sábado, 3 de outubro de 2026

A Maldição de Camp David

 


A Maldição de Camp David

A 19 de Maio de 2011, o Presidente Barack Obama defendeu as linhas gerais de um acordo para o conflito israelo-palestiniano com base em...

Por: René Naba - em: Israel Palestine Politics - em 5 de Junho de 2011


A 19 de maio de 2011, o Presidente Barack Obama defendeu as linhas gerais de um acordo para o conflito israelo-palestiniano com base na criação de um Estado palestiniano e no regresso às fronteiras de 1967.

A oferta de paz dos EUA, no entanto, vem acompanhada de condições restrictivas draconianas: o Estado palestiniano terá de ser desmilitarizado como resultado das negociações entre os dois lados e não pode ser formado com base numa declaração unilateral de independência do lado palestiniano.
renenaba.com regressa no momento ao tratado de paz egípcio-israelita, por ocasião da comemoração do 44.º aniversário da guerra de Junho de 1967

Este artigo está associado a uma crónica na Oumma.TV: «O povo árabe não é um povo de segunda», cuja transmissão está prevista para o mesmo dia

Atrevamo-nos a afirmar: Camp David foi um enorme engano e o tratado de paz egípcio-israelita, uma maldição para o Egipto, o mundo árabe e provavelmente para a paz regional.

Maquiavélico na sua concepção, este tratado foi mau nos seus efeitos, mau nas suas consequências, tanto para o Egipto, como para o seu signatário egípcio e para o seu sucessor que o endossou.

Anwar Sadat, o negociador do tratado de paz israelita-egípcio de Washington de 25 de Março de 1979, foi assassinado dois anos depois, a 6 de Outubro de 1961. O seu sucessor, Hosni Mubarak, acabou, por sua vez, queimado ao fim de trinta e dois anos de um reinado calamitoso para si próprio e desonroso para a dignidade do seu país, que submeteu durante todo esse tempo à lógica da vassalagem israelo-americana. O efeito estilístico não é apropriado para um tema de grande gravidade. A declaração pode parecer sacrílega, mas a observação não deixa de ser óbvia após trinta e dois anos de paz egípcio-israelita.

O efeito de estilo não tem lugar num assunto de grande gravidade. A afirmação pode parecer sacrilégio, mas a constatação impõe-se não obstante após trinta e dois anos de paz egípcio-israelita.

Ignorando as regras elementares da polémica, o tratado quebrou a unidade da frente dos «países do campo de batalha» (Egipto, Síria, Jordânia, Palestina-OLP, Líbano), materializada na guerra de 1948, assim como na expedição de Suez em 1956 e na guerra de Outubro em 1973, e respondeu plenamente ao objectivo subjacente da diplomacia israelo-americana.

 

Ao marginalizar o Egipto, libertou o flanco Sul de Israel e levou a guerra para o Norte, prolongando-a contra o Líbano e a Palestina, além de aliviar o orçamento militar israelita para o dedicar à tecnologia de ponta.

Na sua corrida desenfreada pela paz, Sadate recusou-se a ver a corda do laço da armadilha que a diplomacia ocidental tinha armado em torno do pescoço do Egipto, iludido pela ideia de que estava a moldar a história, deslumbrado pelos holofotes da fama, numa busca solitária pela glória em partilha com um dos líderes da direita mais radical israelita, o organizador da invasão do Líbano em 1982, Menahem Begin.

Assinado sem respeito pelo parceiro leal da Síria, o tratado de 1979 foi seguido pela assinatura de um tratado semelhante pela Jordânia, dois arranjos que deixariam a Síria tragicamente isolada de Israel. Damasco quebrou o seu isolamento por uma aliança atrasada com o Irão e pelo desejo de manter as cartas libanesas e palestinianas sob o seu controlo, num contexto de manobras regionais de distracção que levaram à guerra inter-faccional libanesa de 1975-1990. Em suma, "tratados de paz" que desencadearam uma loucura assassina de quinze anos.

Ao executar um salto mortal, Sadate expulsa, em Julho de 1972, quinze mil conselheiros soviéticos (os guardiões do seu arsenal), para se lançar de cabeça nos braços dos americanos, entregando-se a eles de mãos e pés atados, sem qualquer contra-prestação. Um ano depois, em Outubro de 1973, enquanto os americanos organizavam uma ponte aérea para abastecer o seu aliado israelita, Sadate só deve a sua salvação à intervenção expressa do argelino Houri Boumediene, que desbloqueia mil milhões de dólares para o fornecimento de material soviético na frente egípcia do Sinai.

Uma abordagem colectiva árabe teria impedido Israel de jogar com as contradições árabes. Este jogo realizava-se alternando ofertas de negociação ora à Síria, ora aos palestinianos, numa estratégia dilatória destinada a consolidar o povoamento do planalto do Golan e da Cisjordânia, assim como a judaização da cidade sagrada de Jerusalém. Mas o Egipto não se importa nada com isso.

O tratado de paz, uma noção enganadora

A Paz (pax em latim) geralmente refere-se a um estado de calma ou tranquilidade, como a ausência de perturbação, agitação ou conflito. Por vezes, é considerada um ideal. Sinónimo de calma e concórdia, remete para uma forma de tranquilidade interior que reina nos Estados, nas famílias, nas sociedades e sugere uma reconciliação, uma tranquilidade da alma, do coração, uma situação tranquila de um Estado, de um povo, de um reino, de uma família.

Se nos atermos a esta definição, a palavra é enganosa quando aplicada à Paz entre o Egipto e Israel. De facto, aqui equivale mais à submissão, pois é verdade que a paz de Camp David não significou o fim das hostilidades, mas sim o seu deslocamento para outras zonas, particularmente o Líbano, o Iraque, a Síria, a Tunísia, o Sudão e a Palestina, com a aprovação mais ou menos tácita, por vezes a resignação do maior Estado árabe.

Celebrado em todo o campo ocidental como anunciador de uma nova era de paz e prosperidade na zona intermédia entre a Ásia e a Europa, o tratado seria vivido ao nível da opinião árabe e muçulmana como uma sucessão de rejeições e humilhações para o orgulho nacional do Egipto. No plano estratégico, as provocações flagrantes de Israel foram percebidas como um enfraquecimento da segurança do espaço nacional árabe. 

Para se ter uma ideia: o tratado de Washington de 21 de Março de 1979 foi seguido da anexação de Jerusalém como «capital eterna e indivisível do Estado hebraico» a 30 de Julho de 1980; da destruição da central nuclear iraquiana de Tammouz a 7 de Junho de 1981; depois da anexação do planalto sírio do Golan a 14 de Dezembro de 1981; antes de culminar com a invasão israelita do Líbano a 5 de Junho de 1982, o cerco de Beirute e a destruição das infraestruturas da OLP no Líbano.

Observa-se uma pausa por ocasião do processo de reintegração do Egipto no seio do campo árabe em 1984, favorecida pela guerra Irão-Iraque, antes de recomeçar com intensidade através de uma sucessão contínua de operações de assédio contra aqueles que eram justamente os «irmãos de armas» dos egípcios: ataque à sede de Yasser Arafat, em Tunes, a 8 de Outubro de 1985; depois o assassinato do seu braço-direito, Abou Jihad (também conhecido como Khalil Al Wazir); o responsável militar da central palestiniana, ainda em Tunes a 15 de Abril de 1988; e o responsável do serviço de informações palestiniano, Abou Iyad (também conhecido como Salah Khalaf), novamente em Tunes a 14 de Janeiro de 1991; finalmente, os dois líderes do Hamas, Cheikh Ahmad Yassine e Abdel Aziz Al-Rantissi, em assassinatos extra-judiciais, esvaziando a liderança palestiniana dos seus dirigentes mais experientes e representativos, abrindo caminho à promoção de uma personalidade sem destaque, o burocrata Mahmoud Abbas.

Tal como uma longa ladainha, tal como um longo lamento da impotência árabe, os golpes de punho israelitas suceder-se-ão a um ritmo sustentado, sob o pretexto de «guerra contra o terrorismo»: segunda guerra do Líbano em 2006, guerra contra o enclave palestiniano de Gaza em 2008, ataque de destruição de uma central nuclear no norte da Síria a 6 de Setembro de 2007, ataque aéreo ao Sudão em Janeiro de 2009, construcção do Muro do apartheid, judaização crescente de Jerusalém. À sombra da paz egípcia, a máquina de guerra israelita não conheceu nem trégua nem descanso, mas avançou na colonização gradual de toda a Palestina. À sombra do tratado de paz, a Palestina, nos seus dois segmentos, a Cisjordânia e Gaza, torna-se ao longo dos anos, a maior prisão do mundo, o maior campo de concentração a céu aberto, com um muro de separação em betão armado, que cerca e aprisiona perto de três milhões de pessoas, dezenas de cidades e vilarejos. Um muro três vezes mais longo do que o muro de Berlim e duas vezes mais alto, com uma altura de oito metros e um comprimento de setecentos e cinquenta quilómetros.

Até mesmo Israel é afectado nos seus fundamentos a ponto de viver uma situação «esquizotípica»: um Estado de direito, certamente, mas exclusivamente em relação aos seus cidadãos de religião judaica, um Estado de apartheid em relação à componente palestiniana da sua população, uma zona de não-direito e de privilégios nas suas colónias e na cena regional, a ponto de muitos observadores (não apenas árabes, não apenas muçulmanos) tenderem a considerá-lo como o Estado fora da lei Nº1 na cena internacional. Estas diatribes racistas anti-árabes são tão representativas que transformaram o bestiário israelita numa marca de fábrica da linguagem governamental israelita. O refúgio dos judeus, dos sobreviventes dos campos de morte e dos perseguidos, o país do Kibutz socialista e da fertilização do deserto, dos pensadores livres e dos anti-conformistas, tornou-se também, ao longo dos anos, um bastião da religiosidade rigorista, dos iluminados e dos falsos profetas, de Meir Kalhana (Liga da Defesa Judaica) a Baruch Goldstein (o autor do massacre de Hebron, a 25 de Fevereiro de 2004), a gangues mafiosas e a reincidentes, de Samuel Flatto-Sharon a Arcadi Gaydamak.

Um fenómeno amplificado pela decomposição do espírito cívico, gangrenado pela ocupação e pela corrupção de negócios nos círculos dirigentes, materializado pelo naufrágio do partido trabalhista (o «partido dos pais fundadores»), e pela cascata de demissões no mais alto nível do Estado, seja por assédio sexual ou por questões relacionadas com dinheiro ilícito.

A promoção de Avigdor Libermann, uma ilustração caricatural do «Direito de retorno»

A ascensão de Avigdor Libermann ao centro do palco político israelita constitui, a este respeito, uma ilustração caricatural do «Direito de retorno» na sua extravagância mais gritante, na medida em que confere a um antigo segurança de discotecas em Moscovo – pelo único facto de ser judeu, e em detrimento dos habitantes originais do país – uma parte do destino do Médio Oriente. Constitui, assim, a marca da aberração do projecto sionista nas suas manifestações mais extremas, o claro fracasso do projecto ocidental. Quase cem anos após a sua fundação, o Lar Nacional Judeu aparece, assim, retrospectivamente, como a primeira operação de relocação de grande escala efectuada com base etno-religiosa, com o intuito de sub-contratar ao mundo árabe o anti-semitismo recorrente da sociedade ocidental. A Palestina, neste contexto, tornou-se um imenso desabafo de todas as frustrações acumuladas desde os subúrbios de Kiev (Ucrânia) e de Tbilisi (Geórgia) até ao mais profundo de Brooklyn (Estados Unidos).

Segundo um relatório da organização de esquerda israelita «A Paz Agora», publicado a 29 de Janeiro de 2009 no jornal Le Monde, as construcções nos colonatos aumentaram cinquenta e sete por cento durante o ano de 2008. Sessenta e um por cento destas novas estruturas foram erguidas dentro do perímetro da «barreira de segurança», e trinta e nove por cento fora dela, ou seja, na Cisjordânia. Isto torna cada vez mais difícil a criação de um Estado palestiniano viável e contínuo, nota «A Paz Agora».

O número total de colonos passou de duzentos e setenta mil em 2007, para duzentos e oitenta e cinco mil em 2008, sem contar com os colonatos na periferia de Jerusalém, que totalizam uma população de quase duzentos mil habitantes. Em Abril de 2001, uma comissão internacional presidida por Georges Mitchell havia recomendado a suspensão da colonização.

Numa operação de falsificação talvez única na história, as principais colónias de povoamento na Cisjordânia foram construídas não em terras do Estado, como os israelitas quiseram fazer acreditar aos seus patrocinadores americanos, mas em terras privadas, em violação do sagrado princípio da propriedade privada, um dos princípios fundamentais do liberalismo económico (1). 

Quase setecentos e sessenta e três bloqueios militares atravessam os territórios palestinianos ocupados. Desde a Naksa (a guerra de 1967) e a ocupação dos territórios palestinianos, quarenta e dois por cento dos homens palestinianos foram detidos pelo menos uma vez. Mais de duzentas mesquitas foram profanadas e destruídas, sendo substituídas por bares e discotecas.

Quase toda a Palestina está anexada, o comando palestiniano dizimado, Gaza destruída, Beirute destruída duas vezes (1982 e 2006), sem que o Egipto mexa um dedo. Nada retarda ou freia a voracidade de Israel, nem o seu belicismo. O trabalho de minagem israelita foi constante, a humilhação egípcia continua. 

Da estupefacção à consternação e indignação: os ataques israelitas a alvos árabes e palestinianos, desrespeitando as leis internacionais, para satisfazer objectivos estratégicos de expansão do sionismo em terra árabe, e ao mesmo tempo testar a credibilidade egípcia, são sentidos como punhaladas do Egipto aos seus antigos irmãos de armas. Anouar El Sadate pagou com a vida por esta traição. Hosni Mubarak sofre o preço do generalizado repúdio do seu povo, fazendo uma saída lamentável da cena política e da história.

Roda dentada da diplomacia americana, negligenciando a emergência de duas novas potências regionais (a Turquia sunita e o Irão xiita), por rejeição da sua aliança israelo-americana, Hosni Mubarak participava com zelo numa política suicida para o mundo árabe: a «bunkerização» de Israel e a «ostracização» do Irão, enquanto a prudência exigia procurar uma paridade estratégica com Israel para criar as condições equitativas de uma resolução final de todo o litígio israelo-árabe.

 Curiosamente, em trinta e dois anos de aplicação do tratado de paz egípcio-israelita, ninguém se atreveu a exigir de Israel o respeito pelos seus compromissos, que previam num segundo ponto a realização de uma paz completa entre israelitas e palestinianos. Uma exigência confirmada pela Conferência de Annapolis, a 29 de Novembro de 2008.

A hecatombe dos pilares do Ocidente

Não só Israel não cumpriu nenhuma das obrigações deste tratado, como também neutralizou os efeitos dos acordos provisórios previstos pelos Acordos de Oslo (Novembro de 1993), dos quais o primeiro-ministro Benyamin Netanyahu esvaziou o conteúdo na sua primeira passagem pelo governo em 1995, multiplicando as condições impeditivas. Subordinando a resolução do problema, numa primeira fase, à resolução do dossier nuclear iraniano, fingindo ignorar que o conflito palestiniano é anterior em sessenta anos à questão nuclear iraniana, avança, numa segunda fase, uma condição inverosímil e contrária à realidade histórica: o reconhecimento de Israel como "o Estado do Povo Judeu", com vista a isentar o Estado Hebreu de toda responsabilidade moral na tragédia palestiniana, de qualquer prejuízo em relação ao povo palestiniano, de qualquer indemnização aos refugiados palestinianos.

Ninguém também se espantou com os procedimentos dilatórios postos em prática para impedir a proclamação da independência da Palestina, enquanto países pequenos, com litígios mais recentes (como o Kosovo e o Sudão do Sul), alcançaram a independência, com o apoio ocidental, em muito menos tempo do que a Palestina (dez anos para o Kosovo), mesmo tendo este Estado o reconhecimento de quase cem Estados membros da Organização das Nações Unidas.

No final de trinta e dois anos de Tratado de Paz, de uma década de «guerra contra o terrorismo», muitos líderes pró-ocidentais do terceiro mundo árabe-muçulmano foram eliminados de forma violenta da vida política, Anuar el Sadate do Egipto, o falangista Bachir Gemayel, o bilionário saudo-libanês Rafic Hariri, a paquistanesa Benazir Bhutto, outros foram forçados a deixar o poder, o egípcio Hosni Mubarak e o tunisino Zine El Abidine Ben Ali; enquanto outros estavam sob a tutela americana: Hamid Karzai (Afeganistão), Noury Al Malki (Iraque), Mahmoud Abbas (Palestina), até mesmo a dinastia wahabita, e, naturalmente, o seu filho querido, Saad Hariri.

O tratado de paz israelo-egípcio de Março de 1979 foi compensado pela queda da dinastia Pahlavi, a invasão americana do Iraque com a expulsão de um poder sunita na antiga capital dos Abássidas provocou um sismo duplicado pela eliminação do chefe do clã saudita-americano no Líbano (Rafic Hariri) pelo desmembramento do Sudão, a queda do reduto do fundamentalismo na África do Norte, a capitulação de Barack Obama perante o diktat israelita nas negociações de paz israelo-palestinianas e a queda do governo pró-americano de Saad Hariri no Líbano. Ao entronizar Rafic Hariri como «mártir do Ocidente» e o seu herdeiro político como «o reduto da democracia em terra árabe», espera-se que os líderes ocidentais não se venham a arrepender.

A servilidade em relação à América não constitui de forma alguma, uma garantia absoluta de perduração. A paz dos bravos foi a rendição de um vencido… A história é impiedosa com aqueles que a insultam.

Notas

1 – Ilustração simbólica do desenraizamento e da vontade dos israelitas de arrancar os palestinianos da sua terra ancestral, só em 2006, os israelitas desenraizaram treze milhões quinhentos e sessenta e dois mil oitocentos e noventa e seis árvores, destruíram setecentos e oitenta e sete silos, setecentas e oitenta e oito quintas com os seus animais (catorze mil oitocentas e vinte e quatro cabras e ovelhas, doze mil cento e cinquenta e uma vacas, dezasseis mil quinhentas e quarenta e nove colmeias de abelhas), destruindo quatrocentos e vinte e cinco poços, duzentas e sete casas, sem falar nos assassinatos extra-judiciais e outras invenções jurídicas da maravilhosa eficácia israelita tão celebrada em todo o mundo ocidental.

Fonte: La malédiction de Camp David - En point de mire

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Sem comentários:

Enviar um comentário