sexta-feira, 17 de julho de 2026

«O APELO DE 18 DE JUNHO» E «A RESISTÊNCIA»: AUTÓPSIA DE DOIS MITOS NACIONALISTAS CHAUVINISTAS FRANCESES


«O APELO DE 18 DE JUNHO» E «A RESISTÊNCIA»: AUTÓPSIA DE DOIS MITOS NACIONALISTAS CHAUVINISTAS FRANCESES

17 de Julho de 2026 Robert Bibeau



Por Khider Mesloub.

A história oficial francesa baseia-se em alguns relatos sagrados cuja função vai muito além da simples transmissão do passado. Eles servem para criar uma memória colectiva, legitimar as instituições existentes e fornecer à nação figuras tutelares à volta das quais se possa reunir. Entre estes relatos fundadores, poucos ocupam um lugar tão central como « o Apelo de 18 de Junho » de 1940 e a « Resistência ».

Há várias gerações, os franceses aprendem na escola uma história que se tornou familiar. Um general visionário, quase sozinho contra todos, recusa a rendição. Desde Londres, lança um apelo heróico à nação. O povo francês responde então ao seu apelo e envolve-se numa vasta luta clandestina contra o ocupante nazi. A « Resistência » nasce assim num impulso patriótico quase unânime que conduz naturalmente à Libertação e depois à restauração da República.

Esta narrativa possui todas as características de um mito fundador. Ela é simples, linear, moral e reconfortante. Opondo claramente os heróis aos traidores, os resistentes aos colaboradores, a liberdade à tirania. Dá à nação francesa uma imagem valorizadora de si mesma. O seu principal defeito é exactamente o de todas as mitologias políticas: não descreve a história tal como foi, mas como é politicamente útil contá-la.


O Apelo do 18 de Junho : o nascimento de um mito nacionalista burguês

A primeira mistificação diz respeito ao Apelo de 18 de junho em si. Na memória colectiva, este discurso é apresentado como o acto fundador da «Resistência» francesa. No entanto, ao examinarmos o seu conteúdo real e o seu contexto histórico, essa interpretação parece largamente retrospectiva. De Gaulle de forma alguma convoca a população francesa a pegar em armas contra o ocupante alemão. Ele não lança nenhum apelo à insurreição popular. Não convida os operários a sabotar infraestruturas, nem os ferroviários a desorganizar os transportes, nem os camponeses a juntar-se a qualquer guerrilha nacional. O seu objectivo é outro. O general procura, acima de tudo, impedir que a derrota militar francesa conduza à completa extinção do exército tricolor. A sua mensagem dirige-se principalmente aos militares, oficiais, marinheiros, aviadores, assim como aos engenheiros e técnicos capazes de continuar a guerra fora do território metropolitano, mas ao lado do Reino Unido. Trata-se menos de organizar uma resistência interna e mais de manter uma continuidade militar externa.

Uma exortação militar, não uma insurreição popular

Assim, ao contrário da imagem patriótica difundida após a guerra, o Apelo de 18 de Junho não é um apelo à «Resistência» interna. O Apelo de 18 de junho é uma exortação militar, não um manual de guerrilha. De Gaulle não convoca à sabotagem das fábricas, nem à destruição das infraestruturas, nem à eliminação dos soldados alemães. Ele não dá nenhuma ordem de insurreição popular e não traça nenhuma estratégia de luta clandestina no território nacional ocupado. O seu objectivo é outro: manter uma força combatente francesa ao lado do Reino Unido para continuar a guerra apesar do desastre. Longe de constituir o acto fundador de uma resistência interna armada, o Apelo de 18 de Junho aparece sobretudo como uma tentativa desesperada de preservar a continuidade militar da França imperial num teatro externo. Trata-se também de manter a existência política e simbólica de uma potência francesa no momento em que o Estado se desmorona e onde o exército francês acaba de sofrer uma das mais graves derrotas da sua história. Por trás do apelo já se perfila a vontade de salvar o prestígio internacional da França e de manter o seu estatuto de grande potência apesar do fracasso militar.

O Apelo de 18 de Junho aparece assim como um apelo a continuar a guerra ao lado dos britânicos e não como um apelo à « Resistência » tal como seria definida mais tarde. Esta distinção é fundamental. Porque a memória oficial francesa transformou um apelo à continuação do conflito ao lado das tropas britânicas num acto inaugural de uma resistência nacional cujas formas concretas praticamente não existiam no momento em que De Gaulle falava desde o seu exílio dourado em Londres.


O desfasamento entre a lenda e a realidade torna-se ainda mais evidente quando se examina o impacto imediato do discurso. A 18 de Junho de 1940, De Gaulle é uma figura quase desconhecida do grande público. A sua intervenção radiofónica é ouvida por um número extremamente reduzido de ouvintes. A rádio francesa não transmite a mensagem de De Gaulle. Os ouvintes franceses da BBC são então em número insignificante. O Apelo de 18 de Junho só alcança um punhado de pessoas e passa em grande parte despercebido numa França absorvida pelo colapso militar, pelo êxodo e pelos preparativos do armistício. Nenhuma gravação desta primeira versão foi preservada. O seu texto exacto permanece parcialmente debatido. Quanto aos efeitos imediatos, são insignificantes.

Além disso, a França de Junho de 1940 não se volta para De Gaulle. Ela olha maciçamente para Pétain. O vencedor de Verdun gozava então de um prestígio imenso. Aos olhos de grande parte da população francesa, ele parecia o homem capaz de pôr fim ao colapso militar e ao caos provocado pelo êxodo. A ideia de que o povo francês teria respondido espontaneamente ao apelo do general pertence mais à reconstrução da memória do que à realidade observável.

A « Resistência »: um surgimento lento e minoritário

A segunda mistificação diz respeito à própria « Resistência ». A narrativa nacional sugere muitas vezes que uma França profundamente ligada à liberdade se teria quase imediatamente erguido contra o ocupante nazi. No entanto, esta representação heroica enfrenta um problema sério: não corresponde aos factos históricos. Durante vários anos, a « Resistência» permaneceu um fenómeno extremamente minoritário. A enorme maioria da população francesa procurava sobretudo sobreviver num país derrotado, ocupado, racionado e profundamente traumatizado. As primeiras iniciativas clandestinas permaneciam isoladas, dispersas e pouco coordenadas. Nos primeiros tempos da Ocupação, os resistentes aparecem como uma minoria ínfima. Isolados e pouco organizados, provocavam muitas vezes incompreensão, ou mesmo desconfiança, numa população largamente expectante ou favorável a Pétain, cujas preocupações imediatas eram o racionamento, o regresso dos prisioneiros e a sobrevivência diária.

As grandes redes de informação, as organizações de sabotagem, as rotas de fuga, os maquis e os grupos armados só se desenvolvem gradualmente, a partir de 1942-1943, muitas vezes por iniciativa de militantes comunistas, judeus, arménios e estrangeiros anti-fascistas que já estavam há muito tempo envolvidos na luta contra o nazismo.

A « Resistência » não surge de todo do Apelo de 18 de Junho de 1940. É o resultado de uma lenta construção histórica estreitamente ligada à evolução da guerra mundial. A invasão da União Soviética pela Alemanha em Junho de 1941 leva à entrada massiva dos militantes comunistas na luta armada. As vitórias soviéticas, de Moscovo a Estalinegrado e depois Kursk, modificam progressivamente a correlação de forças militares e tornam credível a perspetiva de uma derrota alemã. A entrada dos Estados Unidos na guerra reforça ainda mais esta dinâmica. À medida que os reveses alemães se acumulam, o envolvimento na resistência deixa de parecer um risco desesperado para uma parte crescente da população. Finalmente, a instauração do Serviço de Trabalho Obrigatório (STO) em 1943 leva dezenas de milhares de jovens franceses a juntar-se aos maquis, contribuindo para a rápida expansão das forças clandestinas. Só a partir de 1941, e sobretudo em 1942 e 1943, é que os movimentos de resistência começam a ganhar verdadeira dimensão. O seu desenvolvimento resulta menos do efeito imediato do Apelo de 18 de Junho e mais da transformação gradual do contexto militar, político e social. Uma parte importante da luta armada foi, aliás, conduzida por militantes comunistas, sindicalistas, estrangeiros anti-fascistas, republicanos espanhóis refugiados em França ou ainda militantes operários, que muitas vezes pagaram um tributo particularmente pesado à repressão alemã e vichyista.

A realidade histórica aparece, portanto, muito menos homogénea do que a narrativa patriótica ensinada após a guerra. A resistência existiu. Mas foi durante muito tempo minoritária e tardia. E foi atravessada por divergências ideológicas profundas. Não foi nem unânime nem imediata. Não corresponde de forma alguma à imagem de uma nação inteira a erguer-se de uma só vez atrás da voz do general de Gaulle.

1945 : a invenção de uma França resistente

Como explicar então o poder desta mitologia? A resposta reside nas necessidades políticas do pós-guerra. Em 1945, a França sai profundamente dividida da Ocupação. A administração, uma parte importante das elites económicas, políticas e policiais colaboraram com Vichy ou acomodaram-se à ordem imposta pelo ocupante nazi. O país parece atravessado por tensões susceptíveis de levar a graves confrontos sociais internos. A revolução ameaça. Neste contexto, a narrativa de uma «França unanimemente resistente» constitui um poderoso instrumento de reconciliação nacional. Sustentada por uma aliança objectiva entre gaullistas e comunistas (estalinistas), esta representação permite fechar as feridas da Ocupação, atenuar a questão da colaboração e reconstruir a unidade nacional com bases heróicas. Reconstruir a unidade nacional exige a produção de uma narrativa reconciliadora. Gaullistas e comunistas participam então, cada um pelas suas próprias razões, na elaboração de uma memória comum mitológica que apresenta a França como uma nação essencialmente resistente. O general de Gaulle torna-se naturalmente a figura central desta reconstrução da memória. Progressivamente, o Apelo de 18 de Junho é elevado à categoria de evento fundador. A «Resistência» torna-se a narrativa nacional de referência. O chefe da França livre transforma-se na encarnação da própria nação.

O resultado é uma das operações mais notáveis de fabricação mitológica da história contemporânea francesa. Através das comemorações oficiais, dos manuais escolares, dos discursos políticos, dos museus, dos monumentos, dos nomes de ruas, das produções cinematográficas e das celebrações nacionais, a história complexa da Ocupação é reorganizada em torno de uma narrativa heróica centrada na figura providencial do general De Gaulle. O objectivo não é apenas contar o passado. Consiste em produzir uma representação do presente. Pois a função profunda destas lendas não é histórica. É política.

A mitologia gaulista oculta a França colaboracionista

O Apelo de 18 de Junho e a «Resistência» constituem hoje os principais pilares da religião cívica francesa. Eles fornecem à República os seus santos, os seus mártires, os seus textos fundadores e as suas cerimónias comemorativas. Permitem manter a imagem de uma nação naturalmente inclinada para a liberdade, espontaneamente refractária à opressão e constantemente posicionada do lado certo da história.

Como todas as mitologias nacionais, esta construção não se baseia numa mentira absoluta. Apoia-se em acontecimentos reais. Mas selecciona-os, simplifica-os, reorganiza-os e engrandece-os até lhes fazer dizer algo diferente do que realmente foram.

Por trás do Apelo de 18 de Junho estava um general sem tropas, sem território e sem uma verdadeira base política, tentando manter a existência simbólica de uma França combatente no momento em que o aparelho do Estado e a imensa maioria das elites se alinhavam com Pétain.

Por trás da «Resistência» estava um movimento durante muito tempo minoritário, fragmentado e cheio de contradições. Por trás da lenda nacional estava uma sociedade profundamente dividida. Toda a função da memória oficial consiste exactamente em fazer esquecer essa realidade para substituir a história real por um relato mitológico capaz de alimentar a coesão nacional e legitimar a ordem capitalista existente. 

Khider MESLOUB

 

Fonte: «L’APPEL DU 18 JUIN» ET «LA RÉSISTANCE» : AUTOPSIE DE DEUX MYTHES NATIONALISTES CHAUVINS FRANÇAIS – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice



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