ficaram deslumbrados com o fausto da vida em Londres. Os dois príncipes beduínos, por seu lado, entregaram-se de corpo e alma aos prazeres da vida, nunca antes vistos no seu país e geralmente proibidos. Mais tarde, graças à bonança petrolífera, a peregrinação a Londres, Paris, à Riviera e às Ilhas Baleares passaria a ser uma etapa obrigatória para todos os beneficiários dessa bonança. Um ritual sagrado.

6- Uma dinastia libidinosa: Rei Saud: 43 esposas, 115 filhos/Rei Abdel Aziz: 38 esposas, 63 filhos

Saud demonstrou uma clara preferência pelas mulheres, independentemente das circunstâncias, superando, neste aspecto, todos os seus irmãos. De acordo com os documentos oficiais, o segundo rei da Arábia casou-se com 43 mulheres, deixando uma prole numerosa de 115 filhos: 53 rapazes e 62 raparigas.

A atracção pelo sexo parece ter sido a marca distintiva da dinastia libidinosa dos Al Saoud. Abdel Aziz tinha, assim, o costume de passar uma noite de amor com uma mulher — uma única noite de amor —, antes de a dispensar. As mais afortunadas tinham direito a várias noites consecutivas antes de serem rejeitadas e relegadas ao anonimato.

Nem a esposa do seu irmão Mohamad (2), nem a viúva do seu irmão Saad, nem mesmo a viúva do seu inimigo íntimo, Saoud Ben Rachid, governador de Hael, foram poupadas ao seu ardor. Mal tinha conquistado Hael, quando se apoderou da viúva de Ibn Rachid, Fahida Bint Al Assi Ben Kleib Ben Chreim Al Rachid, para lhe dar um filho que não é outro senão… Abdallah, o actual rei da Arábia.

Abdel Aziz honrou assim, sem interrupção, as suas 38 mulheres, para além de um número incalculável de desconhecidas, enriquecendo o reino com uma prole de 63 filhos. Um número que não tem em conta nem os filhos que morreram na infância, nem os nados-mortos.

O mais estranho é que o rei Abdel Aziz, meio cego, paralítico e em cadeira de rodas, conseguiu a proeza de continuar a ter filhos: Moukren, Hazloul, Hammoud, Abta e Tarfa são fruto dos seus amores aos setenta anos, um dos milagres do fundador do Reino (4).

7- Rei Abdullah: 21 esposas, 63 filhos

A virilidade não se limita ao pai fundador do Reino. O rei Abdallah, recentemente falecido, demonstrou as suas grandes capacidades reprodutivas ao gerar, aos 75 anos, um filho, Bandar, nascido em 1999, da sua esposa, a princesa Haifa El Mehanna. Bandar é o 63.º filho do rei Abdallah, fruto de 21 esposas. O problema com Mout’eb (o rei Abdullah) é que sofria de amnésia selectiva. Tinha filhos, mas esquecia-se de parte da sua prole. Algumas das suas filhas negligenciadas começaram assim a clamar por ajuda, implorando a Deus, antes de decidirem recorrer à justiça e aos programas de televisão dos canais europeus (5).

8 - 500.000 dólares por 15 minutos de conversas com Kristen Stewart e 1 milhão de dólares por uma noite com Brigitte Nielsen

A obsessão sexual não era exclusividade dos pais fundadores do Reino. Filhos e netos herdaram os mesmos impulsos. O seu feito residia na competição a que se entregavam em torno dos dólares derramados sobre as beldades de Hollywood. Histórias intermináveis. Inimagináveis. Sobre a sua estupidez e a sua inconsistência.

Harvey Winston conta que um príncipe saudita lhe ofereceu 500 000 dólares pela honra de conversar com a sua ídola, Kristen Stewart. A actriz aceitou, mas com a condição de que o príncipe fizesse uma doação de meio milhão de dólares para o fundo de ajuda às vítimas do tufão Sydney.

Mark Young, por seu lado, publicou um livro intitulado «Saudi Bodyguard», no qual este britânico, há muito destacado para a protecção dos palácios da família Al Saoud, desde 1979, narra as depravacões da dinastia, «os seus desvios, a prostituição a que alguns se entregam, os roubos e pilhagens, os vícios no álcool, nas drogas e no jogo». Relatos acompanhados de fotografias que confirmam a sua pertença à guarda de segurança da família real saudita.

9- A fantasia de Khaled Ben Sultan e Brigitte Nielsen

A história mais singular de que Mark Young foi testemunha é a do antigo vice-ministro da Defesa, Khaled Ben Sultan, antigo contacto saudita do general norte-americano Norman Schwarzkoff durante a 1.ª Guerra do Golfo (1990-1991) e proprietário do jornal «Al Hayat».

Fascinado pela beleza de Brigitte Nielsen, na altura esposa do actor norte-americano Sylvester Stallone (também conhecido como Rambo), o generalíssimo, segundo o relato de Young, terá arquitectado vários planos para passar uma noite de amor com a bela loira dinamarquesa. Chegou ao ponto de oferecer um milhão de dólares por essa noite que prometia ser escaldante.

10- Abdel Aziz, ou a transformação de um príncipe de juventude turbulenta num pregador wahhabita

O filho mais novo do Rei Fahd, por sua vez, apaixonou-se pela actriz de televisão Yasmine Bleeth, de origens judaicas. Abdel Aziz Ben Fahd gastou com ela uma quantia tão avultada que teria sido suficiente para erradicar definitivamente o problema das solteironas do Reino.

Companheiro de festas do antigo primeiro-ministro libanês Saad Hariri, as suas travessuras parisienses valeram-lhe uma proibição de entrada num grande hotel de luxo da capital francesa. No final de uma juventude agitada, Abdel Aziz demonstrou contricção e arrependimento: Deixou crescer a barba e tornou-se pregador wahhabita, financiador do canal takfirista «Wissal» (o laço).

… O príncipe voltou a colocar o revólver no cinto depois de ter lavado a mancha de vergonha que manchava a família real saudita, matando a sua filha com um tiro na cabeça. Depois, voltou-se na direcção do seu carro sumptuoso, escoltado pelos seus guardas. Os soldados precipitaram-se para o local onde a jovem princesa tinha caído, banhada no seu próprio sangue, e cobriram o seu corpo frágil com um cobertor.

Outros soldados apressaram-se a colocar o corpo num veículo de transporte, enquanto outros se dirigiam para o jovem decapitado. A hemorragia persistia; ajudaram-se uns aos outros para o transportar para outro camião… Um soldado estendeu a mão para recolher a cabeça que jazia não muito longe do corpo: os olhos do decapitado estavam bem abertos, a língua de fora da boca e o sangue escorria, escorria, escorria.

… Os amantes de Verona, na sua versão saudita, teriam completado 57 anos em 2015, idade de serem avós, idade de iniciar os seus netos nas descobertas da vida. Nas alegrias da vida.

O código beduíno decidiu de outra forma: a honra manchada deve ser lavada com sangue. Tal é a lei implacável dos seres lascivos. Uma decapitação e um tiroteio como preço de um amor juvenil. Um preço exorbitante.

Notas

1- Em 1980, o canal ATV transmitiu um docudrama britânico intitulado «A Morte de uma Princesa», que narrava o assassinato da princesa Macha’el e do seu companheiro. A transmissão deste documentário provocou uma grave crise diplomática entre Londres e Riade. O rei Khaled ordenou a expulsão do embaixador do Reino Unido na Arábia Saudita, em resposta a esta «ingerência flagrante da televisão britânica num assunto familiar saudita». Os actores egípcios que interpretaram as personagens do filme foram proibidos de permanecer na Arábia Saudita para sempre. A actriz Suzanne Abou Taleb, que interpretou o papel da princesa, teve de mudar o seu nome para Saoussane Badr para contornar as consequências do veto saudita.

2- Hussa Bint Ahmad Ben Mohamad Al Sideiry era uma das esposas de Abdel Aziz. Deu à luz um filho a quem deram o nome de Saad, que faleceu ainda na infância, o que levou o rei a divorciar-se da sua esposa. Hussa casou-se em segundas núpcias com o próprio irmão de Abdel Aziz, o príncipe Mohamad Ben Abdel Rahman. Hussa deu à luz um menino, chamado Abdallah, filho do seu segundo marido. Mais tarde, mudando de ideias, Abdel Aziz voltou a sentir atracção pela sua primeira esposa. Ordenou ao seu irmão mais novo que se divorciasse dela para que pudesse casar-se novamente com ela. Do seu segundo casamento com a sua esposa Hussa, Abdel Aziz teve 14 filhos (7 rapazes e 7 raparigas), dos quais os mais famosos foram o rei Fahd, o príncipe Sultan (Defesa), Nayef (Interior) e Salmane (governador de Riade), ou seja, os três últimos príncipes herdeiros do reino.

3- A união de facto era legal na Arábia Saudita até 1962. Nessa data, o rei decretou a sua abolição. Assim, as criadas circassianas, magrebinas, sudanesas e arménias são as mães de muitos príncipes sauditas. Por exemplo, Bandar Ben Sultan, o antigo «cappo di tutti cappi» do jihadismo mundial, é filho de uma criada sudanesa, e Moqren, o efémero príncipe herdeiro de Salmane, é filho de uma escrava iemenita. G. Rives Chandlers, embaixador dos Estados Unidos na Arábia Saudita (1946-1951), relata nas suas memórias uma história curiosa sobre o rei Abdel Aziz. Ao perceber que o diplomata americano vivia solteiro na Arábia, sem a sua esposa, que tinha ficado nos Estados Unidos, o monarca sentiu compaixão por ele e propôs-lhe uma das suas criadas como companhia para «alegrar as suas noites». Chandlers recusou a oferta, naturalmente, mas contou esta história aos seus colegas diplomatas ocidentais destacados em Jidá.

4- Perto do fim da sua vida, o rei Abdel Aziz sofria de uma doença grave. As doenças crónicas levaram-no a apresentar aos médicos americanos, colocados à sua disposição gratuitamente pelo consórcio petrolífero ARAMCO (Arab-American Company), pedidos improváveis:

1.º pedido: pôr fim à dor aguda que paralisava os seus joelhos ao ponto de causar perda de mobilidade, forçando-o a permanecer sentado e privando-o de estar de pé.

Segundo pedido: Restaurar as suas capacidades reprodutivas.

O Dr. A.I. Wait, médico adstricto à embaixada norte-americana em Jeddah, realizou um exame médico completo (check-up) a Abdel Aziz. Conseguiu curar a cegueira do rei, causada pelo tracoma, bem como o reumatismo que lhe paralisava as articulações. Em 1950, o coronel Wallace Graham, médico pessoal do presidente Harry Truman, constatou que o rei Abdel Aziz começava a perder as suas faculdades mentais, confinado à sua cadeira de rodas devido ao reumatismo que o obrigava a permanecer sentado durante grande parte do dia.

5- Em 2014, eclodiu um escândalo na Arábia Saudita quando duas filhas do rei, Sahar e Jawaher, alertaram a opinião pública, através da sua conta no Twitter e de uma entrevista ao canal britânico «Channel Four», para a sua situação de cativeiro. Em prisão domiciliária em Jeddah há 12 anos, na companhia das suas outras duas irmãs — Hala e Maha —, estava-lhes proibido sair de casa sem a companhia dos seus guardas. Desde Março de 2014, as quatro filhas do rei estão proibidas de sair de casa e privadas de abastecimento alimentar. Para sobreviver, decidiram contentar-se com uma refeição por dia, a fim de poupar as suas reservas alimentares. Elas afirmam que esta decisão foi tomada pelo próprio rei, em retaliação à decisão da sua mãe, Ounoud Al Fayez, de apresentar «uma queixa contra o seu ex-marido, guardião dos Lugares Santos», em Estrasburgo, exigindo ao «Rei do Humanismo», segundo a imprensa saudita, aceder ao pedido das suas filhas de abandonarem a sua gaiola dourada e se juntarem à mãe, refugiada em Londres.

Versão árabe

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Ilustração

  • Cena da decapitação da Princesa Misha'al Bint Fahd Al Saud e do seu amante a 15 de Julho de 1977 na praça pública de Deddah.

 

Fonte: Roméo et Juliette dans sa version wahhabite - En point de mire

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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