segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

PÓS-MODERNIDADE OU A IMPOSTURA DE UM FALSO RADICALISMO

 







Pós-modernidade ou a impostura de um falso radicalismo

 

 Introdução

Neste texto, pretendemos fazer uma breve crítica a alguns dos espaços comuns ideológicos do nosso tempo, lugares comuns que, por conveniência, chamamos pós-modernos. De um modo geral, podem ser reconhecidos pela ideia de que qualquer tentativa de procurar uma emancipação radical seria uma meta-narrativa, que procurar algum critério de verdade ou objectividade seria prova de arrogância e da vontade de dominar. Que não existem critérios gerais e universais para definir a realidade do mundo e, portanto, não há procura por uma libertação geral. Que tudo é subjectivo, que a única luta possível é aquela que ocorre no quotidiano, na microfísica dos poderes, sem o risco de cair em essencialismos e definições seguras que são sempre perigosas, etc.

Escrevemos este texto a partir de uma prática revolucionária e a crítica é feita a partir da influência que este tipo de abordagem e autores exercem nos activistas radicais que tentam lutar contra este mundo. Por isso, achamos importante poder discutir as imposturas que surgem deste tipo de autor. A corrente que mais introduziu este tipo de perspectiva nos "movimentos sociais" é uma versão leve e reformista do movimento autónomo histórico que tem em Toni Negri uma das suas principais referências e que fez as obras de Deleuze, Foucault, Guattari... alegados manuais de radicalismo que activistas "educados" teriam de analisar. O livro recente de Marina Garcés, professora de filosofia na universidade e representante deste tipo de correntes e ideias, expressa perfeitamente aquilo que queremos criticar. Um aparente radicalismo em formas e discursos que afirmam querer desconstruir tudo e uma impotência que nasce das premissas, como ela própria reconhece no início do prólogo do seu livro, Ciudad Princesa (p. 11):

Não sei até onde realmente lutámos. Também não sei até que ponto perdemos completamente. Sei que as ideias e modos de vida em que acredito não têm sucesso, mas também não se perdem. A geração dos anos setenta quis invadir o céu e queimou as suas asas. Aqueles de nós que vieram depois crescemos entre as suas cinzas e vimos como as chamas dos seus desejos e ideais se apagavam (...). E apenas alguns, uns poucos, continuaram a alimentar as brasas do pensamento radical e do compromisso.

Aqueles de nós que nos politizámos no final dos anos noventa não olhávamos para o céu se não fosse para descansar por um tempo.

Por outro lado, é importante perceber que, quando falamos de pós-modernidade, não estamos a estabelecer uma ruptura drástica com o que se conhece como modernidade. Na realidade, ambas as "épocas" falam da mesma coisa, do capitalismo e da sua tendência para separar a forma do conteúdo, a subjectividade da objectividade, o conhecimento da moralidade e assim por diante. O capitalismo é um sistema baseado numa forma (capital como valor inflaccionado com valor) que tende a subsumir qualquer conteúdo sob a sua égide totalitária. Tudo pode ser convertido em dinheiro como equivalente geral à riqueza, qualquer actividade humana pode ser subordinada ao império do trabalho abstracto. Desde o surgimento do capitalismo, no século XVII, as primeiras formas desta separação também começaram a desenvolver-se em formas de pensar. Referimos-nos, por exemplo, a I think therefore I am de Descartes ou ao mecanismo dos corpos políticos em Thomas Hobbes. O capital inaugura uma época que separa a vida da sua substância material, que fragmenta os seres humanos uns dos outros, bem como internamente, que destrói a comunidade humana... É uma metafísica da separação que nos coloca uns contra os outros, como o próprio Hobbes estabelece no seu estado de natureza, como a base do leviatã do estado. Esta guerra de todos contra todos, a redução da vida social à dos átomos em conflito mercantil perpétuo, a pós-modernidade tentará levar à sua máxima expressão. Na prática, a guerra de todos contra todos torna-se, em posições pós-modernas, um conflito permanente entre identidades. Racializado vs. branco, queer vs. cisgénero, trans vs. queer, etc. Quanto mais opressões, melhor! Quem dá mais nesta verborreia de privilégios que determina quem deve falar e quem deve ficar em silêncio! Desta forma, não só qualquer crítica unitária a este mundo é dissolvida, mas também a possibilidade de o transcender e ser capaz de confrontar as opressões específicas que o capital reproduz em todo o seu alcance. Só um projecto de destruição integral deste mundo através da reconstrução da comunidade humana permite tal objectivo.

Quando falamos de pós-modernidade, referimo-nos a uma ideologia e não a uma era. A era mantém-se igual, mesmo que não goste dos nossos bons adversários: o do capital e os seus invariantes categóricos, o trabalho abstracto e a mercadoria, o Estado e a democracia. Referimo-nos a uma ideologia porque é uma visão distorcida da realidade que não nos permite compreender o seu significado autêntico e, portanto, as possibilidades de a revolucionar num sentido emancipatório. Além disso, a sua produção leva-nos da Universidade da Califórnia à Sorbonne, da Sapienza em Roma à Universidade Complutense, dos campi de Buenos Aires aos de Calcutá. Portanto, não é uma ideologia simples, mas uma ideologia cujo agente óbvio são as classes médias. Académicos "radicais" nos campi traduzem opressões reais (patriarcais, raciais...) para a sua linguagem profissional para obter financiamento para os seus projectos de investigação. Uma multidão zombie de estudantes universitários, encantados e entretidos pela linguagem esotérica dos seus mais velhos, empunham com confiança arrogante as armas das suas frases mágicas e incompreensíveis, e ai de quem finge opor-se a eles. A pós-modernidade tem algo de pós-estalinismo.

Apesar de tudo o que foi dito, este texto é um texto de combate, de afirmação comunista e revolucionária, um texto de negação.

1. Uma ideologia de derrota

Antes de mais, é importante inscrever de onde vem o pós-modernismo. A ideologia pós-moderna emergiu após uma série de derrotas revolucionárias ao longo do século XX (Primeira e Segunda Guerras Mundiais), coroadas pela derrota da vaga de revoltas sociais que viria a eclodir nos anos 60: de França à Argentina, de Praga a Itália, do Uruguai a Portugal, o proletariado tentou constituir-se como partido. na classe[1] Por vezes, a nossa classe viverá processos insurreccionais muito amplos, como em Itália nos anos setenta, processos de auto-organização finalmente absorvidos como em Portugal, ou breves ocupações insurreccionais como em Córdoba (Argentina) em 1969. A derrota desta vaga de lutas, a segunda ou terceira vaga de assalto proletário à sociedade de classes (se considerarmos não só a vaga revolucionária de 1910-1937, mas também a do século XIX de 1848 a 1871) fomentará um recuo no processo de constituição do proletariado numa classe e um ressurgimento de ideologias alimentadas pelo pessimismo, individualismo e niilismo, que devoram as esperanças no proletariado e numa humanidade finalmente libertada da sociedade de classes. A ideologia pós-moderna baseia-se no facto de que uma emancipação radical pelo proletariado teria sido um pesadelo terrível que só poderia gerar monstros totalitários. Ideólogos pérfidos teriam secularizado o logocentrismo da religião judaico-cristã (em versões comunista e anarquista) e transmitido-o a proletários pobres e ignorantes analfabetos. Como podemos ver, o idealismo da operação mental está completo. Para a pós-modernidade (como para todo o pensamento moderno e burguês), o comunismo ou o anarquismo não são um movimento real que tenta afirmar as necessidades humanas contra o capital e a sua exploração, mas sim uma construção mental muito equivocada e errónea. É uma sorte que os nossos ilustres professores parisienses e californianos tenham vindo despertar-nos da nossa ignorância juvenil.

A pós-modernidade é, ao mesmo tempo, uma ideologia de renúncia e pessimismo. Sob o seu aparente radicalismo (que é o gancho com que seduz as classes médias em busca de novas meta-narrativas), não passa de uma renúncia a qualquer tentativa de transformar realmente e globalmente este mundo. Daí o recuo para a micropolítica e a política identitária. Dizem-nos que pequeno é bom e totalitário total. À medida que a derrota contra-revolucionária sofrida pelo proletariado nos anos 70 adia a necessária mudança revolucionária que virá, a necessidade torna-se uma virtude e a derrota uma condição naturalizada. É por isso que pessimismo e renúncia são inseparáveis e, ao mesmo tempo, estão ligados a uma concepção exultante das diferenças, da particularidade cultural e da escolha individualistado diverso e do heterogéneo, do molecular e do esquizoide, do instável e do indeterminado, do cepticismo em relação a qualquer critério de verdade e de relação com objectividade e totalidade social. O mundo é estranho e cruel. Ela subsume-nos e aliena-nos, mas não compreendemos a razão das suas bases materiais e apenas é dada uma explicação ideológica e teórica. Típico, por outro lado, daqueles que fazem do pensamento isolado a sua profissão, como se o carácter total do capital fosse simplesmente um problema mental e bastasse não pensar nas suas dinâmicas impessoais e totais para que não subsumisse as nossas vidas. Os pós-modernistas têm algo estranho e infantil: bastava fechar os olhos para que o capital simplesmente deixasse de existir. É pena que estas sejam más realidades que afectam as nossas vidas (o capital nos seus movimentos) e não as alturas dos discursos académicos a que os protagonistas da nossa telenovela estão habituados, cujas palavras acreditam estar a construir o mundo de forma performativa.

Esta ideologia de derrota e diferença está ligada às filosofias pessimistas do ser, nas quais alguns dos teóricos referenciais dos autores pós-modernos (Nietzsche, Sartre, Heidegger, Schopenhauer) são referenciados. Ser é uma entidade abstracta da qual a essência está separada por um lado e a existência por outro. A ideologia pós-moderna absorve o idealismo e o pessimismo desta filosofia. Ele acredita que a linguagem é usada para criar o mundo material (ao contrário de uma visão materialista onde o mundo real é usado para explicar o mundo; Marx, Engels, Bakunin ou, noutro sentido, Aristóteles).

A pós-modernidade como palavra nasceu de um livro de François Lyotard, um filósofo francês, que tinha sido membro do grupo francês de extrema-esquerda Socialisme ou Barbarie, liderado por Cornelius Castoriadis. Lyotard opôs-se à ideia de Castoriadis de poder conceber uma teoria revolucionária que renunciasse ao marxismo, pelo que fundou, com outros camaradas, a organização Pouvoir Ouvrière. No entanto, alguns anos depois renunciou ao marxismo e especialmente à revolução, escrevendo um pequeno livro onde sintetizou alguns dos pontos comuns do pensamento pós-moderno.

França e Estados Unidos têm dois focos importantes neste pensamento. São um grupo de autores variados, com níveis teóricos e trajectórias muito diferentes, mas que, sem dúvida, têm algo em comum. Um dos aspectos decisivos é a renúncia militante, contra falar da centralidade do proletariado como uma classe revolucionária que é a única capaz de acabar com o domínio do capital (que é algo mais profundo do que um sistema de privilégios, como os nossos "teóricos" parecem entender mal), ou a renúncia à realidade da natureza humana como o mal dos males. Pelo contrário, o núcleo das pessoas é o contexto social e histórico, um reducionismo cultural e a hipertrofia dos discursos que moldam de forma performativa a vida dos sujeitos.

Como dissemos no início, o pós-modernismo é uma ideologia nascida na academia das correntes pós-estruturalistas francesas. Estes, após a crise do marxismo académico e político[2] e a crise do estruturalismo (do peso absoluto que deram às estruturas económicas e históricas, depois de terem feito dos seres humanos meros suportes, pernas de uma mesa sobre a qual se erguiam estruturas) dão origem a uma fuga para o aparentemente oposto: é o momento do molecular, do capilar, do pequeno, dos desejos, do periférico, do específico, dos dispositivos de subjectivação. Na realidade, é um movimento de pêndulo que tem como pano de fundo a derrota política do proletariado nos anos 70. A universalidade abstracta do marxismo enquanto ideologia, permeada pelo cientificismo e politicismo, de reduzir o proletariado ao apoio do capital, começou na verdade a entrar em crise com a ascensão do proletariado nos anos 60. Com a derrota destes últimos, os seus autores estruturalistas (os Althussers, Foucault, Derrida, etc.) tornar-se-ão os promotores do pós-estruturalismo, do pós-modernismo. Além disso, é muito importante compreender que a universalidade postulada pelo cientificismo marxista e pelo progressismo e pelo estruturalismo, de outra forma, não é o tipo de universalidade que o proletariado carrega como negação da propriedade e das classes sociais. É a partir desta verdade, a da peste do marxismo como ideologia, que o pós-modernismo constrói a grande mentira do particularismo, que nada temos em comum, que no fim a dominação estará sempre presente. Os universais do marxismo nada têm a ver com os do proletariado em acção.

Vamos explicar-nos melhor: a pós-modernidade perante as ideias de universalidade, perante a história, contrasta a impossibilidade de fazer uma história e uma teoria universal. Este aspecto é muito interessante porque a crítica académica ao marxismo implica a rejeição de qualquer concepção teórica forte, baseada em princípios, em meta-narrativas significativas (por exemplo, as condições materiais reais do capitalismo serem mundiais. Se toda a história tem interpretações subjectivas, como poderíamos confrontar o capitalismo se não vemos que ele tem uma base mundial que é histórica?). Eles fogem como a peste de todas as concepções gerais, são alérgicos aos universais humanos e teóricos.

2. Uma ideologia do indivíduo

A pós-modernidade baseia-se na subjectividade de cada pessoa, na verdade individual, razão pela qual não existem verdades absolutas. Na verdade, acusa verdades universais de serem totalitárias, de serem imponentes. Tudo isto é resultado do cepticismo de uma teoria que não pretende colocar a nossa própria existência social num quadro mais amplo, porque incluiria a especificidade do indivíduo e dos diferentes agrupamentos identitários; para o pós-modernismo, o facto de o ser humano ser um ser social é explicado como algo meramente discursivo e não algo material real. É o mundo do capital que nos envolve. Talvez haja uma gama mais ampla de opções nos campi californianos, mas milhões de proletários não têm a mesma sorte de poder escolher esta perspectiva. A nossa vida é determinada por uma forma material oculta mas muito real (temos de enfrentar condições cada vez piores para sobreviver diariamente: empregos que nos sufocam, habitação inacessível ou que nos isola dos outros, relações superficiais mediadas pela mercadoria, etc.).

Esta visão do mundo não pode aspirar à emancipação global das pessoas, não pode aspirar a ser pensada como um todo, numa comunidade real, só pode ser pensada de forma identitária, separada do resto. Isto é palpável nas lutas sociais dos últimos anos, na incapacidade de compreender outros proletários no resto do mundo como aqueles que têm as mesmas necessidades que nós e são uma expressão da mesma luta, o que causa falta de solidariedade por parte do resto do proletariado, ao contrário do que a nossa classe tem feito ao longo da história.

Pensar que todos podemos tornar-nos iguais (como afirma a democracia) ou pensar que somos todos totalmente diferentes (como os pós-modernistas) é um claro exemplo de uma falsa dicotomia: dentro das nossas diferenças há coisas que nos unem e que partilhamos como espécie, temos as mesmas necessidades para viver. A igualdade democrática ideal é que todos sejam iguais, o comunismo não luta pela igualdade ou equidade de raça ou género, uma vez que estas construções são socialmente funcionais para o mesmo sistema que delas precisa; Portanto, a revolução não deve contemplar a sua preservação e "transformação positiva" porque a sua luta contra a civilização/sociedade de mercadoria implica a destruição de todos os seus alicerces. O comunismo não luta pela igualdade ou equidade de género ou raça, uma vez que estas construções são socialmente funcionais para o mesmo sistema que delas necessita; Portanto, a revolução não deve ser contemplada para a sua preservação e "transformação positiva", pois a sua luta contra a civilização/sociedade de mercadoria implica a destruição de todas as suas bases categóricas, morais, científicas, religiosas e legais. O comunismo não pretende acabar com a opressão deste mundo através dos ingredientes da tarte das mercadorias (distribuindo quotas proporcionais por raça ou género), quer transformar radicalmente os ingredientes da "tarte" da vida humana. A exploração é a mesma coisa em todo o mundo – extrair mais-valia – isto une todos os operários, independentemente da sua língua, sexo, idade, cor ou orientação sexual. O capitalismo não é um sistema de "opressões", mas sim um sistema de exploração que rotineiramente cria discriminação e opressão porque, como em qualquer sistema de exploração, é da sua natureza fazê-lo para manter a sua dominação.

É uma ideologia liberal, porque reivindica o direito do indivíduo de escolher livremente o que quer ser (dentro das opções do capital, claro). É a revolução do indivíduo que é livre para se reivindicar como mulher, homem, género fluido ou não conformista, que aspira ser reconhecido e tornado visível. Por quem? Do Estado, do antigo Estado, com as suas instituições e interesses de classe que estão um pouco fora de moda. Desde a microfísica dos poderes até à reivindicação do Estado de direito, não existe apenas uma relação lógica, mas um caminho percorrido de facto pelos nossos brilhantes pós-modernistas: do radicalismo verbal à facticidade do poder do capital. Pensar que os problemas sociais têm solução individualmente não faz sentido, não basta usar linguagem extremista ou mudar hábitos individuais. Como já disse Cuadernos de Negación: "Nunca recomendaríamos "soluções" individuais para problemas sociais. A percepção individual de um problema não torna o problema uma questão individual." (Cuadernos de Negación, n.º 8). Fazer isto só reduziria tudo o que é concreto a algo abstracto: a escolha individual de ser o que quiseres, de escolher entre as mercadorias que te são oferecidas. Compreendemos que é frustrante, que nos faz sentir pequenos, sentir problemas todos os dias, problemas que não conseguimos resolver isoladamente, individualmente. Mas pensar o contrário só criaria uma miragem de que as nossas vidas são radicais e que estamos no poder de decidir se a indústria da carne vai por água abaixo ou se acaba com o aquecimento global a pé para o trabalho, para dar um exemplo. Além do facto de não ser possível resolver problemas sociais individualmente, também é uma treta. Mesmo que pudéssemos resolver as coisas individualmente, fá-lo-íamos-lo como os indivíduos fazem: de forma isolada, sem apoio, com dinâmicas competitivas e meritocráticas (toda a culpa interiorizada que se expressa, por exemplo, na consciência ambiental: não fazes o suficiente, tens de te esforçar mais, olha como eu faço...) O indivíduo é péssimo, é a própria base desta sociedade. O facto de o problema social ter de ser resolvido colectivamente é o que torna possível recuperar a nossa vida humana real, a comunidade humana mundial.

O pequeno é validado contra o grande, o subjectivo contra o objectivo, o molecular contra o molar, o múltiplo contra o um, etc. Com isto, o que é impossível é poder falar sobre algo tão importante como a espécie humana e as suas necessidades. A pós-modernidade é uma ideologia de separação e fragmentação, de desunião e rejeição virulenta do que podemos constituir enquanto classe. É uma ideologia obcecada com a multiplicidade das culturas humanas e não com a compreensão de que os seres humanos são naturalmente culturais, obcecados pela multiplicidade de línguas e não pelo facto de sermos seres linguísticos, obcecados pelas diferenças e não pelo que nos une na nossa diversidade. Além disso, reduz-nos ao localismo e, por isso, impede um verdadeiro internacionalismo, um internacionalismo que nada tem a ver com o espectáculo multi-culturalista pós-moderno. Esta preocupação com a singularidade é sempre, em última análise, a singularidade de indivíduos isolados e concorrentes, à medida que diferentes sujeitos (feminino, racializado, homossexual) competem entre si.

Na realidade, o pós-modernismo será uma reacção compreensível à visão sociológica que a social-democracia tem do proletariado. No entanto, reagirá respondendo com novas formas de social-democracia, já que a antiga já estaria muito "desgastada" pela relativa deslegitimação dos PCs e do estalinismo graças a 1968. Para isso, fará uma viagem de ida e volta desde o identitarismo do macaco azul no discurso operário até à variedade de identidades que emergem para se completar com outros sujeitos de opressão. Assim, se o trabalhismo deixava as mulheres de fora, tudo ficava resolvido! A identidade feminina é acrescentada. Se ele deixou de fora os não-brancos, aqui está a identidade racial... Agora que a identidade dos operários perdeu peso, são adicionados cada vez mais temas de opressão: opressão autista, identidade louca, identidade gorda, etc. É interessante sublinhar, como já indicámos acima, a relação íntima entre o surgimento destas ideologias e as fraquezas e limites do próprio movimento do proletariado, fundamentalmente em relação ao peso do obreirismo e do economicismo em períodos de lutas anteriores. Não romper com a concepção social-democrata do proletariado permitirá o surgimento de todas estas categorias, que funcionam com a mesma lógica fetichista do obreirismo.

Por outro lado, acreditamos que também seria interessante reflectir sobre a integração. Como analisaremos mais tarde em relação à ideologia racializante (que é uma das múltiplas derivas da pós-modernidade), o seu objectivo final é a integração no mundo do capital. Procurar reconhecimento para melhorar as condições de vida dentro do capital é entrar na dinâmica da competição individual para sobreviver, em vez de procurar uma emancipação comum. Isto é também o caso de alguns dos discursos que estão a emergir em Espanha em relação à raça versus a força de movimentos como as banlieues (periferias) em 2005, cuja força residia precisamente no facto de não procurarem a integração. Neste sentido, o racialismo será na realidade nada mais do que uma forma objectiva de domesticar as lutas dos proletários "racializados". O mesmo que dizemos sobre o racialismo é análogo ao que podemos argumentar sobre os feminismos pós-modernos e a sua tentativa de desconstruir a "categoria" da mulher.

Por isso, não é arriscado manter que a ideologia pós-moderna é uma teoria liberal, uma teoria do indivíduo que reforça o capitalismo.

É importante salientar que estas teorias são o caminho para recuperar o radicalismo que muitas das pessoas que nelas se envolvem procuram. Esta recuperação não é ideal, mas é muito real, como se expressa no carácter contra-revolucionário do racialismo, porque não aspira à libertação total da classe e da espécie humana. Antes, tornam-na impossível e enfraquecem a luta ao canalizá-la para um nível legalista e institucional.

3. Frentismo e interseccionalidade

No campo activista, a ideia de que existe uma série de lutas heterogéneas combinadas em "frentes de luta" é generalizada, como se fossem lutas separadas e dissociadas, paralelas e autónomas, que em princípio nada têm a ver umas com as outras (raça, sexo, anti-especismo, ambientalismo, etc.). A união destas lutas em frentes chama-se interseccionalidade (aquelas pessoas ou lugares onde uma série de opressões se junta). Não há ideia de universalidade e singularidade destas lutas, porque isso seria essencialista.

Isto elimina totalmente a concepção de classe, pois a partir daí é impensável ter a mesma luta material para satisfazer necessidades humanas análogas que liga as lutas proletárias em Marrocos às do Iémen, as da região espanhola às da Argentina, as do proletariado afro-americano aos proletários curdos. Tudo é particular e fragmentado. Esta é outra razão pela qual esta ideologia é derrotista: um pensamento que parte do que nos separa não é capaz de pensar na emancipação universal. Como dissemos nas Notas sobre o Patriarcado no Capitalismo:

Esta divisão só pode ser entendida do ponto de vista da comunidade humana e do comunismo como um movimento histórico. Neste momento, a social-democracia está a fazer todos os esforços para colocar a luta de classes e a divisão entre homens e mulheres, bem como a divisão de raças, práticas sexuais, etc., ao mesmo nível. No entanto, esta afirmação é a melhor forma de negar a possibilidade da comunidade humana, pois para a alcançar teria de lidar não só com o capitalismo e as classes sociais, mas também com toda a diversidade que existe na espécie (cf. teoria queer). Pelo contrário, a única forma de destruir essa máquina de morte e miséria que é o capital é a luta de classes e, através dela, a negação de todas as classes. No entanto, esta luta não é apenas a luta do proletariado contra o capital, mas também a sua luta para unir o que foi separado dentro da classe. A única forma para o proletariado o fazer é confrontar as divisões impostas pelas sociedades de classes, incluindo a divisão entre homens e mulheres.

A pós-modernidade espalhou a ideia de que o que se tem a fazer com as opressões é desconstruir-se, o que não passa de se analisar discursivamente e conceptualmente. O que é a desconstrução? É um conceito absolutamente nominalista. Promove a capacidade omnipotente da consciência (claro, individual) de romper com as relações sociais que nos "constroem", que nos constituem. O problema não está em reconhecer que o que somos é largamente determinado pelas relações sociais que estabelecemos e que nos estabelecem, por assim dizer, embora isso permita ao pós-modernismo negar qualquer ideia de natureza ou biologia. O problema é acreditar que o pensamento e as formas de agir, que procuram uma solução que substitua as relações actuais, podem mudar "pouco a pouco" a totalidade das relações mediadas e sujeitas ao contexto histórico e social desta época, chegando ao absurdo de afirmar mesmo que a luta internacional da classe não é necessária para destruir as estruturas e os seus métodos em voga. É, aliás, a melhor forma de se justificar na própria função material: reproduzir a ideologia dominante a partir de uma cátedra universitária.

Mas o que acontece uma vez que eu tenha desconstruído o meu sexo? Isso vai afectar atomica e materialmente o que sou? Vai mudar-me o tom de pele ou os traços faciais se desconstruir a minha “raça”? Voltaremos a estas questões quando nos debruçarmos sobre a Santa Trindade pós-moderna: classe, raça e género.  

4. E se o capitalismo não fosse apenas mais uma opressão?

A pós-modernidade é alérgica à totalidade. Pois não haveria centro que configurasse a nossa realidade social. O seu interesse pelo exótico, pelo pequeno, pelo anómalo, pelo desviante, pelo incomparável, o grotesco, etc., levou-o a abandonar o elemento central configurador, o capital como a relação social estruturadora desta sociedade sem a qual nada se compreende, mesmo que não explique tudo.

O pós-modernismo resulta numa concepção de capitalismo diferente daquela concebida por Marx e pelo movimento proletário. Como já dissemos antes, para os pós-modernistas afirmarem algo como se fosse uma verdade total é errado, é totalitário, fascista. Mas, infelizmente, o capitalismo é mundial, por isso não pode ser parcialmente enfrentado. E, de facto, é essencial perceber que não estamos a falar de uma opção estética, não se trata de postular quão más são as grandes histórias e que é preferível ter um mundo fragmentado em múltiplos atornos moleculares que convergem de forma federal e harmoniosa através dos fluxos desejosos dos seus corpos, e que isso não aconteceu devido a um erro teórico terrível que tem origem na decadência do Filosofia grega ou no pensamento judaico-cristão. Não estamos a falar de ideias separadas dos processos materiais globais. O capital é uma totalidade em si mesmo, não é produto de grupos humanos que precisam de se compreender com meta-narrativas globais.

Uma das características do pensamento pós-moderno é o seu formalismo. O inseparável é dividido numa multiplicidade de fragmentos e, ao tentar juntá-los novamente, chama-se interseccionalidade. Na realidade, o que se faz é dissecar um cadáver e depois voltar a montá-lo artificialmente, sem deixar de ser um cadáver, por mais conceptual que seja todo o processo. Explicamo-nos um pouco melhor, porque somos confrontados com um dos lugares comuns do pensamento pós-moderno.

O capital é uma relação social histórica que emerge de dois processos combinados. Por um lado, o mundo torna-se capital através da criação de relações sociais capitalistas de produção, que separarão os camponeses da terra e os forçarão a vender a sua força de trabalho como novos proletários. Este processo terá origem na Europa feudal e em Inglaterra em primeiro lugar. Por outro lado, o capital torna-se mundial através da sua extensão a todo o globo, que verá um salto de qualidade com a chegada de castelhanos e portugueses à América, com o consequente genocídio. O capital emerge do sangue e do saque, como Marx recordou, e é importante não separar os dois processos porque, sem a combinação de ambos, o actual sistema de exploração simplesmente não teria surgido.

O capitalismo que começou a emergir então, a partir do século XVI, é uma realidade muito diferente das formas de capital ante-diluviano e imperfeito que podiam existir em sociedades pré-capitalistas anteriores. As formas de capital usurário ou de mercadoria não tinham por trás de si uma substância social, o trabalho abstracto, que igualasse todo o trabalho e actividades concretas ao nível social, o que permitiria que a natureza do capital (um valor inflaccionado com valor) se reproduzisse graças à substância social contida no valor excedente produzido pelo trabalho assalariado. O capital é então uma relação social impessoal e aparentemente automática (mas que na realidade é alimentada pelo trabalho abstracto como substância social, o que torna o antagonismo entre capital e proletariado central) que, nas suas diferentes metamorfoses sociais, invade e reconstrói todo o alcance das antigas formações sociais pré-capitalistas. Este não é o lugar para se deter numa explicação mais detalhada e profunda. O importante é perceber que o capital não é algo económico, é a relação social que configura nas suas metamorfoses a totalidade social da modernidade, aquela que separa o mundo social, rompendo com as comunidades pré-capitalistas, o mundo privado e o mundo público, a economia e a política, o mundo do trabalho do cidadão, etc. Da mesma forma, configura à sua imagem e semelhança, a lógica abstracta do dinheiro e da troca, o patriarcado das sociedades pré-capitalistas (isto não pode ser compreendido senão como o capital o configurou, e este mal-entendido é uma das explicações teóricas dos limites social-democratas de todo o feminismo) ou as divisões raciais da modernidade capitalista. A opressão escrava da modernidade capitalista não pode ser compreendida sem atender ao comércio triangular entre as diferentes regiões do capital desde o século XVI.

Então o capital aparece-nos como um todo único, mas diferenciado. Claro que não negamos a especificidade do governo patriarcal ou do racismo tipicamente capitalista. O que recusamos aceitar é que estas partes possam ser separadas do todo. Separados, são incompreensíveis. A soma das partes não é igual ao seu produto. E é isto que acontece a todos os teóricos pós-modernos com a sua obsessão por estudos raciais, neo-coloniais, de género... São teoricamente incapazes de restaurar a realidade de dominação e exploração que nos domina. Só conseguem reconstruir um cadáver inanimado que existe apenas nas suas cabeças.

Desta forma, a brutalidade impessoal e semi-automática do domínio do capital é reduzida a uma mera questão de privilégios. Eu, como operário branco cisgénero, tenho mais privilégios do que aquela que é operária branca cisgénero, que deverá calar-se perante uma mulher branca lésbica mas que, por sua vez, mantém privilégios em relação a uma mulher racializada árabe… E assim num absurdo e impotente jogo de bonecas russas.

A parcialidade obsessiva deste mecanismo mental é incapaz de compreender e alterar a totalidade do capital. Como dissemos no início do nosso texto, trata-se de uma concepção substancialmente pessimista que não acredita na possibilidade de uma mudança total. Estão contra os grandes relatos, as utopias já não existem, o mundo não pode ser mudado globalmente, pelo que é necessário agir em pequena escala, através da micropolítica, de pequenos relatos, contos, narrativas corporais. Estão realmente convencidos de que se pode mudar o sistema capitalista apenas numa parte do mundo? Na realidade, abandonaram há muito essa pretensão. Além disso, o capitalismo é reduzido a um privilégio entre outros, o classismo, transformando-se numa opressão entre outras, como o racismo, o sexismo, o capacitismo, etc.

Desta forma, o capital é omnipotente. A única coisa que se pode fazer é resistir ao poder, um poder que se configura pelas suas normas e contra o qual é combatido desafiando-o através de discursos identitários: mudar o sexo, subverter tudo em palavras para que nada substancial e real mude porque, na realidade, a partir das premissas, é impossível.

Os pós-modernistas têm alguma ideia de emancipação, de um lugar para onde queiram ir? Criticam tudo, mas a que aspiram? Provavelmente não aspiram a algum lado, mas simplesmente a ter a possibilidade de escolher situações. Parece que esperam que a nova opressão seja descoberta e o mais radical é criticar a crítica ao último filósofo da universidade. A pós-modernidade é uma deriva de questões fluidas em que te desconstróis e pareces desmaterializado sem sequer saber como chegaste a este mundo, ou se realmente existe um. Não há verdade em que me apoiar. Se o que se pretende é contradizer por ser contrário, não faz sentido porque não há base firme para se apoiar; Palavras e realidade têm de estar em acordo, caso contrário falamos um discurso vazio. Chamam-se a si próprios radicais, mas por terem esse nome, não são de repente radicais.

5. Uma ideologia nominalista

Como dissemos antes, para os pós-modernistas, a realidade é o que se diz. Os pós-modernistas vivem numa hipertrofia cultural e linguística. Os seres humanos são páginas em branco moldadas pela cultura de cada lugar e pelos discursos linguísticos. A música idealista desta canção já deve ser-nos familiar.

Para os nossos pós-modernistas, a realidade que habitamos em segundo plano está desligada do mundo das ideias ou do famoso "Penso, logo existo", mesmo do mundo criado pela ideia de Deus. Não estão assim tão distantes da ideia de que a natureza é feita pela nossa linguagem. Para os pós-modernistas, tudo é linguagem, tudo é cultural. A realidade é construída, ou talvez devêssemos dizer criada, pela linguagem e pela cultura: a realidade é o que se diz. Desta forma, somos levados a duvidar de tudo o que é material, somos levados a duvidar até que os hormônios e o sexo tenham algo a ver com o facto de ser homem ou mulher, somos levados a duvidar tanto da matéria que podemos questionar se talvez amanhã acordaremos cangurus. Dizem-nos repetidamente que a natureza é feita pela nossa linguagem, mas o facto de os seres humanos se terem expandido até aos confins do mundo e influenciado o crescimento e a distribuição das plantas pelo globo não significa que tenhamos criado a natureza.

Como tudo é linguagem, tudo depende da subjectividade do indivíduo. A pós-modernidade é a expressão típica da antropologia do capital, do seu individualismo e da sua separação. Tudo é uma representação, é por isso que a realidade não existe e tudo é subjectivo. Então, o que é a realidade material? O que é sentir fome, sentir dor? Não são estas coisas que todos sentimos?

Como podemos ver, é uma ideologia estranha que, se por um lado se declara materialista, na realidade está impregnada de fundamentos idealistas. Uma concepção que desloca o centro de interesse do capital como uma relação social total (que, portanto, não pode ser reduzida a algo económico, como tanto marxistas como pós-modernistas acreditam com igual fé) para a sexualidade e a linguagem. E não porque a sexualidade não seja um aspecto enormemente importante para pensar na libertação humana sob a égide das sociedades de classes, mas porque concebê-la como uma substância separada das dinâmicas mais globais faz dela uma substância morta, moldada de forma performativa pelo capital. O que acontece aos protagonistas da nossa telenovela. E o que podemos dizer sobre uma concepção de linguagem auto-referencial, que, em vez de estar aberta e em comunicação constante com o mundo e com a nossa prática nele, nos afasta, separa-nos dele e depois a recria. No início, era a Palavra, diz o Génesis bíblico, e o mesmo se repete pelos nossos pós-modernistas. As suas bases teóricas, tal como as da modernidade capitalista por outro lado, são em grande parte escolásticas, e encontram-se referenciadas em nominalistas como Ockham e formalistas como Scotus, como alguns deles um pouco mais conscientes, como o próprio Deleuze, reconheceram.

6. Género, raça... classe?

Já falámos do famoso tríptico "género, raça, classe" como elementos separados que não teriam relação a priori e só estariam ligados a posteriori devido a sábios interseccionadores académicos. Esta tríade é, na verdade, algo semelhante à Santíssima Trindade para os católicos, uma questão de Fé que não pode ser questionada a menos que se queira ser excomungado da Igreja académica e politicamente correcta da esquerda (em todas as suas versões, incluindo a "anarquista"). Na realidade, a pós-modernidade tem muito pós-estalinismo ao nível do activismo político, como já antecipámos. Desta tríade surgem muitas outras opressões (frentes que se abrem): especista, capacitista, activismo gordo, etc. É importante não esquecer nenhum deles neste jogo interminável de privilégios e contra-privilégios.

Género

Antes de mais, é importante notar que estamos cientes da existência de pessoas intersexo, que possuem órgãos sexuais intermédios entre homens e mulheres, bem como as suas hormonas. No entanto, não acreditamos que a pequena percentagem destas pessoas seja a que deva ditar a norma da reflexão, que já é algo tipicamente pós-moderno, tornando as margens o centro da teoria. As teorias pós-modernas do género são lideradas pelo feminismo da terceira vaga.

É um facto que a sociedade nos impõe um estereótipo de homem e de mulher, basta ver a publicidade e os filmes para nos apercebermos. Este estereótipo muda com o tempo? Sim. Há diferentes maneiras de ser homem e mulher, diferentes costumes? Sim. É possível deixar de ser homem ou mulher só porque se tem outro nome? Não, ser homem e mulher não é uma identidade, é um factor material, é, de forma inseparável, uma realidade biológica, cultural, social e histórica.

pensamento heterossexual de Monique Wittig e outros escritos são um claro exemplo do que é a pós-modernidade. Um texto em que se assume que as mulheres lésbicas não são mulheres lésbicas. As mulheres lésbicas não são mulheres, são desertoras do seu género? pelo facto de serem lésbicas. Não são servos dos homens, por isso são rebeldes. Este é um exemplo de discurso revolucionário falso, onde identidade e parcialidade são usadas para "unir" um grupo de mulheres através das suas práticas. Mais uma vez, isto leva-nos a uma resolução individual do problema, que, como já dissemos, reproduz a ideologia liberal do capitalismo: "Ser lésbica é construir outros mundos, é esculpir novas realidades"

[O] como podemos explicar a mudança da reivindicação de direitos universais ("Nós, as Mulheres") para uma teoria do discurso e das normas de poder que chega ao ponto de questionar os próprios conceitos de "mulher" e "natureza humana"? No seu Manifesto Ciborgue, Donna Haraway, no seu estilo poético-delirante característico, oferece uma exposição sintética desta evolução: "Uma vez reconhecida, após grande esforço, o seu carácter social e historicamente condicionado, nem género, nem raça, nem classe social podem fornecer uma base para acreditar numa unidade 'essencial'. Não há nada em ser "mulher" que crie um vínculo natural entre mulheres. Porque não existe, nem sequer existe algo como um 'ser' feminino, uma categoria em si extremamente complexa e que foi construída em discursos científicos que são por sua vez objecto de controvérsia" (Donna J. Haraway, The Cyborg Manifesto)

("A ofensiva dos estudos de género"
Cul de Sac)

E é inegável que a opressão das mulheres tem uma origem social (é o que os estudos académicos da moda chamam género), mas elas são oprimidas enquanto mulheres, o que implica o tipo de corpo que têm. E é isto que separa estas concepções pós-modernas do medo patológico que têm de tudo o que lhes soa biológico, natural (separação entre sexo e género). O controlo do corpo, da sexualidade, da capacidade de dar vida e educação é a base natural sobre a qual o patriarcado se constrói historicamente e em todas as formas em que foi configurado. Assim, para compreender a génese e a realidade da opressão patriarcal contra as mulheres, é essencial eliminar o dualismo pós-moderno, que separa o biológico do cultural e, de facto, reduz o primeiro ao segundo, operando assim a típica redução idealista do corpo à alma. Vamos explicar-nos melhor: para os pós-modernistas é a forma cultural que importa, o corpo físico e biológico é apenas um epifenómeno da vontade. É essencial rejeitarmos esta separação. Corpo e mente, vida material e cultura não podem ser entendidos como substâncias independentes. É a realidade biológica e invariante das mulheres ao longo dos milénios e em diferentes culturas que configura um substracto comum que, em alguns casos, actuará como um prius social e comunitário positivo (pense nas sociedades comunistas do Paleolítico ou Neolítico) e, noutros casos, uma razão para disputa e opressão. com o desenvolvimento de sociedades patriarcais, classistas e estatistas. Esta complexa interligação de aspectos naturais e sociais construiu uma multiplicidade diferente de formas de ser mulher ao longo da história humana. Mas a multiplicidade de formas não nega o facto de um ser comum como as mulheres, da mesma forma que a multiplicidade de culturas que nós, seres humanos, habitámos, não nega a nossa humanidade comum.

Na realidade, o pensamento pós-moderno opera com binomiais muito simples e dicotómicos. Como existe uma multiplicidade de formas pelas quais o "género" é representado e vivido ao longo da história humana, deduzem que ser mulher pode ser desconstruído e desaparecer como categoria. Mas ser mulher é muito mais do que uma categoria, da mesma forma que o ser humano é. Na realidade, toda a teoria do "género" pós-moderno, começando pela visão "refinada" de Butler, é uma forma de "construtivismo social" herdada das teorias foucaultianas, que reduz as realidades materiais pesadas a meras afirmações discursivas: o médico com o seu aparelho de poder é quem ordena o sistema de género, quando anuncia que tu és um rapaz e tu uma rapariga, Diz-nos Butler.

 Raça

O capitalismo é racista porque constrói uma identidade a partir da nação: a "raça", ao contrário do que explicámos anteriormente sobre ser homem e mulher, não é um factor material no sentido biológico. Pelo contrário, trata-se de uma fetichização de uma série de traços fisionómicos (cor da pele, forma do rosto ou do cabelo, etc.) para estabelecer grupos de semelhanças a partir dos quais impor uma hierarquia nacional-racial. O principal objectivo desta hierarquia é o de todo o nacionalismo: a separação do proletariado para ser melhor explorado. O papel histórico que o racismo desempenhou é claramente evidenciado: veja-se, por exemplo, a revolta do proletariado negro e branco nos Estados Unidos no final do século XVIII e a consequente política estatal de separação racial, de mãos dadas com o desenvolvimento da democracia branca.

No entanto, este papel é demasiado facilmente esquecido para afirmar que a "raça" é um eixo distinto de opressão que não pode ser assimilado pela classe. Desta forma, entende-se que raça e classe são substâncias separadas que se cruzam, na mesma lógica forense que mostrámos anteriormente. Assim, o racialismo é aquela parte do pós-modernismo que coloca o grupo nacional-racial acima de todas as considerações de classe.

Um grande problema com a racialização das ideias é que isso as leva a defender a cultura e a história acima de tudo, independentemente de serem sexistas ou de reproduzirem a dominação de classe. Desta forma, a figura de Atahualpa ou o papel das religiões é justificada independentemente da terrível exploração que suportam. A raça, como dizemos, implica o mesmo jogo que o da nação, é uma justificação da exploração do proletariado enquanto for a "nossa" exploração e não a de outra burguesia mais forte.

Nesta parte, parece-nos importante demorarmo-nos brevemente num livro sintomático do reaccionário. É o livro de Houria Boutedja: Os Brancos, os Judeus e Nós. Um livro que também está a causar impacto significativo em ambientes "radicalizados". Na realidade, o livro é um conjunto de banalidades estalinistas onde o obreirismo rançoso, a lógica "anti-imperialista" e "anti-ianque" dos partidos comunistas e dos marxismo-leninismos de diferentes tendências numa chave de raça social. O que quer que a minha raça faça é aceitável na luta contra as outras raças. Se Ahmadinejad diz que realmente não há homossexuais no Irão, é digno de admiração, porque está a desconstruir a lógica do Império e dos Estados Unidos quando diz que não tortura. Os meus amigos são meus amigos e tens de estar com eles até ao fim, e a amizade é uma questão de raça. A lógica do mal menor é contínua. Aqueles que ousam criticar a Venezuela de Chávez e Maduro não passam de brancos vestidos de descolonizadores... Numa "lógica amorosa" (Pois uma política do amor revolucionário é o subtítulo deste texto) ele propõe também uma aliança entre judeus e brancos não racializados (não nos esqueçamos que o mundo é construído acima de todas as raças), pois trata-se, antes de mais, de construir movimentos autónomos racializados, após os quais será possível a aliança com a esquerda branca. Na realidade, o aparente radicalismo do discurso é uma mera versão pós-moderna do discurso da frente popular da social-democracia tradicional. É necessário acumular o próprio poder para depois negociar uma integração na sociedade capitalista, uma sociedade certamente pouco nomeada, e quando isso acontece é considerado um mero epifenómeno da civilização ocidental. No estilo pós-moderno mais puro, a materialidade sucede as ideias.

Em suma, como dizemos, o livro não passa de uma acumulação de lugares comuns que recordam o pior dos movimentos burgueses de libertação nacional, de carácter estalinista, dos anos sessenta e setenta, todos temperados para além de palavras de ordem religiosas e homofóbicas, de compreender o próprio machismo porque é o meu. Obviamente, falar sobre o facto de que, nas suas amadas comunidades, existem linhas de classe que as fragmentam é algo que é melhor não falar. Em suma, o racialismo é uma ideologia objectivamente ao serviço do capital na tentativa de nos dividir e fragmentar enquanto proletariado, como classe única e mundial.

Classe?

Os pós-modernistas têm apenas uma concepção ingénua de classe. Dos três, este é o conceito onde o pós-modernismo mais revela a sua continuidade com a modernidade, com o pensamento progressista burguês, goste-se ou não. O seu conceito de classe não é mais do que a concepção sociológica de classe, igual à da social-democracia clássica e do leninismo. Outra coisa seria investigar como, no fim, oscilamos entre estas roupas antigas e novos binomios afinados que servem para ainda mais confusão: elites/povos (Podemos), integrados/marginalizados (insurreccionalismo), etc.

Além disso, nas versões mais ingénuas da pós-modernidade, a classe é reduzida a uma mera questão de estatuto, de privilégio, perdendo de vista qualquer realidade estrutural, que faz lembrar as visões mais tradicionais da sociologia burguesa do século XIX e início do século XX. Esta visão combina-se, ao mesmo tempo, com uma crítica ao classismo que seria amalgamada com uma visão depreciativa daqueles que são proletários pobres. Incapazes de compreender sequer remotamente as bases materiais da nossa sociedade, acabam por reduzir tudo a uma forma de cultura, de percepção do mundo, de estar nele através de um discurso. Desta forma, ser proletário acaba por ser reduzido ao jogo discursivo com que nós, proletários, somos reduzidos a arruaceiros, chonis ou chavs (gírias espanholas para sub-culturas de jovens urbanos que se distinguem pelo estilo, comportamento e conotações sociais – NdT). Imaginar que somos uma classe material a lutar para se afirmar e destruir este mundo não passa pela cabeça destes académicos burgueses. E, no entanto, tem cuidado, porque a meta-narrativa está sempre à espreita.

7. Comunismo e Anarquia como Movimento Real

Depois de passar pela Santíssima Trindade pós-moderna (género, raça e classe), ainda temos de fazer novas críticas. E a trilogia pode ser transformada numa infinidade de lutas e conflitos, cada um com a sua própria parcialidade (especista, vegan, etc.) Para nós, o comunismo e a anarquia são um movimento total desde o início. O facto de começar sempre de algum lado e de algum conflito imediato não anula a sua generalização global e histórica. Os pós-modernistas tendem a negar este movimento real quebrando a unidade entre o imediato e o global, o particular e o universal, para o reconstruir a posteriori de forma morta. Assim, a reconstrução feminista acaba por ser uma defesa dos direitos iguais no capitalismo; racialização, uma defesa da integração e reconhecimento entre diferentes "raças"; a luta dos operários, uma exigência de capital para distribuir um pouco da pirâmide de rendimentos... Na medida em que cada luta imediata está separada de uma perspectiva global de superação deste mundo, cada parcialidade é uma parcialidade reformista, e a sua soma é também uma parcialidade reformista. E para que conste, não estamos a falar de perspectivas ideais ou meros princípios, são as nossas verdadeiras necessidades como proletários que nos levam a enfrentar este mundo globalmente a partir de qualquer um dos nossos imediatismos.

Obviamente, tal como o patriarcado, o racismo fragmenta e divide a nossa classe, sendo um agente claro na reprodução do mundo do capital. O que afirmamos permanente e invariavelmente é que só num processo unitário de constituir o proletariado numa classe, em força histórica, será possível superar realmente e materialmente estas divisões que fragmentam a nossa classe e impedem a nossa constituição como partido para a destruição do capital e do Estado. O comunismo é um movimento real e unitário que começa pelas necessidades humanas e, a partir daí, supera divisões e fragmentação. Não é o resultado de alianças e somas de diferentes parcialidades que negociam e se cruzam entre si. Só o proletariado pode pôr fim ao capital, negando-se como classe, na medida em que é o segredo oculto do capital, aquele que revela que não é uma realidade natural, mas uma substância social. A classe não é, no entanto, um facto sociológico, mas uma constituição colectiva e participativa, enquanto força histórica, e para o ser tem de romper com todas as divisões que a reprimem (nacionais, raciais, patriarcais...) O proletariado é uma classe que não é uma classe, e no seu verdadeiro movimento em direcção ao comunismo expressa o poder de eliminar não só a sociedade de classes, mas a multiplicidade de opressões que o capital reproduz com ele.

Opressão racial, opressão sexual, destruição do ambiente,... Existiam em todas as sociedades de classes, mas nunca atingiram um nível tão sistémico e gigantesco como no capitalismo e, especialmente, com o progresso da civilização capitalista na fase actual. Só uma luta mundial pode destruir a própria base que reduz tanto a alienação do homem como o conjunto de manifestações e atrocidades desumanas próprias das relações sociais capitalistas. Apenas uma classe social – o proletariado – contém neste ser este projecto e na sua realização – a revolução comunista. Pelo contrário, a liquidação da luta através da sua parcialização e criação de movimentos específicos tendem a diminuir ou resolver um destes problemas separados, sem poder atacar a sua causa comum e profunda (feminismo, anti-racismo, ambientalismo,...) com tentativas irremediavelmente adicionais de adaptação, melhoria, reparação do sistema e, assim, reforço da ditadura do capital. Na prática, estes movimentos serviram e só podem servir para desviar a energia revolucionária do proletariado, para melhorar os mecanismos de dominação e opressão e até para aumentar a taxa de exploração do proletariado.

(Tese de Orientação Programática,
Grupo Comunista Internacionalista)

 

Esperamos que, ao longo destas páginas, tenhamos esclarecido alguma da confusão que reina em muitos meios de comunicação sobre estas questões, para que sirvam, acima de tudo, para alimentar debates, discussões e esclarecimentos presentes e futuros.

 

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Arrotos da pós-modernidade

"Os contratos [económicos] modernos não são mais do que formas linguísticas, quando um contrato é manipulado de alguma forma é possível dizer que a linguagem está a ser manipulada"

"Em vez de ideologia, prefiro sempre falar de subjectivação, da produção de subjectividade."

"O tema, segundo toda uma tradição da filosofia e das ciências humanas, é algo que consideramos um être-là (estar lá – NdT), algo do domínio de uma suposta natureza humana. Proponho, pelo contrário, a ideia de uma subjectividade de natureza industrial, mecânica, ou seja, essencialmente fabricada, modelada, recebida, consumida."

"A queeridade, dada a sua ambiguidade, hipoteca permanentemente aquilo que é dado como garantido e afirma a sua identidade, baseada em diferenças e aspectos em mudança que são articulados através das noções de classe, género, raça e sexo. É assim que entendo que queer é uma atitude anti-assimilacionista, politicamente activa e constantemente auto-questionável..."

"Dentro de um espaço Womanista, posso elevar mulheres negras e outras mulheres de outras culturas porque, neste paradigma, sou reconhecida. Sou reconhecida como parte disto devido à minha pele escura e à minha condição de mulher. Eu, como mulher negra, posso prosperar num espaço onde a minha vitalidade não é ignorada, ignorada e descartada.

Com a minha própria auto-validação, não preciso do feminismo (interseccional ou não) para definir a minha participação, o meu valor ou o valor de outras mulheres na luta pela igualdade racial e pela equidade de género.

Resumindo, não me critiquem com feminismo. Não preciso de ser como tu para defender os direitos das mulheres e as suas possibilidades."

"Esta visão universalista branca do mundo inteiro [...] faz parte dessa supremacia branca de definir tudo e universalizar tudo."

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[1]Na última secção do texto explicamos o que entendemos por classe ou partido, e também recomendamos o texto de Communism #65: Proletarian Me?

[2]O marxismo é uma recuperação social-democrata de Marx que tenta integrar o proletariado no capital. É o partido do trabalho no capital. Pelo contrário, o comunismo é o verdadeiro movimento que luta pela afirmação das necessidades humanas do proletariado através da supressão do valor, das classes, do Estado. Marx foi um membro proeminente do nosso partido, mas como ele próprio disse: "Não sou marxista."

 

Fonte: Posmodernidad o la impostura de una falsa radicalidad – Barbaria

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




 

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