segunda-feira, 11 de maio de 2026

HONDURASGATE E A ARQUITETURA OPACA DA DOMINAÇÃO HEMISFÉRICA

 

Um plano transnacional de interferência eleitoral e controlo hemisférico é
revelado nos áudios do antigo Presidente hondurenho Juan Orlando Hernández,
que foi condenado por tráfico de droga em 2024 e perdoado em 2025
por Donald Trump 
(Foto: The New York Times)

Tantas coincidências e certezas como dúvidas

Hondurasgate e a arquitetura opaca da dominação hemisférica

8 de Maio de 2026, 14h33.

A 30 de novembro de 2025, poucos dias antes das eleições presidenciais nas Honduras, Donald Trump anunciou o perdão de Juan Orlando Hernández (JOH), um ex-presidente condenado em Junho de 2024 a 45 anos de prisão por um tribunal federal em Nova Iorque por conspiração para importar cocaína e crimes relacionados com armas de fogo.

Os procuradores mostraram que, durante o seu mandato, Hernández usou o aparelho estatal para proteger o tráfico de mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos, transformando as Honduras no que os procuradores chamaram de narcoestado. O perdão é o ponto de partida de uma conspiração de interferência política de proporções continentais, chamada Hondurasgate.

Hondurasgate: Detalhes da Trama

É uma investigação publicada pelo Diario Red América Latina e pela plataforma Hondurasgate, baseada em 37 áudios vazados de conversas no WhatsApp, Signal e Telegram, cuja autenticidade foi verificada através de análise forense com o software Phonexia Voice Inspector.

Revela como o perdão teria sido financiado por sectores ligados a Israel. Num dos áudios, atribuído à JOH, o ex-presidente afirma que o dinheiro para a sua libertação "veio de um conselho de rabinos" e que o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu teve "tudo a ver" com a operação.

A trama revela uma diplomacia paralela operada a partir do ambiente trumpista, com Roger Stone como um lobista chave. Além disso, os áudios descrevem um plano para devolver Hernández à presidência das Honduras, com o actual presidente, Nasry Asfura, como figura de transição.

As gravações revelam aspectos que transcendem as fronteiras hondurenhas; no enredo, JOH aparece como um articulador de agendas que entrelaçam oligarquias tecnológicas do Silicon Valley, confrontos contra a China e estruturas criminosas. Entre os elementos negociados estão a expansão das Zonas de Emprego e Desenvolvimento Económico (ZEDEs) – também conhecidas como "Cidades-Modelo" e denunciadas como cedências de soberania – a construção de uma nova base militar dos EUA ao estilo de Palmerola, um canal inter-oceânico e legislação de inteligência artificial adaptada aos interesses das empresas norte-americanas e israelitas.

Ao mesmo tempo, os áudios documentam o alegado uso de fundos públicos hondurenhos e contribuições do governo argentino de Javier Milei — estimadas em 350.000 dólares — para financiar uma "célula mediática" destinada a desacreditar governos progressistas na região, particularmente os de Claudia Sheinbaum no México e Gustavo Petro na Colômbia. No material ouve-se dizer que Milei contribuiu com recursos para "criar um escritório aqui, vindo dos Estados Unidos, para atacar e eliminar o cancro da esquerda."

O silêncio dos grandes media corporativos perante estas revelações é eloquente. Embora a fuga tenha nomes, montantes, ameaças e planos, tem sido sistematicamente ignorada pelas principais redes de notícias latino-americanas. A explicação não reside na falta de provas, mas na estrutura de poder que regula a circulação da informação. Quando os intervenientes envolvidos são o governo dos EUA, sectores de Israel e grandes empresas tecnológicas, o escândalo político transforma-se em silêncio mediático.

Dominação hemisférica, coincidências e certezas

A Estratégia de Segurança Nacional (NSS), publicada pela administração Trump em 2025, articula uma visão geo-política onde a segurança hemisférica se funde com interesses económicos e tecnológicos. O chamado "Escudo das Américas" promete integrar recursos militares, de inteligência e económicos sob uma lógica de dissuasão selectiva que condiciona a cooperação ao alinhamento ideológico com Washington. No entanto, como documentam os áudios do Hondurasgate, esta estratégia tem um componente opaco onde a linha entre segurança pública, intervenção política e negócios privados se torna difusa.

Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA, surge como o pivô desta arquitectura. O cubano-americano construiu uma carreira política promovendo líderes latino-americanos com percursos questionáveis — desde JOH a Daniel Noboa no Equador e Javier Milei na Argentina — sob a retórica de combate ao "narco-terrorismo", enquanto ignora ou legitima os seus laços com estruturas criminosas. Fica na memória como elogiou publicamente Hernández em 2018 por combater o tráfico de droga, apenas sete meses antes do irmão ser acusado de tráfico de 158 toneladas de cocaína.

Embora a retórica oficial de Rubio condene a corrupção, na prática foi perdoada e está a tentar-se reintegrar um actor ligado ao crime organizado para garantir o controlo territorial e os interesses das "Big Tech" no metabolismo dos dados e recursos.

A opacidade funciona como uma ferramenta estratégica e é evidente nos áudios. Estas revelam que Hernández opera a partir dos Estados Unidos e coordena ações judiciais contra opositores hondurenhos, incluindo a demissão de magistrados eleitorais e ameaças de "prisão ou morte" contra o conselheiro eleitoral Marlon Ochoa.

Tudo isto, segundo as gravações, com o apoio de "pessoas de Israel" e fundos enviados directamente por Hernández. Esta modalidade — intervenção política através de operadores locais, financiamento opaco e desinformação mediática — replica padrões históricos documentados por investigadores como Peter Dale Scott e Greg Grandin, que apontam que a "guerra contra as drogas" serviu repetidamente como cobertura para operações de inteligência e mudanças de regime.

A legislação sobre IA mencionada nos áudios, por exemplo, facilitaria o acesso de empresas dos EUA e de Israel a dados sensíveis e mercados emergentes, em linha com a concorrência tecnológica mundial contra a China. Neste esquema, em vez de objectivos a combater, as estruturas criminosas serviriam como instrumentos de negociação de pressão e controlo territorial.

A porta das dúvidas abre-se

O escândalo levanta questões sobre rivalidades internas dentro do aparelho dos EUA, à medida que a comunidade de inteligência norte-americana atravessa uma crise sem precedentes, com purgas de funcionários, despedimentos na NSA, DIA e FBI, restricções a relatórios que contradizem a linha oficial e uma crescente politização das agências. Neste contexto, a fuga de áudios que implicam directamente Trump, Netanyahu e operativos regionais poderia responder a disputas entre facções dos serviços secretos dos EUA. Alguns podem ver uma linha vermelha na aliança com actores questionados como Hernández, contra aqueles que priorizam o confronto geo-político com a China e a influência progressista na América Latina.

A questão central é quem divulgou e com que propósito. Se os áudios forem autênticos – como sugerem os peritos forenses – a sua publicação poderia tentar desmontar o plano antes da sua consolidação ou, alternativamente, expor as contradições de uma política externa que combate publicamente o tráfico de droga enquanto perdoa privadamente os seus principais beneficiários.

Por outro lado, a rivalidade entre Rubio e o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, pela sucessão da liderança republicana até 2028, acrescenta uma dimensão adicional, dado que a disputa pelo controlo da política latino-americana dentro da administração Trump pode estar a gerar fugas de informação que enfraquecem o rival.

Hondurasgate também mostra que o confronto contra a China na região é económico ou militar, mas inclui também a eliminação dos governos que mantêm relações com Pequim. Nos áudios, Asfura comenta que "os chineses estavam a licitar, mas não vamos ceder", revelando como a restauração do JOH faz parte de uma estratégia mais ampla de controlo geopolítico.

Outra questão que permanece é se as agências norte-americanas, que tradicionalmente monitorizam o crime organizado, irão tolerar que as suas próprias operações sejam confundidas com os interesses de oligarcas tecnológicos e operativos políticos cujo único capital é a violência e a corrupção.

Em todo o caso, o escândalo mostra como o sistema de poder em Washington, em aliança com actores internacionais como Israel e governos satélites da região, opera através de mecanismos extra-legais para sustentar a sua hegemonia.

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Fonte: Hondurasgate e a arquitetura opaca da dominação hemisférica | Missão Verdade

Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice




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