No seu afã
egoísta e criminoso de implementar o caótico processo de acumulação
capitalista, que só visa o sacrossanto lucro não importa à custa do quê nem de
quem e que só beneficia o detentor do capital e dos meios de produção, a
burguesia tende a fazer-se “esquecida” do facto de o único artífice da criação
de riqueza, o único produtor de mais-valia, é aquele que não tendo a posse
desses meios – por enquanto – nem do capital – financeiro, bancário ou
industrial – tem para vender a sua força de trabalho braçal ou intelectual,
força essa que é a única geradora da riqueza que, afinal, é ilegitimamente
apropriada pela burguesia e o capital.
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Esta imagem de 1900 de mineiros belgas obrigados a descer à mina num elevador sobrelotado deve servir para que se pondere qual tem sido o papel dos sindicatos nas sociedades modernas |
E é este
“esquecimento” que leva os operários e os camponeses, os trabalhadores e o povo
em geral, ao longo dos últimos séculos, a disporem-se a organizar-se e a lutar,
por vezes com recurso à violência, para fazer face à violência que a burguesia
e as suas forças repressivas sobre eles faz abater, para que uma parte das
mais-valias por si criadas sejam destinadas a proporcionar-lhes uma vida digna,
os meios que lhes assegurem a subsistência quando eles, ou algum elemento da
sua família, por doença ou invalidez ou, pura e simplesmente, por terem sido
lançados no desemprego, tiverem ficado sem meios de subsistência.
Não fosse,
portanto, esta luta secular, por vezes violenta e sangrenta, entre o TRABALHO e
o CAPITAL, e viveríamos em autêntica barbárie e obscurantismo. Não fora os
operários, os camponeses, os trabalhadores em geral, disporem-se a organizar-se
e a lutar para impor os seus direitos e a burguesia e o seu sistema capitalista
teriam acumulado capital “em roda livre” sobre os cadáveres de quem produz as
mais-valias que permitem tal processo de acumulação.
Se esta
contradição é uma evidência para um importante sector do mundo do trabalho,
precisamente o sector mais consciente, cada vez mais numeroso, não menos certo
é o facto de que, cada vez que se torna necessário convocar e realizar uma
Greve Geral ou uma manifestação contra a presença da nova führer Merkel ou
contra os seus inspectores coloniais (o correspondente aos antigos “inspectores
do cacimbo” quando o regime salazarista mantinha o sistema colonial), cada vez
que um novo surto de contestação, indignação ou luta justa se desencadeia, seja
para salvaguardar as conquistas alcançadas à custa de muito suor, sangue e
lágrimas, seja para levar os trabalhadores a imporem à burguesia novas
conquistas, muitos trabalhadores, também eles explorados, muitos deles em
situação de precariedade extrema, cedem à manipulação que a burguesia – através
dos meios de comunicação de que é detentora – opera sobre as suas consciências,
acabando por alinhar na condenação de qualquer tipo de luta, sobretudo
lamentando os “inconvenientes” pessoais que estas lhes acarretam.
Quando
confrontados com este tipo de comportamentos – e não devemos alimentar mais
ilusões, pois, para derrubar este governo e impor a constituição de um Governo
Democrático Patriótico, muitas greves serão necessárias realizar, muitas lutas
serão necessárias travar, muitas delas com recurso à violência revolucionária
que se contraponha à violência contrarrevolucionária – os trabalhadores mais
conscientes, organizados e mobilizados para a necessidade de lutar para
conseguir obter, manter ou consolidar as conquistas a que têm direito, devem,
com alguma paciência e muita firmeza, colocar a esses seus companheiros,
explorados tal como eles, a questão de saber se eles estão dispostos a
prescindir dos direitos que as lutas que o movimento operário e popular foi
assegurando ao longo de séculos.
E, de forma
clara e incisiva, devem confrontar esses seus companheiros, por enquanto
iludidos - pelo menos a esmagadora maioria que é recuperável, não perdendo
tempo com a minoria fervorosamente adepta do campo do inimigo de classe e
confabulada com ele -, com o elencar das principais conquistas que, se fossem
coerentes, ao manifestarem-se contra as greves que as possibilitaram no
passado, delas deveriam abdicar:
· Desde logo, e
à cabeça, o direito à Greve;
· Mas, também,
o direito a ter opinião e a defendê-la em público sem receio de ser perseguido,
preso ou morto por virtude de a defender;
· O direito às
40 horas de trabalho semanais (8 horas diárias), e em alguns casos horários
inferiores a este, passando a concordar que lhe seja imposta a jornada de 15
horas diárias que vigorava anteriormente a esta conquista;
· O direito ao
descanso semanal, passando a estar de acordo em trabalhar de domingo a domingo,
tal como acontecia antes das lutas que levaram à imposição desta conquista;
· O direito aos
subsídios de férias, de Natal, ao subsídio de doença, de Maternidade, de
Doença, de Desemprego, a maioria deles indispensáveis ao aumento da esperança
média de vida de que hoje beneficiamos, conquistas alcançadas, também elas, à
custa de sucessivas greves e paralisações, com a acção dos piquetes de greve a
oporem-se aos fura-greves e às forças da repressão que os apoiavam muitas das
vezes de forma violenta;
· O direito à
Saúde, à Educação e à Justiça que, apesar de serem hoje alvo de um ataque sem
precedentes que visa a sua privatização e a dificultação do acesso aos mesmos
por parte dos trabalhadores e do povo, e seus familiares, foram conquistas
arrancadas à burguesia à custa de muita luta, entre as quais as que obrigaram
ao recurso da greve, sendo que hoje, se desejamos manter e ampliar tais
direitos e conquistas, devemos prosseguir e aprofundar essas lutas. Estão esses
companheiros dispostos a abdicar da educação para os seus filhos, da saúde para
eles e seus familiares, bem como de uma justiça independente, que essas lutas
proporcionaram?
Muitos mais
direitos, muitas mais conquistas, poderiam ser elencadas. Mas, o que é urgente,
o que é importante, com paciência, com firmeza, evidenciar perante todos os
trabalhadores que estão iludidos quanto ao meio que os levará a obter uma vida
com dignidade, é que a burguesia nada deu de mão beijada a quem trabalha. É
necessário responsabilizar os sindicatos que, por laxismo, oportunismo ou
capitulação perante o inimigo de classe, foram desertando de uma das principais
funções para que foram criados: elevar a consciência dos trabalhadores e
prepará-los para a necessidade de enquadrar todas as suas lutas na luta mais
geral, aquela que levará à destruição de uma sociedade assente na exploração do
homem pelo homem.
E é tão mais
importante responsabilizar os sindicatos e as centrais sindicais quando, na
situação política actual, a Greve Geral nacional, por tempo indeterminado e com
ocupação dos locais de trabalho, é a principal arma de que dispõem os operários,
os trabalhadores e o povo em geral para derrubar este governo de traição
nacional, liderado por Coelho e Portas, mas tutelado por Cavaco Silva, com o
propósito de constituir um governo democrático patriótico cuja primeira medida
seria a suspensão, no mínimo, do pagamento da dívida e a preparação da saída de
Portugal da União Europeia e do euro para garantir a recuperação da
independência nacional e o implementar de um novo paradigma de economia, ao serviço e controlada por quem trabalha.
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