Contar
a verdade sobre o sucesso da China
9 de Maio de 2026 Robert Bibeau
Enquanto mísseis,
bombas e drones sobrevoam o Golfo Pérsico, as perspectivas de uma guerra ainda
mais devastadora no Pacífico tornam-se cada vez mais reais. A desescalada da
nova Guerra Fria entre os Estados Unidos e a China deve agora tornar-se a
prioridade absoluta do mundo. Para tal, é essencial desmascarar um mito
poderoso que torna a guerra mais provável: a ideia de que a China abriu caminho
para a prosperidade através de trapaças.
A economia chinesa contribui para graves desequilíbrios macro-económicos mundiais, e é necessário corrigir essa situação. Mas isso é outra história que a ficção conveniente, tecida pelas elites ocidentais para esconder os seus próprios fracassos, segundo a qual a China deve o seu sucesso à duplicidade, à desonestidade e ao engano. E não se trata apenas de uma ficção conveniente. Na medida em que prepara a opinião pública ocidental para a guerra, é também perigosa.
Esse mito inclui cinco acusações falsas.
A primeira é que a China " roubou " a propriedade intelectual de empresas ocidentais. Na verdade, multinacionais ocidentais têm vindo a competir entre si há décadas para ceder a sua propriedade intelectual em troca de acesso ao gigantesco mercado chinês. As autoridades chinesas, com o seu horizonte de planificação de 50 anos, simplesmente fizeram uma oferta irrecusável: vocês podem entrar nos nossos mercados, mas terão que ensinar o nosso povo a fabricar os vossos produtos. Os CEOs ocidentais, obcecados com os próximos trimestres e atraídos pela perspectiva de um excelente crescimento a médio prazo , aceitaram de bom grado.
A segunda acusação é que a China está a desvalorizar a sua moeda. Isso pressupõe a existência de uma taxa de câmbio " correcta " e que as autoridades chinesas estejam a pressionar o renminbi para baixo dessa taxa. Em teoria, a taxa de câmbio correcta é aquela que equilibra a balança de pagamentos de cada país. Na prática, isso significaria que o dólar está extremamente sobrevalorizado, como evidenciado pelo enorme défice na conta corrente dos EUA.
Em resumo, acusar os chineses de manter o
renminbi muito desvalorizado é o outro lado da moeda da acusação de que os
Estados Unidos financiam os seus défices atraindo capital de outros países. Os
ocidentais que dependem de um dólar sobrevalorizado, nesse sentido, vivem em
casas de vidro. Atirar pedras contra eles é imprudente.
A terceira acusação diz respeito aos controlos de capital na China, que são apresentados como outra forma de fraude. Esquecemos que a era de ouro do capitalismo, a era de Bretton Woods das décadas de 1950 e 1960, baseava-se em controlos de capital nos Estados Unidos, na Europa e no Japão? A justificativa era simples: nenhum governo é legal ou moralmente obrigado a permitir que financeiros inundem o seu país com dinheiro " irresponsável " à vontade ou, equivalentemente, a permitir uma fuga descontrolada de capitais por capricho.
O quarto pilar do mito — a suposta sobrecapacidade maciça da indústria chinesa — é refutado pelos dados: a utilização da capacidade produtiva da China gira em torno de 75%, percentual inferior ao dos Estados Unidos. Os stocks estão estáveis. Os lucros dos exportadores chineses aumentaram em mais de 10%. Portanto, não há sobrecapacidade.
A acusação serve como defesa contra o que
realmente incomoda as autoridades ocidentais: a hipercompetitividade que a China alcançou através de excelente planificação
e investimentos em educação e treino de baixo custo e de nível internacional. Ao observar como
uma empresa de Shenzhen consegue desenvolver quatro protótipos por uma fracção
do custo e do tempo que seria necessário em Estugarda ou no Illinois para
produzir um único protótipo, não se pode, honestamente, concluir que a
competitividade da China se deve ao dumping. Mas esta afirmação é politicamente
mais aceitável para os líderes ocidentais do que explicar aos eleitores que a
China desenvolveu uma rede neural distribuída de inteligência de fabrico única.
A quinta acusação , e talvez a mais comum, é que os chineses consomem pouco e são mal remunerados. Talvez. Mas em comparação com quem? O consumo na China cresceu muito mais rápido do que nas potências industriais asiáticas aliadas ao Ocidente, do Japão e Coreia do Sul à Indonésia e Malásia. Além disso, quando essas economias extraordinárias atingiram um nível de desenvolvimento comparável, experimentaram uma desaceleração acentuada no crescimento do consumo, o que não ocorre na China.
Da mesma forma, os salários na China
aumentaram drasticamente. Há duas décadas atrás, o custo por hora da mão de
obra na indústria manufactureira chinesa era menor do que na Índia. Desde
então, aumentou oito vezes, enquanto na Índia apenas duplicou.
De facto, os salários na China são agora mais altos do que em qualquer outro
país asiático em desenvolvimento.
Essas verdades são inconvenientes para as
potências ocidentais. O poderio tecnológico da China representa uma ameaça para
as empresas ocidentais que se consideravam invencíveis. Outros países em
desenvolvimento estão agora a recorrer à China em busca de produtos mais
confiáveis, de maior qualidade e mais baratos. Embora responder com acusações
de fraude possa ser compreensível, nós, no Ocidente, devemos aproveitar esta
oportunidade para reflectir, pois dizer a verdade serve à causa da paz.
“E a verdade é que as empresas ocidentais não perderam
para a China; venderam-se à China. Deslocalizaram postos de trabalho,
esvaziaram os sindicatos e cederam a sua propriedade intelectual em troca de
lucros rápidos. Enquanto os Estados Unidos, o Reino Unido e a União Europeia
resgatavam banqueiros criminosos e travavam guerras ilegais, a China investia
na educação, nas redes ferroviárias, em sistemas de saúde funcionais, em
energia verde, em redes inteligentes e em centros de produção capazes de
investigação, desenvolvimento e inovação que a maioria dos países ocidentais já
não consegue igualar.
Chegou a hora de o Ocidente parar de culpar
a China pelas decisões das suas próprias grandes empresas, de Wall Street e dos
seus políticos complacentes. As sanções contra a China são um substituto
ridículo para uma política industrial genuína. Pior ainda, narrativas
sinofóbicas preguiçosas, propagadas pelas mesmas pessoas que criaram o atoleiro
no Golfo, podem abrir caminho para um confronto militar ainda mais insano no
Pacífico.
Yanis Varoufakis
Traduzido por Wayan, revisto por Hervé,
para o The Saker Francophone. Sobre contar a verdade sobre o sucesso da China | The Saker
Francophone
Fonte: Dire
la vérité sur le succès de la Chine – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua
Portuguesa por Luis Júdice

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