Israel e Arábia Saudita, dois grandes colonizadores do planeta
René
NABA, 21 de junho de 2015 , em Décryptage
Última actualização
em 21 de Junho de 2015
Paris – O facto é evidente e a fonte é concreta. Está escrito preto no branco num relatório americano intitulado «Global Land and Water Grabbing» (apropriação global de terras e águas) e publicado pela revista Golias Hebdo N.º 275 (semana de 14 a 20 de Fevereiro de 2013).
Israel é um dos maiores colonizadores do planeta e um dos maiores poluidores das terras de África, América Latina e Ásia
Uma colonização com uma área 20 vezes superior à da
Palestina, enquanto a Arábia Saudita, sob a bandeira da empresa Ben Laden, a
empresa familiar do fundador da Al Qaeda, se voltava para a África e a Ásia
para garantir terras aráveis e alcançar a sua auto-suficiência alimentar.
A experiência de Israel com a colonização da Palestina
levou-o a colonizar terras em todo o mundo que representam vinte vezes a sua
superfície, em detrimento das populações e do ambiente dos países pobres:
·
Na Guiné,
Simandou, uma montanha isolada no meio da floresta equatorial, nos confins da
Guiné. O seu subsolo contém minério de ferro, a maior reserva inexplorada do
mundo. O seu valor: várias dezenas, ou mesmo centenas de milhares de milhões de
dólares. O subsolo da Guiné está repleto de matérias-primas: bauxite,
diamantes, ouro, urânio, ferro, etc. Os principais grupos mineiros do planeta
disputam as concessões. Mas os 11 milhões de habitantes pouco beneficiam destes
tesouros. O escândalo de Simandou envolve o homem mais rico de Israel, Benny
Steinmetz. Uma das maiores operações de pilhagem das riquezas minerais de
África, num contexto de corrupção das elites africanas e evasão de capitais,
com a cumplicidade de uma ex-primeira-dama guineense.
·
No Gabão,
para o cultivo de Jatropa, necessária à produção de bio-combustíveis.
·
Na Serra
Leoa, onde a colonização israelita representa 6,9% do território deste país da
África Ocidental, que além disso é diamantífero.
·
Nas
Filipinas, onde a proporção de terras «confiscadas» atinge 17,2% da superfície
agrícola.
·
Na República
Democrática do Congo, para o cultivo de cana-de-açúcar, além da exploração de
diamantes. Com prolongamento na região dos Grandes Lagos, um proselitismo que
visa a conversão dos tutsis ao judaísmo, numa operação destinada a forjar uma
nova identidade para uma estratégia de conquista e preservação dos interesses
israelitas na zona, paralelamente à estratégia de esterilização dos falachas,
judeus da Etiópia em Israel. Ninguém está imune a contradições.
Os escândalos abundam no Congo Kinshasa, onde Laurent
Désiré Kabila pagou com a vida as suas indelicadezas ao atribuir a exploração
de diamantes a um grupo israelita.
Israel está à frente dos países que controlam as
terras nos países pobres, juntamente com os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a
China. De acordo com o «The Journal of the National Academy of Sciences of the
United States» e retomado pela Golias, 90% dessas terras estão localizadas em
24 países, a maioria na África, Ásia e América Latina.
Desde a crise alimentar de 2007-2008, as empresas
estrangeiras estão a adquirir dez milhões de hectares de terras aráveis por
ano. As novas culturas são frequentemente cultivadas em detrimento das selvas e
das zonas de importância ambiental, ameaçando a sua bio-diversidade. Utilizam
fertilizantes e pesticidas e libertam quantidades significativas de gases com
efeito de estufa. Em última análise, este fenómeno compromete as bases da
soberania alimentar e desvia, em particular, os recursos hídricos.
Nos países da África
anglófona...
Com o apoio
dos países africanos anglófonos não muçulmanos, Etiópia, Uganda e Quénia,
Israel conseguiu um grande avanço diplomático na África anglófona, obtendo a
redução da quota de águas do Nilo do Egipto, a maior palhaçada diplomática da
era Mubarak, que custou o poder ao egípcio.
Negociando
com o egípcio Mubarak, fazendo-lhe acreditar na possibilidade de uma sucessão
dinástica a favor do seu filho, Israel incitou os Estados africanos a
reclamarem um aumento da sua quota na distribuição hídrica do rio, atraindo os
africanos com projectos económicos e os investidores egípcios com promessas de
participação nos projectos israelitas. Na Etiópia, Israel financiou a
construção de dezenas de projectos para a exploração das águas do Nilo Azul.
O acesso de
Israel ao perímetro da bacia do Nilo, através do sul do Sudão, com o apoio
francês e americano, foi acompanhado pelo lançamento de um projecto de construção
de um canal ligando o Mar Vermelho ao Mar Mediterrâneo, a partir de Eilat. Com
duas vias navegáveis, uma para a ida e outra para o regresso, o canal
israelita, ao contrário do egípcio, irá competir fortemente com o Canal do Suez
e provocar uma perda de 50% das receitas egípcias, de 8 mil milhões de dólares
por ano para 4 mil milhões. Mas o Egipto parece ter ganho vantagem sobre o seu
rival israelita com o lançamento da construção de um canal complementar, em
parceria com a Arábia Saudita, na sequência da nova ofensiva israelita sobre
Gaza, -Bordure protectrice (Borda protectora )-, que teve lugar de 8 de Julho a
7 de Agosto de 2014.
O assédio
israelita às comunidades libanesas de África, particularmente na Nigéria e na
Serra Leoa, visa assim eliminar concorrentes na exploração diamantífera do
subsolo africano e secar o fluxo financeiro proveniente dos emigrantes xiitas
para os seus correligionários do sul do Líbano. O objectivo é enfraquecer a
protecção constituída pela imigração xiita libanesa na África e na América
Latina face à colonização crescente das terras empreendida por Israel nessas
duas regiões.
O Mossad
recrutaria até mesmo jornalistas árabes para vigiar os libaneses da África, de
acordo com revelações feitas ao jornal espanhol El País por um ex-agente, o
jornalista argelino Saïd Sahnoune.
Saïd
Sahnoune foi recrutado em Telavive em 1998. Usando a sua qualidade de
jornalista, ele espionava para o Mossad em Abidjan, na Costa do Marfim. Ele era
responsável pela vigilância da colónia libanesa xiita na África Ocidental.
Sahnoune também espionava na Tunísia, mas principalmente no Líbano após a
retirada de Israel do sul do país, que ocupou até 2000. O pagamento ao espião
argelino era feito em dinheiro no Chipre, no valor de 1.500 dólares por mês,
além da cobertura das despesas da missão, o que lhe permitia ganhar até 6.000
dólares quando os alvos eram atingidos.
Israel é o
maior apoiante das ditaduras do terceiro mundo, o aliado incondicional do
regime de apartheid da África do Sul. A guarda pretoriana de todos os ditadores
francófonos que saquearam África. De Joseph Désiré Mobutu (Zaire-RDC) a Omar
Bongo (Gabão), Gnassingbé Eyadema (Togo) e até Félix Houphouët-Boigny (Costa do
Marfim) e Laurent Gbagbo, passando por Paul Biya, o presidente offshore dos
Camarões, cujo território serve de trânsito para os sequestradores do Boko
Haram. Além disso, na América Latina, nas Honduras, na Colômbia e no Paraguai.
E na América
Latina...
A ofensiva
anti-Hezbollah na América Latina teria também como objectivo lançar uma cortina
de fumo sobre a face hedionda do humanitarismo israelita. Camuflar a
colonização rampante das terras na Colômbia e essa singular impostura que
constitui a reprodução do regime de apartheid da Palestina nas Honduras. Ah, as
dolorosas reminiscências.
Israel é um
dos maiores exportadores de armas para a América do Sul.
http://www.agoravox.fr/tribune-libre/article/les-soldats-israeliens-en-amerique-165615
Na Colômbia, Israel é conhecido por ter treinado as
forças colombianas no ataque contra as FARC com o objectivo de libertar a refém
Ingrid Bettencourt. O Estado hebraico assumiu o controlo de vastas áreas para
cultivar cana-de-açúcar. E as Honduras tornaram-se um terreno fértil para a
transposição do apartheid israelita para o território latino-americano.
Honduras apresenta, de facto, a maior taxa de
homicídios por habitante do mundo (85,5 por 100 000 em 2012), ou seja, cerca de
20 assassinatos por dia, 95% dos quais impunes, e onde a pobreza afecta mais de
70% da população, segundo a ONG local Fórum da Dívida Externa, e que, além
disso, tem dificuldade em recuperar das consequências do derrube do presidente
Manuel Zelaya em Junho de 2009 por militares apoiados por sectores da direita e
do mundo empresarial.
Uma bênção para Israel: «Honduras é hoje, como a
Palestina, um laboratório de genocídio indígena, um laboratório de técnicas de
contra-insurgência, um laboratório de guetização e contenção de populações
escravizadas.
É também o laboratório para o estabelecimento de um
neo-liberalismo absoluto, graças à cessão de soberania sobre regiões inteiras
do país através da “Lei Hipotecária” e da criação de enclaves neo-liberais
retirados do território nacional, as “Zonas de Emprego e Desenvolvimento
Económico” ou “Cidades Modelo” ou “Cidades Charter”. bem como “a transferência
de direitos sobre todos os recursos naturais do país” está escrito.
Outro flagelo da
economia africana é a venda de terras aráveis
Desde 2006,
cerca de 20 milhões de hectares de terras aráveis foram objecto de negociações
em todo o mundo, pois, até 2050, a produção agrícola deverá crescer 70% para
responder ao aumento da população, de acordo com a Organização das Nações
Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Mas essa ofensiva sobre as
terras não ocorre sem contratempos. É necessário reorientar os investimentos,
caso contrário, eles podem desequilibrar o país-alvo, como foi o caso das
ambições da empresa coreana Daewoo em Madagáscar. À espera de um aumento
sustentável dos preços dos produtos alimentares ou de uma maior volatilidade
dos mercados, este neo-colonialismo agrícola tornou-se um elemento estratégico
para os países preocupados em garantir a sua segurança alimentar.
Aos fundos
soberanos de Estados preocupados em garantir a sua estratégia de abastecimento,
entre os quais os países do Golfo ou a China, juntaram-se investidores privados,
locais ou estrangeiros. As aquisições de terras aceleraram com a crise
alimentar de 2008. A Arábia Saudita criou uma empresa pública para financiar as
empresas privadas do reino que compram terras no estrangeiro. No Mali, as novas
culturas beneficiam principalmente os investidores líbios. A concessão de 100
000 hectares à empresa Malibya, ligada ao antigo líder líbio, o coronel Muammar
Kadhafi, causou grande alvoroço. «Os hectares dos líbios estão no início dos
canais de irrigação, serão abastecidos com água antes de nós», lamentam os
camponeses. «Mesmo que digam que estão a operar no âmbito da cooperação, não
compreendemos bem quais são os interesses por trás de tudo isto», resume
Mamadou Goïta, da ONG maliana Afrique verte. Os produtores também temem as
intenções dos chineses de desenvolver a cana-de-açúcar, que consome muita água.
Eles já cultivam 6000 hectares e controlam a fábrica de açúcar Sukala.
Face à
subida do nível das águas, as Maldivas procuram novos territórios para se
estabelecerem. Setenta mil pessoas vivem amontoadas em Malé, uma pesada
plataforma urbana situada à beira do Oceano Índico. Por enquanto, essa barreira
artificial resiste. Ela conseguiu proteger a capital desse singular Estado das
Maldivas, um arquipélago com 26 atóis e 1.200 ilhas cujos recifes de coral
ocupam um lugar de destaque nos catálogos de turismo mundial. Mas por quanto
tempo mais? O maremoto de 1987 inundou parte de Malé e causou um profundo
choque na população.
Em seguida,
o fenómeno climático El Niño provocou, em 1998, um branqueamento maciço dos
corais: 90% dos que se encontravam a menos de 15 metros de profundidade morreram.
Por fim, o tsunami de Dezembro de 2004 atingiu severamente o arquipélago,
destruindo duas ilhas, impondo a evacuação de outras seis e a deslocação de
cerca de 4000 pessoas (de um total de 280 000 habitantes).
Nas ilhas
Kiribati... Mesma causa, mesma reacção: diante da subida das águas que as
ameaça, as ilhas Kiribati, um arquipélago do Pacífico, planeiam comprar novos
territórios. «A alternativa é morrer, desaparecer». Os Kiribati enfrentam uma
subida das águas de 5 mm por ano desde 1991, o que provoca, nomeadamente, a
salinização da água doce. Inicialmente, o governo optou por uma política de
formação e emigração controlada. Mas a crise económica levou-o a considerar
esta solução mais radical.
A Arábia Saudita criou uma empresa pública para
financiar empresas privadas do reino que compram terras no estrangeiro. Ela
voltou-se para a África, devido à sua proximidade com o reino. A empresa
saudita «Haïl Hadco» aluga milhares de hectares no Sudão com o objectivo de
cultivar 40 000, enquanto o grupo Ben Laden, especializado em obras públicas,
se comprometeu na Ásia à frente de um consórcio, na esperança de, a longo
prazo, gerir 500 000 hectares de arrozais na Indonésia, no âmbito de um projecto
agrícola de 1,6 milhões de hectares que inclui a produção de agro-combustíveis.
Fundos abutres, evaporação de receitas, corrupção, má
gestão das transferências de fundos dos migrantes, venda a preço de banana de
terras aráveis. Será África condenada a continuar a ser um poço sem fundo?
Referências
1.
http://ccfd-terresolidaire.org/e_upload/pdf/ed_110110_bd.pdf?PHPSESSID=2...
2.
Sobre os Fundos
Abutre: Relatório da Plataforma Francesa sobre Dívida e Desenvolvimento e do
CNCD (Centro Nacional de Cooperação para o Desenvolvimento) intitulado "Um
Abutre Pode Esconder Outro ou Como as Nossas Leis Encorajam Predadores em
Países Pobres e Endividados", Junho de 2009. África: Um continente mais
atingido do que outros pela crise financeira" http://www.dia-afrique.org/suite.php
?newsid=12031
Bem como http://www.cadtm.org/spip.php ?article4654
3.
Sobre o tema
da transferência das remessas dos migrantes africanos para os seus países de
origem, ver artigo de Grégoire Allix em LE MONDE, 22 de Outubro de 2009
4.
Bertrand
d'Armagnac: a corrida pelas terras aráveis Le Monde, 23 de Abril de 2010 http://www.lemonde. pt-br/planeta/
artigo/2010/ 22/04/a-corrida-à-terra-arável-torna-se-preocupada-ante_1341086_
3244.html
René Naba
Jornalista-escritor, ex-chefe do mundo
árabe e muçulmano no serviço diplomático da AFP, depois assessor do director-geral
da RMC Médio Oriente, chefe de informação, membro do grupo consultivo do
Instituto Escandinavo de Direitos Humanos e da Associação de Amizade
Euro-Árabe. De 1969 a 1979, foi correspondente rotativo no escritório regional
da Agence France-Presse (AFP) em Beirute, onde cobriu a guerra civil
jordaniano-palestiniana, o "Setembro Negro" de 1970, a nacionalização
de instalações petrolíferas no Iraque e na Líbia (1972), uma dúzia de golpes de
Estado e sequestros de aviões, bem como a Guerra do Líbano (1975-1990) a 3ª
guerra árabe-israelita de Outubro de 1973, as primeiras negociações de paz
egípcio-israelitas na Mena House Cairo (1979). De 1979 a 1989, foi responsável
pelo mundo árabe-muçulmano no serviço diplomático da AFP, depois assessor do
director-geral da RMC Médio Oriente, encarregado da informação, de 1989 a 1995.
Autor de "Arábia Saudita, um reino das trevas" (Golias), "De
Bougnoule a selvagem, uma viagem ao imaginário francês" (Harmattan),
"Hariri, de pai para filho, empresários, primeiros-ministros"
(Harmattan), "As revoluções árabes e a maldição de Camp David"
(Bachari), "Media e democracia, a captura do imaginário, um desafio do
século XXI" (Golias). Desde 2013, ele é membro do grupo consultivo do
Instituto Escandinavo de Direitos Humanos (SIHR), com sede em Genebra. Ele
também é vice-presidente do Centro Internacional Contra o Terrorismo (ICALT), Genebra;
Presidente da instituição de caridade LINA, que opera nos bairros do norte de
Marselha, e Presidente Honorário do 'Car tu y es libre', (Bairro Livre),
trabalhando para a promoção social e política das áreas periurbanas do
departamento de Bouches du Rhône, no sul da França. Desde 2014, é consultor do
Instituto Internacional para a Paz, Justiça e Direitos Humanos (IIPJDH), com
sede em Genebra. Desde 1 de setembro de 2014, é responsável pela coordenação
editorial do site https://www.madaniya.info
e apresentador de uma coluna semanal na
Radio Galère (Marselha), às quintas-feiras, das 16h às 18h.
Fonte: Israël
et l'Arabie saoudite, deux grands colonisateurs de la planète
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice
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