Duas bombas-relógio económicas: os Estados Unidos e o Japão precipitam-se para um acerto de contas. O bloco ocidental dissolve-se
6 de Setembro de 2026
Robert Bibeau
por William Pesek, em Two Time Bombs, One Wick: Os Estados Unidos e o Japão Precipitam-se Para um Acerto de Contas – International Network
O Japão tem uma dívida pública
proporcionalmente superior a qualquer outro país do mundo, ultrapassando 250%
do seu PIB. Durante 30 anos, isso não importou, porque Tóquio podia pedir
empréstimos a taxas quase nulas. Hoje, a conta está a chegar.
Os rendimentos de referência
acabaram de atingir 3%, um nível que o Ministério das
Finanças não tinha previsto no seu orçamento. Isto está a perturbar os mercados
mundiais, e as flutuações acentuadas do iene estão a ter um enorme impacto nos
sistemas financeiros em todo o mundo.
A situação é complicada porque os rendimentos dos títulos do Tesouro dos
EUA parecem seguir a mesma tendência ascendente que os de Tóquio. O rendimento
dos títulos do Tesouro dos EUA a 30 anos atingiu recentemente um máximo dos
últimos 20 anos, cerca de 5,3%.
Os receios de inflação estão a alimentar
ambos os movimentos. Com a guerra no Irão a prolongar-se e um preço do petróleo a ultrapassar os 95 dólares por barril,
os vendedores de obrigações encontram-se numa posição de força. Igualmente
poderoso é o afrouxamento das políticas fiscais e dos bancos centrais, que são
cada vez mais lentos a apertar a política monetária.
Outro factor imprevisível é a forma como a dinâmica dos rendimentos entre
os EUA e o Japão se tornou intrinsecamente ligada à geo-política entre
Washington e Tóquio, aumentando a importância dos mercados mundiais.
Esta semana, o Secretário do Tesouro
dos EUA,
Scott Bissent, intensificou a sua campanha de meses para pressionar o Banco do Japão a
aumentar as taxas de juro — a ideia é que, se ele e o Presidente Donald Trump
não conseguirem o que querem com a Reserva Federal, aumentar as taxas japonesas
é um plano B viável.
Enquanto os líderes do G20 se reuniram
esta semana na Carolina do Norte, Bessent apelou ao governador do Banco do
Japão, Kazuo Ueda, para "tomar as decisões certas" sobre a política
monetária para travar a queda do iene para o seu nível mais baixo em 40 anos.
A 31 de Agosto, Bessent disse à CNBC: "Tenho informações que o mercado
não tem. E estou confiante de que o governo japonês e o Banco do Japão tomarão
as medidas necessárias para fortalecer o iene."
Esta medida seguiu-se a uma operação conjunta do Tesouro dos EUA e de
Tóquio para estabilizar o iene — a primeira desde 1998 — motivada em parte pelo
receio de que o governo do Primeiro-Ministro Sanae Takaichi vendesse títulos do
Tesouro dos EUA para financiar a sua própria intervenção. Como o Japão é o país
mais endividado com os Estados Unidos (mais de 1100 mil milhões de dólares),
Washington tem sido cuidadoso em vender euros em vez de dólares para comprar
iene, evitando assim este risco.
Bessent tentou então uma táctica inspirada no Japão: limitar as taxas de juro através de compras massivas de obrigações do Estado, esperando que compras de pelo menos 4 mil milhões de dólares por negócio reduzissem os custos de empréstimo. Os mercados não corresponderam a esta expectativa.
O iene está novamente a aproximar-se dos
160 por dólar, e os rendimentos das obrigações dos EUA a longo prazo estão a
subir novamente. "O mercado obrigacionista parece
estar a ignorar totalmente os títulos do Tesouro dos EUA", comenta a
revista de mercado The Kobeissi Letter.
Esta dinâmica deveria preocupar um secretário do Tesouro que já ganhou
experiência em fundos de investimento e viu em primeira mão como um pico das
taxas pode abalar os mercados rapidamente, e como o desmantelamento das
operações carry em ienes pode desestabilizar o sistema mundial.
Bessent trabalhou para George Soros no
início dos anos 1990, quando a posição de venda de Soros, como todos sabem, «fez
cair o Banco de Inglaterra»." A mesma equipa foi posteriormente
responsabilizada por causar o colapso das moedas em Hong Kong e na Malásia durante a crise
financeira asiática.
As intuições de mercado de Bessent estão
a ser testadas em tempo real, e a sua gestão fiscal não inspira muita confiança
no dólar — especialmente com uma dívida nacional dos EUA superior a 40 mil
milhões de dólares, ou cerca de 117.000 dólares por pessoa.
Durante a presidência de Bessent, a relação dívida/PIB dos EUA situa-se nos
125%. Em comparação, o economista James Lindsay, do Council on Foreign
Relations, aponta que o enorme endividamento contraído para financiar o esforço
de guerra americano durante a Segunda Guerra Mundial apenas elevou esta
proporção para 106%.
A tendência é mais preocupante do que
esta comparação sugere. O Congressional Budget Office (CBO), um organismo
apartidário, prevê que o défice federal atinja 2,1 mil milhões de dólares neste
ano fiscal, ou cerca de 6% do PIB. Como Lindsay salienta, esta situação
ocorre "numa altura em que o país está
perto do pleno emprego e o balanço do estado deveria estar a melhorar, não a
deteriorar-se."
A administração Biden (2021-2025) tem a sua parte de responsabilidade pelo
boom dos gastos, mas o mandato de Bessent continuará marcado pelos seus
próprios marcos, incluindo um ano orçamental em que os EUA pagaram mais de 1 milhar
de milhões de dólares em juros sobre a sua dívida, um valor comparável ao gasto
anual em defesa.
É esta trajetória que preocupa os analistas. A Fundação Peterson prevê que os pagamentos de juros mais do que duplicarão na próxima década, e Lindsay e outros até consideram que essa estimativa pode ser demasiado optimista. Em vez de enfrentar o problema subjacente da dívida, Bessent recorreu a truques como a recompra de obrigações, tratando os sintomas e não a causa.
Até o seu antigo mentor, a lenda dos
investimentos Stanley Druckenmiller, criticou esta abordagem, argumentando
que "um pacote de estímulo fiscal
credível seria mais benéfico para investidores a longo prazo do que um programa
de recompra de acções mil vezes maior." Nenhum pacote de estímulo parece
estar planeado pela Casa Branca de Trump.
Este fenómeno não se limita aos Estados
Unidos: o aumento dos rendimentos das obrigações de longo prazo é mundial.
"O confronto
entre os mercados obrigacionistas e os decisores políticos está a
transformar-se numa guerra de desgaste", diz Geoffrey Yu, estratega do
BNY. "A inflação persistente, as
preocupações fiscais e os riscos energéticos continuam a levar os investidores
a exigir melhores retornos."
No entanto, o dólar continua a ser o
cerne do problema. O verdadeiro risco é que os bancos centrais, que actuam como banqueiros de Washington, percam a
confiança na abordagem de Bessent — um grupo que inclui não só o Banco do
Japão, mas também o Banco Popular da China, que detém 633 mil milhões de
dólares em títulos do Tesouro dos EUA.
Os rendimentos dos títulos do Tesouro a
30 anos mantiveram-se acima dos 5% durante 55 dias consecutivos, o período mais longo em 20 anos, e em meados de Agosto,
o Tesouro vendeu obrigações a 30 anos à taxa mais alta em 25 anos — um sinal
claro de que os investidores exigem melhores compensações para continuarem a
financiar o défice de Washington.
Os investidores do Tesouro dos EUA "continuam relutantes em aumentar a duração", disse Meghan
Swiber, estratega do Bank of America. Michael Stanczyk, gestor de carteiras de
rendimento fixo na Allspring Global Investments, confirma que os rendimentos a
longo prazo poderão continuar a subir "à medida
que os investidores exigem melhor compensação para a inflação e os riscos fiscais."
O que mais deveria preocupar os investidores é a tendência actual: a dívida
pública dos EUA aumentou um terço em menos de cinco anos. Com a guerra no Irão
a alimentar pressões inflaccionistas, é cada vez mais provável que o Federal
Reserve tenha de aumentar as taxas assim que se reúna a 16 de Setembro, com
novos aumentos a seguir.
Isto corre o risco de provocar um
confronto com a Casa Branca de Trump. Este último exerceu pressão sobre a
Reserva Federal durante todo o seu primeiro mandato (2017-2021), mas o segundo
mandato agravou consideravelmente a situação. Primeiro, tentando despedir ou
acusar o antigo presidente da Fed, Jerome Powell. Segundo, procurando destituir a
governadora da Fed, Lisa Cook, e nomeando leais para o Conselho de
Governadores, incluindo o economista da Casa Branca Stephen Miran.
Uma Reserva Federal politizada pode revelar-se catastrófica para os
mercados mundiais, especialmente tendo em conta os esforços de outros países
para reduzir a sua dependência do dólar e dos títulos do Tesouro dos EUA. O
risco é que a abordagem de Trump preocupe os responsáveis de Tóquio e Pequim,
que juntos detêm mais de 1,7 mil milhões de dólares em dívida pública dos EUA.
É preocupante, no mínimo, que Bessent
pareça negar as fraquezas dos Estados Unidos. No domingo, disse à Reuters: "Não vejo onde está a turbulência no mercado obrigacionista", afirmando que o
mercado de obrigações dos EUA está a ter o melhor desempenho do mundo este ano,
e acrescentando: "O que também é importante é que
estamos a crescer."
Bessent também justifica as suas
intervenções, considerando-as menos agressivas do que as do antigo presidente
do Banco Central Europeu, Mario Draghi, ou do ex-governador do Banco do Japão,
Haruhiko Kuroda. Disse: "Não pareceu
incomodá-los quando Mario Draghi interveio na Europa. Também não pareceu
incomodá-los quando os japoneses recompraram metade do seu mercado de
obrigações."
Os mercados mundiais de obrigações estão no meio de uma crise, impulsionada
por uma combinação de pressões geo-políticas, tecnológicas e demográficas. Os custos
de empréstimo estão em máximos de vários anos, de Washington a Londres e
Tóquio, e os rendimentos parecem estar a subir.
Em lado nenhum mais do que no Japão. A queda dos mercados bolsistas globais colocou Tóquio em destaque, alimentando receios de que "desta vez será diferente". Por agora, o mercado do Tesouro dos EUA, avaliado em 32 mil milhões de dólares, está a receber toda a atenção. Os rendimentos das obrigações dos EUA a 30 anos estão no seu mais alto desde 2007, ultrapassando mesmo o limiar de 5% que os investidores consideravam intransponível, como salienta Ed Al-Hussainy, da Columbia Threadneedle.
No entanto, Tóquio está a fazer soar o
alarme, afirma Robin Brooks, economista no Brookings: «O Japão tem enfrentado uma crise latente deste tipo há dois anos».
Ele acrescenta que as vendas massivas de títulos, tal como as de Liz Truss, estão a multiplicar-se nos países do
G10 à medida que a dívida aumenta e a confiança dos investidores se deteriora,
borrando assim a linha entre o G10 e os mercados emergentes.
Os terramotos no Japão podem ter um grande impacto a curto prazo. Os rendimentos estão a subir à medida que o iene testa o limiar de 160 para o dólar, e a subida dos rendimentos das obrigações governamentais japonesas a 10 anos é particularmente preocupante, dado o nível de dívida do Japão e a diminuição da população.
No entanto, os paralelismos entre os Estados Unidos e o Japão tornam-se
cada vez mais evidentes. O Japão provou que um país altamente endividado pode
contrair empréstimos baratos desde que os mercados confiem nele — e essa
confiança está a esmorecer. Washington está a acumular uma dívida semelhante,
apostando na natureza inabalável deste privilégio. Esta aposta pode muito bem
revelar-se perdida.
fonte: Asia Times via History and Society
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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