sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A FALÊNCIA HISTÓRICA DO ANARQUISMO


A FALÊNCIA HISTÓRICA DO ANARQUISMO

 

Já criticámos, em várias ocasiões, correntes políticas e ideologias que mantêm uma relação mais ou menos directa e/ou antinómica com a história e os interesses do movimento operário revolucionário. Mas ainda não nos tínhamos confrontado directamente com a principal delas, tanto na sua história, tradições e persistência, como nas suas hesitações, confusões e traições. Trata-se da corrente denominada «anti-autoritária», «libertária», ou seja: do anarquismo enquanto ideologia e prática social. Esta corrente de pensamento e de acção tem, desde sempre, mantido uma relação ao mesmo tempo profunda e ambígua com o projecto social e emancipatório do proletariado insurgente. Nas suas principais experiências históricas, bem como nas suas indispensáveis organizações políticas formais, houve quase sempre confrontos entre as tendências centralizadoras e «autoritárias» — resultantes das próprias necessidades da luta — e, por outro lado, as forças centrífugas e espontaneístas, mais ligadas às realidades locais e imediatas do que ao futuro das lutas.

É neste contexto de espera e de confusão que surge, de forma privilegiada, o democratismo¹ e o seu cortejo de assembleias heterogéneas e de discussões intermináveis, na maioria das vezes justificadas pela ideologia anti-autoritária como oposição formal à ditadura capitalista. As concretizações políticas destes primeiros passos organizacionais vão então organizar-se através das correntes libertárias, tendo o anarquismo como referência programática fundamental. Esta ideologia de recusa de toda a autoridade está, assim, presente não só na maioria dos movimentos sociais, mas também, em todo o mundo, como primeira expressão — muitas vezes imatura — da necessidade de autonomização e independência face às antigas estruturas de controlo capitalista.

Esta rejeição das regras e das restricções corresponde à necessidade de ar e de respiração que emana de todo o nascimento frustrado pela sua ausência, antes de ter de se regular e organizar para sobreviver. É neste sentido que o anarquismo, também ele, terá de se organizar e estruturar, mesmo sob um véu e um discurso anti-autoritário e «anti-organizacional». Esta é a contradição fundamental e recorrente entre os discursos libertários e a sua prática de colaboração política efectiva no seio do modo de produção capitalista. Quando anarquistas como Malatesta, Berneri ou Balius mantêm, na prática, uma posição firmemente revolucionária contra qualquer colaboração com as 2 estruturas burguesas; assim, apesar do que afirmam, deixam de ser anarquistas no sentido estrito, pois percebem — mesmo sem o ousarem dizer claramente — que a revolução social é inevitavelmente autoritária, uma vez que a classe explorada, ao recusar-se precisamente a ser explorada, impõe nela os seus próprios interesses. O exemplo evidente desta afirmação é o apelo, em 1937, a uma junta revolucionária por parte dos «Amigos de Durruti», liderados por Balius. É por isso que, quando colocados contra a parede do poder, os anarquistas mais coerentes na sua vontade revolucionária têm então de optar por exercer o poder, mesmo nas suas formas mais extremas e ditatoriais. É esta sua contradição insuperável que torna o qualificativo «anti-autoritário» completamente ridículo e inadequado aos próprios anarquistas.

Não há nada mais autoritário do que um libertário que afirma de forma peremptória: «Aqui não há líder», ou quando reivindica, tal como o anarquista Juan Garcia Oliver, antes de se tornar «ministro da Justiça»: «a ditadura da anarquia»². Além disso, a corrente libertária não é de forma alguma monolítica e conheceu — e conhece — numerosas variações teóricas e práticas: do anarquismo individualista e stirneriano ao anarco-sindicalismo, do anarco-comunismo «plataformista » (plataforma elaborada, entre outros, por P. Archinov³) ao «municipalismo libertário», passando pela «recuperação individual», pelo «anarquismo de direita» (anti-moderno e aristocrático), pelo «anarquismo de governo» (da Catalunha ao Rojava⁴) ou pelas comunidades agrárias auto-geridas⁵...

O anarquismo caracteriza-se historicamente pela sua recusa de qualquer autoridade e de qualquer poder — muito menos aquele que emana de um Estado, mesmo que «revolucionário» — para reivindicar a liberdade individual, a democracia «directa» e a auto-gestão, ou seja, a gestão da sociedade pelos membros que a constituem. Ora, a questão principal continua a ser a do fundamento da legitimidade dessa autoridade⁶: ou a revolução, ou a contra-revolução, ou seja: ou o ataque à lei do valor com vista à sua abolição, ou a gestão da mesma. De forma geral e introdutória, poderíamos definir a força e a constância do anarquismo, nas suas diversas e variadas formas, como inversamente proporcionais às corrupções e às deslealdades produzidas pela história da contra-revolução, particularmente do reformismo social-democrata e da perfídia contra-revolucionária do estalinismo e dos seus múltiplos 3 bastardos. O anarquismo gosta de se apresentar não como uma teoria do caos, mas sim como uma alternativa libertária que, tal como a definiu Élisée Reclus, seria: «a expressão mais elevada da ordem». Resta saber de que «ordem» se trata, na realidade: a imposta pelas necessidades da generalização da luta de classes rumo à abolição do trabalho assalariado ou a que visa a manutenção da escravidão assalariada, mesmo que «auto-gestionada».

Nas principais experiências históricas, tais como a «Comuna de Paris», a «Rússia revolucionária de 1905 e 1917», a Espanha de 1934 e de 1936-37, … onde os anarquistas constituíram uma força política importante, os seus confrontos com as exigências da luta e com a necessidade de assumir um poder revolucionário obrigaram-nos, ou a derrogar os seus princípios «anti-autoritários», ou a juntar-se, na sua maioria abertamente, ao campo da burguesia «anti-fascista» e da esquerda do capital. Esta dramática involução já se manifestou, evidentemente, na viragem patriótica de Agosto de 1914 e na participação activa da maioria das grandes figuras do anarquismo no primeiro massacre capitalista mundial. Esta traição e esta desonra diriger-se-ão, em primeiro lugar, aos signatários do «Manifesto dos Dezasseis»⁷, incluindo os seus redactores: Jean Grave e Pierre Kropotkin, que, para a ocasião, foi apelidado de «Príncipe anarquista das trincheiras».

É esta trajectória lamentável, que caracteriza a maior parte das formações libertárias⁸, que representa o primeiro fracasso do anarquismo. Desde a Primeira Internacional (a A.I.T., de 1864 a 1876), foram essencialmente as fraquezas, as reviravoltas e as traições da corrente «autoritária» reformista que permitiram, em reacção, a persistência da chamada corrente «anti-autoritária». A oposição entre Marx e Bakunin expressará estas divergências tanto «estratégicas» como «tácticas» e até mesmo «pessoais»⁹. Esta polémica cristalizou, apesar do objectivo comum de uma sociedade sem classes e sem Estado, duas posições unilaterais e caricaturais que perdurariam na história: uma, «autoritária», de um «comunismo estatal», e a outra de um «colectivismo federalista» próprio da visão libertária.

No que diz respeito a esta última organização social, James Guillaume, citando o seu amigo Bakunin, definia-a da seguinte forma: «Não sou comunista porque o comunismo concentra e faz com que todas as forças da sociedade sejam absorvidas pelo Estado, porque conduz necessariamente à centralização da propriedade nas mãos do Estado, enquanto eu pretendo a abolição do Estado, a extirpação radical desse princípio de autoridade e tutela do Estado, que, sob o pretexto de moralizar e civilizar os homens, os tem, até aos dias de hoje, asservido, oprimido, explorado e depravado. Eu 4 defendo a organização da sociedade e da propriedade colectiva ou social de baixo para cima, por meio da livre associação, e não de cima para baixo, por meio de qualquer autoridade que seja. Ao defender a abolição do Estado, defendo a abolição da propriedade individualmente hereditária, que não passa de uma instituição do Estado, uma consequência do próprio princípio do Estado. É neste sentido que sou colectivista e de modo algum comunista.» James Guillaume, L’Internationale, Documentos e memórias, Volume 1, (1864-1872), Éditions Grounauer, pp. 74-75. Genebra, 1980.

Esta citação corresponde bem à doxa anarquista à qual se oporá a «marxista» no que diz respeito à natureza do Estado na sociedade burguesa e à sua necessária supressão durante o «período de transição».

Como Engels frequentemente recorda, citado por Lenine: «Esquece-se constantemente que a supressão do Estado é também a supressão da democracia, que a extinção do Estado é a extinção da democracia.» V. Lenine, O Estado e a Revolução, p. 122, Éditions Sociales, Paris, 1972.

Por outro lado, não se deve confundir, como fazem os anarquistas e grande parte daqueles que se dizem marxistas, o Estado capitalista e o semi-Estado proletário da ditadura do proletariado. O primeiro deve ser destruído de imediato, de raiz; o segundo irá definhar ao longo do período de transição necessário do capitalismo para o comunismo, período que visa imediatamente a abolição do trabalho assalariado e a internacionalização da revolução, que eliminará as fronteiras na sua marcha em frente.

«Sendo uma classe e já não uma ordem, a burguesia é obrigada a organizar-se à escala nacional — já não local, mas nacional — e a conferir ao seu interesse comum uma forma geral. Na sequência da emancipação da propriedade privada em relação à comunidade, o Estado adquiriu uma existência própria, paralela e à margem da sociedade burguesa; na verdade, não é mais do que a forma de organização que os burgueses se conferem necessariamente, tanto para o exterior como para o interior, a fim de garantirem mutuamente a sua propriedade e os seus interesses.» K. Marx, A Ideologia Alemã, Obras III, p. 1109, Edições Gallimard, Paris, 1982.

«À medida que o progresso da indústria moderna desenvolvia, alargava e intensificava o antagonismo de classes entre o Capital e o Trabalho, o poder do Estado assumia cada vez mais o carácter de um poder público organizado com o objectivo de subjugar socialmente, de um aparelho de dominação de classes. Após cada revolução, que marca um avanço na luta de classes, o carácter puramente repressivo do poder do Estado revela-se de forma cada vez mais evidente.» K. Marx, A Guerra Civil em França (1871)10

A caracterização «libertária», tal como quase todas as outras, é, portanto, aproximativa e inadequada, pois baseia-se num aspecto «formal» e relativo que, na realidade, nunca constituiu uma linha de demarcação política e prática. Com efeito, toda a acção revolucionária é, por essência (por força das circunstâncias), autoritária, violenta e ditatorial, pois visa impor, na prática e pela força, uma outra relação que subverte e transforma radicalmente a hierarquia social e a sua base constitutiva: as relações sociais de produção.

Como indica Marx no que diz respeito ao processo de acumulação primitiva: «Alguns destes métodos assentam no uso da força bruta, mas todos, sem exceção, exploram o poder do Estado, a força concentrada e organizada da sociedade, a fim de precipitar violentamente a passagem da ordem económica feudal para a ordem económica capitalista e de abreviar as fases de transição. E, de facto, a violência é a parteira de toda a velha sociedade grávida de uma «nova sociedade. Ela própria é uma potencialidade económica» K. Marx, O Capital, Livro I, p. 548, Éditions Sociales, Paris, 1976.

Foi Friedrich Engels quem, em 1873, voltou a abordar esta questão no seu artigo «Sobre a autoridade», para salientar, na sequência da Comuna de Paris, que não há nada mais autoritário do que uma revolução.

«Uma revolução é, sem dúvida, a coisa mais autoritária que existe; é o acto pelo qual uma fracção da população impõe a sua vontade à outra por meio de espingardas, baionetas e canhões, meios autoritários por excelência; e o partido vitorioso, se não quiser ter lutado em vão, deve continuar a dominar com o terror que as suas armas inspiram aos reaccionários. Será que a Comuna de Paris teria conseguido manter-se um único dia se não tivesse recorrido à autoridade de um povo armado contra a burguesia? Não se deve, pelo contrário, criticá-la por ter feito uso insuficiente da sua autoridade? Portanto, uma de duas coisas: ou os anti-autoritários não sabem o que dizem e, nesse caso, limitam-se a semear a confusão, ou sabem e, nesse caso, traem a causa do proletariado. De qualquer forma, servem a reacção. » F. Engels, «Da Autoridade», em Marx-Engels, «O Partido de Classe», volume III, pp. 48-52, Maspero, Paris, 197311.

É, portanto, a sua natureza revolucionária e social, portadora de um outro projecto social, que confere ao proletariado rebelde a sua força, a sua autoridade e a sua legitimidade. Estes elementos, claramente expressos e desenvolvidos, são proclamados naquilo que constitui o «programa comunista». Este baseia-se necessariamente nos contributos teóricos fundamentais de Marx e Engels, numa crítica implacável a todos os falsos socialismos e aos chamados países «socialistas», bem como num balanço estratégico das principais tácticas cuja inadequação e fracasso o movimento operário experimentou tragicamente: parlamentarismo, eleitoralismo, sindicalismo, gradualismo, apoio às libertações nacionais, frentismo, …  

A tradição anti-autoritária: uma resposta errada a uma questão errada

A tradição «anti-autoritária» perdura, na verdade, graças a uma lacuna e a uma falsa polarização que obscurece ideologicamente a discussão sobre a estratégia revolucionária a implementar. A rejeição da política burguesa (hoje dir-se-ia «política mesquinha») transforma-se, entre os «anti-autoritários», na rejeição da política em geral, considerada, por natureza, corrupta e passível de corrupção. Trata-se, portanto, para eles, de um terreno a banir rigorosamente, para não se comprometerem nem serem comprometidos. As tentativas imediatistas de, apesar de tudo, inscrever-se nesta táctica contraditória, ilusória e perigosa conduziram a uma sucessão de catástrofes políticas nas quais muitos «revolucionários» se comprometeram e se desviaram do caminho.

Mesmo utilizar o terreno eleitoral para meros fins de propaganda acaba, em última análise, por validar as crenças pacíficas e legais na existência de uma alternativa «subliminar» à ditadura democrática e à sua sacrossanta «paz social». Ora, isso é precisamente ignorar o que constitui a essência da força da democracia: apresentar-se como um campo aberto e livre ao confronto ideológico entre as classes, quando, na realidade, não passa de terreno exclusivo do capital, que nele impõe, por definição, as suas regras e a sua essência capitalista. O cemitério do eleitoralismo está repleto de fantasmas que acreditaram poder sobreviver, por «consciência e vontade», ao tsunami da materialidade deste modo de produção com mais de um século, cuja força reside na sua capacidade histórica de se adaptar e corromper para perdurar.

«A própria natureza dos debates no parlamento e noutros órgãos democráticos exclui qualquer possibilidade de se passar à crítica da política dos partidos adversários, à propaganda contra o próprio princípio do parlamentarismo, a uma acção que ultrapasse os limites do regimento parlamentar. (…) Todos os esforços dos partidos comunistas para conferir um carácter totalmente diferente à prática do parlamentarismo não poderão deixar de conduzir ao fracasso as energias despendidas neste trabalho de Sísifo. A causa da revolução comunista exige imperiosamente que essas energias sejam, pelo contrário, despendidas no terreno do ataque directo ao regime da exploração capitalista. » A. Bordiga, «Teses sobre o parlamentarismo», II.º Congresso da I.C., Moscovo, 1920, em: Compêndio de anti-electoralismo elementar, 120 motivos para não ir votar, selecção de textos apresentada por Raoul Vilette, p. 76-77, Les nuits rouges, Paris, 2007.

«Os sindicatos estão a gozar contigo»

O mesmo se aplica à «questão sindical», em que, depois de termos constatado o carácter limitado da luta sindical e a sua integração cada vez mais forte e evidente nos aparelhos do Estado burguês, o anarquismo propõe-nos, não uma crítica ao sindicalismo e ao seu carácter historicamente contra-revolucionário13, mas sim uma versão «renovada» de um sindicalismo «revolucionário»: «o anarco-sindicalismo».

Perante este reformismo libertário, alguns anarquistas minoritários mantiveram, no entanto, uma posição anti-sindical de classe: «O sindicalismo, apesar de todas as declarações dos seus mais fervorosos defensores, contém em si mesmo, pela própria natureza das suas funções, todos os elementos de degeneração que corromperam os movimentos operários no passado. Com efeito, sendo um movimento que se propõe a defender os interesses actuais dos operários, tem necessariamente de se adaptar às condições existentes e ter em consideração os interesses que se colocam em primeiro plano na sociedade tal como ela existe hoje.» Errico Malatesta, Anarquismo e sindicalismo, 1907, em Artigos políticos, p. 156, 10/18, Paris, 1979.

No entanto, o anarco-sindicalismo acabaria por enraizar-se e definir-se da seguinte forma: «Pode considerar-se o anarco-sindicalismo como a expressão mais madura de todo o movimento anarquista. (…) A teoria anarco-sindicalista do choque frontal baseia-se numa concepção das contradições irredutíveis que minam o regime capitalista, na confiança optimista nas capacidades ilimitadas das massas e na convicção de que o derrube da ordem existente, bem como dos privilégios políticos e económicos, devolverá o homem à sua condição natural, pressuposto da harmonia social a criar, onde cada um dará segundo as suas forças e receberá segundo as suas necessidades». Domenico Tarizzo, *A Anarquia, História dos movimentos libertários no mundo*, p. 81-82, Seghers, 1978.

Mais concretamente: «O sindicalismo revolucionário situa-se no terreno da ação directa e apoia todas as lutas que não estejam em contradição com os seus objectivos: a abolição do monopólio económico e do domínio do Estado. Os meios de luta são a greve, o boicote, a sabotagem, etc. A acção directa encontra a sua expressão mais profunda na greve geral, que deve ser, simultaneamente, para os sindicalistas revolucionários, o prelúdio da revolução social.» L. Mercier-Vega & V. Griffuelhes, Anarco-sindicalismo e sindicalismo revolucionário, Spartacus, p. 41, Paris, 1978.

Na verdade, trata-se da substituição do papel e da função do partido pelo sindicato, considerado menos corrupto e menos passível de corrupção porque, paradoxalmente, é determinado exclusivamente pela esfera económica (!?). Perante a integração dos «partidos operários», o sindicato e a sua vertente «de base» parecem, para alguns, menos susceptíveis à corrupção burguesa, quando, na realidade, era o mais bem posicionado para negociar, na prática, a integração quotidiana da classe operária no capital. A política seria banida, quando, desde a sua origem, as diversas tendências do movimento operário se infiltraram nela. Trata-se da táctica clássica do entrismo, que se revelou ineficaz, e assim tem sido desde sempre¹⁴.

O anarco-sindicalismo é definido como «uma corrente do sindicalismo que se baseia nos princípios de funcionamento do anarquismo, ou seja, a auto-gestão, o anti-autoritarismo, o federalismo livre, a democracia directa, com representantes eleitos por mandatos temporários e passíveis de destituição...».15

Mas, mais uma vez, trata-se de uma divergência organizacional que opõe a forma política de organização do proletariado enquanto classe à forma «económica», quando a realidade da classe se define como uma totalidade consubstancial. O anarco-sindicalismo prolonga esta separação entre o «económico» e o «político», propondo a greve geral expropriatória e «gestacionista» em vez da destruição do Estado através da tomada revolucionária do poder.

Trata-se de uma acção limitada exclusivamente ao domínio económico que, caso transborde para a esfera política, deve então ser assumida e orientada por outros especialistas: os partidos e os políticos representativos dedicados a esse efeito¹⁶. O sindicato anarquista estrutura-se de forma federativa, concedendo, segundo as suas próprias palavras, uma maior autonomia aos seus órgãos e secções de base. Estas estão, na maioria das vezes, organizadas por profissões, o que perpetua convenientemente o seu corporativismo congénito e não constitui, de forma alguma, um obstáculo ao processo de burocratização existente em todos os sindicatos, tanto anarquistas como «reformistas».

«A burocracia sindical transformava em correctores da força de trabalho — para ser vendida como mercadoria ao seu justo preço — precisamente aqueles que eram recrutados a partir das lutas dos operários industriais e extraídos dessas lutas.» Guy Debord, A sociedade do espetáculo, p. 96, edições Champ Libre,

Paris, 1972.

 

As secções sindicais, incluindo a que tem origem no anarco-sindicalismo, estão totalmente  integradas no aparelho produtivo e no sistema salarial. Constituem um elo orgânico indispensável do mesmo. Em França, foi em 1968, aquando da derrota concretizada pelos acordos de Grenelle que puseram fim à greve geral, que a secção sindical de empresa (SSE) veio a ser legalizada. Esta oficialização concretiza claramente a necessária reincorporação das tentativas de organização independente das lutas no seio do jugo sindical e o controlo que este está estritamente encarregado de aplicar.

A «SSE» pode ser criada «em qualquer empresa por sindicatos que tenham, pelo menos, dois trabalhadores filiados na empresa ou no estabelecimento (acórdão da Câmara Social de 8 de Julho de 2009)».

O seu papel consiste em supervisionar, com base nos «valores republicanos», o bom funcionamento da empresa em todos os seus diferentes aspectos, tanto individuais como colectivos (sanitários, de segurança, legislativos, formativos, contabilísticos, etc.). Os sindicatos são, portanto, uma estrutura indispensável à lógica industrial e os melhores aliados da patronal no seio da empresa, a fim de a apoiar na produção, cada vez melhor e com mais lucros. A sua «oposição» é contratual e visa obter o compromisso negociado mais eficaz, sem confrontos que possam degenerar. São os melhores agentes da paz social, mesmo em caso de conflitos. Esta função pode também ser assumida por estruturas ainda não institucionalizadas, resultantes de tentativas de auto-organização das lutas, tais como comités que, conquistados pela ideologia sindicalista, podem chegar a praticar «sindicalismo sem sindicatos».

É evidentemente o caso do anarco-sindicalismo que, na prática, não se diferencia de forma alguma das outras estruturas sindicais (frente comum), excepto talvez por um discurso mais «radical» e «autónomo». Foi essa trajectória que levou, na Polónia, em 1980-1981, a transformação/recuperação dos movimentos de greve e dos «comités operários inter-empresariais», primeiro através da reivindicação do direito de criar «sindicatos livres», depois pela oficialização da «Solidarnosc» e, por fim, por intermédio de Walesa, a sua ascensão à chefia do Estado. Este exemplo ensina-nos como um sindicato patriótico, com a ajuda da Igreja Católica, se tornou a última tábua de salvação para salvar o capitalismo em crise e evitar uma situação que poderia ter degenerado numa insurreição operária contra a decadência dos antigos regimes estalinistas.

Pode ser considerado como a alegoria geral dos sindicatos (incluindo os anarquistas¹⁷) que, de cima a baixo na estrutura social, estão incorporados na lógica capitalista ao ponto de se fundirem, graças às estruturas de conciliação, de diálogo social e de cogestão, com o próprio Estado burguês. Esta integração tornou-se uma característica distintiva da modernidade estatal, uma vez que os sindicatos, por exemplo na Bélgica, continuam a carecer de personalidade jurídica (são meras associações de facto) e, por isso, nunca podem, enquanto tais, ser alvo de ações judiciais nem condenados pelas suas ações. São sempre os indivíduos — os militantes sindicais ou outros — que são considerados responsáveis e têm de responder individualmente pelas suas ações. Os sindicatos são, portanto, juridicamente irresponsáveis, embora participem, com representatividade legal, em todos os mecanismos da concertação social e desempenhem um papel importante na gestão dos desempregados e dos seus subsídios. Por fim, constituem também uma importante estrutura de promoção social e de meritocracia, que permite aos seus militantes mais ativos abandonar o âmbito empresarial para ingressarem noutra profissão, o que para eles corresponde a uma clara ascensão social.

«Para os antigos trabalhadores, tornar-se dirigente sindical implica uma melhoria da sua situação material. E, embora não seja nada fácil, esta nova atividade profissional proporciona-lhes «uma posição de influência, uma autonomia bastante ampla, um sentimento de utilidade e de importância (bem como) um estatuto na comunidade que poucos sindicalistas podem esperar da sua profissão habitual» Jean Faniel18.

Fica assim claro que ninguém pode fazer carreira num sindicato, tal como em qualquer partido político que tenha como objectivo dirigir/gerir a economia capitalista baseada na exploração daqueles que supostamente deveriam defender. É, evidentemente, por esta via que muitos militantes de esquerda e anarquistas acabam por chegar à liderança das estruturas que, inicialmente, pretendiam transformar ou mesmo destruir. Após múltiplas vicissitudes e lutas faccionistas, são finalmente eles que constituem, na maioria dos sindicatos, a espinha dorsal estrutural, tornando-se os funcionários permanentes que anteriormente tanto tinham criticado. O entrismo sindical é, de facto, a melhor escola de formação de burocratas e de novos quadros para a esquerda capitalista.

Os anarquistas não escapam de forma alguma a este sinistro retrocesso que os remete, apesar dos seus discursos, aos piores vícios do antigo reformismo, que, há muito tempo, já não aspira senão à boa gestão dos assuntos capitalistas através da exploração dos seus escravos assalariados. Assim, em todas as suas práticas sociais, tanto actuais como nas do seu «ilustre» passado, não passam de uma tendência liberal do esquerdismo, que, para todos os que pensam no imediato, à primeira vista parece mais «simpática» do que os velhos reformistas, mas que é, por isso mesmo, ainda mais eficaz na sua oposição permanente à independência de classe do proletariado. Constituem, assim, uma das últimas âncoras ideológicas do capital e da sua reforma; «Anarquistas, mais um esforço para serem revolucionários»!

Novembro de 2025 : Fj, Eu, Ms & Mm.

 

Bibliografia

Obras :

-F. Danel, Rupture dans la théorie de la révolution, textes de 1965-1975, Senonevero, Paris, 2003.

-G. Debord, La société du spectacle, éditions Champ Libre, Paris, 1972.

-D. Guérin, Ni Dieu, ni Maître, Anthologie de l’anarchisme, La Découverte/Poche, Paris, 1999.

-J. Guillaume, L’Internationale, Documents et souvenirs, Volume 1, (1864-1872), Éditions Grounauer, Genève, 1980.

-V. Lénine, L’État et la révolution, éditions sociales, Paris, 1972.

-V. Lénine, La maladie infantile du communisme, le « gauchisme », éditions de Moscou, 1969.

-J. Maitron, Le mouvement anarchiste en France, 2 tomes, Maspero/ Fondations, Paris, 1982.

-E. Malatesta, Articles politiques, 10/18, Paris, 1979.

-K. Marx-F. Engels, Le parti de classe, tome III, De L’Autorité, Maspero, Paris, 1973.

-K. Marx / M. Bakounine, Socialisme autoritaire ou libertaire, 2 tomes, UGE, Paris, 1975.

-K. Marx, L’Idéologie Allemande, OEuvres III, Éditions Gallimard, Paris, 1982.

-K. Marx, La guerre civile en France, 1871, Éditions Sociales, Paris, 1972.

-L. Mercier-Vega & V. Griffuelhes, Anarcho-syndicalisme et syndicalisme révolutionnaire, Spartacus, Paris, 1978.

-J. Garcia Oliver, L’écho des pas, éditions Le Coquelicot, Toulouse, 2014.

-B. Péret et G. Munis : « Les syndicats contre la révolution, Eric Losfeld, Le terrain vague, Paris, 1968.

-A. Renaut, La fin de l’autorité, Champ/Flammarion, Paris, 2004.

-D. Tarizzo, L’Anarchie, Histoire des mouvements libertaires dans le monde, Seghers, 1978.

-R. Vilette, Précis d’anti-électoralisme élémentaire, Les nuits rouges, Paris, 2007.

 

Artigos e revistas :

-J. Faniel, Syndicats : des acteurs structurellement sous tensions, in Politique 104, 2018 : https://www.revue politique.be/syndicats-des-acteurs-structurellement-sous-tensions/

 

Sites web :

-Le Maitron, dictionnaire biographique, Archinov Piotr : https://maitron.fr/archinov-piotr-piotr-marine-dit-dictionnaire-des-anarchistes/

-Marxists.org : https://www.marxists.org/francais/marx/index.htm

-Matériaux Critiques : https://materiauxcritiques.wixsite.com/monsite/revue

-Organisation communiste libertaire - OCL : https://oclibertaire.lautre.net/spip.php?article4316

llustration musicale: Sex Pistols, Anarchy in the U.K., https://youtu.be/8qChlOevQSs?si=zhtoazf9GAqDkKb

 

Notas:

1 Para mais informações sobre a crítica à democracia e ao democratismo, consulte o nosso texto: «Contribuição para a crítica à democracia» na nossa revista Matériaux Critiques n.º 3, bem como no nosso site:https://materiauxcritiques. wixsite.com/monsite/revue

2 A trajectória pessoal de García Oliver é emblemática da da grande maioria dos líderes anarquistas de Espanha, do terrorismo ao ministerialismo! Foi em Outubro de 1922, juntamente com Buenaventura Durruti, Francisco Ascaso e Ricardo Sanz, que fundou o grupo «Los Solidarios», um grupo de acção directa que se opunha, com as armas na mão, aos assassinos do sindicato livre e aos seus mandantes. Este grupo reivindicou vários assassinatos, incluindo o do cardeal Juan Soldevilla y Romero e uma tentativa de atentado contra o rei Afonso XIII. Durante os acontecimentos de Maio de 1937, último surto revolucionário, Garcia Oliver interveio para desarmar os insurgentes e impor o regresso ao trabalho. Assim, para muitos, foi considerado como tendo traído a causa proletária. Sobre este episódio e muitos outros: ver a correspondência entre Diego Camacho («Abel Paz») e Juan Garcia Oliver apresentada por Agustín Guillamón, na revista «Balance» n.º 38, e em francês, nas Edições Ni patrie, ni frontières, p. 55. Para obter estas revistas: escreva para Yves Coleman, 10, rue Jean-Dolent, 75014, Paris, França. Juan Garcia Oliver escreveu também uma autobiografia: «L’écho des pas», Edições Le Coquelicot, Toulouse, 2014.

3 Biografia no site :: https://maitron.fr/archinov-piotr-piotr-marine-dit-dictionnaire-des-anarchistes/

4 Foi nesta zona curda da Síria que surgiu, em 2013, o novo Estado «PKK», baseado num «confederalismo democrático» e que se inspira ideologicamente no municipalismo libertário de Murray Bookchin.

5 No que diz respeito às referências, remetemos, em primeiro lugar, qualquer pesquisa mais aprofundada para a Antologia do Anarquismo, de Daniel Guérin: «Nem Deus, nem Mestre», La Découverte/Poche, Ensaios, 2 volumes, Paris, 1999. Além disso, já publicámos um texto de crítica à auto-gestão: «Crítica ao mito da auto-gestão» na nossa revista *Matériaux Critiques* n.º 7, bem como no nosso site: https://materiauxcritiques.wixsite.com/monsite/revue

6 Na sociologia política, e segundo Alain Renaut, na sua obra: «O fim da autoridade», Champ/Flammarion, Paris, 2004; existe autoridade «quando um poder goza de um capital de confiança e quando os indivíduos sobre os quais esse poder se exerce mantêm a sua confiança nele ».

7 O «Manifesto dos Dezasseis» foi redigido em 1916 por Pierre Kropotkin e Jean Grave e posteriormente assinado por 16 figuras do movimento libertário que, aderindo ao nacionalismo, tomaram partido pelo bando dos Aliados e contra a «agressão alemã» durante a Primeira Guerra Mundial. Este texto foi publicado pela primeira vez no jornal sindicalista «La Bataille» e pretende ser uma resposta ao «Manifesto dos Trinta e Cinco», que, pelo contrário, defendia a linha proletária: anti-militarista e internacionalista. Este manifesto contra a guerra, de Fevereiro de 1915, intitulado «A Internacional Anarquista e a Guerra», tinha sido concebido e redigido por E. Malatesta e contava, entre outras assinaturas, com as de Emma Goldman, Alexandre Berkman, F. Domela Nieuwenhuis e Luigi Bertoni…

8 Gostaríamos, no entanto, de salientar a existência recorrente de cisões provenientes de grupos libertários que, após terem levado a cabo rupturas programáticas e um trabalho de reapropriação teórica, os conduziram à perspectiva de uma prática verdadeiramente revolucionária. É o que aconteceu, historicamente, com um grupo como os «Amigos de Durutti » (Jaime Balius, Rumo a uma nova revolução, Agrupamento dos Amigos de Durruti, Le Coquelicot, Toulouse, 2019) ou ainda dos poucos grupos que, no período pós-1968, se juntaram aos círculos da «ultra-esquerda» e a certas conquistas políticas das «esquerdas comunistas». Ver: Ruptura na teoria da revolução — textos de 1965-1975, apresentados por François Danel, Senonevero, Paris, 2003.

9 Sobre este debate, ver a colectânea de textos: Marx/Bakunin, Socialismo autoritário ou libertário, 2 volumes, UGE, 10/18, Paris, 1975.

10  No site : https://www.marxists.org/francais/ait/1871/05/km18710530c.htm

11 Este texto de princípios pode ser consultado no site: https://www.marxists.org/francais/marx/works/00/parti/kmpc075.htm

12 Canção do grupo rock « Trust » : « Bosser huit heures », no album « Préfabriqués » de 1979.

13 Ver, a este respeito, a obra de Benjamin Péret e G. Munis: «Os sindicatos contra a revolução», Eric Losfeld, Le terrain vague, Paris, 1968, e o nosso texto: «Algumas considerações sobre a questão sindical» na nossa revista Matériaux Critiques n.º 4, bem como no nosso site: https://materiauxcritiques.wixsite.com/monsite/revue

14 Gerações de activistas tentaram, assim, infiltrar-se, abertamente ou secretamente, nas estruturas sindicais para as influenciar ou mesmo assumir a sua direcção, na qualidade de «correia de transmissão» de um partido político (tipicamente a C.G.T. em França, inicialmente sob influência anarquista (F. Pelloutier, E. Pouget, B. Broutchoux…), e depois, desde os anos 20 até aos dias de hoje, globalmente submetida ao estalinismo e às suas vicissitudes. É claro que devemos mencionar também a C.N.T. espanhola, que manteve a ideologia libertária como corrente maioritária até à catástrofe da sua participação no governo e ao seu colapso no pós-guerra. Citemos ainda a F.O.R.A. na Argentina ou a U.S.I. em Itália. Por outro lado, não incluímos aqui a I.W.W., que foi objecto de um estudo específico da nossa parte: «A submissão do processo de trabalho ao processo de valorização através do exemplo do movimento operário americano (1887-1920)», publicado na nossa revista *Matériaux Critiques* n.º 12, bem como no nosso site: https://materiauxcritiques.wixsite.com/monsite/revue

15 No site da web : https://www.toupie.org/Dictionnaire/Anarcho-syndicalisme.htm

16 É interessante notar que um «novo movimento», como o dos «Coletes Amarelos», que surge espontaneamente, sem regras e contra todas as «velhas elites», também tem de se estruturar rapidamente de forma adequada, com «porta-vozes representativos», designados ou auto-proclamados, para poder integrar, de uma forma ou de outra (violentamente e graças às redes sociais), o campo do espectáculo político legítimo.

Como dirá Lenine: «O anarquismo foi muitas vezes uma espécie de castigo pelas desvios oportunistas do movimento operário. Estas duas aberrações complementavam-se mutuamente.» V. Lenine, A doença infantil do comunismo, o «esquerdismo», p. 18, Edições de Moscovo, 1969.

17 Um grupo como, por exemplo, a Organização Comunista Libertária afirma, tal como toda a corrente «esquerdista» clássica, que: «As direcções sindicais não vão mudar; é fora delas que devemos depositar a esperança de verdadeiros movimentos emancipadores. Por outro lado, não somos anti-sindicalistas e distinguimos os militantes de base das suas direcções. As empresas onde não existe qualquer representação sindical são frequentemente as piores, prova de que os sindicatos de base continuam a ser, apesar de todas as suas limitações, «um dos raros espaços que permite a organização das classes populares». No seu site: https://oclibertaire.lautre.net/spip.php?article4316

18  Jean Faniel, Sindicatos: actores estruturalmente sob pressão: https://www.revuepolitique.be/syndicats-des-acteurs-structurellement-sous-tensions/

 

Fonte: https://81b6bb22-93ff-445e-9132-db9118c0c19f.filesusr.com/ugd/ca292a_09d9296a838441569a62ee398ac64d83.pdf

Este documento foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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