Nada é escolhido nas eleições
O Grande Festival da Democracia
Recentemente, ocorreu a algum cretino
chamar as eleições de “o grande festival da democracia”, sendo verdadeiro no
sentido de que as eleições são o principal argumento de uma grande mentira que
o capital celebra de poucos em poucos anos.
Nada é escolhido nas “eleições”, além de ratificar a gestão política de um modo
de produção catastrófico (capitalismo) que nos arrasta para a destruição.
Não se escolhe sobre o aumento dos preços, não se escolhe sobre a política
energética, não se escolhe sobre o custo da habitação. Nenhuma das questões que
importa para a nossa sobrevivência, de um lado ao outro, está fora do curso da
economia política, esse mecanismo automático cujas partes componentes são a
exploração, a guerra, a miséria, que se consagra à acumulação de capital e às
necessidades de lucro de uma minoria contra o empobrecimento da imensa maioria.
As eleições servem apenas para encobrir esta realidade.
Não apenas não elegemos nada realmente
consistente, como nada é elegível no reino da mercadoria. Se nos fosse realmente
pedido para "votar" sobre se devemos ou não aumentar os preços dos
alimentos, a decisão da maioria (logicamente para os baixar) não teria
aplicação prática, sendo que a dinâmica económica do capital seria imposta pela
sua própria lógica ditatorial a qualquer "voluntarismo"
bem-intencionado.
A "escolha democrática" ocorre, na realidade, de duas maneiras:
- Seleccionando um ressentimento (leia-se, governo do dia) de oportunistas, cínicos e patifes que, colocando-se em posições supostamente antagónicas (esquerda e direita), gerirão o curso criminoso da economia capitalista, de forma análoga, ora numa ora noutra.
- Para reforçar, com um gesto vazio, um sistema que não pode ser "reformado", que cada "reforma" torna mais forte e com o qual só podemos combater através da revolução mundial, da sua organização e do seu programa histórico.
DA PUNIÇÃO AO MAL MENOR
A abstenção é muitas vezes a rainha do momento,
superando o partido mais votado. Não nos iludamos. Ou seja, sabemos que
abster-se não significa um aumento da consciência crítica em relação ao estado
actual das coisas, embora signifique outra coisa: a maioria sabe que, ao votar,
nada muda, tudo continua na sua decadência e prossegue o seu curso. É a
evidência de uma observação lógica: o cansaço de um circo sem novidades ou
diversão.
Mas o sistema precisa de legitimidade, precisa fazer-se acreditar e fazer-nos
acreditar que nele participamos, que nele acreditamos. Precisa que digamos
repetidamente que, apesar da sua desnudez óbvia, “o rei está vestido”, mesmo
que mal vestido, mesmo que pareça vulgar.
E ele precisa que votemos (mesmo que
apenas alguns), precisa das suas estatísticas e desse acto religioso e
solitário, sem debate real, sem consciência real, que é atirar um pedaço de
papel numa espécie de aquário que sabemos estar cheio de tubarões. A maneira de
“escolher” que o capital nos impõe representa graficamente a sua essência mais
cruel: atomizada, neurótica, absurda… escolher entre um punhado de mercadorias
políticas que são substancialmente as mesmas e que, sem dúvida, servirão aos
mesmos senhores.
Hoje, apenas duas motivações nos levam a
votar:
· Punir o governo que está de saída, por fazer tão mal (talvez até pior) quanto o planeado e contribuir para tornar a nossa sobrevivência mais sufocante e mesquinha.
· Escolher entre o mau e o pior, como se tal chantagem pudesse ser chamada de “escolha”.
Esta segunda opção é a principal carta na manga que será jogada novamente nas próximas eleições para tentar aumentar o número de eleitores. Ou seja, dizer-nos que um partido de certamente corruptos esquerdistas e os seus parceiros corruptos da extrema-direita representam uma ameaça maior do que um partido de esquerda que implementou as políticas mais vis e cruéis do capital, fazendo-nos passar (como se fôssemos idiotas) por uma política de progresso e defesa dos interesses dos trabalhadores.
Para isso recorrerão ao recurso habitual: implorar-nos para formarmos uma
grande frente “anti-fascista”.
Poderia, no entanto, ser-lhes apontado
que a presença das forças auto-proclamadas progressistas oferece a uma boa
parte da população um oxigénio essencial para lidar com a vida já difícil com o
capital. Mas então estaríamos a cair na sua mistificação ideológica,
acreditando que temos o poder de decidir o nosso destino dentro do estreito
quadro oferecido pelo sistema. Estaríamos a conceder a todo este grupo de
políticos capacidades que não lhes pertencem. Os seus discursos e promessas, as
suas campanhas e mentiras — tudo isto não oferece mais do que uma visão geral
das tendências já evidentes na rua. E da mesma forma que os grupos mais
conservadores não têm capacidade para provocar regressões sociais, mas sim
ratificar preconceitos racistas, patriarcais, LGBTQfóbicos, etc., já
existentes, os partidos da esquerda do capital não podem inverter as
consequências devastadoras de uma crise do capital cada vez mais aguda.
Por detrás de todas
estas medidas sociais, tanto as aparentemente progressistas como as mais
abertamente reaccionárias, nada mais se revela senão a impotência de um sistema
partidário que está condenado a operar dentro de um quadro de acção cada vez
mais restrito, e como bons comerciantes, não têm outra opção senão adornar-se
com uma comunicação apelativa que os diferencie da restante concorrência.
Mas está claro para nós: para o proletariado, o único campo de acção é a luta de classes.
O FRENTISMO COMO UMA DEFESA DO CAPITALISMO
Nada de novo debaixo do sol. Quando a esquerda do capital vê a sua capacidade de recuperar a rejeição do mundo realmente existente esgotada e deixa amplamente claro que não está aqui para mudar nada, mas para que tudo permaneça como está, então deve recorrer ao bicho-papão do fascismo e resgatar os mitos da guerra civil espanhola, das frentes populares e da luta anti-fascista da caixa de lembranças.
Embora esses mitos nunca tenham sido realmente tais e o cheiro a naftalina estalinista seja um tanto desagradável, há algo que funciona sempre: semear o medo.
“Quando os maus ganharem, vais
descobrir.” É essa ameaça que exalta o medo e nos coloca num futuro incerto e
sombrio onde perderemos todos os nossos “direitos” e seremos subjugados por uma
besta peluda. Nesse futuro, não conseguiremos manter a nossa casa, a polícia
virá expulsar-nos e se protestares, todo o peso de uma lei injusta e repressiva
cairá sobre ti; os jovens não poderão sair de casa, porque mesmo que tenham
emprego, os preços da habitação serão mais altos do que a lua; não
conseguiremos chegar ao fim do mês, apesar de trabalhar como bestas em um, dois
ou três empregos miseráveis; e isso no caso hipotético de ter um emprego, porque
o normal será passar períodos mais ou menos longos desempregado; esquece o
lazer, esse espaço entre um dia e outro de exploração; e não tentes atravessar
a fronteira, estará guardada por polícia armada em ambos os lados e serás
esmagado contra a sua cerca, a tua morte saudada por um Ministro do
interior “nazi-fascista”; e horrores intermináveis que este futuro negro e
horrível nos reserva… e tudo isto seria terrível, se não fosse pelo facto de
tudo isto já ter sido e ser precisamente o rumo pelo qual o governo mais
progressista de Espanha em muito tempo está rapidamente a caminhar de forma
cautelosa. Como consequência lógica da política capitalista, o futuro (seja
qual for o bastardo que governe) seguirá essa tendência e nenhuma outra. O pior
é garantido por este sistema e pelo seu curso histórico, não importa quem
governe.
Que nos ofereçam unir-nos e lutar todos
juntos e em revolta contra um direito que não é mais do que o outro lado da
moeda da esquerda do capital, é perverso. Que nos ofereçam tornar-nos um
“cidadão” completo em defesa da sua democracia e dos seus direitos de papel,
que são o outro lado da moeda da exploração e do tédio, é uma audácia
vergonhosa. Que por fim queiram culpar-nos se essa direita vencer, que é o seu
próprio reflexo sem qualquer distorção, é uma má piada.
Uns e outros continuarão a pedir-nos que ponhamos fim ao pau com que o capital
nos bate e o substituamos por outro pau que continue a bater-nos. Não deixarão
de gritar que os próximos criminosos que administrarem o seu esquema cortarão
ambas as nossas mãos, mantendo-se em silêncio sobre o facto de já terem cortado
uma delas (porque são o menor dos males) e esperando que a legislatura proceda
a cortar a outra.
Não há uma escolha real entre a esquerda e a direita.
São apenas as diferentes cores da mesma gestão capitalista, cada vez mais
catastrófica e perversa. Não há o mal menor. Não existe uma melhoria real das
nossas condições neste sistema. A nossa única opção é confrontá-lo,
diretamente, na sua totalidade, de fora e contra o Estado.
Julho de 2023
Fonte: Nothing
is chosen in elections – Barbaria
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis
Júdice
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