A França de Macron: milhares de milhões para armas, a
conta para os estudantes
11 de Agosto de 2026 Robert Bibeau
Por Khider Mesloub.
Há momentos em que um poder revela a sua verdadeira natureza, não através
dos seus discursos, mas sim através das suas decisões orçamentais. As
conferências de imprensa, as declarações sobre a «igualdade de oportunidades»,
o «investimento na juventude» ou a «excelência republicana» acabam por não ter
grande peso perante a brutalidade dos números. Pois um orçamento constitui
sempre a auto-biografia política de um governo. Ele revela, melhor do que
qualquer programa eleitoral, os interesses que pretende servir e as categorias
sociais a quem exige sacrifícios.
O poder macroniano acaba de dar uma demonstração flagrante disso. No espaço
de poucos dias, duas decisões — ou, mais exactamente, uma decisão já em curso e
um projecto agora assumido — traçam uma mesma orientação política. Por um lado,
o Estado desbloqueia várias dezenas de milhares de milhões de euros adicionais
para acelerar o rearmamento militar da França. Por outro lado, o governo
pondera abertamente aumentar as propinas universitárias para 900 euros na
licenciatura e 1 500 euros no mestrado.
Se este projecto fosse
adoptado, as propinas passariam de 170 € para 900 € na licenciatura, ou seja,
um aumento de mais de 429%, e para 1 500 € no mestrado, o que representa um
aumento de mais de 782%. Um aumento tão enorme das propinas seria um precedente
sem igual na história da universidade pública francesa. Uma ruptura histórica
com o modelo francês de acesso ao ensino superior. Estes dois assuntos poderiam
parecer sem relação, mas constituem na verdade os dois lados de uma mesma
política.
Austeridade para os estudantes, abundância para as forças armadas
Desde 2017, Emmanuel Macron não tem deixado de apresentar as restricções orçamentais como uma necessidade incontornável. As arcas estariam vazias. Os défices exigiriam sacrifícios. As despesas sociais deveriam ser contidas. As pensões reduzidas. Os hospitais racionalizados. As universidades convidadas a «diversificar os seus recursos». A austeridade ter-se-ía tornado uma lei natural, independente de qualquer vontade política.
No entanto, essa suposta fatalidade desaparece instantaneamente quando se
trata de despesas militares. Aí, de repente, ficam disponíveis dezenas de
milhares de milhões. As regras orçamentais deixam de ser obstáculos. A dívida
pública já não preocupa Macron e os seus colaboradores. As restricções
europeias parecem suspensas. O Estado recupera milagrosamente capacidades
financeiras que se declaravam impossíveis quando se tratava de contratar
professores, criar camas hospitalares ou melhorar as condições de estudo de
milhões de jovens.
Esta contradição não é, evidentemente, acidental. O macronismo não governa
ao acaso. Hierarquiza as despesas públicas segundo uma lógica precisa: o que
reforça o poder económico, financeiro e estratégico do Estado burguês beneficia
de prioridade absoluta; o que diz respeito à emancipação social, cultural ou
intelectual é remetido para os próprios indivíduos.
Assim, a juventude
francesa recebe uma mensagem de rara violência simbólica.
Para financiar os armamentos, a comunidade nacional é chamada a mobilizar dezenas de milhares de milhões de euros. Por outro lado, para financiar o ensino superior, seriam agora os estudantes e as suas famílias a ter de contribuir mais, mesmo que isso implique recorrer de forma generalizada ao endividamento, prolongar o período de reembolso ou desmotivar os jovens de origens populares a frequentar cursos mais longos. A universidade deixa então de ser vista como um investimento colectivo. Torna-se um custo individual.
A universidade obrigada a financiar-se a si própria
Já há vários anos que o «macronismo» vem transformando a universidade
francesa. O Parcoursup, o Mon Master, a maior autonomia financeira das
instituições, o desenvolvimento de parcerias com as empresas, a concorrência
entre os cursos: cada reforma segue uma lógica mercantil semelhante. A
universidade deixa de ser concebida como um serviço público nacional que
garante a igualdade de acesso ao conhecimento. Tende a tornar-se um
investimento individual cujo custo deve ser assumido, cada vez mais, pelo
próprio estudante.
Esta mudança constitui uma ruptura histórica.
Durante décadas, apesar de todas as suas imperfeições, o Estado-providência
francês tinha feito do acesso relativamente barato ao ensino superior um dos
pilares do seu modelo social. Actualmente, sob o efeito da desregulamentação
económica e do descomprometimento do Estado, a universidade tende a ser
concebida segundo uma lógica mercantil: cada estudante torna-se um cliente;
cada diploma, um investimento privado; cada instituição, uma empresa
encarregada de angariar os seus próprios recursos e de satisfazer as
expectativas do mundo económico.
Esta lógica acompanha
um movimento mais amplo que agora caracteriza a França contemporânea: a
crescente militarização das prioridades públicas. A guerra na Ucrânia, as
tensões internacionais e a competição estratégica entre grandes potências
servem hoje como justificação constante para um aumento contínuo das despesas
militares. A França quer manter o seu estatuto de potência militar mundial,
preservar a sua capacidade de intervenção no exterior, desenvolver a sua
indústria de defesa e reforçar a sua autonomia estratégica europeia.
O rearmamento torna-se a grande causa governamental
A França imperialista já não se contenta em modernizar o seu exército. Está a reorganizar todas as suas prioridades orçamentais em função dos imperativos estratégicos. As leis de programação militar atingem montantes sem precedentes. Desde a chegada de Emmanuel Macron ao poder, o orçamento anual das forças armadas passou de 32,7 mil milhões de euros em 2017 para 57,1 mil milhões em 2026, o que representa um aumento de 24,4 mil milhões de euros por ano (+75 %). Poucas políticas públicas terão registado um aumento orçamental desta magnitude.
Mais ainda: depois de ter aumentado o orçamento anual das forças armadas de 32 mil milhões de euros em 2017 para 57 mil milhões em 2026, o governo de Macron já prevê 76,3 mil milhões em 2030. Nos debates estratégicos e parlamentares, o limiar dos 100 mil milhões de euros anuais é agora abertamente referido como a próxima etapa do rearmamento francês. Nada parece agora capaz de travar a escalada das despesas militares, tal como a escalada do discurso belicista do governo de Macron. Ao aumentar, em poucas semanas, a lei de programação militar de 413 para 449 mil milhões de euros — ou seja, um acréscimo de 36 mil milhões de euros —, o governo de Macron demonstrou que, quando as prioridades são militares, o dinheiro público deixa subitamente de faltar. A indústria da defesa está a tornar-se um dos sectores mais apoiados pela burguesia francesa. Os grupos do sector do armamento beneficiam de investimentos consideráveis. A guerra, ou pelo menos a sua preparação permanente, impõe-se como um dos principais motores das finanças públicas do governo de Macron.
O orçamento militar explode, a universidade implode
Assim, enquanto os fabricantes de armamento vêem as suas carteiras de
encomendas a encher-se graças aos créditos públicos, os estudantes poderão em breve
ser chamados a financiar ainda mais os seus próprios estudos. Enquanto as
fábricas de armamento beneficiam de investimentos maciços, diz-se às
universidades que terão de procurar financiamento privado, desenvolver os
empréstimos para estudantes ou aumentar as propinas. O contraste é
impressionante. Por um lado, o Estado capitalista abre generosamente a carteira
para rearmar maciçamente a França. Por outro, apresenta a conta à juventude
estudantil.
Esta escolha surge precisamente quando as universidades francesas
denunciam, há anos, a falta crónica de recursos, a precariedade dos
docentes-investigadores, a degradação dos edifícios, a insuficiência da
capacidade de acolhimento e a explosão da precariedade estudantil. A
contradição é flagrante. Em França, falta dinheiro para as salas de aula, mas
nunca para os arsenais.
Faltam fundos para as bibliotecas, mas nunca para os mísseis. Falta para os
laboratórios universitários, mas nunca para os programas de armamento. Esta
hierarquia orçamental não é apenas financeira; é profundamente ideológica.
Revela a França que o poder macroniano está a construir: uma França onde o
investimento no poder militar se torna prioritário, enquanto o acesso ao
conhecimento tende a estar sujeito a critérios de rentabilidade económica e de
selecção pelo dinheiro. O dinheiro público existe. A única questão é a da sua
afectação. O poder macroniano responde hoje com uma clareza brutal: a
prioridade já não é a emancipação intelectual da juventude francesa; é agora o
reforço do aparelho militar. Cada mil milhões adicional dedicado ao armamento é
um milhar de milhões que não poderá ser destinado a outras políticas públicas.
As escolhas orçamentais nunca são neutras. Expressam sempre uma hierarquia
política. O governo de Macron afirma assim que o futuro da França passa, em
primeiro lugar, pelo reforço do seu poder militar, pela fuga para a frente no
militarismo e pela economia de guerra.
É claro que é
necessário distinguir estas duas situações. O aumento do orçamento militar já
está em curso. O aumento das propinas universitárias, por seu lado, ainda não
foi aprovado e permanece na fase de projecto, analisado num relatório entregue
ao governo. Mas a multiplicação de tais relatórios não é de forma alguma
insignificante. As grandes reformas começam frequentemente com estudos,
consultas e experiências destinadas a preparar a opinião pública antes da sua
implementação.
O «macronismo» revela-se, assim, fiel à sua coerência liberal e militarista. Não reduz globalmente as despesas públicas; redistribui-as. Retira recursos às políticas sociais, educativas e universitárias para reforçar outras funções do Estado consideradas estratégicas: a segurança, a defesa, a competitividade económica e o apoio aos sectores industriais militares considerados prioritários. Por trás dos números delineia-se, portanto, uma verdadeira escolha de sociedade.
Juventude francesa forçada a pagar duas vezes
O governo de Macron arranja várias dezenas de milhar de milhões de euros
para acelerar o rearmamento da França, mas, ao mesmo tempo, prevê aumentar
drasticamente o custo do acesso à universidade. A mensagem dirigida à juventude
francesa é clara: para Macron e os seus acólitos, as armas constituem agora um
investimento prioritário; o conhecimento torna-se uma mercadoria pela qual
todos devem pagar um preço elevado. Para além dos montantes em jogo, é esta
inversão de prioridades que constitui a característica mais reveladora do
governo de Macron. Os orçamentos dizem sempre a verdade sobre os governos. Ao
consagrar dezenas de milhares de milhões adicionais ao rearmamento, ao mesmo
tempo que prepara um aumento sem precedentes das propinas universitárias, o
macronismo revela a sua verdadeira hierarquia de prioridades: o poder militar
antes da emancipação através do conhecimento.
Por trás das reformas técnicas, dos relatórios administrativos e das
decisões orçamentais, delineia-se uma nova filosofia do Estado francês: um
Estado cada vez mais generoso quando se trata de financiar o poder militar,
cada vez mais exigente quando se trata de financiar os direitos sociais e cada
vez mais disposto a transferir para os estudantes o custo da sua própria
educação.
Os orçamentos dizem sempre a verdade que os discursos procuram esconder. E
a da França de Macron conta uma história inequívoca: a de uma potência que
investe mais nos meios para fazer a guerra do que nas condições que permitem à
sua juventude construir o seu futuro.
"Temos de aceitar perder os nossos filhos" (nas guerras), disse
recentemente o General Fabien Mandon. Esta frase resume a lógica que acompanha
a militarização da França contemporânea: pedir aos jovens que paguem duas
vezes, primeiro nos bancos das universidades, pagando propinas proibitivas e,
depois, como a guerra iminente obriga, nos campos de batalha, pelo imposto de
sangue.
Khider MESLOUB
Fonte: La France de Macron : des milliards pour les armes, la facture pour les étudiants – les 7 du quebec
Este artigo foi traduzido para Língua Portuguesa por Luis Júdice

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