quarta-feira, 6 de maio de 2026

Aqui no Reino Unido: Não há Escapatória à Crise Capitalista

 


Aqui no Reino Unido: Não há Escapatória à Crise Capitalista 

No momento em que este artigo vai para impressão, o impacto da «guerra por opção» de Trump contra o Irão já se faz sentir. As suas constantes fanfarronices de que atacar o Irão «com extrema dureza» resolveria a questão «muito rapidamente» soam cada vez mais vazias. Podem ajudar a acalmar «os mercados», mas são notícias assustadoras para a população mundial (incluindo os operários iranianos que há anos resistem ao regime islâmico). A falta de fertilizantes, em resultado do bloqueio do Estreito de Ormuz, surge numa altura em que os agricultores africanos, já confrontados com a seca provocada pelas alterações climáticas, estão a plantar a colheita deste ano. Isto só irá agravar a fome generalizada. E para os operários de todo o mundo, o aumento do preço de referência do petróleo bruto Brent deu um abalo mundial ao custo de vida já em ascensão, uma vez que os preços mais elevados dos combustíveis têm um impacto mais alargado e duradouro nos preços em geral. Nos países mais ricos, após anos de austeridade na sequência do resgate bancário de 2008, o aumento da inflação vai causar mais sofrimento aos operários em todo o lado, incluindo no Reino Unido.

O Partido Trabalhista venceu as eleições de 2024 em grande parte devido ao «descontentamento» com a economia e a inflação, após 14 anos de governo conservador. Com a perspectiva de uma nova subida dos preços, a previsão do Banco de Inglaterra de uma inflação de 3,5% no terceiro trimestre do ano, já bem acima da sua meta de 2%, é agora uma quimera. Este governo, tal como os seus antecessores, tem poucas cartas para jogar. A dívida pública está no seu nível mais alto em tempo de paz, pelo que o governo tem de oferecer taxas mais elevadas na emissão de obrigações para atrair investidores. Mas estes não comprarão a menos que haja cortes na despesa, especialmente na segurança social. O Partido Trabalhista enfrenta, assim, uma derrota esmagadora nas eleições locais de Maio. Nada de novo nisso. As eleições locais são tradicionalmente ocasiões para votos contra os partidos no poder. O que é (relativamente) novo é que nenhuma das duas velhas forças da dicotomia Trabalhista/Conservadora encontrou qualquer solução para uma crise capitalista que já se arrasta há décadas. Assim, o caminho eleitoral está agora aberto não apenas para um, mas para dois partidos «emergentes». O Reform UK de Farage — que surgiu como Partido do Brexit em 2018 e que agora, financiado por plutocratas como Christopher Harborne, conta com meia dúzia de deputados — representa o «populismo de direita» no Parlamento. Enquanto isso, à esquerda, o Partido Verde, liderado por Zack Polanski, já obteve avanços eleitorais ao vencer a eleição suplementar de Gorton e Denton em 26 de Fevereiro com uma plataforma “ecopopulista” que “coloca os operários contra os super-ricos e as grandes empresas” (Financial Times, 3/4/26). Nesse processo, está também a cortejar os apoiantes do relançamento da ala esquerda do Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn, marcado por disputas internas. Nenhuma destas opções oferece uma solução real para o que é, de facto, uma crise mundial do sistema.

O capitalismo já passou do prazo de validade

O capitalismo, com o seu ciclo interminável de expansões e recessões, já teve o seu tempo. A vasta riqueza material da economia mundial poderia facilmente passar para as mãos das pessoas cuja força de trabalho a cria: a classe operária mundial. Não temos interesse em demarcações de fronteiras; não precisamos de especulação cambial; não precisamos de parlamentos onde representantes irresponsáveis possam ocupar os seus lugares durante alguns anos sem receio de serem destituídos. Temos todo o interesse em criar órgãos de democracia directa, desde os bairros locais até ao topo. Em vez disso, porém, o capitalismo mundial, composto por Estados «nacionais», está sujeito a crises intermitentes de rentabilidade, em que a forma definitiva de anular dívidas e empreendimentos não rentáveis é... a destruição da guerra. E a quem é que os patrões, os multimilionários e os bilionários recrutam para lutar, morrer e fazer sacrifícios pessoais? … Não serão os plutocratas deste mundo.

Por cada plutocrata, há milhões de trabalhadores assalariados cada vez mais empobrecidos:

  • Em 2025, os 468 mil milhões de libras detidos pelas 50 pessoas mais ricas continuam a exceder os 466 mil milhões de libras detidos pelos 50% mais pobres. (The Equality Trust)
  • Entre os 38 países da OCDE, o Reino Unido ocupa o 9.º lugar em termos de desigualdade de rendimentos. Os 20% mais ricos detêm 36% do rendimento do país e 63% da riqueza nacional, enquanto os 20% mais pobres detêm apenas 8% do rendimento e 0,5% da riqueza total. (Office for National Statistics.)
  • Mais de 700 000 licenciados estão desempregados e a receber subsídios (mais do que a população actual do Luxemburgo). Entretanto, 800 000 pessoas licenciam-se todos os anos. O governo afirma ter encomendado um estudo sobre «o que está a travar a geração mais jovem»!
  • Estima-se que 12,8% (891 000, mais 11 000 do que no trimestre anterior) de todas as pessoas com idades compreendidas entre os 16 e os 24 anos no Reino Unido não frequentavam o ensino, não estavam empregadas nem em formação (NEETs) entre Outubro e Dezembro de 2025.

Em 1978, o desemprego no Reino Unido atingiu o seu nível mais elevado desde o fim da guerra, com 1,6 milhões de desempregados, o que correspondia a uma taxa entre 5 % e 6 %. Desde então, a taxa de desemprego tem-se mantido, na sua maioria, a estes níveis ou acima deles. A taxa de desemprego «harmonizada» do Reino Unido para o 4.º trimestre de 2025 foi de 5,2%, acima da taxa da Alemanha (3,9%) e dos EUA (4,5%), mas abaixo da da França (7,9%). O que significa que estamos todos em desvantagem quando se trata de defender salários e empregos, enquanto jogarmos de acordo com as regras do jogo capitalista. E já estamos assim há muito tempo.

 

Agora, muitos operários estão fartos de pagar por esta crise contínua do sistema. Até mesmo profissionais como médicos e professores universitários estão prontos para entrar em greve por causa dos salários, da carga de trabalho, das oportunidades de emprego e da precariedade… revelando o quanto estão, essencialmente, no mesmo barco que o resto de nós, trabalhadores assalariados. A eles juntaram-se os funcionários de limpeza de hotéis e outros funcionários, os trabalhadores ferroviários, os recolhedores de lixo e muitos mais. O descontentamento dos operários não tem fim. Os sindicatos estão a desempenhar o seu papel de «acalmar» a militância e de implementar períodos de acalmia, mantendo os operários isolados uns dos outros, sindicato a sindicato, sector a sector, e até local de trabalho a local de trabalho.

 

A Classe Operária Precisa da Sua Própria Bússola Política

Na verdade, porém, é pouco provável que a lista actual provoque um colapso do mercado bolsista ou ameace a própria existência do capitalismo. Essa ameaça provém do mundo implacável do próprio sistema capitalista, que há já tanto tempo se debate de crise em crise que a guerra está a tornar-se a única opção.

A par da crise estritamente económica do capitalismo, mas agravada por esta, está a crise ambiental do capitalismo. Esta é mais ampla do que as alterações climáticas, mas as tentativas fracas do capitalismo para combater os danos que causa ao planeta, e que ameaçam a própria vida, estão a ser deitadas pela janela e postas de lado pela preocupação mais imediata do capital: a guerra imperialista e a competição cada vez mais acirrada pelos recursos vitais do planeta.

Apenas a classe operária internacional tem o potencial para mudar isto, mas é necessária uma bússola política: não para indicar em que partido votar; não para se alinhar com os anti-fascistas; mas para mostrar o caminho para sair desta profunda crise existencial do capitalismo… o caminho para uma comunidade mundial de produtores livremente associados; a trabalhar em conjunto para salvar o que resta deste planeta, para que os seres humanos em todo o mundo possam viver com dignidade e harmonia. É para isso que estamos a trabalhar. Junte-se a nós neste esforço antes que seja tarde demais.

O artigo acima é retirado da edição actual (n.º 75) do Aurora, boletim da Organização dos Trabalhadores Comunistas.

Quarta-feira, 6 de Maio de 2026

 

Fonte: Here in the UK: There's No Escaping the Capitalist Crisis | Leftcom

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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