domingo, 10 de maio de 2026

Mélenchon troca «às armas, proletários!» por «às urnas, cidadãos!»

 


Mélenchon troca «às armas, proletários!» por «às urnas, cidadãos!»

10 de Maio de 2026 Robert Bibeau


Por Khider Mesloub .

O anúncio de uma nova candidatura de Jean-Luc Mélenchon à eleição presidencial de 2027 não constitui uma surpresa; representa a consequência lógica de uma trajectória política construída em torno de um princípio simples: a captação permanente das indignações sociais em benefício próprio. Por trás do discurso de ruptura social e de revolução cidadã, desenrola-se na realidade uma mecânica muito mais clássica: a do homem providencial que transforma uma organização política num instrumento da sua candidatura presidencial permanente.


O guru da cabine de votação

Pois o paradoxo de Mélenchon reside precisamente aí. Aquele que alega falar em nome do povo contra as oligarquias políticas foi construindo progressivamente à sua volta uma estrutura baseada no culto ao líder, centrada na sua própria pessoa, onde nenhuma nova geração autónoma pode emergir. Cada figura susceptível de encarnar uma sucessão autónoma acaba por ser marginalizada, neutralizada ou empurrada para a saída. A organização assemelha-se a uma seita; funciona como uma irmandade que gravita em torno de um único centro: o próprio guru. Esta lógica eleitoralista esclarece, aliás, o slogan da «revolução pelas urnas» defendido por La France insoumise, entoado pelo Duce Mélenchon. «Revolução pelas urnas»: sob esta fórmula tranquilizadora desenrola-se a linha política defendida por Jean-Luc Mélenchon e erigida em credo pela La France insoumise. Esta fórmula promete a ruptura sem o tumulto, a mudança sem o perigo, a transformação sem o conflito. Mas por trás desta promessa esconde-se uma contradição fundamental: um oxímoro político que diz menos sobre a revolução do que revela a sua domesticação eleitoral.

A revolução eleitoralizada

Pois a revolução não é uma simples alternância. Não consiste na substituição de uma elite por outra, mesmo que seja de extrema-esquerda, no conforto institucional de um escrutínio supervisionado pelo Estado existente. Uma revolução abala os próprios alicerces de uma ordem: a propriedade, o poder económico, a organização do trabalho, o monopólio da força. Ela surge quando os oprimidos deixam de delegar o seu destino e retomam directamente o controlo da história.

As urnas, por sua vez, têm outra função. Elas garantem a perenidade do sistema de exploração e dominação. Organizam a competição entre os gestores do capital, canalizam a raiva social para ciclos eleitorais previsíveis, transformam a luta operária num debate televisivo. O boletim de voto substitui a acção; a resignação eleitoral substitui a luta.

Com Jean-Luc Mélenchon, a luta de classes já não se grita na rua: sussurra-se na cabine de votação. O lema já não é «às armas, proletários», mas «às urnas, cidadãos».

O slogan da «revolução pelas urnas», entoado por Mélenchon, revela assim uma profunda mutação no discurso político contemporâneo: o abandono da própria ideia de ruptura em favor de uma radicalidade retórica confinada aos limites da legalidade institucional. Esta linha encontra hoje a sua encarnação mais visível na estratégia defendida por La France insoumise e pelo seu líder central, Jean-Luc Mélenchon, em torno do qual se construiu uma organização inteiramente orientada para a conquista do poder através dos votos eleitorais.

Sob os acentos da ruptura social, o projecto defendido por La France insoumise substitui concretamente a luta de classes por uma dramaturgia eleitoral em que toda a esperança de transformação social depende do veredicto das urnas. Para Jean-Luc Mélenchon, a revolução já não é um processo social autónomo: torna-se um prazo eleitoral, que rima com decadência política; um ritual programado, enquadrado, previsível, ou seja, o exacto oposto do que foi historicamente toda a revolução.


O proletariado convocado às urnas

A lógica não é apenas teórica, é estratégica. Em cada fase de mobilização social, a estratégia de Mélenchon consiste em reorientar o movimento operário para a representação eleitoral, em vez de para a auto-organização política. A indignação social é transformada em capital eleitoral, a contestação reformulada em programa governamental e as lutas concretas subordinadas à perspectiva presidencial. O militante torna-se um canal da campanha eleitoral. A acção colectiva dá lugar à comunicação sensacionalista. A luta reduz-se à espera das próximas eleições.

Existe aqui um método comprovado: aquele pelo qual Jean-Luc Mélenchon capta a raiva sem nunca permitir que ela se constitua numa força autónoma subversiva. A cada crise, repete-se a mesma operação: reconhecer a indignação, amplificá-la no discurso, dramatizá-la na arena mediática e, depois, canalizá-la para a cabine de votação. O que poderia tornar-se poder social regressa aos circuitos marcados da representação eleitoral banalizada. A radicalidade mantém-se nas palavras; a prática permanece estritamente eleitoralista.

A revolta é assim absorvida pelo calendário eleitoral de La France insoumise. O descontentamento torna-se uma oportunidade para disputar mandatos, e os conflitos sociais, material para a campanha eleitoral. A energia subversiva colectiva, em vez de se organizar contra as estruturas de dominação, é convertida numa esperança periódica depositada na próxima candidatura de Jean-Luc Mélenchon, erigido em salvador supremo.

Este deslizamento não é acidental: corresponde a uma profunda adaptação à ordem burguesa. Pois, ao postular que o Estado pode ser conquistado para ser transformado a partir de dentro, a estratégia mélenchoniana pressupõe implicitamente a neutralidade de um aparelho cuja função é precisamente assegurar a reprodução das relações sociais e de dominação. Prometer a ruptura sem sair desse quadro equivale a alimentar a ilusão de que um sistema pode abolir-se a si próprio através das instituições que o protegem.


A raiva reciclada em boletim de voto.

A personalização extrema do movimento em torno de Jean-Luc Mélenchon acentua ainda mais esta contradição. Enquanto a revolução histórica assenta na organização autónoma das massas, a estratégia da «França Submissa ao Capital» concentra a esperança na figura do seu inabalável candidato providencial: o Duce Mélenchon. O proletariado já não age: delega a quem fala em seu nome, esse «Pai dos proletários» que lembra o antepassado político de Mélenchon, Estaline, outrora celebrado como o «Pai dos povos». Já não o incitam a transformar o mundo: exortam-no a aguardar a data das eleições, quando poderá votar, depois de ter sido convidado a rebaixar-se, ou seja, a viver como um rebanho. Com Jean-Luc Mélenchon, o proletariado tem agora a escolha entre rebaixar-se e «votar como um rebanho».

E é aí que reside o cerne do problema. Uma raiva integrada na estratégia eleitoral de «A França Submissa ao Capital» deixa de ser uma ameaça para a ordem existente. Torna-se um fluxo político administrável, convertível em mandatos, em discursos, em trajectórias pessoais. A radicalidade torna-se retórica. A ruptura, cenário de campanha.

No entanto, a história do movimento operário recorda uma evidência que a estratégia de Mélenchon tende a ocultar: as conquistas sociais nunca foram fruto de uma vitória eleitoral isolada. Foram arrancadas através da greve, da ocupação, da desobediência colectiva, muitas vezes fora, ou mesmo contra, os calendários eleitorais. Nunca é a instituição que gera a luta; é sempre a luta que obriga a instituição a ceder.

A revolução não segue um calendário eleitoral. Não se escreve nem nas urnas nem nos programas. Começa quando os oprimidos deixam de esperar que falem por eles e decidem finalmente falar através dos seus próprios actos. E nesse dia, já não são os boletins de voto que decidem a história, mas os proletários que deixam de obedecer. 

Khider MESLOUB

 

Fonte: Mélenchon troque «aux armes, prolétaires!» contre «aux urnes, citoyens!» – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




Sem comentários:

Enviar um comentário