sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Estarão a Europa e a Rússia à beira de um conflito nuclear? (Scott Ritter)

 


Estarão a Europa e a Rússia à beira de um conflito nuclear? (Scott Ritter)

 

Por Robert Bibeau 9 de Outubro de 2026

 

RESULTADO DAS VIAGENS DE S. RITTER À RÚSSIA EM JUNHO/SETEMBRO DE 2026, DURANTE AS QUAIS SE ENCONTROU COM ALTOS RESPONSÁVEIS RUSSOS, EMINENTES ACADÉMICOS E ESPECIALISTAS EM QUESTÕES MILITARES E DE SEGURANÇA.

 

Por Scott Ritter, 5 de Outubro de 2026, Blogue Pessoal

 

Há já algum tempo que se assiste a uma vaga de discursos irresponsavelmente agressivos provenientes da Europa, que se prepara abertamente para um conflito com a Rússia até ao final desta década. Estes discursos inscrevem-se no contexto do conflito em curso entre a Rússia e a Ucrânia, que já vai no seu quinto ano, um conflito que a Europa e os Estados Unidos reconhecem abertamente como sendo uma guerra por procuração entre o Ocidente no seu conjunto e a Rússia. A resposta russa consistiu em intensificar os seus esforços militares contra a Ucrânia, ao mesmo tempo que advertiu a OTAN de que qualquer tentativa de ameaçar o território russo, e em particular o enclave russo de Kaliningrado, implicaria uma resposta da Rússia mobilizando todas as suas capacidades militares, incluindo as armas nucleares. A situação actual na Europa reproduz, em muitos aspectos, as condições que reinavam no continente no Verão de 1914, quando a mobilização militar e os preparativos para a guerra criaram uma dinâmica que culminou num conflito que nenhum político desejava seriamente travar. As consequências da guerra de 1914 foram um desastre para a Europa; as de uma guerra hoje seriam fatais para a civilização tal como a conhecemos.


Ao analisar o actual panorama geopolítico da Europa e da Eurásia, é possível identificar quatro pontos de atrito militar entre a Rússia, os Estados Unidos e a Europa. Trata-se da Ucrânia, do Ártico, de Kaliningrado e do espaço extra-atmosférico. Embora cada um destes pontos represente um conjunto de problemas distintos a nível político e militar, os quatro estão inextricavelmente ligados por uma mentalidade russofóbica comum na Europa e nos Estados Unidos, que considera a Rússia como um problema de segurança por si só. Além disso, tanto a Europa como os Estados Unidos agem de acordo com uma lógica estratégica baseada num pensamento de soma zero, que apresenta a Rússia como estando estruturalmente motivada a prejudicar tanto a Europa como os Estados Unidos, acabando assim com qualquer possibilidade de cooperação com a Rússia que pudesse resolver muitos, ou mesmo todos, os problemas subjacentes que o Ocidente interpreta colectivamente como uma ameaça. Por seu lado, a Rússia age de acordo com uma mentalidade que tem origem numa psicologia de vitimização perpétua que remonta a vários séculos e num fundamento histórico de resistência à agressão que privilegia uma resolução diplomática até ao momento em que o confronto militar se torna a única solução.

 

Ucrânia: A (percebida) falha na armadura soviética/russa

O actual conflito na Ucrânia entre a Rússia e o Ocidente não teve início em 2022 com a invasão russa, mas representa antes a conclusão lógica de uma estratégia dos Estados Unidos e da OTAN que visava explorar o ultra-nacionalismo da Ucrânia ocidental para criar um clima de instabilidade destinado a enfraquecer a União Soviética, e posteriormente a Rússia, a partir de dentro. Para compreender esta mentalidade, é necessário, em primeiro lugar, analisar a psicologia subjacente ao conceito de nacionalismo ucraniano. Para a Rússia, a Ucrânia faz parte de uma grande família de povos eslavos que inclui os russos e os bielorrussos; na verdade, esta noção é também partilhada por milhões de ucranianos. Basta observar a integração da Ucrânia nas raízes culturais e históricas da Rússia ao longo do tempo para compreender a realidade deste sentimento.

Para o Ocidente, esta realidade coloca um problema, pois sugere a existência de um único Estado eslavo dotado de enormes vantagens geográficas e de recursos naturais inigualáveis, o que, por sua vez, cria um potencial económico colossal que entra em concorrência com as noções ocidentais de supremacia mundial. A Alemanha nazi procurou aniquilar esse potencial eslavo através da implementação do Generalplan Ost, um verdadeiro genocídio cultural e físico da raça eslava. Os Estados Unidos e o Reino Unido (e, mais tarde, a OTAN, incluindo uma Alemanha Ocidental recém-militarizada) prosseguiram esta política de aniquilação eslava, encorajando a resistência anti-soviética liderada pela Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), nomeadamente através do apoio militar aos guerrilheiros que operavam na Ucrânia e eram fiéis a Stepan Bandera, um antigo aliado da Alemanha nazi cujas forças cometeram atrocidades em grande escala contra judeus, polacos e russos durante a Segunda Guerra Mundial. No final da guerra, a organização de serviços secretos alemã encarregada de gerir as operações da OUN foi assumida pelo exército norte-americano e, posteriormente, sob a égide da Agência Central de Inteligência (CIA), utilizada para liderar a resistência armada anti-soviética até 1954-1955. A agência continuou a prestar apoio activo à OUN, apoiando-se na diáspora ucraniana, ao longo da década de 1990.

O papel dos serviços secretos ocidentais, liderados pela CIA e pelo Serviço Especial de Inteligência britânico (SIS), na Ucrânia pós-soviética centrou-se exclusivamente na promoção do nacionalismo ucraniano em detrimento da Rússia. A campanha política levada a cabo pelos serviços secretos ocidentais contra a população de língua russa da Ucrânia veio à tona quando o presidente ucraniano Leonid Kuchma, que tinha cumprido dois mandatos, se demitiu em 2005, após ter implementado políticas destinadas a melhorar as relações entre a Ucrânia e a Rússia. Kuchma tinha dado o seu apoio a Viktor Yanukovych, de língua russa. Para o Ocidente, uma presidência de Yanukovych teria comprometido o seu objectivo estratégico de afastar a Ucrânia da Rússia. Daí resultou a «Revolução Laranja», que levou à anulação da vitória eleitoral de Yanukovych em favor de nacionalistas ucranianos defensores de uma política decididamente anti-russa, a qual orientou a Ucrânia para a União Europeia e a incitou a solicitar a adesão à OTAN. Esta última evolução foi vista pela Rússia como uma linha vermelha cuja transposição conduziria inevitavelmente a um conflito militar entre a Rússia e a Ucrânia. A eleição de Yanukovych em 2010 foi considerada um revés para as ambições ocidentais na Ucrânia e levou o Ocidente a apoiar um golpe de Estado violento em Fevereiro de 2014, na sequência do qual Yanukovych foi afastado do poder e substituído por nacionalistas ucranianos pró-ocidentais.

É preciso compreender bem que um confronto físico entre a Ucrânia e a Rússia sempre foi o objectivo do Ocidente no seu conjunto. Os esforços para assumir o controlo do espaço político russo tinham, em 2014, fracassado. O chamado «reinício» (reset) de 2009 não passava de uma fachada política para uma operação de mudança de regime destinada a substituir Vladimir Putin, que liderava a Rússia desde que sucedeu a Boris Yeltsin no final de 1999 e que, ao longo da década seguinte, tinha colocado a Rússia no caminho de uma recuperação económica e nacional que o Ocidente, a funcionar num modo de «jogo de soma nula», simplesmente não podia tolerar. Os esforços concertados do presidente Obama para interferir nas eleições legislativas russas de 2011 e nas eleições presidenciais de 2012 não conseguiram afastar Putin do poder. Os acontecimentos ocorridos na Ucrânia em 2014 e posteriormente devem ser considerados sob esta perspectiva; nada acontece no vácuo.

O conflito na Ucrânia nunca poderia ter sido evitado, apesar dos esforços concertados da Rússia para conduzir uma diplomacia que visasse precisamente esse objectivo. A derrota do exército ucraniano em 2014-2015 perante os separatistas apoiados pela Rússia no Donbass levou à adopção dos acordos de paz de Minsk. É agora um facto comprovado que nem a Ucrânia, nem os seus dois parceiros europeus (a França e a Alemanha), nem os Estados Unidos tiveram alguma vez a intenção de levar a bom termo o processo de Minsk. Pelo contrário, o processo de Minsk tinha como objectivo ganhar tempo para a OTAN, para que esta pudesse constituir um novo exército ucraniano capaz de fazer frente à Rússia. De facto, entre 2015 e 2022, foi exactamente isso que os Estados Unidos e a OTAN fizeram, ao treinarem mais de 80 000 soldados ucranianos, incluindo milhares de nacionalistas ucranianos classificados como neo-nazis pelo Congresso norte-americano, de acordo com as normas militares da OTAN. O objectivo declarado deste treino era permitir que a Ucrânia tomasse posse física do Donbass e da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014 na sequência do golpe de Estado apoiado pela CIA em Kiev. Quando a Ucrânia começou a concentrar estas tropas treinadas pela OTAN na região do Donbass, no início de 2022, a Rússia lançou uma acção preventiva que, mais de cinco anos depois, é agora uma guerra por procuração abertamente reconhecida contra o Ocidente no seu conjunto, incluindo os Estados Unidos e a OTAN.

O objectivo declarado dos Estados Unidos e da Europa na prossecução deste conflito por procuração com a Rússia não é nada menos do que a derrota estratégica da Rússia. O que é que isto significa concretamente? Em primeiro lugar, esta guerra por procuração nunca teve como objectivo conduzir a uma vitória militar ucraniana contra a Rússia. O objectivo era, antes, arrastar a Rússia para um conflito que esgotasse o seu potencial militar, destruísse a sua economia e levasse a sociedade ao colapso, a ponto de o governo de Vladimir Putin ser afastado do poder. Toda esta política assenta no pressuposto de que Vladimir Putin deve ser afastado do poder. Nesse sentido, qualquer solução que não atinja esse objectivo é rejeitada de imediato, um padrão de comportamento que reflecte a mentalidade de soma zero que anima a elaboração das políticas ocidentais. Consequentemente, todas as saídas possíveis que a Rússia se mostrou disposta a considerar, desde o comunicado de Istambul de 2022 até ao compromisso de Anchorage de 2025, foram rejeitadas pelo Ocidente, revelando assim a realidade de que, para o Ocidente, a diplomacia não passa de uma ferramenta para ganhar tempo, a fim de reforçar ainda mais a Ucrânia no plano militar, com o objectivo de prolongar o conflito entre a Ucrânia e a Rússia até ao desfecho desejado: o colapso da Rússia. Em suma, um cenário idêntico ao de Minsk.

A Rússia revelou-se surpreendentemente resiliente perante este esforço concertado do Ocidente destinado a levá-la ao colapso enquanto Estado-nação viável. Não só a economia russa sobreviveu às sanções ocidentais, como, graças a uma diplomacia russa eficaz que soube tirar partido dos erros diplomáticos ocidentais para construir uma ampla base de apoio à escala mundial, prosperou ao encontrar nos mercados do Sul oportunidades de mercado que compensaram amplamente a perda dos mercados europeus e americanos. A sociedade russa, apanhada de surpresa por uma guerra para a qual não estava preparada, uniu-se firmemente em torno do presidente Putin, tal como sublinharam os resultados das recentes eleições legislativas. E, longe de esgotar a Rússia no plano militar, o conflito ucraniano permitiu-lhe aperfeiçoar a sua base industrial de defesa, produzindo quantidades significativas de equipamento militar e armamento de ponta que, na sua maioria, superam de longe os produzidos pelo Ocidente no seu conjunto, tanto em qualidade como em quantidade. Quando este material é combinado com efectivos experientes em combate, o resultado é que a Rússia possui hoje a força militar mais apta para o combate do mundo, superando de longe tudo o que a OTAN ou os Estados Unidos podem mobilizar no terreno.

Em suma, a estratégia ocidental dirigida contra a Rússia falhou: o exército russo é hoje uma ordem de grandeza mais forte, a sua economia é muito mais diversificada e autónoma, e a sua população está muito mais unida do que estava em 2022. Além disso, a Rússia não mostra quaisquer sinais de fraqueza em nenhuma frente — seja ela económica, diplomática, social ou política.

Não se pode dizer o mesmo nem da Europa nem dos Estados Unidos. Apesar da retórica belicosa proveniente da Alemanha e da Polónia, e apoiada pelas declarações de oficiais militares norte-americanos, tanto no activo como na reserva, a realidade é que a guerra por procuração entre o Ocidente no seu conjunto e a Rússia sempre foi concebida para ser apenas isso: uma guerra por procuração. Nunca houve um plano realista que visasse transformar este conflito num confronto directo entre a Rússia e a OTAN, nem que fosse apenas porque a OTAN simplesmente não tem capacidade para mobilizar forças suficientes para conduzir um conflito de alta intensidade durante um período prolongado. O poder militar da OTAN atrofiou-se significativamente nas décadas que se seguiram ao fim da Guerra Fria, o que exigiria um investimento a longo prazo para se recuperar — um esforço que a Europa não parece, actualmente, capaz de garantir. Os próprios Estados Unidos estão envolvidos num processo de retirada global, procurando afastar-se da Europa em vez de retomar uma postura do tipo «Guerra Fria», que não é viável nem do ponto de vista político nem do ponto de vista económico.

Enquanto a Rússia parece fechar a porta a qualquer possibilidade de acordo negociado com o Ocidente sobre a Ucrânia, a Europa e os Estados Unidos defrontam-se com a realidade perturbadora de que os seus objectivos estratégicos na Ucrânia não se concretizarão. A Rússia continuará a exercer pressão a favor de uma solução militar que satisfaça todos os seus objectivos declarados, incluindo uma desnazificação concertada que ponha fim ao nacionalismo ucraniano particularmente virulento que sempre alimentou os esforços ocidentais na Ucrânia contra a Rússia.

Em suma, não haverá guerra entre a Europa e a Rússia por causa da Ucrânia. A Europa apoiará a Ucrânia até que esta esgote os seus recursos — humanos e económicos —, e depois assistirá, impotente, à consolidação da posição da Rússia sobre o que restar da nação ucraniana. «Até ao último ucraniano» parece ser um conceito que a Ucrânia e os seus apoiantes ocidentais levaram muito a peito.

O Ártico: o gatilho económico de um potencial conflito

Num mundo racional, o Ocidente no seu conjunto recompor-se-ia após a sua derrota iminente na Ucrânia e procuraria colmatar as suas perdas consideráveis. Mas num mundo de soma zero, isso não é possível. Uma vitória russa na Ucrânia requer, na mente desses russofóbicos ocidentais que ainda sonham com o colapso da Rússia de Vladimir Putin, uma «vitória» que reequilibraria o panorama geo-político. Dado que uma das consequências do fracasso da estratégia ocidental na Ucrânia é a dizimação económica da Europa, os desafios económicos assumem, sem surpresa, uma importância acrescida na definição de uma postura geo-política pós-Ucrânia em oposição à Rússia.

Um dos principais desafios que a Europa enfrenta actualmente consiste em definir uma política económica e externa coerente em relação à China. A diplomacia europeia neste domínio revelou-se desastrosa, levando ao colapso de sectores críticos da economia europeia (a indústria automóvel, por exemplo) devido a noções mal concebidas de «redução de riscos» (um termo de origem norte-americana destinado a disfarçar a verdadeira intenção de tal política, nomeadamente a «desvinculação»). Mas não se pode, de forma alguma, falar de «redução de riscos/desacoplamento» quando não existe qualquer mercado alternativo viável para substituir aquele que as políticas nacionais procuram abandonar.

O objectivo estratégico da Europa de isolar a Rússia da China voltou-se contra ela: hoje, é a Europa que se encontra cada vez mais isolada, enquanto as relações russo-chinesas, inclusive no plano económico, são sólidas e não param de se reforçar. Uma das áreas-chave da cooperação russo-chinesa é o desenvolvimento da Rota do Nordeste ou, como é frequentemente designada na China, a «Rota da Seda do Gelo», uma via navegável de 5 500 quilómetros que se estende desde o Estreito de Bering, a leste, até ao Mar de Barents, a oeste. A utilização desta via navegável tornou-se cada vez mais viável — e rentável —, permitindo que os porta-contentores façam a viagem entre a China Oriental e portos europeus, como Roterdão, com uma poupança de tempo de cerca de 20 dias em relação ao itinerário actual que passa pelo Canal do Suez, utilizado pela maioria das companhias marítimas.

A Passagem do Nordeste situa-se exclusivamente em águas territoriais russas. Atravessa também a zona ártica, o que significa que, durante grande parte do ano, a sua acessibilidade depende dos quebra-gelos russos. Esta passagem é, além disso, regida pelas normas jurídicas e de segurança russas. O potencial económico do Ártico era, no passado, da competência exclusiva do Conselho do Ártico, cujos membros se reuniam regularmente para coordenar as políticas com impacto na economia, na segurança e na ecologia da região ártica. No entanto, em 2022, na sequência da invasão da Ucrânia, a Rússia foi excluída do Conselho do Ártico. Além disso, na sequência da adesão da Finlândia e da Suécia à OTAN, o Conselho do Ártico adoptou uma posição exclusivamente alinhada com a OTAN, sendo que as suas políticas reflectem os objectivos e metas estratégicas do conjunto dos seus membros, nomeadamente a derrota estratégica da Rússia.

As alterações climáticas modificaram as realidades geo-políticas da região ártica: o derretimento das calotas glaciares não só abriu vias de comunicação marítimas anteriormente inacessíveis e/ou restritas devido às condições meteorológicas, como também tornou fisicamente possível e financeiramente viável a exploração económica de importantes recursos minerais expostos pelo recuo do gelo. Normalmente, o Conselho do Ártico procuraria regulamentar o acesso ao Ártico, a fim de equilibrar as preocupações económicas e ecológicas num quadro de segurança em que os interesses de todas as partes fossem tidos em consideração.

Mas num mundo de soma zero, a penetração económica russo-chinesa no espaço ártico é considerada uma ameaça para o Ocidente no seu conjunto, exigindo uma resposta militar. Esta realidade foi sublinhada durante a recente Cimeira Europeia sobre o Ártico, organizada pela Finlândia em meados de Setembro. Os líderes da União Europeia, invocando alegações infundadas de «ameaças significativas e de longo prazo» da Rússia à segurança euro-atlântica, comprometeram-se a reforçar o seu dispositivo de segurança no Ártico — ou seja, a militarizar o Ártico, colocando a tónica na mobilidade militar, na conectividade transfronteiriça e nas infraestruturas necessárias nas regiões mais setentrionais do Ártico.

O facto é, no entanto, que a OTAN não está à altura da Rússia no que diz respeito à segurança no Ártico. Aquilo de que a Cimeira Europeia do Ártico se limitou a falar em termos gerais — nomeadamente, a militarização do Ártico —, a Rússia já o implementou na íntegra e continua a aperfeiçoá-lo. Embora os países da OTAN sejam capazes de realizar actos de provocação, como a recente apreensão de um navio de investigação russo ao largo da ilha norueguesa de Svalbard, a norte da Noruega, a rapidez com que o governo norueguês teve de intervir para garantir que nenhuma acção semelhante fosse levada a cabo nas águas territoriais norueguesas sublinha o facto de que a Noruega não está disposta a provocar qualquer tipo de confronto directo com a Rússia no Ártico. A verdadeira ameaça para o Ocidente no Ártico não reside nas forças militares eficazes da Rússia, mas no facto de a Rússia, em conjunto com a China, estar a impor uma nova realidade económica baseada no trânsito, o que lhes conferirá, no futuro, uma influência extraordinária, tornando os transportadores e as rotas marítimas tradicionais não competitivos face à nova «Rota da Seda do Gelo» que a Rússia e a China já implementaram. A capacidade de transportar contentores de forma sustentável para a Europa por metade do custo das rotas marítimas actuais muda completamente o panorama em todos os aspetos e cria uma nova realidade à qual o Ocidente não conseguirá recuperar o atraso durante algum tempo, ou talvez nunca.

Kaliningrado: Uma presa fácil ou uma fortaleza inexpugnável?

A psicose da armadilha do «tudo ou nada», na qual o Ocidente se aprisionou perante a Rússia, obriga a NATO a forjar uma vitória — real ou percebida — capaz de compensar os seus fracassos na Ucrânia e a sua impotência no Ártico. A este respeito, o enclave russo de Kaliningrado surgiu como o suposto calcanhar de Aquiles da Rússia. O antigo comandante das forças terrestres da OTAN na Europa, o general norte-americano Chris Donahue, gabou-se abertamente, em Julho passado, de que as forças da OTAN seriam capazes de sobrecarregar as defesas russas em Kaliningrado num curto espaço de tempo. A Alemanha e a Polónia defenderam uma intensificação dos exercícios militares da OTAN perto das fronteiras de Kaliningrado, cujo objectivo seria suscitar preocupação suficiente entre os dirigentes russos para os levar, em reacção, a retirar tropas da zona da operação militar especial e a redistribui-las para Kaliningrado. Vários analistas ocidentais especializados em questões militares e de segurança apresentaram avaliações indicando que a postura militar real da Rússia em Kaliningrado é muito mais fraca do que se admite publicamente. E muitos responsáveis políticos ocidentais fizeram declarações que sugerem que a Rússia se prepara para levar a cabo actos de agressão contra a OTAN, utilizando o enclave de Kaliningrado como base de operações.


Mas a realidade é que, embora a Rússia seja perfeitamente capaz de defender Kaliningrado contra qualquer agressão da OTAN, o exército russo não está actualmente posicionado no enclave de Kaliningrado de forma a conduzir operações ofensivas sustentadas, independentemente da sua dimensão, contra qualquer um dos seus vizinhos da OTAN —

Mas a verdadeira ameaça que paira sobre Kaliningrado não provém de uma eventual ofensiva terrestre lançada pela OTAN. Assumiria, antes, a forma de um bloqueio naval do enclave. Desde 2022, as linhas ferroviárias que ligam Kaliningrado à Rússia estão sujeitas a restricções severas impostas pela Lituânia no que diz respeito ao trânsito de mercadorias com destino e provenientes da Rússia; a questão do cumprimento das sanções da União Europeia contra a Rússia está no cerne deste assunto. Os veículos matriculados na Rússia também não estão autorizados a transitar pela Lituânia e pela Polónia. A Rússia compensou esta perda de conectividade aumentando o alcance e a amplitude do serviço de ferries entre a Rússia e São Petersburgo. Embora a Rússia tenha conseguido manter o seu crescimento económico graças a este esforço de abastecimento, a verdade é que esta linha de vida assegurada pelas balsas é muito dispendiosa e que muitas mercadorias, como o combustível, são subsidiadas pelo governo russo para controlar os preços. Se a OTAN viesse a impor restricções navais ao tráfego marítimo com destino e proveniência de Kaliningrado, tal como sugerido por alguns dos seus membros, a viabilidade económica do enclave ficaria ameaçada. É devido a esta vulnerabilidade que o governo russo advertiu a OTAN de que qualquer tentativa de submeter Kaliningrado a um bloqueio naval, ou qualquer outro acto de agressão militar, seria combatida por todas as capacidades militares da Rússia, incluindo as armas nucleares.

Esta demonstração de poder nuclear parece ter moderado o entusiasmo de alguns dos mais fervorosos defensores da OTAN, que pensavam colher o que consideravam ser um fruto maduro; agora que ficou claro que qualquer conflito que envolvesse um ataque da OTAN contra Kaliningrado não seria tratado isoladamente, mas constituiria, pelo contrário, um conflito de proporções existenciais, os tambores de guerra calaram-se.

O espaço: a última fronteira

O último tema que figura na lista de pontos susceptíveis de gerar tensões entre a Rússia e o bloco americano-europeu é o espaço. Os sensores espaciais desempenharam um papel crucial na recolha de informações utilizadas para apoiar as operações militares na Ucrânia e, no caso da Ucrânia, para atingir alvos estratégicos em profundidade no território russo. Da mesma forma, o sistema comercial norte-americano de comunicações por satélite Starlink assumiu um papel essencial nas comunicações militares ucranianas, nomeadamente ao desempenhar um papel crucial para permitir que os drones ucranianos realizassem ataques de longo alcance contra as infraestruturas energéticas russas.

Os Estados Unidos anunciaram recentemente terem destacado «armas de controlo espacial em órbita» à volta da Terra. Embora as características técnicas destas armas não tenham sido especificadas, alguns indícios sugerem que se trata de armas de natureza não cinética, que utilizam tecnologia reversível, como a guerra eletrónica, para «cegar» temporariamente um satélite alvo. O presidente norte-americano Donald Trump aludiu à utilização de uma arma espacial para apoiar os ataques militares norte-americanos contra alvos iranianos relacionados com o programa nuclear em junho de 2025. (ndz: ver este artigo intitulado «O Pentágono anuncia o desenvolvimento de armas espaciais», publicado recentemente neste blogue)

A Rússia está a implementar a sua própria constelação de satélites, semelhante à Starlink, conhecida como Rassvet, que, quando estiver totalmente operacional, proporcionará à Rússia capacidades de comunicação por satélite equivalentes às da Starlink. A Ucrânia, consciente de que o Rassvet permitirá à Rússia orientar mais eficazmente os seus drones para os seus alvos, apelou aos Estados Unidos para que neutralizassem a rede de satélites russa. A Rússia indicou que destruiria todo o sistema Starlink em retaliação, recorrendo a meios cinéticos susceptíveis de ameaçar outros satélites a operar em órbita terrestre.

A militarização do espaço representa um perigoso ponto de escalada, sobretudo tendo em conta a capacidade dos Estados Unidos de cegar temporariamente satélites. No mundo de soma zero em que os Estados Unidos e a Europa evoluem, a necessidade de serem vistos como um contrapeso a uma vitória russa na Ucrânia, bem como o facto de a Rússia contrariar os esforços de escalada da OTAN no Ártico e contra Kaliningrado, poderá revelar-se uma tentação demasiado forte na mente dos líderes ocidentais, incapazes de elaborar um modelo de comportamento nas suas relações com a Rússia que não assente em metas e objetivos russofóbicos que exijam a derrota estratégica da Rússia.

ConclusÃO

Ao longo das últimas décadas, os Estados Unidos e a Europa criaram uma armadilha política com o objectivo de utilizar a Ucrânia como alavanca para provocar o colapso da Rússia e do governo de Vladimir Putin. Essa «armadilha» reside na mentalidade de jogo de soma zero que rege a implementação desta política, vinculando a viabilidade política e económica daqueles que a prosseguem ao seu sucesso. O fracasso iminente na Ucrânia tornou necessária a procura de novos vectores capazes de fazer avançar o objectivo político de alcançar uma vitória estratégica sobre a Rússia, incluindo opções destinadas a alargar a zona de conflito entre o bloco americano-europeu e a Rússia ao Ártico, aos países bálticos e ao espaço extra-atmosférico. A Rússia tem contrariado eficazmente cada uma destas tentativas que, consideradas isoladamente, parecem constituir problemas controláveis com um potencial de escalada limitado. No entanto, consideradas no seu conjunto, encerram um risco de mal-entendido e/ou de erro de avaliação, alimentado pelos imperativos políticos internos das nações que compõem o bloco americano-europeu. A este respeito, nações que exercem uma influência considerável nas decisões tomadas por este bloco, tais como os Estados Unidos, a França e a Alemanha, estão actualmente a passar por transformações políticas susceptíveis de alterar a postura política existente, incluindo as políticas que visam a derrota estratégica da Rússia como resultado desejável. Em tudo isto, o inimigo não é a Rússia, mas sim a lógica do «tudo ou nada» do Ocidente colectivo, que o mantém prisioneiro de um modelo político incapaz de ser implementado com sucesso e que, se for prosseguido de forma agressiva, conduzirá à sua queda colectiva.


 

Nota do autor: Tive a oportunidade de visitar a zona da operação militar especial, na região ártica, nos campos petrolíferos e em Kaliningrado, além de participar em fóruns e reuniões de alto nível em Moscovo e em São Petersburgo. As opiniões aqui expressas constituem a minha avaliação pessoal, baseada nesses encontros, e não representam, de forma alguma, uma posição oficial da política russa.

Este artigo é fruto do jornalismo independente que pratico há vários anos, deslocando-me à Rússia com o único objectivo de compreender a realidade russa e de a dar a conhecer a um público ocidental refém de meios de comunicação social generalistas russófobos. Assumo a totalidade das minhas despesas, o que significa que as viagens necessárias à redacção deste artigo não teriam sido possíveis sem o generoso apoio dos assinantes e seguidores que fizeram donativos para esse fim. Continuarei a escrever artigos e a publicar vídeos sobre estas viagens anteriores. Continuarei também a planear e a preparar futuras viagens à Rússia, nomeadamente a prevista para Novembro, durante a qual assistirei a uma conferência sobre questões humanitárias e continuarei a encontrar e a entrevistar pessoas interessantes e bem informadas. Agradeço a todos aqueles que contribuíram para este trabalho, no passado, no presente e no futuro.

 

Fonte: L’Europe & la Russie sont-elles au bord d’un conflit nucléaire ? (Scott Ritter) – les 7 du quebec

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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