sexta-feira, 10 de julho de 2026

A DIREITA TRANSFORMADA PERANTE O MITO DO ETERNO REGRESSO DO FASCISMO

 


A DIREITA TRANSFORMADA PERANTE O MITO DO ETERNO REGRESSO DO FASCISMO

 

Na última década temos assistido ao surgimento de um novo fenómeno político nas coordenadas do capital, ao qual têm sido dados os nomes de nova extrema-direita, direita populista, alt-right, neo-fascismo… A dificuldade em nomear de forma específica este fenómeno é talvez o primeiro sintoma da novidade que representa, mas não nos adiantemos.

 

Antes de abordar a novidade — ou não — que este fenómeno representa, é importante analisar a resposta que lhe tem sido dada pela esquerda do capital — institucional ou não. Nos últimos anos, paralelamente à ascensão do populismo de direita, assistiu-se também a um ressurgimento do anti-fascismo a níveis que não se viam há décadas. A esquerda do capital classificou este fenómeno de forma quase unânime com o rótulo de «fascismo», enquadrando o seu ressurgimento como parte de uma «onda reaccionária mundial», através da qual estaria a formar-se uma internacional de extrema-direita para esmagar os direitos e liberdades que a democracia nos concedeu e, inclusive, dar o salto para um modelo já não capitalista, mas sim tecno-feudal[1]. Deste ponto de vista, a nossa tarefa como militantes — e, mais ainda, como cidadãos — seria ignorar os nossos interesses como proletários e unir-nos à burguesia progressista para tentar travar o fascismo mais uma vez. Não há lugar para dissertações nem purismos programáticos quando o mal maior, quase absoluto, se ergue diante de nós.

A burguesia progressista está ciente do efeito que tem o recurso ao anti-fascismo na hora de mobilizar uma parte considerável do eleitorado a seu favor, sendo vitórias como as de Macron, Biden, Lula e Boric exemplos claros desse uso do anti-fascismo quando se esgota a margem real da esquerda para realizar reformas nos Estados capitalistas. Por outro lado, quando falamos do uso do anti-fascismo no mundo radical, o que isso denota é a influência que a contra-revolução e o seu «campismo» ainda exercem, apesar do desgaste. Não encontramos melhor forma de explicar isto do que partir, mais uma vez, do velho método do materialismo histórico.

 

1.      A direita desde 1945

 

Tendo em conta as análises profundas da esquerda, poder-se-ia muito bem pensar que, na realidade, a direita não mudou de todo no último século e que, se deu essa impressão, foi apenas devido à vergonha e à humilhação que representaram as derrotas do fascismo e do nazismo na Segunda Guerra Mundial. O importante é que, por detrás destas mudanças, teria permanecido a mesma essência fascista — a famosa personalidade autoritária de que falava Adorno, própria das pessoas de tendência conservadora — que voltaria a surgir quando as condições para tal se apresentassem, o que estaria a acontecer atualmente.

Em linhas gerais, grande parte do antifascismo faz este tipo de leituras essencialistas da direita que, como veremos mais adiante, pretendem escapar a qualquer análise histórica. Deste ponto de vista, haveria uma categoria, a do fascismo, que se projeta diretamente sobre a realidade para lhe dar forma, no mais puro estilo do idealismo que tanto entusiasmou a burguesia em ascensão. No entanto, uma parte importante da nossa tarefa de esclarecimento, enquanto revolucionários, consiste em trazer estes fenómenos de volta à realidade para compreender de onde surgem e como agir perante eles. Para tal, recordaremos uma frase de Marx que tem hoje tanta ou mais atualidade do que na altura em que a escreveu: «O modo de produção da vida material determina o processo social, político e intelectual da vida em geral. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, antes pelo contrário, que determina a sua consciência, mas, antes pelo contrário, é a sua existência social que determina a sua consciência».

 

Neste sentido, o período imediatamente a seguir ao fim da Segunda Guerra Mundial assistirá a um desenvolvimento económico a um ritmo nunca antes visto, como parte da continuação da socialização do capital que se tinha iniciado no período anterior à guerra. O desenvolvimento económico sem precedentes e a intervenção estatal andaram de mãos dadas nestes anos, gerando um consenso tanto à esquerda como à direita — os acordos de Bretton-Woods — segundo o qual as políticas públicas implementadas por um Estado forte e com apoio sindical constituíam a base do desenvolvimento. Em grande medida, prosseguiram-se as políticas de socialização capitalista que o fascismo tinha iniciado na Europa, bem como os governos de Roosevelt nos Estados Unidos ou o estalinismo na Rússia. Assim, surgiram nos Estados Unidos e na Europa Ocidental os diversos sistemas de Segurança Social, mutualizando os custos de manutenção dos trabalhadores, programas de habitação social, a extensão do abastecimento de água e electricidade a todos os recantos do Estado… É a época do chamado «Estado-Providência», em que as palavras de Keynes se tornaram o guia da burguesia democrática, dando origem a uma nova camada social, a classe média, que, por um momento, pareceu deixar definitivamente para trás o antagonismo entre classes. É a meia-noite do século, e a contra-revolução vive os seus melhores momentos tanto no bloco ocidental como no soviético.

 

É nesta altura que se estabelecem sistemas mais ou menos bipartidários em todas as potências democráticas, alternando no poder uma social-democracia fortemente intervencionista com uma democracia cristã que se inspira amplamente na Doutrina Social da Igreja para fundamentar o seu intervencionismo na caridade e na distribuição justa da riqueza. A direita, nesta forma, está longe de ser liberal, seja no sentido clássico — um anátema desde 1929 —, seja no sentido em que entendemos este termo hoje em dia, sendo habitualmente crítica dos excessos do capitalismo e acreditando na necessidade de lhes pôr freio através de um Estado forte. Este estatismo combinava-se com um anti-comunismo ferrenho no contexto do início das tensões imperialistas entre os Estados Unidos e a URSS, mais uma prova — se é que era necessária — de que a intervenção estatal na economia não é, de forma alguma, um sintoma de socialismo. Esta tendência manifestar-se-á independentemente de os Estados serem democráticos ou não, dando origem a poderosos aparelhos políticos como os da DC em Itália, do gaullismo em França, da CDU na Alemanha Ocidental, bem como a tendências em Espanha como a dos tecnocratas do Opus Dei no seio do franquismo e, fora dele, a muitos membros daquilo a que a imprensa do regime chamou «conspiração de Munique». Mais tarde, desempenharia um papel fundamental na transição espanhola, liderada pela UCD de Suárez. O exemplo mais semelhante deste tipo de direita nos Estados Unidos é o representado pela administração Eisenhower (1953-61), que não só manteve as políticas públicas das administrações de Roosevelt e Truman, como as expandiu com a construção de habitações sociais e de auto-estradas em grande escala por todo o país, e com o surgimento do modelo suburbano para as novas classes médias. Nascia assim o «American way of life», que viria a espalhar-se por todo o mundo.

 

Não é a vergonha da derrota que os leva a implementar estas políticas — não por acaso, o próprio Eisenhower foi um dos generais envolvidos na derrota da Alemanha nazi na Europa Ocidental —, mas sim a necessidade do capital de se socializar para continuar a desenvolver as suas forças produtivas a um novo nível. Este desenvolvimento das forças produtivas, em contradição com as relações de produção capitalistas que o originam, produziu uma sobre-acumulação de capital que marcou o fim deste período de prosperidade económica. A dificuldade em obter lucros em grande escala que pudessem compensar a queda da taxa de lucro, impulsionada pelo desenvolvimento da produtividade e pela forte concorrência entre capitais a nível mundial, pôs fim a três décadas de dinamismo económico. A desaceleração dos investimentos foi acompanhada pela inflação, resultante dos custos da Guerra do Vietname, bem como da crise do petróleo de 1973, que surgiu como represália dos países árabes contra aqueles que apoiaram Israel na Guerra do Yom Kippur. Isto deu origem a uma recessão que se prolongou até 1975 e que se caracterizou pela combinação de elevados níveis de inflação com uma elevada taxa de desemprego. O Estado tinha sido essencial nas décadas anteriores para assumir parte dos custos de produção através de políticas de obras públicas, facilitar o crédito às empresas e estabelecer mecanismos de diálogo social que garantissem que os custos salariais estivessem sempre abaixo do aumento da produtividade. Mas as soluções que tinham sido adoptadas para superar a crise de 1929, das quais o Estado fazia parte, tinham simplesmente elevado as contradições a um novo nível. Uma vez atingido esse nível, a intervenção estatal, que antes era parte da solução, passou a tornar-se parte do problema. Assim, as políticas de socialização das décadas anteriores começaram a tornar-se um entrave à recuperação económica, que se prolongou até ao início da década de 1980, o que tornou necessária a adopção de um novo rumo que, no caso da direita, já se começava a vislumbrar em meados da década de 1960.

2.A direita neocon

Nestes anos, começa a impor-se, tanto à esquerda como à direita, o consenso sobre a necessidade de reduzir a despesa pública para poder relançar a acumulação de capital. Assim, as décadas de 70 e 80 assistirão a cortes massivos nas prestações sociais — bem como a um endurecimento das condições de acesso às mesmas — e nos apoios a determinados sectores económicos, especialmente o industrial. Inúmeras empresas — por iniciativa própria ou estatal — encerrarão as suas fábricas na Europa e nos Estados Unidos, transferindo-as para países da periferia capitalista onde os custos de produção eram mais baixos. Governos de todo o espectro político — desde Reagan e Thatcher até González, Clinton e Blair — porão em prática estas políticas, enfrentando uma grande agitação social naqueles anos. O regresso das políticas não intervencionistas lembrava o liberalismo clássico dominante antes da Grande Depressão, daí o uso habitual do termo «neo-liberal» por parte da esquerda, que, no entanto, não consideramos adequado, uma vez que os anos 80 tinham assistido a um processo de socialização do capital que não se poderia ter previsto no início do século e que conferia a essas políticas condições diferentes das do liberalismo clássico. O reflexo, na esquerda, das necessidades do capitalismo neste período será a chamada Terceira Via, que triunfará na década de 90, impulsionada por Clinton, Blair e Schröder, entre outros, que implementaram ou ampliaram estas medidas económicas, combinando-as com políticas sociais progressistas, como a protecção do ambiente ou o reconhecimento dos direitos LGBT. Já não se tratava de não haver barreiras ao investimento e ao desenvolvimento económico, como no liberalismo do início do século XX, mas sim de o Estado intervir para as eliminar, reduzindo as taxas de imposto. Estas condições diferentes são a razão pela qual, como já referimos, não consideramos adequado o termo «neo-liberal».

 

A expansão do Estado já tinha os seus críticos na direita, mesmo quando este funcionava a pleno vapor e sem sinais de crise. O mais notável destes críticos foi, provavelmente, o republicano Barry Goldwater, que já em 1964 fez campanha propondo cortes na despesa pública e privatizações, bem como rejeitando a intervenção do Estado nos assuntos sociais[2], e com uma forte oposição ao sindicalismo e ao comunismo, defendendo a normalização do uso de armas nucleares. A sua campanha foi um fracasso total e o presidente Johnson obteve uma das vitórias mais esmagadoras que a democracia norte-americana já conheceu, sendo visto na altura como um fanático de extrema-direita capaz de iniciar uma guerra nuclear, o que colocaria em risco a democracia e o frágil equilíbrio com a URSS. No entanto, com o tempo, acabou por ser visto como um visionário, que antecipou no seu programa muitas das políticas que viriam a ser implementadas duas décadas mais tarde.

 

Um dos que apoiou essa campanha mal sucedida foi — não por acaso — o futuro presidente Reagan, que proferiu o seu discurso «A time for choosing», que com o tempo se tornaria um marco fundacional do neo-conservadorismo. O seu mandato (1981-89) assistiu ao corte de muitos dos programas do período anterior. Reagan adoptou uma nova abordagem económica baseada na oferta, ou seja, uma tentativa de estimular a economia incentivando a produção e os investimentos através de benefícios fiscais, reduções de impostos e ajustamentos salariais, em contraposição à abordagem centrada na procura que tinha dominado as décadas anteriores. No entanto, num contexto de estagnação económica, estas políticas, aliadas a um aumento das despesas militares, viriam a lançar as bases do défice estrutural da economia norte-americana. No Reino Unido, a primeira manifestação disto serão os governos de Thatcher (1979-90), que se caracterizarão por cortes de igual magnitude na despesa pública, por uma política externa igualmente agressiva e pela repressão das lutas de classes que se tinham iniciado durante os anos 70, sendo especialmente notável a greve dos mineiros do País de Gales de 1984-85. A perda de poder dos sindicatos será um elemento marcante deste período, dada a sua incapacidade de fazer valer a sua força perante o Estado e, sobretudo, pelo seu comprovado talento para demonstrar ao proletariado que a luta e as greves eram inúteis. Esta época testemunhou também o apogeu dos mercados abertos em todo o mundo e fronteiras relativamente porosas, sendo comum que também a direita promovesse a migração e vias para a regularização de nova mão-de-obra. Alguns marcos neste sentido podem ser encontrados no discurso de despedida de Reagan, nas políticas de regularização de Bush filho e nas regularizações em massa de migrantes levadas a cabo por governos conservadores na Europa Ocidental.

 

A repressão das lutas de classes irá acelerar a atomização do proletariado, dando origem a uma nova moral de carácter individualista ou, na sua falta, à procura de novas formas de comunidade na religião. Isto explica o auge do conservadorismo religioso — especialmente sob a forma de evangelismo — nestes últimos anos em todo o continente americano, uma vez que, face ao recuo do Estado, muitas das funções assistenciais que este desempenhava anteriormente passaram a ser asseguradas pelas comunidades religiosas[3], em contraste com a teologia da libertação dos anos 60 e 70, que exercia influência sobre o campesinato e se alinhava com o estalinismo na América Latina. O Norte de África e o Levante assistirão a um movimento semelhante — o islamismo — após o fracasso do «socialismo» árabe e a vitória dos aiatolas no Irão em 1979. Em ambos os casos, a transição de um modelo político estatista para outro não intervencionista trouxe consigo a mudança de formas de religiosidade de vocação reformista — que aceitam a sua separação do Estado — para outras de carácter comunitarista e com tendência para integrar o Estado. Fala-se do evangelismo e do islamismo como os exemplos mais emblemáticos desta nova religiosidade, mas esta também se encontra noutras confissões, como a Renovação Carismática — e, em geral, nas formas de liturgia carismática — ou o auge do tradicionalismo no catolicismo, o movimento Soka Gakkai no budismo ou o nacionalismo religioso hindu, ou hindutva. Apontar exclusivamente o evangelismo e o islamismo como factores causais ou como uma fé «reaccionária», em oposição à religiosidade «progressista» dos anos 60 e 70, seria ser tão míope a ponto de matar o mensageiro do nosso tempo. Em resumo, a separação entre política e religião, que anteriormente constituía um consenso, passa a ser questionada, tornando-se cada vez mais frequentes as referências confessionais na política — sobretudo na norte-americana —, já não apenas como profissão pública de fé, mas como elemento articulador do discurso político, sendo de destacar o empenho da administração Reagan em restabelecer a oração nas escolas públicas. A administração de Bush filho também dará mostras disso ao proibir, por exemplo, a investigação com células estaminais.

 

As políticas de desregulamentação, que favoreceram a entrada maciça de capital estrangeiro, aliadas à espiral especulativa no setor imobiliário e de crédito que caracterizou os anos 2000[4], foram postas em causa com o rebentamento da bolha imobiliária em 2007, cujas consequências geraram uma recessão à escala mundial a partir do ano seguinte, devido à falta de confiança nesses produtos financeiros e, consequentemente, de liquidez nos mercados. Mais uma vez, foi o próprio crescimento do capitalismo — e não simplesmente a ganância dos especuladores imobiliários[5] — que gerou a sua crise por sobreacumulação, rebentando com uma força ainda maior do que na década de 70. Os principais bancos centrais tiveram de intervir e, em muitos casos, nacionalizar ou resgatar alguns dos maiores bancos, tendo muitos outros entrado em falência. O desemprego disparou para níveis da Grande Depressão, e milhões de pessoas ficaram incapazes de continuar a pagar as suas hipotecas, o que se traduziu numa grande quantidade de despejos e numa precariedade laboral persistente. Em muitos países, incluindo a Espanha, o poder de compra ainda não recuperou o nível de 2008, e as taxas de desemprego continuam acima dos 10%. Esta crise iria provocar uma retração dos mercados e, consequentemente, uma nova agitação política em ambos os lados do espectro político.

 

3.      A época do populismo

 

Os anos que se seguiram ao início da crise em 2008 viram a aplicação de medidas de austeridade draconianas em todo o mundo, sendo estas especialmente severas nos países do sul da Europa. Em todos esses países, foi dada prioridade ao pagamento da dívida e dos juros ao BCE decorrentes dos resgates bancários, em detrimento de qualquer outra despesa orçamental[6], o que implicou o corte e a privatização de inúmeros serviços públicos, bem como a redução das pensões, o aumento dos impostos e da idade de reforma e o congelamento dos salários dos funcionários públicos. Da mesma forma, foram promulgadas reformas laborais que reduziram as indemnizações por despedimento dos trabalhadores e aumentaram a precariedade do emprego, o que gerou uma vasta camada de proletários que já não conseguem garantir a manutenção e a reprodução da sua força de trabalho através dos seus salários. Da mesma forma, desde 2008, a outrora poderosa classe média tem-se desvanecido em grande medida, passando a sua maioria a ser proletarizada.

 

Nos países do norte da Europa, como a Alemanha e os Países Baixos, pelo contrário, espalhou-se a ideia de que os resgates aos países do sul constituíam um esforço por parte dos seus sistemas para salvar países que, numa expressão comum da época, «tinham vivido acima das suas possibilidades», e que talvez fosse mais conveniente dedicar esses recursos a manter a sua própria estabilidade e deixar que as economias do sul da Europa — especialmente a Grécia — saíssem do euro. Foi precisamente este lema que se tentou impor aos proletários de todo o mundo após o início da crise: tínhamos vivido acima das nossas possibilidades. Quem é que tinha vivido acima das suas possibilidades? Os trabalhadores a quem eram concedidos créditos, mesmo sabendo-se que já existia um risco elevado de que não os conseguissem reembolsar? Ou a burguesia, que só conseguiu continuar a inflar a bolha, sabendo[7] que esse crescimento não correspondia a um aumento da produtividade da economia?

Tinha-se criado o terreno fértil perfeito para uma nova onda de mobilizações de classe, que iria eclodir em 2011. Nesse ano, os proletários de todo o mundo, da China aos Estados Unidos, passando pela América Latina, Europa e mundo árabe, saíram às ruas em protesto contra o agravamento das suas condições de vida devido às medidas de austeridade que os diversos governos estavam a adoptar, revelando nas suas reivindicações cidadãs uma crise de representatividade política — fica na memória aquele «Não nos representam» — que não fez senão agravar-se desde então.

A burguesia, neste período, depara-se com a contradição entre um capitalismo que não pode deixar de crescer, ampliando a dependência entre os seus diferentes eixos a nível mundial, e a necessidade de se retrair para o âmbito nacional, tendo sido a entrada maciça de capitais estrangeiros — e a concorrência com estes — um dos motivos da bolha e da subsequente crise económica. A mobilização do proletariado fará com que, numa primeira fase, seja a esquerda a tentar articular estas contradições e reivindicações no âmbito da política institucional. Assim, nos países do sul da Europa, assistir-se-á ao crescimento de forças à esquerda da social-democracia tradicional, como o Syriza na Grécia ou o Podemos em Espanha, que tentavam abordar a crise a partir de um nacionalismo económico acentuado, que incluía a nacionalização de empresas e serviços e o aumento do investimento público à custa do incumprimento da dívida para com o BCE, entrando em conflito directo com este poder estrangeiro e com o seu ponto de referência, a Alemanha, e pretendendo virar o jogo contra eles. A perspectiva de recuperar as condições anteriores, através da intenção de manter o incumprimento da dívida contraída, foi suficiente para despertar as esperanças de muitos proletários, esmagados por anos de cortes e humilhação pública.

 

Ao mesmo tempo, as guerras decorrentes da incapacidade dos protestos para derrubar alguns dos regimes anteriores no mundo árabe — especialmente na Síria —, bem como o recrudescimento do terrorismo islamista — com o ISIS como Estado de facto —, provocaram o êxodo em massa de milhões de sírios — um quarto da população total do país — e afegãos para a Europa a partir de 2014, entrando com grandes dificuldades pela Grécia — apesar do acordo entre a UE e a Turquia para que esta os retivesse — em direcção à Alemanha, que acabou por acolher 800 000 refugiados sírios. As forças de extrema-direita irão utilizar a rejeição a este sector da migração por parte de sectores da população para alargar assim o espaço de novas forças de extrema-direita, como a AfD na Alemanha ou o Vox em Espanha, e para o crescimento maciço de outras já estabelecidas, como a Lega em Itália, o FPÖ na Áustria ou o FN em França. Da mesma forma, a percepção de que a migração começava a ser um problema social e laboral para os trabalhadores norte-americanos começou a tomar forma a partir de 2015 com o movimento MAGA — e o seu líder, o futuro presidente Trump — no seio do Partido Republicano, começando a ser abertamente levantada a necessidade de concluir o muro que separa os Estados Unidos do México. O fio condutor de todas estas manifestações é, mais uma vez, o nacionalismo económico: a mão-de-obra migrante concorre com a nacional, fazendo baixar os salários, e recebe uma percentagem desproporcional de ajudas públicas em comparação com os trabalhadores nacionais. Além disso, as fábricas que se deslocaram nos anos 80 e 90 para outros países estão a ajudá-los a competir contra as suas antigas sedes, pelo que é necessário forçar o seu regresso.

As experiências falhadas[8] da esquerda alternativa no governo, bem como a persistência dos problemas decorrentes da crise de 2008 e o mal-estar face a uma nova austeridade «verde», esgotaram muitas das bases em que se sustentava essa nova esquerda[9], concluindo o deslocamento do eixo político para a direita a partir, especialmente, da pandemia de COVID-19 — e da consequente crise — e do início da invasão russa da Ucrânia, prelúdio da escalada imperialista em que nos encontramos actualmente. Grande parte destes aspectos já foi abordada anteriormente, mas a questão que se coloca é: como classificar este novo fenómeno? Trata-se de uma nova forma de fascismo?

 

¿O que é isto? Uma nota histórica

 

Para podermos responder a esta pergunta, temos de analisar os factos com base no nosso método, o do materialismo histórico. Por isso, remetemo-nos às palavras de Marx que mencionámos no início destas linhas: a formação da consciência depende dos acontecimentos sociais. Neste sentido, o contexto actual é muito diferente do de há um século. Para começar, e como já referimos, o capitalismo, no início do século XX, ainda não tinha dado o salto de socialização que experimentou após a Grande Depressão. A ideologia dominante até então tinha sido o liberalismo clássico, cuja aversão à intervenção estatal se estendeu até aos meios radicais [10]. O fascismo surgiu após a Primeira Guerra Mundial como parte da necessidade do capital de se concentrar para poder retomar o seu crescimento após o conflito, no contexto de uma crise económica que devastou a economia alemã até 1923, a que se somou o receio da burguesia perante o triunfo da revolução proletária em Itália com o «Bienio Rosso». Para levar a cabo esta concentração, era necessário criar coesão entre as diferentes facções da burguesia nacional, uma vez que a social-democracia já tinha esmagado qualquer possibilidade de actividade autónoma do proletariado. Esta coesão foi alcançada através de políticas públicas orientadas para a autarcia —ainda não existia o grau de interdependência económica que existe hoje— e implementadas por governos autoritários, assim como gerando um sentimento de unidade a partir da ofensa sofrida com os acordos de paz de Versalhes. Este sentimento de ofensa iria dar expressão política à necessidade de colocar capitais noutros mercados, iniciando a voraz escalada imperialista que conduziria pouco depois à Segunda Guerra Mundial.

 

Assim, podemos constatar que o contexto da época era radicalmente diferente do actual. Em primeiro lugar, o capitalismo tem hoje uma margem infinitamente menor para reformas e é incapaz de gerar esses consensos, com políticas económicas muito semelhantes que co-existem com um aumento das tensões imperialistas entre os diferentes Estados e uma tendência para a formação de blocos imperialistas económicos e militares. A crise de representatividade política faz com que estas manifestações assumam formas mais extravagantes[11], em ruptura com a normalidade institucional de períodos anteriores. No entanto, a ruptura com esta normalidade formal não implica uma ruptura com as instituições democráticas em si mesmas, que raramente são questionadas. Na ausência de uma luta de classes que a obrigue a isso[12], a direita populista não precisa de dar golpes de Estado nem de romper com as instituições, porque ganha — e perde — eleições e transforma as instituições a partir de dentro, aplicando e alargando a legalidade em vigor[13]. Da mesma forma, a direita populista não gera qualquer tipo de consenso[14], nem mesmo entre a burguesia, sendo maiores as dúvidas do que as certezas que as suas figuras suscitam. Pode recorrer a manobras para desacreditar os seus opositores, conduta que também se verifica na esquerda, mas não proíbe a sua existência nem que estes se possam expressar publicamente[15]. A função a que a direita populista responde é a de tentar fazer face ao recuo nacional das economias sem perder a sua fatia do bolo a nível mundial, num contexto em que as tensões imperialistas aceleram a escalada para a guerra em todas as frentes, sendo cada vez mais questionado o papel que os Estados Unidos tinham desempenhado como única superpotência desde a dissolução da URSS em 1991. Em última análise, é o próprio imperialismo de todos os Estados que prevalece sobre os desejos da burguesia de se retrair e fazer uma pausa na concorrência mundial. Para dar exemplos, é o equilíbrio que inicialmente existia na segunda administração Trump entre o vice-presidente Vance — isolacionista — e o secretário de Estado Rubio — um falcão intervencionista —, que está a ser resolvido a favor deste último. Seja como for, esta direita é tão capitalista como todas as outras, sem sinais de que esteja a mudar as relações sociais do capitalismo para um novo feudalismo. Uma lição que se pode tirar disto é que não importa o nível de auto-consciência da burguesia, tal como lhes são indiferentes as pretensões individuais: o capital é uma relação social impessoal e automática, e a burguesia é um vector na sua reprodução. Não há maquiavelismo eficaz na acção da classe burguesa, mas sim o cumprimento de uma função que deve ser suprimida pelo proletariado revolucionário.

 

É importante salientar que, quando afirmamos que existe um determinismo económico na formação das ideias políticas, não nos referimos a uma ligação mecânica, mas sim a um processo de desenvolvimento orgânico. Há sempre momentos de co-existência e influência mútua entre ideologias que correspondem a períodos distintos. Assim, o fascismo co-existirá com o liberalismo ao longo de toda a década de 1920 e só se expandirá nas suas diversas formas na década seguinte. Da mesma forma, e como já vimos, um neo-conservador como Goldwater já teve a sua voz ouvida na década de 60, assim como a democracia cristã co-existiu com o neo-conservadorismo durante as décadas de 70 e 80, apesar de já ser uma abordagem obsoleta — como demonstram, por exemplo, a impotência dos governos da UCD em Espanha ou a podridão institucional da Itália dos anos 80, dominada durante décadas pela DC —, assim como a primeira administração Trump esteve repleta de neo-conservadores que tinham trabalhado com Bush.

 

Entender o determinismo como um mecanismo seria o outro lado da moeda do mesmo idealismo de que parte a interpretação que a esquerda faz do período do capital nas suas diversas formas. A esquerda toma a categoria do fascismo, como salientámos no início, e projecta-a sobre a realidade para lhe dar forma. A realidade precisa das nossas categorias, tal como o proletariado, porque, por si sós, são uma extensão informe, desorganizada e desprovida de sentido. Nisto, a esquerda do capital mantém-se tão apegada ao kantismo como o reformismo estava nos debates da II Internacional, evitando assim os incómodos que as mudanças históricas provocam. O recurso ao fascismo feito pela esquerda funciona à maneira dos mitos, tal como os entendia o estudioso de religiões Mircea Eliade — este sim, um fascista militante —: o mito apresenta-nos um problema resolvido originalmente e à margem da história; se reproduzirmos o mito passo a passo, poderemos resolver o problema tal como foi feito na altura. Desta forma, o fascismo deixa de ser uma ideologia, surgida das necessidades do capitalismo daquele período, para se tornar um problema a resolver que pode surgir a qualquer momento, ou mesmo uma característica da personalidade que pode manifestar-se em qualquer um de nós, obrigando-nos a uma autovigilância contínua. O anti-fascismo, enquanto mito, oferece-nos uma série de passos (a frente popular, o partido de massas, a hegemonia sobre a classe, a repressão dos incontroláveis…) que, se forem bem reproduzidos, nos permitirão manter a democracia actual com todo o seu aparelho de direitos. A história desaparece da análise e, com ela, a perspectiva da emancipação humana. Deste ponto de vista, vivemos numa espécie de tempo cíclico em que um capital em decadência e um proletariado impotente[16] se enfrentam num eterno retorno. A fixação da esquerda pela memória histórica tem mais a ver com fetichismo, com a recordação dos passos do mito, do que com a explicação das mudanças sociais. A enumeração de factos sem ter em consideração as suas causas e o momento do processo de desenvolvimento do capitalismo em que ocorreram tem, neste sentido, o mesmo valor histórico que os passos de um manual de instruções: primeiro vem isto, depois vem aquilo… e porquê?

 

Não pretendemos aqui apresentar uma visão intelectualista sobre o valor da história; não acreditamos nesse lugar-comum de que «quem não conhece a história está condenado a repeti-la». Simplesmente, não acreditamos que a história se repita, mas isso não retira valor ao seu conhecimento. Pelo contrário, conhecer a história do movimento operário, a partir do fio condutor histórico que os nossos companheiros de classe têm vindo a tecer ao longo do tempo, é uma das nossas tarefas enquanto partido histórico. Resgatar o nosso fio histórico do esquecimento a que foi submetido pela contra-revolução permite-nos fazer um balanço do que aconteceu e continuar a esclarecer as posições da nossa classe, elaborar «uma teoria da contra-revolução», nas palavras de Bordiga. O balanço não é um mero manual de instruções para resolver problemas específicos e parciais, mas sim o método que nos permite saber em que medida o passado criou as condições do presente e como este, por sua vez, está a criar a sociedade futura: o comunismo. Não é por acaso que toda a nossa actividade se orienta para esse fim, o comunismo, para além das intrigas entre as diferentes fracções burguesas. Não precisamos de traçar planos nem de nos aliar a esta ou aquela facção, porque já fizemos a nossa escolha. O capitalismo gerou diferentes formas ideológicas ao longo da sua história, é verdade, mas a primeira delas, aquela que o questiona na sua totalidade, nasceu do seu próprio solo no mesmo instante em que ele surgiu. Os nossos camaradas testemunharam o apogeu e o colapso de todo o tipo de formas ideológicas no governo, desde o absolutismo monárquico e o tradicionalismo até à nova direita populista, mas o comunismo sobreviveu a todas elas, na medida em que não é simplesmente mais uma ideologia, mas sim a revisão total do sistema vigente, desde os seus primórdios até aos dias de hoje. Durante todo este tempo, o nosso objectivo tem sido imutável: a emancipação da espécie humana numa sociedade sem classes. Essa é a nossa única tarefa: ontem, hoje e até ao dia da revolução.

 

[1] É nesse sentido que apontam algumas figuras de destaque da burguesia progressista, como o ex-ministro grego Varoufakis.

[2] Isto levou-o a rejeitar a Lei dos Direitos Civis de 1964 por interferir na liberdade individual de fazer negócios, apesar de ele próprio ter integrado racialmente os seus negócios na década de 1930. No entanto, esta rejeição fez com que o Sul segregacionista votasse pela primeira vez nos republicanos nestas eleições.

[3] Não por acaso, e apesar das diferenças evidentes, este foi um dos motivos do sucesso inicial do cristianismo: a crise do Império Romano no século III fez com que muitas das funções que este desempenhava passassem a ser assumidas pelas comunidades cristãs. Quando o Estado se recompôs, e apesar das fortes reticências, não teve outra alternativa senão aceitar o facto consumado e levantar a proibição do cristianismo.

[4] A este respeito, são ilustrativos os dados — destacando-se a sextuplicação do capital estrangeiro na economia norte-americana durante os três lustros anteriores — apresentados pelo então presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, Ben Bernanke, no início de 2009: https://www.federalreserve.gov/newsevents/speech/bernanke20090414a.htm

[5] É um lugar-comum — e muito conveniente — na esquerda do capital apontar o setor imobiliário e financeiro como o único responsável pela crise — os capitalistas reacionários — em oposição a um setor industrial — os «bons» — que, se se tivesse mantido, a teria evitado. Não se pode compreender o capitalismo nem as suas crises como compartimentos estanques: todos dependem de todos.

[6] Isto ficou patente em Espanha com a reforma apressada, em 2011, do artigo 135.º da Constituição, levada a cabo com o acordo do PSOE e do PP.

[7] Não por acaso, já desde 2004 começavam a surgir sinais do que estava prestes a acontecer, razão pela qual a Reserva Federal dos EUA aumentou drasticamente as taxas de juro — de 1% nesse ano para 5,25% em 2006 — para travar a espiral inflacionária que se tinha iniciado em 2001. Da mesma forma, são numerosos os relatórios dos anos de 2006 e 2007 que alertam para esta situação, inclusive em meios de comunicação mainstream como o Wall Street Journal.

[8] Falharam no cumprimento das suas pretensões, não na gestão do capital. Os governos do Syriza (2015-19) foram diligentes e escrupulosos no cumprimento das suas obrigações para com o BCE.

[9] O que não significa que tenha desaparecido; é simplesmente uma prova de que as ideologias são devoradas e postas de lado pelo capitalismo se não conseguirem responder às suas necessidades, o que acontece cada vez mais rapidamente.

[10] Neste sentido, Plejanov já o referia no seu texto «A doutrina de Arturo Labriola» (1908), ao falar da influência do manchesterismo sobre os teóricos do sindicalismo, entre os quais se destacavam o já referido Labriola e os proudhonianos.

[11] Servem de exemplo as homilias de Trump no Salão Oval, ou o recurso crescente à religião na política e na cultura europeia, com as alusões manidas às «raízes judaico-cristãs» da cultura ocidental.

[12] Mesmo no caso de lutas de classes especialmente radicais (como as da década de 70), cuja derrota, devido ao papel da social-democracia, permitiu esse golpe de Estado. Pense-se no papel do peronismo e da Unidade Popular na Argentina e no Chile.

[13] Por exemplo, não foi necessário que o poder político violasse a legalidade para revogar a proteção federal ao aborto nos Estados Unidos; esta foi, sim, revogada por uma decisão do Supremo Tribunal. Também em países como a Polónia ou a Suíça a extrema-direita não precisou de violar a legalidade em vigor para pôr em prática as suas políticas; pelo contrário, neste último país, estas são aprovadas por referendo.

[14] De facto, tem sido bastante comentada a quebra do tabu em torno do socialismo numa parte substancial da sociedade norte-americana.

[15] Seria necessário escrever outro artigo inteiro só para enumerar o número de vezes que Donald Trump foi parodiado nos seus dois mandatos, ao ponto de Alec Baldwin ter feito disso o seu ofício.

[16] Esta perspetiva idealista está bem refletida na famosa citação de Gramsci: «O velho mundo está a morrer. O novo demora a surgir. E nesse claroscuro surgem os monstros.»

 

Fonte: https://barbaria.net/2026/07/09/la-derecha-transformada-frente-al-mito-del-eterno-retorno-del-fascismo/?fbclid=IwY2xjawS96xFleHRuA2FlbQIxMABicmlkETBTM05UMEFjNDJ5RnBFeUpJc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHrs-nmzRDTpib6Ezvq89rTapjMRURsPK3QrS_TWhIbAuv8JYVmHP3jl5_2o2_aem_opXWVc0XXamP9t6mJ8AqOA

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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