Pós-modernidade ou a impostura de um falso radicalismo
Introdução
Neste texto, pretendemos fazer uma breve
crítica a alguns dos espaços comuns ideológicos do nosso tempo, lugares comuns
que, por conveniência, chamamos pós-modernos. De um modo geral, podem ser
reconhecidos pela ideia de que qualquer tentativa de procurar uma emancipação
radical seria uma meta-narrativa, que procurar algum critério de verdade ou
objectividade seria prova de arrogância e da vontade de dominar. Que não
existem critérios gerais e universais para definir a realidade do mundo e,
portanto, não há procura por uma libertação geral. Que tudo é subjectivo, que a
única luta possível é aquela que ocorre no quotidiano, na microfísica dos
poderes, sem o risco de cair em essencialismos e definições seguras que são
sempre perigosas, etc.
Escrevemos este texto
a partir de uma prática revolucionária e a crítica é feita a partir da
influência que este tipo de abordagem e autores exercem nos activistas radicais
que tentam lutar contra este mundo. Por isso, achamos importante poder discutir
as imposturas que surgem deste tipo de autor. A corrente que mais introduziu
este tipo de perspectiva nos "movimentos sociais" é uma versão leve e
reformista do movimento autónomo histórico que tem em Toni Negri uma das suas
principais referências e que fez as obras de Deleuze, Foucault, Guattari...
alegados manuais de radicalismo que activistas "educados" teriam de
analisar. O livro recente de Marina Garcés, professora de filosofia na
universidade e representante deste tipo de correntes e ideias, expressa
perfeitamente aquilo que queremos criticar. Um aparente radicalismo em formas e
discursos que afirmam querer desconstruir tudo e uma impotência que nasce das
premissas, como ela própria reconhece no início do prólogo do seu livro, Ciudad Princesa (p. 11):
Não sei até onde realmente lutámos.
Também não sei até que ponto perdemos completamente. Sei que as ideias e modos
de vida em que acredito não têm sucesso, mas também não se perdem. A geração
dos anos setenta quis invadir o céu e queimou as suas asas. Aqueles de nós que
vieram depois crescemos entre as suas cinzas e vimos como as chamas dos seus
desejos e ideais se apagavam (...). E apenas alguns, uns poucos, continuaram a
alimentar as brasas do pensamento radical e do compromisso.
Aqueles de nós que nos politizámos no final dos anos noventa não olhávamos
para o céu se não fosse para descansar por um tempo.
Por outro lado, é
importante perceber que, quando falamos de pós-modernidade, não estamos a
estabelecer uma ruptura drástica com o que se conhece como modernidade. Na
realidade, ambas as "épocas" falam da mesma coisa, do capitalismo e
da sua tendência para separar a forma do conteúdo, a subjectividade da objectividade,
o conhecimento da moralidade e assim por diante. O capitalismo é um sistema
baseado numa forma (capital como valor inflaccionado com valor) que tende a
subsumir qualquer conteúdo sob a sua égide totalitária. Tudo pode ser
convertido em dinheiro como equivalente geral à riqueza, qualquer actividade
humana pode ser subordinada ao império do trabalho abstracto. Desde o surgimento
do capitalismo, no século XVII, as primeiras formas desta separação também
começaram a desenvolver-se em formas de pensar. Referimos-nos, por exemplo,
a I think therefore I am de Descartes
ou ao mecanismo dos corpos políticos em Thomas Hobbes. O capital inaugura uma
época que separa a vida da sua substância material, que fragmenta os seres
humanos uns dos outros, bem como internamente, que destrói a comunidade
humana... É uma metafísica da separação que nos coloca uns contra os outros,
como o próprio Hobbes estabelece no seu estado de natureza, como a base do
leviatã do estado. Esta guerra de todos contra todos, a redução da vida social
à dos átomos em conflito mercantil perpétuo, a pós-modernidade tentará levar à
sua máxima expressão. Na prática, a guerra de todos contra todos torna-se, em
posições pós-modernas, um conflito permanente entre identidades. Racializado
vs. branco, queer vs. cisgénero, trans vs. queer, etc. Quanto mais opressões,
melhor! Quem dá mais nesta verborreia de privilégios que determina quem deve
falar e quem deve ficar em silêncio! Desta forma, não só qualquer crítica
unitária a este mundo é dissolvida, mas também a possibilidade de o transcender
e ser capaz de confrontar as opressões específicas que o capital reproduz em
todo o seu alcance. Só um projecto de destruição integral deste mundo através
da reconstrução da comunidade humana permite tal objectivo.
Quando falamos de pós-modernidade,
referimo-nos a uma ideologia e não a uma era. A era mantém-se igual, mesmo que
não goste dos nossos bons adversários: o do capital e os seus invariantes
categóricos, o trabalho abstracto e a mercadoria, o Estado e a democracia.
Referimo-nos a uma ideologia porque é uma visão distorcida da realidade que não
nos permite compreender o seu significado autêntico e, portanto, as
possibilidades de a revolucionar num sentido emancipatório. Além disso, a sua
produção leva-nos da Universidade da Califórnia à Sorbonne, da Sapienza em Roma
à Universidade Complutense, dos campi de Buenos Aires aos de Calcutá. Portanto,
não é uma ideologia simples, mas uma ideologia cujo agente óbvio são as classes
médias. Académicos "radicais" nos campi traduzem opressões reais
(patriarcais, raciais...) para a sua linguagem profissional para obter
financiamento para os seus projectos de investigação. Uma multidão zombie de
estudantes universitários, encantados e entretidos pela linguagem esotérica dos
seus mais velhos, empunham com confiança arrogante as armas das suas frases
mágicas e incompreensíveis, e ai de quem finge opor-se a eles. A
pós-modernidade tem algo de pós-estalinismo.
Apesar de tudo o que foi dito, este texto é um texto de combate, de afirmação comunista e revolucionária, um texto de negação.
1. Uma ideologia de derrota
Antes de mais, é
importante inscrever de onde vem o pós-modernismo. A ideologia pós-moderna
emergiu após uma série de derrotas revolucionárias ao longo do século XX
(Primeira e Segunda Guerras Mundiais), coroadas pela derrota da vaga de
revoltas sociais que viria a eclodir nos anos 60: de França à Argentina, de
Praga a Itália, do Uruguai a Portugal, o proletariado tentou constituir-se como
partido. na classe[1] Por
vezes, a nossa classe viverá processos insurreccionais muito amplos, como em
Itália nos anos setenta, processos de auto-organização finalmente absorvidos
como em Portugal, ou breves ocupações insurreccionais como em Córdoba
(Argentina) em 1969. A derrota desta vaga de lutas, a segunda ou terceira vaga
de assalto proletário à sociedade de classes (se considerarmos não só a vaga
revolucionária de 1910-1937, mas também a do século XIX de 1848 a 1871)
fomentará um recuo no processo de constituição do proletariado numa classe e um
ressurgimento de ideologias alimentadas pelo pessimismo, individualismo e
niilismo, que devoram as esperanças no proletariado e numa humanidade
finalmente libertada da sociedade de classes. A ideologia pós-moderna baseia-se
no facto de que uma emancipação radical pelo proletariado teria sido um
pesadelo terrível que só poderia gerar monstros totalitários. Ideólogos
pérfidos teriam secularizado o logocentrismo da religião judaico-cristã (em
versões comunista e anarquista) e transmitido-o a proletários pobres e ignorantes
analfabetos. Como podemos ver, o idealismo da operação mental está completo.
Para a pós-modernidade (como para todo o pensamento moderno e burguês), o
comunismo ou o anarquismo não são um movimento real que tenta afirmar as
necessidades humanas contra o capital e a sua exploração, mas sim uma
construção mental muito equivocada e errónea. É uma sorte que os
nossos ilustres professores parisienses e californianos tenham vindo
despertar-nos da nossa ignorância juvenil.
A pós-modernidade é,
ao mesmo tempo, uma ideologia de renúncia e pessimismo. Sob o seu aparente
radicalismo (que é o gancho com que seduz as classes médias em busca de novas
meta-narrativas), não passa de uma renúncia a qualquer tentativa de transformar
realmente e globalmente este mundo. Daí o recuo para a micropolítica e a
política identitária. Dizem-nos que pequeno é bom e totalitário total. À medida
que a derrota contra-revolucionária sofrida pelo proletariado nos anos 70 adia
a necessária mudança revolucionária que virá, a necessidade torna-se uma
virtude e a derrota uma condição naturalizada. É por isso que pessimismo e
renúncia são inseparáveis e, ao mesmo tempo, estão ligados a uma concepção
exultante das diferenças, da particularidade cultural e da escolha
individualista, do diverso e do heterogéneo,
do molecular e do esquizoide, do instável e do indeterminado, do cepticismo em
relação a qualquer critério de verdade e de relação com objectividade e
totalidade social. O mundo é estranho e cruel. Ela subsume-nos e aliena-nos,
mas não compreendemos a razão das suas bases materiais e apenas é dada uma
explicação ideológica e teórica. Típico, por outro lado, daqueles que fazem do
pensamento isolado a sua profissão, como se o carácter total do capital fosse
simplesmente um problema mental e bastasse não pensar nas suas dinâmicas
impessoais e totais para que não subsumisse as nossas vidas. Os pós-modernistas
têm algo estranho e infantil: bastava fechar os olhos para que o capital
simplesmente deixasse de existir. É pena que estas sejam más realidades que afectam
as nossas vidas (o capital nos seus movimentos) e não as alturas dos discursos
académicos a que os protagonistas da nossa telenovela estão habituados, cujas
palavras acreditam estar a construir o mundo de forma performativa.
Esta ideologia de derrota e diferença
está ligada às filosofias pessimistas do ser, nas quais alguns dos teóricos
referenciais dos autores pós-modernos (Nietzsche, Sartre, Heidegger,
Schopenhauer) são referenciados. Ser é uma entidade abstracta da qual a
essência está separada por um lado e a existência por outro. A ideologia
pós-moderna absorve o idealismo e o pessimismo desta filosofia. Ele acredita
que a linguagem é usada para criar o mundo material (ao contrário de uma visão
materialista onde o mundo real é usado para explicar o mundo; Marx, Engels,
Bakunin ou, noutro sentido, Aristóteles).
A pós-modernidade como
palavra nasceu de um livro de François Lyotard, um filósofo francês, que tinha
sido membro do grupo francês de extrema-esquerda Socialisme ou Barbarie, liderado por Cornelius Castoriadis.
Lyotard opôs-se à ideia de Castoriadis de poder conceber uma teoria
revolucionária que renunciasse ao marxismo, pelo que fundou, com outros
camaradas, a organização Pouvoir Ouvrière. No entanto, alguns
anos depois renunciou ao marxismo e especialmente à revolução, escrevendo um
pequeno livro onde sintetizou alguns dos pontos comuns do pensamento
pós-moderno.
França e Estados Unidos têm dois focos
importantes neste pensamento. São um grupo de autores variados, com níveis
teóricos e trajectórias muito diferentes, mas que, sem dúvida, têm algo em
comum. Um dos aspectos decisivos é a renúncia militante, contra falar da
centralidade do proletariado como uma classe revolucionária que é a única capaz
de acabar com o domínio do capital (que é algo mais profundo do que um sistema
de privilégios, como os nossos "teóricos" parecem entender mal), ou a
renúncia à realidade da natureza humana como o mal dos males. Pelo contrário, o
núcleo das pessoas é o contexto social e histórico, um reducionismo cultural e
a hipertrofia dos discursos que moldam de forma performativa a vida dos
sujeitos.
Como dissemos no
início, o pós-modernismo é uma ideologia nascida na academia das correntes
pós-estruturalistas francesas. Estes, após a crise do marxismo académico e político[2] e
a crise do estruturalismo (do peso absoluto que deram às estruturas económicas
e históricas, depois de terem feito dos seres humanos meros suportes, pernas de
uma mesa sobre a qual se erguiam estruturas) dão origem a uma fuga para o
aparentemente oposto: é o momento do molecular, do capilar, do pequeno, dos
desejos, do periférico, do específico, dos dispositivos de subjectivação. Na realidade,
é um movimento de pêndulo que tem como pano de fundo a derrota política do
proletariado nos anos 70. A universalidade abstracta do marxismo enquanto
ideologia, permeada pelo cientificismo e politicismo, de reduzir o proletariado
ao apoio do capital, começou na verdade a entrar em crise com a ascensão do
proletariado nos anos 60. Com a derrota destes últimos, os seus autores
estruturalistas (os Althussers, Foucault, Derrida, etc.) tornar-se-ão os
promotores do pós-estruturalismo, do pós-modernismo. Além disso, é muito
importante compreender que a universalidade postulada pelo cientificismo
marxista e pelo progressismo e pelo estruturalismo, de outra forma, não é o
tipo de universalidade que o proletariado carrega como negação da propriedade e
das classes sociais. É a partir desta verdade, a da peste do marxismo como
ideologia, que o pós-modernismo constrói a grande mentira do particularismo,
que nada temos em comum, que no fim a dominação estará sempre presente. Os
universais do marxismo nada têm a ver com os do proletariado em acção.
Vamos explicar-nos melhor: a pós-modernidade perante as ideias de universalidade, perante a história, contrasta a impossibilidade de fazer uma história e uma teoria universal. Este aspecto é muito interessante porque a crítica académica ao marxismo implica a rejeição de qualquer concepção teórica forte, baseada em princípios, em meta-narrativas significativas (por exemplo, as condições materiais reais do capitalismo serem mundiais. Se toda a história tem interpretações subjectivas, como poderíamos confrontar o capitalismo se não vemos que ele tem uma base mundial que é histórica?). Eles fogem como a peste de todas as concepções gerais, são alérgicos aos universais humanos e teóricos.
2. Uma ideologia do indivíduo
A pós-modernidade baseia-se na subjectividade
de cada pessoa, na verdade individual, razão pela qual não existem verdades
absolutas. Na verdade, acusa verdades universais de serem totalitárias, de
serem imponentes. Tudo isto é resultado do cepticismo de uma teoria que não
pretende colocar a nossa própria existência social num quadro mais amplo,
porque incluiria a especificidade do indivíduo e dos diferentes agrupamentos
identitários; para o pós-modernismo, o facto de o ser humano ser um ser social
é explicado como algo meramente discursivo e não algo material real. É o mundo
do capital que nos envolve. Talvez haja uma gama mais ampla de opções nos campi
californianos, mas milhões de proletários não têm a mesma sorte de poder
escolher esta perspectiva. A nossa vida é determinada por uma forma material
oculta mas muito real (temos de enfrentar condições cada vez piores para
sobreviver diariamente: empregos que nos sufocam, habitação inacessível ou que
nos isola dos outros, relações superficiais mediadas pela mercadoria, etc.).
Esta visão do mundo não pode aspirar à
emancipação global das pessoas, não pode aspirar a ser pensada como um todo,
numa comunidade real, só pode ser pensada de forma identitária, separada do
resto. Isto é palpável nas lutas sociais dos últimos anos, na incapacidade de
compreender outros proletários no resto do mundo como aqueles que têm as mesmas
necessidades que nós e são uma expressão da mesma luta, o que causa falta de
solidariedade por parte do resto do proletariado, ao contrário do que a nossa
classe tem feito ao longo da história.
Pensar que todos podemos tornar-nos
iguais (como afirma a democracia) ou pensar que somos todos totalmente
diferentes (como os pós-modernistas) é um claro exemplo de uma falsa dicotomia:
dentro das nossas diferenças há coisas que nos unem e que partilhamos como
espécie, temos as mesmas necessidades para viver. A igualdade democrática ideal
é que todos sejam iguais, o comunismo não luta pela igualdade ou equidade de
raça ou género, uma vez que estas construções são socialmente funcionais para o
mesmo sistema que delas precisa; Portanto, a revolução não deve contemplar a
sua preservação e "transformação positiva" porque a sua luta contra a
civilização/sociedade de mercadoria implica a destruição de todos os seus
alicerces. O comunismo não luta pela igualdade ou equidade de género ou raça,
uma vez que estas construções são socialmente funcionais para o mesmo sistema
que delas necessita; Portanto, a revolução não deve ser contemplada para a sua
preservação e "transformação positiva", pois a sua luta contra a
civilização/sociedade de mercadoria implica a destruição de todas as suas bases
categóricas, morais, científicas, religiosas e legais. O comunismo não pretende
acabar com a opressão deste mundo através dos ingredientes da tarte das
mercadorias (distribuindo quotas proporcionais por raça ou género), quer
transformar radicalmente os ingredientes da "tarte" da vida humana. A
exploração é a mesma coisa em todo o mundo – extrair mais-valia – isto une
todos os operários, independentemente da sua língua, sexo, idade, cor ou
orientação sexual. O capitalismo não é um sistema de "opressões", mas
sim um sistema de exploração que rotineiramente cria discriminação e opressão
porque, como em qualquer sistema de exploração, é da sua natureza fazê-lo para
manter a sua dominação.
É uma ideologia
liberal, porque reivindica o direito do indivíduo de escolher livremente o que
quer ser (dentro das opções do capital, claro). É a revolução do indivíduo que
é livre para se reivindicar como mulher, homem, género fluido ou não conformista,
que aspira ser reconhecido e tornado visível. Por quem? Do Estado, do antigo
Estado, com as suas instituições e interesses de classe que estão um pouco fora
de moda. Desde a microfísica dos poderes até à reivindicação do Estado de
direito, não existe apenas uma relação lógica, mas um caminho percorrido de
facto pelos nossos brilhantes pós-modernistas: do radicalismo verbal à
facticidade do poder do capital. Pensar que os problemas sociais têm solução
individualmente não faz sentido, não basta usar linguagem extremista ou mudar
hábitos individuais. Como já disse Cuadernos de
Negación: "Nunca recomendaríamos "soluções" individuais para
problemas sociais. A percepção individual de um problema não torna o problema
uma questão individual." (Cuadernos de Negación, n.º 8). Fazer isto
só reduziria tudo o que é concreto a algo abstracto: a escolha individual de
ser o que quiseres, de escolher entre as mercadorias que te são oferecidas.
Compreendemos que é frustrante, que nos faz sentir pequenos, sentir problemas
todos os dias, problemas que não conseguimos resolver isoladamente,
individualmente. Mas pensar o contrário só criaria uma miragem de que as nossas
vidas são radicais e que estamos no poder de decidir se a indústria da carne
vai por água abaixo ou se acaba com o aquecimento global a pé para o trabalho,
para dar um exemplo. Além do facto de não ser possível resolver problemas
sociais individualmente, também é uma treta. Mesmo que pudéssemos resolver as
coisas individualmente, fá-lo-íamos-lo como os indivíduos fazem: de forma
isolada, sem apoio, com dinâmicas competitivas e meritocráticas (toda a culpa
interiorizada que se expressa, por exemplo, na consciência ambiental: não fazes
o suficiente, tens de te esforçar mais, olha como eu faço...) O indivíduo é
péssimo, é a própria base desta sociedade. O facto de o problema social ter de
ser resolvido colectivamente é o que torna possível recuperar a nossa vida
humana real, a comunidade humana mundial.
O pequeno é validado contra o grande, o
subjectivo contra o objectivo, o molecular contra o molar, o múltiplo contra o
um, etc. Com isto, o que é impossível é poder falar sobre algo tão importante
como a espécie humana e as suas necessidades. A pós-modernidade é uma ideologia
de separação e fragmentação, de desunião e rejeição virulenta do que podemos
constituir enquanto classe. É uma ideologia obcecada com a multiplicidade das
culturas humanas e não com a compreensão de que os seres humanos são
naturalmente culturais, obcecados pela multiplicidade de línguas e não pelo
facto de sermos seres linguísticos, obcecados pelas diferenças e não pelo que
nos une na nossa diversidade. Além disso, reduz-nos ao localismo e, por isso,
impede um verdadeiro internacionalismo, um internacionalismo que nada tem a ver
com o espectáculo multi-culturalista pós-moderno. Esta preocupação com a
singularidade é sempre, em última análise, a singularidade de indivíduos
isolados e concorrentes, à medida que diferentes sujeitos (feminino,
racializado, homossexual) competem entre si.
Na realidade, o pós-modernismo será uma
reacção compreensível à visão sociológica que a social-democracia tem do
proletariado. No entanto, reagirá respondendo com novas formas de
social-democracia, já que a antiga já estaria muito "desgastada" pela
relativa deslegitimação dos PCs e do estalinismo graças a 1968. Para isso, fará
uma viagem de ida e volta desde o identitarismo do macaco azul no discurso
operário até à variedade de identidades que emergem para se completar com
outros sujeitos de opressão. Assim, se o trabalhismo deixava as mulheres de
fora, tudo ficava resolvido! A identidade feminina é acrescentada. Se ele
deixou de fora os não-brancos, aqui está a identidade racial... Agora que a
identidade dos operários perdeu peso, são adicionados cada vez mais temas de
opressão: opressão autista, identidade louca, identidade gorda, etc. É
interessante sublinhar, como já indicámos acima, a relação íntima entre o
surgimento destas ideologias e as fraquezas e limites do próprio movimento do
proletariado, fundamentalmente em relação ao peso do obreirismo e do economicismo
em períodos de lutas anteriores. Não romper com a concepção social-democrata do
proletariado permitirá o surgimento de todas estas categorias, que funcionam
com a mesma lógica fetichista do obreirismo.
Por outro lado, acreditamos
que também seria interessante reflectir sobre a integração. Como analisaremos
mais tarde em relação à ideologia racializante (que é uma das múltiplas derivas
da pós-modernidade), o seu objectivo final é a integração no mundo do capital.
Procurar reconhecimento para melhorar as condições de vida dentro do capital é
entrar na dinâmica da competição individual para sobreviver, em vez de procurar
uma emancipação comum. Isto é também o caso de alguns dos discursos que estão a
emergir em Espanha em relação à raça versus a força de movimentos como as banlieues (periferias) em 2005, cuja força residia precisamente no facto de não
procurarem a integração. Neste sentido, o racialismo será na realidade nada
mais do que uma forma objectiva de domesticar as lutas dos proletários "racializados".
O mesmo que dizemos sobre o racialismo é análogo ao que podemos argumentar
sobre os feminismos pós-modernos e a sua tentativa de desconstruir a
"categoria" da mulher.
Por isso, não é
arriscado manter que a ideologia pós-moderna é uma teoria liberal, uma teoria
do indivíduo que reforça o capitalismo.
É importante salientar que estas teorias são o caminho para recuperar o radicalismo que muitas das pessoas que nelas se envolvem procuram. Esta recuperação não é ideal, mas é muito real, como se expressa no carácter contra-revolucionário do racialismo, porque não aspira à libertação total da classe e da espécie humana. Antes, tornam-na impossível e enfraquecem a luta ao canalizá-la para um nível legalista e institucional.
3. Frentismo e interseccionalidade
No campo activista, a ideia de que
existe uma série de lutas heterogéneas combinadas em "frentes de
luta" é generalizada, como se fossem lutas separadas e dissociadas,
paralelas e autónomas, que em princípio nada têm a ver umas com as outras (raça,
sexo, anti-especismo, ambientalismo, etc.). A união destas lutas em frentes
chama-se interseccionalidade (aquelas pessoas ou lugares onde uma série de
opressões se junta). Não há ideia de universalidade e singularidade destas
lutas, porque isso seria essencialista.
Isto elimina
totalmente a concepção de classe, pois a partir daí é impensável ter a mesma
luta material para satisfazer necessidades humanas análogas que liga as lutas
proletárias em Marrocos às do Iémen, as da região espanhola às da Argentina, as
do proletariado afro-americano aos proletários curdos. Tudo é particular e
fragmentado. Esta é outra razão pela qual esta ideologia é derrotista: um
pensamento que parte do que nos separa não é capaz de pensar na emancipação
universal. Como dissemos nas Notas sobre o Patriarcado no
Capitalismo:
Esta divisão só pode ser entendida do ponto de vista da comunidade humana e
do comunismo como um movimento histórico. Neste momento, a social-democracia
está a fazer todos os esforços para colocar a luta de classes e a divisão entre
homens e mulheres, bem como a divisão de raças, práticas sexuais, etc., ao
mesmo nível. No entanto, esta afirmação é a melhor forma de negar a
possibilidade da comunidade humana, pois para a alcançar teria de lidar não só
com o capitalismo e as classes sociais, mas também com toda a diversidade que
existe na espécie (cf. teoria queer). Pelo contrário, a única forma de destruir
essa máquina de morte e miséria que é o capital é a luta de classes e, através
dela, a negação de todas as classes. No entanto, esta luta não é apenas a luta
do proletariado contra o capital, mas também a sua luta para unir o que foi
separado dentro da classe. A única forma para o proletariado o fazer é
confrontar as divisões impostas pelas sociedades de classes, incluindo a
divisão entre homens e mulheres.
A pós-modernidade espalhou a ideia de
que o que se tem a fazer com as opressões é desconstruir-se, o que não passa de
se analisar discursivamente e conceptualmente. O que é a desconstrução? É um
conceito absolutamente nominalista. Promove a capacidade omnipotente da
consciência (claro, individual) de romper com as relações sociais que nos
"constroem", que nos constituem. O problema não está em reconhecer
que o que somos é largamente determinado pelas relações sociais que
estabelecemos e que nos estabelecem, por assim dizer, embora isso permita ao
pós-modernismo negar qualquer ideia de natureza ou biologia. O problema é
acreditar que o pensamento e as formas de agir, que procuram uma solução que
substitua as relações actuais, podem mudar "pouco a pouco" a
totalidade das relações mediadas e sujeitas ao contexto histórico e social
desta época, chegando ao absurdo de afirmar mesmo que a luta internacional da
classe não é necessária para destruir as estruturas e os seus métodos em voga.
É, aliás, a melhor forma de se justificar na própria função material:
reproduzir a ideologia dominante a partir de uma cátedra universitária.
Mas o que acontece uma vez que eu tenha
desconstruído o meu sexo? Isso vai afectar atomica e materialmente o que sou?
Vai mudar-me o tom de pele ou os traços faciais se desconstruir a minha “raça”?
Voltaremos a estas questões quando nos debruçarmos sobre a Santa Trindade
pós-moderna: classe, raça e género.
4. E se o capitalismo não fosse apenas mais uma opressão?
A pós-modernidade é alérgica à
totalidade. Pois não haveria centro que configurasse a nossa realidade social.
O seu interesse pelo exótico, pelo pequeno, pelo anómalo, pelo desviante, pelo
incomparável, o grotesco, etc., levou-o a abandonar o elemento central
configurador, o capital como a relação social estruturadora desta sociedade sem
a qual nada se compreende, mesmo que não explique tudo.
O pós-modernismo resulta numa concepção
de capitalismo diferente daquela concebida por Marx e pelo movimento
proletário. Como já dissemos antes, para os pós-modernistas afirmarem algo como
se fosse uma verdade total é errado, é totalitário, fascista. Mas,
infelizmente, o capitalismo é mundial, por isso não pode ser parcialmente
enfrentado. E, de facto, é essencial perceber que não estamos a falar de uma
opção estética, não se trata de postular quão más são as grandes histórias e
que é preferível ter um mundo fragmentado em múltiplos atornos moleculares que
convergem de forma federal e harmoniosa através dos fluxos desejosos dos seus
corpos, e que isso não aconteceu devido a um erro teórico terrível que tem
origem na decadência do Filosofia grega ou no pensamento judaico-cristão. Não
estamos a falar de ideias separadas dos processos materiais globais. O capital
é uma totalidade em si mesmo, não é produto de grupos humanos que precisam de
se compreender com meta-narrativas globais.
Uma das características do pensamento
pós-moderno é o seu formalismo. O inseparável é dividido numa multiplicidade de
fragmentos e, ao tentar juntá-los novamente, chama-se interseccionalidade. Na
realidade, o que se faz é dissecar um cadáver e depois voltar a montá-lo
artificialmente, sem deixar de ser um cadáver, por mais conceptual que seja
todo o processo. Explicamo-nos um pouco melhor, porque somos confrontados com
um dos lugares comuns do pensamento pós-moderno.
O capital é uma relação social histórica
que emerge de dois processos combinados. Por um lado, o mundo torna-se capital
através da criação de relações sociais capitalistas de produção, que separarão
os camponeses da terra e os forçarão a vender a sua força de trabalho como
novos proletários. Este processo terá origem na Europa feudal e em Inglaterra
em primeiro lugar. Por outro lado, o capital torna-se mundial através da sua
extensão a todo o globo, que verá um salto de qualidade com a chegada de
castelhanos e portugueses à América, com o consequente genocídio. O capital
emerge do sangue e do saque, como Marx recordou, e é importante não separar os
dois processos porque, sem a combinação de ambos, o actual sistema de
exploração simplesmente não teria surgido.
O capitalismo que começou a emergir então,
a partir do século XVI, é uma realidade muito diferente das formas de capital
ante-diluviano e imperfeito que podiam existir em sociedades pré-capitalistas
anteriores. As formas de capital usurário ou de mercadoria não tinham por trás
de si uma substância social, o trabalho abstracto, que igualasse todo o
trabalho e actividades concretas ao nível social, o que permitiria que a
natureza do capital (um valor inflaccionado com valor) se reproduzisse graças à
substância social contida no valor excedente produzido pelo trabalho
assalariado. O capital é então uma relação social impessoal e aparentemente
automática (mas que na realidade é alimentada pelo trabalho abstracto como
substância social, o que torna o antagonismo entre capital e proletariado
central) que, nas suas diferentes metamorfoses sociais, invade e reconstrói
todo o alcance das antigas formações sociais pré-capitalistas. Este não é o
lugar para se deter numa explicação mais detalhada e profunda. O importante é
perceber que o capital não é algo económico, é a relação social que configura
nas suas metamorfoses a totalidade social da modernidade, aquela que separa o
mundo social, rompendo com as comunidades pré-capitalistas, o mundo privado e o
mundo público, a economia e a política, o mundo do trabalho do cidadão, etc. Da
mesma forma, configura à sua imagem e semelhança, a lógica abstracta do
dinheiro e da troca, o patriarcado das sociedades pré-capitalistas (isto não
pode ser compreendido senão como o capital o configurou, e este mal-entendido é
uma das explicações teóricas dos limites social-democratas de todo o feminismo)
ou as divisões raciais da modernidade capitalista. A opressão escrava da
modernidade capitalista não pode ser compreendida sem atender ao comércio
triangular entre as diferentes regiões do capital desde o século XVI.
Então o capital aparece-nos como um todo
único, mas diferenciado. Claro que não negamos a especificidade do governo
patriarcal ou do racismo tipicamente capitalista. O que recusamos aceitar é que
estas partes possam ser separadas do todo. Separados, são incompreensíveis. A soma
das partes não é igual ao seu produto. E é isto que acontece a todos os
teóricos pós-modernos com a sua obsessão por estudos raciais, neo-coloniais, de
género... São teoricamente incapazes de restaurar a realidade de dominação e
exploração que nos domina. Só conseguem reconstruir um cadáver inanimado que
existe apenas nas suas cabeças.
Desta forma, a brutalidade impessoal e
semi-automática do domínio do capital é reduzida a uma mera questão de
privilégios. Eu, como operário branco cisgénero, tenho mais privilégios do que
aquela que é operária branca cisgénero, que deverá calar-se perante uma mulher
branca lésbica mas que, por sua vez, mantém privilégios em relação a uma mulher
racializada árabe… E assim num absurdo e impotente jogo de bonecas russas.
A parcialidade obsessiva deste mecanismo
mental é incapaz de compreender e alterar a totalidade do capital. Como
dissemos no início do nosso texto, trata-se de uma concepção substancialmente
pessimista que não acredita na possibilidade de uma mudança total. Estão contra
os grandes relatos, as utopias já não existem, o mundo não pode ser mudado
globalmente, pelo que é necessário agir em pequena escala, através da
micropolítica, de pequenos relatos, contos, narrativas corporais. Estão
realmente convencidos de que se pode mudar o sistema capitalista apenas numa
parte do mundo? Na realidade, abandonaram há muito essa pretensão. Além disso,
o capitalismo é reduzido a um privilégio entre outros, o classismo,
transformando-se numa opressão entre outras, como o racismo, o sexismo, o
capacitismo, etc.
Desta forma, o capital é omnipotente. A
única coisa que se pode fazer é resistir ao poder, um poder que se configura
pelas suas normas e contra o qual é combatido desafiando-o através de discursos
identitários: mudar o sexo, subverter tudo em palavras para que nada
substancial e real mude porque, na realidade, a partir das premissas, é
impossível.
Os pós-modernistas têm alguma ideia de emancipação, de um lugar para onde queiram ir? Criticam tudo, mas a que aspiram? Provavelmente não aspiram a algum lado, mas simplesmente a ter a possibilidade de escolher situações. Parece que esperam que a nova opressão seja descoberta e o mais radical é criticar a crítica ao último filósofo da universidade. A pós-modernidade é uma deriva de questões fluidas em que te desconstróis e pareces desmaterializado sem sequer saber como chegaste a este mundo, ou se realmente existe um. Não há verdade em que me apoiar. Se o que se pretende é contradizer por ser contrário, não faz sentido porque não há base firme para se apoiar; Palavras e realidade têm de estar em acordo, caso contrário falamos um discurso vazio. Chamam-se a si próprios radicais, mas por terem esse nome, não são de repente radicais.
5. Uma ideologia nominalista
Como dissemos antes, para os
pós-modernistas, a realidade é o que se diz. Os pós-modernistas vivem numa
hipertrofia cultural e linguística. Os seres humanos são páginas em branco
moldadas pela cultura de cada lugar e pelos discursos linguísticos. A música
idealista desta canção já deve ser-nos familiar.
Para os nossos pós-modernistas, a
realidade que habitamos em segundo plano está desligada do mundo das ideias ou
do famoso "Penso, logo existo", mesmo do mundo criado pela ideia de
Deus. Não estão assim tão distantes da ideia de que a natureza é feita pela
nossa linguagem. Para os pós-modernistas, tudo é linguagem, tudo é cultural. A
realidade é construída, ou talvez devêssemos dizer criada, pela linguagem e
pela cultura: a realidade é o que se diz. Desta forma, somos levados a duvidar
de tudo o que é material, somos levados a duvidar até que os hormônios e o sexo
tenham algo a ver com o facto de ser homem ou mulher, somos levados a duvidar
tanto da matéria que podemos questionar se talvez amanhã acordaremos cangurus.
Dizem-nos repetidamente que a natureza é feita pela nossa linguagem, mas o
facto de os seres humanos se terem expandido até aos confins do mundo e
influenciado o crescimento e a distribuição das plantas pelo globo não
significa que tenhamos criado a natureza.
Como tudo é linguagem, tudo depende da
subjectividade do indivíduo. A pós-modernidade é a expressão típica da
antropologia do capital, do seu individualismo e da sua separação. Tudo é uma
representação, é por isso que a realidade não existe e tudo é subjectivo.
Então, o que é a realidade material? O que é sentir fome, sentir dor? Não são
estas coisas que todos sentimos?
Como podemos ver, é uma ideologia estranha que, se por um lado se declara materialista, na realidade está impregnada de fundamentos idealistas. Uma concepção que desloca o centro de interesse do capital como uma relação social total (que, portanto, não pode ser reduzida a algo económico, como tanto marxistas como pós-modernistas acreditam com igual fé) para a sexualidade e a linguagem. E não porque a sexualidade não seja um aspecto enormemente importante para pensar na libertação humana sob a égide das sociedades de classes, mas porque concebê-la como uma substância separada das dinâmicas mais globais faz dela uma substância morta, moldada de forma performativa pelo capital. O que acontece aos protagonistas da nossa telenovela. E o que podemos dizer sobre uma concepção de linguagem auto-referencial, que, em vez de estar aberta e em comunicação constante com o mundo e com a nossa prática nele, nos afasta, separa-nos dele e depois a recria. No início, era a Palavra, diz o Génesis bíblico, e o mesmo se repete pelos nossos pós-modernistas. As suas bases teóricas, tal como as da modernidade capitalista por outro lado, são em grande parte escolásticas, e encontram-se referenciadas em nominalistas como Ockham e formalistas como Scotus, como alguns deles um pouco mais conscientes, como o próprio Deleuze, reconheceram.
6. Género, raça... classe?
Já falámos do famoso
tríptico "género, raça, classe" como elementos separados que não
teriam relação a priori e só
estariam ligados a posteriori devido a sábios
interseccionadores académicos. Esta tríade é, na verdade, algo semelhante à
Santíssima Trindade para os católicos, uma questão de Fé que não pode ser
questionada a menos que se queira ser excomungado da Igreja académica e
politicamente correcta da esquerda (em todas as suas versões, incluindo a
"anarquista"). Na realidade, a pós-modernidade tem muito
pós-estalinismo ao nível do activismo político, como já antecipámos. Desta
tríade surgem muitas outras opressões (frentes que se abrem): especista,
capacitista, activismo gordo, etc. É importante não esquecer nenhum deles neste
jogo interminável de privilégios e contra-privilégios.
Género
Antes de mais, é importante notar que
estamos cientes da existência de pessoas intersexo, que possuem órgãos sexuais
intermédios entre homens e mulheres, bem como as suas hormonas. No entanto, não
acreditamos que a pequena percentagem destas pessoas seja a que deva ditar a
norma da reflexão, que já é algo tipicamente pós-moderno, tornando as margens o
centro da teoria. As teorias pós-modernas do género são lideradas pelo
feminismo da terceira vaga.
É um facto que a sociedade nos impõe um estereótipo de homem e de mulher, basta ver a publicidade e os filmes para nos apercebermos. Este estereótipo muda com o tempo? Sim. Há diferentes maneiras de ser homem e mulher, diferentes costumes? Sim. É possível deixar de ser homem ou mulher só porque se tem outro nome? Não, ser homem e mulher não é uma identidade, é um factor material, é, de forma inseparável, uma realidade biológica, cultural, social e histórica.
O pensamento heterossexual de Monique Wittig e outros escritos são um claro
exemplo do que é a pós-modernidade. Um texto em que se assume que as mulheres
lésbicas não são mulheres lésbicas. As mulheres lésbicas não são mulheres, são
desertoras do seu género? pelo facto de serem lésbicas. Não são servos dos
homens, por isso são rebeldes. Este é um exemplo de discurso revolucionário
falso, onde identidade e parcialidade são usadas para "unir" um grupo
de mulheres através das suas práticas. Mais uma vez, isto leva-nos a uma
resolução individual do problema, que, como já dissemos, reproduz a ideologia
liberal do capitalismo: "Ser lésbica é construir outros mundos, é esculpir
novas realidades"
[O] como podemos explicar a mudança da
reivindicação de direitos universais ("Nós, as Mulheres") para uma
teoria do discurso e das normas de poder que chega ao ponto de questionar os
próprios conceitos de "mulher" e "natureza humana"? No
seu Manifesto Ciborgue, Donna Haraway, no seu estilo
poético-delirante característico, oferece uma exposição sintética desta
evolução: "Uma vez reconhecida, após grande esforço, o seu carácter social
e historicamente condicionado, nem género, nem raça, nem classe social podem
fornecer uma base para acreditar numa unidade 'essencial'. Não há nada em ser
"mulher" que crie um vínculo natural entre mulheres. Porque não
existe, nem sequer existe algo como um 'ser' feminino, uma categoria em si
extremamente complexa e que foi construída em discursos científicos que são por
sua vez objecto de controvérsia" (Donna J. Haraway, The Cyborg Manifesto)
("A ofensiva dos estudos de género"
Cul de Sac)
E é inegável que a
opressão das mulheres tem uma origem social (é o que os estudos académicos da
moda chamam género), mas elas são oprimidas enquanto mulheres, o que implica o
tipo de corpo que têm. E é isto que separa estas concepções pós-modernas do
medo patológico que têm de tudo o que lhes soa biológico, natural (separação
entre sexo e género). O controlo do corpo, da sexualidade, da capacidade de dar
vida e educação é a base natural sobre a qual o patriarcado se constrói
historicamente e em todas as formas em que foi configurado. Assim, para
compreender a génese e a realidade da opressão patriarcal contra as mulheres, é
essencial eliminar o dualismo pós-moderno, que separa o biológico do cultural
e, de facto, reduz o primeiro ao segundo, operando assim a típica redução
idealista do corpo à alma. Vamos explicar-nos melhor: para os pós-modernistas é
a forma cultural que importa, o corpo físico e biológico é apenas um
epifenómeno da vontade. É essencial rejeitarmos esta separação. Corpo e mente,
vida material e cultura não podem ser entendidos como substâncias
independentes. É a realidade biológica e invariante das mulheres ao longo dos
milénios e em diferentes culturas que configura um substracto comum que, em
alguns casos, actuará como um prius social e comunitário
positivo (pense nas sociedades comunistas do Paleolítico ou Neolítico) e,
noutros casos, uma razão para disputa e opressão. com o desenvolvimento de
sociedades patriarcais, classistas e estatistas. Esta complexa interligação de
aspectos naturais e sociais construiu uma multiplicidade diferente de formas de
ser mulher ao longo da história humana. Mas a multiplicidade de formas não nega
o facto de um ser comum como as mulheres, da mesma forma que a multiplicidade
de culturas que nós, seres humanos, habitámos, não nega a nossa humanidade
comum.
Na realidade, o pensamento pós-moderno
opera com binomiais muito simples e dicotómicos. Como existe uma multiplicidade
de formas pelas quais o "género" é representado e vivido ao longo da
história humana, deduzem que ser mulher pode ser desconstruído e desaparecer
como categoria. Mas ser mulher é muito mais do que uma categoria, da mesma
forma que o ser humano é. Na realidade, toda a teoria do "género"
pós-moderno, começando pela visão "refinada" de Butler, é uma forma
de "construtivismo social" herdada das teorias foucaultianas, que
reduz as realidades materiais pesadas a meras afirmações discursivas: o médico
com o seu aparelho de poder é quem ordena o sistema de género, quando anuncia
que tu és um rapaz e tu uma rapariga, Diz-nos Butler.
Raça
O capitalismo é racista porque constrói
uma identidade a partir da nação: a "raça", ao contrário do que
explicámos anteriormente sobre ser homem e mulher, não é um factor material no
sentido biológico. Pelo contrário, trata-se de uma fetichização de uma série de
traços fisionómicos (cor da pele, forma do rosto ou do cabelo, etc.) para
estabelecer grupos de semelhanças a partir dos quais impor uma hierarquia
nacional-racial. O principal objectivo desta hierarquia é o de todo o
nacionalismo: a separação do proletariado para ser melhor explorado. O papel
histórico que o racismo desempenhou é claramente evidenciado: veja-se, por
exemplo, a revolta do proletariado negro e branco nos Estados Unidos no final
do século XVIII e a consequente política estatal de separação racial, de mãos
dadas com o desenvolvimento da democracia branca.
No entanto, este papel é demasiado
facilmente esquecido para afirmar que a "raça" é um eixo distinto de
opressão que não pode ser assimilado pela classe. Desta forma, entende-se que
raça e classe são substâncias separadas que se cruzam, na mesma lógica forense
que mostrámos anteriormente. Assim, o racialismo é aquela parte do
pós-modernismo que coloca o grupo nacional-racial acima de todas as considerações
de classe.
Um grande problema com a racialização
das ideias é que isso as leva a defender a cultura e a história acima de tudo,
independentemente de serem sexistas ou de reproduzirem a dominação de classe.
Desta forma, a figura de Atahualpa ou o papel das religiões é justificada
independentemente da terrível exploração que suportam. A raça, como dizemos,
implica o mesmo jogo que o da nação, é uma justificação da exploração do
proletariado enquanto for a "nossa" exploração e não a de outra
burguesia mais forte.
Nesta parte,
parece-nos importante demorarmo-nos brevemente num livro sintomático do reaccionário.
É o livro de Houria Boutedja: Os Brancos, os Judeus
e Nós. Um livro que também está a causar impacto significativo em ambientes
"radicalizados". Na realidade, o livro é um conjunto de banalidades
estalinistas onde o obreirismo rançoso, a lógica "anti-imperialista"
e "anti-ianque" dos partidos comunistas e dos marxismo-leninismos de
diferentes tendências numa chave de raça social. O que quer que a minha raça
faça é aceitável na luta contra as outras raças. Se Ahmadinejad diz que
realmente não há homossexuais no Irão, é digno de admiração, porque está a
desconstruir a lógica do Império e dos Estados Unidos quando diz que não
tortura. Os meus amigos são meus amigos e tens de estar com eles até ao fim, e
a amizade é uma questão de raça. A lógica do mal menor é contínua. Aqueles que
ousam criticar a Venezuela de Chávez e Maduro não passam de brancos vestidos de
descolonizadores... Numa "lógica amorosa" (Pois uma política do amor revolucionário é o subtítulo deste texto) ele
propõe também uma aliança entre judeus e brancos não racializados (não nos
esqueçamos que o mundo é construído acima de todas as raças), pois trata-se,
antes de mais, de construir movimentos autónomos racializados, após os quais
será possível a aliança com a esquerda branca. Na realidade, o aparente
radicalismo do discurso é uma mera versão pós-moderna do discurso da frente
popular da social-democracia tradicional. É necessário acumular o próprio poder
para depois negociar uma integração na sociedade capitalista, uma sociedade
certamente pouco nomeada, e quando isso acontece é considerado um mero
epifenómeno da civilização ocidental. No estilo pós-moderno mais puro, a
materialidade sucede as ideias.
Em suma, como dizemos, o livro não passa
de uma acumulação de lugares comuns que recordam o pior dos movimentos
burgueses de libertação nacional, de carácter estalinista, dos anos sessenta e
setenta, todos temperados para além de palavras de ordem religiosas e homofóbicas,
de compreender o próprio machismo porque é o meu. Obviamente, falar sobre o
facto de que, nas suas amadas comunidades, existem linhas de classe que as
fragmentam é algo que é melhor não falar. Em suma, o racialismo é uma ideologia
objectivamente ao serviço do capital na tentativa de nos dividir e fragmentar
enquanto proletariado, como classe única e mundial.
Classe?
Os pós-modernistas têm apenas uma concepção
ingénua de classe. Dos três, este é o conceito onde o pós-modernismo mais
revela a sua continuidade com a modernidade, com o pensamento progressista
burguês, goste-se ou não. O seu conceito de classe não é mais do que a concepção
sociológica de classe, igual à da social-democracia clássica e do leninismo.
Outra coisa seria investigar como, no fim, oscilamos entre estas roupas antigas
e novos binomios afinados que servem para ainda mais confusão: elites/povos
(Podemos), integrados/marginalizados (insurreccionalismo), etc.
Além disso, nas versões mais ingénuas da pós-modernidade, a classe é reduzida a uma mera questão de estatuto, de privilégio, perdendo de vista qualquer realidade estrutural, que faz lembrar as visões mais tradicionais da sociologia burguesa do século XIX e início do século XX. Esta visão combina-se, ao mesmo tempo, com uma crítica ao classismo que seria amalgamada com uma visão depreciativa daqueles que são proletários pobres. Incapazes de compreender sequer remotamente as bases materiais da nossa sociedade, acabam por reduzir tudo a uma forma de cultura, de percepção do mundo, de estar nele através de um discurso. Desta forma, ser proletário acaba por ser reduzido ao jogo discursivo com que nós, proletários, somos reduzidos a arruaceiros, chonis ou chavs (gírias espanholas para sub-culturas de jovens urbanos que se distinguem pelo estilo, comportamento e conotações sociais – NdT). Imaginar que somos uma classe material a lutar para se afirmar e destruir este mundo não passa pela cabeça destes académicos burgueses. E, no entanto, tem cuidado, porque a meta-narrativa está sempre à espreita.
7. Comunismo e Anarquia como Movimento Real
Depois de passar pela
Santíssima Trindade pós-moderna (género, raça e classe), ainda temos de fazer
novas críticas. E a trilogia pode ser transformada numa infinidade de lutas e
conflitos, cada um com a sua própria parcialidade (especista, vegan, etc.) Para
nós, o comunismo e a anarquia são um movimento total desde o início. O facto de
começar sempre de algum lado e de algum conflito imediato não anula a sua
generalização global e histórica. Os pós-modernistas tendem a negar este
movimento real quebrando a unidade entre o imediato e o global, o particular e
o universal, para o reconstruir a posteriori de forma morta.
Assim, a reconstrução feminista acaba por ser uma defesa dos direitos iguais no
capitalismo; racialização, uma defesa da integração e reconhecimento entre
diferentes "raças"; a luta dos operários, uma exigência de capital
para distribuir um pouco da pirâmide de rendimentos... Na medida em que cada
luta imediata está separada de uma perspectiva global de superação deste mundo,
cada parcialidade é uma parcialidade reformista, e a sua soma é também uma
parcialidade reformista. E para que conste, não estamos a falar de perspectivas
ideais ou meros princípios, são as nossas verdadeiras necessidades como
proletários que nos levam a enfrentar este mundo globalmente a partir de
qualquer um dos nossos imediatismos.
Obviamente, tal como o patriarcado, o
racismo fragmenta e divide a nossa classe, sendo um agente claro na reprodução
do mundo do capital. O que afirmamos permanente e invariavelmente é que só num
processo unitário de constituir o proletariado numa classe, em força histórica,
será possível superar realmente e materialmente estas divisões que fragmentam a
nossa classe e impedem a nossa constituição como partido para a destruição do
capital e do Estado. O comunismo é um movimento real e unitário que começa
pelas necessidades humanas e, a partir daí, supera divisões e fragmentação. Não
é o resultado de alianças e somas de diferentes parcialidades que negociam e se
cruzam entre si. Só o proletariado pode pôr fim ao capital, negando-se como
classe, na medida em que é o segredo oculto do capital, aquele que revela que
não é uma realidade natural, mas uma substância social. A classe não é, no
entanto, um facto sociológico, mas uma constituição colectiva e participativa,
enquanto força histórica, e para o ser tem de romper com todas as divisões que
a reprimem (nacionais, raciais, patriarcais...) O proletariado é uma classe que
não é uma classe, e no seu verdadeiro movimento em direcção ao comunismo
expressa o poder de eliminar não só a sociedade de classes, mas a
multiplicidade de opressões que o capital reproduz com ele.
Opressão racial, opressão sexual,
destruição do ambiente,... Existiam em todas as sociedades de classes, mas
nunca atingiram um nível tão sistémico e gigantesco como no capitalismo e,
especialmente, com o progresso da civilização capitalista na fase actual. Só
uma luta mundial pode destruir a própria base que reduz tanto a alienação do
homem como o conjunto de manifestações e atrocidades desumanas próprias das
relações sociais capitalistas. Apenas uma classe social – o proletariado –
contém neste ser este projecto e na sua realização – a revolução comunista.
Pelo contrário, a liquidação da luta através da sua parcialização e criação de
movimentos específicos tendem a diminuir ou resolver um destes problemas
separados, sem poder atacar a sua causa comum e profunda (feminismo, anti-racismo,
ambientalismo,...) com tentativas irremediavelmente adicionais de adaptação,
melhoria, reparação do sistema e, assim, reforço da ditadura do capital. Na
prática, estes movimentos serviram e só podem servir para desviar a energia
revolucionária do proletariado, para melhorar os mecanismos de dominação e
opressão e até para aumentar a taxa de exploração do proletariado.
(Tese de Orientação
Programática,
Grupo Comunista Internacionalista)
Esperamos que, ao longo destas páginas,
tenhamos esclarecido alguma da confusão que reina em muitos meios de
comunicação sobre estas questões, para que sirvam, acima de tudo, para
alimentar debates, discussões e esclarecimentos presentes e futuros.
● ● ● ● ● ●
Arrotos da pós-modernidade
"Os contratos [económicos] modernos
não são mais do que formas linguísticas, quando um contrato é manipulado de
alguma forma é possível dizer que a linguagem está a ser manipulada"
"Em vez de ideologia, prefiro
sempre falar de subjectivação, da produção de subjectividade."
"O tema, segundo toda uma tradição
da filosofia e das ciências humanas, é algo que consideramos um être-là (estar
lá – NdT), algo do domínio de uma suposta natureza humana. Proponho, pelo
contrário, a ideia de uma subjectividade de natureza industrial, mecânica, ou
seja, essencialmente fabricada, modelada, recebida, consumida."
"A queeridade, dada a sua
ambiguidade, hipoteca permanentemente aquilo que é dado como garantido e afirma
a sua identidade, baseada em diferenças e aspectos em mudança que são
articulados através das noções de classe, género, raça e sexo. É assim que
entendo que queer é uma atitude anti-assimilacionista, politicamente activa e
constantemente auto-questionável..."
"Dentro de um espaço Womanista,
posso elevar mulheres negras e outras mulheres de outras culturas porque, neste
paradigma, sou reconhecida. Sou reconhecida como parte disto devido à minha
pele escura e à minha condição de mulher. Eu, como mulher negra, posso
prosperar num espaço onde a minha vitalidade não é ignorada, ignorada e
descartada.
Com a minha própria auto-validação, não
preciso do feminismo (interseccional ou não) para definir a minha participação,
o meu valor ou o valor de outras mulheres na luta pela igualdade racial e pela
equidade de género.
Resumindo, não me critiquem com
feminismo. Não preciso de ser como tu para defender os direitos das mulheres e
as suas possibilidades."
"Esta visão universalista branca do mundo inteiro [...] faz parte dessa supremacia branca de definir tudo e universalizar tudo."
______________________
[1]Na última secção do
texto explicamos o que entendemos por classe ou partido, e também recomendamos
o texto de Communism #65: Proletarian Me?
[2]O marxismo é uma
recuperação social-democrata de Marx que tenta integrar o proletariado no
capital. É o partido do trabalho no capital. Pelo contrário, o comunismo é o
verdadeiro movimento que luta pela afirmação das necessidades humanas do
proletariado através da supressão do valor, das classes, do Estado. Marx foi um
membro proeminente do nosso partido, mas como ele próprio disse: "Não sou
marxista."
Fonte: Posmodernidad
o la impostura de una falsa radicalidad – Barbaria
Este artigo foi
traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice
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