sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A mensagem subliminar do Irão ao mundo árabe-muçulmano

 


A mensagem subliminar do Irão ao mundo árabe-muçulmano

René Naba / 12 de julho de 2015 / EM Golfo ÁrabeInternacional

 

Última atualização a 3 de Janeiro de 2020

Irão, um caso clássico ou uma ameaça ao mundo árabe?

Irão, um caso clássico.

O Irão já ascendeu ao posto de "potência nuclear de limiar" contra a vontade do Ocidente e fora da sua tecnologia, independentemente das vicissitudes das negociações internacionais sobre o programa nuclear iraniano.

Este facto foi, por si só, uma façanha tecnológica, pois este objectivo altamente estratégico foi alcançado apesar de um embargo de trinta anos, aliado a uma guerra de quase uma década imposta ao Irão pelo Iraque, e uma "guerra de substituição" contra a Síria, o elo intermédio no eixo da resistência à hegemonia israelo-americana na região.

Por isso, despertou a admiração de grandes sectores da opinião pública no hemisfério sul, pois fornece uma prova notável de que a tecnologia avançada não é incompatível com o Islão, desde que seja apoiada por um desejo de independência, levando, além disso, à possibilidade do Irão de se equipar com um dissuasor militar, mantendo ao mesmo tempo o seu papel como ponta de lança da revolução islâmica

Numa zona de submissão à ordem israelo-americana, o caso iraniano tornou-se assim um caso clássico, uma referência no terreno, e o Irão, desde então, tornou-se o foco de Israel, a sua bête noire, na sequência da destruição do Iraque em 2003 e do virtual desmantelamento da Síria devido a uma conivência clandestina tácita entre Israel e as petromonarquias árabes com a garantia do bloco atlanticista.

John Kerry, o Secretário de Estado dos EUA, ansioso por pressionar o seu homólogo iraniano Mohamad Javad Zarif na fase final das negociações nucleares iranianas, fingiu levantar-se, ameaçando sair da sala de conferências para atravessar o Oceano Atlântico e regressar aos Estados Unidos.

Um gesto acompanhado de uma demonstração de força no terreno, com o teste de uma versão "segura" da bomba nuclear B61-12 sem ogivas, no sítio de Tonopah, no Nevada; Um teste deliberadamente ordenado pelos Estados Unidos, no contexto das negociações de Viena, como se quisesse forçar a mão dos iranianos.
Mohamad Javad Zarif, que significa o magnífico cavaleiro, licenciado pelas universidades de São Francisco (Califórnia) e Denver (Colorado), levantou-se lentamente, olhando para o seu interlocutor americano, dizendo-lhe: "Ninguém pode coagir o Irão".
Sergei Lavrof, Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, concordou com o seu aliado iraniano: "Ninguém pode coagir a Rússia também", acrescentou, referindo-se em particular às sanções ocidentais impostas à Rússia por causa da Ucrânia.
Respondendo à demonstração de força americana, a Rússia e o Irão apresentaram então a partir de Moscovo uma proposta para contrariar a expansão da NATO a LESTE: Um contra-projecto de escudo anti-mísseis da NATO, comum à China, à Índia, à Rússia e ao Irão.

John Kerry, cuja filha casou com um iraniano, deveria ter-se lembrado de que o Irão, que inventou o jogo do xadrez — um jogo de paciência, cálculo e retaliação oblíqua — não se deixa intimidar facilmente.

Para além dos estudos comparativos sobre as vantagens e desvantagens do acordo nuclear iraniano, um deleite do jogo habitual dos especialistas, o Irão quis enviar uma mensagem subliminar ao resto do Mundo, particularmente ao Mundo árabe-muçulmano, em plena ebulição sectária, mostrando que o Irão queria apresentar-se como um modelo e não como uma ameaça ao Mundo árabe, maioritariamente sunita.

O jogo de França

Assim que os Estados Unidos ficaram atolados no Iraque, em 2003, o Sr. Dominique Strauss-Kahn, futuro director do Fundo Monetário Internacional e comprovado pró-Israel, soou o alarme ao convidar os países ocidentais a corrigir a situação e a visar o Irão em vez do Iraque. Foi imediatamente substituído pelo socialista desertor Bernard Kouchner, que foi nomeado chefe do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês na sequência da sua manifestação atlanticista, bem como pelo seu patrocinador conjunto, Nicolas Sarkozy.

Le président français de « sang mêlé » de l’époque avait résumé la nouvelle position française par une formule qui se voulait lapidaire mais qui s’est révélée être d’une démagogie rudimentaire : « la bombe iranienne ou le bombardement de l’Iran ».

Neste contexto, a « firmeza construtiva » de Laurent Fabius surge como uma fanfarronice digna de Tartarin de Tarascon, dado que o « sonolento dos fóruns internacionais » é, além disso, amnésico: Um dos maiores poluidores nucleares do planeta, o fornecedor do regime do apartheid da África do Sul e de Israel, o parceiro do Irão imperial no consórcio Eurodif, a França esteve constantemente na linha da frente na luta pela desnuclearização do Irão.

Na sua qualidade de estado muçulmano? De país revolucionário? De país xiita? Ou mais simplesmente de mercenários das petro-monarquias do Golfo na contra-revolução árabe, que acabou, paradoxalmente, por manter os pequenos soberanos do Golfo em estado de sujeição tecnológica face ao Ocidente, na pura tradição do paternalismo pós-colonial resultante do «fardo do homem branco», e a França, por contrapartida, dependente dos mercados das monarquias obscurantistas.

A duplicidade francesa explica a sua passividade face aos ataques destrutivos israelitas contra as instalações nucleares árabes de Osirak (Iraque), em 1981, um reactor fornecido pela França, de Al Kibar, na Síria, em 2008, passando pelos reactores de Cadarache, também fornecidos pela França, com a ajuda dos Sayanim no sul de França.

Esclarece-se assim a desconfiança nutrida em relação aos franceses pelos americanos, devido, ao que parece, à presença de um espião israelita no Quai d’Orsay, que explica as negociações secretas iraniano-americanas em Mascate (Sultanato de Omã), fora do alcance das escutas francesas, e a partilha das informações recolhidas pela rede ECHELON através da NSA, exclusivamente entre os Five Eyes (Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia), ou seja, os países WASP (White Anglo Saxon Protestant), a única civilização que tem valor para os defensores da Angloesfera.

Se a « firmeza construtiva » de Laurent Fabius permitiu à França arrecadar quase 16 mil milhões de euros em contratos civis e militares, por outro lado, provocou a perda do vasto mercado iraniano, de 80 milhões de consumidores com necessidades consideráveis (400 aviões de transporte), e o encerramento subsequente da Fábrica de Aulnay do Grupo PSA (8.000 empregos), um dos maiores fornecedores mundiais da frota automóvel iraniana, levando ao seu substituição por produtos americanos em subcontratação de empresas asiáticas. Da mesma forma que a crise da Ucrânia permitiu aos americanos suplantar os europeus no mercado russo. (Na sequência das sanções anti-russas, a Europa perdeu 33% do seu volume de comércio com a Rússia, enquanto os Estados Unidos apenas perderam 6%. Em Moscovo trabalham 1.200 engenheiros na construção do Boeing 777X, uma aeronave concorrente do Airbus A350, com, em complemento, a assinatura de um contrato entre a empresa russa Energomash e os Americanos da Orbital por 60 motores de foguetão Atares).

No plano interno americano, as negociações iraniano-americanas representam, de facto, a vitória da «Rockefeller Foundation», favorável a uma abertura em relação ao Irão, sobre o muito neo-conservador lobby «American Enterprise Institute», defensor, por seu lado, de uma mudança do regime iraniano pela força.

A fábula do nuclear israelita

Vamos passar esta fábula: «Israel, única democracia do Médio Oriente, sentinela do Mundo livre face à barbárie árabe-muçulmana» não poderia, em primeiro lugar, introduzir a arma atómica na região, que funciona como um viático apesar dos suplícios de Mordechai Vanunu, que teve a audácia de quebrar o tabu, apesar das fugas repetidas para a imprensa especializada ocidental. O silêncio é absoluto. Cuidando dele zelosamente, os guardiões de Israel na Europa, particularmente em França.

O primado de Israel condiciona o relato mediático ocidental e compromete a credibilidade da sua abordagem, na medida em que revela uma distorção do comportamento dos países ocidentais face às potências nucleares. Os Estados Unidos e a União Europeia controlam 90% da informação do planeta e, das 300 principais agências de notícias, 144 têm sede nos Estados Unidos, 80 na Europa e 49 no Japão. Os países pobres, onde vive 75% da humanidade, possuem 30% dos meios de comunicação do mundo.

Israel, única potência nuclear do Médio Oriente, beneficiou assim constantemente da cooperação activa dos Estados ocidentais membros permanentes do Conselho de Segurança (Estados Unidos, França, Grã-Bretanha) para se dotar da arma atómica, embora não adira ao Tratado de Não Proliferação. O mesmo se aplica à Índia e ao Paquistão, duas potências nucleares asiáticas antagónicas, que beneficiam, no entanto, de uma forte cooperação nuclear por parte dos Estados Unidos e da França, apesar da sua não ratificação do tratado de não proliferação nuclear.

O argumento ocidental ganharia, portanto, em credibilidade se a mesma rigorosidade jurídica fosse aplicada a todos os outros protagonistas do dossier nuclear, a tal ponto que a China e a Rússia, os principais aliados do Irão, se dotaram de uma estrutura de contestação da liderança ocidental através da organização de cooperação chamada «grupo de Xangai», para a tornar uma OPEP nuclear reunindo os antigos líderes do campo marxista (China e Rússia), bem como as Repúblicas muçulmanas da Ásia Central, com o Irão como observador.

O diferencial de comportamento entre o Irão e o Mundo árabe

Para lá do conflito político entre o Irão, líder do Islão xiita, e a Arábia Saudita, líder do Islão sunita, pela liderança regional, e, para lá do Mundo muçulmano, para lá dos resultados das negociações sobre o nuclear iraniano, coloca-se de forma subjacente a questão do diferencial de comportamento face aos ocidentais entre o Irão e os países árabes, principalmente as petromonarquias e os países que gravitam na sua órbita.

Perante o bloco atlanticista, o Irão apresentou-se à mesa das negociações apoiado em dois aliados sólidos, a China e a Rússia, os líderes do BRICS, um dos vectores do novo mundo em gestação, enquanto a Arábia Saudita desencadeia uma guerra contra o Iémen com o auxílio de uma coligação de 7 países e com mercenários pilotos americanos e franceses a 7.500 dólares por missão aérea, sem o menor resultado quatro meses após a ofensiva contra o país mais pobre do Mundo árabe, e enquanto as petromonarquias árabes, maioritárias na Liga Árabe, se prostram perante os Ocidentais para solicitar a sua intervenção militar contra países árabes, na pura tradição do neo-colonialismo, acentuando duradouramente a sujeição árabe.

As súplicas de Youssef Qaradawi implorando um bombardamento a um país, a Síria, que travou quatro guerras contra Israel, a conivência da Jabhat An Nosra, a franqueza da Al Qaeda na Síria, com Israel sobre os Golã, um território sírio ocupado — não para o libertar, mas para derrubar o regime de Damasco —, a deserção de Mous'ab Youssef, filho de um dos fundadores do Hamas, a filial palestiniana da Irmandade Muçulmana, em favor de Israel, e a sua delação de Marwane Barghouti, um dos líderes da luta nacional palestiniana na Cisjordânia, constituem tantas ilustrações patológicas da desfragmentação mental árabe e dos estragos do sectarismo wahhabita impulsionado pela dinastia saudita.

Perante uma coorte de aliados :

·         Ahmad Chalabi, empregado de escritório iraquiano da administração americana durante a invasão do Iraque; -Moussa’b Youssef, filho de um dos fundadores do Hamas, informador ao serviço dos serviços israelitas e delator do líder palestiniano Marwane Barghouti;

·         Khaled Mecha’al, o chefe político deste movimento, a ala palestiniana da Irmandade Muçulmana, protegido na sua luxuosa residência climatizada no Qatar enquanto a Faixa de Gaza permanece em ruínas, um ano após a sua destruição por Israel, o aliado subterrâneo das monarquias petrolíferas do Golfo;

·         Lokmane Slim, o xiita ao serviço anti-Hezbollah a favor da embaixada americana em Beirute;

·         Bourhane Ghalioune e as Irmãs Kodmani, Basma e Hala Kodmani, auxiliares sírias da administração francesa durante a guerra islâmica-atlantista contra a Síria;

·         Mounzer Safadi, agente de ligação sírio-druzo de Israel junto dos grupos jihadistas da Síria - Jabhat An Nosra, Da’ech e o Exército Sírio Livre;

·         Nadia Fani, filha de um grande sindicalista tunisino, cuja cineasta dilapidou o capital de simpatia através da sua busca de um salto profissional junto das elites mundializadas representadas pela ultra-feminista islamófoba francesa Caroline Fourest, evidenciando a sua submissão ao pensamento dominante através da sua viagem a Canossa-Israel, tal como o seu compatriota tunisino Hassan Chalghoumi (guia da Mesquita de Drancy, França);

·         Walid Farès, um dos maiores líderes sanguinários das milícias cristãs da guerra do Líbano, converteu-se em especialista no contra-terrorismo em Washington...

O Irão oferece, em contraponto a essa escória, um conjunto de dirigentes de topo, todos formados em universidades ocidentais, mas sem a menor ambiguidade quanto à sua lealdade nacional iraniana. A exemplo da equipa de negociadores do litígio nuclear com o grupo de países ocidentais, cuja lista segue a título ilustrativo: 

• Mohammad Nahavandian. Chefe de gabinete do presidente Hassan Rouhani, (Ph.D. em Economia - George Washington University).
• Mohamad Javad Zarif, ministro dos Negócios Estrangeiros e negociador-chefe nas negociações nucleares. Licenciado pela Universidade de São Francisco (Califórnia) e doutorado pela Universidade de Denver (Colorado).
• Ali Akbar Salehi, chefe da delegação iraniana na Comissão de Energia Atómica de Viena (Ph.D. – Engenharia nuclear, Massachusetts Institute of Technology - MIT).
• Mahmoud Vaezi, ministro das telecomunicações, licenciado em Engenharia Eléctrica pelas Universidades de Sacramento e San Jose State (Califórnia), com doutoramento pela Universidade da Louisiana e diploma em Relações Internacionais pela Universidade de Varsóvia.
• Abbas Ahmad Akhoundi, ministro dos transportes, doutorado (Ph.D.) pela Universidade de Londres.

A competição entre França e Rússia pela construção de 16 centrais nucleares na Arábia Saudita para a gestão energética da era pós-petróleo não pode remediar o handicap congénito fundamental da dinastia wahabita à sua adesão ao conhecimento científico e ao domínio da tecnologia, pois a rigidez psicológica dogmática saudita constitui o seu travão mais poderoso.

Assim, o Irão parece ser um contra-exemplo perfeito à Arábia Saudita e, como tal, constitui uma ameaça existencial à dinastia wahabita e a todos os piolhos de madeira que gravitam na sua órbita. A clivagem, portanto, não é entre sunitas e xiitas, mas entre répteis e vertebrados.

Para ir mais longe

 

Ilustração

AP: O Ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Javad Zarif, à esquerda, conversa com o chefe da Organização de Energia Atómica do Irão, Ali Akbar Salehi, após uma reunião à tarde com responsáveis norte-americanos em Lausanne, Suíça, 27 de Março de 2015.

 

René Naba

Jornalista-escritor, ex-chefe do Mundo Árabe e Muçulmano no serviço diplomático da AFP, depois conselheiro do director-geral do RMC Médio Oriente, chefe de  informação, membro do grupo consultivo do Instituto Escandinavo de Direitos Humanos e da Associação Euro-Árabe de Amizade. De 1969 a 1979, foi correspondente rotativo no gabinete regional da Agence France-Presse (AFP) em Beirute, onde cobriu a guerra civil jordano-palestiniana, o "Setembro Negro" de 1970, a nacionalização de instalações petrolíferas no Iraque e na Líbia (1972), uma dúzia de golpes de Estado e sequestros de aviões, bem como a Guerra do Líbano (1975-1990) a terceira guerra árabe-israelita de Outubro de 1973, as primeiras negociações de paz egípcio-israelitas na Mena House, Cairo (1979). De 1979 a 1989, esteve à frente do mundo árabe-muçulmano no serviço diplomático da AFP, depois conselheiro do director-geral do RMC Médio Oriente, responsável pela informação, de 1989 a 1995. Autor de "Arábia  Saudita, um reino das trevas" (Golias), "De Bougnoule a selvagem, uma jornada pela imaginação francesa" (Harmattan), "Hariri, de pai a filho, empresários, primeiros-ministros" (Harmattan), "As revoluções árabes e a maldição de Camp David" (Bachari), "Media e Democracia, a captura do imaginário um desafio do século XXI" (Golias). Desde 2013, é membro do grupo consultivo do Instituto Escandinavo de Direitos do Homem (SIHR), sediado em Genebra. Ele também é Vice-Presidente do Centro Internacional Contra o Terrorismo (ICALT), Genebra; Presidente da instituição de caridade LINA, que actua nos bairros do norte de Marselha, e Presidente Honorário do 'Car tu y es libre' (Bairro Livre), que actua na promoção social e política das áreas periurbanas do departamento de Bouches du Rhône, no sul da França. Desde 2014, é consultor no Instituto Internacional para a Paz, Justiça e Direitos do Homem (IIPJDH), sediado em Genebra. Desde 1 de Setembro de 2014, ele é responsável pela coordenação editorial do site https://www.madaniya.info  e apresenta uma coluna semanal na Rádio Galère (Marselha), às quintas-feiras das 16h às 18h.

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Fonte: A mensagem subliminar do Irão ao mundo árabe-muçulmano

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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