Israel Não Está a Debater um Estado Palestiniano.
Este artigo da grande Amira Hass, publicado hoje no Haaretz, é
demasiado urgente e importante para ficar atrás de um acesso pago, por isso
copiei-o na íntegra aqui. Por favor, leiam e partilhem. * * * * * * * Israel
não está a debater um Estado palestiniano (Israel Isn't Debating a Palestinian
State).
1 de Setembro de 2026
Está a preparar-se para a expulsão. A posição de Gadi Eisenkot sobre a criação de um Estado palestiniano não vem ao caso. Em toda a Faixa de Gaza, na Cisjordânia e no próprio Israel, a maquinaria destinada a tornar a vida dos palestinianos impossível já está em funcionamento, preparando o terreno para uma expulsão em massa. Gadi Eisenkot, o favorito nas eleições e líder do partido Yashar, tem uma posição sobre um Estado palestiniano que, em última análise, é irrelevante.
O que está em jogo hoje não é
uma «solução diplomática», mas a própria existência do povo palestiniano entre
o rio Jordão e o mar Mediterrâneo. As forças israelitas que se esforçam por
«apagá-los» não reconhecem limites nem restrições. Os seus apoiantes são
demasiado numerosos para que possamos confiar apenas na firmeza e na
resiliência de um povo que já suportou planos de expulsão levados a cabo por
Israel.
O mundo fica de braços
cruzados. A esquerda é minúscula, fraca e rouca de tanto lançar alertas. A
oposição anti-Bibi oscila entre minimizar o perigo, permanecer indiferente a
ele e apoiar abertamente a expulsão. As condenações esporádicas, motivadas
principalmente por algo que o embaixador dos EUA publicou no X, são tão úteis
quanto um crivo numa tempestade. Os falangistas judeus atacam constantemente e
em todo o lado, não só em Qusra.
O debate sobre um Estado, dois
Estados ou uma federação é mais teórico do que nunca. Qualquer solução
consensual exige, em primeiro lugar, reconhecer o problema e chegar a acordo
sobre o que ele é. Demasiados judeus em Israel foram condicionados a acreditar
que o problema é a própria presença nesta terra de um povo palestiniano com
raízes, continuidade histórica e económica, capital cultural e bens materiais,
um rico património agrícola e um profundo amor pela pátria.
O «apagamento» é a solução de
pesadelo que se está a tornar realidade todos os dias. As leis do Knesset, as
declarações dos políticos, as ordens militares, os manuais escolares e os
sagrados batalhões imobiliários que operam em Gaza, na Cisjordânia e no Negev
trabalham, em conjunto e separadamente, para promover esta «solução»
diligentemente e sem receio de condenação internacional. A política israelita
visa tornar a vida insuportável para os palestinianos, onde quer que vivam,
para que a sua emigração possa ser descrita como um acto de livre arbítrio.
No próprio Israel, as
autoridades dão carta branca às organizações criminosas árabes para se armarem
e matarem cidadãos palestinianos nas suas próprias casas. Na Cisjordânia, essas
mesmas autoridades israelitas dão carta branca aos «batalhões de Deus» para se
armarem, matarem e expulsarem, enquanto o exército oficial prossegue as suas
incursões dia e noite. Na devastada e sedenta Gaza, o governo e o exército
cultivam milícias armadas de colaboradores criminosos, enquanto os pilotos
israelitas continuam a lançar mísseis de vingança e retaliação que ceifam a
vida de ainda mais crianças.
Todas estas demonstrações
alimentadas pela testosterona estão interligadas. Ao mesmo tempo, Israel está a
destruir ou a restringir severamente a capacidade dos palestinianos de ganhar a
vida. Em Gaza, essa missão já foi cumprida.
Uma população de
«mortos-vivos» que depende da ajuda humanitária, dois milhões de pessoas que
carregam o fardo de cerca de 74 000 sepulturas recentes, famílias e memórias,
talentos e profissões, e poupanças evaporadas, está amontoada em cerca de 150
quilómetros quadrados de terra queimada. A criatividade, a engenhosidade e a
ajuda mútua são ofuscadas pela dimensão da destruição e pela proibição imposta
por Israel à reconstrucção e à recuperação.
Na Cisjordânia, o laço
financeiro do Ministério das Finanças está a apertar-se em torno de
aproximadamente três milhões de pessoas e da Autoridade Palestiniana. O roubo
sistemático de receitas é agravado pelas campanhas de destruição do exército
nas cidades e nos campos de refugiados, bem como pelos outros métodos
utilizados para impedir os palestinianos de cultivar e desenvolver as suas
terras: postos de controlo, proibições burocráticas, cercas e pastores judeus
israelitas. No próprio Israel, a «judaização da Galileia e do Negev» foi e
continua a ser um eufemismo para o roubo de terras e recursos aos cidadãos
palestinianos de Israel.
A discriminação contra eles na
atribuição de recursos, subsídios e emprego, a par das proibições de construcção
e das demolições, sempre ocupou um lugar de destaque na política oficial dentro
da Linha Verde. Permitam-me reiterar: a própria existência do povo palestiniano
entre o mar e o rio está agora em perigo. São demasiadas as forças em acção que
estão a criar esse perigo: o poderio e as capacidades militares de Israel; o
culto ao serviço militar em todas as circunstâncias e sob qualquer governo; a
obediência como valor; as armas e os ataques militares como modus operandi por
defeito; a normalização do stress pós-traumático entre os soldados e do
suicídio entre estes; as atracções de uma carreira militar e as portas que esta
abre; o fascínio de uma habitação acessível numa comunidade excludente da
Galileia ou num subúrbio de colonos na Samaria; as falsidades da propaganda
oficial e não oficial; a indiferença perante o inferno na terra que Israel
criou na Faixa de Gaza; a negação de 60 anos de ocupação e domínio forçado; a resposta
pavloviana: «Mas o 7 de Outubro»; a sinergia entre o exército, o governo, os
rabinos e as milícias que usam kippa na Cisjordânia; a indiferença perante a
destruição do Líbano; o desrespeito pela ocupação de mais partes da Síria; a
normalização do discurso de expulsão; os sistemas de justiça e de educação
manchados pelo racismo secular e religioso; e o exército de carcereiros que
maltrata milhares de prisioneiros palestinianos, tanto por ordem como por opção
própria.
Em conjunto, estas e outras forças
semelhantes estão a criar a infraestrutura material, ideológica e psicológica,
no seio da sociedade judaico-israelita, para uma nova expulsão em massa de
palestinianos e para o que tal poderá acarretar: um massacre em massa. Os
heróis das milícias de colonos declaram abertamente que a expulsão é o seu objectivo.
Reconhecem claramente a disponibilidade de amplos segmentos da sociedade
judaico-israelita para participar na sua concretização, activa ou passivamente,
directa ou indirectamente.
Através das suas provocações e crimes
diários, cometidos em plena luz do dia e possíveis apenas graças ao apoio
institucional, os falangistas procuram constantemente provocar um acto de raiva
e vingança palestiniano que «tenha sucesso», para que possa ser explorado como
o estopim que desencadeia uma nova guerra santa. Os falangistas judeus e as
organizações de direita que os alimentam contam com uma ampla mobilização,
incluindo por parte dos líderes, eleitores e apoiantes do Yashar e do Partido
Democrata Liberal, para uma guerra à qual já se poderia atribuir o lema: «Um
povo, um exército, uma terra purificada de árabes.»
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice


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