domingo, 8 de fevereiro de 2026

NADA É ESCOLHIDO NAS ELEIÇÕES

 


Nada é escolhido nas eleições

 

 

O Grande Festival da Democracia

Recentemente, ocorreu a algum cretino chamar as eleições de “o grande festival da democracia”, sendo verdadeiro no sentido de que as eleições são o principal argumento de uma grande mentira que o capital celebra de poucos em poucos anos.

Nada é escolhido nas “eleições”, além de ratificar a gestão política de um modo de produção catastrófico (capitalismo) que nos arrasta para a destruição.

Não se escolhe sobre o aumento dos preços, não se escolhe sobre a política energética, não se escolhe sobre o custo da habitação. Nenhuma das questões que importa para a nossa sobrevivência, de um lado ao outro, está fora do curso da economia política, esse mecanismo automático cujas partes componentes são a exploração, a guerra, a miséria, que se consagra à acumulação de capital e às necessidades de lucro de uma minoria contra o empobrecimento da imensa maioria.

As eleições servem apenas para encobrir esta realidade.

Não apenas não elegemos nada realmente consistente, como nada é elegível no reino da mercadoria. Se nos fosse realmente pedido para "votar" sobre se devemos ou não aumentar os preços dos alimentos, a decisão da maioria (logicamente para os baixar) não teria aplicação prática, sendo que a dinâmica económica do capital seria imposta pela sua própria lógica ditatorial a qualquer "voluntarismo" bem-intencionado.

A "escolha democrática" ocorre, na realidade, de duas maneiras:

  • Seleccionando um ressentimento (leia-se, governo do dia) de oportunistas, cínicos e patifes que, colocando-se em posições supostamente antagónicas (esquerda e direita), gerirão o curso criminoso da economia capitalista, de forma análoga, ora numa ora noutra.
  • Para reforçar, com um gesto vazio, um sistema que não pode ser "reformado", que cada "reforma" torna mais forte e com o qual só podemos combater através da revolução mundial, da sua organização e do seu programa histórico.

DA PUNIÇÃO AO MAL MENOR

A abstenção é muitas vezes a rainha do momento, superando o partido mais votado. Não nos iludamos. Ou seja, sabemos que abster-se não significa um aumento da consciência crítica em relação ao estado actual das coisas, embora signifique outra coisa: a maioria sabe que, ao votar, nada muda, tudo continua na sua decadência e prossegue o seu curso. É a evidência de uma observação lógica: o cansaço de um circo sem novidades ou diversão.

Mas o sistema precisa de legitimidade, precisa fazer-se acreditar e fazer-nos acreditar que nele participamos, que nele acreditamos. Precisa que digamos repetidamente que, apesar da sua desnudez óbvia, “o rei está vestido”, mesmo que mal vestido, mesmo que pareça vulgar.

E ele precisa que votemos (mesmo que apenas alguns), precisa das suas estatísticas e desse acto religioso e solitário, sem debate real, sem consciência real, que é atirar um pedaço de papel numa espécie de aquário que sabemos estar cheio de tubarões. A maneira de “escolher” que o capital nos impõe representa graficamente a sua essência mais cruel: atomizada, neurótica, absurda… escolher entre um punhado de mercadorias políticas que são substancialmente as mesmas e que, sem dúvida, servirão aos mesmos senhores.

Hoje, apenas duas motivações nos levam a votar:

·         Punir o governo que está de saída, por fazer tão mal (talvez até pior) quanto o planeado e contribuir para tornar a nossa sobrevivência mais sufocante e mesquinha.

·         Escolher entre o mau e o pior, como se tal chantagem pudesse ser chamada de “escolha”.

Esta segunda opção é a principal carta na manga que será jogada novamente nas próximas eleições para tentar aumentar o número de eleitores. Ou seja, dizer-nos que um partido de certamente corruptos esquerdistas e os seus parceiros corruptos da extrema-direita representam uma ameaça maior do que um partido de esquerda que implementou as políticas mais vis e cruéis do capital, fazendo-nos passar (como se fôssemos idiotas) por uma política de progresso e defesa dos interesses dos trabalhadores.

Para isso recorrerão ao recurso habitual: implorar-nos para formarmos uma grande frente “anti-fascista”.

Poderia, no entanto, ser-lhes apontado que a presença das forças auto-proclamadas progressistas oferece a uma boa parte da população um oxigénio essencial para lidar com a vida já difícil com o capital. Mas então estaríamos a cair na sua mistificação ideológica, acreditando que temos o poder de decidir o nosso destino dentro do estreito quadro oferecido pelo sistema. Estaríamos a conceder a todo este grupo de políticos capacidades que não lhes pertencem. Os seus discursos e promessas, as suas campanhas e mentiras — tudo isto não oferece mais do que uma visão geral das tendências já evidentes na rua. E da mesma forma que os grupos mais conservadores não têm capacidade para provocar regressões sociais, mas sim ratificar preconceitos racistas, patriarcais, LGBTQfóbicos, etc., já existentes, os partidos da esquerda do capital não podem inverter as consequências devastadoras de uma crise do capital cada vez mais aguda.

Por detrás de todas estas medidas sociais, tanto as aparentemente progressistas como as mais abertamente reaccionárias, nada mais se revela senão a impotência de um sistema partidário que está condenado a operar dentro de um quadro de acção cada vez mais restrito, e como bons comerciantes, não têm outra opção senão adornar-se com uma comunicação apelativa que os diferencie da restante concorrência.

Mas está claro para nós: para o proletariado, o único campo de acção é a luta de classes.

O FRENTISMO COMO UMA DEFESA DO CAPITALISMO

Nada de novo debaixo do sol. Quando a esquerda do capital vê a sua capacidade de recuperar a rejeição do mundo realmente existente esgotada e deixa amplamente claro que não está aqui para mudar nada, mas para que tudo permaneça como está, então deve recorrer ao bicho-papão do fascismo e resgatar os mitos da guerra civil espanhola, das frentes populares e da luta anti-fascista da caixa de lembranças.

Embora esses mitos nunca tenham sido realmente tais e o cheiro a naftalina estalinista seja um tanto desagradável, há algo que funciona sempre: semear o medo.

“Quando os maus ganharem, vais descobrir.” É essa ameaça que exalta o medo e nos coloca num futuro incerto e sombrio onde perderemos todos os nossos “direitos” e seremos subjugados por uma besta peluda. Nesse futuro, não conseguiremos manter a nossa casa, a polícia virá expulsar-nos e se protestares, todo o peso de uma lei injusta e repressiva cairá sobre ti; os jovens não poderão sair de casa, porque mesmo que tenham emprego, os preços da habitação serão mais altos do que a lua; não conseguiremos chegar ao fim do mês, apesar de trabalhar como bestas em um, dois ou três empregos miseráveis; e isso no caso hipotético de ter um emprego, porque o normal será passar períodos mais ou menos longos desempregado; esquece o lazer, esse espaço entre um dia e outro de exploração; e não tentes atravessar a fronteira, estará guardada por polícia armada em ambos os lados e serás esmagado contra a sua cerca, a tua morte saudada por um  Ministro do interior “nazi-fascista”; e horrores intermináveis que este futuro negro e horrível nos reserva… e tudo isto seria terrível, se não fosse pelo facto de tudo isto já ter sido e ser precisamente o rumo pelo qual o governo mais progressista de Espanha em muito tempo está rapidamente a caminhar de forma cautelosa. Como consequência lógica da política capitalista, o futuro (seja qual for o bastardo que governe) seguirá essa tendência e nenhuma outra. O pior é garantido por este sistema e pelo seu curso histórico, não importa quem governe.

Que nos ofereçam unir-nos e lutar todos juntos e em revolta contra um direito que não é mais do que o outro lado da moeda da esquerda do capital, é perverso. Que nos ofereçam tornar-nos um “cidadão” completo em defesa da sua democracia e dos seus direitos de papel, que são o outro lado da moeda da exploração e do tédio, é uma audácia vergonhosa. Que por fim queiram culpar-nos se essa direita vencer, que é o seu próprio reflexo sem qualquer distorção, é uma má piada.

Uns e outros continuarão a pedir-nos que ponhamos fim ao pau com que o capital nos bate e o substituamos por outro pau que continue a bater-nos. Não deixarão de gritar que os próximos criminosos que administrarem o seu esquema cortarão ambas as nossas mãos, mantendo-se em silêncio sobre o facto de já terem cortado uma delas (porque são o menor dos males) e esperando que a legislatura proceda a cortar a outra.

Não há uma escolha real entre a esquerda e a direita. São apenas as diferentes cores da mesma gestão capitalista, cada vez mais catastrófica e perversa. Não há o mal menor. Não existe uma melhoria real das nossas condições neste sistema. A nossa única opção é confrontá-lo, diretamente, na sua totalidade, de fora e contra o Estado.

Julho de 2023

 

Fonte: Nothing is chosen in elections – Barbaria

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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