domingo, 7 de junho de 2026

Considerações internacionalistas perante as eleições colombianas de 2026

 


Considerações internacionalistas perante as eleições                                     colombianas de 2026

Partilhamos e difundimos este comunicado internacionalista dos nossos camaradas da Balance e Avante na Colômbia sobre as eleições presidenciais de amanhã, domingo, e a farsa eleitoral
https://balanceyavante1.wordpress.com/consideraciones.../
O capitalismo está a entrar num momento histórico marcado pela guerra imperialista, o desastre ambiental e a crise económica. A catástrofe capitalista ameaça-nos, como humanidade, com um futuro sombrio. Só o proletariado, actuando como sujeito revolucionário a nível mundial, pode oferecer uma solução diante deste desastre, e esta não se encontra em escolher entre diferentes políticas burguesas, mas sim na luta autónoma do proletariado pelo comunismo. 

Este é o lado que nós escolhemos.

 

Desde o início da década, após a pandemia do Covid-19, vários governos de esquerda regressaram ao poder na América Latina. Há três anos, demonstrámos quais as implicações desta suposta mudança na região e qual era a tarefa do movimento comunista face a ela (1) . O que aconteceu apenas nos deu razão: a esquerda do capital, apesar de ter uma aparência diferente, cumpre uma tarefa clara para a burguesia: submeter a classe operária a uma facção específica e explorar a nossa classe como qualquer outro governo, apenas com uma força ideológica diferente.

Assim, uma nova «festa» democrática terá lugar no domingo, 31 de Maio, na Colômbia. O actual governo de Gustavo Petro chega ao fim e, até agora, são três os candidatos que realmente importam no desenrolar dos acontecimentos. Por um lado, a direita do capital encontra-se dividida entre Abelardo de la Espriella, um advogado e «outsider» inspirado no fenómeno comumente denominado «Novas direitas», e Paloma Valencia, também advogada, com uma bagagem institucional e clássica, alinhada com o ex-presidente Álvaro Uribe Vélez. Por outro lado, a esquerda do capital deseja manter a continuidade do actual governo através de Iván Cepeda Castro, filósofo de profissão e activista constante no país.

Da direita à esquerda, o espectro político da burguesia tenta convencer-nos de que devemos escolher entre uns ou outros. Um direito conquistado com esforço, que é necessário exercer, especialmente para a classe mais numerosa, a classe operária. Com isso, as políticas do actual governo, que nos são apresentadas, à primeira vista, como favoráveis à nossa classe, dizem-nos que devemos votar a favor da sua continuidade. Os seus defensores gabam-se, claro, do aumento do salário mínimo nos quatro anos de governo e, mais ainda, do facto de os ricos serem mais ricos! (2) . Assim, o que acabam por demonstrar, no fundo, é a necessidade do capital face a esse aumento, pois o capital não aceita aumentos salariais se não houver lucros por trás. Há momentos em que os capitalistas podem permitir-se essa distribuição de migalhas, e outros em que, quando isso não é possível, disfarçam a situação com, por exemplo, estes aumentos. Vejamos brevemente um facto: o número de trabalhadores que auferem o salário mínimo diminuiu, e aumentou o número daqueles que não o atingem, entrando na informalidade (3) .

 

1 Veja o nosso texto “Contra a farsa eleitoral: Comunismo. Ao proletariado da região da América Latina.” Em: https://balanceyavante1.wordpress.com/contra-la-farsa-electoral-comunismo/

2 Veja como o próprio presidente Gustavo Petro destacava este facto na rede social X.

3 Veja Infobae (2026). Radiografia preocupante do emprego: mais de 11 milhões de ocupados ganham menos do mínimo na Colômbia. Em:

https://www.infobae.com/colombia/2026/02/25/radiografia-preocupante-del-empleo-mas-de-11- millones-de-ocupados-ganan-menos-del-minimo-en-colombia/

 

As restantes reformas legislativas apresentadas reforçam esta falsa aparência de «defesa» da classe operária. Por exemplo, a reforma fiscal que previa a tributação das multinacionais e de um segmento dos chamados «super-ricos» do país. Nesta reforma, a arrecadação foi modesta, não sanou a problemática fiscal do Estado e, inclusive, foi necessário fazer cortes em sectores cuja importância tanto têm sido mencionada, como a educação, a paz e as infraestruturas (4).

É claro que o sector da segurança não teve esta problemática, tendo até mesmo um aumento orçamental e de efectivos, o que também é celebrado pelos esquerdistas e pelo próprio governo. Além disso, vale a pena salientar que, nos governos anteriores, o efectivo vinha a diminuir, mas com o actual governo essa tendência inverteu-se, o que demonstra claramente que esta é mais uma administração que tem total disposição para reprimir a nossa classe, desde que esta não lhe seja leal (5).

Temos também a reforma das pensões, que facilmente se tornará letra morta se o crescimento económico e demográfico não for revertido, porque quando há muitos trabalhadores informais ou em situação precária que não conseguem pagar as contribuições na totalidade, é o Estado que terá de as pagar. Assim, num contexto de crise permanente da dívida pública por parte dos Estados capitalistas, em maior ou menor grau, é fácil prever o seu resultado: um fracasso retumbante. Outro caso é a reforma laboral. Se acreditarmos que a luta de classes é um mero jogo de soma zero, em que o avanço de uma parte é o recuo da outra, continuaremos a acreditar que as reformas são uma ajuda. Mas sabemos que não é assim. O aumento do custo do despedimento, a redução da jornada de trabalho e as medidas para tentar forçar os contratos por tempo indeterminado não vão «contra» as leis do mercado de trabalho nem do capital em geral. Com um crescimento económico lento, o que vemos que acaba por acontecer com estas medidas é que elas empurram muitos trabalhadores para a precariedade, para o trabalho por conta própria e para a informalidade, sobrecarregando com maiores problemas uma parte da nossa classe (6). Por fim, a tentativa de prosseguir com a reforma agrária no âmbito do acordo de paz, privilegiando assim a pequena burguesia rural, demonstra que as políticas estatais podem ser implementadas contra os interesses de determinados, como, por exemplo, o sector pecuário, mas não podem opor-se aos interesses gerais do capital nacional.

Além disso, todo este processo está ligado à disputa imperialista na região. O governo actual tentou assumir uma postura “anti-imperialista” que se vê limitada

  

4 Veja o El Colombiano (2026). O Governo de Petro cortou mais de 4,2 mil milhões de dólares do Orçamento para fechar 2025: o que significa e a quem impacta. Em:https://www.elcolombiano.com/negocios/recortepresupuesto-2025-gobierno-decreto-1484-colombia-HJ32193136

5 Veja Presidência (2026). Em 2026, o Governo atribuiu 3,7 mil milhões de dólares para investimento nas Forças Militares, 47% mais do que em 2025. Em:https://www.presidencia.gov.co/prensa/Paginas/En-2026- Gobierno-asigno-3-7-billones-para-inversion-en-las-Fuerzas-Militares-47-porciento-mas-que-en-2025- 260324.aspx  

6 Veja Gunther Felix (2026). Reforma laboral e segurança social na Colômbia: o legado de Petro que os candidatos deverão resolver

 

perante as condições actuais que ainda não permitem ao Estado Colombiano sair da esfera americana. Isto é plenamente reforçado e demonstrado com a ofensiva diplomática realizada em todo o hemisfério pelos americanos contra os seus aliados, vivida ao longo do presente ano, com a qual demonstraram não só a sua fraqueza mas também a posição da burguesia latino-americana, e sobretudo da colombiana, perante um mundo que cada vez mais se prepara para um conflito mundial.

 

O fortalecimento da esquerda do capital que assinalámos no nosso documento de há três anos deu lugar a um novo período de ressurgimento da direita na região, sendo o México e a Colômbia os últimos bastiões dessa onda no último período eleitoral. De facto, ao contrário do que se verificou na maior parte da região, assistimos a um maior fortalecimento do Pacto Histórico face às últimas eleições. Por seu lado, a direita nestas eleições representa, também, um dos lados deste conflito internacional. Enquanto o governo e o Pacto Histórico expressam aquela fracção do capital colombiano que procura maior autonomia e a expansão do seu quadro de acumulação, com a oportunidade de entrar com força em novos mercados sob a égide de uma China fortalecida como possível nova potência hegemónica mundial, a direita apresenta-se dividida nas próximas eleições, divisão que demonstra a sua fraqueza como facção burguesa. Os direitistas colombianos encontram-se divididos entre uma facção mais clássica, a uribista, que apela à política de segurança democrática que foi útil ao Estado num momento em que este se viu fortemente ameaçado por grupos armados, sem pôr em causa a ordem constitucional actual e com uma relativa abertura ao diálogo com a esquerda do capital, e uma direita «outsider» representada por De la Espriella, que se liga ao ressurgimento regional da direita sob a «Nova Direita» ou «Direita Alternativa», com expoentes como Milei na Argentina, Kast no Chile, Bukele em Salvador e Keiko Fujimori no Peru (7), com um discurso semelhante ao trumpismo, defendendo a necessidade de «dar uma motosserra» ao Estado e de esmagar à força qualquer oposição aos seus interesses, tanto armada como não armada. Sabemos que esta divisão é, em termos eleitorais, circunstancial, e que provavelmente, num segundo turno, ambos se unirão contra o candidato do partido no poder, mas é inegável que a divisão é sintomática de uma fraqueza de fundo, e que as suas bases de apoio eleitoral também estão divididas, o que exigiria uma resolução negociada dessas diferenças.

 

É por tudo isso que, apesar de as reformas parecerem um gesto benevolente de um governo ou serem apresentadas como vitórias dos trabalhadores, na realidade, são apenas mais uma forma de gerir a nossa miséria. Como comunistas, sabemos plenamente que o nosso papel e a nossa actividade política vão além de uma conjuntura particular; opomo-nos a todos os governos e nações e a todas as suas medidas, reformas ou contra-reformas, porque, mesmo que a distribuição de migalhas seja real para alguns sectores, esta vem acompanhada da legitimação não só de um governo, mas de um modo de produção que pretendemos destruir.

 

(7) Que se projecta, por sua vez, como novo chefe de governo após 5 anos de instabilidade e fraqueza institucional no país andino.

 

Ao assumirmos-nos como comunistas, compreendemos plenamente a necessidade de superar este modo de produção e todas as suas categorias, sem meias medidas e como o mínimo necessário, sendo esta a única posição comunista possível. Afirmamos a necessidade da luta autónoma dos trabalhadores pelas suas condições de vida, mas temos a clareza de que essas lutas, caso sejam vitoriosas, são sempre parciais e temporárias, uma vez que o próprio capital se encarregará de transformar em miséria o que hoje é uma melhoria. Já desde Marx que afirmamos que a classe operária não deve entregar-se inteiramente a esta «luta de guerrilha» contra os sintomas do sistema, mas deve visar a reconstituição completa da sociedade, sobre novas bases (8). Negamos, no entanto, que a luta institucional, a busca por cargos políticos e a mediação em conflitos laborais por parte dos sindicatos — que limitam a sua capacidade combativa — sejam todas expressões dessa luta autónoma. Não há autonomia quando o programa e os objectivos são contrários aos interesses reais, de superação, que a nossa classe tem, quando essas lutas são canalizadas pela burguesia para servir a uma ou outra facção desta. Não importa o número de votos de um candidato ou o seu historial político, nem o número de membros de um partido ou o seu programa de governo; a única coisa  importante é quando o proletariado se mobiliza pelos seus próprios interesses, que passam pela sua libertação. E, como dizemos desde 1844:

 

«Mas ele [o proletariado] não pode libertar-se sem abolir as suas próprias condições de existência. Não pode abolir as suas próprias condições de existência sem abolir todas as condições de existência desumanas da sociedade actual que se condensam na sua situação. Não é por acaso que passa pela escola dura, mas fortalecedora, do trabalho. Não se trata de saber o que tal ou tal proletário, ou mesmo o proletariado na sua totalidade, se propõe momentaneamente como fim. Trata-se de saber o que o proletariado é e o que deve historicamente fazer de acordo com o seu ser. A sua finalidade e a sua acção histórica estão traçadas, de forma tangível e irrevogável, na sua própria situação de existência, tal como em toda a organização da sociedade burguesa actual.» A Sagrada Família.

 

O capitalismo está a entrar num momento histórico marcado pela guerra imperialista, pelo desastre ambiental e pela crise económica. A catástrofe capitalista ameaça-nos, enquanto humanidade, com um futuro sombrio. Só o proletariado, actuando como sujeito revolucionário a nível mundial, pode oferecer uma solução para este desastre, e esta não reside na escolha entre diferentes políticas burguesas, mas na luta autónoma do proletariado pelo comunismo. Este é o lado que escolhemos.

 

8 “Salario Precio y Ganancia” Ilustra muy bien este punto

 

Fonte: https://balanceyavante1.wordpress.com/consideraciones-nternacionalistas-de-cara-a-las-elecciones-colombianas-del-2026/?fbclid=IwY2xjawSR2itleHRuA2FlbQIxMABicmlkETBxOTJXbTkwbGw0UFhtbU85c3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHm-NMv55BNVYLSbhNjDDg46ug0ADyrHRJ9f_ztUph2T-yPd8Mk0musu0cGXz_aem_VUIzOUINxXzSJmdswLip8w

Este comunicado foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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