O capitalismo de EStalinE
Notas sobre as Teorias do Capitalismo de Estado
A discussão que queremos introduzir neste texto não é académica. Quando era "Meia-Noite no Século", para usar a expressão afortunada e evocativa de Victor Serge, um punhado de camaradas ousou pensar nas raízes sociais da Rússia de Estaline. Naquela altura, tentar discernir a verdade sobre este fenómeno contra-revolucionário era literalmente arriscar a vida. Muitos destes camaradas foram perseguidos por esta razão, alguns foram assassinados pelos assassinos do capital, na sua forma "nacional-comunista", "fascista" ou "democrática". Obviamente, estas contribuições, nas quais pessoas que hoje recebem elogios da cultura dominante, como Simone Weil ou George Orwell, colaboraram directa ou indirectamente, não foram publicadas em livros académicos nem receberam o elogio dos jornais dominicais da imprensa burguesa. Na altura, nos anos 1930, Estaline era aliado das principais potências imperialistas da época. Foi mais um à mesa dos predadores imperialistas que partilham o sangue do proletariado mundial. O embaixador americano em Moscovo, Joseph Davis, partilhou com Estaline não só o seu primeiro nome, mas também a reivindicação dos Julgamentos de Moscovo como exemplo de justiça universal. Para o resto dos estados capitalistas mundiais, Estaline era um bom sonho, libertando-os do espectro do pior dos seus pesadelos, a revolução proletária mundial. É por isso que um escritor que agora é famoso, depois um pária perseguido e que fazia parte das listas negras daqueles que podiam ser eliminados, George Orwell, não pôde ver publicado o seu Animal Farm. Nenhuma das editoras queria publicar um livro que criticasse o aliado na Segunda Guerra Mundial do Reino Unido e dos Estados Unidos. Aliados de classe, numa guerra imperialista, são sagrados para a burguesia. Ninguém quis publicar o autor de Homenagem na Catalunha, um livro que não fala de nacionalismo, apesar do que algum estudioso desorientado possa pensar, mas sim dos sonhos e tentativas de revolução social massacrados pelo estalinismo, o principal agente burguês na Espanha republicana da época. A República, hoje evocada com nostalgia por tantos esquerdistas, não era mais do que uma enorme vala comum para milhares de revolucionários.
Como já dissemos, estas contribuições
não viram a luz do dia nos livros oficiais, mas sim em documentos internos,
jornais de pequena circulação, campos de concentração e prisões desde os
Estados Unidos até Itália, desde a URSS de Estaline até à Barcelona da Segunda
República. É assim que o nosso partido de classe se constrói, através de
minorias revolucionárias que mantêm contra a maré a importância e centralidade
do nosso programa e dos nossos objectivos, a necessidade de lutar de forma
intransigente por uma sociedade de mulheres e homens livres, sem dinheiro nem
classes sociais, sem mercadoria ou Estado. Como veremos no final deste breve
texto, esta é a tese central desta obra. A centralidade do comunismo como
negação de todas as categorias de capital, a compreensão de que a Rússia de
Estaline só poderia ser capitalista na medida em que existissem mercadorias,
classes sociais, dinheiro, salários, empresas, um Estado em hiperinflação
totalitária...
Além disso, estes camaradas ajudam-nos a
quebrar um dos habituais pontos comuns que se repetem nos manuais escolares de
todos os institutos e universidades do mundo. Uma história que é esta: no
século XIX havia um mundo muito mau, feito de desigualdades extremas, entre
ricos e pobres, burgueses e proletários. Este mundo não era outro senão o mundo
do capitalismo e da economia de mercado. As condições de vida do proletariado
eram dramáticas e as desigualdades sociais extremas. O capitalismo é um mundo
onde a propriedade privada reina suprema e o Estado raramente intervém na
economia. Esse mundo era oposto por outro, o mundo socialista. Tudo isto
deveu-se à Revolução Russa e à sua economia planeada. O socialismo
caracteriza-se pela intervenção estatal na economia e hoje domina em países
como a Coreia do Norte ou Cuba. É bom que, para educar as crianças, ainda não
cidadãs, lhes mostrem um vídeo sobre a Coreia do Norte para que possam vê-la
com os seus próprios olhos. Tudo isto quando também existem grupos
"comunistas nacionais", contra-revolucionários, que usam as
simplificações ideológicas do capitalismo para justificar e tentar reconstruir
ou reconstituir o comunismo que realmente existia na URSS de Estaline, na
Albânia de Hoxha ou talvez nas sangrentas ilusões nascidas nas universidades
das terras altas peruanas. O mundo com que sonham é composto por todos os
elementos dos pesadelos capitalistas. A nossa oposição a estas formas de
estalinismo revivido não poderia ser mais completa, este texto pode ajudar a
compreender que o estalinismo não é apenas um monstro criminoso e totalitário,
mas que é um monstro capitalista cujos crimes são, em primeiro lugar, contra o
proletariado revolucionário.
Estamos agora a chegar ao fim da
história oficial, enfrentamos dois extremos e já se sabe, como disse
Aristóteles, que no meio reside a virtude. Perante as extremas desigualdades do
capitalismo e a ineficiência burocrática e totalitária do socialismo,
encontramos a solução, enquanto humanidade, na economia mista. Um tipo de
economia que reúne o melhor do capitalismo (a eficiência do mercado) e o melhor
do socialismo (a distribuição da riqueza). É assim que a história apologética
do mundo de merda em que temos de viver é contada, sem grandes simplificações.
Um mundo assolado por desigualdade extrema, pobreza humana e antropológica, bem
como pobreza económica, um mundo que inevitavelmente está a colapsar porque não
passa de um mundo dominado pelo capital, ou seja, pelo capitalismo na pureza
das suas categorias. Bem, esta discussão que vamos levantar com base neste
texto é muito importante para nós porque é um míssil para a linha de água desta
ideologia. Não existe uma economia socialista na URSS e nos restantes países do
chamado "socialismo real". Socialismo e/ou comunismo são comunidades
humanas sem mercadorias ou dinheiro. Sem o funcionamento da lei básica da
sociedade capitalista, a lei do valor. Por outro lado, planeamento e capitalismo
não são incompatíveis. O capitalismo tentou, com sucesso parcial, controlar as
suas dinâmicas impessoais desde os anos 30, para começar a reconhecer, pelo
menos desde 1973-1975, o fracasso dessas tentativas. Hoje encontramo-nos num
momento em que o capitalismo atingiu o limite interno do seu desenvolvimento,
numa situação cada vez mais catastrófica. Estudar o carácter capitalista da
URSS ajuda-nos, portanto, a reconhecer e compreender as categorias fundamentais
do capitalismo. O capitalismo não é um sistema baseado na propriedade privada
dos meios de produção, mas numa relação social que exclui da dominação da
produção e reprodução da vida a grande maioria da humanidade, reduzida à
condição proletária. Uma força social impessoal (portanto não dominada pela burguesia
típica do expressionismo, a burguesia gorda e fumadora de charutos) que opõe
trabalho morto ao trabalho vivo, que nos sujeita a uma inércia catastrófica e
suicida.
Mas passemos agora às reflexões de
alguns camaradas que lutaram contra os efeitos da "Meia-Noite no
Século".
Trotsky e o trotskismo
A reflexão de Trotsky foi sempre marcada
pelo papel que desempenhou no regime bolchevique da Revolução Russa. Para ele,
ao contrário de Lenine, a Rússia Soviética era uma sociedade pós-capitalista em
transição para o socialismo. Uma formação social que representava um avanço
progressista em relação ao capitalismo, uma conquista do proletariado. Tudo
isto levou-o a defender, já nos debates do início dos anos 1920, que os
sindicatos tinham de se submeter ao Estado bolchevique, porque, em pura lógica,
se o Estado russo era um Estado proletário, não tinha de se defender de um
Estado dominado por ele enquanto classe. Desta forma, Trotsky opõe-se a
qualquer aspecto da autonomia de classe do proletariado em relação ao Estado
russo desde o início da revolução, que marcará a sua oposição às greves
operárias de Moscovo e Petrogrado de 1921, ou à sua justificação do massacre de
Kronstadt às mãos do Estado bolchevique.
A reacção subsequente de Trotsky à
degeneração totalitária, que Estaline levará a cabo, cumprirá sempre esse
limite. A incapacidade de reconhecer a natureza capitalista da formação social
soviética, desde o início, pesará para sempre a perspectiva de Trotsky na sua
oposição a Estaline. Quando o poder proletário que emergiu da revolução de
Outubro acabar por degenerar definitivamente perante o fracasso da extensão da
revolução mundial, Trotsky reconhecerá essa degeneração política, mas não verá
os problemas que desde o início se encontraram numa formação social condenada
ao desenvolvimento capitalista sem a ajuda da revolução proletária mundial.
Como a esquerda italiana sustentaria fortemente desde o início e Bilan nos anos
30, o socialismo num só país é impossível. A revolução russa foi uma revolução
proletária nos seus objectivos e finalidades, mas estes só poderiam ser
realizados através da extensão da revolução mundial; só uma potência proletária
triunfante à escala mundial pode cumprir as tarefas mundiais da revolução
comunista. Portanto, a formação social russa foi sempre capitalista. E o poder
proletário, sem esta extensão mundial da revolução, estava condenado à
degeneração. As contribuições de Bilan são fundamentais para a compreensão
desta inter-relação entre a revolução mundial e o isolamento da revolução na Rússia.
O processo de identificação entre o partido bolchevique e o Estado, e a
violência exercida por ambos contra os movimentos autónomos do proletariado
russo, não foram mais do que o golpe mortal ao processo revolucionário russo,
que acabou por conduzir ao estalinismo e à contra-revolução. Em todo o caso, a
revolução isolada pelo fracasso mundial da vaga proletária mundial (1923 na
Alemanha, 1927 na China, para usar duas datas emblemáticas), já estava
condenada. Só a revolução mundial poderia salvar o proletariado. Trotsky
mantinha um instinto internacionalista que lhe permitia reagir à degeneração
estalinista, mas esse instinto estava enormemente sobrecarregado pelos seus
limites teóricos e, acima de tudo, práticos, pelo papel de liderança que
desempenhou na construção do Estado russo e, portanto, pelos seus primórdios
contra-revolucionários.
Subsequentemente, para Trotsky nos anos
1930, e para todo o movimento trotskista ortodoxo desde então, a formação
social russa foi um estado operário burocrático degenerado. Isto deve-se ao
facto de a economia ser socializada pelo facto de a produção e distribuição da
riqueza social terem sido nacionalizadas, enquanto o poder político é
controlado por uma casta burocrática que deve ser derrubada. Por esta razão, a
economia russa (o que o trotskismo oficial estenderia após a Segunda Guerra
Mundial ao resto das economias do chamado "socialismo real") é
progressista e pós-capitalista (a propriedade pública e legal dos meios de
produção é uma conquista socialista), mas o aspecto limitado e reaccionário,
contra-revolucionário a partir dos anos 1930, é o controlo político do Estado
pela burocracia. A burocracia não é uma classe autónoma e independente, mas sim
uma casta. É por isso que não tem capacidade para decidir sobre a estrutura
social russa e vive parasitariamente das conquistas revolucionárias do Outubro
soviético, da economia planeada e estatal. Conquistas que o proletariado tem de
defender. Agora, para Trotsky, desde 1933 com a chegada de Hitler ao poder, as
possibilidades de reforma do Estado russo terminaram, e o que está em jogo é
levar a cabo uma revolução política que ponha violentamente fim à facção
burocrática estalinista. Claro que é uma revolução política e não uma revolução
social porque não atacaria a estrutura social, que já está em transição para o
socialismo, que é pós-capitalista, mas apenas contra a degeneração burocrática
e política que impede o pleno desenvolvimento das possibilidades da economia
soviética planeada e socialista.
Esta tese foi claramente exposta por
Trotsky no seu importante livro A Revolução Traída (1936). Nos primeiros quatro
capítulos, manterá com força a verificação material da superioridade da
economia socialista sobre a economia capitalista, baseada nos avanços na
produção industrial realizados pelos planos quinquenais da economia
estalinizada. Ou seja, para Trotsky, a economia russa está sobrecarregada pela
ineficiência burocrática, pelos métodos brutais e criminosos de Estaline, mas
no fim a sua estrutura é socialista, de modo que os avanços nas estatísticas do
aumento da produção se encontram no carácter socialista da economia russa.
Trotsky apresenta o carácter capitalista da produção russa como uma natureza
socialista, pois vemos nele uma identificação da natureza de uma formação social
com base nas relações jurídicas de propriedade. Como a propriedade pertence ao
Estado, a economia russa não pode ser capitalista, o oposto do que um método
materialista e comunista deve ser: são as relações sociais que determinam o
significado de uma formação social. No caso do capitalismo, como veremos no
final deste texto, as relações sociais caracterizam-se pela separação da vida
humana dos meios de produção e reprodução da existência, o que dá origem à aparição
do proletariado (como a humanidade separada da terra, suspensa no ar) e à
necessidade de vender a sua força de trabalho em troca de um salário. Isto
determina a oposição entre trabalho vivo e trabalho morto, ou seja, capital. É
isto que localiza o carácter capitalista da formação social russa e o de todas
as economias do chamado "socialismo real", e não um fetichismo
jurídico como o da propriedade privada ou estatal dos meios de produção.
Como podemos ver, Trotsky comete um erro
comum a grande parte da esquerda do capital, mas ainda mais grave para alguém
como o revolucionário bolchevique, a identificação do Estado como algo
progressista, em oposição à propriedade privada dos meios de produção como algo
característico da economia capitalista. À medida que Bordiga se desenvolverá,
com base na crítica de Marx à economia política, não é a propriedade privada
que caracteriza o capitalismo, mas o facto de ser uma força social impessoal
que precisa de produzir e acumular cada vez mais riqueza e que faz de todos nós
engrenagens na sua maquinaria ilimitada e aparentemente infinita. No entanto,
para os trotskistas, não pode haver capitalismo de Estado porque este deve ser
exercido em favor de uma burguesia concreta, que não existia na URSS. A
propriedade na URSS não era burguesa e as suas contradições sociais são
compatíveis com as de qualquer sociedade de transição: produção socialista,
distribuição capitalista.
Se, por um lado, Trotsky reduz a
estrutura económica a uma realidade progressista e pós-capitalista, por outro
lado, reduz a política do Estado russo a uma mera degeneração burocrática. É
por isso que se trata do proletariado realizar uma mera revolução política e
não social (que deve ser feita nos países capitalistas). Em última análise,
neste esquema, a burocracia tem algo progressista e melhor do que o resto dos
países capitalistas. E em caso de guerra ou conflito, esses estados teriam de
ser defendidos contra o resto das potências imperialistas. Este facto, a defesa
do Estado operário, será sempre um dos pilares do trotskismo, que o coloca como
parte da esquerda do capital. É isto que hoje o leva a defender, em geral,
governos social-democratas de esquerda contra partidos de direita ou
conservadores devido a este jogo dentro das instituições burguesas. Esta
dualidade trotskista, entre economia socialista e degeneração política, esconde
grande parte dos impasses do trotskismo enquanto corrente política
social-democrata.
A esquerda germano-holandesa e o conselhismo
A esquerda germano-holandesa foi, dentro
do marxismo revolucionário, a primeira corrente a caracterizar a Rússia
Soviética como capitalista. O que é um mérito indiscutível. Já em 1923, a
Internacional Comunista dos Trabalhadores (KAI, uma ruptura com a Terceira
Internacional do KAPD alemão) analisava a Revolução Russa como uma dupla
revolução, proletária nos seus objetivos mas burguesa nos seus métodos e
algumas das suas características. Esta tese foi elaborada por Herman Gorter,
mas rapidamente evoluiu noutros comunistas alemães de esquerda, como Otto
Rühle. Para o comunista alemão, a Revolução Russa estava condenada a degenerar
rápida e inevitavelmente. O Estado russo era um Estado capitalista burguês
nascido de uma revolução burguesa. Em 1926, diferentes líderes da oposição do
KPD foram expulsos (Korsch, Scholem, Maslow, Fischer, Katz...). Alguns deles,
como Korsch, evoluirão rapidamente para as posições conselhistas que a esquerda
germano-holandesa adoptará. Iwan Katz definirá, por exemplo, Estaline como o "Rei
dos camponeses" e a Rússia como uma potência capitalista. Karl Korsch, em
Agosto de 1926, considerou que a URSS era produto de uma revolução
radical-burguesa, mas em 1928 já era a expressão de um regime
capitalista-fascista que a estrutura jacobina da organização e filosofia
bolchevique moldou.
O texto mais elaborado desta corrente
são as Teses sobre o Bolchevismo (1934), preparadas pelo comunista alemão de
esquerda Helmut Wagner. Publicadas na revista Rotte Kämpfer, indicam que a
Rússia passou por uma transição do czarismo absolutista para o bolchevismo
absolutista. Entre o proletariado e o campesinato surge uma burocracia que se
constitui como a classe dominante. Não uma mera casta impotente subordinada ao
carácter estatal da economia russa, como em Trotsky, mas uma corrente social
dominante, autónoma em si e que configura um capitalismo sem burguesia. Um
sistema caracterizado por uma "produção estatal com métodos
capitalistas".
Helmut Wagner será quem fará a
contribuição mais elaborada dentro da esquerda germano-holandesa sobre a
natureza capitalista da URSS. No entanto, outros camaradas próximos das
posições conselhistas elaboravam textos e artigos nos quais defendiam a
natureza contra-revolucionária da URSS. Por exemplo, o jornal Réveil Communiste
em torno de Pappalardi (um comunista italiano de esquerda que se aproximava
cada vez mais de posições conselhistas) fala de um Estado de classe
anti-proletário, ou o líder do Grupo Operário Russo Miasnikov publicará um
livro em Paris, O Engano do Dia, onde defende que o Estado russo é
"social-burocrático com uma estrutura capitalista de Estado".
Terminamos esta parte referindo-nos a
dois dos conselhistas mais importantes: Paul Mattick e Anton Pannekoek. Mattick
liga o estalinismo ao Terceiro Reich ou ao New Deal de Roosevelt e identifica a
burocracia com a burguesia, embora, dependendo do período, fale indistintamente
do capitalismo e do socialismo de Estado. Por exemplo, no seu importante livro,
Marx and Keynes, argumenta que a economia soviética, com uma nacionalização
quase total, era muito diferente do capitalismo ocidental. O que, obviamente,
retira muito peso à sua caracterização da economia russa como capitalista.
Algo semelhante acontece no caso de
Pannekoek, que num texto publicado em 1946 (embora escrito durante a Segunda
Guerra Mundial) também falou do socialismo de Estado, insistindo na natureza
progressista do regime soviético. Outros militantes, embora de perspectivas e
origens trotskistas, também apoiarão a caracterização do socialismo de Estado
para a URSS. Referimo-nos ao importante economista de origem ucraniana Roman
Rosdolsky e ao ex-surrealista Pierre Naville na sua volumosa obra Le Nouveau
Léviatan. Para Rosdolsky, o isolamento da revolução levará à industrialização
da Rússia através da burocracia e, no caso de Naville, há um salário socialista
das cooperativas, onde os proletários se exploram. Para ambos, a sua posição é
um equilíbrio intermédio entre a concepção de Trotsky e a do capitalismo de
Estado, de que falaremos um pouco mais à frente.
Em todo o caso, as visões conselhistas,
embora tenham o mérito de definir o carácter capitalista da URSS desde o início
da década de 1920, caracterizam-se por uma falta de profundidade na sua
reflexão. São um exemplo importante de instinto e reacção de classe, mas também
se caracterizam pela falta de rigor nas categorias que não lhes permitem
explicar com mais detalhe e profundidade a razão desta caracterização. É isto
que leva alguns destes camaradas, como Pannekoek ou Mattick, a usarem os termos
capitalismo e socialismo de Estado de forma intercambiável. O que, em última
análise, não nos permite compreender em que sentido o colapso da URSS foi sinal
da crise mais geral do capitalismo mundial.
Os teóricos do Terceiro Campo: Colectivismo Burocrático
Alguns camaradas deste período
argumentariam que a Rússia de Estaline não seria nem um Estado operário
burocrático degenerado, como Trotsky sustentava, nem uma forma de capitalismo,
mas uma terceira forma de opressão social, nem capitalista nem da classe operária.
Para muitos destes camaradas, o estalinismo, enquanto forma social, era
consistente com as transformações mais gerais que o capitalismo estava a sofrer
e que aboliram a propriedade privada dos meios de produção perante uma nova
dominação da tecnologia, dos gestores, da burocracia.
Mas vamos por ordem, os primeiros
vislumbres destas concepções surgem nos ambientes do grupo revolucionário
francês em torno de Boris Souvarine. Especificamente, foi o comunista austríaco
Lucien Laurat, pseudónimo de Otto Maschl, para quem a Revolução Russa, isolada
da revolução mundial, estava a ser substituída pelos burocratas estalinistas
que também aproveitavam as fraquezas internas do processo russo. Para Laurat
não existe capitalismo porque não existe a classe de propriedade privada, pelo
que a sua análise está muito focada nas análises das formas legais da
propriedade. A burocracia é uma classe parasitária e trata-se de analisar uma
nova forma social que se desenvolve no calor da maquinaria e da tecnologia, com
novas formas de planeamento tecnocrático. Itália e Alemanha desenvolveriam, a
partir das suas formas fascistas, aquelas formas de plutocracia e burocracia
que, para Laurat, expressariam a decadência da burguesia como classe
capitalista.
Foi a filósofa francesa e militante
Simone Weil da época quem seguiu as elaborações de Laurat, num texto publicado
em La Révolution Prolétarienne (n.º 138): Estamos a caminhar para uma revolução
proletária? No qual argumentará que o crescimento dos gestores e tecnocratas
acompanha a divisão social do trabalho, a divisão entre administradores e
trabalhadores intelectuais versus trabalhadores manuais, ligando este processo
à Alemanha, aos Estados Unidos de Roosevelt, etc. Daqui conclui que a luta de
classes entre o proletariado e a burguesia é substituída por uma oposição muito
mais ampla entre trabalho manual e trabalho técnico, e entre humanidade e
desenvolvimento da tecnologia. Assim, neste texto e noutros que se seguiram,
como Reflexões sobre as Causas da Liberdade e da Opressão Social, Simone Weil
defendeu a impossibilidade da revolução proletária e como o marxismo, enquanto
visão teórica do mundo, continua com os mitos progressistas do capital.
Qualquer tentativa de revolução ou reforma social profunda torna-se impossível
perante o avanço da tecnologia. Imaginar que a história pode ser desviada numa
direcção diferente através de reformas ou revoluções é sonhar acordado, dirá
ele. Este não é o local para criticar esta perspectiva que se encontra noutros
autores contemporâneos e posteriores, como Lewis Mumford, Jacques Ellul ou
Bernard Charbonneau. Podemos simplesmente indicar que a redução do capitalismo
a uma mega-máquina ou a um sistema industrial e tecnocrático tende a
fetichizar, com base na tecnologia e nas máquinas, as relações sociais
capitalistas. Ou seja, a tecnologia não é mais do que a expressão,
materializada, daquele diabo no corpo das máquinas que é o capital e que move a
própria tecnologia capitalista no seu desejo de crescimento ilimitado. Por
outro lado, visões como a história próxima de Simone Weil muito cedo, não menos
do que há quase 100 anos. Desde então, assistimos a lutas de classes
enormemente importantes, como as das décadas de 1960 e 1970, e ainda temos
lutas importantes para viver que determinarão, de uma forma ou de outra, o
nosso futuro enquanto espécie. A luta entre o comunismo ou a extinção da
espécie é a dicotomia do nosso tempo e permanece aberta numa luta decisiva nas
próximas décadas.
Outros camaradas que continuarão nesta
perspectiva irão focar-se nos ambientes do trotskismo. Em primeiro lugar, o
militante italiano Bruno Rizzi, ex-PCdI, aproximou-se dos ambientes da Quarta
Internacional nos anos 30. Escreverá um livro chamado A Burocratização do
Mundo, no qual argumentará a marcha irreversível do mundo rumo a um poder
burocrático em ascensão. Esta discussão já dará origem a teorias sobre um colectivismo
burocrático como terceira forma social que inevitavelmente se afirma a partir
da tensão entre uma exploração individual que declina em favor de uma opressão
colectiva. Uma forma de opressão totalitária (reminiscente das noções de Orwell
de 1984 ou das concepções de totalitarismo e liberdade do falecido Victor
Serge, para falar de dois camaradas influenciados por estas leituras dentro do
meio revolucionário) onde não há possibilidade de escolha, onde os operários
russos são prisioneiros. A única diferença que teriam com os escravos gregos
era o acesso ao serviço militar. Em todo o caso, o colectivismo burocrático, em
Bruno Rizzi, substitui o capitalismo como nova etapa do desenvolvimento
histórico e a tecnocracia como a última classe dominante do mundo.
Nas fileiras do trotskismo, esta
discussão terá lugar dentro do SWP americano. Da Guerra Russo-Finlandesa,
devido à invasão soviética da Finlândia em Novembro de 1939. Trotsky e uma
pequena maioria do SWP americano (o principal partido trotskista da época)
defenderam a URSS como um estado operário na guerra, mas foram contestados por
uma minoria de quase 50% da organização, liderada por Max Schachtman, que
criticava o defensivismo de Trotsky em relação à URSS. Para eles, é uma guerra
imperialista onde não há campo para defender. Esta perspectiva de independência
de classe será acompanhada por uma análise que conduzirá à defesa da natureza
social da URSS como terceira forma social, nem proletária nem capitalista, mas
como colectivismo burocrático.
A primeira contribuição neste sentido
será a de James Burnham, que foi um dos teóricos da cisão que viria a dar
origem ao Workers Party (Partido Operário – NdT). Pouco depois da separação,
acabou por romper com a organização e mais tarde com o marxismo, publicando um
livro importante em 1941: The Managerial Revolution. As teses de Burnham
são muito semelhantes às de Bruno Rizzi,
de facto este último irá acusá-lo de ter copiado a sua ideia. Burnham argumenta
que uma nova burocracia se torna a classe dominante e este facto é inexorável a
nível mundial. Nos anos 30, estamos a assistir a uma transição do capitalismo
para uma nova sociedade de gestão, pois é dominada não pelos donos dos meios de
produção, mas por gestores, executivos, técnicos, engenheiros, administradores,
chefes de escritório... Ao contrário de Rizzi, para Burnham esta transição não
conduziria a uma futura revolução socialista, mas marcaria uma nova era
histórica definitiva.
Outros camaradas, numa perspectiva ainda
revolucionária, continuarão a defender estas posições dentro do Partido Operário.
Antes de mais, Max Schachtman, que em A Rússia é um Estado dos Operários ? (Is Russia a Workers’State?) diferencia entre
formas de propriedade (baseadas na dominação legal do Estado) e relações de
produção em relação à Rússia. Os primeiros são progressistas, os segundos não
porque eram controlados pela burocracia. A questão central é, portanto, quem
controla o Estado e se a burocracia é uma classe autónoma e independente ou não.
Em todo o caso, uma vez que as formas de propriedade são progressivas em
relação à propriedade privada dos meios de produção, típica do capitalismo
ocidental, estas formas devem ser defendidas contra uma possível restauração
capitalista. Outros camaradas do seu partido, como Joseph Carter, que primeiro
cunhou o termo colectivismo burocrático, criticaram a ideia de que as formas de
propriedade na URSS eram algo progressistas. Para Carter, isso não faz sentido.
A questão é se o proletariado controla ou não os meios de produção, de modo que
a propriedade nacionalizada não possa ser defendida como algo positivo, fora
deste aspecto do controlo operário da produção.
Como veremos no final destas notas, este
tipo de posição caracteriza-se por um profundo mal-entendido da natureza do
capitalismo, pois redu-lo à propriedade privada dos meios de produção. Eles não
entendem o capitalismo como uma relação social caracterizada pela separação dos
proletários dos meios de produção, mas como uma forma de dominação e controlo
privado sobre os meios de produção. Basicamente, uma boa parte dos candidatos
neste debate concorda neste aspecto, o de reduzir o capitalismo à sua forma
legal. É o que levará Trotsky a sustentar o carácter socialista da URSS e o
que, pelo contrário, levará Schachtman e os seus camaradas a defender a ideia
de colectivismo burocrático na URSS. Actualmente, poucos ocupam estas posições
de colectivismo burocrático. No caso do Partido Operário, acabarão por se
dissolver no Partido Socialista Americano e Schachtman acabará por apoiar os
Estados Unidos na Guerra do Vietname. Em última análise, são concepções que têm
dificuldade em posicionar-se a partir de uma clara independência de classe. O
exagero e a confusão sobre o carácter específico da formação social russa
levarão a focar-se nas suas características totalitárias particulares e a ver o
capitalismo ocidental como um mal menor. Isto é o que acontecerá não só a
Schachtman, mas também a outros companheiros da época, como George Orwell,
referindo-se a um dos mais conhecidos.
Hoje em dia existe um
grupo trotskista que reivindica com força os teóricos do Terceiro Campo.
Referimo-nos ao Workers’ Liberty, cuja figura teórica mais conhecida é Sean
Matgamna. Tem numerosas publicações em inglês a esse respeito, o que não deixa
de ser uma fonte interessante para conhecer a génese desses debates. Em
qualquer caso, é emblemático que este grupo trotskista (e de um ramo não
especialmente radical do trotskismo, como expressa o seu apoio entusiasta a
Corbyn no Partido Trabalhista através da sua entrada no partido
social-democrata) não tenha problemas em vincular as suas posições clássicas
próprias do trotskismo social-democrata (defesa da frente única, governo
operário, carácter proletário dos partidos social-democratas tradicionais) com
a defesa do colectivismo burocrático em relação à URSS e aos países do chamado
“socialismo real”.
A URSS como capitalismo de Estado
Agora aproximamo-nos dos camaradas que
vão compreender o carácter capitalista da URSS dos anos 40 do século XX. Alguns
deles vêm de organizações ligadas à esquerda comunista e outros romperão com o
trotskismo com graus variados de profundidade.
Perante o primeiro, destacam-se as
figuras de Marc Chiric (fundador do TPI) e Onorato Damen (líder do Battaglia
Comunista). Ambos defenderão as posições do capitalismo de Estado, entendendo
que o Estado surge na linha da frente das relações sociais de produção na
tentativa de controlar a dinâmica do capital de forma totalitária. A URSS seria
assim um exemplo das dinâmicas mais gerais do desenvolvimento do capitalismo e,
pelo menos para este último, o desenvolvimento da URSS coloca-a à frente do
progresso capitalista. Ambos serão criticados por Bordiga devido a esta
caracterização. Para ele, o Estado nunca poderá controlar a dinâmica do capitalismo,
razão pela qual tem muitas reservas quanto ao uso do termo capitalismo de
Estado, se a partir deste conceito for compreendida a primazia do Estado sobre
a dinâmica do capital. O comunista de origem moldava, Chiric, será
implicitamente criticado no seu texto O Diabo no Corpo e o segundo numa
correspondência particular que levará à ruptura de ambos, e à divisão dentro da
esquerda italiana entre Battaglia Comunista e Programma Comunista (para fazer
referência aos jornais de ambas as organizações). Essa correspondência será
publicada pelo próprio Damen no seu livro intitulado: Bordiga, para além do
mito.
Quanto às rupturas dentro do trotskismo
com as versões oficiais e à utilização das posições do capitalismo de Estado,
encontram um precedente no trotskista britânico de esquerda dos anos 1930, Ryan
Worrall, baseado no seu texto Estado Proletário ou Estado Capitalista?. Worrall
antecipa a abolição da propriedade privada pela dinâmica do próprio capital a
partir do desenvolvimento capitalista (veja-se abaixo o que vamos comentar
sobre Bordiga). A propriedade privada não caracteriza o capitalismo, ao
contrário do que Trotsky pensava, e a URSS seria uma expressão de um
capitalista colectivo através do Estado. No entanto, Worrall não considera a
URSS um estado imperialista como outros estados capitalistas e também sustenta
que é um tipo de formação social mais próxima do socialismo do que dos
capitalismos ocidentais. O seu texto foi criticado pelo famoso economista
social-democrata Rudolf Hilferding, que ocupava uma posição próxima do colectivismo
burocrático. A URSS expressaria um novo sistema económico de carácter
totalitário, no qual a economia estaria sujeita às necessidades do Estado.
A partir da década de 1940, houve
diferentes rupturas dentro do trotskismo que expressaram uma reacção proletária
e internacionalista à participação do trotskismo oficial na guerra imperialista
conhecida como Segunda Guerra Mundial. As secções oficiais do trotskismo
defenderão a política militar proletária e participarão activamente nas
resistências nacionais contra o fascismo, o que as levará a ser parte activa de
um dos campos em disputa nesta guerra imperialista. Estas posições foram
confrontadas internamente por alguns camaradas agrupados em torno das secções
espanholas (lideradas por Grandizo Munis e Benjamin Péret), a secção grega
(liderada por Agis Stinas, onde um jovem Castoriadis seria membro) e a secção
vietnamita em torno de Ngo Van, que mais tarde evoluiria para posições de
conselhista.
O importante em todas estas reacções é que
elas supõem uma defesa das posições internacionalistas e da independência de
classe contra o papel social-democrata e reformista do trotskismo, que desde os
anos 40 se tem claramente situado noutro terreno de classe ao defender um dos
campos em disputa pela guerra imperialista, além de reiterar o seu apoio à URSS
como um estado operário burocraticamente degenerado. Uma caracterização que se
estenderá ao resto dos países do chamado socialismo real, como estados
operários burocraticamente deformados e não degenerados, neste caso.
Estes camaradas não só defenderão estas
posições internacionalistas, como também aprofundarão a caracterização
capitalista da URSS. Em primeiro lugar, referimo-nos a Munis, que escreveu
juntamente com Benjamin Péret e a companheira de Trotsky, Natalia Sedova, um
texto já em 1946 onde defendiam o carácter capitalista da URSS. Estas posições,
juntamente com um internacionalismo consistente, levaram-nos a romper com a
Quarta Internacional em 1951. Para Munis, a contra-revolução burguesa
estalinista triunfa desde o pacto Molotov-Von Ribbentrov. Isto implica o
desenvolvimento do capitalismo de Estado sem uma classe dominante madura, ao
contrário dos países ocidentais. O capitalismo de Estado implica um antagonismo
entre trabalho morto e trabalho vivo, entre capital e trabalho onde a
acumulação de capital constante prevalece sobre os salários dos operários. O
carácter capitalista da URSS vê-se, em última análise, para os munis, no facto
de que o que domina no planeamento russo são as necessidades de acumulação de
capital e indústria pesada e não as necessidades humanas dos proletários, o seu
consumo social, a necessidade de reduzir as horas de trabalho e aumentar o grau
de satisfação das necessidades humanas. Que é o que o planeamento comunista
autêntico e não capitalista implicaria.
Defendem também uma perspectiva de
caracterização social da URSS como capitalismo de Estado, a chamada tendência
de Johnson e Forest. Na verdade, liderados por CLR James, Raya Dunaievskaya e
Grace Lee. Foi sobretudo Raya Dunaievskaya quem deu um contributo decisivo
devido ao seu domínio da língua russa (era judia de origem ucraniana nascida
numa zona fronteiriça), o que lhe permitiu consultar estatísticas oficiais em
primeira mão. No entanto, ao contrário dos Munis ou dos camaradas gregos e
vietnamitas, a Tendência Johnson-Forest não fará uma denúncia clara e insofismável
do papel burguês do trotskismo na defesa de um dos campos imperialistas na
Segunda Guerra Mundial. Esta ausência é muito importante porque nos permite
compreender a evolução do grupo ou algumas das posições actuais dos seguidores
americanos de Dunaievskaya, que defenderam uma lógica anti-fascista contra a
administração Trump. Para os revolucionários americanos da Tendência, o central
era a sua defesa da caracterização da URSS como um regime capitalista de
Estado. Isto levou-os a romper com o Workers Party de Max Schachtman e Carter
em 1947 e a entrar no SWP americano, sob a perspectiva de que uma nova vaga
revolucionária se aproximava após a Segunda Guerra Mundial. Em 1951, também
acabaram por romper com o SWP com base no documento, escrito maioritariamente
por CLR James, Capitalismo de Estado e Revolução Mundial.
Dunaievskaya individualiza o
funcionamento do valor na sociedade soviética a partir das estatísticas
oficiais. Tal como Bordiga, dará grande importância ao texto de Estaline,
escrito em 1952, sobre Os Problemas Económicos da URSS, onde o ditador
georgiano reconhece a aplicação da lei do valor na sociedade russa.
Dunaievskaya defende que a lei do valor opera na sociedade russa através do
mercado mundial, de modo que serão as categorias de capital que moverão a
produção e distribuição da economia russa. Para isso, polemizou com economistas
pró-soviéticos e estalinistas famosos (ainda hoje com grande e imerecida fama),
como Paul Baran ou Oskar Lange. A lei do valor é assim o motor da economia
russa, que também se expressa na oposição entre trabalho morto e trabalho vivo,
entre a acumulação de capital constante e a subjugação despótica do trabalho
vivo. Dunaievskaya, ao contrário de Bordiga, não dará tanta importância à forma
como uma lógica de negócio continua a operar na economia russa baseada em
diferentes unidades produtivas que seguem as suas próprias lógicas irracionais.
Mas, em todo o caso, individualiza clara e insistentemente que o capitalismo é
uma relação social, que a burocracia russa é agente do capital no seu Estado, e
que não pode ser propriedade legal oficial que define as relações sociais de
uma formação social. A sua análise é, portanto, uma das mais claras sobre o
capitalismo soviético.
Outra tendência que desenvolveu posições
internacionalistas durante este período foram os camaradas em torno da revista
Socialismo o Barbarie. Cornelius Castoriadis e Claude Lefort foram os seus
principais líderes. O grupo nasceu de uma cisão em 1946 do Partido Comunista
Internacionalista Francês, a secção da Quarta Internacional. Castoriadis foi
profundamente marcado pela sua militância com o internacionalista grego Agis
Stinas durante a Segunda Guerra Mundial. Onde defenderam posições
internacionalistas e o derrotismo revolucionário que os colocavam fora da
capitulação trotskista em relação aos campos democráticos durante essa guerra
imperialista (mantinham também uma crítica clara à URSS como potência
imperialista). No Segundo Congresso da Quarta Internacional, Castoriadis actuou
como representante do grupo grego de Stinas, juntamente com outros camaradas
franceses como Montal (pseudónimo de Claude Lefort). Durante as primeiras
edições de Socialismo ou Barbárie, e no que diz respeito ao tema que nos diz
respeito no nosso texto, os social-bárbaros parecem caracterizar a URSS como um
colectivismo burocrático, mas de 1948 a 1949 referem-se à sua perspectiva sobre
a natureza da URSS como capitalismo burocrático (neste caso, a relação privilegiada
que terão com o grupo americano de Dunaievskaya, James e Grace Lee), onde a
burocracia controla os meios de produção e o excedente social, com o qual
conseguem estabelecer um regime totalitário com quase nenhum limite, uma
exploração global. Desta forma, a burocracia torna-se uma classe autónoma, o
agente autêntico da dominação social para o seu benefício. É este facto que
Amadeo Bordiga criticará justamente numa série de textos publicados sob o nome
de Classe, Partido e Estado na Teoria Marxista.
Finalmente, vamos referir-nos ao grupo
ligado ao trotskista de origem judaica Tony Cliff. Neste caso, é uma corrente
que será ortodoxamente trotskista em todas as posições, excepto na defesa do
carácter capitalista da URSS, que a colocará à esquerda do trotskismo oficial,
e na defesa de que o programa teórico da revolução permanente foi desviado
desde o período pós-guerra e conduziu ao desenvolvimento de formas de
capitalismo de Estado, como no caso da China maoísta. Cliff escreverá o seu
livro sobre o Capitalismo de Estado em 1947. Este grupo britânico inicialmente namorou
com posições à esquerda do trotskismo, começando por uma abordagem à figura de
Rosa Luxemburgo, mas a partir dos anos 70 e com o nascimento do Socialist
Workers Party (SWP) assumiu todas as posições programáticas tipicamente
trotskistas (defesa da frente unida, o papel da esquerda como mais progressista
do que a direita, defesa do sindicalismo, dos governos operários...). E, de
facto, hoje é uma das correntes mais de direita do trotskismo, próxima em
algumas das suas abordagens à corrente europeia historicamente ligada a Ernest
Mandel (o que anteriormente era conhecido como a URSS da Quarta Internacional).
Voltando às posições sobre o capitalismo
de Estado, para Cliff a ideia da auto-emancipação do proletariado é central
para definir que a URSS não pode ser um regime socialista. Os planos
quinquenais estalinistas são uma forma de revolução burguesa onde se
desenvolvem os processos de acumulação de capital no campo russo. Embora Cliff
inicialmente tenha defendido a importância do mercado mundial para explicar
como o valor actuava na sociedade russa e, consequentemente, no seu carácter
capitalista, com o passar do tempo substituiria esta concepção pela da economia
de armamentos permanente. A competição mundial, em tempos de Guerra Fria, entre
a URSS e os Estados Unidos forçará a primeira a seguir uma lógica competitiva
que terá um carácter capitalista sobre a sua economia, para os trotskistas
radicados no Reino Unido. Em todo o caso, trata-se de um regime que tem
diferenças importantes em relação ao capitalismo ocidental: os preços não são
fixados pelo mercado, mas pelo aparelho estatal (como também pensava
Hilferding, por exemplo), não existem empresas individuais independentes, mas
subordinação ao plano estatal (como também defendia Dunaievskaya e, ao
contrário de Bordiga). A URSS é, assim, uma grande empresa ligada ao mercado
mundial, embora o monopólio do comércio externo limite estes efeitos. Fá-lo,
como dissemos acima, através da política de armamento. Além disso, Cliff
rejeitou a ideia de que os operários russos eram assalariados modernos porque
não haveria mercado de trabalho, sendo algo que seria em qualquer caso
compatível com o capitalismo, como uma plantação de escravos. Esta posição foi criticada
por importantes camaradas seus, como Alex Callinicos e Duncan Hallas, com base
na evidência da existência dos salários como meio que tinham para obter riqueza
social pelos proletários dos países do chamado "socialismo real".
Além disso, negar a existência do trabalho assalariado como mercadoria na URSS
seria o mesmo que afirmar que não haveria proletariado na URSS e, portanto,
capital.
Bordiga: Capital como Força Social Impessoal
Os anos negros de Bordiga são os do seu
isolamento político, os vinte anos desde 1926 (quando foi preso pelo regime
fascista italiano) até retomar contacto com os seus camaradas no norte de
Itália, em 1945, e regressar às discussões da esquerda comunista italiana.
Esses anos não foram lustros perdidos para o comunista napolitano, pelo
contrário, são os anos que lhe permitirão regressar sistematicamente a Marx e
fazer contribuições teóricas essenciais para o nosso programa revolucionário.
Um dos aspectos centrais em que a sua contribuição se concentrará é explicar o
carácter capitalista da sociedade russa. Bordiga dedicaria centenas de páginas
a esta discussão nas décadas de 40 e 50. Um aspecto novo, como o próprio Amadeu
reconheceu, marcado pela degeneração interna da revolução proletária na Rússia,
mas que exigia um estudo sério e sistemático que só podia ser feito a partir de
uma compreensão rigorosa do método e da teoria de Marx. Para Bordiga, só
compreendendo o que é o capitalismo é que se pode compreender porque é que a
Rússia era capitalista. Essa é a sua grande contribuição neste aspecto e o que
o diferencia radicalmente das restantes contribuições discutidas até agora.
Para isso, dedicaria todo o tempo necessário, não só porque o passar dos anos
ajudou a compreender muito melhor o fenómeno russo, mas também pela mesma necessidade
de combater o impressionismo teórico que destilou em muitas das contribuições
de outros colegas.
O que é capital para Bordiga? Uma força
social impessoal movida por um impulso automático de acumular capital sem fim.
E é que, no capitalismo, o sistema de apropriação do produto é social e é
feito, ao contrário do passado, não pelo objectivo do consumo pessoal dos
capitalistas, mas sim da acumulação de capital como propósito primário e
exclusivo. É isto que leva Bordiga a colocar o problema da classe dominante sob
o capitalismo nos seus termos correctos, e não se preocupar com a obsessão que
domina outros camaradas para descobrir se existe ou não uma burguesia russa.
Este novo sistema social de opressão não se caracteriza por uma nova forma de
propriedade privada pessoal, mas pelo seu carácter social. No caso da
escravatura ou feudalismo, as classes dominantes apropriavam-se do excedente
individual criado pelo escravo ou servo para consumo pessoal, mas com o
capitalismo isso não acontece. É o capital que subjuga os capitalistas, os
subsome como se estivessem possuídos, como se carregassem o diabo nos seus
corpos. O capital é um sistema social em crescimento contínuo, na realidade não
é mais do que isto, valor inflaccionado com valor, valor em crescimento contínuo.
O dinheiro subsome o trabalho assalariado no processo produtivo, que produz
dinheiro extra, mais-valia. M': M-C-M' é o esquema com que Marx explica o
movimento contínuo do capital. Os capitalistas que não se submetem a este
movimento simplesmente desaparecem porque não são iguais ao próprio processo,
ao próprio movimento. É por isso que Bordiga explica, seguindo Marx, que os
burgueses não passam de funcionários do capital. A função é imposta à pessoa.
Neste aspecto, o capitalista é muito diferente de outros exploradores do
passado, a apropriação acima de tudo privada, que o senhor feudal ou o dono dos
escravos controla para as suas próprias necessidades de reprodução, desaparece
porque o que domina tudo e todos é um movimento automático que se impõe com uma
força aparentemente natural e omnisciente, inquestionável. É por todas estas
razões que o capital é um sistema social, e não de propriedade pessoal, e que o
poder do capitalista não se mede com base na propriedade a que tem direito
legal, mas na massa de capital e trabalho social acumulado que tem à sua
disposição e a que se submete, mesmo sem o saber. Por esta razão, e em resumo,
podemos afirmar que o capital é um poder social impessoal, um valor inflaccionado
com valor e em crescimento contínuo.
Bem, o capitalismo é uma relação social.
Mas o que é que isto significa? O que pressupõe a separação entre o operário e
os meios de produção e reprodução da vida. Isto elimina a propriedade privada
pessoal sobre a terra (que os camponeses possuíam na Idade Média) e obriga os operários
a vender a sua força de trabalho para aceder à riqueza através dos salários. A
riqueza não se expressa directamente, através do auto-consumo do que é
produzido, mas sempre indirectamente através do mercado. Mas isto significa que
a produção capitalista é sempre (indirectamente) social e produzida como valor
de troca que é vendido no mercado. Tudo adquire uma função social no
capitalismo, seja o trabalho (reproduzo-me vendendo a minha força de trabalho
para produzir algumas mercadorias e consumir diferentes), ou a função do
capitalista. Ser capitalista já não é uma posição pessoal, mas social, e da
mesma forma, a propriedade privada não é tanto uma forma legal ou pessoal, mas
sim uma apropriação social da produção. É também por isso que, no capitalismo,
as classes são formas sociais abertas (pode-se nascer proletário e tornar-se
capitalista, em muito poucos casos, ou passar de pequeno burguês a proletário),
ao contrário do carácter fechado dos estados feudais. As classes são caracterizadas
pelo seu ser social e não pelas suas figuras pessoais.
Continuando com a explicação do
capitalismo como uma relação social, o valor não é mais do que a forma como as
condições da sua produção são apresentadas aos produtores. Uma força externa
incorporada em maquinaria e empresas a quem tenho de vender a minha força de
trabalho se quiser aceder à riqueza. É isso que faz o capital impor o seu poder
ao trabalho social e fazê-lo com um despotismo aparentemente natural. O que é
uma relação social e histórica, a expulsão dos camponeses da terra e a
compulsão para se tornarem proletários vendendo a força de trabalho como posse,
uma necessidade imperativa para não morrer de fome, é naturalizado e aparece
como uma simples relação entre coisas. As pessoas são mediadas e sujeitas a
coisas (máquinas, empresas, objectos de consumo, dinheiro...) e as coisas
tornam-se pessoas, os verdadeiros protagonistas do movimento e das dinâmicas
sociais. É a dominação do trabalho morto (maquinaria, ferramentas, fábricas,
trabalho acumulado no passado) sobre o trabalho vivo. Esta é a análise de Marx
sobre o capital que Bordiga recupera para compreender porque é que a URSS é um
Estado capitalista.
Existem muitas consequências desta
análise. Se os objectos produzidos pelas relações sociais nos aparecem como os
sujeitos autênticos, mas essas relações sociais estão ocultas pelas dinâmicas
sociais (isto é, pelo fetichismo da mercadoria e do capital), os produtos das
relações sociais são autónomos dos indivíduos, não precisam deles, não requerem
a sua vontade consciente. O capitalismo não se caracteriza, portanto, pela
vontade dos seres humanos, mas, pelo contrário, é Ele quem define e configura
essa vontade. É isto que torna o capitalista na história capaz de adquirir
várias figuras e roupas, de poder dispensar algumas das suas encarnações e
substituí-las por outras (uma sociedade de classes e não de estados fechados),
já que o que define o capitalista não é a sua personalidade e vontade, mas o
facto de ser uma mera personificação das dinâmicas e necessidades do capital. É
a função que determina o órgão. Bordiga explica que esta não é apenas a
substância da análise de Marx, mas que a própria dinâmica do capitalismo no
século XX, longe de se afastar da descrição que fez em O Capital, tende a
afirmar com força crescente. O mito do burguês gordo com um charuto, típico das
caricaturas expressionistas de George Grosz, por exemplo, que domina e explora
os trabalhadores devido à sua sede insaciável de riqueza, não é a análise de
Marx sobre o que é o capitalismo. E, além disso, são caricaturas que não
expressam a verdadeira natureza do capitalismo. O capitalismo, na medida em que
desenvolve e impõe a sua força social, tende a despersonalizar, a figura do
empreendedor individual desaparece em nome da concentração e centralização do
capital. Com a implementação de empresas, capital financeiro, grandes empresas.
O proprietário individual é extinto e um proprietário colectivo aparece
representado por muitos accionistas ou pelo próprio Estado. E o que define o
capital não é a propriedade jurídica pessoal, mas a relação social, o facto de
o capital ser trabalho acumulado que subsome e confronta o trabalho vivo. Com o
desenvolvimento do capitalismo, há uma separação cada vez mais clara entre a
propriedade (cada vez mais colectiva, por acções ou pelo capital público do
Estado) e a gestão do capital realizada por gestores, executivos, técnicos...
Foi este facto que os teóricos do colectivismo burocrático reflectiram de forma
impressionista. Um facto que não pressupõe uma nova era marcada pela dominação
da tecnologia, que vai além do capitalismo, mas simplesmente a expressão cada
vez mais pura e refinada da lógica capitalista na sua oposição ao trabalho
vivo, à humanidade despojada de toda a propriedade que não seja a sua força de
trabalho. Segue-se então um divórcio entre propriedade e capital. O capitalista
desaparece então como figura física que dispõe exclusivamente do capital sobre
a sua fábrica, tornando-se cada vez mais um empreendedor que intervém e se
submete ao processo de auto-valorização do capital através da exploração da
força de trabalho. Bordiga falará assim do capitalista como um empreendedor
puro e da empresa como uma instituição social sem propriedade, incorporada,
como no passado, por uma pessoa individual. É um sistema de interesses baseado
em funções capitalistas, cada vez mais impessoais. O outro é importante pelo
que ele tem ou possui, pelo que posso trocar com ele e não pelo que ele é. O
que define a burguesia como classe é o seu apego a uma força social que a
possui, e não as dependências pessoais que caracterizaram os senhores feudais
ou proprietários de escravos no passado.
De tudo o que foi dito, podemos
compreender a importância de definir o capital como um poder social, onde a
sociedade não passa de um capitalista abstracto que contém o próprio Estado. O
Estado é uma expressão social do próprio capitalismo, não é uma força social
distinta ou muito menos oposta. É mais um resultado do desenvolvimento social
do capital e do processo mais geral de separação e oposição entre o trabalho
acumulado e o trabalho vivo. É por isso que é tão importante definir o
capitalismo a partir das suas relações sociais e não da propriedade legal dos
meios de produção. O facto de uma empresa ser pública ou privada não retira um
pingo à sua essência igualmente capitalista. Daí o absurdo de tentar ver na
propriedade nacionalizada um exemplo da natureza anti-capitalista da sociedade
russa, tal como os trotskistas fizeram e fazem.
Então sim, a URSS de Estaline era
capitalista. Estava sujeita às dinâmicas do valor na sua própria essência:
através do mercado mundial, que gerava uma necessidade imperiosa de competir,
mas em primeiro lugar por como se mantinham e se desenvolviam todas as
categorias típicas do capital na era capitalista: dinheiro, empresa, trabalho
assalariado, mercado… Só a análise destas categorias permite compreender a
natureza da sociedade russa e evitar os erros de outros camaradas, fruto de uma
compreensão insuficiente do carácter capitalista da URSS (já que entendiam por
capitalismo de Estado um capital sujeito na realidade à dinâmica do Estado, o
que é impossível), ou dos camaradas que defendiam o poder omnímodo da
burocracia (quando na realidade a burocracia se submetia ao poder do capital,
não sendo senão a sua personificação impotente). Na realidade, ambas as visões
erradas coincidiam no essencial, ao compreender que existia uma certa oposição
entre Estado e capital, entre propriedade nacionalizada (que expressa uma
lógica não capitalista) e capitalismo (que seria identificável com a mera
propriedade privada). A compreensão profunda do que é o capitalismo permite a
Bordiga superar os impasses de todas estas teorias, ao mesmo tempo que rompe
com a visão trotskista que não deixava de partilhar o fundamento das outras com
a sua obsessão, neste caso positiva, pela propriedade nacionalizada.
Duas perguntas para terminar este artigo
já longo. Bordiga irá desenvolver milhares de páginas sobre esta análise e,
para isso, irá utilizar muitas estatísticas dos planos quinquenais russos. Isto
permitirá que ele entre em grande detalhe ao explicar como as relações de
mercado foram concretamente expressas na sociedade russa. Para isso, irá também
desmontar o peso sufocante que a propriedade estatal teria na Rússia.
Argumentou, por exemplo, que no campo a grande maioria das propriedades era
privada, sob a forma de uma cooperativa, através dos kolkhozes. A isso deve
acrescentar-se que os membros da cooperativa tinham uma parte do terreno para
uso próprio, sob a forma de pequenos lotes. Desta forma, e como o próprio Estaline
reconheceu num texto de 1952 com o qual o próprio Bordiga polemizaria no seu
Diálogo com Estaline, existe uma relação mercantil entre cidade e campo, entre
as indústrias estatais e um campo cheio de cooperativas privadas. Além disso, e
apesar das tentativas de centralização através de planos quinquenais, uma
lógica privada também prevaleceu na indústria. Não só pela dinâmica do valor no
mercado mundial, mas também pela forma como os próprios planos e lógicas de
cada empresa persistiam, que eram opostos e competiam entre si. E porque quase
53% das despesas do Estado em infraestruturas e obras foram destinadas através
de contratos e sub-contratações a pequenas e médias empresas, segundo dados do
Quinto Plano Quinquenal da URSS (1951-1955). Ou seja, também na indústria, e ao
lado das empresas estatais capitalistas, existia uma vasta rede de pequenas e
médias empresas privadas.
O reconhecimento da existência de relações mercantis na Rússia, quer entre o campo e a cidade, quer ao nível do mercado mundial, foi reconhecido pelo próprio Estaline no seu texto de 1952: Os Problemas Económicos na URSS. Interessante não só pelo que ele reconhece, no meio de todas as suas imposturas, como Bordiga demonstra no seu Diálogo com Estaline já mencionado. Estaline reconhece que na URSS a lei do valor, a lógica do empreendimento, salários, mercadorias, dinheiro... Depois tenta desviar-se argumentando que a lei do valor neste caso é socialista e que o que caracteriza o capitalismo é a existência de monopólios, de maus monopólios que obtêm lucros extraordinários e injustos. Ou seja, lugares comuns puros que não estão muito longe de um pensamento reformista em uso actualmente. Agora, é importante afirmar com Bordiga que a análise de Marx sobre o capital é um obituário das categorias desta sociedade suja. Um obituário das suas categorias destinadas a perecer com a afirmação do comunismo. A análise de Bordiga sobre o carácter capitalista da URSS termina precisamente assim. Delimitando que, sempre que nos tempos modernos vemos a existência de mercados, dinheiro, mercadorias, salários, empresas, propriedade, Estado... Estamos a falar de uma sociedade em que o capitalismo existe. E, portanto, o comunismo como um movimento real que nega a existência não seria mais do que o lado positivo desta sociedade imunda. Uma comunidade humana, Gemeinwesen, sem empresas, sem dinheiro, sem propriedade (usufruto para a espécie, para esta e para as gerações futuras), sem contabilidade, sem trabalho assalariado, sem Estado... Uma sociedade sem capital: comunismo.
Leitura recomendada para aprofundar:
·
Amadeo Bordiga: Diálogo com Estaline.
·
Liliana Grilli: Amadeo Bordiga, o capitalismo soviético e o comunismo.
·
Arturo Peregalli and Riccardo Tacchinardi: L'URSR e la teoría del
capitalismo di Stato.
Fonte: El capitalismo
de Stalin – Barbaria
Este artigo foi traduzido para Língua
Portuguesa por Luis Júdice
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