Aqui no Reino Unido: Não há Escapatória à Crise Capitalista
No momento em que este
artigo vai para impressão, o impacto da «guerra por opção» de Trump contra o
Irão já se faz sentir. As suas constantes fanfarronices de que atacar o Irão
«com extrema dureza» resolveria a questão «muito rapidamente» soam cada vez
mais vazias. Podem ajudar a acalmar «os mercados», mas são notícias
assustadoras para a população mundial (incluindo os operários iranianos que há
anos resistem ao regime islâmico). A falta de fertilizantes, em resultado do
bloqueio do Estreito de Ormuz, surge numa altura em que os agricultores
africanos, já confrontados com a seca provocada pelas alterações climáticas,
estão a plantar a colheita deste ano. Isto só irá agravar a fome generalizada.
E para os operários de todo o mundo, o aumento do preço de referência do
petróleo bruto Brent deu um abalo mundial ao custo de vida já em ascensão, uma
vez que os preços mais elevados dos combustíveis têm um impacto mais alargado e
duradouro nos preços em geral. Nos países mais ricos, após anos de austeridade
na sequência do resgate bancário de 2008, o aumento da inflação vai causar mais
sofrimento aos operários em todo o lado, incluindo no Reino Unido.
O Partido Trabalhista
venceu as eleições de 2024 em grande parte devido ao «descontentamento» com a
economia e a inflação, após 14 anos de governo conservador. Com a perspectiva
de uma nova subida dos preços, a previsão do Banco de Inglaterra de uma inflação
de 3,5% no terceiro trimestre do ano, já bem acima da sua meta de 2%, é agora
uma quimera. Este governo, tal como os seus antecessores, tem poucas cartas
para jogar. A dívida pública está no seu nível mais alto em tempo de paz, pelo
que o governo tem de oferecer taxas mais elevadas na emissão de obrigações para
atrair investidores. Mas estes não comprarão a menos que haja cortes na
despesa, especialmente na segurança social. O Partido Trabalhista enfrenta,
assim, uma derrota esmagadora nas eleições locais de Maio. Nada de novo nisso.
As eleições locais são tradicionalmente ocasiões para votos contra os partidos
no poder. O que é (relativamente) novo é que nenhuma das duas velhas forças da
dicotomia Trabalhista/Conservadora encontrou qualquer solução para uma crise
capitalista que já se arrasta há décadas. Assim, o caminho eleitoral está agora
aberto não apenas para um, mas para dois partidos «emergentes». O Reform UK de
Farage — que surgiu como Partido do Brexit em 2018 e que agora, financiado por
plutocratas como Christopher Harborne, conta com meia dúzia de deputados —
representa o «populismo de direita» no Parlamento. Enquanto isso, à esquerda, o
Partido Verde, liderado por Zack Polanski, já obteve avanços eleitorais ao
vencer a eleição suplementar de Gorton e Denton em 26 de Fevereiro com uma
plataforma “ecopopulista” que “coloca os operários contra os super-ricos e as
grandes empresas” (Financial Times, 3/4/26). Nesse processo, está também a
cortejar os apoiantes do relançamento da ala esquerda do Partido Trabalhista de
Jeremy Corbyn, marcado por disputas internas. Nenhuma destas opções oferece uma
solução real para o que é, de facto, uma crise mundial do sistema.
O capitalismo já
passou do prazo de validade
O capitalismo, com o seu
ciclo interminável de expansões e recessões, já teve o seu tempo. A vasta
riqueza material da economia mundial poderia facilmente passar para as mãos das
pessoas cuja força de trabalho a cria: a classe operária mundial. Não temos
interesse em demarcações de fronteiras; não precisamos de especulação cambial;
não precisamos de parlamentos onde representantes irresponsáveis possam ocupar
os seus lugares durante alguns anos sem receio de serem destituídos. Temos todo
o interesse em criar órgãos de democracia directa, desde os bairros locais até
ao topo. Em vez disso, porém, o capitalismo mundial, composto por Estados
«nacionais», está sujeito a crises intermitentes de rentabilidade, em que a
forma definitiva de anular dívidas e empreendimentos não rentáveis é... a
destruição da guerra. E a quem é que os patrões, os multimilionários e os
bilionários recrutam para lutar, morrer e fazer sacrifícios pessoais? … Não
serão os plutocratas deste mundo.
Por cada plutocrata, há
milhões de trabalhadores assalariados cada vez mais empobrecidos:
- Em 2025, os 468 mil milhões de
libras detidos pelas 50 pessoas mais ricas continuam a exceder os 466 mil
milhões de libras detidos pelos 50% mais pobres. (The Equality Trust)
- Entre os 38 países da OCDE, o
Reino Unido ocupa o 9.º lugar em termos de desigualdade de rendimentos. Os
20% mais ricos detêm 36% do rendimento do país e 63% da riqueza nacional,
enquanto os 20% mais pobres detêm apenas 8% do rendimento e 0,5% da
riqueza total. (Office for National Statistics.)
- Mais de 700 000 licenciados
estão desempregados e a receber subsídios (mais do que a população actual
do Luxemburgo). Entretanto, 800 000 pessoas licenciam-se todos os anos. O
governo afirma ter encomendado um estudo sobre «o que está a travar a
geração mais jovem»!
- Estima-se que 12,8% (891 000,
mais 11 000 do que no trimestre anterior) de todas as pessoas com idades
compreendidas entre os 16 e os 24 anos no Reino Unido não frequentavam o
ensino, não estavam empregadas nem em formação (NEETs) entre Outubro e Dezembro
de 2025.
Em 1978, o desemprego no Reino Unido atingiu o seu
nível mais elevado desde o fim da guerra, com 1,6 milhões de desempregados, o
que correspondia a uma taxa entre 5 % e 6 %. Desde então, a taxa de desemprego
tem-se mantido, na sua maioria, a estes níveis ou acima deles. A taxa de
desemprego «harmonizada» do Reino Unido para o 4.º trimestre de 2025 foi de
5,2%, acima da taxa da Alemanha (3,9%) e dos EUA (4,5%), mas abaixo da da
França (7,9%). O que significa que estamos todos em desvantagem quando se trata
de defender salários e empregos, enquanto jogarmos de acordo com as regras do
jogo capitalista. E já estamos assim há muito tempo.
Agora, muitos operários estão fartos de pagar por esta
crise contínua do sistema. Até mesmo profissionais como médicos e professores
universitários estão prontos para entrar em greve por causa dos salários, da
carga de trabalho, das oportunidades de emprego e da precariedade… revelando o
quanto estão, essencialmente, no mesmo barco que o resto de nós, trabalhadores
assalariados. A eles juntaram-se os funcionários de limpeza de hotéis e outros
funcionários, os trabalhadores ferroviários, os recolhedores de lixo e muitos
mais. O descontentamento dos operários não tem fim. Os sindicatos estão a
desempenhar o seu papel de «acalmar» a militância e de implementar períodos de
acalmia, mantendo os operários isolados uns dos outros, sindicato a sindicato,
sector a sector, e até local de trabalho a local de trabalho.
A Classe Operária Precisa da Sua Própria Bússola
Política
Na verdade, porém, é
pouco provável que a lista actual provoque um colapso do mercado bolsista ou
ameace a própria existência do capitalismo. Essa ameaça provém do mundo
implacável do próprio sistema capitalista, que há já tanto tempo se debate de
crise em crise que a guerra está a tornar-se a única opção.
A par da crise
estritamente económica do capitalismo, mas agravada por esta, está a crise
ambiental do capitalismo. Esta é mais ampla do que as alterações climáticas,
mas as tentativas fracas do capitalismo para combater os danos que causa ao
planeta, e que ameaçam a própria vida, estão a ser deitadas pela janela e
postas de lado pela preocupação mais imediata do capital: a guerra imperialista
e a competição cada vez mais acirrada pelos recursos vitais do planeta.
Apenas a classe operária
internacional tem o potencial para mudar isto, mas é necessária uma bússola
política: não para indicar em que partido votar; não para se alinhar com os
anti-fascistas; mas para mostrar o caminho para sair desta profunda crise
existencial do capitalismo… o caminho para uma comunidade mundial de produtores
livremente associados; a trabalhar em conjunto para salvar o que resta deste
planeta, para que os seres humanos em todo o mundo possam viver com dignidade e
harmonia. É para isso que estamos a trabalhar. Junte-se a nós neste esforço
antes que seja tarde demais.
O artigo acima é retirado da edição actual (n.º 75) do Aurora, boletim da
Organização dos Trabalhadores Comunistas.
Quarta-feira, 6 de Maio de 2026
Fonte: Here
in the UK: There's No Escaping the Capitalist Crisis | Leftcom
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice
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