quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Israel Não Está a Debater um Estado Palestiniano.


    


Israel Não Está a Debater um Estado Palestiniano.

Este artigo da grande Amira Hass, publicado hoje no Haaretz, é demasiado urgente e importante para ficar atrás de um acesso pago, por isso copiei-o na íntegra aqui. Por favor, leiam e partilhem. * * * * * * * Israel não está a debater um Estado palestiniano (Israel Isn't Debating a Palestinian State).


1 de Setembro de 2026


Está a preparar-se para a expulsão. A posição de Gadi Eisenkot sobre a criação de um Estado palestiniano não vem ao caso. Em toda a Faixa de Gaza, na Cisjordânia e no próprio Israel, a maquinaria destinada a tornar a vida dos palestinianos impossível já está em funcionamento, preparando o terreno para uma expulsão em massa. Gadi Eisenkot, o favorito nas eleições e líder do partido Yashar, tem uma posição sobre um Estado palestiniano que, em última análise, é irrelevante.

O que está em jogo hoje não é uma «solução diplomática», mas a própria existência do povo palestiniano entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo. As forças israelitas que se esforçam por «apagá-los» não reconhecem limites nem restrições. Os seus apoiantes são demasiado numerosos para que possamos confiar apenas na firmeza e na resiliência de um povo que já suportou planos de expulsão levados a cabo por Israel.

O mundo fica de braços cruzados. A esquerda é minúscula, fraca e rouca de tanto lançar alertas. A oposição anti-Bibi oscila entre minimizar o perigo, permanecer indiferente a ele e apoiar abertamente a expulsão. As condenações esporádicas, motivadas principalmente por algo que o embaixador dos EUA publicou no X, são tão úteis quanto um crivo numa tempestade. Os falangistas judeus atacam constantemente e em todo o lado, não só em Qusra.

O debate sobre um Estado, dois Estados ou uma federação é mais teórico do que nunca. Qualquer solução consensual exige, em primeiro lugar, reconhecer o problema e chegar a acordo sobre o que ele é. Demasiados judeus em Israel foram condicionados a acreditar que o problema é a própria presença nesta terra de um povo palestiniano com raízes, continuidade histórica e económica, capital cultural e bens materiais, um rico património agrícola e um profundo amor pela pátria.

O «apagamento» é a solução de pesadelo que se está a tornar realidade todos os dias. As leis do Knesset, as declarações dos políticos, as ordens militares, os manuais escolares e os sagrados batalhões imobiliários que operam em Gaza, na Cisjordânia e no Negev trabalham, em conjunto e separadamente, para promover esta «solução» diligentemente e sem receio de condenação internacional. A política israelita visa tornar a vida insuportável para os palestinianos, onde quer que vivam, para que a sua emigração possa ser descrita como um acto de livre arbítrio.

No próprio Israel, as autoridades dão carta branca às organizações criminosas árabes para se armarem e matarem cidadãos palestinianos nas suas próprias casas. Na Cisjordânia, essas mesmas autoridades israelitas dão carta branca aos «batalhões de Deus» para se armarem, matarem e expulsarem, enquanto o exército oficial prossegue as suas incursões dia e noite. Na devastada e sedenta Gaza, o governo e o exército cultivam milícias armadas de colaboradores criminosos, enquanto os pilotos israelitas continuam a lançar mísseis de vingança e retaliação que ceifam a vida de ainda mais crianças.

Todas estas demonstrações alimentadas pela testosterona estão interligadas. Ao mesmo tempo, Israel está a destruir ou a restringir severamente a capacidade dos palestinianos de ganhar a vida. Em Gaza, essa missão já foi cumprida.

Uma população de «mortos-vivos» que depende da ajuda humanitária, dois milhões de pessoas que carregam o fardo de cerca de 74 000 sepulturas recentes, famílias e memórias, talentos e profissões, e poupanças evaporadas, está amontoada em cerca de 150 quilómetros quadrados de terra queimada. A criatividade, a engenhosidade e a ajuda mútua são ofuscadas pela dimensão da destruição e pela proibição imposta por Israel à reconstrucção e à recuperação.

Na Cisjordânia, o laço financeiro do Ministério das Finanças está a apertar-se em torno de aproximadamente três milhões de pessoas e da Autoridade Palestiniana. O roubo sistemático de receitas é agravado pelas campanhas de destruição do exército nas cidades e nos campos de refugiados, bem como pelos outros métodos utilizados para impedir os palestinianos de cultivar e desenvolver as suas terras: postos de controlo, proibições burocráticas, cercas e pastores judeus israelitas. No próprio Israel, a «judaização da Galileia e do Negev» foi e continua a ser um eufemismo para o roubo de terras e recursos aos cidadãos palestinianos de Israel.

A discriminação contra eles na atribuição de recursos, subsídios e emprego, a par das proibições de construcção e das demolições, sempre ocupou um lugar de destaque na política oficial dentro da Linha Verde. Permitam-me reiterar: a própria existência do povo palestiniano entre o mar e o rio está agora em perigo. São demasiadas as forças em acção que estão a criar esse perigo: o poderio e as capacidades militares de Israel; o culto ao serviço militar em todas as circunstâncias e sob qualquer governo; a obediência como valor; as armas e os ataques militares como modus operandi por defeito; a normalização do stress pós-traumático entre os soldados e do suicídio entre estes; as atracções de uma carreira militar e as portas que esta abre; o fascínio de uma habitação acessível numa comunidade excludente da Galileia ou num subúrbio de colonos na Samaria; as falsidades da propaganda oficial e não oficial; a indiferença perante o inferno na terra que Israel criou na Faixa de Gaza; a negação de 60 anos de ocupação e domínio forçado; a resposta pavloviana: «Mas o 7 de Outubro»; a sinergia entre o exército, o governo, os rabinos e as milícias que usam kippa na Cisjordânia; a indiferença perante a destruição do Líbano; o desrespeito pela ocupação de mais partes da Síria; a normalização do discurso de expulsão; os sistemas de justiça e de educação manchados pelo racismo secular e religioso; e o exército de carcereiros que maltrata milhares de prisioneiros palestinianos, tanto por ordem como por opção própria.

Em conjunto, estas e outras forças semelhantes estão a criar a infraestrutura material, ideológica e psicológica, no seio da sociedade judaico-israelita, para uma nova expulsão em massa de palestinianos e para o que tal poderá acarretar: um massacre em massa. Os heróis das milícias de colonos declaram abertamente que a expulsão é o seu objectivo. Reconhecem claramente a disponibilidade de amplos segmentos da sociedade judaico-israelita para participar na sua concretização, activa ou passivamente, directa ou indirectamente.

Através das suas provocações e crimes diários, cometidos em plena luz do dia e possíveis apenas graças ao apoio institucional, os falangistas procuram constantemente provocar um acto de raiva e vingança palestiniano que «tenha sucesso», para que possa ser explorado como o estopim que desencadeia uma nova guerra santa. Os falangistas judeus e as organizações de direita que os alimentam contam com uma ampla mobilização, incluindo por parte dos líderes, eleitores e apoiantes do Yashar e do Partido Democrata Liberal, para uma guerra à qual já se poderia atribuir o lema: «Um povo, um exército, uma terra purificada de árabes.»

 

Fonte: https://www.haaretz.com/opinion/2026-09-01/ty-article/.premium/israel-isnt-debating-a-palestinian-state-its-preparing-for-expulsion/000001a0-56c1-dc19-a5a4-dfdfa0fd0000

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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