Armamento: E tudo o Vento Levou ½
4 de Agosto de 2026 Robert Bibeau
Por René
Naba. Em Armemento : E tudo o vento levou 1/2 – En point de mire
Este artigo é dedicado às três personalidades seguintes:
• Mohamad Bouazizi, falecido a 4 de Janeiro
de 2011, devido aos ferimentos sofridos. A sua imolação na praça pública de
Sidi Bouzid, na Tunísia, como forma de protesto contra o arbítrio tunisino,
serviu de faísca para a revolta popular que provocou a queda da ditadura do
General Zine El Abidine Ben Ali.
• Ahmad Jaafar Kassem, autor do espectacular
atentado contra o quartel-general do comando israelita em Tiro, a 11 de Novembro
de 1982, no âmbito de uma operação da resistência libanesa contra a ocupação
israelita do sul do Líbano.
• Mountazar Al Zaïdy, jornalista
iraquiano, o Spartacus dos tempos modernos, o que lançou o seu sapato contra
George Bush Jr.
O Golfo, uma
gigantesca base flutuante americana, uma bomba financeira para os défices dos
EUA.
O colapso do dispositivo ocidental na margem árabe do Mediterrâneo com as revoltas populares na Tunísia e no Egipto, num contexto de contestação generalizada aos aliados da estratégia americana na esfera árabe-muçulmana, ao fim de uma furiosa década de "luta contra o terrorismo", assim como as revelações do site americano Wikileaks sobre a postura belicosa das petro-monarquias face ao Irão, ilustram a lógica de vassalagem dos "emirados miragem" perante a América, especialmente no campo da defesa, na medida em que incentivam os americanos a fazer guerra ao seu vizinho iraniano para neutralizar o seu potencial nuclear, em vez de dotar o mundo árabe de uma capacidade de auto-suficiência estratégica.
O contrato da ordem dos 123 mil milhões
de dólares, assinado no Outono de 2010 entre a América e quatro países do
Golfo, com o objectivo de reforçar a sua capacidade defensiva «perante o Irão»,
é um testemunho eloquente desta política de desperdício financeiro por motivos
de armamento.
Perante o Irão, a constelação das petro-monarquias
do Golfo transformou-se assim numa verdadeira base flutuante americana, ao
ponto de se colocar a questão da viabilidade estratégica e da pertinência
política do maior contrato de armamento da história, alguma vez concluído, em
tempo de paz, entre os Estados Unidos e quatro países membros da região. Um
contrato singular em todos os aspectos, de cerca de 123 mil milhões de dólares,
que ultrapassa as capacidades de absorção dos beneficiários, bem como as
capacidades de assimilação deste armamento pelos seus operadores locais.
Se exceptuarmos a sua fraca demonstração
militar no Iémen, no Verão de 2010, a Arábia Saudita nunca travou uma guerra
directa contra qualquer um dos seus potenciais adversários, muito menos contra
Israel, o inimigo oficial do mundo árabe, do qual é o principal opositor no
plano teórico, limitando-se a financiar guerras indirectas de desestabilização,
nunca contra Israel, sempre contra países árabes ou muçulmanos; Contra o Egipto
nasserista no Iémen, na década de 1960, por intermédio de monarquistas, contra
a Síria baasista, na década de 1970, por intermédio da Irmandade Muçulmana, ou
ainda contra a Revolução Islâmica do Irão, na década de 1980, através do Iraque
baasista de Saddam Hussein, ou finalmente contra a União Soviética, no Afeganistão,
na década de 1980, através da sua legião islâmica sob a liderança do seu homem
de confiança Osama bin Laden.
A transação, concluída por ocasião do
feriado nacional da Arábia Saudita, a 23 de Setembro de 2010, envolve a
modernização da frota aérea e da marinha saudita. Sessenta mil milhões de
dólares serão destinados à venda à Arábia Saudita de 87 caças bombardeiros
"F-15", 70 helicópteros de combate "Apache" e 72
helicópteros "Black Hawk", 36 helicópteros Little Bird AH-6, bem como
bombas, mísseis, incluindo a bomba guiada por GPS, JDAM, produzida pela Boeing,
e o míssil guiado por laser Hellfire. Trinta mil milhões de dólares adicionais
serão destinados ao fornecimento de navios de guerra e de um sistema de defesa
balística, complementar à rede de mísseis do tipo Patriot e ao
recondicionamento das aeronaves antigas da força aérea e da marinha.
O contrato é complementado por uma série
de acordos semelhantes com três outras petro-monarquias do Golfo (Kuwait,
Emirados Árabes Unidos e Sultanato de Omã), elevando o montante total da
transação para 123 mil milhões de dólares.
As petro-monarquias árabes, um dos
principais fornecedores do sistema energético mundial, servem ao mesmo tempo
como uma gigantesca base militar flutuante do exército americano, que se
abastece ali à vontade, a preços imbatíveis. Todos, em diferentes graus, pagam
o seu tributo, concedendo sem escrúpulos facilidades ao seu protector.
A zona está, de facto, coberta por uma
rede de bases aeronavais anglo-saxónicas e francesas, a mais densa do mundo,
cujo simples desdobramento poderia dissuadir qualquer potencial atacante,
tornando esse contrato supérfluo. Abriga em Doha (Catar), o posto de comando
operacional do CentCom (o comando central americano), cuja competência se
estende ao eixo de crise do Islão que vai do Afeganistão ao Marrocos; Em Manama
(Bahrein), o quartel-general de base da 5.ª frota americana cuja área de
operação cobre o Golfo Árabe-Pérsico e o Oceano Índico.
Como complemento, a Arábia Saudita
alberga, ela própria, uma esquadrilha de AWACS (Airborne Warning and Control
System), um sistema de detecção e comando aero-transportado, na região de
Riade. O Kuwait, muito dedicado ao seu libertador, serve como zona de
pré-posicionamento e de reabastecimento para a gigantesca infraestrutura
militar americana no Iraque, o novo campo de experimentação da guerra moderna
americana no Terceiro Mundo. A isso soma-se, último mas não menos importante
elemento do dispositivo, Israel, o parceiro estratégico dos Estados Unidos na
zona, assim como a base de apoio de Diego Garcia (Oceano Índico), a base aérea
britânica de Masirah (Sultanato de Omã) e, desde Janeiro de 2008, a plataforma
naval francesa em Abu Dhabi.
Além disso, foram construídas barreiras
electrónicas nas fronteiras da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos para
desencorajar qualquer invasão ou infiltração. A barreira electrónica saudita
foi construída com o auxílio dos franceses, a de Abu Dhabi, com o auxílio da
empresa israelita AGT (Asia Global Technologies), cujo contrato de três mil
milhões de dólares abrange tanto a protecção das fronteiras como a protecção de
quinze instalações petrolíferas do emirado, bem como o fornecimento de drones,
os aviões de reconhecimento não tripulados, de fabrico israelita.
Pouco povoadas, rodeadas por vizinhos
poderosos como o Irão e o Iraque, de criação recente e sem experiência na
matéria, as petro-monarquias confiaram durante muito tempo a sua protecção a
países amigos experientes ou, na falta deles, a empresas militares privadas, os
mercenários dos tempos modernos, e os fabulosos contratos de armamento que
excediam as capacidades de absorção dos locais eram geralmente vistos como
apólices de seguro disfarçadas, devido às miríficas comissões que geravam.
A protecção do espaço aéreo saudita
esteve durante muito tempo confiada aos aviadores paquistaneses, o território
nacional do Sultanato de Omã aos beduínos da legião árabe jordaniana, ficando
os mercenários ocidentais com o resto, com uma divisão de papéis entre os
ingleses, principalmente presentes na sua antiga zona de influência,
nomeadamente os emirados petrolíferos do Golfo, e os americanos a terem a
autoridade sobre a Arábia Saudita e o resto do Médio Oriente.
A protecção do Xeque Zayed Ben Sultan
Al-Nahyane, Emir de Abu Dhabi e presidente da Federação dos Emirados do Golfo,
bem como a supervisão das tropas omanitas na repressão da guerrilha marxista em
Dhofar, nos anos 1965-1970, esteve sob a responsabilidade da «Watchguard», uma
das duas empresas de mercenários britânicas sediadas em Guernsey. Fundada em
1967 por David Sterling, um ex-comando das forças especiais aéreas britânicas
(Special Air Services), é considerada um instrumento de influência da
diplomacia britânica. Para além da Blackwater, que ganhou má fama no Iraque, os
Estados Unidos contam com duas grandes empresas militares privadas: a Vinnell
Corp, sediada em Fairfax, na Virgínia, e a BDM International. Ambas são
subsidiárias da multinacional Carlyle e parecem ser os braços armados
preferenciais da política americana na Arábia e no Golfo. A missão da Vinnell
Corp na Arábia Saudita foi alvo de um atentado em Khobbar em 1995, com controlo
total sobre a formação da Guarda Nacional Saudita, enquanto a BDM gere a
formação do pessoal da força aérea, da marinha e das forças terrestres
sauditas.
O Irão, um pretexto para absorver o excesso de petrodólares árabes
Israel, um pretexto para manter a
dependência tecnológica árabe
Este contrato, que deverá ser submetido
ao Congresso para ratificação, demonstra as «relações especiais» entre os
Estados Unidos e o Reino da Arábia Saudita desde a assinatura do Pacto de
Quincy em 1945. Uma relação especial, certamente, mas de vassalagem, na medida
em que visa «reforçar as capacidades combativas do Reino face ao Irão» sem
colocar riscos sobre Israel.
Os aviões sauditas serão, de facto,
privados de armas de longo alcance para assegurar o espaço aéreo israelita e o
seu desempenho, tanto no que diz respeito ao seu equipamento como à sua
manobrabilidade. Serão, em qualquer caso, de menor capacidade do que o novo
aparelho que os Estados Unidos planeiam vender a Israel, 20 caças-bombardeiros
americanos F-35 Lightning II (JS F-35), o super bombardier de superioridade
tecnológica, cujo custo unitário atinge a quantia considerável de 113 milhões
de dólares cada. Israel dispõe assim de um quase-direito de supervisão sobre o
equipamento militar dos aliados árabes dos Estados Unidos.
Assim, através de um subterfúgio que os
cientistas políticos americanos chamam de «Politics of Fears», a política do
medo, que consiste em apresentar o Irão como um bicho-papão, a Arábia Saudita
vê-se obrigada a adoptar, não uma defesa em todas as frentes, mas uma postura
defensiva anti-iraniana, ou seja, a reforçar o reino «contra o Irão», potência
nuclear incipiente, e não contra Israel, potência nuclear de pleno direito,
além de potência ocupante de Jerusalém, o 3.º local mais sagrado do Islão.
Enquanto o mundo árabe apresenta um
atraso evidente tanto na investigação científica como no desenvolvimento de
novas tecnologias, e o desemprego atinge proporções raramente vistas noutros
lugares do mundo, quatro petro-monarquias vão desbloquear a colossal quantia de
123 mil milhões de dólares para reduzir o desemprego… nos Estados Unidos,
mantendo uma base de emprego de 75.000 postos ao longo de cinco anos, e justificar,
sob a aparência de um falso equilíbrio ,
uma transacção qualitativamente superior entre os Estados Unidos e Israel.
Índice de uma dependência complementar
em relação aos Estados Unidos, Abu Dhabi já se comprometeu a não usar
tecnologia americana para desenvolver armas nucleares, renunciando a enriquecer
urânio e a reciclar resíduos. Uma decisão que obriga os principados
petrolíferos a importar o combustível necessário para o funcionamento dos
reactores das suas centrais nucleares de produção de electricidade.
Noutras palavras, as exigências
americanas acabam por preservar o monopólio da produção nuclear em benefício
dos países ocidentais, da China e da Rússia, mantendo os países emergentes em
estado de dependência.
Sob o pretexto da segurança de Israel,
os Estados Unidos zelam particularmente por impedir que os países árabes acedam
à capacidade nuclear. O Egipto teve assim de esperar trinta anos pelo visto
americano para se lançar na energia nuclear civil, uma autorização concedida
quando o Irão se tornou uma potência de limiar nuclear, registando um atraso
científico considerável face a outros grandes actores regionais. Pior ainda,
sinal do seu afastamento do conflito e da precariedade do poder de Hosni
Mubarak, as forças de segurança e brigadas anti-motins ultrapassam em número as
forças armadas, 1,4 milhões contra um milhão, segundo as informações fornecidas
por Mohamad Hassaneine Heykal, antigo confidente de Gamal Abdel Nasser, no
canal ‘Al Jazira’, a 17 de Dezembro de 2010.
Os Estados Unidos procuram também impor
à Jordânia um acordo que permitiria ao Reino extrair o urânio que existe no seu
solo, ao mesmo tempo que lhe proibiria de o transformar em combustível. Esta
exigência limita igualmente qualquer possibilidade da Jordânia se tornar um
centro regional de enriquecimento de urânio.
A Jordânia, normalmente submissa aos
diktats americanos, parece estar prestes a ignorar isso. Já começou a
desenvolver as infraestruturas necessárias para responder às suas ambições
nucleares e planeou a construção da sua primeira central em 2019. A AREVA
(França) assinou em 2010 um acordo de exploração conjunta para a extracção de
urânio no centro da Jordânia, no âmbito de uma concessão concedida por 25 anos.
Embora anterior à emergência do Irão
como potência nuclear virtual, a forte concentração militar ocidental no golfo
árabe-pérsico é, no entanto, apresentada pelos meios de comunicação ocidentais
como destinada a proteger os príncipes do petróleo contra as ambições do regime
islâmico de Teerão.
No entanto, é de notar que a única
intervenção militar iraniana contra as petro-monarquias ocorreu na época em que
o Irão estava dentro da órbita ocidental, na década de 1970, sem que a protecção
americana tivesse sido de grande ajuda para os protegidos árabes, que nesse dia
viram ser-lhes retirados três ilhéus pertencentes ao Emirado de Abu Dhabi: (o
Grande e o Pequeno Thomb e a ilha de Abu Musa). É verdade que o Xá do Irão,
Mohammad Reza Pahlevi, actuava na época como polícia do Golfo em nome dos
americanos e que os príncipes árabes não podiam fazer outra coisa senão
obedecer, por ordem americana, ao super polícia regional que lhes tinha sido
atribuído.
Sob o pretexto da guerra contra o
terrorismo ou da democratização do Médio Oriente, dois dos objectivos
declarados da diplomacia americana, a presença militar dos EUA visa manter esta
zona energética de importância estratégica sob controlo ocidental, enquanto a
guerra pelo controlo das matérias-primas se intensifica tanto na Ásia como em
África, ao mesmo tempo que a China realiza uma notável investida no flanco sul
da Europa.
Oásis de prosperidade segura da economia
ocidental face à «zona de escassez» da vertente mediterrânica rebelde do Mundo
árabe, esta constelação de micro-estados oscila entre gigantismo económico e
nanismo político, diante do triplo perigo resultante da sua excessiva
dependência da mão de obra estrangeira, da sua grande dependência militar face
aos Estados Unidos da América e das incessantes traquinices monárquicas, ao
ponto de acentuar o descrédito e fragilizar as seis petro-monarquias do golfo
devido ao seu completo desfasamento da luta levada a cabo pelos movimentos
contestatários árabes contra a hegemonia ocidental, tanto no Líbano
(Hezbollah), como no Iraque (Moqtada Sadr) e na Palestina (Hamas).
O enfraquecimento militar e económico
dos Estados Unidos, a nova vitalidade da Rússia após a guerra da Geórgia, em Agosto
de 2008, e o activismo chinês em África fazem os estrategas ocidentais temer a
consolidação do grupo de Xangai (China, Rússia, Irão), com o efeito de alterar
as relações de poder regionais, especialmente no Médio Oriente, em detrimento
das petro-monarquias aliadas do campo ocidental.
A
transacção militar árabe-americana de 123 mil milhões de dólares representa 1/5
do fluxo global concedido pelo Federal Reserve americano para relançar a
economia americana em 2010-2011. O Irão serve assim de bicho-papão para escoar
o excesso de petrodólares das reservas das petro-monarquias.
As
petro-monarquias, habituadas a isto, já tinham acudido à economia americana no
momento do crash bancário de 2008-2009, registando pelo caminho, sem queixas
nem lamentações, uma perda líquida de 150 mil milhões de dólares ao longo do
terceiro trimestre de 2008, devido aos seus investimentos nos mercados
ocidentais.
As despesas com armamento árabe… Um desperdício assustador
Os grandes investimentos, especialmente
na área militar, parecem ser estimulados por vezes, não tanto pelas
necessidades de segurança, mas pela perspectiva apelativa de comissões e retro-comissões.
No índice mundial da corrupção, a Arábia Saudita encontra-se fora de
classificação. Parece que as super-faturações funcionam como uma espécie de
«seguro multi-riscos» contra eventuais tentativas de desestabilização, uma
recompensa disfarçada para um protector zeloso, uma espécie de mercenarismo
oficioso.
Na esteira da primeira guerra contra o
Iraque, a Arábia consagrou assim, em 1992 e 1993, vinte e nove mil milhões de
dólares para a sua defesa contra 26,5 mil milhões para a educação nacional, uma
quantia que, tendo em conta a sua baixa densidade populacional (12,3 milhões de
nacionais) e a reduzida dimensão das suas forças armadas (200.000 entre
exército regular e guarda nacional), equivale a uma despesa média de 75 milhões
de dólares por ano para cada militar e, a nível do país, um milhão de dólares
por ano por habitante, uma proporção sem paralelo em qualquer outra parte do
mundo.
Para o preço do concurso
norte-americano, a Arábia Saudita desembolsou a bonita quantia de cinquenta mil
milhões de dólares como contribuição para o esforço de guerra, dos quais
dezassete mil milhões de dólares como «bónus de desembarque» em solo saudita,
em prelúdio aos ataques contra o Iraque. Ou seja, a monarquia saudita terá
desbloqueado cinquenta mil milhões de dólares para a América para a autorizar a
reforçar o seu domínio sobre o Reino e a disfarçar a corrupção reinante.
O General Khaled Ben Sultan, (57 anos),
filho do próprio ministro da defesa, auto-proclamado de forma abusiva
comandante-chefe da coligação internacional anti-iraquiana, quando na realidade
não passava da interface saudita do verdadeiro comandante americano, o general
Norman Schwarzkopf, conseguiu, nessas circunstâncias dramáticas para o seu
país, a proeza de cobrar quase três mil milhões de dólares em comissões sobre
as transações de equipamento e abastecimento das tropas da coligação, estimadas
na altura em 500.000 soldados de 26 nacionalidades.
Uma
tal sangria, exorbitante, e de certa forma indecente face aos desafios da época
e à contribuição exigida por terceiros para a defesa do território nacional,
teria em qualquer outro lugar resultado numa comparência imediata perante o
tribunal militar. Não deu origem a qualquer chamada de atenção familiar, apenas
a um discreto afastamento provisório do indiscreto, que para o milionário
exilado em Londres se traduziu na compra do jornal «Al-Hayat». Um tratamento
idêntico foi dado ao seu irmão, o príncipe Bandar Ben Sultan, embaixador da
Arábia Saudita nos Estados Unidos, implicado no escândalo das retro-comissões
da encomenda de aviões de combate britânicos Tornado, mais tarde promovido a
presidente do Conselho Nacional de Segurança do Reino. Uma espécie de prémio
pela prevaricação, por assim dizer.
Ahmad Jaafar Kassem e Montazar al Zayédi, um contraponto ao comportamento
vil
Em contraste com este comportamento vil,
actos de coragem darão os seus títulos de glória ao combate árabe. Tal como o
caso de Mohamad Bouazizi, morto a 4 de Janeiro de 2011 na sequência da sua
imolação na praça pública de Sidi Bouzid, na Tunísia, como forma de protesto
contra o arbítrio tunisino, a faísca para o levantamento popular tunisino que
provocou a queda da ditadura do General Zine El Abidine Ben Ali, após 23 anos
de arbítrio, nepotismo e corrupção. Mohamad Bouazizi aplicou, na sua própria
carne, ao preço da sua vida, a última estrofe do hino nacional tunisino,
«Namoutou Wa Yahya Al Watan», «Morrermos para que viva a nação».
Ou o caso de Ahmad Jaafar Kassem, que se
envolverá numa missão sacrificial, movido apenas pelo sentido de honra e amor à
sua pátria, realizando uma espectacular dinamitação do quartel-general do
comando militar israelita em Tiro, no sul do Líbano, causando a morte de 45
soldados israelitas e quase 200 feridos. Este número é infinitamente superior
às perdas acumuladas totais infligidas aos israelitas tanto pelos 50.000 árabes
afegãos da Legião Islâmica do Afeganistão como pela Arábia Saudita, cujos
gastos em armas nos últimos cinquenta anos ascenderam a quase 300 mil milhões
de dólares sem terem disparado um único tiro contra Israel.
Nascido
a 1 de Setembro de 1963 em Deir Kanoun, no sul do Líbano, na zona fronteiriça com
Israel, e falecido a 11 de Novembro de 1982 durante o ataque à sede israelita
de Tiro, Ahmad Jaafar Kassir, membro da resistência islâmica do Líbano,
tornou-se conhecido como o iniciador das primeiras operações de comando suicida
contra as forças de ocupação israelitas no sul do Líbano, que acabarão por
conduzir, em 2000, à retirada israelita do país, o primeiro recuo de Israel de
um país árabe sem acordo de paz ou reconhecimento do Estado Hebraico.
Ou então o caso de Mountazar Al Zaïdy, o homem de mãos nuas, que simbolicamente quebrou as correntes que aprisionavam os seus compatriotas, atirando o seu sapato, na sua área da zona verde de Bagdade, enclave americano transformado em campo fortificado, ao homem mais poderoso do planeta, o 43º Presidente dos Estados Unidos, o neo-conservador George Bush Jr. O jornalista iraquiano, o lançador de sapatos mais famoso da história da humanidade, apareceu assim para amplos sectores do hemisfério sul, não apenas no Mundo árabe e muçulmano, mas também na América do Sul, África, Ásia-Pacífico, nos subúrbios da Europa e América do Norte, como uma personagem lendária, o Spartacus dos tempos modernos, fazendo do «bashing bush» o jogo mais popular da blogosfera, ou seja, no mundo da informação real. «Em nome das viúvas e órfãos do Iraque, recebe então este beijo de despedida, filho da mãe», desferiu ele ao invasor do seu país.
Mohamad Bouazizi, Ahmad Jaafar Kassem e
Montazar Al Zaïdy retomaram para si a metáfora do fraco contra o forte,
apropriando-se do mito do pequeno David enfrentando o gigante Golias, impondo
respeito à opinião internacional, sem qualquer recompensa, nem prebenda, nem
comissões, nem subornos, o dia a dia das transacções militares
petro-monárquicas.
Para ir mais longe
O Pacto de Quincy : https://www.renenaba.com/?p=2807
Sobre comissões, retrocomissões e a comunidade de conluio
http://hybel.blogspot.com/2010/12/le-980.html
Fonte: Armement : Autant en emporte le
vent 1/2 – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua
Portuguesa por Luis Júdice

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