Do nosso correspondente na Póvoa de Varzim recebemos a interessante e elucidativa denúncia sobre a forma como os pequenos e médios horticultores são deixados ao abandono e conduzidos à ruína por políticas, que o actual governo prossegue de uma forma particularmente gravosa, de sujeição ao grande capital financeiro e aos interesses dos grandes grupos económicos estrangeiros na área agro-industrial.
Uma vez mais, horticultores da Póvoa de Varzim, principalmente de Amorim, mas também de Terroso, vêem a sua vida andar para trás. Não porque as forças da natureza sejam incontroláveis – que, com os meios e os conhecimentos de hoje, o são – mas porque o azar de ser vítima dessas forças, nesta sociedade, obriga à sujeição às boas graças do governo, pois que nada está garantido previamente.
A primeira pergunta que lhes fazem é se têm seguro, sabendo, de antemão, que o preço é incomportável para a dimensão e modo de produção das explorações, mesmo quando se trata de um seguro de grupo. Se a pergunta não vem de chofre, vem de insinuação. Trata-se de fazer funcionar o sistema da culpa: com “culpa” as exigências serão menores… pensam os “inventores” da sujeição.
Mas a verdade é que para além dos danos imediatos visíveis (estruturas, mecanismos, sistemas de rega, plásticos) existe o dano de ausência de rendimentos, por período mais ou menos longo por falta de
colheitas, apesar do trabalho redobrar durante todo esse período. Para que tudo fique claro convém dizer que as estruturas são amortizáveis em 20 anos (embora aqui não se considere a obsolescência, ou seja, que quando passaram os 20 anos, as velhas estruturas não podem ser substituídas por outras iguais porque estão tecnologicamente ultrapassadas) e os plásticos em 4 anos. Isto significa que, por exemplo, estufas destruídas no 9.º ano de vida (como foi um dos casos agora verificado), foram destruídos 3/5 do valor das estruturas (16€/m2) e a totalidade do valor dos plásticos (encontravam-se no 1.º ano do 3.º ciclo, a 4€/m2). Mas reconstruir estufas num lugar cheio de ferros torcidos, não é o mesmo que construir estufas de raiz em terreno limpo; primeiro é preciso remover os escombros e isso custa muito trabalho.
Portanto temos três grandes parcelas a considerar para o cálculo do prejuízo: o valor dos bens destruídos, o valor das receitas que não se vão fazer por ausência de colheitas e o valor do trabalho necessário para remover os escombros (o saldo entre os trabalhos de repor as condições iniciais e os trabalhos que se deixaram de fazer). Se a primeira parcela, no geral, é considerada, já as outras duas só com muita luta não são esquecidas.
Além disto, grande parte dos horticultores tem como capital inicial apenas a sua terra e a sua casa, ou seja, para fazerem as estufas tiveram que hipotecar todos os seus bens e assim estão obrigados à prestação mensal ao banco e os habituais juros usurários. Nos dias que correm, ou seja, em dias de capitalismo, o velho drama dos pequenos e médios agricultores encontra-se multiplicado: já não são só os maus anos que os escravizam pela dívida aos bancos, agora é a própria actividade que obriga a 2 ciclos sobrepostos de endividamento que a cada grande ciclo se agravam, um pequeno de 4 anos e outro grande de 20 anos (para não falar dos meios necessários a cada cultura). Muitos, como pelo menos um dos que viram este Sábado as suas estufas destruídas, têm de emigrar uma parte do ano, deixando a família a cuidar das culturas.
Uma pista: a investigação agrária na Holanda, apoiada directamente pelo Estado e com objectivos bem determinados, foi desenvolvida. Por cá, a pouca existente foi liquidada com especial apoio do Estado. Neste momento são as Universidades holandesas, com o apoio do governo português, que cá vêm vender licenciaturas e mestrados em várias áreas ligadas à agricultura em estufas aos estudantes portugueses mostrando como conseguem produzir tomate, pepino, pimento, etc. por metade do preço e o dobro da qualidade (dizem) dos nossos, e isso sem o nosso sol. Para além disso, Institutos holandeses de investigação agrária públicos e privados, e também com o apoio do mesmo governo português que deixa ao abandono os pequenos e médios agricultores, vêm vender apoio técnico directamente aos agricultores (claro, com estufas de premeio).
Este é o panorama: mesmo os sectores mais avançados para os quais as nossas condições naturais são as melhores (muito sol e água suficiente) estão cada vez mais atrasados, mas em vez de potenciar essas condições através do desenvolvimento das tecnologias avançadas, o governo de traição conclui o que os governos anteriores fizeram, oferecendo gratuitamente mais um mercado à ganância imperialista. Solução? Está boa de ver!
Retirado de:
http://lutapopularonline.org/index.php/correspondencia/606-povoa-de-varzim-a-ruina-dos-horticultores-e-a-sujeicao-das-potencialidades-agricolas-do-pais-a-ganancia-do-capital-estrangeiro
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